sexta-feira, 30 de julho de 2021

Tiergarten - 36 - Epílogo

 


De pé em seu quarto, Gunther o encontra escuro e abafado. Era mês de abril, seis meses após a Reunificação Alemã. A luz atravessa a persiana, mas não vinha mais do holofote da torre de vigia. O Muro de Berlim havia sido demolido e, dessa vez, a luz vinha dos alegres letreiros das multinacionais capitalistas. Então ele se afasta. 

Gunther se senta em sua nova e confortável poltrona. Apalpando-a, ele se lembra que foi Anneliese quem o convenceu a compra-la. A garota queria redecorar sua casa e o rapaz permite sem se importar. Ela está dormindo em sua cama agora e, ao ver os cabelos em seu rosto, o rapaz os afasta e a deixa dormir.

Pegando um maço de cigarros, ele pensa em fumar, mas, mudando de ideia, ele o guarda novamente. Pensando em Anneliese, ele decidiu parar com os cigarros.

Enquanto descansa, ele se lembra que suas dores de cabeça o aliviaram um pouco. Menos frequentes agora, ele mal as percebia. 

Gunther foi vítima de experimentos ultrassecretos, sendo exposto às ondas eletromagnéticas e à radiação. Porém, com a queda do muro, o forte sinal das torres de transmissão se enfraqueceu. Após a invasão do quartel-general da Stasi pela revoltada população alemã, a espionagem foi praticamente banida. Aliviado, o rapaz percebe que Berlim deixara de ser o estopim de uma nova guerra, tornando-se agora uma pacífica e próspera nação.

Algo embaixo de sua cama chama a sua atenção. Abanando a poeira, ele encontra seu velho livro sobre a quarta dimensão. Gunther sorri. Após tanto tempo sem mergulhar nas enigmáticas camadas extradimensionais, ele sente que já poderia se considerar uma pessoa normal.

O telefone estava ao seu lado. Com a reunificação alemã, linhas particulares eram comuns e qualquer cidadão podia ter. A voz ainda falava com ele, mas raramente. Gunther sente falta de suas breves e estranhas conversas. Ele reconhece que, como a própria voz disse, ela era sua âncora e muitas vezes o impediu de derivar pelas turbulentas realidades alteradas por suas emoções.

Encostando-se na poltrona, ele pondera. A Stasi havia caído, mas os soviéticos ainda sobreviviam além da fronteira. “Será que os russos ainda estão me vigiando?”, pergunta-se ele. A ameaça dos soviéticos o amedrontava. “Eles não iriam deixar seu valioso experimento em paz”. Preocupado, ele pensa. “E se eles vierem atrás de mim, ou pior, de Anneliese...?!”. Gunther se desfalece.

Ainda observando o aparelho, outra coisa o intriga. Anneliese nunca o ouviu tocando e nunca estava em casa quando ele o atendia. “Será que eu ainda estou louco?”, pergunta-se ele. “Será que o paradoxo dimensional incide apenas sobre mim?”. Em seguida ele se tranquiliza. A voz disse que apenas aqueles capazes de transpor os limites dimensionais necessitavam de uma âncora. A garota estava com ele, mas não parecia sofrer com sua influência.

“Pelo menos ela está a salvo dessa loucura”, alivia-se ele.

Pensando novamente, ele se pergunta:

“Ou não está?”.

Não querendo pensar a respeito, ele respira fundo e então vai dormir.

 

§

 

Amanhece em Berlim.

A garota se vira e vê que Gunther não estava ali. Sem se preocupar, ela simplesmente pensa que ele foi trabalhar. Descobrindo-se, ela intenta se levantar quando algo acontece.

O telefone toca sobre a mesa. Seus olhos se arregalam. Desde que se mudou para o apartamento do rapaz, ela nunca o ouviu tocar. Enxugando os olhos, ela se levanta e vai atende-lo.

Pegando o receptor, ela diz:

- Alô...?

Após alguns segundos de estática, o ruído se silencia e uma voz masculina diz:

- Bom dia, Anneliese. Como vai?

A garota se intriga.

- Quem é você?

De maneira obscura, a voz responde:

- Um amigo. O único que você terá daqui para frente.

 

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