quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Shenzhou Wénzi - 12 - Marte

 


Marte, 06 de dezembro de 2460 EC,ou 511 após a Revolução Maoísta.

Freando sua espaçonave, Yang finalmente chega a Marte.

À distância, ele vê o famoso planeta vermelho. Orbitando ao seu redor, ele vê as luas de Fobos e Deimos. Elas eram relativamente pequenas e, diferente do formato esférico da Lua da Terra, as luas de Marte eram de formatos irregulares. Cientistas acreditam que, na verdade, elas são asteroides capturadas pelo campo gravitacional marciano.  

Marte, por sua vez, tinha um aspecto fascinante. Yang contempla sua coloração alaranjada e vermelha. Aquilo era devido ao óxido de ferro, ou hematita, predominante em sua superfície. Ao contrário dos gigantes gasosos, era um planeta com superfície terrestre, e o segundo menor do Sistema Solar. Um dia em Marte era semelhante ao da Terra, com 24,6 horas. Entretanto, o ano solar era mais longo, com 687 dias terrestres.

O planeta vermelho tem metade do diâmetro da Terra, é menos denso, tendo cerca de 15% o seu volume e 11% de sua massa. Devido a essa densidade, a aceleração da gravidade é de apenas 38% da que se observa na Terra. 

A superfície lhe parecia homogênea de cima. Yang vê fendas geográficas, estendendo-se ao lado de crateras, desfiladeiros e vales. Características geológicas sugerem que Marte já teve mares e oceanos, mas que desapareceram devido a alguns cataclismos. Água líquida não pode existir naturalmente naquele planeta, pois sua pressão atmosférica é muito baixa, sendo cerca de 100 vezes mais fraca que a da Terra. Todavia, o piloto vê calotas polares de água congelada no planeta. No colégio, Yang ouviu que se a água congelada no polo sul de Marte fosse derretida, a água líquida seria suficiente para cobrir toda sua superfície a uma profundidade de 11 metros.

A voz no comunicador quebra sua distração.

“Piloto Haisheng, está na escuta?”.

- Estou aqui, Li Fen.

“A metrópole marciana não está nos respondendo. Inclusive estamos perdendo contato com todas as colônias chinesas pelo Sistema Solar. Seu estado atual é desconhecido”.

- Você acha que eu encontrarei resistência?

“É provável. A metrópole conta com defesas antiaéreas, no caso de invasão estrangeira. Se eles estiverem sob lockdown[1], os antiaéreos poderão te atacar”.

- Outro antiaéreo...? – lamenta-se ele.

“Prossiga com cuidado. Câmbio e desligo”.

- Entendido. Obrigado, Li Fen.

O Alto Comando lhe dirige as coordenadas; Yang deveria passar pela metrópole marciana de Zhurong.

A metrópole recebeu esse nome em homenagem ao primeiro rover[2] lançado em Marte pela Administração Espacial Nacional da China (CNSA). O lançamento do Zhurong fez parte da missão espacial Tiānwèn-1, significando “Perguntas Celestiais”, dedicada à exploração interplanetária. A missão foi um sucesso, sendo responsável por colocar uma sonda em órbita e um rover em solo marciano.

A missão começou em 23 de julho de 2020, usando um veículo de lançamento de carga pesada Longa Marcha 5. Após uma viagem de sete meses, a espaçonave entrou na órbita de Marte no dia 10 de fevereiro de 2021. A sonda espacial então estudou os locais para aterrissagem, a partir da órbita de reconhecimento. Foram necessários três meses de estudo e, no dia 14 de maio de 2021, a sonda é lançada e pousa suavemente maquele planeta. 

Zhurong é uma referência ao “deus do fogo” no folclore chinês. O termo está associado geralmente ao fogo e à luz, já que Marte é chamado de "o Planeta do Fogo" na China. O nome foi selecionado por uma votação online pública, realizada entre 20 de janeiro de 2021 e 28 de fevereiro de 2021, com Zhurong ocupando o primeiro lugar com 504.466 votos. O nome foi escolhido com o significado de "acender o fogo da exploração interestelar na China, e simbolizar a determinação do povo chinês em explorar as estrelas e descobrir o desconhecido no universo".

 

§

 

Entrando em órbita, o Wénzi desce pela atmosfera marciana. De fato, o planeta era mais avermelhado apenas no lado de fora, pois ao entrar Yang percebe que sua atmosfera era mais clara e com coloração mais suave, lembrando um entardecer na Terra.

Voando pelo céu, Yang percebe como aquele era um planeta rochoso; haviam rochas por toda parte. Mas a predominância era daquela poeira fina e leve, semelhante à farinha de trigo. Ventanias e redemoinhos varriam a superfície, provocando um zunido pacífico e livre da intervenção humana.

Enquanto avança, poeira se ajunta no para-brisa e o vento trepida a fuselagem. O ar atmosférico era tóxico, composto de dióxido de carbono e sem nenhum oxigênio. Era como se o planeta fosse uma câmara de veneno. Sua temperatura era fria, chegando aos 6°C. No inverno era mais baixa ainda, chegando aos -73°C. Como a Terra, Marte tinha estações. 

  Aquele era um planeta morto e esteve assim por milhões de anos. Yang se sente em um planeta sarcófago, onde o sepultado era a própria vida.

- Entrando no espaço aéreo de Zhurong, senhor. – informa Navcom.

A metrópole de Zhurong se aproxima. O piloto se alivia, pois a sufocante sensação de desolação lhe causava angústia.

Os prédios de Zhurong eram circulares e brancos, semelhantes aos antigos módulos interplanetários. Yang nota como havia uma camada fina de poeira sobre eles, como um véu. Os estranhos prédios eram conectados por vias tubulares, projetadas para pedestres e veículos leves. Os prédios se elevavam por, no mínimo, quinze andares e, sobre seus terraços, haviam painéis solares. Alguns prédios eram tão largos que se assemelhavam a domos.

No lado de fora, o piloto vê linhas de trem, que se estendiam por todos os distritos. Alguns distritos estavam próximos e outros distantes, indo para além das montanhas e vales.

A cidade se estendia pelo horizonte, ora nas encostas das montanhas e à beira dos vales. Navcom lhe informa que ela tinha um milhão e meio de habitantes, um número expressivo para uma cidade fora da Terra. Como um todo, era uma metrópole organizada e futurista, mas isolada e solitária no meio daquele planeta morto.

Yang se aproxima da praça principal. Ali ele vê um monumento do rover chinês que deu nome à cidade: Zhurong. O monumento tinha dez vezes seu tamanho original e estava coberto de poeira. Apenas com trajes especiais os habitantes podiam contempla-lo de perto.

- Navcom, estabeleça contato com a administração de Zhurong, por favor.

- Afirmativo, senhor.

Alguns minutos depois, o Navcom responde.

- Transferindo a gravação do governo de Zhurong.

“Aqui é o governador de Zhurong. Por medida de segurança, a cidade se encontra sob lockdown. Soubemos dos ataques na Terra e da invasão de um inimigo desconhecido. A cidade ficará sob a proteção dos sistemas de defesa antiaérea e toda a comunicação com o exterior ficará cortada até o fim das hostilidades na Terra. Câmbio e desligo”.

Então a mensagem começa novamente, repetindo-se sem parar. Aquela era uma mensagem automática, o governo de Zhurong se isolou da Terra, bloqueando seu sinal e preservando a vida de seus habitantes.

De repente um tiro é disparado e um míssil se explode diante do Wénzi. Yang se assusta.  Mais tiros são ouvidos e se estouram muito próximo, liberando fragmentos e uma fumaça preta. Ele reconhece aquele tiro. São canhões Flak[3].

Agora muito mais modernos e avançados do que seus originais alemães, o Flak servia tanto para defesa antiaérea como uma arma antitanque. Ele foi projetado com uma potência capaz de penetrar na blindagem de veículos inimigos.

Yang se esquiva facilmente dos tiros, mas os fragmentos se espirram contra o Wénzi. O sopro era tão forte que provocava estalos na fuselagem; Yang teme ter seu para-brisa rachado.

Manobrando sua nave, ele seleciona seus mísseis teleguiados e se prepara para contra-atacar.

Então a voz no comunicador diz:

“Piloto Haisheng, pare!”.

Ele se intriga.

- Li Fen? O que houve?

“Você não está autorizado a danificar prédios e instalações em Zhurong. Sua missão é alcançar a colônia israelense e coletar o novo armamento”.

Checando o monitor, Yang vê que a colônia se encontrava no outro lado da cidade.

- Então eu devo cruzar 30 km no céu, sob o fogo de artilharia antiaérea, em um planeta inóspito, sem revidar?

“Ordens do Alto Comando”, reitera ela. “O Almirante Yaping recuperou o remanescente da Frota Espacial em Tiangong. Ele cuidará disso”.  

- Eles vão bombardear a cidade?

Li fen não responde.

Enquanto conversam, sua nave treme com o som de explosões no lado de fora.

Então Li fen diz:

“Piloto Haisheng, o Alto Comando emitiu novas ordens. A antena principal das torres de transmissão de Zhurong teve mal funcionamento, provavelmente devido a uma tempestade de areia. O computador da antena está bloqueando o sinal, impedindo a comunicação da cidade com o espaço exterior. Você deve destruí-la”.

Navcom então recebe as novas coordenadas.

“Mas devo alertá-lo que as torres de transmissão contam com expressiva defesa antiaérea. Segurança nacional”.

Yang entende o que ela quer dizer. A China protegia as bases de seu império pelo Sistema Solar.

- Entendido, Li Fen. Câmbio e desligo”. 

Manobrando o Wénzi, Yang parte para seu novo objetivo.

No hostil céu de Marte, o piloto atravessa a cidade. Ele olha para baixo; no terraço dos prédios os canhões atiravam, ameaçando abatê-lo. Yang vê o rastro do míssil subindo até sua posição e então explodindo-se próximo à sua nave, liberando os fragmentos que pouco a pouco a danificavam.

Navcom diz:

- Escudos a 84%.

Dezenas de tiros sobem para abatê-lo. Apesar de não ser difícil evita-los, Yang se preocupa.

Zunidos são ouvidos atrás dele. Olhando para o céu, o piloto vê uma esquadria de espaçonaves se aproximando; elas voavam em uma formação em V. Era a frota de Yaping.

“Piloto Haisheng! Aqui é o capitão da divisão marciana. Somos da Frota Espacial”.

- Como vai, capitão?

“Você deve seguir para o seu novo objetivo. Quanto aos antiaéreos de Zhurong, nós assumimos daqui”.

Assentindo, ele responde:

- Afirmativo, capitão. Câmbio e desligo”.

Detectando o novo inimigo, os canhões se movem e atiram contra eles, aliviando o Wénzi. Assim, o piloto vê sua oportunidade e se afasta dali.

Aproximando-se de seu objetivo, ele vê as torres de transmissão. Aquele era um complexo de torres. O complexo ficava no topo de uma colina e tinha três colossais antenas em forma de prato. Abaixo, pela extensão das torres, ele vê centenas de antenas menores. Luzes vermelhas piscam em suas pontas, dando a impressão de que aquele emaranhando de aço e cabos era um organismo vivo, sobrevivendo ali.

As defesas antiaéreas detectam o Wénzi. Luzes giratórias se acendem e ele ouve alarmes. De repente canhões se desacoplam ao redor da estrutura e apontam para ele. Yang se assusta; haviam mais de cem.

- Eles são muitos...! – impressiona-se ele.

De forma ordenada, os canhões atiram. Enquanto uma linha se recarregava, outra atirava, fazendo turnos. Aqueles mísseis voam em sua direção e se explodem, espirrando os perigosos fragmentos que trituravam sua nave.

O Wénzi se estremece, drenando seus escudos. Navcom o alerta constantemente.

- Escudos a 80%.

- Escudos a 78%

- Escudos a 71%.

Cada explosão soltava uma fumaça preta, encobrindo a visão do piloto. Mesmo os tremores estavam desconcentrando-o.

Yang precisava agir.

Manobrando o Wénzi, ele o afasta da zona de perigo.

- Navcom, selecionar o canhão Estrela da Manhã.

Retornando com cuidado, o piloto olha para o complexo e atira.

O laser teve pouquíssima eficácia. O Estrela da Manhã foi projetado para ser utilizado em ambientes fechados, com paredes sólidas. A céu aberto, o laser avança pelo céu e desaparece. Ao bater no chão arenoso, ele perde potência e é absorvido, não conseguindo se ricochetear.

Ao selecionar a metralhadora Vulcan, ele atira. Os projéteis atingem o alvo, mas causam pouco dano. O corpo metálico dos canhões conseguia defletir os tiros.

Yang tinha a opção das bombas cluster de fósforo branco, mas sobrevoar o complexo de antenas, com os antiaéreos ainda ativos, seria suicídio. Ele pensa em selecionar o mini canhão Yu Huang, mas o poderoso laser só seria eficiente contra a matéria orgânica ou em partes sensíveis da estrutura, como passagens de energia e combustíveis.

Ao redor do complexo, Yang escolhe a opção mais óbvia: os mísseis teleguiados.

Figuras geométricas aparecem no para-brisa. Quando os alvos estão travados, o piloto aperta o gatilho.

Para o seu espanto, os mísseis tem pouca eficiência no ataque. Alguns conseguem destruir seus alvos, mas outros são abatidos no ar, tendo sua trajetória obstruída pelos fragmentos dos antiaéreos.

- Li Fen! Solicitando a nave de reabastecimento!

Alguns segundos depois, sua assistente responde:

“Nave de reabastecimento em cinco minutos. Sugiro elevar sua altitude para sair do alcance dos antiaéreos”.       

Mas Yang era ousado. Ele não ia desperdiçar cinco minutos esperando. Ele ia usar aquele tempo, no máximo de suas habilidades, para cumprir o seu objetivo.

Voltando ao complexo, ele se aproxima perigosamente dos canhões. As explosões trepidam e danificam sua nave, mas ele se esquiva com tremenda habilidade. Ao travarem os alvos, ele rapidamente atira. Os mísseis são disparados e destroem mais alguns canhões, aliviando o espaço aéreo.

Sobrevoando novamente, ele repete o processo. Mais alvos são destruídos.

Yang poderia fazer isso mais vezes, mas a um custo muito alto. Os escudos do Wénzi se drenavam e, com o abate dos seus mísseis no ar, poucos alvos eram destruídos e logo seu estoque se esgotaria.

Um sinal é emitido em seu para-brisa. A nave de reabastecimento chegara.

Acoplando-se ao Wénzi, a nave recarrega seu escudo e troca seu arsenal. Yang troca os mísseis teleguiados pelos poderosos Mísseis Macro.

- Um presente de Yaping. – sussurra ele para si mesmo.

A recarga termina. Antes de ir embora, a nave de reabastecimento emite sua peculiar voz robótica:

- Instalação de armas finalizada. Boa sorte.

Yang conduz o Wénzi de volta ao complexo de antenas. Selecionando os Mísseis Macro, ele mira nas fileiras de antiaéreo e atira.

Os mísseis saem fumegantes pelo céu marciano. Ao atingirem os alvos, Yang se paralisa; ele assiste atônito a assombrosa explosão. A chama multiplicava-se diante de seus olhos, aumentando de tamanho e espalhando-se pelo chão.

Os antiaéreos são destruídos. Os canhões que sobram se retorcem e ficam inoperantes. A munição queima no subterrâneo e explosões são ouvidas, abalando a estrutura das torres. Mas a batalha ainda não estava vencida.

Outros canhões ainda o atacavam. Esquivando-se, Yang atira e se afasta. A explosão provoca uma onda de choque tão grande que se alastra pela metrópole marciana, levantando poeira e fumaça.

Alguns canhões ainda restavam, mas danificados como estavam, ofereciam pouca ameaça ao piloto. Yang os sobrevoa e, selecionando suas bombas cluster, ele aperta o gatilho. As bombas caem sobre o alvo e se estouram, liberando o terrível fósforo branco que corrói o aço.      

O complexo ardia em chamas. O computador bloqueando o sinal agora estava exposto, sem defesas e vulnerável a um ataque. Yang aproveita sua chance.

Não querendo esperar mais, ele decide testar na prática o poder de fogo do mini canhão Yu Huang.

- Imperador de Jade, não me decepcione.

Selecionando-o, ele se posiciona diante das três torres. As luzes das enormes antenas não mais piscavam e os grossos cabos soltavam faíscas; tudo estava arruinado. O abrigo do computador ficava na base da segunda torre. Preparando-se, ele respira fundo e aperta o gatilho.

Algo não sai como o esperado. Ele aperta o gatilho, mas nada acontece. Ao invés, uma barra surge no para-brisa digital, indicando carga. Yang não entende, o mini canhão parece necessitar de um tempo para se carregar.

O piloto pensa haver um mal funcionamento. Enquanto checa os painéis de status da nave, algo acontece. O disparo finalmente se realiza.

O laser avança pelo ar. Menos de um segundo depois, o calor intenso derrete toda a estrutura metálica e tudo se explode, ruindo as torres e derrubando as enormes antenas em forma de pratos.

Yang se espanta. O raio é tão potente que muda de aspecto; a fina espessura inicial torna-se grossa e ilumina tudo com sua cor amarelada. De tão quente, o aço mal teve tempo de derreter; o efeito foi tão imediato que tudo se ruiu sobre si mesmo, como se fosse um golpe de adaga direto ao coração.    

O complexo de antenas estava destruído. Navcom imediatamente começa a captar mensagens de socorro vindas de Zhurong; a metrópole não estava mais isolada em um planeta estranho. Yang a libertou.

Missão cumprida.

 

 



[1] Termo em inglês. Bloqueio imposto pelo Estado ou ação judicial que restringe a circulação de pessoas em áreas e vias públicas, incluindo o fechamento de fronteiras. As atividades liberadas são apenas para serviços essenciais.

[2] Rover é o nome dado a um veículo de exploração espacial que se desloca na superfície de planetas ou outros corpos celestes. Eles são projetados para coletar dados sobre o terreno, como amostras de solo, rochas, poeira e líquidos.

[3] Flak é uma contração alemã com dois significados: Fliegerabwehrkanone ou Flugabwehrkanone, que traduzidos significam Canhão de Defesa Antiaérea.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Shenzhou Wénzi - 11 - Fé

 


(Arte de Michel Stoquart)


Yang descansa.

Sentado na cama, ele passa a mão nos olhos e enxuga o suor de sua testa. A invasão estava desgastando-o. Olhando ao redor, ele observa o pequeno compartimento em que se encontra; era um dormitório muito confortável, reservado à alta patente. O piloto não era de alta patente, mas naquele momento toda a tripulação lhe era grata aos seus esforços.

Vestindo seu capacete, ele diz:

- Li Fen, pode me ouvir?

Alguns segundos depois, a garota responde:

“Afirmativo”.

- Como está a missão? O Alto Comando foi informado sobre a situação em Tiangong?

“Sim. O almirante Yaping nos enviou um relatório descrevendo a situação atual. O Alto Comando está satisfeito. Peço que aguarde por novas instruções”.

Li Fen falava em tom formal com ele, sem demonstrar amizade ou preocupação. Ele ainda estava ressentido com o que ela dissera horas atrás; sua assistente o culpa por coisas além de seu alcance. Mas, afastando esses pensamentos, ele decide deixá-la em paz.

Um barulho é ouvido. Caminhando pelos corredores, ele se dirige ao laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento.

Engenheiros vestidos com luvas e toucas brancas trabalham na câmara de testes. Yang vê um protótipo sobre a mesa. Ele se aproxima para ver melhor e então alguém atrás dele diz:

- É melhor se afastar.

Virando-se, ele vê o almirante Yaping.

Levando-o para uma barreira de proteção, Yaping pede para ele observar.

Yang nota que é um canhão leve, de pequeno porte, conectado por tubos e cabos elétricos, parecido com um motor dos obsoletos carros a combustão. Em seguida um laser amarelo é disparado, avançando em um raio concentrado e direto. O piloto já viu aquela coloração antes; era o do próprio Yu Huang. O laser atinge alvos de aço e plástico na parede e os fulmina, carbonizando-os em um piscar de olhos. Os engenheiros sorriem, satisfeitos.

Em seguida o canhão é levado pela câmara de testes. Yang se reencontra com o Shenzhou Wénzi; sua nave estava sendo restaurada, tendo seus reparos feitos pelos técnicos e engenheiros de Tiangong. As soldas dos técnicos soltam faíscas e toda a fuselagem é restaurada. Os engenheiros acoplam a tecnologia nova no bordo inferior do Wénzi e conectam seus fios ao sistema de navegação do Navcom.

Yaping diz:

- Tendo 15 vezes a mais a potência do laser Estrela da Manhã, o mini canhão Yu Huang será muito útil para combater os enxames. Mas lembre-se de seu tempo de resfriamento para não superaquecer o canhão. – alerta ele – Use-o para conter a invasão, se é que ela ainda pode ser contida.

O piloto nota a falta de fé no almirante, mas não diz nada.

Uma hora depois, os reparos no Wénzi chegam ao fim. O acoplamento do mini canhão já está concluído e os engenheiros estão na cabine, eles estão configurando o software que reconhecerá a presença do novo laser no Navcom.

A ameaça dos sistemas de segurança foi neutralizada. Agora as torretas combatiam os enxames lá fora. O setor de Pesquisa e Desenvolvimento estava fortemente protegido e, desta maneira, Yang se sente em segurança.

Distraído, Yang apenas deixa o tempo passar.

Mas de repente algo acontece.

Um tremor fortíssimo percorre toda a estação, apagando as luzes e fazendo-o se desequilibrar. Alertas soam pelo setor. Apreensivos, Yang e os cientistas se abaixam, tentando se proteger.

Contatando o setor de comunicações, o almirante pergunta:

- Mas o que foi isso?!

“Transmitindo as imagens de segurança, senhor”.

Monitores se acendem e todos podem ver.

Explosões partem o casco e uma ruptura é feita no exterior de Tiangong. Da fumaça, a ponta de uma aeronave gigante atravessa o casco. Então todos veem, paralisados, a chegada de cruzadores espaciais idênticos aos da invasão de Shangai.    

Após o primeiro, mais e mais cruzadores invadem. Com a ruptura no casco, nada podia ser feito para repeli-los.

Em seguida os cruzadores liberam uma onda incontável de enxames. De tão numerosas, era como se eles estivessem vendo nuvens negras pelo espaço. O inimigo então segue para pulverizar as zonas habitacionais abaixo. Estava iniciado o extermínio.

Outro tremor é sentido, reverberando pela estação. Desta vez não foi uma ruptura no casco, mas algo pior.

O gerador de gravidade artificial é afetado, e de repente eles flutuam no ar. Os braços perpendiculares que atravessam o eixo da estação, produzindo a centrifugação, deixam de girar. As plataformas que percorrem o eixo também cessam o funcionamento, parando pela trajetória.    

O almirante não sabe o que fazer. A frota espacial chinesa já estava esgotada com a primeira invasão. Com a segunda onda, ela seria dizimada em minutos. Vendo os enxames voando por toda parte, Yaping pensa ver uma praga de gafanhotos. Nem mesmo as torretas conseguiam impor resistência. Os pilotos eram gradualmente abatidos. Estava selado o seu destino.

Tiangong mergulhava no caos.

- Senhor, temos que ir!

Yaping olha para o lado e vê um soldado falando com ele.

- O quê?! Eu não posso deixar Tiangong. Eu sou o almirante!

Como um capitão, o almirante se recusa a deixar o seu navio.

- Ordens do Alto Comando, senhor!

 Contrariado, ele é forçado a acatar.

Yang está confuso e também não sabe o que fazer. Então uma voz em seu comunicador diz:

“Piloto Haisheng, aqui é Li Fen. O Alto Comando ordenou que você deixe Tiangong. Eu repito, deixe Tiangong agora”.

O piloto responde:

- Não! Eu vou ficar e defender a estação!

Sua assistente não lhe dá resposta.

Procurando o Wénzi, ele o encontra próximo ao hangar. A nave estava com a cabine aberta; os engenheiros haviam fugido. Ele então tateia pela gravidade zero e adentra a nave.

O Wénzi havia sido consertado e os painéis estavam funcionais; os engenheiros haviam concluído o serviço. Apertando um botão, a cabine começa a se fechar.

- Piloto Haisheng! O que está fazendo?

O almirante falava com ele no lado de fora.

- Vou combater os enxames, senhor!

- Eles são muitos! Nós devemos deixar Tiangong! Ordens do Alto Comando!

- Mas, senhor...

- Eu sei! – interrompe ele – Eu sei...!

Ambos lançam olhares pesarosos um ao outro. Eles eram soldados, bons soldados, e fiéis à sua nação. Mas naquele momento a insubordinação percorria seus espíritos.

Yang e a Ponte de Comando são obrigados a fugir. A tripulação adentra as naves de fuga e Yang conduz o Wénzi para fora do hangar.

Mas outra coisa acontece.

O canhão Yu Huang se ativa sozinho; os alienígenas ainda combatiam pela cyber warfare. Apesar dos danos, o reator se regenerara e estava operacional. O canhão se carrega 100%. O desespero domina os técnicos e engenheiros; ele não podia ser desligado.

E então o laser é disparado. Para o horror de todos, ele aponta para Shangai.

 

§

 

Do espaço, Yang e a tripulação da Ponte de Comando conseguem ver.

A cidade é devastada lá embaixo. O poderoso laser a fulmina, com uma potência semelhante a 3 megatons.

Em lágrimas, Yang percebe. Sua cidade natal não existia mais.

De repente mais explosões são vistas do espaço. Ogivas nucleares são detonadas na superfície, provocando um forte clarão. A detonação é tão poderosa que arrasam cidades inteiras, dando a Yang a impressão de sentir o planeta todo tremer.

Ao todo, cerca de vinte detonações ocorrem na China. O Alto Comando liberou o lançamento dos mísseis balísticos Dongfeng, como retaliação ao ataque alienígena. Milhões morreram. De fato, os políticos do Zhongananhai não estavam blefando.

O piloto tenta se convencer de que, com o avanço sem resistência do inimigo, esse número vertiginoso de vítimas seria inevitável. O governo apenas escolheu o menor dos males.

Mais tarde, a tripulação de Tiangong se junta à frota do Alto Comando.

Na sala de guerra, todos se reúnem. O almirante Yaping se apresenta ao ministro da defesa, o almirante da marinha, o marechal do exército e o almirante da aeronáutica. O presidente os observa na outra ponta da mesa. Yang e Li Fen também estavam presentes, mas em locais discretos e longe da vista.

Yaping relata a situação. Tiangong já estava sendo tomada pelos enxames muito antes da chegada do Shenzhou Wénzi. Com um vírus nas redes, eles foram isolados de se comunicarem com a Terra.

Mais tarde, o casco da estação foi rompido e cruzadores a invadiram. Com a liberação dos enxames, tudo se perdeu.

- Mesmo se o Alto Comando não ordenasse, nós seríamos obrigados a deixar Tiangong. – conclui ele.

- E quanto ao Yu Huang? Como aquilo foi acontecer? – pergunta o presidente.

- Aquilo foi um efeito colateral e esperado da própria invasão. O inimigo já estava tentando ativá-lo desde a sua chegada. Com a estação sob seu controle, eles finalmente conseguiram ativar o armamento.

Os militares ponderam.

Prosseguindo, os operadores exibem as imagens da invasão.

A invasão atinge escala interplanetária. Não apenas a Terra era atacada; colônias e planetas também eram atacados por todo o Sistema Solar.

Ainda na Terra, aliados chineses também caíam sob o inimigo. Países como Irã, Coreia do Norte e Rússia eram conquistados sucessivamente. O continente africano caiu sem resistência alguma. Na sala de guerra, todos viam suas esperanças se desfalecerem. As chances da China vencer eram quase nulas.  

O almirante da Marinha sugere:

- Nós podíamos resistir a partir do mar, com ataques de navios e submarinos.

- Não. O inimigo também pode mergulhar suas aeronaves na água, e emergi-las novamente no céu. Nem mesmo os submarinos nucleares poderiam se esconder. Não teríamos chance. – discorda o ministro.

- E quanto ao Exército? Nós temos o maior exército do mundo. Eles não podem combater o inimigo em terra? – pergunta o presidente.

- O Exército está esgotado e tem pouquíssima eficácia contra o inimigo aéreo. Os enxames são rápidos e disparam bombas em diferentes trajetórias. Tanques e canhões antiaéreos são lentos demais para combatê-los.

- E quanto a Força Aérea?

O almirante da Força Aérea é o mais realista de todos.

- Nossos pilotos e aeronaves foram absolutamente humilhados. A aeronave mais avançada não é párea para eles. Drones também não. Todos foram abatidos no ar. Esquadrilhas e brigadas inteiras foram dizimadas. Eu não tenho mais aviões lá embaixo. Na verdade, eu estou considerando uma rendição.

Ao falar aquilo, todos se espantam. Então eles começam a murmurar essa hipótese. Todos falam o que já sabem. Aquilo não era mais uma invasão, era uma conquista.

- Como pode considerar isso? – interrompe o presidente – O destino da China está em jogo aqui! Se a China cair, toda a ordem mundial chinesa se desfalecerá!

O presidente se preocupa. Ao proporem rendição, ele temia por sua própria vida.

O ministro da defesa diz:

- A Marinha não tem vantagem contra o inimigo. O Exército não tem eficácia. A Força Aérea caiu. Inclusive a Frota Espacial se perdeu. – conclui ele, olhando para Yaping – Não tenho mais nada. Todos os recursos disponíveis se foram.

O presidente tenta forçar uma solução.

- O senhor é o Ministro da Defesa da República Popular da China! A segurança nacional está em suas mãos! O senhor tem que ter algo!

Pesaroso, o ministro abre as mãos e pergunta:

- Senhor presidente, e o que mais eu posso ter?!

- Tenha fé!

O Alto Comando se assusta. Todos se entreolham, procurando o autor daquela voz.

Para a surpresa dos dirigentes, quem falara era Yang.

- O que foi que disse?

- O senhor ministro deve ter fé. – reitera ele – Quantas vezes no passado a China caiu? Contra os mongóis, contra os ingleses, contra os japoneses, contra os próprios chineses durante as guerras civis...? – pergunta ele, referindo-se ao período republicano e a revolução maoísta – E não nos reerguemos novamente, mais fortes do que nunca?

O alto escalão reflete a respeito, concordando com ele.

O piloto continua:

- Sim, as Forças Armadas caíram, mas talvez as nossas armas não fossem as mais adequadas para combater o inimigo. Ele veio do espaço, de outro planeta ou galáxia, ainda não podemos dizer. Sua tecnologia é alienígena. Nossas armas foram feitas para combater inimigos humanos, da própria Terra. Se quisermos combater os alienígenas, precisamos pensar como os alienígenas.

- O que você quer dizer?

- Precisamos de armas eficazes contra o inimigo, e também de veículos semelhantes aos dos inimigos. – e então ele estufa o peito e conclui – Proponho a produção em larga escala do Shenzhou Wénzi.

Todos arregalam os olhos.

Um silêncio incômodo se levanta no ambiente.

 Um dos conselheiros do presidente sussurra algo em seu ouvido. Então ele diz:

- Nossos parques industriais foram tomados pelos enxames. Nas colônias interplanetárias é inviável sua produção por falta de obra prima. O que propõe não pode ser realizado.

- Talvez haja outra solução, senhor.

Desta vez todos olham para outra pessoa. Era Yaping.

- E qual seria, almirante?  

- Agentes do Guójiā Ānquán Bù[1]nos enviaram um relatório recentemente. Eles informaram que há um novo armamento sendo desenvolvido em Marte. Ele encontra-se na colônia interplanetária de Israel, um kibutz marciano nos arredores da base chinesa. – revela ele – Talvez o armamento seja eficaz contra os enxames.

O ministro da defesa complementa:

- Exato. Não apenas os israelenses, mas várias outras colônias têm armamentos em desenvolvimento pelo Sistema Solar. Reconheço que não conseguimos produzir mais espaçonaves, mas podemos adquirir para ela mais armas.

O presidente pensa um pouco. Mas em seguida ele ri.

- Estão dizendo que pretendem armar apenas uma nave, uma minúscula nave, para conter uma invasão alienígena inteira no Sistema Solar?

O ministro responde:

- Senhor presidente, o Shenzhou Wénzi combateu nos céus de Shangai, no subterrâneo de Pequim e em órbita em Tiangong. A nave superou as expectativas, comprovando o seu valor. E ela não fez isso sozinha, pois o experiente piloto Yang Haisheng a pilotou. Eles nunca falharam em sua missão.

O presidente se intriga.

- Então nossas esperanças estão em um protótipo e em um jogador de tênis de mesa?

Yang se ofende. Então ele ousadamente responde:

- Não em um simples jogador de tênis de mesa, senhor. Mas em um campeão olímpico. Sim, a China me deu todos os meios para eu treinar e me tornar um jogador, mas o torneio quem venceu foi apenas eu. Ninguém segurava a raquete comigo. E se eu sozinho pude vencer os melhores jogadores do mundo, então por que não esse inimigo?

Todos admiram a corajosa resposta de Yang. Atrás dele, Li fen se emciona com sua ousadia.

O presidente finalmente aceita.

- Pois façam como quiserem. O que mais temos a perder?

A reunião prossegue. Primeiramente o Alto Comando decide deixar o presidente em segurança. Sob a orientação de Yaping, eles optam por deixa-lo na colônia de Mercúrio.

O Alto Comando decide coletar as novas tecnologias pelo Sistema Solar. Os armamentos serão úteis ao Wénzi.

Por fim, Yang já tem seu novo destino e sua nova missão.

E então estava encerrada a reunião.

 

§

 

Horas mais tarde, todos se preparam para partir.

Separando-se do Alto Comando, uma pequena frota acompanha a nave presidencial para a colônia de Mercúrio, onde ele ficará em segurança.

O presidente parte para a colônia e o Alto Comando se dirige para Marte.

Yang veste seu uniforme e coloca seu capacete. Checando seu equipamento, ele conecta seu cinto. Estava tudo pronto.

Ele partiria na frente, em velocidade máxima rumo à colônia marciana. Não havia tempo a perder. Cada minuto perdido era pago com vidas humanas.

O piloto então parte para sua nova missão, adquirir o armamento israelense em Marte.

 

 



[1] “Ministério de Segurança do Estado” em chinês mandarim. É a principal agência de segurança da República Popular da China, responsável pela Inteligência, contraespionagem e a segurança política do Partido Comunista Chinês.   

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Shenzhou Wénzi - 10 - O Imperador de Jade


(Arte de Antarik Fox)

 

Torretas rotativas se elevam do prédio da Ponte de Comando. Detectando o Wénzi no ar, eles se se giram e atiram contra ele.

Lembrando-se que ele ainda tinha os mísseis utilizados em Shangai, ele diz:

- Navcom, ativar os mísseis teleguiados!

- Mísseis ativados, Yang.

Então figuras geométricas aparecem no para-brisa do Wénzi; os alvos foram identificados e travados. Yang aperta o gatilho e uma dezena de mísseis são lançados, voando contra as torretas e destruindo uma a uma.

Há mais torretas pelo caminho. O piloto atira e as pulveriza com os mísseis, formando um nuvem estática de detrito e fumaça em gravidade zero.

Passando pelos espaços adjacentes, Yang avista a área de pouso; ela estava protegida por uma barreira Kinect. Ele pousa facilmente o Wénzi e taikonautas vêm ao seu encontro. Eles acoplando um tanque de oxigênio em seu traje e o conduzem rapidamente para dentro do prédio; ainda havia uma invasão lá fora.

Em uma antecâmara, a gravidade é restabelecida e Yang sente seu corpo pesar. As portas selantes se abrem e eles adentram o local. Um grupo de soldados com fardas esverdeadas o aguarda. No meio deles, um homem mais velho, com um belo uniforme militar branco o aguarda também.

Batendo continência, o homem de branco diz:

- Olá, Piloto Haisheng. Eu sou o Almirante Yaping. Prazer em conhece-lo.

O almirante lhe estende a mão e Yang o cumprimenta.

- Olá, Almirante! O prazer é todo meu.    

- Sua missão ainda está em andamento, não? Creio que não trará boas notícias para o Alto Comando.

Yang ia responde-lo quando sente o tremor de uma explosão.

O piloto diz:

- Almirante, nós temos que repelir essa invasão. Estamos com o presidente na frota do Alto Comando. A China está sendo tomada. Achávamos que Tiangong era seguro para o presidente vir.

Com um sorriso de desgosto, o almirante pergunta:

- Achavam...?

Dando um sinal aos soldados, ele pede que Yang o acompanhe.

- Antes de eu lhe reportar a situação atual, deixe-me ser um bom anfitrião. – pede ele – Vou lhe mostrar algumas curiosidades sobre a minha estação.

Com passos apressados, o almirante o leva por salas e corredores. Yang vê escritórios, salas de servidores e de comunicações; todas as paredes eram brancas e haviam decorações com a bandeira da China. De fato, aquele era o prédio administrativo de Tiangong.

Avançando, eles entram em outra ala e a aparência muda drasticamente.  

Yang vê laboratórios com monitores, radares e protótipos de armamentos. As paredes eram escuras e haviam números pintados no alto, indicando os compartimentos. Yang vê soldados treinando e pensa estar perto dos alojamentos militares.

Uma porta dupla se desliza lateralmente. O piloto se vê em um vasto salão com uma espécie de monumento em seu centro. Ele se aproxima e reconhece o icônico módulo do Tiangong-1, lançado ao espaço em 28 de setembro de 2011.

- Reconhece este componente?

Boquiaberto, Yang responde:

- É claro que sim...

- Lançado em 2011, ele foi projetado para ser tirado de órbita em 2013, mas permaneceu até 2 de abril de 2018. – revela ele – Em 11 de junho de 2013, houve a segunda expedição ao espaço; a China lança sua famosa espaçonave, o Shenzhou 10. – olhando para Yang, ele pergunta – Qual é o número de sua Shenzhou, tenente?

Lembrando-se, ele responde:

- É 800, senhor.

Todos se espantam.

- Como o tempo passa, não? – pergunta ele, ao ver a semelhante reação de todos.

Andando ao redor, ele lhe aponta um módulo.

- Esta é a espaçonave Shenzhou 10, a mesma que pousou em Tiangong-1 em 2011.

Yang a observa e vê muita semelhança entre o primeiro componente de Tiangong e a espaçonave da segunda expedição.

O almirante continua:

- Na tripulação do Shenzhou 10 incluía a segunda taikonauta mulher enviada ao espaço. Wang Yaping, uma assistente de laboratório, era o seu nome. Yaping era piloto da Força Aérea e subiu de patente até se tornar capitã. Mais tarde, ela se tornaria a segunda mulher chinesa a ir ao espaço, a primeira sendo Liu Yang. Entretanto, Wang foi a primeira taikonauta mulher a realizar o spacewalk[1].

O piloto vê fotos de taikonautas nos primeiros módulos do Tiangong.

- Fascinante...

Olhando para Yang, o almirante revela:

- Eu sou descendente direto da taikonauta Wang Yaping; ela é minha ancestral.

Yang arregala os olhos. Isso explica o mesmo nome.

Chamando-o até uma janela, o almirante lhe indica algo.

- Está vendo aquele cilindro?

O piloto vê uma estrutura circular no centro de toda a circunferência colossal de Tiangong. Em sua extremidade ele vê um compartimento maior, com acesso permitido apenas aos militares.

- Sim, senhor.

- Aquele é o canhão Yu Huang Shang-ti, ou o “Imperador de Jade” para o Ocidente.

Yang se espanta. O lendário canhão tem o comprimento de toda a estação Tiangong. O cilindro que ele vê é o cano da gigantesca arma, e o compartimento na extremidade o reator onde o disparo se carrega, como se fossem o cano e o tambor de um revólver.

- É inacreditável...!

- Por uma questão de segurança nacional, a contraespionagem chinesa ocultou a localização do Yu Huang e espalhou falsas evidências de que ele foi desmontado e enviado a diferentes lugares do Sistema Solar. Mas isso não é verdade. Ele está bem aqui, compondo o centro de toda a estrutura que sustenta Tiangong.

O piloto entende. O governo da China escondeu sua mais poderosa arma do resto do mundo, mas ela continuava bem ali, debaixo do nariz de todos.

- A carga laser é gerada na extremidade. Os fótons são gerados quimicamente. É um raio químico.    

Yang admira o brilhante trabalho da engenharia militar.

- Yu Huang está operacional? – pergunta ele.

Yaping muda de semblante.

- Sim. – lamenta-se ele – E o inimigo está tentando ativá-lo. – o almirante informa – O inimigo destruiu nossas antenas e satélites, cortando nossas comunicações e nos isolando da Terra. Mas nem toda comunicação foi perdida.

Eles deixam o salão com as relíquias espaciais. Subindo as escadas, eles se dirigem para a Ponte de Comando. Yang vê monitores e radares; seus operadores trabalham arduamente para restabelecer a comunicação com a Terra. Yaping lhe indica uma sala escura e o piloto vê uma mesa iluminada no meio.

Apertando alguns botões, o almirante liga a mesa e hologramas aparecem. Yang reconhece a Terra, Tiangong e todo o Sistema Solar.

- Do espaço, nossos radares detectaram esses enxames em todo o Sistema Solar. Aparentemente a invasão ocorre em diversas colônias e planetas. – diz ele enquanto os hologramas se aumentam e se diminuem.

- Isso é terrível...! – lamenta-se Yang, sentindo a esperança se desfalecer.

- O único local seguro agora é a colônia próxima de Mercúrio. Aparentemente os alienígenas não se interessaram em ataca-la.

O holograma se aproxima e Yang vê uma pequena colônia de 2 mil habitantes. Lá eles trabalham com pesquisa científica e fontes de energia a base de raios solares.

O almirante continua:

- Eu tenho algo que talvez o interesse. Nossos cientistas estavam desenvolvendo uma nova arma, um mini raio Yu Huang capaz de ser acoplado em espaçonaves. A tecnologia está mantida no setor de Pesquisa e Desenvolvimento, mas seu acesso foi selado pelo sistema de segurança. É também nesse laboratório que se encontra o painel de controle dos sistemas de segurança de Tiangong. Se ele for desligado, nossas torretas param de atacar a frota chinesa.

- Mas o sistema de segurança foi corrompido. Os alienígenas nos atacaram com guerra cibernética.

- Exato. – afirma ele – Mas ainda há um jeito de acessá-lo.   

Os hologramas na mesa se apagam e outros surgem em seu lugar. Yang reconhece o cilindro do canhão Yu Huang e o reator em sua extremidade. Ele enxerga centenas de torretas em seu entorno. Aproximar-se significa suicídio.

- O reator foi selado por portas ultra resistentes, uma medida de segurança para prevenir invasão e roubo de tecnologia. Apenas por dentro do cilindro pode-se chegar ao setor e abrir as portas.

Yang se espanta.

- Está dizendo que devemos avançar por dentro de um canhão ativo?!

Com um sorriso enigmático, o almirante responde:

- Não, Piloto Haisheng. Nós não. Apenas você.

 

§

 

Meia hora depois, Yang está de volta na cabine do Shenzhou Wénzi. Ele se alimenta com barras de chocolate e comida de taikonauta. Então o comunicador diz:

“Piloto Haisheng, não se preocupe com sua missão. Nossos operadores conseguiram contatar o Alto Comando e já informamos a situação. E quanto ao Wénzi, nós deixamos um presente”. 

- Presente...?

“Nossos engenheiros substituíram os mísseis teleguiados de seu arsenal. Agora o Wénzi está equipado com os Mísseis Macro”.

Checando o painel, Yang seleciona o novo armamento. Ele sente o robusto míssil se deslocar debaixo da fuselagem.

“Os Mísseis Macro são poderosos e causam uma grande onda de devastação. Eles foram projetados para serem usados no espaço. Mas você deve usá-los com cuidado. Fique longe de sua área de explosão, senão a onda de choque poderá danificar sua nave”.

- Entendido.

“Você deve partir agora. Nós, da Estação Espacial Tiangong, estamos contando com você. Boa sorte”.

Fechando o visor de seu capacete, ele responde:

- Obrigado, Almirante Yaping.

Em seguida Yang levanta voo e deixa a Ponte de Comando.

No para-brisa do Wénzi aparecem as coordenadas. A entrada do canhão Yu Huang está na outra extremidade de seu comprimento, como esperado. Sem perder tempo, ele se posiciona e ativa a velocidade máxima, dirigindo-se ao seu objetivo.

Os enxames continuam destruindo Tiangong. Yang vê corpos flutuando livremente entre os detritos da estação. Virando o rosto, ele controla a dor. Nada podia ser feito pelos sobreviventes agora.

O piloto chega à extremidade do canhão. Ele vê uma circunferência aberta e a escuridão adentro. Destruindo algumas torretas, Yang manobra e entra no extenso túnel. Uma sensação incômoda o perturba; ele se sente entrando no cano de um revólver, mas o revólver era um milhão de vezes maior que o seu tamanho normal. 

Ligando os faróis, Yang enxerga o interior do túnel. Ele se lembra da rota de fuga de Pequim; um trajeto longo e escuro, mas com a diferença de que em Tiangong ele estava em gravidade zero.

Após alguns metros, Yang vê uma luz no fim do túnel. Ele se confunde.

“Piloto Haisheng! Responda-me! Por favor, responda-me!”.

Era Yaping. Preocupado, ele responde:

- Almirante, eu estou aqui! O que foi?

“O hackeamento alienígena conseguiu ativar o canhão! Saia já daí!”.

Yang sente seu sangue gelar.

Aquela luz se aproxima e passa por ele. Movendo os manches, ele se esquiva por um triz.

- Escudos a 78%. – informa Navcom.

Yang se atordoa. A luz amarela era rápida e emitia um calor altíssimo. Era como se fosse um mini sol ferindo-o com seu clarão.

Novamente a luz aparece e passa por ele. Yang se desvia a tempo, mas a manobra rápida e o calor o atordoam.

“Piloto Haisheng! Você está bem?”.

- Sim, almirante! Mas o inimigo está disparando raios!

“Não é exatamente o inimigo, é o sistema de segurança corrompido! O inimigo conseguiu ativar o canhão, mas com pouca potência! Você deve alcançar o gerador na outra extremidade e desliga-lo imediatamente, senão os alienígenas terão o Yu Huang 100% carregado e pronto para atacar a Terra!”.

O piloto se assombra. Se aquilo acontecesse, a humanidade estaria à beira da extinção.

- Entendido, senhor! Não permitirei que isso aconteça! Câmbio e desligo”.

Yang avança pelo túnel. Mais raios avançam contra ele, mas não são capazes de abatê-lo. O Wénzi era ágil demais.

O túnel finalmente termina e revela a outra extremidade do canhão. O piloto se vê em um amplo salão iluminado por um enorme reator de energia. Placas de aço se movem ao redor do reator, e haviam quatro gigantescos capacitores próximos. A luz emitida pelo núcleo dançava nas paredes, obstruídas pelas placas de aço que projetavam sinistras sombras no ambiente.

Yang não vê enxames em lugar algum; o vírus alienígena fez o estrago à distância. Yu Huang estava fora de controle. A luz do reator era intensa, mas instável, e as placas ao redor se moviam freneticamente. Mesmo os capacitores pareciam perigosamente sobrecarregados.

Os sistemas de segurança detectam o Wénzi. Semelhante a uma descarga elétrica, os capacitores disparam um raio contra ele. O piloto mal teve tempo de se desviar novamente; os raios eram rápidos demais.

- Escudo a 67%.

O mero calor estava afetando sua nave. Yang precisava agir.

“Piloto Haisheng! Você deve atirar no núcleo do reator! Elimine a fonte de energia antes que o inimigo consiga torna-lo operacional!”.

O piloto seleciona o laser Estrela da Manhã e atira. Para o seu horror, o laser não estava fazendo dano algum. Ao contrário, ele era bloqueado pelas placas de aço, ricocheteando pelas paredes e retornando perigosamente contra o Wénzi.  

Yang tenta novamente.     

Selecionando as metralhadoras Vulcan, ele aperta o gatilho. Aqueles projéteis só eram eficazes contra os enxames, mas contra sólidas placas de aço eram inúteis.

Mais uma descarga dos capacitores. Desta vez Wénzi é atingido em cheio. A nave treme. O tranco é tão forte que Yang pensa que vai desmaiar.

- Escudos a 36%. Mais um tiro desse e a nave não vai resistir, senhor.

O piloto retoma o controle, ele precisava se acautelar.

Yang voa ao redor do reator. As defesas eram rígidas demais. Com o movimento das placas, atingir o núcleo seria um golpe de sorte, algo quase impossível. Aproximar-se também não era viável, a temperatura era muito alta e ele desmaiaria.

Enquanto ele pensa, raios eram constantemente disparados. Os sistemas de segurança estavam enlouquecidos. Os raios tentavam obsessivamente eliminá-lo como se ele fosse um inimigo.   

Enquanto ele voa esquivando-se dos raios, ele percebe algo. Os capacitores parecem ter um momento de resfriamento. Eles atiravam seus raios, e depois ficavam alguns segundos para se resfriar.

- Ele tem resfriamento...! – constata Yang.

Ao resfriar-se, uma capa de proteção se abaixo dos capacitores, expelindo o calor. É então que Yang vê sua chance.

Ainda com as metralhadoras Vulcan, ele espera o momento certo e então atira. Os componentes internos são despedaçados e o capacitor se explode, desligando-se do núcleo. O reator estava enfraquecido.

Partindo para o próximo capacitor, ele repete o processo. Logo ele é abatido.

No terceiro, Yang tem que se precaver. Seus escudos estão baixos e a temperatura está muito alta. Lutando para não perde a consciência, ele ignora a tontura e se esquiva dos raios. Todo cuidado era pouco. E então o capacitor é destruído.

No quarto capacitor, ele não tem dificuldade. O mal funcionamento dos componentes deixaram o reator instável. A capa de proteção subia e descia desordenadamente. E assim o capacitor é facilmente abatido.

Sobrara apenas o núcleo do reator.

As placas de aço ainda se moviam e o protegiam, mas demonstravam defeito. Atirando com o Vulcan, ele atinge o núcleo. Para o seu espanto, nada acontece. Os tiros da metralhadora eram fracos demais.

E então a voz do almirante diz:

“Os Mísseis Macro! Use os Mísseis Macro!”.

- É claro! – lembra-se ele.

Selecionando o armamento, Navcom intervém.

- Yang, nós estamos muito perto do alvo. O salão é pequeno e a onda de choque pode nos destruir.

- Não temos outra escolha, Navcom! Se não usarmos o Macro, os enxames usarão o Yu Huang!

Esperando o movimento das placas, Yang aperta os gatilhos e atira.

O Wénzi treme. Todo o arsenal é liberado, disparando todos os mísseis no espaço.

Yang observa atônito seis robustos mísseis avançando. Ao atingirem o núcleo, uma explosão estranha se forma. Multiplicando-se de tamanho, a explosão duplica-se, triplica-se, quadruplica-se... De uma forma inacreditável diante de seus olhos.

O tempo parece se desacelerar.

- Ativando escudo de emergência! – exclama Navcom.

Mas o alerta de Navcom soou como em câmera lenta para Yang. Ele apenas se lembra de ver uma proteção metálica tapar o para-brisa do Wénzi e de tudo ficar de repente escuro.

A visão é tampada; o Wénzi gira abruptamente no ar. Yang se sente dentro de um reles barril enquanto ele cai das cataratas do Niágara.

E então ele desmaia.

  

§

 

Minutos depois, Yang acorda.

Ele olha ao redor e vê o interior do Wénzi. A cabine estava toda escura, com exceção dos botões do painel e de algumas faíscas. O visor ainda estava tampado. Letras e números aleatórios apareciam no para-brisa, evidenciando a pane elétrica.

Sua audição retorna lentamente. Uma voz desesperada gritava o seu nome.

“Yang, responda-me!”.

Ele aperta um botão no painel e a proteção metálica se retrai. O piloto se assusta ao ver três espaçonaves paradas diante dele. Seus olhos se ofuscam com os faróis.  

“Yang, responda-me, por favor!”.

Atordoado, ele diz:

- Almirante Yaping...?

“Yang! Você está vivo!

Olhando ao redor, ele vê o Shenzhou Wénzi enrijecido, todo protegido por camadas extras de aço como um tatu.

- O que aconteceu?

“Você conseguiu!”, informa ele. “O núcleo do reator foi desativado!”.

- Eu o destruí?

“Não. Você apenas o desativou. O núcleo foi projetado para nunca ser totalmente desativado. Se destruído, a Inteligência Artificial irá regenerá-lo sozinho. Ele deve se manter ativo, pela segurança nacional”.

O piloto assente.                                 

Portões de manutenção foram abertos. As espaçonaves de Yaping conectam cabos e conduzem o Wénzi para dentro; ele está muito avariado após a explosão.

Mais tarde, Yang se encontra nas instalações do núcleo do reator. As portas, outrora seladas, foram abertas finalmente. Os cientistas liberaram o acesso e retomaram o controle das instalações. Avançando, eles retomam o laboratório onde o mini canhão Yu Huang se encontra.

Do laboratório, os cientistas acessam o painel de controle. Ali eles conseguem combater o vírus alienígena e destruí-lo com seus avançados firewalls.        

E desta maneira os sistemas de segurança deixam de ser hostis.

 

  



[1] Termo em inglês referindo-se a uma caminhada espacial fora da nave.

Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta

(Artista desconhecido) Dias se passam. Yang é mantido em um recinto com sofá, mesa e televisão. Não era bem uma cela, mas uma confortável sa...