Davud dorme. De
repente Orfeu sobe em seu colo e ele se assusta. Sentado na poltrona de
Valentim, ele pensa ter ouvido a porta se abrir. Ele se levanta e percebe que
Valentim havia saído. O guarda se intriga, pois já era tarde da noite.
O guarda abre a
porta e se depara com a rua fria e deserta. Não havia nenhuma alma viva naquela
noite. Além de suas esquinas, a cidade lúgubre escondia segredos.
Davud olha para
longe e vê alguém virando a esquina. Ele pensa:
“Valentim...?”.
O guarda o segue
silenciosamente pela cidade. Havia algo estranho no ar; não haviam pessoas e
nem carruagens pelas ruas, nenhum trabalhador indo para uma fábrica barulhenta
por perto, apenas a solidão severa de um mausoléu esquecido. Era como se
Liubliana estivesse em um estado suspenso, reservando aquela noite para os
eventos mais místicos.
O desconhecido
seguia a frente em passos apressados, porém confusos. Davud pode notar que ele
olhava obsessivamente para os telhados. Querendo saber o que havia no topo, o
guarda via apenas corujas voando aleatoriamente pela noite.
Estranhamente o
desconhecido se dirige a um matagal às margens do Rio Liublianica. Não querendo
ser visto, Davud se esgueira no capim alto e vê algo que lhe causa arrepios. Na
água havia um barco com um pavoroso barqueiro; ele estava em pé na proa e não
se mexia ou se desequilibrava. Era como se o barqueiro fosse uma entidade
fantasmagórica e profana.
Uma tocha
iluminava o barco, emitindo uma curiosa chama de luz púrpura. A luz ilumina o rosto
do desconhecido e o revela: era Valentim. O guarda arregala os olhos e se
pergunta o que ele estaria fazendo em um barco com aquele estranho barqueiro.
O barco deixa a
margem e Valentim é levado pelo Liublianica.
Temendo perde-los
de vista, Davud corre pelo matagal e tenta acompanha-los. Mas seus passos se
afundam na lama e o capim se enrola em suas roupas. Sentindo a dificuldade
atrasa-lo, ele se desespera. Valentim já navegava longe pelo rio.
Pensando rápido,
Davud volta às ruas e procura por um transporte. Naquela solitária noite, ninguém
podia ser visto. Ele corre pelo ladrilho e vê algumas carruagens estacionadas; os
armazéns tinham alguns cavalos para o transporte de mercadorias. Davud se
aproxima dos cochos e encontra uma bela égua de cor bege. O guarda pensa em
pedir permissão ao dono para usa-la, mas não havia ninguém. Então ele desamarra
as rédeas e a monta, partindo pela noite.
Cavalgando às
margens do rio, Davud segue o barqueiro. Então lhe vem um interessante pensamento.
Semelhante ao Profeta Maomé em sua viagem rumo ao Al Aqsa[1],
o guarda se sente em uma viagem mística pela noite rumo ao desconhecido. Diz a
tradição islâmica que Maomé viajou ao lado do arcanjo Gabriel à longínqua
Jerusalém, em uma viagem que durou apenas alguns minutos.
Estando na cidade
de Meca, Gabriel apareceu ao magnificente Profeta enquanto este descansava
próximo à Caaba. O arcanjo trouxe o mitológico animal Al Buraq[2],
que o levou em sua companhia ao al-masjid
al-haram[3]
em Jerusalém. Lá o Profeta rezou no Templo e então ascendeu ao sétimo céu, onde
ele se encontrou com Adão, Enoque, Abraão, José, Moisés, Arão e, finalmente,
Jesus. Então o Profeta se encontrou com o majestoso trono de Deus. Em sua
gloriosa presença, Deus lhe deu instruções para o mais importante mandamento
dos muçulmanos: orar cinquenta vezes por dia. Moisés interveio e Maomé o ouviu,
persuadindo Deus a reduzir o número a apenas cinco orações diárias. Esta
história é conhecida no islã como Isra e
Mi’raj[4].
Davud se compara
ao Profeta naquele momento. Perseguindo Valentim pela noite, ele se sente montado
no mitológico Al Buraq. Na tradição islâmica, o animal é um equino celestial de
múltiplas definições. O haddith Sahih
al-Bukhari o descreveu como um animal branco, menor que uma mula e maior
que um burro, sendo capaz de dar imensos passos. O haddith o complementa
dizendo que Al Buraq tinha longas orelhas e asas em suas coxas. Apesar de não
estar explícito o sexo do animal, Gabriel se dirigia a Al Buraq como ela sendo
uma fêmea, e a tradição diz que ela tinha uma bela face; assim os pintores a
retrataram com a cabeça e a face de uma mulher.
Davud se lembra
desta história enquanto cavalga. Ele foi muito bem instruído na doutrina e na
tradição de sua religião na infância. Com saudades no coração, ele agradece à
sua mesquita na Bósnia pela instrução recebida, pois sem ela ele jamais teria
sido alfabetizado. Seus pais eram camponeses analfabetos que se esforçaram para
dar a Davud a instrução que eles nunca tiveram.
Beijando a ponta
de seus dedos, ele toca a faixa amarrada em sua testa. O guarda sempre a levava
a todos os lugares, tendo-a como um amuleto de proteção.
- La ilaha Ilallah Muhammadar Rasululah. –
sussurra ele.
A célebre frase
que significa “não há Deus senão Allah, e Maomé é seu mensageiro”. Davud
acredita que, enquanto tê-la em sua cabeça, nenhum mal poderá toca-lo e ele
estará protegido.
Lágrimas se
formam em seus olhos. Com saudades de seus pais, ele promete reencontrá-los um
dia.
E assim ele
continua sua cavalgada, montado em seu Al Buraq em sua própria Jornada Noturna.
§
O rio atravessa a
cidade e avança em direção ao pântano. As ruas pavimentadas de Liubliana ficam
para trás. Davud adentra o pântano com sua égua, mas logo se vê impedido de
continuar. A área era muito arriscada para o animal, pois tubos atravessavam o terreno,
o solo lamacento afundava seus passos e a escuridão era quase total. Zelando
pela integridade do animal, ele a desmonta e a deixa, preferindo percorrer o
pântano a pé.
Durante alguns
minutos, o guarda ouve apenas o som das bombas de captação ao longe. Felizmente
o Plasma brilhava e ele podia ver onde pisava, assim ele não temeria cair em um
poço e morrer afogado a qualquer momento. Mas Valentim, por outro lado, não
podia ser visto em lugar algum.
Enquanto o procura,
suas botas se afundam no solo molhado. Se Valentim ainda estava ali, ele não
pôde ter ido muito longe. Davud se desvencilha do matagal e então vê algo. Ao
longe a chama púrpura do barco atravessa a cerração verde, até desaparecer
lentamente. Davud se intriga.
O guarda continua
sua árdua caminhada. Em alguns momentos ele tem de atravessar a inundação do
pântano e se incomoda; a água o afunda e ele se molha até a cintura. Lama se
acumulava em suas botas, a água ensopava suas roupas, ele começa a tremer de
frio... A situação piorava cada vez naquele lugar.
Adiante, ele
reconhece uma velha estrutura de madeira. Aproximando-se, ele encontra um píer.
Foi ali que o barqueiro aportou antes de sumir na escuridão. Davud estava no
caminho certo.
Enquanto investiga,
alguém aparece atrás dele e o assusta. O guarda se vira e imediatamente
exclama:
- Capitão?!
Davud reconhece o
capitão Vilko da Gendarmerie. Ele vestia uma capa de chuva e carregava uma
lamparina.
- Boa noite,
guarda Davud.
Intrigado, ele
pergunta:
- O que o senhor
está fazendo aqui?
Com semblante
sério, o capitão responde:
- Eu poderia
perguntar o mesmo.
- Por que o
senhor está vestido assim?
- Estamos em um
pântano, não é? Vim preparado para não me molhar.
O guarda assente,
acalmando-se.
- Bem, eu estou à
procura de Valentim. Acredito que ele esteja aqui em algum lugar.
- É mesmo? –
pergunta ele – E por que ele estaria aqui?
- Eu não sei. Ele
veio aqui a bordo de um barco. Eu não reconheci o barqueiro, mas foi uma das
figuras mais assustadoras que já vi.
Vilko assente.
- Eu conheço bem
a região. Se quiser, posso ajudá-lo a encontrar o seu amigo.
Davud concorda
alegremente, e então ele diz:
- Obrigado,
senhor.
O capitão o vê
batendo continência. Sem se importar, ele o guia pelo pântano negro.
Eles viam manchas
de água e de Plasma pela inundação; os dois líquidos não se misturavam
facilmente. As bombas inglesas sugavam ambos, mas as estações de tratamento
separavam o valioso Plasma, devolvendo a água para o ambiente. Infelizmente, a
poluição gerada pelas máquinas as tornavam impróprias para o consumo, e assim o
custo da água potável foi se tornando mais caro para os liublianenses.
O capitão
atravessa o matagal com precisão. Segurando sua lamparina, ele se desvia das partes
alagadas e nunca molhava os pés. De fato, ele tinha um vasto conhecimento da
região, como ele mesmo o disse.
De repente Davud
ouve o som de quedas d’água muito próximas. Confuso, ele olha para os lados e
não entende como pode haver cachoeiras ali. Então ele vê algo inesperado. No
meio do pântano havia uma enorme cratera, revelando uma caverna profunda. Ele
se espanta.
- Capitão, o
senhor sabia da existência desta caverna?
- Não, guarda
Davud. Estou tão espantado quanto você.
Esgueirando-se,
os dois descem pela abertura.
Davud se
impressiona com as estalactites e o rio subterrâneo. Ele nunca havia visto nada
parecido na Bósnia. As cachoeiras de Plasma iluminam o fosso e eles caminham ao
lado do brilhante rio. Tudo ali parecia tão irreal que ele pensa estar em um
mundo fantasioso.
Distraído com a
paisagem, Davud se assusta ao ser puxado por Vilko. Eles se escondem e o
capitão gesticula para ele ficar em silêncio e observar algo adiante.
Ao longe o guarda
vê a entrada de um misterioso templo. O templo estava esculpido na pedra e
tinha várias corujas na fachada. Então ele vê cultistas guardando sua entrada;
eles vestiam longos mantos e pareciam estar falando com alguém. Davud reconhece
a Valentim.
Os guardas falam
algo e então mais cultistas surgem, se materializando no ar. Valentim olha ao
redor e calmamente começa a se despir. Davud se confunde.
- O que ele está
fazendo?!
- Shh! – interrompe o capitão – Espere
eles terminarem.
Valentim entra no
templo e os cultistas o seguem.
Cansado de
esperar, o guarda se levanta e decide segui-los. Ele desce pelas pedras e
rapidamente alcança a entrada.
Ao chegar no
templo, Davud se intriga; os guardas haviam desaparecido. Vendo a entrada
totalmente desguarnecida, ele não perde tempo e adentra o templo.
Semelhante a uma
igreja cristã da Idade Média, a escuridão era predominante lá dentro. Então
tochas repentinamente se acendem e o Plasma ilumina o interior. Davud vê os
cultistas em toda parte; eles estavam de cabeça baixa fazendo profanas orações.
Pelas paredes o guarda vê corpos pendurados e acorrentados; eram seres humanos
sacrificados a alguma divindade pagã.
Vítimas eram
torturadas em máquinas de tortura. As máquinas tinham polias e engrenagens e
soltavam vapor de Plasma. Em seu flagelo, as vítimas tinham seus membros amputados
e seu sangue coletado pelos algozes. O sangue era então levado até uma pira e
lançado. Como se fosse seu alimento, a chama se atiçava violentamente, soltando
um cheiro insuportável pelo ar. Davud se horroriza.
Adiante, além da
multidão, ele avista a Valentim; ele está diante de um sacrílego altar. O
guarda vê a estátua de uma coruja gigante sobreolhando a congregação e um
sacerdote de manto púrpura ao lado de uma mesa de pedra. Devido ao número de
cultistas presentes, Davud não consegue identificar o que está acontecendo.
Alguém agoniza ao
seu lado. Virando-se, o guarda vê um homem tendo suas pernas amputadas pela
terrível máquina de tortura. Então os algozes o libertam e a vítima cai no
chão, rastejando-se devotamente em direção ao altar em seguida.
Atordoado por
tamanho barbarismo, Davud diz:
- Capitão, eu vou
informar os gendarmes!
O guarda se vira
e se dirige à saída. Então alguém o segura e o apunhala pelas costas. Davud
sente a lâmina atravessar sua pele e raspar em suas costelas. Seu grito é tão
agudo quanto o de uma criança e, de fato, Davud não era muito mais do que uma.
Ele arregala os olhos e lágrimas se formam. A potente dor o subjuga e o paralisa.
O guarda se desespera; ele jamais pensou que partiria assim.
Reunindo suas
últimas forças, ele grita:
- Valentim!
Ouvindo a voz
familiar atrás de si, Valentim se vira. Surpreso, ele reconhece o jovem Davud
no meio da congregação maldita. Então os cultistas entoam um tenebroso cântico,
tão poderoso que é capaz de estremecer as paredes e abafar o pedido de socorro
de seu companheiro.
O ritual supremo
começa. Era chegada a hora de Valentim.
[1] O
atual Domo da Rocha em Jerusalém
[2] “O
raio” ou “aquele que emite a luz de um raio” em árabe
[3] “O
templo sagrado e inviolável” em árabe
[4]
“Isra” significa Jornada Noturna e “Mi’raj”, escada em árabe

