Dias se passam.
Yang é mantido em um recinto com sofá, mesa e televisão. Não era bem uma cela,
mas uma confortável sala preparada para sua estadia.
Agentes da CIA[1]
aparecem e o conduzem novamente para a sala de interrogatório. Desta vez havia
uma televisão na parede. Os agentes então exibem imagens e vídeos do Shenzhou
Wénzi em combate pelos céus de Shangai e Pequim. Em seguida ele vê o Wénzi
sobrevoando o interior de Tiangong e, por fim, entre os prédios da capital
marciana de Zhurong. Assim eles comprovam os relatos do piloto; Yang falava a
verdade.
Jones o
congratula por seu heroísmo. Ele diz:
- Você é um jovem
muito corajoso, Tenente Haisheng. Meus parabéns.
Yang percebe que
todos na sala assentem, congratulando-o em silêncio.
- Eu agradeço o
reconhecimento – começa ele –, mas eu preciso voltar ao combate.
Os agentes da CIA lhe lançam um olhar sério. O
almirante também muda de semblante, e então ele lhe explica a situação.
- Tenente
Haisheng, você não é apenas um cidadão do governo mundial chinês, mas um
próprio chinês. Você sabe da existência e da localização secreta de
Belerofonte. Não podemos deixa-lo ir.
Yang protesta.
- Mas eu preciso
ir! O planeta Terra precisa de mim!
Um agente da CIA
olha para o almirante, meneia negativamente a cabeça e diz:
- Ele sabe
demais.
Temendo, o piloto
pensa:
“Vou ficar aqui para
sempre?”.
- Eu perderei
meus direitos e minha liberdade aqui?
- Não,
exatamente. – nega o almirante – Você está livre para andar pela estação, se quiser. A sua estadia será paga pelo governo dos Estados Unidos. Quanto aos
seus direitos, você terá todos eles garantidos pela lei de exílio.
- Exílio...?
- Considere um
exílio compulsório. Se tentar fugir ou for pego fornecendo informação ao
inimigo, você perderá todos os seus direitos e será tratado como um criminoso,
sujeito às penas mais rígidas previstas na lei.
- Penas mais
rígidas? Vocês vão me executar?
O almirante o
corrige.
- Prisão perpétua.
Em regime fechado.
- Vocês não podem
fazer isso comigo! Há uma guerra acontecendo lá fora!
- Me desculpe,
tenente. Foi o máximo que eu puder fazer.
E então os guardas
entram e o levam de volta para a cela.
§
A notícia se
espalha. Após uma semana cativo em Belerofonte, algo inusitado acontece. Yang é
tratado como uma celebridade. Pessoas o abordam nas ruas e o cumprimentam,
apertando-lhe a mão e tirando fotos.
O piloto aprecia
o tratamento. Os americanos não são como ele pensava. Eles nunca o hostilizam
tratando-o como inimigo. Ao contrário, eles são calorosos e alegres, o que o
deixa muito acanhado.
Os americanos
conversam e brincam, e alguns o convidam para beber. Ele vê famílias inteiras
aproximando-se para conhece-lo, trazendo crianças de todas as idades. Os
americanos tentam conversar em chinês, o que deixa a interação muito divertida.
Um homem diz:
- Não faça como
em Taipei!
Yang entende a brincadeira. O homem se referia ao Tratado de Taipei, assinado entre a República Popular da China e os Estados Unidos da América em 2041.
Naquele ano, a derrota americana finalmente fora assinada na capital da disputada ilha de Taiwan. Por quase cem anos a ilha esteve sob a proteção dos Estados Unidos. Anos antes, a China revolucionária intentava retoma-la para si, nunca reconhecendo-a como um Estado soberano.
Oficialmente a
ilha de Taiwan também se chamava China, o que era inaceitável para o governo da
China continental. “Só pode haver uma China!” diziam os representantes do
governo. Entretanto, o nome foi mantido por motivos políticos. Após o fim da
guerra civil, a ilha foi o destino de fuga dos nacionalistas liderados pelo General
Chiang Kai-shek. Os revolucionários comunistas não quiseram atravessar o
Estreito de Taiwan para, ultimamente, derrota-los, e por isso o nome foi
mantido.
No final do
século 20, os taiwaneses tentaram trocar o nome para República de Taiwan
através de um plebiscito, mas o governo continental os impediram, ameaçando-os
militarmente com sua poderosa marinha.
Mas o impasse
finalmente se encerrou em 2040, com a derrota dos Estados Unidos, a perda da
ilha para a China comunista e a humilhante assinatura do Tratado de Taipei.
E assim Yang
passeava livremente pelas vias de Belerofonte, conhecendo mais um pouco do povo
que ele foi ensinado a evitar.
§
A preocupação o
atormenta. Ele se pergunta onde estava o Wénzi e Li Fen. Os militares se
recusavam a lhe passar qualquer informação, mas Jones prometera lhe informar se
algo acontecesse.
Presumidamente, a
frota do Alto Comando estava próxima do planeta rochoso de Mercúrio. Tiangong e
Zhurong, por sua vez, deviam estar resistindo bravamente ao inimigo.
“Mas e quanto à
Terra?”, pergunta-se Yang.
Ele se lamenta ao
pensar que seu planeta já havia caído. O exército da China e as demais forças
do mundo sucumbiam à agressão alienígena. A esta altura, os cidadãos do mundo
padeciam com a escravidão ou, pior ainda, o extermínio.
O piloto se
levanta, sacudindo sua cabeça e livrando sua mente desses pensamentos.
Yang ouve uma explosão lá fora. Em seguida o alarme no quartel-general soa. Assustado, ele abre a porta e vê soldados armados correndo de um lado ao outro pelos salões. Ele se intriga.
O almirante Jones
está na sala de comunicações. Parando ao seu lado, os dois olham fixamente para
o monitor na parede.
Avançando com
toda força, uma frota inteira de cruzadores invade a zona de segurança de
Belerofonte. Canhões e satélites espiões são destruídos. Esquadras são
repelidas e abatidas. Então Yang nota algo; aqueles eram cruzadores diferentes.
Na Terra, em Marte e em Tiangong os cruzadores eram enormes encouraçados
longitudinais e pontiagudos. Em Belerofonte, eles eram altos e poligonais, como
gigantescos prismas. O piloto se intimida.
Um cruzador mira
seu poderoso canhão de energia e atira. A estação se estremece e eles veem o
setor de Los Angeles ser pulverizado pelo espaço.
Unidades de
combate são enviadas para defender Belerofonte. Elas disparam bombas e mísseis
no assustador inimigo, mas mal podem causar danos em sua enorme fuselagem.
De repente
escotilhas são abertas e os cruzadores liberam suas espaçonaves. Yang reconhece
os infames enxames voando em espiral em direção à estação. As pessoas nas
passarelas e vias virtuais assistem passivas os enxames se aproximarem, parecendo hipnotizadas por seu voo espiralado. O piloto se desespera.
- Diga-os para
saírem de lá!
Mas o aviso veio tarde. Bombas de energia são lançadas e explosões tiram centenas de vidas instantaneamente. Em horror, Yang via se repetindo a tomada de Shangai.
O caos se espalha
nas vias públicas. O quartel-general tenta manter a ordem, mas não havia tempo.
Os monitores exibem imagens estarrecedoras de aeronaves tripuladas pousando
sobre os prédios. Rupturas são feitas e tropas de assalto invadem a estação. Yang se
surpreende; pela primeira vez ele via tropas alienígenas combatendo.
- Mas o que é
isso...?! – intriga-se Jones.
As tropas vestiam
armaduras marrom escura. Para a surpresa de Yang, os alienígenas tinham
aparência humana, com corpo humanoide de dois braços e duas pernas. Suas
faces, porém, estavam ocultas em seus capacetes.
Naves pousam
próximas ao quartel-general. Fazendo brechas nas paredes, as tropas invadem os
edifícios e trazem a guerra de volta para Yang.
Um tiroteio se
forma. Desarmado e sozinho, o piloto se confunde. Desta vez ele não estava no
Wénzi; agora ele não sabia o que fazer.
Os americanos lhe
empurram um fuzil, obrigando-o a pegar, e então ordenam:
- Move! Move! Move![2]
Levado pelo
quartel-general, Yang se vê obrigado a lutar a pé pela primeira vez.
Há caos nas vias
aéreas. Espaçonaves alienígenas se misturam com os hovercars, provocando
acidentes ao redor. As brechas causadas pelos estragos provocam descompressão e
pessoas são lançadas pelo espaço.
Enxames
bombardeiam o hub da Times Square. Agora as forças inimigas estavam no coração
da estação. Telões e letreiros são estilhaçados e destruídos. Naves adaga
cruzam o ar, metralhando passarelas de civis. Naves americanas as perseguem,
mas não são velozes o bastante para alcança-las.
Bombas se
explodem em toda parte. A Times Square fica escura, apavorando os civis. Ali eles
experimentavam o terror psicológico da escuridão. Protegendo-se atrás de um
balcão, Yang espia pela beirada e contempla o caótico ambiente; ele era
iluminado pelos lasers dos fuzis humanos e alienígenas.
Lasers de cor
vermelha, azul e verde cruzam o ar. Explosões amarelas formam clarões repentinos.
Yang se sentia em um espetáculo pirotécnico de fogos de artifício de ano novo.
O almirante
combate mais ao longe. Experiente e bem treinado, ele atira habilmente com seu
fuzil. Muitos inimigos são alvejados por ele. Mas naquela escuridão, algo o
atrapalhava. Devido ao seu uniforme branco, ele era um alvo fácil. Os inimigos
pareciam se concentrar nele.
Jones ordena que
seus homens tomem posições defensivas e se protejam. Então algo acontece.
Um soldado
inimigo se aproxima e o ataca. Jones estava distraído e é pego de surpresa. O
inimigo o golpeia com a cauda de seu fuzil e o almirante cai. Prestes a ser
atacado novamente, Jones se levanta e, com um golpe de artes marciais, derruba
o soldado, desarmando-o também. Jones entra em luta corporal. Seu histórico de
lutador profissional é novamente posto à prova. Os dois trocam socos e chutes,
mas o almirante é um lutador experiente. O inimigo usa armadura e seus golpes
são absorvidos no impacto, causando-lhe frustração. Assim Jones é obrigado a
mudar de estratégia.
Agarrando o
inimigo, o almirante o derruba. Subindo em seu peito, Jones o põe em completa
submissão. Ele pega um pedaço de ferro e golpeia sua cabeça, ao ponto do
inimigo se atordoar. E assim o almirante prevalece.
Sendo ele mesmo um
homem forte, Jones agarra firmemente o capacete do inimigo e diz:
- Agora vamos ver
do que vocês são feitos!
Ele finalmente arranca
o capacete. Mas algo inesperado acontece. Ao contemplar a face do inimigo, seu
corpo alienígena se dissolve. Então Jones se senta no chão, confuso.
Uma explosão é
ouvida e então Yang aparece.
- Almirante!
Temos que ir!
O piloto o ajuda
a se levantar e ambos avançam pela estação.
Apesar de
militar, Yang é inexperiente em combate a pé. Seu fuzil não era chinês e sim
americano; ele se abaixa e atira, mas seus tiros erram o alvo constantemente.
Ele tenta entender o armamento, distraindo-se. Então Jones o puxa para
segurança.
Lutar ao lado do
almirante era algo admirável. Jones atirava, se protegia e abatia vários
inimigos. Yang seguia logo atrás, sempre protegido por ele.
A estação se
estremece. Em seguida sirenes se acendem e um alerta ensurdecedor percorre
todos os setores.
Um soldado
americano se aproxima e diz:
- Senhor! Os
reatores nucleares foram atingidos! Precisamos evacuar Belerofonte!
O almirante
arregala os olhos.
- Evacuar?!
Negativo, major!
Outro tremor é
sentido. Recebendo uma mensagem no comunicador, o major informa:
- Senhor, o setor
São Francisco foi gravemente danificado e está em gravidade zero!
Jones sabe o que
aquilo significa. Os habitantes estão indefesos e logo estarão sem oxigênio
devido às rupturas no casco.
Por fim ele
responde:
- Minha família!
Eu preciso evacuar minha família!
Ouvindo-o, o
major se comunica no aparelho e então o informa:
- Senhor, sua
família está no outro lado da Time Square. – e então ele aponta o caminho.
Yang vê uma
passarela de pedestres conectando os dois lados do hub. A visão é desanimadora.
Naves adaga atravessam o ar, metralhando os pedestres que correm de um lado ao
outro tentando sobreviver. Acima, os cruzadores prismáticos pairavam no espaço,
como sinistros monólitos da morte.
- Então o que
estamos esperando? Vamos logo! – responde o corajoso almirante.
Yang e Jones
iniciam a travessia. Um grupo de soldados vai logo atrás, protegendo-os. Mas
sua proteção era de pouca importância. Carros em chamas avançam contra a
passarela e se colidem, assustando-os. As adagas os sobrevoam e atiram,
metralhando os pedestres. De repente um amarelo incomum ilumina suas cabeças e
eles se intrigam. Olhando para cima, um cruzador carregava seu laser,
preparando-se para atirar.
- Protejam-se!
O laser é
disparado e atravessa o casco, rasgando os prédios e partindo a passarela em
dois. Alguns soldados são queimados vivos, evaporando-se ao nível de
partículas. O grupo se paralisa.
- O que estão
fazendo?! Movam-se, homens! Movam-se!
Após a ordem,
Yang sai de seu transe e volta a se mexer. Mas o casco estava rompido e logo a
descompressão iria suga-los para fora. Eles precisavam se apressar.
Atravessando os
escombros, eles entram em um edifício e fecham a porta de segurança,
livrando-se de serem lançados no espaço.
A estação se
estremecia. Em minutos ela ia se despedaçar por dentro, queimando a todos no
fogo nuclear. Ficar e lutar já não era mais uma opção. Jones olha pela janela e
vê sua querida Belerofonte sucumbir. Fechando os olhos, ele tem uma decisão
difícil a fazer.
- Major, onde
minha família está? – pergunta ele.
- Nos quarteirões
residenciais, senhor. Não muito longe daqui.
- Entendido. Mudança
de rumo, major. Nós vamos para o espaçoporto.
O major e os
soldados se intrigam.
- Senhor?
- É isso mesmo,
major. Há naves inimigas por toda parte e nossa força aérea não é capaz de
detê-los. Mas conheço uma nave e um piloto que podem.
Então os soldados
olham para Yang.
- Wénzi... –
sussurra ele.
- Vá, Tenente
Haisheng. Torne o espaço seguro para podermos fugir. – pede Jones.
Novamente Yang
sente o peso da responsabilidade recair sobre os seus ombros, mas dessa vez ele
não teme. Ele estava ansioso para voar.
O caminho para o
espaçoporto estava tomado pelo inimigo. Jones e os soldados lutavam bravamente
em formação militar rígida e disciplinada. Pessoas corriam de um lado ao outro,
dificultando o combate. Mesmo Yang combate com bravura, desajeitado e
desacostumado ao combate a pé.
O vácuo do espaço
os ameaçava. O casco é rompido e portas de segurança são ativadas
automaticamente, selando passagens inteiras. Acima, os enxames prosseguiam com
sua tática brutal, atacando e destruindo prédios residenciais e espalhando o
pânico. Naves do tipo adaga passavam rápidas como um raio, metralhando
passarelas de civis. O perigo estava no solo e no espaço.
Eles finalmente
chegam ao espaçoporto. Na pista, espaçonaves americanas eram atacadas e
destruídas pelos enxames. Os americanos perdiam suas defesas a cada minuto. Ao
longe, as barreiras Kinect mantinham a pista a salvo do vácuo, mas não podiam
ser fechadas. Naves inimigas entravam e causavam danos, e os americanos as
repeliam com seus canhões antiaéreos.
Dirigindo-se a à
entrada de um hangar, o grupo para em posição de defesa. Jones aciona um painel
que faz a sua leitura facial. Yang reconhece que aquele hangar era protegido
por segurança máxima e que apenas pessoas estritamente autorizadas podiam
acessa-lo.
A porta se abre e
o grupo entra. Alguns soldados são atingidos e caem, mas seus companheiros os
arrastam para dentro. “Ninguém fica para trás”, lembra-se Yang do lema do
Exército Americano.
Mantido em
observação, Wénzi se encontrava rodeado de cabos e monitores. Engenheiros e
cientistas tentavam decifra-lo, estudando-o e assimilando sua tecnologia. O
almirante dá a ordem e os cabos são desconectados da espaçonave, liberando-o
para uso.
A estação treme
novamente. O tremor se reverbera e outro alarme é acionado. O major diz:
- Senhor, as
paredes dos reatores nucleares foram rompidas! Se os reatores forem atacados,
começará uma reação em cadeia e...
- Eu sei, major!
O almirante o
interrompe. Ele sabe o que aquilo significa. Belerofonte estava condenada. Não
havia mais nada que se podia fazer.
Olhando para
Yang, ele diz:
- Yang! As naves
de fuga estão sendo tripuladas neste momento! Preciso do espaço seguro! Você
tem cinco minutos! Faça o seu melhor, tenente! Te daremos cobertura daqui!
O piloto arregala
os olhos.
Subindo pela
fuselagem, Yang liga a espaçonave e vê os painéis ligando pela primeira vez em
um mês.
Enquanto a cabine
se fecha, uma voz diz:
- Olá, Piloto
Haisheng.
- Navcom! –
exclama ele – Que bom ouvi-lo novamente!
Yang estava tão
feliz que nem mesmo o corrige por falar formalmente de novo.
As portas do
hangar estavam abertas. Os americanos acenam, pedindo-o para se apressar.
Levantando o trem de pouso, Yang aciona os propulsores e o deixa
rapidamente.
Os enxames
dominavam o espaçoporto. Apesar dos canhões antiaéreos, a quantidade excessiva
dos inimigos os sobrecarregava. A batalha parecia ganha para os alienígenas,
mas então algo acontece. Shenzhou Wénzi entra em combate.
Os soldados na
pista de pouso ganham esperança. O caos de outrora é substituído por um aliado
aéreo que se misturava ao inimigo e os abatia na mesma agilidade. Atônitos,
eles viam aquela nave de aparência bizarra voando de um lado ao outro, leve
como um balão de gás hélio e ágil como um mosquito.
Algo se explode
na fuselagem do Wénzi. Navcom imediatamente acusa o dano.
- Escudos a 85%.
Yang se confunde.
Ele não viu nenhuma bomba de energia vindo dos enxames. Olhando para baixo, ele
vê um grupo de soldados alienígenas portando lançadores de foguetes em uma
plataforma.
O grupo se
preparava para atirar de novo. O piloto estava vulnerável; ele não podia usar a
metralhadora Vulcan ar-solo, os americanos seriam atingidos. Então os
alienígenas são alvejados e caem abatidos. Yang se intriga.
O almirante Jones
surge na plataforma, acompanhado por seus soldados. Olhando para
Yang lá em cima, ele fuma seu charuto e acena com a cabeça. Sorrindo, o piloto
acena de volta.
O espaçoporto é
um local confinado, mas Yang não tem dificuldade em manobrar. Além da alta
velocidade, o Propulsor Luciferino Hyperdrive lhe garantia manobrabilidade
formidável, mesmo em espaços curtos.
Com a presença do
Wénzi, os americanos evacuam o espaçoporto e se dirigem para defender o hub
central da estação. Aproveitando a chance, Yang seleciona o laser Estrela da
Manhã e aperta o gatilho. O que ocorre a seguir é um espetáculo mortal de luzes. O laser se ricocheteia várias vezes pelas paredes, destruindo os
inimigos e tornando o espaçoporto uma caixa infernal de lasers azulados em todas as direções.
Navcom informa:
- Mensagem a caminho,
senhor.
“Piloto Haisheng,
pode me ouvir?”.
Yang responde:
- Sim, almirante
Jones.
“Estamos indo
para a ponte. Vá para o espaço exterior. As naves tripuladas já estão nas
docas. Proteja-as!”.
- Sim, senhor!
Deixando o
espaçoporto, Yang sobrevoa a colossal estação. Explosões ocorriam por toda parte e detritos se espalhavam pelo espaço. A visibilidade era
prejudicada; lutar na gravidade zero seria árduo. As naves adaga percorriam a
estação em todas as direções, cansando as naves americanas e dominando o
combate. Ao longe, os enxames subiam e desciam dos outros setores, em seu voo
espiralado e hipnótico.
Como em Zhurong,
os cruzadores pairavam sobre Belerofonte, liberando enxames e disparando
lasers. A estação naufragava no horror.
As docas estavam
mais adiante. Grandes e lentas, as naves tripuladas portavam apenas civis.
Canhões antiaéreos defendiam as docas, mas não eram suficientes para conter o
ímpeto do inimigo. Alguns canhões são destruídos e as naves sofrem danos leves.
Yang precisava se apressar.
Com seu poderoso
arsenal, o piloto repele facilmente os enxames. As adagas tentam sobrepuja-lo,
mas com o propulsor israelense eles são alcançados e abatidos. Ao seu lado a
frota americana lutava bravamente, oferecendo-lhe suporte.
Os cruzadores se
aproximam. Destruí-los seria perda de tempo e de recurso. Puxando os manches,
Yang alcança o topo dos cruzadores e seleciona o canhão Yu Huang. O amarelado
laser é disparado e atinge as escotilhas de suas docas. O que Yang pode fazer é
apenas danificar as docas de saída, evitando a liberação dos enxames.
O cruzador
dispara seu laser. Yang assiste perplexo o laser causar uma ruptura no casco e
o vácuo sugar pessoas ainda vivas para fora.
Yang não podia se
distrair; as naves tripuladas ainda precisavam fugir.
Sobrevoando as
docas, o piloto destrói o inimigo sem dificuldade. Mas os cruzadores que
causavam destruição em outros setores se aproximam. Eles pareciam sentir que um
inimigo contundente os ameaçava.
Aproximando-se da
ponte, Yang vê o almirante e seus subordinados atrás de uma imensa janela.
- Almirante
Jones, peça para os pilotos se apressarem! Eu não posso segura-los por muito
tempo!
Ouvindo-o, o
almirante olha para o major e pergunta:
- Major, minha
família já está a bordo?
Informando-se no
comunicador, o major responde:
- Afirmativo, senhor!
Sua esposa e suas filhas já estão a bordo, senhor!
Enquanto conversam,
algo acontece. Explosões nucleares são vistas ao longe. O clarão ofusca a vista
de todos e os obrigam a se protegerem. O casco dos setores se rompe, formando
uma reação em cadeia catastrófica.
- Devemos evacuar
a estação, senhor!
- Não! – responde
ele – Eu não vou a lugar algum.
Os soldados se
espantam. Eles podem ver que lágrimas se formavam nos olhos do almirante.
- Senhor...?
Jones está em
silêncio. Contemplando a estação, ele vê sua vida e seu sonho sendo destruídos
diante de seus olhos. Nada mais podia ser feito; Belerofonte estava condenada.
- Vocês podem
partir se quiserem. Eu ficarei aqui.
Os soldados se
entreolham.
- Negativo,
senhor! Nós também vamos ficar!
- Isso é uma
ordem!
Os soldados se
mantém firmes.
- Nós não iremos
deixa-lo, senhor!
Jones sorri.
“Ninguém fica
para trás”, pensa ele.
As naves
tripuladas levantam voo e se afastam lentamente. Graças a Yang, o espaço estava
seguro para partirem.
Outra explosão é
ouvida, balançando a ponte.
Do espaço, Yang vê
o almirante parado e se intriga. As explosões estavam perto demais, já não
havia mais tempo para fugir.
Atrás do Wénzi, Jones vê as naves tripuladas ativando seus propulsores e se afastando rapidamente. Yang havia salvado sua família. Ele reconhece; graças a Yang, sua família estava bem.
Então algo inacreditável acontece.
Vendo que sua
família estava a salvo e que sua missão estava cumprida, o almirante presta
continência a Yang. Os soldados se espantam. Aquilo era algo impensável de se
fazer para um militar chinês. Mesmo o piloto se espanta.
Então, cheio de
orgulho e lágrimas, Yang estufa o peito e bate continência também,
correspondendo-o. Ambos sorriem.
Alguns segundos
depois, o casco se rompe e uma explosão devastadora engole a todos na ponte,
fazendo Jones e seus soldados desaparecem atrás de uma tenebrosa bola de fogo.
O vidro da janela se estoura e fragmentos voam em direção ao espaço. Recebendo
danos, o piloto é obrigado a se retirar.
E assim Yang
permanece, impotente diante da explosão final que tirou a vida de seu breve
amigo.
Evadindo os
cruzadores, Yang ativa o Propulsor Luciferino e se afasta. Em seguida
Belerofonte se explode logo atrás, em uma explosão nuclear tão imensa que é
capaz de iluminar o espaço como o nascimento de uma nova estrela.
Mas, no caso de
Belerofonte, uma estrela morta.

