domingo, 26 de março de 2023

Liubliana - 31 - A Jornada Noturna de Davud


(Artista desconhecido) 


Davud dorme. De repente Orfeu sobe em seu colo e ele se assusta. Sentado na poltrona de Valentim, ele pensa ter ouvido a porta se abrir. Ele se levanta e percebe que Valentim havia saído. O guarda se intriga, pois já era tarde da noite.

O guarda abre a porta e se depara com a rua fria e deserta. Não havia nenhuma alma viva naquela noite. Além de suas esquinas, a cidade lúgubre escondia segredos.

Davud olha para longe e vê alguém virando a esquina. Ele pensa:

“Valentim...?”.

O guarda o segue silenciosamente pela cidade. Havia algo estranho no ar; não haviam pessoas e nem carruagens pelas ruas, nenhum trabalhador indo para uma fábrica barulhenta por perto, apenas a solidão severa de um mausoléu esquecido. Era como se Liubliana estivesse em um estado suspenso, reservando aquela noite para os eventos mais místicos.

O desconhecido seguia a frente em passos apressados, porém confusos. Davud pode notar que ele olhava obsessivamente para os telhados. Querendo saber o que havia no topo, o guarda via apenas corujas voando aleatoriamente pela noite.

Estranhamente o desconhecido se dirige a um matagal às margens do Rio Liublianica. Não querendo ser visto, Davud se esgueira no capim alto e vê algo que lhe causa arrepios. Na água havia um barco com um pavoroso barqueiro; ele estava em pé na proa e não se mexia ou se desequilibrava. Era como se o barqueiro fosse uma entidade fantasmagórica e profana.

Uma tocha iluminava o barco, emitindo uma curiosa chama de luz púrpura. A luz ilumina o rosto do desconhecido e o revela: era Valentim. O guarda arregala os olhos e se pergunta o que ele estaria fazendo em um barco com aquele estranho barqueiro.

O barco deixa a margem e Valentim é levado pelo Liublianica.

Temendo perde-los de vista, Davud corre pelo matagal e tenta acompanha-los. Mas seus passos se afundam na lama e o capim se enrola em suas roupas. Sentindo a dificuldade atrasa-lo, ele se desespera. Valentim já navegava longe pelo rio.

Pensando rápido, Davud volta às ruas e procura por um transporte. Naquela solitária noite, ninguém podia ser visto. Ele corre pelo ladrilho e vê algumas carruagens estacionadas; os armazéns tinham alguns cavalos para o transporte de mercadorias. Davud se aproxima dos cochos e encontra uma bela égua de cor bege. O guarda pensa em pedir permissão ao dono para usa-la, mas não havia ninguém. Então ele desamarra as rédeas e a monta, partindo pela noite.

Cavalgando às margens do rio, Davud segue o barqueiro. Então lhe vem um interessante pensamento. Semelhante ao Profeta Maomé em sua viagem rumo ao Al Aqsa[1], o guarda se sente em uma viagem mística pela noite rumo ao desconhecido. Diz a tradição islâmica que Maomé viajou ao lado do arcanjo Gabriel à longínqua Jerusalém, em uma viagem que durou apenas alguns minutos.

Estando na cidade de Meca, Gabriel apareceu ao magnificente Profeta enquanto este descansava próximo à Caaba. O arcanjo trouxe o mitológico animal Al Buraq[2], que o levou em sua companhia ao al-masjid al-haram[3] em Jerusalém. Lá o Profeta rezou no Templo e então ascendeu ao sétimo céu, onde ele se encontrou com Adão, Enoque, Abraão, José, Moisés, Arão e, finalmente, Jesus. Então o Profeta se encontrou com o majestoso trono de Deus. Em sua gloriosa presença, Deus lhe deu instruções para o mais importante mandamento dos muçulmanos: orar cinquenta vezes por dia. Moisés interveio e Maomé o ouviu, persuadindo Deus a reduzir o número a apenas cinco orações diárias. Esta história é conhecida no islã como Isra e Mi’raj[4].

Davud se compara ao Profeta naquele momento. Perseguindo Valentim pela noite, ele se sente montado no mitológico Al Buraq. Na tradição islâmica, o animal é um equino celestial de múltiplas definições. O haddith Sahih al-Bukhari o descreveu como um animal branco, menor que uma mula e maior que um burro, sendo capaz de dar imensos passos. O haddith o complementa dizendo que Al Buraq tinha longas orelhas e asas em suas coxas. Apesar de não estar explícito o sexo do animal, Gabriel se dirigia a Al Buraq como ela sendo uma fêmea, e a tradição diz que ela tinha uma bela face; assim os pintores a retrataram com a cabeça e a face de uma mulher.

Davud se lembra desta história enquanto cavalga. Ele foi muito bem instruído na doutrina e na tradição de sua religião na infância. Com saudades no coração, ele agradece à sua mesquita na Bósnia pela instrução recebida, pois sem ela ele jamais teria sido alfabetizado. Seus pais eram camponeses analfabetos que se esforçaram para dar a Davud a instrução que eles nunca tiveram.   

Beijando a ponta de seus dedos, ele toca a faixa amarrada em sua testa. O guarda sempre a levava a todos os lugares, tendo-a como um amuleto de proteção.

- La ilaha Ilallah Muhammadar Rasululah. – sussurra ele.

A célebre frase que significa “não há Deus senão Allah, e Maomé é seu mensageiro”. Davud acredita que, enquanto tê-la em sua cabeça, nenhum mal poderá toca-lo e ele estará protegido. 

Lágrimas se formam em seus olhos. Com saudades de seus pais, ele promete reencontrá-los um dia.

E assim ele continua sua cavalgada, montado em seu Al Buraq em sua própria Jornada Noturna.

 

§

 

O rio atravessa a cidade e avança em direção ao pântano. As ruas pavimentadas de Liubliana ficam para trás. Davud adentra o pântano com sua égua, mas logo se vê impedido de continuar. A área era muito arriscada para o animal, pois tubos atravessavam o terreno, o solo lamacento afundava seus passos e a escuridão era quase total. Zelando pela integridade do animal, ele a desmonta e a deixa, preferindo percorrer o pântano a pé.

Durante alguns minutos, o guarda ouve apenas o som das bombas de captação ao longe. Felizmente o Plasma brilhava e ele podia ver onde pisava, assim ele não temeria cair em um poço e morrer afogado a qualquer momento. Mas Valentim, por outro lado, não podia ser visto em lugar algum.

Enquanto o procura, suas botas se afundam no solo molhado. Se Valentim ainda estava ali, ele não pôde ter ido muito longe. Davud se desvencilha do matagal e então vê algo. Ao longe a chama púrpura do barco atravessa a cerração verde, até desaparecer lentamente. Davud se intriga.  

O guarda continua sua árdua caminhada. Em alguns momentos ele tem de atravessar a inundação do pântano e se incomoda; a água o afunda e ele se molha até a cintura. Lama se acumulava em suas botas, a água ensopava suas roupas, ele começa a tremer de frio... A situação piorava cada vez naquele lugar.

Adiante, ele reconhece uma velha estrutura de madeira. Aproximando-se, ele encontra um píer. Foi ali que o barqueiro aportou antes de sumir na escuridão. Davud estava no caminho certo.

Enquanto investiga, alguém aparece atrás dele e o assusta. O guarda se vira e imediatamente exclama:

- Capitão?!    

Davud reconhece o capitão Vilko da Gendarmerie. Ele vestia uma capa de chuva e carregava uma lamparina.

- Boa noite, guarda Davud.

Intrigado, ele pergunta:

- O que o senhor está fazendo aqui?

Com semblante sério, o capitão responde:     

- Eu poderia perguntar o mesmo.

- Por que o senhor está vestido assim?

- Estamos em um pântano, não é? Vim preparado para não me molhar.

O guarda assente, acalmando-se.

- Bem, eu estou à procura de Valentim. Acredito que ele esteja aqui em algum lugar.

- É mesmo? – pergunta ele – E por que ele estaria aqui?

- Eu não sei. Ele veio aqui a bordo de um barco. Eu não reconheci o barqueiro, mas foi uma das figuras mais assustadoras que já vi.

Vilko assente.

- Eu conheço bem a região. Se quiser, posso ajudá-lo a encontrar o seu amigo.

Davud concorda alegremente, e então ele diz:

- Obrigado, senhor.

O capitão o vê batendo continência. Sem se importar, ele o guia pelo pântano negro.

Eles viam manchas de água e de Plasma pela inundação; os dois líquidos não se misturavam facilmente. As bombas inglesas sugavam ambos, mas as estações de tratamento separavam o valioso Plasma, devolvendo a água para o ambiente. Infelizmente, a poluição gerada pelas máquinas as tornavam impróprias para o consumo, e assim o custo da água potável foi se tornando mais caro para os liublianenses.

O capitão atravessa o matagal com precisão. Segurando sua lamparina, ele se desvia das partes alagadas e nunca molhava os pés. De fato, ele tinha um vasto conhecimento da região, como ele mesmo o disse.

De repente Davud ouve o som de quedas d’água muito próximas. Confuso, ele olha para os lados e não entende como pode haver cachoeiras ali. Então ele vê algo inesperado. No meio do pântano havia uma enorme cratera, revelando uma caverna profunda. Ele se espanta.

- Capitão, o senhor sabia da existência desta caverna?

- Não, guarda Davud. Estou tão espantado quanto você.

Esgueirando-se, os dois descem pela abertura.

Davud se impressiona com as estalactites e o rio subterrâneo. Ele nunca havia visto nada parecido na Bósnia. As cachoeiras de Plasma iluminam o fosso e eles caminham ao lado do brilhante rio. Tudo ali parecia tão irreal que ele pensa estar em um mundo fantasioso.

Distraído com a paisagem, Davud se assusta ao ser puxado por Vilko. Eles se escondem e o capitão gesticula para ele ficar em silêncio e observar algo adiante.

Ao longe o guarda vê a entrada de um misterioso templo. O templo estava esculpido na pedra e tinha várias corujas na fachada. Então ele vê cultistas guardando sua entrada; eles vestiam longos mantos e pareciam estar falando com alguém. Davud reconhece a Valentim.

Os guardas falam algo e então mais cultistas surgem, se materializando no ar. Valentim olha ao redor e calmamente começa a se despir. Davud se confunde. 

- O que ele está fazendo?!

- Shh! – interrompe o capitão – Espere eles terminarem.

Valentim entra no templo e os cultistas o seguem.

Cansado de esperar, o guarda se levanta e decide segui-los. Ele desce pelas pedras e rapidamente alcança a entrada.

Ao chegar no templo, Davud se intriga; os guardas haviam desaparecido. Vendo a entrada totalmente desguarnecida, ele não perde tempo e adentra o templo.

Semelhante a uma igreja cristã da Idade Média, a escuridão era predominante lá dentro. Então tochas repentinamente se acendem e o Plasma ilumina o interior. Davud vê os cultistas em toda parte; eles estavam de cabeça baixa fazendo profanas orações. Pelas paredes o guarda vê corpos pendurados e acorrentados; eram seres humanos sacrificados a alguma divindade pagã.

Vítimas eram torturadas em máquinas de tortura. As máquinas tinham polias e engrenagens e soltavam vapor de Plasma. Em seu flagelo, as vítimas tinham seus membros amputados e seu sangue coletado pelos algozes. O sangue era então levado até uma pira e lançado. Como se fosse seu alimento, a chama se atiçava violentamente, soltando um cheiro insuportável pelo ar. Davud se horroriza.

Adiante, além da multidão, ele avista a Valentim; ele está diante de um sacrílego altar. O guarda vê a estátua de uma coruja gigante sobreolhando a congregação e um sacerdote de manto púrpura ao lado de uma mesa de pedra. Devido ao número de cultistas presentes, Davud não consegue identificar o que está acontecendo.

Alguém agoniza ao seu lado. Virando-se, o guarda vê um homem tendo suas pernas amputadas pela terrível máquina de tortura. Então os algozes o libertam e a vítima cai no chão, rastejando-se devotamente em direção ao altar em seguida.

Atordoado por tamanho barbarismo, Davud diz:

- Capitão, eu vou informar os gendarmes!

O guarda se vira e se dirige à saída. Então alguém o segura e o apunhala pelas costas. Davud sente a lâmina atravessar sua pele e raspar em suas costelas. Seu grito é tão agudo quanto o de uma criança e, de fato, Davud não era muito mais do que uma. Ele arregala os olhos e lágrimas se formam. A potente dor o subjuga e o paralisa. O guarda se desespera; ele jamais pensou que partiria assim.

Reunindo suas últimas forças, ele grita:

- Valentim!

Ouvindo a voz familiar atrás de si, Valentim se vira. Surpreso, ele reconhece o jovem Davud no meio da congregação maldita. Então os cultistas entoam um tenebroso cântico, tão poderoso que é capaz de estremecer as paredes e abafar o pedido de socorro de seu companheiro.

O ritual supremo começa. Era chegada a hora de Valentim.

 

 



[1] O atual Domo da Rocha em Jerusalém

[2] “O raio” ou “aquele que emite a luz de um raio” em árabe

[3] “O templo sagrado e inviolável” em árabe

[4] “Isra” significa Jornada Noturna e “Mi’raj”, escada em árabe

segunda-feira, 20 de março de 2023

Liubliana - 30 - Succubus

 


(Artista desconhecido)

 

Valentim acorda em um susto.

Olhando ao redor, ele se vê em seu quarto. O gato Orfeu dormia aos seus pés, o que o deixa muito irritado. Ao lado de sua cama, o guarda Davud cochilava em uma cadeira. 

Davud abre os olhos e nota que Valentim havia acordado. Feliz pela recuperação de seu companheiro, ele sorri.

- Senhor Valentim, o senhor está bem?

- Davud...! – exclama ele – O que aconteceu?

O guarda responde:

- Na noite passada o senhor foi atacado pela Wraith, desmaiando e não acordando mais em seguida. Eu consegui salva-lo, mas Tobias e eu tivemos de tira-lo dali.

Assentindo, ele faz outra pergunta:

- O que aconteceu com a Wraith?

- Ela se foi. – revela ele – Semelhante aos djinns, ela se mantinha neste mundo através de um objeto pessoal; um espelho com moldura e entalhes místicos. Eu consegui bani-la lançando o espelho no chão e quebrando-o em centenas de pedaços!

O jovem guarda sorri, esperando congratulações de Valentim. Davud o admirava muito e esperava dele um afeto quase paternal. Mas Valentim sente pena dele, pois apesar do guarda ter menos da metade de sua idade, ele jamais poderia ama-lo como um filho.

- E quanto ao dinheiro? Nós recebemos o pagamento daqueles porcos burgueses?

Davud ri.

- Não se preocupe. Os “porcos burgueses” nos pagaram, certamente.

Valentim respira, satisfeito.

O guarda continuava com seu olhar alegre, demonstrando-lhe admiração e servidão. A inexperiência, e até a carência do jovem, eram evidentes.

Por fim, ele diz:

- Obrigado, guarda. Bom trabalho.

Davud sorri. Aquilo foi muito importante para ele.

- De nada, senhor Valentim! Estou à disposição, se quiser minha ajuda.

Mas Valentim queria apenas se livrar dele. Ele responde: 

- Não precisa; eu estou bem. Pode ir agora.

O guarda assente e se levanta. Antes de sair, ele diz:

- O Inspetor Hessler me pediu para cuidar do senhor durante o dia; ele está na Gendarmerie agora fazendo o relatório. Ele também me proibiu de trata-lo com remédios à base de Plasma. – e então ele conclui – Estarei lá em baixo, se precisar de mim.

Então o guarda se vira e deixa o quarto.

Apesar de ter dormido pela metade do dia, Valentim ainda se sentia fraco e cansado. Ele não se lembra bem do dia anterior, mas se lembra que a aparição drenou suas energias. Sua vida se esvaía lentamente, seus ossos secavam. O encantamento o teria matado se Davud não intervisse. Aliviando-se, ele agradece a Deus pelo jovem guarda por, mais uma vez, ter salvado a sua vida.

 

§

 

Valentim acorda no meio da noite.

Ruídos o incomodam. Ao olhar para o piso, Orfeu se ouriçava com algo na janela. Então Valentim se levanta e inspeciona o que o incomodava tanto. Sua visão se ajusta à escassa luz e, ao avistar a casa da frente, ele sente seu sangue gelar.

Valentim vê uma mulher monstruosa sobre o telhado. Ela tinha garras de pássaros, uma cauda de serpente, pequenos chifres na testa e longas asas de morcego. Enquanto a observa, Valentim pode notar que pelos de cabra cobriam suas partes íntimas. Mas apesar de tamanha deformidade, seu corpo era extremamente sensual.

Valentim está imóvel, perplexo com a cena. A mulher se levanta e bate as asas, mostrando a extensão de seu corpo. Ele jamais a havia visto antes. Ela o encara com um olhar frio e, ao mesmo tempo, sedutor.

Ele não sabe de quem se trata, mas ele se deparava com uma Succubus. O termo vem de dois termos em latim: succuba, que quer dizer amante, e succubare, que quer dizer “deitar-se embaixo”, referindo-se à posição sexual. De maneira aproximada, Succubus significaria “deitar-se com uma amante”.

E então Valentim se lembra de sua amante naquele momento.

“Irena”, pensa ele. “Ela se parece tanto com Irena...!”.

Historicamente, Succubus está atrelada a várias culturas e folclores. Na tradição judaica, ela seria Lilith, a primeira esposa de Adão. Na mitologia grega, ela é confundida com as sereias e ninfas. Na mitologia árabe, qarinah é um espírito similar a Succubus, sendo conhecida por dormir com as pessoas e, com elas, ter relações sexuais em seus sonhos.  E, finalmente, para os celtas, elas seriam as famosas fadas.

O equivalente masculino para as Succubus são os Incubus. Semelhante às fêmeas, os Incubus drenam a energia de suas vítimas durante o sonho erótico. No livro Malleus Maleficarum, escrito por Heinrich Kramer, as Succubus coletam o sêmen dos homens e os Incubus os usam para engravidar mulheres humanas. Desta maneira, crianças deformadas e suscetíveis a influências paranormais são geradas.

A Succubus se vira e bate suas asas. Então corujas aparecem, como se estivessem aninhadas a seus pés. A mulher olha para trás e, ao se certificar de que Valentim a olhava, ela toma impulso e voa pela noite, seguida pelas corujas.

Valentim entende o recado; ela estava chamando-o.

Vestindo suas roupas, ele passa por Orfeu e desce as escadas. Davud dormia tranquilamente em sua poltrona. Passando silenciosamente pelo guarda, ele se dirige à porta. De repente ele encontra algo na soleira. Intrigado, ele se abaixa e pega uma brilhante moeda de ouro. Na moeda havia a efígie de uma entidade estranha, da qual ele nunca vira antes.

Valentim guarda a moeda em seu bolso e então deixa a casa.

A rua estava fria e escura; nas esquinas ele só ouve o silêncio sepulcral. Sob o prateado luar da lua crescente, ele corre pelos centenários ladrilhos de pedra.

Os telhados altos e gélidos estavam vazios. Confuso, ele para e olha ao redor, procurando pela mulher-monstro.

De repente um vulto negro cruza o céu e o assusta. Era ela.

Valentim corre novamente, tentando alcança-la. A Succubus sobrevoava silenciosamente os telhados como um fantasma e uma dúzia de corujas a acompanhavam. Abaixo, Valentim a seguia, correndo pela cerração verde e desviando-se das carruagens pelo caminho.

Os prédios ficam para trás. Valentim se embrenha em um matagal molhado; a Succubus o havia levado às margens do Rio Liublianica. A escuridão da noite colocava um véu sobre seus olhos e ele não podia enxergar mais. Lutando para não perde-la de vista, ele tem a impressão de vê-la pousar perto da água.

Valentim afasta o capim alto e chega às margens do rio. Então ele vê algo que o arrepia.

À beira do rio havia um barco com um sinistro barqueiro na proa. Ele vestia trapos velhos e rasgados que, com o balançar do vento, espalhavam doenças. Sua pele era cinzenta e ressecada, como se fosse um cadáver fora da cova. Seu rosto era pálido e Valentim pode notar que sua pele fora esfolada pela morte, pois os ossos de seu crânio eram visíveis. E seus olhos amarelos, como fulgurosas fornalhas, lhe causavam pavor.  

Naquele momento Valentim percebe; aquele barqueiro era o Caronte.

Pendurada na proa, uma lanterna balançava com o vento. Sua chama era púrpura e parecia não ser deste mundo.

Antes que Valentim pudesse dizer alguma coisa, Caronte lhe estende a mão. Os vermes passeando em seus braço o enojam.

Valentim enfia a mão no bolso e pega a misteriosa moeda. Se ele pudesse ler grego, saberia que aquilo é um dracma. Oferecendo-a, Caronte a pega e o permite embarcar.

O barco tinha madeiras podres e cheirava a sangue. Valentim tenta se aconchegar, mas isso não era possível; pregos e farpas torturavam que ali se assentava. Caronte pega seu remo e afasta o barco da margem, começando a remar em seguida.

Algo estranho acontece com Valentim. Ele se sente zonzo, como se estivesse sofrendo algum tipo de envenenamento. Sua mente se revira, causando-lhe náusea. Ele olha para a água e a vê mudando de cor. O Liublianica ficava verde.

Caronte remava em movimentos fantasmagóricos. Valentim põe as mãos nos olhos e tenta se concentrar. Ao olhar novamente para o rio, algo havia mudado. Não era mais água que ele via; era Plasma.

Ao ritmo das remadas, o Liublianica se tornava o Rio Aqueronte.

Sobre o terrível rio do Submundo da mitologia grega, urros e gemidos agonizantes gelam o seu sangue. Valentim olha para a água e vê algo surgindo nas profundezas. Braços se emergem e Valentim vê centenas de pessoas esticando-os para chama-lo, desesperadamente pedindo por salvação. Ele se espanta; o Rio Aqueronte estava repleto de almas atormentadas, pálidas e nuas, clamando por misericórdia e parecendo sentir muita dor. O Plasma as queimava como o ácido, mas suas carnes jamais se dissolviam. Agora, depois de mortos, eles eram eternas almas, regenerantes e imortais. Ele pensa em ajuda-los, mas desiste da ideia, pois teme ser puxado para baixo e desaparecer para sempre nas profundezas do rio.

Caronte, por sua vez, as ignorava. Como se não as ouvisse, ele continuava remando normalmente.

O barco se aproximava do centro da cidade. Ao passar pela ponte dos dragões, ele olha para a água e se estarrece. Ele via a alma de seu pai.

Seu pai gritava e se debatia dolorosamente, parecendo sofrer grande agonia. Ao ver seu filho, o pai lhe estende as mãos e lhe pede socorro. Valentim sente compaixão, afinal era seu pai sendo torturado ali.

Mas então ele se lembra.

Foi devido ao seu pai que sua esposa, Danica, perdeu o bebê. Quando os dois ainda eram um jovem casal, o pai de Valentim a agrediu, fazendo-a cair e perder o bebê. O impacto foi tão forte que Danica se feriu permanentemente, ficando estéril, pois nunca mais conseguiu engravidar.

Valentim se lembra o quanto sua esposa queria um filho. No momento Danica sonhava em ser mãe e estava com poucos meses de gravidez. Essa era o seu maior sonho, dar a Valentim um filho e ter uma família feliz. Mas seu pai o tirou isso e ele jamais irá esquecer.

Com as mãos ainda estendidas, seu pai lhe pede socorro. Endurecendo o seu coração, Valentim se recusa ajuda-lo. Em rancor, o filho se vira e o ignora, deixando-o apodrecer no caldeirão do inferno.

E assim ele vai embora, sendo carregado pelo barco de Caronte.

O barco avança pelo rio. As almas cozinhavam na borbulhante água e Valentim vê outros rostos familiares. Ele vê almas vestidas em armaduras arruinadas; eram os nobres caçadores ingleses. Uma alma se debatia, mas não devido ao fervente Plasma, mas ao ser torturado pelas almas de dezenas de mulheres. Ali ele reconhecia o assassino da galeria de cadáveres.

Mais e mais condenados emergiam das águas. Valentim vê almas com cortes de faca, perfurações profundas e buracos de bala. E então ele percebe; aqueles eram os cidadãos mortos durante a recente onda de violência em Liubliana.

As mulheres uivavam do fundo do rio. Valentim se compadece. Se ele ver Danica ali, ele não pensará duas vezes em pular do barco para socorrê-la.

 

§

 

A cidade fica para trás. Olhando ao redor, Valentim se vê em um imenso e escuro pântano. Ele reconhece o local; era o pântano ao sul de Liubliana, que no momento estava inundado pelo verdejante Plasma. As almas também desaparecem. Valentim se alivia, pois os gritos dos condenados finalmente o deixam em paz.

Ao longe ele vê a estação de bombeamento inglesa. Fileiras de tubos atravessavam a região e levavam o Plasma puro para ser refinado nas refinarias. As máquinas o bombeavam e liberavam a fumaça de suas chaminés. Valentim se lamenta que tanta poluição gerada contaminará sua cidade para sempre.

Algo estranho se revela no pântano negro. Valentim vê uma luz emergindo no meio da inundação. Caronte para o barco em um píer de pescadores e estende seu braço; ele lhe indicava que a jornada chegava ao fim. Um pouco confuso, Valentim se levanta e deixa o barco.

Sobre o píer, Valentim vê Caronte remando pelo Plasma até misteriosamente sumir na escuridão.

O grasnar de corujas é ouvido ao longe. Recobrando a atenção, Valentim olha para trás e vê a Succubus sobre uma velha árvore retorcida. De repente ela abre as asas e voa, passando sobre ele como um morcego gigante.

A Succubus desce pela aquela luz no meio do pântano. Valentim rapidamente a segue, ávido para encontrar respostas. 

Aproximando-se da luz, ele se estarrece. No meio do pântano havia uma enorme caverna subterrânea. O verdejante Plasma caía pela cratera, formando belíssimas cachoeiras brilhantes. Sem pensar duas vezes, Valentim desce pelas rochas molhadas.

Um rio se formara lá embaixo, avançando pelo subsolo. Ele vê estalactites em seu entorno e se fascina. Valentim já ouviu falar das colossais cavernas subterrâneas em Carníola e nas províncias vizinhas; Postojnska, Skocjan, Vilenica, Pekel e Predjama vêm à sua mente. Mas ele jamais imaginou algo parecido na própria Liubliana.

Valentim se intriga. Ele acha muito improvável que aquela caverna tenha sido descoberta ali após o dreno do Plasma; era como se ela simplesmente tivesse aparecido. Um fosso tão extenso e profundo não passaria despercebido pelos pescadores por muito tempo. Então ele se pergunta se aquela caverna sempre esteve ali, oculta sob os pés dos liublianenses por milhares e milhares de anos.

A cada passo ele teme estar cruzando uma fenda dimensional entre os mundos. Então algo místico se revela.

Nas profundezas da caverna, Valentim encontra um misterioso templo pagão. Figuras encapuzadas guardavam sua entrada, vestindo mantos vermelhos e pretos decorados com símbolos místicos. Ele se intriga.

“Estes não são o estranho culto que Tobias está decidido a encontrar?”, pergunta-se ele.

De repente uma enorme sombra sobrevoa sua cabeça e continua descendo para o fundo; era a Succubus. A criatura olha para ele e parece chama-lo com o olhar. Passando por uma abertura no paredão de pedra, a Succubus adentra o templo. Sem pensar duas vezes, Valentim a segue.

Os guardas encapuzados permaneciam na entrada. Imóveis, de cabeça baixa e com os rostos ocultos, eles sinistramente pareciam não respirar. Intrépido como um leão, Valentim se aproxima. Nada iria parar sua férrea determinação.

Os guardas levantam suas cabeças e Valentim se espanta; seus rostos eram pálidos como o de cadáveres. Inesperadamente um deles diz:

- Saudações, senhor Valentim. Estávamos esperando pelo senhor.

Valentim se espanta.

- Quem são vocês?

- Somos o culto de Exúvia.

Então ele se estarrece. Durante meses Tobias esteve procurando por este misterioso culto. Paralelo à onda de violência e os eventos sobrenaturais pela cidade, este estranho culto esteve perturbando Liubliana. Coisas estranhas aconteciam e, nos relatos dos cidadãos, o culto sempre esteve presente, antes ou depois do ocorrido.

Corujas o observam na fachada do templo. Valentim nota que aquelas não eram corujas comuns; aquelas eram sujas e seus olhares eram extremamente medonhos, como se almas perdidas as tivessem possuído e agora as usassem para praguejar contra o mundo dos vivos.

Uma sensação inquietante o domina. O desespero aflige o seu peito. Sua alma ouvia um pedido desesperado de ajuda que parecia vir de dentro do templo. Valentim sente que algo muito ruim está para acontecer e, se se demorasse muito, seria tarde demais.

- Eu preciso entrar neste templo. – diz ele, sem perguntar ou pedir permissão, mas ousadamente afirmando.  

- Como desejar. – responde o cadavérico guarda.

Valentim se prontifica e dá o primeiro passo, mas então o guarda diz:

- Mas antes precisamos de algo do senhor.

Fazendo um olhar agressivo, Valentim se prepara para a violência. Nada iria impedi-lo de entrar ali e, se preciso, ele estava disposto a mandar aquele guarda de volta para o túmulo de onde ele havia saído.

- O que vocês querem?

O guarda simplesmente responde:

- A sua nudez.

Valentim arregala os olhos.

- O quê?!

Figuras encapuzadas se materializam ao seu redor, cercando-o. Valentim não pôde vê-los, mas eles estavam em toda parte, observando-o o tempo todo. Sabendo que aquela era uma batalha perdida, Valentim não vê outra opção. O amoroso marido fará de tudo para encontrar sua esposa.

Respirando fundo, ele desabotoa sua camisa e a tira. Em seguida ele se descalça e tira os sapatos. Por último, ele abaixa as calças e também as tira. E assim ele se despe perante os guardas do templo.

Totalmente nu, ele se exibe aos encapuzados. O frio da caverna arrepia seus pelos grisalhos e a brisa retorce as rugas de sua pele envelhecida. Ele não é mais tão forte quanto antes; a idade veio e levou o vigor de sua juventude. O tempo foi cruel, como o é a todos os homens. Mas ele se recusa a sentir pena de si mesmo; isto ele jamais irá permitir.

Recusando-se a ocultar-se, ele se mantém de braços abertos diante dos desconhecidos. Valentim jamais se mostraria fraco ou assustado a ninguém. Pois, para encontrar a sua esposa, ele fará de tudo.

Sem toca-lo, os encapuzados lentamente lhe abrem passagem. Então o corajoso Valentim avança e entra no misterioso templo.

 

Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta

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