De pé em seu quarto, Gunther o encontra
escuro e abafado. Era mês de abril, seis meses após a Reunificação Alemã. A luz
atravessa a persiana, mas não vinha mais do holofote da torre de vigia. O Muro
de Berlim havia sido demolido e, dessa vez, a luz vinha dos alegres letreiros
das multinacionais capitalistas. Então ele se afasta.
Gunther se senta em sua nova e confortável
poltrona. Apalpando-a, ele se lembra que foi Anneliese quem o convenceu a
compra-la. A garota queria redecorar sua casa e o rapaz permite sem se importar.
Ela está dormindo em sua cama agora e, ao ver os cabelos em seu rosto, o rapaz os
afasta e a deixa dormir.
Pegando um maço de cigarros, ele pensa em
fumar, mas, mudando de ideia, ele o guarda novamente. Pensando em Anneliese,
ele decidiu parar com os cigarros.
Enquanto descansa, ele se lembra que suas
dores de cabeça o aliviaram um pouco. Menos frequentes agora, ele mal as
percebia.
Gunther foi vítima de experimentos
ultrassecretos, sendo exposto às ondas eletromagnéticas e à radiação. Porém,
com a queda do muro, o forte sinal das torres de transmissão se enfraqueceu. Após
a invasão do quartel-general da Stasi pela revoltada população alemã, a
espionagem foi praticamente banida. Aliviado, o rapaz percebe que Berlim
deixara de ser o estopim de uma nova guerra, tornando-se agora uma pacífica e
próspera nação.
Algo embaixo de sua cama chama a sua atenção.
Abanando a poeira, ele encontra seu velho livro sobre a quarta dimensão.
Gunther sorri. Após tanto tempo sem mergulhar nas enigmáticas camadas
extradimensionais, ele sente que já poderia se considerar uma pessoa normal.
O telefone estava ao seu lado. Com a
reunificação alemã, linhas particulares eram comuns e qualquer cidadão podia
ter. A voz ainda falava com ele, mas raramente. Gunther sente falta de suas
breves e estranhas conversas. Ele reconhece que, como a própria voz disse, ela
era sua âncora e muitas vezes o impediu de derivar pelas turbulentas realidades
alteradas por suas emoções.
Encostando-se na poltrona, ele pondera. A
Stasi havia caído, mas os soviéticos ainda sobreviviam além da fronteira. “Será
que os russos ainda estão me vigiando?”, pergunta-se ele. A ameaça dos
soviéticos o amedrontava. “Eles não iriam deixar seu valioso experimento em paz”.
Preocupado, ele pensa. “E se eles vierem atrás de mim, ou pior, de
Anneliese...?!”. Gunther se desfalece.
Ainda observando o aparelho, outra coisa o
intriga. Anneliese nunca o ouviu tocando e nunca estava em casa quando ele o
atendia. “Será que eu ainda estou louco?”, pergunta-se ele. “Será que o
paradoxo dimensional incide apenas sobre mim?”. Em seguida ele se tranquiliza.
A voz disse que apenas aqueles capazes de transpor os limites dimensionais
necessitavam de uma âncora. A garota estava com ele, mas não parecia sofrer com
sua influência.
“Pelo menos ela está a salvo dessa loucura”,
alivia-se ele.
Pensando novamente, ele se pergunta:
“Ou não está?”.
Não querendo pensar a respeito, ele respira
fundo e então vai dormir.
§
Amanhece em Berlim.
A garota se vira e vê que Gunther não estava
ali. Sem se preocupar, ela simplesmente pensa que ele foi trabalhar.
Descobrindo-se, ela intenta se levantar quando algo acontece.
O telefone toca sobre a mesa. Seus olhos se
arregalam. Desde que se mudou para o apartamento do rapaz, ela nunca o ouviu
tocar. Enxugando os olhos, ela se levanta e vai atende-lo.
Pegando o receptor, ela diz:
- Alô...?
Após alguns segundos de estática, o ruído se
silencia e uma voz masculina diz:
- Bom dia, Anneliese. Como vai?
A garota se intriga.
- Quem é você?
De maneira obscura, a voz responde:
- Um amigo. O único que você terá daqui para
frente.

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