Marte, 06 de
dezembro de 2460 EC,ou 511 após a Revolução Maoísta.
Freando sua
espaçonave, Yang finalmente chega a Marte.
À distância, ele
vê o famoso planeta vermelho. Orbitando ao seu redor, ele vê as luas de Fobos e
Deimos. Elas eram relativamente pequenas e, diferente do formato esférico da
Lua da Terra, as luas de Marte eram de formatos irregulares. Cientistas
acreditam que, na verdade, elas são asteroides capturadas pelo campo
gravitacional marciano.
Marte, por sua
vez, tinha um aspecto fascinante. Yang contempla sua coloração alaranjada e vermelha.
Aquilo era devido ao óxido de ferro, ou hematita, predominante em sua
superfície. Ao contrário dos gigantes gasosos, era um planeta com superfície
terrestre, e o segundo menor do Sistema Solar. Um dia em Marte era semelhante ao
da Terra, com 24,6 horas. Entretanto, o ano solar era mais longo, com 687 dias
terrestres.
O planeta
vermelho tem metade do diâmetro da Terra, é menos denso, tendo cerca de 15% o
seu volume e 11% de sua massa. Devido a essa densidade, a aceleração da
gravidade é de apenas 38% da que se observa na Terra.
A superfície lhe
parecia homogênea de cima. Yang vê fendas geográficas, estendendo-se ao lado de
crateras, desfiladeiros e vales. Características geológicas sugerem que Marte
já teve mares e oceanos, mas que desapareceram devido a alguns cataclismos.
Água líquida não pode existir naturalmente naquele planeta, pois sua pressão
atmosférica é muito baixa, sendo cerca de 100 vezes mais fraca que a da Terra.
Todavia, o piloto vê calotas polares de água congelada no planeta. No colégio, Yang
ouviu que se a água congelada no polo sul de Marte fosse derretida, a água
líquida seria suficiente para cobrir toda sua superfície a uma profundidade de
11 metros.
A voz no
comunicador quebra sua distração.
“Piloto Haisheng,
está na escuta?”.
- Estou aqui, Li
Fen.
“A metrópole marciana não está nos respondendo. Inclusive estamos perdendo contato
com todas as colônias chinesas pelo Sistema Solar. Seu estado atual
é desconhecido”.
- Você acha que
eu encontrarei resistência?
“É provável. A
metrópole conta com defesas antiaéreas, no caso de invasão estrangeira. Se eles
estiverem sob lockdown[1],
os antiaéreos poderão te atacar”.
- Outro
antiaéreo...? – lamenta-se ele.
“Prossiga com
cuidado. Câmbio e desligo”.
- Entendido.
Obrigado, Li Fen.
O Alto Comando
lhe dirige as coordenadas; Yang deveria passar pela metrópole marciana de Zhurong.
A metrópole
recebeu esse nome em homenagem ao primeiro rover[2]
lançado em Marte pela Administração Espacial Nacional da China (CNSA). O
lançamento do Zhurong fez parte da missão espacial Tiānwèn-1, significando “Perguntas Celestiais”, dedicada à
exploração interplanetária. A missão foi um sucesso, sendo responsável por colocar uma
sonda em órbita e um rover em solo marciano.
A missão começou
em 23 de julho de 2020, usando um veículo de lançamento de carga pesada Longa
Marcha 5. Após uma viagem de sete meses, a espaçonave entrou na órbita de Marte
no dia 10 de fevereiro de 2021. A sonda espacial então estudou os locais para
aterrissagem, a partir da órbita de reconhecimento. Foram necessários três meses
de estudo e, no dia 14 de maio de 2021, a sonda é lançada e pousa suavemente maquele planeta.
Zhurong é uma
referência ao “deus do fogo” no folclore chinês. O termo está associado
geralmente ao fogo e à luz, já que Marte é chamado de "o Planeta do
Fogo" na China. O nome foi selecionado por uma votação online pública, realizada entre 20 de janeiro de 2021 e 28 de fevereiro de 2021, com Zhurong
ocupando o primeiro lugar com 504.466 votos. O nome foi escolhido com o
significado de "acender o fogo da exploração interestelar na China, e
simbolizar a determinação do povo chinês em explorar as estrelas e descobrir o
desconhecido no universo".
§
Entrando em
órbita, o Wénzi desce pela atmosfera marciana. De fato, o planeta era mais
avermelhado apenas no lado de fora, pois ao entrar Yang percebe que sua
atmosfera era mais clara e com coloração mais suave, lembrando um entardecer na Terra.
Voando pelo céu,
Yang percebe como aquele era um planeta rochoso; haviam rochas por toda parte.
Mas a predominância era daquela poeira fina e leve, semelhante à farinha de
trigo. Ventanias e redemoinhos varriam a superfície, provocando um zunido
pacífico e livre da intervenção humana.
Enquanto avança,
poeira se ajunta no para-brisa e o vento trepida a fuselagem. O ar atmosférico
era tóxico, composto de dióxido de carbono e sem nenhum oxigênio. Era como se o
planeta fosse uma câmara de veneno. Sua temperatura era fria, chegando aos 6°C.
No inverno era mais baixa ainda, chegando aos -73°C. Como a Terra, Marte tinha
estações.
Aquele era um planeta morto e esteve assim
por milhões de anos. Yang se sente em um planeta sarcófago, onde o sepultado
era a própria vida.
- Entrando no
espaço aéreo de Zhurong, senhor. – informa Navcom.
A metrópole de
Zhurong se aproxima. O piloto se alivia, pois a sufocante sensação de desolação
lhe causava angústia.
Os prédios de
Zhurong eram circulares e brancos, semelhantes aos antigos módulos
interplanetários. Yang nota como havia uma camada fina de poeira sobre eles,
como um véu. Os estranhos prédios eram conectados por vias tubulares,
projetadas para pedestres e veículos leves. Os prédios se elevavam por, no
mínimo, quinze andares e, sobre seus terraços, haviam painéis solares. Alguns
prédios eram tão largos que se assemelhavam a domos.
No lado de fora,
o piloto vê linhas de trem, que se estendiam por todos os distritos. Alguns distritos estavam
próximos e outros distantes, indo para além das montanhas e vales.
A cidade se
estendia pelo horizonte, ora nas encostas das montanhas e à beira dos vales.
Navcom lhe informa que ela tinha um milhão e meio de habitantes, um número
expressivo para uma cidade fora da Terra. Como um todo, era uma metrópole organizada
e futurista, mas isolada e solitária no meio daquele planeta morto.
Yang se aproxima
da praça principal. Ali ele vê um monumento do rover chinês que deu nome à
cidade: Zhurong. O monumento tinha dez vezes seu tamanho original e estava
coberto de poeira. Apenas com trajes especiais os habitantes podiam
contempla-lo de perto.
- Navcom,
estabeleça contato com a administração de Zhurong, por favor.
- Afirmativo, senhor.
Alguns minutos
depois, o Navcom responde.
- Transferindo a
gravação do governo de Zhurong.
“Aqui é o
governador de Zhurong. Por medida de segurança, a cidade se encontra sob
lockdown. Soubemos dos ataques na Terra e da invasão de um inimigo
desconhecido. A cidade ficará sob a proteção dos sistemas de defesa antiaérea e
toda a comunicação com o exterior ficará cortada até o fim das hostilidades na
Terra. Câmbio e desligo”.
Então a mensagem começa
novamente, repetindo-se sem parar. Aquela era uma mensagem automática, o
governo de Zhurong se isolou da Terra, bloqueando seu sinal e preservando a
vida de seus habitantes.
De repente um
tiro é disparado e um míssil se explode diante do Wénzi. Yang se assusta. Mais tiros são ouvidos e se estouram muito
próximo, liberando fragmentos e uma fumaça preta. Ele reconhece aquele tiro. São
canhões Flak[3].
Agora muito mais
modernos e avançados do que seus originais alemães, o Flak servia tanto para
defesa antiaérea como uma arma antitanque. Ele foi projetado com uma potência capaz
de penetrar na blindagem de veículos inimigos.
Yang se esquiva
facilmente dos tiros, mas os fragmentos se espirram contra o Wénzi. O sopro era
tão forte que provocava estalos na fuselagem; Yang teme ter seu para-brisa
rachado.
Manobrando sua
nave, ele seleciona seus mísseis teleguiados e se prepara para contra-atacar.
Então a voz no
comunicador diz:
“Piloto Haisheng,
pare!”.
Ele se intriga.
- Li Fen? O que
houve?
“Você não está
autorizado a danificar prédios e instalações em Zhurong. Sua missão é alcançar
a colônia israelense e coletar o novo armamento”.
Checando o
monitor, Yang vê que a colônia se encontrava no outro lado da cidade.
- Então eu devo
cruzar 30 km no céu, sob o fogo de artilharia antiaérea, em um planeta inóspito,
sem revidar?
“Ordens do Alto Comando”, reitera ela. “O Almirante Yaping recuperou o remanescente da Frota Espacial em Tiangong. Ele cuidará disso”.
- Eles vão
bombardear a cidade?
Li fen não
responde.
Enquanto conversam,
sua nave treme com o som de explosões no lado de fora.
Então Li fen diz:
“Piloto Haisheng,
o Alto Comando emitiu novas ordens. A antena principal das torres de
transmissão de Zhurong teve mal funcionamento, provavelmente devido a uma
tempestade de areia. O computador da antena está bloqueando o sinal, impedindo
a comunicação da cidade com o espaço exterior. Você deve destruí-la”.
Navcom então
recebe as novas coordenadas.
“Mas devo
alertá-lo que as torres de transmissão contam com expressiva defesa antiaérea.
Segurança nacional”.
Yang entende o
que ela quer dizer. A China protegia as bases de seu império pelo Sistema
Solar.
- Entendido, Li
Fen. Câmbio e desligo”.
Manobrando o
Wénzi, Yang parte para seu novo objetivo.
No hostil céu de
Marte, o piloto atravessa a cidade. Ele olha para baixo; no terraço dos prédios
os canhões atiravam, ameaçando abatê-lo. Yang vê o rastro do míssil subindo até
sua posição e então explodindo-se próximo à sua nave, liberando os fragmentos
que pouco a pouco a danificavam.
Navcom diz:
- Escudos a 84%.
Dezenas de tiros
sobem para abatê-lo. Apesar de não ser difícil evita-los, Yang se preocupa.
Zunidos são
ouvidos atrás dele. Olhando para o céu, o piloto vê uma esquadria de
espaçonaves se aproximando; elas voavam em uma formação em V. Era a frota de
Yaping.
“Piloto Haisheng!
Aqui é o capitão da divisão marciana. Somos da Frota Espacial”.
- Como vai,
capitão?
“Você deve seguir
para o seu novo objetivo. Quanto aos antiaéreos de Zhurong, nós assumimos
daqui”.
Assentindo, ele
responde:
- Afirmativo,
capitão. Câmbio e desligo”.
Detectando o novo
inimigo, os canhões se movem e atiram contra eles, aliviando o Wénzi. Assim, o
piloto vê sua oportunidade e se afasta dali.
Aproximando-se de
seu objetivo, ele vê as torres de transmissão. Aquele era um complexo de
torres. O complexo ficava no topo de uma colina e tinha três colossais antenas
em forma de prato. Abaixo, pela extensão das torres, ele vê centenas de antenas
menores. Luzes vermelhas piscam em suas pontas, dando a impressão de que aquele
emaranhando de aço e cabos era um organismo vivo, sobrevivendo ali.
As defesas
antiaéreas detectam o Wénzi. Luzes giratórias se acendem e ele ouve alarmes. De
repente canhões se desacoplam ao redor da estrutura e apontam para ele. Yang se
assusta; haviam mais de cem.
- Eles são
muitos...! – impressiona-se ele.
De forma ordenada,
os canhões atiram. Enquanto uma linha se recarregava, outra atirava, fazendo
turnos. Aqueles mísseis voam em sua direção e se explodem, espirrando os
perigosos fragmentos que trituravam sua nave.
O Wénzi se
estremece, drenando seus escudos. Navcom o alerta constantemente.
- Escudos a 80%.
- Escudos a 78%
- Escudos a 71%.
Cada explosão
soltava uma fumaça preta, encobrindo a visão do piloto. Mesmo os tremores
estavam desconcentrando-o.
Yang precisava
agir.
Manobrando o
Wénzi, ele o afasta da zona de perigo.
- Navcom,
selecionar o canhão Estrela da Manhã.
Retornando com
cuidado, o piloto olha para o complexo e atira.
O laser teve
pouquíssima eficácia. O Estrela da Manhã foi projetado para ser utilizado em
ambientes fechados, com paredes sólidas. A céu aberto, o laser avança pelo céu
e desaparece. Ao bater no chão arenoso, ele perde potência e é absorvido, não
conseguindo se ricochetear.
Ao selecionar a
metralhadora Vulcan, ele atira. Os projéteis atingem o alvo, mas causam pouco
dano. O corpo metálico dos canhões conseguia defletir os tiros.
Yang tinha a
opção das bombas cluster de fósforo branco, mas sobrevoar o complexo de antenas,
com os antiaéreos ainda ativos, seria suicídio. Ele pensa em selecionar o mini
canhão Yu Huang, mas o poderoso laser só seria eficiente contra a matéria
orgânica ou em partes sensíveis da estrutura, como passagens de energia e
combustíveis.
Ao redor do
complexo, Yang escolhe a opção mais óbvia: os mísseis teleguiados.
Figuras
geométricas aparecem no para-brisa. Quando os alvos estão travados, o piloto
aperta o gatilho.
Para o seu
espanto, os mísseis tem pouca eficiência no ataque. Alguns conseguem destruir
seus alvos, mas outros são abatidos no ar, tendo sua trajetória obstruída pelos
fragmentos dos antiaéreos.
- Li Fen!
Solicitando a nave de reabastecimento!
Alguns segundos
depois, sua assistente responde:
“Nave de
reabastecimento em cinco minutos. Sugiro elevar sua altitude para sair do
alcance dos antiaéreos”.
Mas Yang era
ousado. Ele não ia desperdiçar cinco minutos esperando. Ele ia usar aquele
tempo, no máximo de suas habilidades, para cumprir o seu objetivo.
Voltando ao
complexo, ele se aproxima perigosamente dos canhões. As explosões trepidam e
danificam sua nave, mas ele se esquiva com tremenda habilidade. Ao travarem os
alvos, ele rapidamente atira. Os mísseis são disparados e destroem mais alguns
canhões, aliviando o espaço aéreo.
Sobrevoando
novamente, ele repete o processo. Mais alvos são destruídos.
Yang poderia
fazer isso mais vezes, mas a um custo muito alto. Os escudos do Wénzi se
drenavam e, com o abate dos seus mísseis no ar, poucos alvos eram destruídos e
logo seu estoque se esgotaria.
Um sinal é
emitido em seu para-brisa. A nave de reabastecimento chegara.
Acoplando-se ao
Wénzi, a nave recarrega seu escudo e troca seu arsenal. Yang troca os mísseis
teleguiados pelos poderosos Mísseis Macro.
- Um presente de
Yaping. – sussurra ele para si mesmo.
A recarga
termina. Antes de ir embora, a nave de reabastecimento emite sua peculiar voz
robótica:
- Instalação de
armas finalizada. Boa sorte.
Yang conduz o
Wénzi de volta ao complexo de antenas. Selecionando os Mísseis Macro, ele mira
nas fileiras de antiaéreo e atira.
Os mísseis saem
fumegantes pelo céu marciano. Ao atingirem os alvos, Yang se paralisa; ele assiste
atônito a assombrosa explosão. A chama multiplicava-se diante de seus olhos,
aumentando de tamanho e espalhando-se pelo chão.
Os antiaéreos são
destruídos. Os canhões que sobram se retorcem e ficam inoperantes. A munição
queima no subterrâneo e explosões são ouvidas, abalando a estrutura das torres.
Mas a batalha ainda não estava vencida.
Outros canhões
ainda o atacavam. Esquivando-se, Yang atira e se afasta. A explosão provoca uma
onda de choque tão grande que se alastra pela metrópole marciana, levantando
poeira e fumaça.
Alguns canhões ainda
restavam, mas danificados como estavam, ofereciam pouca ameaça ao piloto. Yang
os sobrevoa e, selecionando suas bombas cluster, ele aperta o gatilho. As
bombas caem sobre o alvo e se estouram, liberando o terrível fósforo branco que
corrói o aço.
O complexo ardia
em chamas. O computador bloqueando o sinal agora estava exposto, sem defesas e vulnerável
a um ataque. Yang aproveita sua chance.
Não querendo
esperar mais, ele decide testar na prática o poder de fogo do mini canhão Yu
Huang.
- Imperador de
Jade, não me decepcione.
Selecionando-o,
ele se posiciona diante das três torres. As luzes das enormes antenas não mais piscavam
e os grossos cabos soltavam faíscas; tudo estava arruinado. O abrigo do
computador ficava na base da segunda torre. Preparando-se, ele respira fundo e
aperta o gatilho.
Algo não sai como
o esperado. Ele aperta o gatilho, mas nada acontece. Ao invés, uma barra surge
no para-brisa digital, indicando carga. Yang não entende, o mini canhão parece
necessitar de um tempo para se carregar.
O piloto pensa
haver um mal funcionamento. Enquanto checa os painéis de status da nave, algo
acontece. O disparo finalmente se realiza.
O laser avança
pelo ar. Menos de um segundo depois, o calor intenso derrete toda a estrutura
metálica e tudo se explode, ruindo as torres e derrubando as enormes antenas em
forma de pratos.
Yang se espanta.
O raio é tão potente que muda de aspecto; a fina espessura inicial torna-se
grossa e ilumina tudo com sua cor amarelada. De tão quente, o aço mal teve
tempo de derreter; o efeito foi tão imediato que tudo se ruiu sobre si mesmo,
como se fosse um golpe de adaga direto ao coração.
O complexo de
antenas estava destruído. Navcom imediatamente começa a captar mensagens de
socorro vindas de Zhurong; a metrópole não estava mais isolada em um planeta
estranho. Yang a libertou.
Missão cumprida.
[1]
Termo em inglês. Bloqueio imposto pelo Estado ou ação judicial que restringe a
circulação de pessoas em áreas e vias públicas, incluindo o fechamento de
fronteiras. As atividades liberadas são apenas para serviços essenciais.
[2] Rover
é o nome dado a um veículo de exploração espacial que se desloca na superfície
de planetas ou outros corpos celestes. Eles são projetados para coletar dados
sobre o terreno, como amostras de solo, rochas, poeira e líquidos.
[3] Flak
é uma contração alemã com dois significados: Fliegerabwehrkanone ou
Flugabwehrkanone, que traduzidos significam Canhão de Defesa Antiaérea.


