quinta-feira, 15 de julho de 2021

Tiergarten - 35 - A Cerimônia Absurda

 


(Imagem do site simplesmenteberlim.com)

Vestindo um belíssimo traje preto, Gunther ajeita sua gravata borboleta e abana a si mesmo. Ele está barbeado e seus cabelos penteados. Seus sapatos estão devidamente engraxados. Mesmo os seus dentes foram escovados. Checando o bolso do paletó, ele encontra o que está procurando. Na palma de sua mão, ele vê uma caixinha de alianças. Abrindo-a, ele sorri.

O telefone toca. Atendendo-o, ele diz:

- Alô?

- Gunther, não se esqueça de se perfumar.

Franzindo a testa, ele responde:

- É claro. – levantando-se, ele se perfuma e então retorna ao telefone.

- Acho que agora sim está tudo certo.

Um pouco sem jeito, Gunther coça sua nuca e diz:

- Eu ficaria muito feliz... – convida ele – Se você também fosse... Sashenka.

Sorrindo, a voz responde:

- De novo me chamando assim? – ela espera um pouco antes de continuar – Gunther, você sabe que eu estarei lá. Mas não do jeito que está pensando.

Desanimado, o rapaz pergunta:

- Um dia eu irei te conhecer pessoalmente?

- Como eu disse, minha existência é diferente, adimensional, metafísica... Minha aparência o seu cérebro não pode compreender. Entretanto, minha voz é a única coisa que sua mente de limitada capacidade cognitiva distingue.

Gunther tem muita dificuldade em entender aquilo.

- Isso quer dizer que jamais nos encontraremos?

- De maneira alguma! – discorda ela – Eu sou sua âncora, lembra-se? Sem mim, sua matéria e sua mente se perderiam nas camadas extra dimensionais para sempre. Apenas eu posso te manter nesse corpo, nessa mente, nesse tempo.

O rapaz se confunde mais ainda. Porém, ponderando em suas palavras, ele sabe que existem outras versões suas, duplicatas ou doppelgängers, coexistindo paralelamente em outros planos, no passado, no presente e no futuro, vagando distintamente em suas infinitas escolhas, pela quarta e até a décima dimensão. Ou pelo menos existiam até ele causar uma guerra nuclear.

- Entendi, eu acho... – lamenta-se ele.

- Mas não se preocupe. – conforta ela – Eu estarei lá, mesmo que não possa me ver. Lá e em todos os lugares. Para sempre.

Então o rapaz sorri.

A porta de entrada se abre. Alguém entrou em seu apartamento. Indo até a sala checar, ele se assusta.

- Vamos, meu jovem. Se não você vai se atrasar.

Otto von Bismarck o chamava.

- Bismarck?! – intriga-se ele – Mas o que o senhor está fazendo aqui?

Rindo enquanto ajeita seu bigode, o chanceler responde:

- Pensou que eu perderia a chance de levar o noivo pessoalmente para a cerimônia?

Então Gunther ri também. O vaidoso Bismarck faria de tudo para continuar sendo o centro das atenções.

Passando pela porta, imediatamente o rapaz é teletransportado para o Tiergarten, o mesmo lugar onde ele viu sua mãe pela última vez.

Era uma bela tarde de primavera. Com o desabrochar das flores, os pássaros cantam e as borboletas voam. Apesar do conturbado período de transição, a Alemanha já havia se reunificado e a ameaça daquele hediondo muro fronteiriço não existia mais.

Em frente ao tronco onde ele encontrou a carta, Martinho Lutero lhe aguardava em seu púlpito. O monge havia preparado um altar. Caminhando sobre um tapete vermelho, ele vê os convidados e os não convidados, mas que estavam lá assim mesmo.

- Meus parabéns, Gunther.

Olhando para o lado, o rapaz reconhece a inconfundível face de um infame senhor.

- Adolf Hitler?!

O Führer vestia um belo terno e gravata, com seus cabelos penteados elegantemente para o lado. Desconcertado, o rapaz sente vontade de expulsa-lo, mas então algo acontece. Uma cachorra passa por suas pernas e ele imediatamente a reconhece.

- Blondie! – exclama ele.

A cachorra late e lhe oferece a pata. O rapaz se agacha e a acaricia alegremente, matando as saudades do adorável animal. Nesse momento Gunther percebe que, na quarta dimensão, onde Hitler estiver Blondie estará também.

O rapaz vê Philip Scheidemann, Albert Einstein e Karl Marx, todos com suas respectivas esposas. Com lenços vermelhos em seus pescoços, Karl Liebknecht e Rosa Luxemburg estão lá também e o cumprimentam.

Perto de uma árvore, o rapaz vê Friedrich Nietzsche. Atrás de seu volumoso bigode, o filósofo esconde  um triste sorriso. Nietzsche então diz:

- Que você tenha um casamento feliz que eu nunca tive.

Abatido, Gunther percebe que a solidão nunca deixara seu coração.

De repente, um homem com magníficos trajes nobres aparece. Espantado, o rapaz o reconhece. Acompanhado de seus servos, ele via o Imperador Maximiliano I do Sacro Império Romano Germânico.

Aproximando-se, o imperador diz:

- Prazer em revê-lo, estimado servo. Te desejo sinceras felicidades. Agora beije minha mão.

Confuso, Gunther não sabe o que fazer. Então Bismarck lhe dá uma cotovelada e, com o olhar, lhe indica o procedimento.

- É, claro, vossa alteza. Perdoe minha distração.

Curvando-se, o rapaz beija o valiosíssimo anel em sua mão.

Outra pessoa se aproxima e diz:

- Boa tarde, Gunther! Como vai?

Um homem vestido em um uniforme preto e quepe olha para ele. Enxergando sua braçadeira vermelha, o rapaz vê uma suástica.

- Não acredito... – sussurra ele – Theodor Eicke?!

- Meus parabéns!

Irando-se, Gunther o confronta:

- Você me matou!

Corrigindo-o, Eicke responde:

- Tecnicamente, não. Eu apenas ordenei a execução, mas não apertei o gatilho.

Ainda irado, o rapaz o acusa:

- Eu morri por sua culpa!

- Você parece bem vivo para mim.

- De qualquer forma... – insiste ele – Você foi o responsável pela minha morte!

- Ora, essa! Mas que assunto inconveniente! – protesta Eicke – Não foi você mesmo que disse que, nesse lugar onde houve morte, agora haveria vida? Por que tocar novamente nesse assunto?

Assentindo, os convidados concordam. Pressionado, o rapaz é obrigado a se acalmar.

- Certo, você pode ficar. Mas ordeno que tire essa braçadeira imediatamente.

Eicke sorri e, tirando-a, se afasta.

Um minuto depois, alguém se aproxima e então diz:

- Nos encontramos de novo, hein amigão?

Virando-se, ele se assusta.

- Erich Mielke?! – exclama ele – Mas como você sabia?

Com as mãos nos bolsos, o diretor da Stasi responde:

- Você realmente pensou que eu não iria saber?

Mielke sorri ironicamente. De fato, pensar que estaria livre da Stasi foi muita ingenuidade sua.

Além das ilustres figuras, Gunther também vê aqueles que ele cruzou pela quarta dimensão. Perto de algumas árvores, o rapaz vê os camponeses do século XVI, os milicianos da Freikorps, os camisas-marrons da S.A. e os membros da Antifaschistische Aktion. Ao lado do riacho, ele vê os revolucionários espartaquistas e os espiões da Stasi. Gunther se surpreende ao também ver os americanos e soviéticos do Checkpoint Charlie.

Totalmente confuso, ele não sabe o que dizer. Gunther vê comunistas com nazistas, nobres com vassalos, monarquistas com republicanos e cientistas com filósofos. Abismado, ele toca sua testa e pensa:

“Meu Deus! Que cerimônia de absurdos!”.

Aproximando-se do púlpito, Lutero o cumprimenta e então diz:

- Jovem Gunther, obrigado por me convidar para conduzir a cerimônia. É uma honra.

Recompondo-se, o rapaz enxuga o suor e responde:

- A honra é toda minha, senhor Lutero. Assim como o senhor pretendeu reformar o cristianismo, eu pretendi reformar a nação alemã.  

Pegando duas cartas, o monge as entrega e então diz:

- Dois dos seus convidados te mandaram essas cartas. Creio que sejam importantes.

O rapaz vê uma carta do Padre Ratzinger e outra de Erich Honecker. “Ora”, pensa ele. “Eu não convidei Honecker!”. Entretanto, ele lê assim mesmo.

O secretário-geral diz que não pôde ir à cerimônia porque estava no Chile. O rapaz sabe que Honecker não está de viagem, mas que se refugiou em Moscou e então no Chile para evitar ser julgado por seus crimes na Alemanha. Mas Gunther não se importa. Com a queda da Alemanha Oriental, ele já está satisfeito e feliz.

O Padre Ratzinger diz que não pôde ir por estar em Roma. O padre diz que pretende se tornar um cardeal, e lhe deseja muitas felicidades. Alegrando-se, o rapaz torce que, ao entrar para o conclave, Ratzinger possa se tornar o Papa um dia.

Ao vê-lo guardar as cartas, Lutero olha para Gunther e diz:

- Acho que agora podemos começar a cerimônia.

- Tem razão, monge. – interrompe Bismarck, entediado – Que comece o casamento!

O chanceler exclama, abrindo os braços. Gesticulando, ele dá o sinal aos músicos da corte do imperador. Os músicos erguem seus trompetes e começam a tocar o famoso hino de casamento.

De repente, uma porta na quarta dimensão se abre. No final do tapete, Anneliese surge em um maravilhoso vestido de noiva. Ao seu lado, outra figura ilustre a acompanhava. Era Ernst Thälmann, do qual ela tinha grande admiração.

De braços dados, os dois caminham em direção ao altar. Não conseguindo conter a alegria, Gunther se emociona e chora lentamente. A cada passo, o vestido de Anneliese brilhava. Seu véu, enfeitado com flores, encantava os convidados ao redor. Era como se o rapaz estivesse em um sonho. Pensando novamente, ele torce para que não fosse.

De braços dados com a garota, Thälmann se aproxima. O rapaz nota que ele levava sua boina de operário embaixo do braço. Passando-lhe Anneliese, o revolucionário diz:

- Felicidades.

Então ele se afasta e se junta aos demais convidados.

- Eu acho que nunca vou me acostumar com isso. – diz Anneliese.

A garota se referia à transposição dimensional do espaço-tempo.

Gunther olha para o lado e estranha que Bismarck ainda estava no altar. Notando-o, o chanceler diz:

- Não me olhe assim, meu jovem. Você não pretendia se casar sem um padrinho, não é mesmo?

O rapaz não o convidou para ser seu padrinho, mas acha muito engraçado Bismarck se auto convidar para o cargo.

Lutero ministra a cerimônia. Com Anneliese em seus braços, o rapaz espera ansiosamente ela terminar. Com pregações e admoestações bíblicas, o monge fala da responsabilidade e importância do casamento. 

Após as belas e inspiradoras palavras, Lutero pede as alianças. Apalpando-se, Gunther procura pela caixinha em seu paletó mas, assustando-se, não as encontra. Então ele se apavora.

- Algum problema, jovem Gunther? – pergunta o monge.

- As alianças... – suspira ele – Eu não estou encontrando as alianças...!

Enquanto treme intensamente, Bismarck o interrompe e então diz:

- Procurando por isso?

O chanceler lhe exibe a caixinha.

- Como, se elas estavam em meu bolso...? – intriga-se Gunther.

Dando de ombros, Bismarck decide não responder.

Espantado, mas aliviado, o rapaz pega a caixinha. O monge então pede:

- Gunther, ponha a aliança no dedo de Anneliese.

O rapaz então faz conforme ordenado. Em seguida, Lutero pede:

- Anneliese, ponha a aliança no dedo de Gunther.

Cuidadosamente, a garota põe a aliança em seu dedo.

- Se alguém tem algo contra esse matrimônio, fale agora ou cale-se para sempre.

Felizmente ninguém se manifesta.

Então o momento mais aguardado chega e Lutero honrosamente diz:

- Eu vos declaro marido e mulher. Gunther... – diz ele – Pode beijar a noiva.

Tremendo de nervoso, o rapaz se aproxima e, pegando a garota pela cintura, a beija suavemente.

Em gritos de euforia, os convidados comemoram atrás deles. As mulheres choram e batem palmas. Os músicos mudam o tom e começam a tocar músicas alegres. Finado o beijo, Gunther e Anneliese se viram e são aplaudidos pelos presentes.

Garrafas de champanhe são distribuídas e todos brindam e saúdam os recém casados. Os convidados se abraçam animadamente. Os espartaquistas abraçam os Freikorps, os camisas marrons abraçam os antifascistas, os americanos abraçam os soviéticos... Espantado, Gunther se desnorteia.

No meio da festa, Karl Marx e Adolf Hitler se encontram e se abraçam, alegres com o casamento. Boquiaberto e pálido como a neve, os olhos de Gunther se arregalam. 

- Gunther...?

O rapaz olha para o lado.

- Sim, Anneliese?

- Aconteceu alguma coisa?

- Não é nada. – responde ele.

Mas o espetáculo de bizarrices continua. O monarquista Bismarck abraça o republicano Scheidemann, o cristão Lutero abraça o anticristo Nietzsche , o comunista Mielke abraça o nazista Eicke... Transtornado, o rapaz pensa que vai desmaiar.

- É muita emoção, não?

Ao seu lado, Einstein falava com ele. Aproveitando que ele era um homem de ciência, o rapaz exasperadamente pergunta:

- Senhor Einstein! Mas o que é que está havendo aqui?

Tirando seu cachimbo da boca, o físico responde:

- O melhor dia de sua vida, oras!

Então Einstein sorri e volta a fumar novamente.

- Meu jovem, tem poucas pessoas aqui. – diz Bismarck, com uma taça de champanhe em sua mão – Pensei em chamar mais convidados para a festa.

Confuso, o rapaz pergunta:

- E quem seria?

Olhando para o parque, o chanceler diz:

- Podem chama-los!

De repente, dezenas de nudistas aparecem. Homens sem roupa se aproximam, correndo pela festa  ao balanço de  suas genitálias.

- Mas que absurdo é esse?! – protesta Gunther – Aqui não é um evento de nudismo!

- Não se preocupe. – tranquiliza Bismarck - Eles trouxeram comida e muita, mas muita cerveja alemã!

Indignado, o rapaz intenta expulsa-los, mas logo muda de ideia ao ver jovens mulheres  com os seios de fora.

Os nudistas preparam a mesa. Eles colocam pratos tipicamente alemães para os convidados comerem. As mulheres trazem o bolo, lindamente confeitado e com noivinhos em seu topo.

Ainda estarrecido, Gunther chama a garota e pergunta:

- Anneliese, você não se importa com isso?!

Mas ao olha-la, ela está virando uma garrafa inteira de champanhe na boca. Ao terminar, a garota enxuga seus lábios e, com olhares zonzos, pergunta:

- O quê...?     

Os convidados bebem excessivamente, embriagando-se. Karl Liebknecht se aproxima de Hitler e, oferecendo-lhe uma cerveja, pergunta:

- Ei, amigo! Quer uma garrafa?

Agradecendo-o, o Führer responde:

- Obrigado, eu não bebo!

Gunther está perplexo. Entregando-lhe uma cerveja, uma jovem nudista diz:

- Felicidades!

Mas o rapaz, desconcertado, comenta:

- Isso é uma pouca vergonha...!

Nietzsche se aproxima e, sorrindo, responde:

- E o que é vergonha? Um princípio moral criado a partir de uma doutrina religiosa judaico-cristã? A moral não existe! Se liberte dos ideais ascéticos! Seja um Super Homem!

O filósofo não estava bebendo, mas apoiava o exagero e a paixão carnal que o álcool lhes proporcionava.

Ao longe, Mielke, totalmente embriagado, conversa com Theodor Eicke.

- Devemos sufocar e reprimir duramente toda forma de oposição ao regime!

Sorrindo, Eicke o segura no ombro e responde:

- Concordo plenamente...!

E assim a bizarra festa continua, com nobres, monarquistas, comunistas e nazistas se divertindo.

Embriagado, Scheidemann se aproxima e diz:

- Quem é o bom companheiro? – abraçando-o fortemente, cerveja se derrama no traje do rapaz – Gunther é o bom companheiro!

Com o paletó ensopado, o rapaz diz:

- Senhor Scheidemann! Contenha-se!

Mas, ignorando-o, o social-democrata diz:

- Viva a República! - e então ele gargalha.

Com o buquê em uma mão e uma cerveja em outra, Anneliese dança com aquele bando de gente pelada. Envergonhado, o rapaz põe as mãos na cabeça e diz:

- Meu Deus... – lamenta-se ele – Meu Deus...

 

 

 


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