sexta-feira, 30 de julho de 2021

Tiergarten - 36 - Epílogo

 


De pé em seu quarto, Gunther o encontra escuro e abafado. Era mês de abril, seis meses após a Reunificação Alemã. A luz atravessa a persiana, mas não vinha mais do holofote da torre de vigia. O Muro de Berlim havia sido demolido e, dessa vez, a luz vinha dos alegres letreiros das multinacionais capitalistas. Então ele se afasta. 

Gunther se senta em sua nova e confortável poltrona. Apalpando-a, ele se lembra que foi Anneliese quem o convenceu a compra-la. A garota queria redecorar sua casa e o rapaz permite sem se importar. Ela está dormindo em sua cama agora e, ao ver os cabelos em seu rosto, o rapaz os afasta e a deixa dormir.

Pegando um maço de cigarros, ele pensa em fumar, mas, mudando de ideia, ele o guarda novamente. Pensando em Anneliese, ele decidiu parar com os cigarros.

Enquanto descansa, ele se lembra que suas dores de cabeça o aliviaram um pouco. Menos frequentes agora, ele mal as percebia. 

Gunther foi vítima de experimentos ultrassecretos, sendo exposto às ondas eletromagnéticas e à radiação. Porém, com a queda do muro, o forte sinal das torres de transmissão se enfraqueceu. Após a invasão do quartel-general da Stasi pela revoltada população alemã, a espionagem foi praticamente banida. Aliviado, o rapaz percebe que Berlim deixara de ser o estopim de uma nova guerra, tornando-se agora uma pacífica e próspera nação.

Algo embaixo de sua cama chama a sua atenção. Abanando a poeira, ele encontra seu velho livro sobre a quarta dimensão. Gunther sorri. Após tanto tempo sem mergulhar nas enigmáticas camadas extradimensionais, ele sente que já poderia se considerar uma pessoa normal.

O telefone estava ao seu lado. Com a reunificação alemã, linhas particulares eram comuns e qualquer cidadão podia ter. A voz ainda falava com ele, mas raramente. Gunther sente falta de suas breves e estranhas conversas. Ele reconhece que, como a própria voz disse, ela era sua âncora e muitas vezes o impediu de derivar pelas turbulentas realidades alteradas por suas emoções.

Encostando-se na poltrona, ele pondera. A Stasi havia caído, mas os soviéticos ainda sobreviviam além da fronteira. “Será que os russos ainda estão me vigiando?”, pergunta-se ele. A ameaça dos soviéticos o amedrontava. “Eles não iriam deixar seu valioso experimento em paz”. Preocupado, ele pensa. “E se eles vierem atrás de mim, ou pior, de Anneliese...?!”. Gunther se desfalece.

Ainda observando o aparelho, outra coisa o intriga. Anneliese nunca o ouviu tocando e nunca estava em casa quando ele o atendia. “Será que eu ainda estou louco?”, pergunta-se ele. “Será que o paradoxo dimensional incide apenas sobre mim?”. Em seguida ele se tranquiliza. A voz disse que apenas aqueles capazes de transpor os limites dimensionais necessitavam de uma âncora. A garota estava com ele, mas não parecia sofrer com sua influência.

“Pelo menos ela está a salvo dessa loucura”, alivia-se ele.

Pensando novamente, ele se pergunta:

“Ou não está?”.

Não querendo pensar a respeito, ele respira fundo e então vai dormir.

 

§

 

Amanhece em Berlim.

A garota se vira e vê que Gunther não estava ali. Sem se preocupar, ela simplesmente pensa que ele foi trabalhar. Descobrindo-se, ela intenta se levantar quando algo acontece.

O telefone toca sobre a mesa. Seus olhos se arregalam. Desde que se mudou para o apartamento do rapaz, ela nunca o ouviu tocar. Enxugando os olhos, ela se levanta e vai atende-lo.

Pegando o receptor, ela diz:

- Alô...?

Após alguns segundos de estática, o ruído se silencia e uma voz masculina diz:

- Bom dia, Anneliese. Como vai?

A garota se intriga.

- Quem é você?

De maneira obscura, a voz responde:

- Um amigo. O único que você terá daqui para frente.

 

quinta-feira, 15 de julho de 2021

Tiergarten - 35 - A Cerimônia Absurda

 


(Imagem do site simplesmenteberlim.com)

Vestindo um belíssimo traje preto, Gunther ajeita sua gravata borboleta e abana a si mesmo. Ele está barbeado e seus cabelos penteados. Seus sapatos estão devidamente engraxados. Mesmo os seus dentes foram escovados. Checando o bolso do paletó, ele encontra o que está procurando. Na palma de sua mão, ele vê uma caixinha de alianças. Abrindo-a, ele sorri.

O telefone toca. Atendendo-o, ele diz:

- Alô?

- Gunther, não se esqueça de se perfumar.

Franzindo a testa, ele responde:

- É claro. – levantando-se, ele se perfuma e então retorna ao telefone.

- Acho que agora sim está tudo certo.

Um pouco sem jeito, Gunther coça sua nuca e diz:

- Eu ficaria muito feliz... – convida ele – Se você também fosse... Sashenka.

Sorrindo, a voz responde:

- De novo me chamando assim? – ela espera um pouco antes de continuar – Gunther, você sabe que eu estarei lá. Mas não do jeito que está pensando.

Desanimado, o rapaz pergunta:

- Um dia eu irei te conhecer pessoalmente?

- Como eu disse, minha existência é diferente, adimensional, metafísica... Minha aparência o seu cérebro não pode compreender. Entretanto, minha voz é a única coisa que sua mente de limitada capacidade cognitiva distingue.

Gunther tem muita dificuldade em entender aquilo.

- Isso quer dizer que jamais nos encontraremos?

- De maneira alguma! – discorda ela – Eu sou sua âncora, lembra-se? Sem mim, sua matéria e sua mente se perderiam nas camadas extra dimensionais para sempre. Apenas eu posso te manter nesse corpo, nessa mente, nesse tempo.

O rapaz se confunde mais ainda. Porém, ponderando em suas palavras, ele sabe que existem outras versões suas, duplicatas ou doppelgängers, coexistindo paralelamente em outros planos, no passado, no presente e no futuro, vagando distintamente em suas infinitas escolhas, pela quarta e até a décima dimensão. Ou pelo menos existiam até ele causar uma guerra nuclear.

- Entendi, eu acho... – lamenta-se ele.

- Mas não se preocupe. – conforta ela – Eu estarei lá, mesmo que não possa me ver. Lá e em todos os lugares. Para sempre.

Então o rapaz sorri.

A porta de entrada se abre. Alguém entrou em seu apartamento. Indo até a sala checar, ele se assusta.

- Vamos, meu jovem. Se não você vai se atrasar.

Otto von Bismarck o chamava.

- Bismarck?! – intriga-se ele – Mas o que o senhor está fazendo aqui?

Rindo enquanto ajeita seu bigode, o chanceler responde:

- Pensou que eu perderia a chance de levar o noivo pessoalmente para a cerimônia?

Então Gunther ri também. O vaidoso Bismarck faria de tudo para continuar sendo o centro das atenções.

Passando pela porta, imediatamente o rapaz é teletransportado para o Tiergarten, o mesmo lugar onde ele viu sua mãe pela última vez.

Era uma bela tarde de primavera. Com o desabrochar das flores, os pássaros cantam e as borboletas voam. Apesar do conturbado período de transição, a Alemanha já havia se reunificado e a ameaça daquele hediondo muro fronteiriço não existia mais.

Em frente ao tronco onde ele encontrou a carta, Martinho Lutero lhe aguardava em seu púlpito. O monge havia preparado um altar. Caminhando sobre um tapete vermelho, ele vê os convidados e os não convidados, mas que estavam lá assim mesmo.

- Meus parabéns, Gunther.

Olhando para o lado, o rapaz reconhece a inconfundível face de um infame senhor.

- Adolf Hitler?!

O Führer vestia um belo terno e gravata, com seus cabelos penteados elegantemente para o lado. Desconcertado, o rapaz sente vontade de expulsa-lo, mas então algo acontece. Uma cachorra passa por suas pernas e ele imediatamente a reconhece.

- Blondie! – exclama ele.

A cachorra late e lhe oferece a pata. O rapaz se agacha e a acaricia alegremente, matando as saudades do adorável animal. Nesse momento Gunther percebe que, na quarta dimensão, onde Hitler estiver Blondie estará também.

O rapaz vê Philip Scheidemann, Albert Einstein e Karl Marx, todos com suas respectivas esposas. Com lenços vermelhos em seus pescoços, Karl Liebknecht e Rosa Luxemburg estão lá também e o cumprimentam.

Perto de uma árvore, o rapaz vê Friedrich Nietzsche. Atrás de seu volumoso bigode, o filósofo esconde  um triste sorriso. Nietzsche então diz:

- Que você tenha um casamento feliz que eu nunca tive.

Abatido, Gunther percebe que a solidão nunca deixara seu coração.

De repente, um homem com magníficos trajes nobres aparece. Espantado, o rapaz o reconhece. Acompanhado de seus servos, ele via o Imperador Maximiliano I do Sacro Império Romano Germânico.

Aproximando-se, o imperador diz:

- Prazer em revê-lo, estimado servo. Te desejo sinceras felicidades. Agora beije minha mão.

Confuso, Gunther não sabe o que fazer. Então Bismarck lhe dá uma cotovelada e, com o olhar, lhe indica o procedimento.

- É, claro, vossa alteza. Perdoe minha distração.

Curvando-se, o rapaz beija o valiosíssimo anel em sua mão.

Outra pessoa se aproxima e diz:

- Boa tarde, Gunther! Como vai?

Um homem vestido em um uniforme preto e quepe olha para ele. Enxergando sua braçadeira vermelha, o rapaz vê uma suástica.

- Não acredito... – sussurra ele – Theodor Eicke?!

- Meus parabéns!

Irando-se, Gunther o confronta:

- Você me matou!

Corrigindo-o, Eicke responde:

- Tecnicamente, não. Eu apenas ordenei a execução, mas não apertei o gatilho.

Ainda irado, o rapaz o acusa:

- Eu morri por sua culpa!

- Você parece bem vivo para mim.

- De qualquer forma... – insiste ele – Você foi o responsável pela minha morte!

- Ora, essa! Mas que assunto inconveniente! – protesta Eicke – Não foi você mesmo que disse que, nesse lugar onde houve morte, agora haveria vida? Por que tocar novamente nesse assunto?

Assentindo, os convidados concordam. Pressionado, o rapaz é obrigado a se acalmar.

- Certo, você pode ficar. Mas ordeno que tire essa braçadeira imediatamente.

Eicke sorri e, tirando-a, se afasta.

Um minuto depois, alguém se aproxima e então diz:

- Nos encontramos de novo, hein amigão?

Virando-se, ele se assusta.

- Erich Mielke?! – exclama ele – Mas como você sabia?

Com as mãos nos bolsos, o diretor da Stasi responde:

- Você realmente pensou que eu não iria saber?

Mielke sorri ironicamente. De fato, pensar que estaria livre da Stasi foi muita ingenuidade sua.

Além das ilustres figuras, Gunther também vê aqueles que ele cruzou pela quarta dimensão. Perto de algumas árvores, o rapaz vê os camponeses do século XVI, os milicianos da Freikorps, os camisas-marrons da S.A. e os membros da Antifaschistische Aktion. Ao lado do riacho, ele vê os revolucionários espartaquistas e os espiões da Stasi. Gunther se surpreende ao também ver os americanos e soviéticos do Checkpoint Charlie.

Totalmente confuso, ele não sabe o que dizer. Gunther vê comunistas com nazistas, nobres com vassalos, monarquistas com republicanos e cientistas com filósofos. Abismado, ele toca sua testa e pensa:

“Meu Deus! Que cerimônia de absurdos!”.

Aproximando-se do púlpito, Lutero o cumprimenta e então diz:

- Jovem Gunther, obrigado por me convidar para conduzir a cerimônia. É uma honra.

Recompondo-se, o rapaz enxuga o suor e responde:

- A honra é toda minha, senhor Lutero. Assim como o senhor pretendeu reformar o cristianismo, eu pretendi reformar a nação alemã.  

Pegando duas cartas, o monge as entrega e então diz:

- Dois dos seus convidados te mandaram essas cartas. Creio que sejam importantes.

O rapaz vê uma carta do Padre Ratzinger e outra de Erich Honecker. “Ora”, pensa ele. “Eu não convidei Honecker!”. Entretanto, ele lê assim mesmo.

O secretário-geral diz que não pôde ir à cerimônia porque estava no Chile. O rapaz sabe que Honecker não está de viagem, mas que se refugiou em Moscou e então no Chile para evitar ser julgado por seus crimes na Alemanha. Mas Gunther não se importa. Com a queda da Alemanha Oriental, ele já está satisfeito e feliz.

O Padre Ratzinger diz que não pôde ir por estar em Roma. O padre diz que pretende se tornar um cardeal, e lhe deseja muitas felicidades. Alegrando-se, o rapaz torce que, ao entrar para o conclave, Ratzinger possa se tornar o Papa um dia.

Ao vê-lo guardar as cartas, Lutero olha para Gunther e diz:

- Acho que agora podemos começar a cerimônia.

- Tem razão, monge. – interrompe Bismarck, entediado – Que comece o casamento!

O chanceler exclama, abrindo os braços. Gesticulando, ele dá o sinal aos músicos da corte do imperador. Os músicos erguem seus trompetes e começam a tocar o famoso hino de casamento.

De repente, uma porta na quarta dimensão se abre. No final do tapete, Anneliese surge em um maravilhoso vestido de noiva. Ao seu lado, outra figura ilustre a acompanhava. Era Ernst Thälmann, do qual ela tinha grande admiração.

De braços dados, os dois caminham em direção ao altar. Não conseguindo conter a alegria, Gunther se emociona e chora lentamente. A cada passo, o vestido de Anneliese brilhava. Seu véu, enfeitado com flores, encantava os convidados ao redor. Era como se o rapaz estivesse em um sonho. Pensando novamente, ele torce para que não fosse.

De braços dados com a garota, Thälmann se aproxima. O rapaz nota que ele levava sua boina de operário embaixo do braço. Passando-lhe Anneliese, o revolucionário diz:

- Felicidades.

Então ele se afasta e se junta aos demais convidados.

- Eu acho que nunca vou me acostumar com isso. – diz Anneliese.

A garota se referia à transposição dimensional do espaço-tempo.

Gunther olha para o lado e estranha que Bismarck ainda estava no altar. Notando-o, o chanceler diz:

- Não me olhe assim, meu jovem. Você não pretendia se casar sem um padrinho, não é mesmo?

O rapaz não o convidou para ser seu padrinho, mas acha muito engraçado Bismarck se auto convidar para o cargo.

Lutero ministra a cerimônia. Com Anneliese em seus braços, o rapaz espera ansiosamente ela terminar. Com pregações e admoestações bíblicas, o monge fala da responsabilidade e importância do casamento. 

Após as belas e inspiradoras palavras, Lutero pede as alianças. Apalpando-se, Gunther procura pela caixinha em seu paletó mas, assustando-se, não as encontra. Então ele se apavora.

- Algum problema, jovem Gunther? – pergunta o monge.

- As alianças... – suspira ele – Eu não estou encontrando as alianças...!

Enquanto treme intensamente, Bismarck o interrompe e então diz:

- Procurando por isso?

O chanceler lhe exibe a caixinha.

- Como, se elas estavam em meu bolso...? – intriga-se Gunther.

Dando de ombros, Bismarck decide não responder.

Espantado, mas aliviado, o rapaz pega a caixinha. O monge então pede:

- Gunther, ponha a aliança no dedo de Anneliese.

O rapaz então faz conforme ordenado. Em seguida, Lutero pede:

- Anneliese, ponha a aliança no dedo de Gunther.

Cuidadosamente, a garota põe a aliança em seu dedo.

- Se alguém tem algo contra esse matrimônio, fale agora ou cale-se para sempre.

Felizmente ninguém se manifesta.

Então o momento mais aguardado chega e Lutero honrosamente diz:

- Eu vos declaro marido e mulher. Gunther... – diz ele – Pode beijar a noiva.

Tremendo de nervoso, o rapaz se aproxima e, pegando a garota pela cintura, a beija suavemente.

Em gritos de euforia, os convidados comemoram atrás deles. As mulheres choram e batem palmas. Os músicos mudam o tom e começam a tocar músicas alegres. Finado o beijo, Gunther e Anneliese se viram e são aplaudidos pelos presentes.

Garrafas de champanhe são distribuídas e todos brindam e saúdam os recém casados. Os convidados se abraçam animadamente. Os espartaquistas abraçam os Freikorps, os camisas marrons abraçam os antifascistas, os americanos abraçam os soviéticos... Espantado, Gunther se desnorteia.

No meio da festa, Karl Marx e Adolf Hitler se encontram e se abraçam, alegres com o casamento. Boquiaberto e pálido como a neve, os olhos de Gunther se arregalam. 

- Gunther...?

O rapaz olha para o lado.

- Sim, Anneliese?

- Aconteceu alguma coisa?

- Não é nada. – responde ele.

Mas o espetáculo de bizarrices continua. O monarquista Bismarck abraça o republicano Scheidemann, o cristão Lutero abraça o anticristo Nietzsche , o comunista Mielke abraça o nazista Eicke... Transtornado, o rapaz pensa que vai desmaiar.

- É muita emoção, não?

Ao seu lado, Einstein falava com ele. Aproveitando que ele era um homem de ciência, o rapaz exasperadamente pergunta:

- Senhor Einstein! Mas o que é que está havendo aqui?

Tirando seu cachimbo da boca, o físico responde:

- O melhor dia de sua vida, oras!

Então Einstein sorri e volta a fumar novamente.

- Meu jovem, tem poucas pessoas aqui. – diz Bismarck, com uma taça de champanhe em sua mão – Pensei em chamar mais convidados para a festa.

Confuso, o rapaz pergunta:

- E quem seria?

Olhando para o parque, o chanceler diz:

- Podem chama-los!

De repente, dezenas de nudistas aparecem. Homens sem roupa se aproximam, correndo pela festa  ao balanço de  suas genitálias.

- Mas que absurdo é esse?! – protesta Gunther – Aqui não é um evento de nudismo!

- Não se preocupe. – tranquiliza Bismarck - Eles trouxeram comida e muita, mas muita cerveja alemã!

Indignado, o rapaz intenta expulsa-los, mas logo muda de ideia ao ver jovens mulheres  com os seios de fora.

Os nudistas preparam a mesa. Eles colocam pratos tipicamente alemães para os convidados comerem. As mulheres trazem o bolo, lindamente confeitado e com noivinhos em seu topo.

Ainda estarrecido, Gunther chama a garota e pergunta:

- Anneliese, você não se importa com isso?!

Mas ao olha-la, ela está virando uma garrafa inteira de champanhe na boca. Ao terminar, a garota enxuga seus lábios e, com olhares zonzos, pergunta:

- O quê...?     

Os convidados bebem excessivamente, embriagando-se. Karl Liebknecht se aproxima de Hitler e, oferecendo-lhe uma cerveja, pergunta:

- Ei, amigo! Quer uma garrafa?

Agradecendo-o, o Führer responde:

- Obrigado, eu não bebo!

Gunther está perplexo. Entregando-lhe uma cerveja, uma jovem nudista diz:

- Felicidades!

Mas o rapaz, desconcertado, comenta:

- Isso é uma pouca vergonha...!

Nietzsche se aproxima e, sorrindo, responde:

- E o que é vergonha? Um princípio moral criado a partir de uma doutrina religiosa judaico-cristã? A moral não existe! Se liberte dos ideais ascéticos! Seja um Super Homem!

O filósofo não estava bebendo, mas apoiava o exagero e a paixão carnal que o álcool lhes proporcionava.

Ao longe, Mielke, totalmente embriagado, conversa com Theodor Eicke.

- Devemos sufocar e reprimir duramente toda forma de oposição ao regime!

Sorrindo, Eicke o segura no ombro e responde:

- Concordo plenamente...!

E assim a bizarra festa continua, com nobres, monarquistas, comunistas e nazistas se divertindo.

Embriagado, Scheidemann se aproxima e diz:

- Quem é o bom companheiro? – abraçando-o fortemente, cerveja se derrama no traje do rapaz – Gunther é o bom companheiro!

Com o paletó ensopado, o rapaz diz:

- Senhor Scheidemann! Contenha-se!

Mas, ignorando-o, o social-democrata diz:

- Viva a República! - e então ele gargalha.

Com o buquê em uma mão e uma cerveja em outra, Anneliese dança com aquele bando de gente pelada. Envergonhado, o rapaz põe as mãos na cabeça e diz:

- Meu Deus... – lamenta-se ele – Meu Deus...

 

 

 


domingo, 11 de julho de 2021

Tiergarten - 34 - Tiergarten

 


O Tiergarten[1] surgiu no século XVI como um campo de caça particular dos nobres de Brandemburgo. Durante o Sacro Império Romano Germânico, os nobres intentaram criar um espaço para caçarem animais selvagens, e para isso reservaram uma parte da cidade, que futuramente se tornaria o famoso Tiergarten, para praticarem seu controverso esporte.

Friedrich Wilhelm I ordenou a construção da intersecção Der Große Stern[2]. Ela se localizava no centro do parque e futuramente abrigaria a suntuosa estátua de Siegessäule[3]. Mais tarde Friedrich o Grande, seu filho, mandou tirar as cercas que o isolavam, criando uma área conhecida como o Lustgarten[4]. E assim o parque foi se abrindo ao público.

Gunther e Anneliese caminham pela extensa Straße des 17 Juni. Esse nome é uma referência à revolta de 17 de junho de 1953, da qual dezenas de pessoas foram mortas em Berlim Oriental, inclusive Gunther e seus doppelgängers. “Foi nesse período”, lembra-se ele, “que a Stasi veio atrás de mim”. 

Os dois passam pelo grandioso Memorial de Guerra Soviético, um monumento construído pelos russos com pedaços da Chancelaria do Reich. Interessada, Anneliese se aproxima para contempla-lo melhor. Ela vê uma enorme estátua de um soldado russo, vitorioso e imponente sobre a capital alemã. Abaixo, ela vê um mural escrito em letras cirílicas. Em voz alta ela lê:

- Eterna glória aos heróis que caíram em batalha contra os invasores alemães fascistas, pela liberdade e independência da União Soviética.

Parado logo atrás, Gunther o contempla também. Ele viu um monumento parecido no parque Treptower. Lembrando-se do quão belos eram aqueles monumentos, ele pensa: “os russos realmente tinham um grande senso artístico...”. Durante a Batalha de Berlim, 80 mil soviéticos morreram, e aqueles memoriais serviam para que eles jamais fossem esquecidos.

- Um belo monumento... – comenta ela – Uma pena que não podíamos aprecia-lo antes.

De fato, ele foi construído no setor britânico de Berlim. Gunther não sabe por que os soviéticos o construíram além de seu território, mas sabe que muitos de seu exército morreram combatendo no Tiergarten. Apesar do entrave diplomático, os britânicos permitiram que eles continuassem realizando homenagens ali.

Avançando, eles chegam ao Große Stern, a grande rotatória que ligava as principais avenidas da cidade. Em seu centro eles avistam a Siegessäule, o monumento em homenagem à vitória na Segunda Guerra de Schleswig. Gunther se lembra que essa guerra, juntamente com as guerras contra os austríacos e os franceses, foram durante o governo Bismarck. “O altivo e aristocrático Bismarck...”, pensa ele, lembrando-se do carismático chanceler.

Diferente do Memorial de Guerra Soviético, Anneliese não demonstra muito interesse na Coluna da Vitória. Ao contrário, ela o contempla com certo desprezo, admirando, mas rejeitando aquele monumento dedicado à antiga nobreza prussiana.

A caminhada estava ficando longa e cansativa, mas Gunther não tinha a intenção de parar. No outro lado da avenida, ele vê seu objetivo, uma fachada de arquitetura asiática em frente ao zoológico de Berlim Ocidental. Animando-se, ele diz:

- Chegamos.

Enxugando o suor de seu rosto, a garota pergunta:

- Você queria vir ao zoológico?

- Não, exatamente. – esclarece ele – Há uma lugar aqui perto onde os nazistas construíram torres para a defesa antiaérea da cidade. Eu procuro pelo local onde foi construída a Torre G, ou “Torre do Zoológico” como ficou conhecida.

- Eu pensei que essa torre tivesse sido demolida nos anos 40.

- Os ingleses a demoliram, mas tiveram de tentar duas vezes. Acredito que o que eu procuro ainda esteja nesse local.

Ponderando, Anneliese pergunta:

- Você se refere ao que aconteceu com sua mãe?

Respirando fundo, ele responde:

- Sim.

Passados alguns segundos, a garota pergunta:

- Quer que eu vá com você?

Gunther olha para trás para responde-la.

- Dessa vez eu prefiro ir sozinho. Mas me prometa que estará aqui quando eu voltar.

Sorrindo, ela responde:

- Está bem. Eu prometo.

Satisfeito, Gunther diz:

- Te amo.

 

§

 

Berlim Ocidental havia crescido de tal maneira que fazia sua porção oriental parecer parada no tempo. Prédios altos e modernos são visíveis além das árvores. O gramado é vasto e há belos riachos. A paisagem era tão alegre que, se algum dia ali já existiu uma robusta torre de defesa antiaérea, era difícil dizer.

Olhando ao redor, Gunther vê crianças brincando e adultos passeando. Mas a cada passo as crianças se silenciavam e os adultos sumiam. Ao passar por algumas árvores, todo o parque ao redor se silencia. Estranhamente, os frequentadores haviam desaparecido. Nem mesmo o som abafado da cidade era ouvido. Nesse momento o rapaz percebe, ele se encontrava totalmente sozinho.

Não havia nenhum resquício da Torre G no zoológico, mas ele sente que estava no caminho certo. Avistando um pedaço de papel sobre um tronco, ele se aproxima e identifica uma carta. Surpreso, o rapaz reconhece a letra de sua mãe. Ele lê:

“Querido Gunther. Gostaria que soubesse que não encontrei o que estava procurando, mas estou bem. Não descobri o que aconteceu com meus pais, mas finalmente me reuni com eles. Espero que você me entenda. Foi exatamente nesse local onde os vi pela última vez. O local onde nos separamos para sempre. Aqui se encontrava a Torre G, da qual todos chamávamos de Torre do Zoológico. O Führer mandou construí-la após um bombardeio aéreo em 1941, mas o que não esperávamos era que, de uma edificação feita para a defesa contra ataques aéreos, também nos defendesse de ataques terrestres. Foi quando os russos vieram. Eu sei que nunca falava sobre isso, Gunther, mas eu estava aqui quando tudo aconteceu”.

Nesse momento, a realidade se revolve em um vórtice e as dimensões se reorganizam. À sua frente, um enorme monólito de concreto aparece, formando a austera Torre do Zoológico. Atônito, seus olhos se arregalam.

Aquela agradável e verdejante paisagem se foi. O que Gunther vê agora é uma paisagem devastada e arrasada pela guerra. Há grande alvoroço e correria em frente à torre. Milhares de pessoas buscam abrigo no local. No céu acima, aviões russos voam baixo, lançando bombas e destruindo a já arruinada Berlim.

Com bombas se explodindo pelo parque, os civis se desesperam. Na entrada da torre, Gunther vê soldados da Wehrmacht, Hitlerjugend e Volkssturm[5]. Os soldados estão abatidos e desmoralizados, mas tentam organizar o local. As tropas populares da Volkssturm os auxiliam, mas são quase ineficazes em seu trabalho. O rapaz vê crianças com botas e uniformes tão grandes que não as serviam. Mesmo os rifles Gewehr 43 eram quase de sua altura. Sabendo da sangrenta batalha que viria, o rapaz se espanta como os nazistas tiveram coragem de empregar crianças de até 10 anos na defesa da cidade.

“Um regime de bandidos”, pensa ele.

Na carta, ele lê:

“No dia 16 de abril de 1945 eles vieram. Bombas caíram de toda parte. Na superfície, nenhum lugar era seguro, a não ser nos porões dos prédios. Infelizmente, com a queda dos combalidos edifícios, muitos se soterraram lá embaixo. Meus pais se preocupavam tanto comigo que fariam tudo por mim. Eles jamais permitiriam que qualquer mal me ocorresse. Eu tinha apenas cinco anos na época, mas já experienciava tanto horror!”.

Em frente à torre, Gunther vê um casal e uma menininha de casaco vermelho. Espantado, ele a reconhece. Era sua mãe.

“Na cidade não havia comida ou água corrente. Quando fazia frio, não havia carvão para nos aquecermos. As pessoas vinham ao parque e cortavam as árvores, apanhando lenha para cozinhar e se aquecerem. Do belíssimo parque de outrora, nada sobrou, tudo foi devastado. Com os incessantes bombardeios, não era seguro sair ao ar livre. Então viemos à Torre do Zoológico atrás de comida e proteção. Mas quando chegamos, não havia mais espaço no abrigo”.

Do lado de fora, Gunther vê os berlinenses se digladiando para entrar na torre. No meio da confusão, alguns são espancados e pisoteados. Sua mãe chora aos berros ao ver seu pai, avô de Gunther, ser esmurrado e então pisoteado no chão. Sua avó tenta ajudar, mas alguém a empurra para longe e sua filha quase se solta de seus braços.

- Papai! – grita ela, ao ver o seu pai espancado no chão.

Em seguida, soldados da Wehrmacht aparecem e socorrem seu avô. Levando-o para a ala médica, sua avó e sua mãe os seguem e assim eles conseguem um lugar no disputado abrigo.

“A torre era fria e escura. Haviam seis andares, mais o porão. Os médicos cuidaram do meu pai no terceiro andar, mas logo o dispensaram devido ao enorme número de feridos na batalha. Então fomos mandados ao abrigo antiaéreo. O local foi projetado para acomodar quinze mil pessoas, mas chegando lá, haviam quase trinta”.

Teletransportado para dentro da torre, o rapaz vê sua mãe e avós percorrerem o local. No terceiro andar, Gunther vê o hospital abarrotado de feridos. No segundo andar, ele vê inestimáveis obras de arte, retiradas dos museus da cidade por precaução. Ao chegar ao abrigo, eles se apertam com as outras pessoas, todas desesperadas e feridas como eles. Em seus olhos, o rapaz pode ver que eles perderam tudo na guerra, não apenas suas casas e suas famílias, mas sua esperança e seu país.

“Espremidos e mal acomodados, os abrigados conseguiam fazer humor no meio daquele pranto. Acendendo velas no chão, nós observávamos atentamente a chama. Se ela se apagasse, nós imediatamente saíamos do abrigo, pois havia acabado o oxigênio”.

Gunther vê velas no chão. Se elas se apagassem antes de se esgotar a cera, as pessoas se cotovelavam até a saída, mesmo sob o risco de serem despedaçadas pelas bombas. Com sua mãe no colo de seu avô, eles saem e entram na torre. Durante aquelas duas semanas de batalha, eles repetem esse ato várias vezes, lutando para não morrerem sufocados.

“Não me lembro quantas vezes fizemos isso mas, ao sairmos, notamos que aqueles que ficaram para fora foram mortos pelas explosões. Seus corpos ficaram ao ar livre, envoltos de sangue, lama e poeira. Apesar de criança, jamais me esquecerei daquela cena. Ali haviam mulheres e crianças!”.

Ao voltarem ao abrigo, Gunther vê que as provisões estavam acabando. Um oficial da Wehrmacht aparece e, tranquilizando-os, afirma que o complexo era tão bem estocado com suprimentos e munição que, não importa o que acontecesse no resto de Berlim, a torre poderia aguentar por um ano se necessário.

“Eles estão chegando! Eles estão chegando! Alguém gritava isso inúmeras vezes no abrigo. Além da falta de ar, alguns não suportavam o confinamento e enlouqueciam. Novamente a vela se apaga. Temendo o sufocamento, nós nos levantamos e fomos para fora. Então dois soldados apareceram. Eles argumentam que minha vida era mais importante, sugerindo aos meus pais que saíssem do abrigo para que eu tivesse uma melhor chance de sobreviver. Eles lhes informam que há outro abrigo para adultos, e assim que os confrontos terminassem, nós nos reuniríamos novamente. Meus pais rejeitam a princípio mas, pensando no meu bem-estar, aceitam em seguida”.  

Dentro do abrigo, seus avós beijam e abraçam sua mãe, que chorava tristemente ao saber que eles iam embora. Seus avós prometem voltar, prometendo trazer inclusive um brinquedo. Aos prantos, sua mãe é deixada com uma enfermeira, então seus avós se despedem e deixam a torre. Sua mãe fica sozinha, abraçada ao seu ursinho e chorando a ausência de seus pais. Colocando as mãos no rosto, Gunther chora também.

“Eu fiquei sozinha, totalmente sozinha aqueles dias. Tentando nos dar esperança, os soldados falavam que o escritório de Goebbels ficava na torre, mas ele nunca foi para lá. Mais tarde, soubemos que ele havia ficado no bunker do Führer, suicidando-se em seguida. Um final esperado para aquele monstro. Durante dias e noites eu ouvia os canhões disparando no terraço. Seu fogo incessante me amedrontava, não me deixando dormir. Eu só queria que aquele pesadelo acabasse, mas os soldados diziam que estavam defendendo Berlim. Como eles defendiam, se quem os auxiliava eram crianças tão novas que mal calçavam suas botas?”.          

No alto da torre, Gunther vê os jovens soldados da Hitlerjugend carregando pesadas balas de canhão. De mangas dobradas em seus punhos e botas largas com cadarços desamarrados, elas bravamente auxiliavam a Wehrmacht. O rapaz via em seus semblantes o medo. A cada explosão inimiga elas choravam de desespero, mas os oficiais mais velhos as repreendiam duramente, mandando-as voltar ao trabalho. O coração de Gunther se desfalece em lágrimas.

“No dia 30 de abril o confronto finalmente termina. Os russos atacaram a torre, disparando todo o tipo de arma contra nós, mas a torre resistiu. Dessa maneira, eles propuseram nossa rendição, negociando os termos com a Wehrmacht. À meia-noite nós saímos do abrigo. Estava tão frio e escuro que eu só tremia. Eu achei que meus pais estariam lá para me receber, mas obviamente eles não estavam. E assim eu fui levada para o orfanato das crianças da guerra, esperando até que meus pais chegassem”.

A guerra havia acabado. A torre fica para trás. Apesar da Alemanha ter perdido, sua mãe finalmente estava à salvo daquela batalha sangrenta. Gunther soube do trágico estupro em massa cometido pelos russos, mas se alivia ao saber que sua mãe, ainda uma criança, não testemunhou essa indizível violência. No orfanato, roupas novas e limpas substituem seu velho casaco vermelho. Durantes meses ela esperou por seus pais, mas em nenhum obituário se via seus nomes. A esperança da menininha diminuía.

“Será que meus pais vão voltar? Eu pensava nisso constantemente. Então os aliados vieram e dividiram a cidade em zonas. Eu fiquei no lado soviético, na casa de parentes distantes que mal me conheciam. Cresci apática e sozinha. Anos depois descobri que haviam cemitérios de vítimas não identificadas no lado ocidental, mas era tarde demais para investiga-lo. O Ulbricht já havia isolado sua porção de Berlim”.

Aos treze anos, sua mãe assistia aos trabalhadores construírem um muro improvisado no centro da cidade. O Exército Vermelho fazia a guarda e impedia que as pessoas fugissem. Instalando arames farpados, o muro assemelhava-se a uma terrível trincheira.

“Por isso eu parti, Gunther. Eu precisava saber o que aconteceu com eles. Sei que você está sozinho, meu filho. Sei que seu pai também morreu. Mas eu não podia viver sem essa resposta. Eu tinha que saber. Como eu disse antes, esperei a vida todo por esse momento. Me perdoe, Gunther. Dessa vez você terá de continuar sem mim. E se não nos vermos novamente, me perdoe e adeus”.

Em 1947, os ingleses instalam dinamites na base da torre, finalmente realizando sua demolição. Assim, a austera torre que salvou a vida de sua mãe e de tantos outros na Batalha de Berlim chega ao fim.

Com a detonação das dinamites, a poeira se levanta e encobre o corpo de Gunther. Mas, suspenso na quarta dimensão, a poeira passa por ele e não lhe faz mal algum.

- Não... – lamenta-se Gunther – Eu não posso acreditar que você se foi...!

Com o rosto em terra, o rapaz chora intensamente. A carta permanece em sua mão, agora toda amassada em seu punho. Prostrado no chão, Gunther sente apenas vontade de morrer. Então algo acontece.

Alguém aparece entre a densa poeira. Parados em frente às ruínas da torre, o rapaz vê três pessoas olhando para ele. Gunther imediatamente as reconhece. Era seu avô, sua avó e sua mãe.

Bem mais jovem e não mais uma idosa, sua mãe olha para ele. Então ela sorri. De algum modo, Gunther entende que ela está bem. Acenando, ela se despede e, dando-lhe as costas, seus avós a abraçam e eles vão embora, sumindo em uma luz em seguida. Aliviado, suas lágrimas de tristeza se tornam lágrimas de alegria, pois naquele momento ele sente paz.

Minutos depois, Gunther vê um campo verdejante e crianças brincando ao longe. Ele havia voltado ao presente. No lugar da Flakturm[6] ele vê um alegre parque zoológico. “Ainda bem”, pensa ele. “Está melhor assim”.

De repente, alguém toca seu ombro e ele se assusta.

- Gunther? Você está bem?

Olhando para trás, o rapaz vê Anneliese. Ele enxuga os olhos e se levanta.

- Sim, meu anjo. Eu estou sim.

O rapaz sabe que, com a garota por perto, ele sempre estará bem.

Em sua mão ainda havia um pedaço de papel. Felizmente a carta se manteve no espaço-tempo.

- O que é isso? – pergunta ela.

- É a carta de minha mãe.

- É mesmo? – interessa-se ela – E você a encontrou?

- Não. – responde ele – Ela morreu há algum tempo.

A garota se consterna.

- Oh, Gunther...! Eu lamento muito!

O rapaz, porém, a interrompe, dizendo:

- Não, por favor não fique. Para a minha família, por muitos anos esse foi um local de morte. Dessa vez, ele será um local de vida.

Intrigada, Anneliese pergunta:

- O que quer dizer?

Pegando suas mãos, ele responde:

- Você verá.      

E então o rapaz a abraça e a leva dali.

 

 



[1] “Jardim de animais” em alemão

[2] “A grande estrela”

[3] “Coluna da vitória”

[4] “Jardim do prazer”

[5] “Tormenta do povo”

[6] Torre de defesa antiaérea

quinta-feira, 8 de julho de 2021

Tiergarten - 33 - Um Futuro Incerto

 


Em frente ao Portão de Brandenburgo, os berlinenses comemoram alegremente a abertura das fronteiras. A festa é divertida e muito animada, e todos sorriem, bebem e se abraçam pela cidade.

As pessoas se aglomeram em cima do muro, simbolicamente demonstrando ao mundo todo que a liberdade venceu a opressão, e que o desejo de ser livre subjugou aquele hediondo monumento construído para dividir pessoas e vidas.

Música alta e fogos de artifício animam a cidade, Wessis e Ossis atravessam livremente o Checkpoint Charlie, mas é em frente ao Portão de Brandemburgo, o ponto turístico mais conhecido de Berlim, onde as pessoas mais festejam.

Mas nem todos estão lá para festejar.

A alegre e histórica noite é contagiante. Gunther estava livre, finalmente livre para partir. Passando pelo Checkpoint Charlie, os Wessis lhe oferecem flores e champanhe e ele gentilmente aceita. Ele se surpreende como seus compatriotas ocidentais vestiam roupas melhores e eram mais gordinhos. Porém, atrás de seu sorriso alegre se escondia uma profunda tristeza que seus compatriotas ocidentais, claramente embriagados, não podiam perceber.

O rapaz caminhava sozinho, amedrontado e confuso pela “nova” cidade como uma criança sem mãe. E, de fato, era assim que ele se encontrava. Haviam tantas pessoas em frente ao muro que ele mal conseguia ver o Portão de Brandemburgo. Sob os estouros e cores dos fogos de artifício, o rapaz olha para a Straße des 17 Juni e vislumbra o tão esperado Tiergarten.

Lindamente iluminada, a Straße des 17 Juni estava abarrotada de gente. Aquela era a extensa via que ligava o leste e o oeste da cidade. Gunther sabia que não seria possível caminhar por ali aquela noite. Lágrimas se escorrem de seus olhos, mas ele sabia que aquela noite não era sua, mas sim das milhares de famílias berlinenses que foram separadas pelo tirânico socialismo. Diferente dos outros, Gunther não teve entes queridos baleados e mortos tentando atravessar o muro. Enxugando seus olhos, ele se vira e volta para casa.

Com as mãos nos bolsos, Gunther passa pelos festivos e percorre as avenidas próximas à Alexanderplatz. Sob a fria noite, ele caminha silenciosamente até se deparar com algo estranho. Ajoelhada próxima ao muro, uma mulher chora tristemente com as mãos no rosto. Reconhecendo-a, ele exclama:

- É Anneliese!

Correndo em sua direção, ele se agacha ao seu lado e pergunta:

- Anneliese, está tudo bem?      

Com olhos avermelhados, a garota olha para ele e diz:

- Gunther...?

O rapaz tira seu casaco e a veste.

- Aconteceu alguma coisa?

Rindo com ironia, a garota responde:

- “Alguma coisa...?!” – indigna-se ela – Gunther, por acaso vive em outro mundo? Olhe ao seu redor! Meu país desfaleceu!

Anneliese gritava com ele. Ela estava muito nervosa e instável. Ponderando, o rapaz é meticuloso ao comentar:

- Sim, o país realmente caiu.

- Olhe para essas pessoas! – aponta ela – Elas estão tão satisfeitas e felizes! Comemorando injustamente a queda do maior exemplo sociopolítico que já existiu!

E então ela chora. A garota estava indignada com a festa da reunificação alemã. Gunther tenta consola-la.

- Anneliese, o país ainda não acabou. As fronteiras foram abertas, só isso. Amanhã tudo voltará ao normal e viveremos felizes como antes.

- São traidores da revolução alemã! – exclama ela, irritada – Tantos anos de educação ideológica para virarem as costas ao governo popular que os habitava, educava e alimentava suas crianças!

Consternado, o rapaz pergunta:

- Você não crê que tudo voltará a ser como antes?

- Veja seus semblantes... – comenta ela – Eles jamais aceitarão o fechamento das fronteiras de novo. Provocarão uma contrarrevolução antissocialista com o apoio material e financeiro do capitalismo. Tolos e insensatos! Se ao menos tivessem esperado uma solução que Egon Krenz pudesse nos trazer.    

O rapaz insiste.

- Talvez ainda dê tempo de ele trazer uma solução ao problema.

- Não... – lamenta-se ela – É tarde demais. Se os anos de educação ideológica não foram o suficiente, não é a ação de uma líder impopular e odiado que será. Se ao menos o povo ouvisse os ideólogos do partido, eles não estariam fugindo para o ocidente agora, e sim os ocidentais fazendo o contrário. 

Apesar da clara vontade popular, Anneliese ainda se agarrava ao socialismo.

Enquanto pensa a respeito, inesperadamente a garota se aproxima e chora em seu ombro. Surpreso, o rapaz se imobiliza e não sabe o que fazer. Então ele lentamente passa o braço ao redor dela e, com a outra mão, acaricia seus cabelos. 

Após alguns minutos, Anneliese finalmente diz:

- Gunther, me leve para sua casa.

Arregalando os olhos, o rapaz não compreende.

- O quê?

- Eu não quero ficar sozinha essa noite. – explica ela – Por favor, Gunther. Me leve para casa.

Agora mil vezes mais surpreso, o rapaz mal consegue acreditar no que ouve. Com as pernas trêmulas, ele responde com dificuldade:

- Está bem.

Levantando-a, os dois caminham e deixam a multidão para trás.

 

§

 

Ao abrir a porta de seu apartamento, o rapaz acende a luz e ambos entram. Vestida com seu casaco, Anneliese olha ao redor e observa sua casa. Aproximando-se da janela, ela vê abaixo o Muro de Berlim. Gunther morava em frente à contenção que ela se esforçava para manter.

- Eu vou fazer o café. – diz ele e então vai para a cozinha.

- Por favor – interrompe ela – Eu prefiro um chá.

Preocupado, o rapaz assente e caminha. Nesse momento ele torce para que a Stasi tenha sido novamente desagradável de ter colocado chá em seu armário.  

Na sala, a garota observa a estante e vê uma série de objetos incomuns. Ela então pergunta:

- O que é isso?

Retornando à sala, Anneliese segurava um elmo prussiano. Na estante ela via uma coleira escrito “Blondie”, uma bíblia protestante do século XVI, um brasão do Sacro Império Romano Germânico, um panfleto de convocação para a Grande Guerra e uma braçadeira nazista.

Pegando a braçadeira, ela diz:

- Gunther... Você é nazista...?

Sabendo como os comunistas eram inimigos ferozes do nazismo, ele pensa em como explicar que aquilo era uma relíquia trazida da década de 30 pela quarta dimensão.

- Eu...

- Não importa. – interrompe ela – Após essa noite, não tenho mais esperança no povo alemão.

Colocando-a de volta, ela continua observando as outras relíquias. Anneliese vê um cartão postal do Palast der Republik, um panfleto da Antifaschistische Aktion e uma cópia da constituição de Weimar. Mais abaixo, ela vê um lenço vermelho da Liga Espartaquista, o livro “Assim Falou Zaratustra” de Nietzsche, uma pasta de documentos da Stasi e o livro “O Capital” de Karl Marx.

Pegando o livro, ela confusamente pergunta:

- Você também é comunista?

Na verdade, Gunther odeia o socialismo e a impraticável utopia comunista.

- Sou apenas um estudante. – improvisa ele.

Continuando sua observância, Anneliese vê um cachimbo escrito Einstein, um óculos com as siglas E.H., uma estampa do exército americano e, finalmente, um panfleto da Liga das Mulheres Democráticas Alemãs.

Pegando o panfleto, ela pergunta:

- Esse panfleto é idêntico ao que eu distribuí no Friedrich-Ludwig-Jahn-Stadion.

Disfarçando, o rapaz sabe que aquele é exatamente o mesmo que ele recebeu aquela tarde. Ele tem medo de dizê-la, pois teme que Anneliese o ache um perseguidor tarado. De qualquer forma, o rapaz jamais o jogou fora e, se depender dele, jamais o jogará.

Olhando para o rapaz, ela comenta:

- Você é um tremendo colecionador, não?

Sorrindo, Gunther responde:

- Não importa o quanto eu tente, eu não consigo me livrar dessas coisas.

Anneliese também sorri. Mal sabe ela que, de fato, sempre que o rapaz as jogava fora, elas voltavam ao seu apartamento.

Em seguida, o rapaz lhe mostra o seu quarto. A garota olha ao redor e se aproxima da janela. Estranhamente naquela noite a torre de vigilância não ligou o holofote. “Não havia mais necessidade”, pensa ele. Anneliese retorna e então nota o estranho telefone.

- Você tem uma linha particular de telefone?

Gunther não sabe o que responder. Ele não sabe como o aparelho foi parar ali.

- Não exatamente...

- Você deve ser um oficial do governo para ter uma linha ou, na pior das hipóteses, ser muito rico.

A garota praticamente o acusa. Não haviam ricos na Alemanha Oriental, a não ser que você fosse do governo, da máfia ou do próprio ocidente. Gunther sacode os ombros, recusando-se a responder.

Ligando a TV na sala, a programação noticiava apenas a abertura da fronteira alemã. Em todos os canais, tanto ocidentais quanto orientais, não se falava em outra coisa. Lágrimas escorriam do rosto de Anneliese, mas ela não diz uma única palavra.

Vendo as horas no relógio, o rapaz se espanta. Eram quase duas da manhã. Arrumando sua cama, ele a oferece para dormir e então se dirige ao sofá. A garota se deita e rapidamente adormece. Parando na porta, ele discretamente a observa. Não havia dúvidas em seu coração, Gunther a amava intensamente.

Voltando à sala, ele se deita no sofá e dorme também.

 

§

 

Amanhece o novo dia. Anneliese acorda lentamente ouvindo sons vindos das ruas. Olhando para a janela, ela nota que os berlinenses ainda festejavam lá fora. Mas era outra coisa que a incomodava. Virando-se, ela apalpa a cama e nota que dormiu sozinha. Intrigada, ela se levanta e caminha até a sala.

Roncando suavemente, Gunther dormia de mal jeito no sofá. Metade de seu corpo estava descoberto, mas, com a garota em casa, ele preferiu dormir vestido. Anneliese se aproxima e, tocando em seu ombro, o acorda.

- Gunther...?

O rapaz abre os olhos. Ao vê-la, seu coração se aquece e ele instintivamente sorri.

- Bom dia, Anneliese.

- Gunther... – sussurra ela – Você dormiu na sala... Por quê?

Sentando-se, ele segura sua mão e diz:

- Porque eu não eu não quero você por uma noite, por uns dias ou mesmo por alguns anos. Eu quero você para sempre.

Com a surpreendente resposta, Anneliese sorri. Mas, lembrando-se da noite anterior, ela responde com desprezo:

- Para sempre agora que nosso país caiu e nosso futuro nos parece tão incerto?

Ela se referia à possibilidade da Alemanha Oriental ser absorvida pelo Ocidente e ser governada sob um único sistema capitalista.

Gunther responde:

- Com certeza.

Suspirando, ela diz:

- Não sei se terei forças para passar por isso sozinha.

Levantando-se rapidamente, o rapaz diz:

- Então case-se comigo! – sorri ele, empolgadamente – Você não precisa ficar sozinha. Case-se comigo e passaremos por essas mudanças juntos!

A garota não sabe o que responder.

- Casar-se...?

- Sim! – confirma ele – Sua família ficou em Dresden e minha mãe partiu para o ocidente. Ambos estamos sozinhos nesse momento tão incerto da história alemã. Mas não precisamos estar! Poderemos ficar juntos para sempre se você aceitar se casar comigo!

Ainda surpresa, ela diz:

- Mas... Casamento?

- Não foi isso o que você me prometeu na quarta dimensão?

Gunther referia-se à dimensão de céu ensolarado onde Anneliese prometeu que se casaria caso o socialismo caísse.

Intrigando-se, ela pergunta:

- Quarta dimensão...?

A garota não fazia ideia do que ele estava falando. Preocupado, Gunther se pergunta se aquela conversa realmente aconteceu.

Anneliese passa a mão em seu braço esquerdo e olha para o lado, confusa. Percebendo que em sua mente ainda havia muita indecisão, o rapaz se desanima, coçando sua nuca em seguida. Triste e cabisbaixo, ele tenta mudar de assunto.

- Você quer chá?

- Eu aceito.

Assentindo, ele se vira e se dirige à cozinha. De repente a garota segura seu braço e o puxa de volta.

- Não!

Gunther se confunde.

- Mas você não disse que queria chá?

Batendo a mão em sua testa, a garota responde:

- Não, seu bobo! Eu disse que aceito me casar com você!

Arregalando os olhos, o rapaz não consegue acreditar no que ouve.

- O quê...? – gagueja ele – Você disse que aceita...?

Sem abrir a boca, Anneliese apenas move a cabeça, sinalizando que sim.

Abrindo um sincero e caloroso sorriso, o rapaz a agarra pela cintura e a ergue em seus braços, girando-a em um alegre abraço no meio da sala. Ele ri alegremente enquanto a garota grita de medo, mas divertindo-se também. Ao desce-la, Gunther a abraça e finalmente a beija, fazendo as próprias bases da realidade se estremecerem ao redor de si. As paredes saem do lugar, o piso treme e o teto revira-se sobrenaturalmente, contorcendo as três dimensões. Mas o rapaz não se importa. Para ele o mundo podia acabar naquele momento.

Após longos e prazerosos segundos, Gunther abre os olhos e, tranquilizando-se, percebe:  a realidade havia permanecido. Mas, principalmente, Anneliese em seus braços. Ele então suspira de alívio.

- Você está bem? – pergunta ela.

- Sim. – responde ele, rapidamente – Eu apenas estou emocionado.

- O que vamos fazer agora?

- Nos casar o mais rápido possível! – brada ele – Nessa Alemanha, na outra Alemanha ou nas duas se for preciso! Tenho pressa para que você seja minha... Eu te amo tanto, tanto, tanto...! – empolga-se – Essa será a primeira coisa que eu vou fazer... – e então ele amargamente se lembra – Ah, não...

- Algum problema? – preocupa-se ela.

Pesaroso, ele desvia o olhar.

- Há uma coisa que eu preciso fazer antes.

Fechando os olhos, o rapaz se lembra de sua mãe.

Lembrando-se que a garota tinha aversão ao ocidente, ele segura suas mãos e cuidadosamente pergunta:

- Anneliese, você se importaria de ir à Berlim Ocidental comigo?

Intrigada, ela ergue a sobrancelha.

- Berlim Ocidental? Por que você quer ir para lá?

Preocupado, mas cheio de determinação, o rapaz responde:

- Há um lugar lá que eu devo ir.

Ainda confusa, ela insiste:

- Onde?

- Tiergarten.

   

 

 

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