domingo, 18 de abril de 2021

Tiergarten - 26 - Doppelgänger

 


O termo Doppelgänger se popularizou com a obra literária de Johann Paul Friedrich Richter, mais conhecido por seu pseudônimo Jean Paul. Nascido em Wunsiedel, no sul da Alemanha, ele escreveu seu famoso livro Siebenkäs, do qual tratava de forma polêmica o tema da Ressureição cristã. No livro, o termo Doppelgänger foi utilizado, embora em sua versão mais antiga, “Doppeltgänger”.

Significando literalmente andarilho (gänger) duplo (doppel), no sentido de um sósia ou duplicata, o mito do Doppelgänger se espalhou pelo mundo, geralmente referindo-se a um gêmeo malvado, à má sorte ou a própria morte. Conta-se que, se um amigo passar pelo doppelgänger de um conhecido, esse amigo passará por uma situação difícil, como o azar, a miséria ou o divórcio. Porém, se a própria pessoa avistar seu doppelgänger, ela morrerá. Os doppelgängers geralmente são invisíveis à pessoa. Entretanto, em sua presença, elas drenam sua energia e lhe anunciam um problema futuro.

Um caso muito conhecido foi de Emilie Sageé, professora da escola Von Neuwelcke na Lituânia. Os alunos afirmaram ter visto uma cópia de Emilie diante de seus olhos enquanto ela lecionava na sala de aula. Embora idêntica, a duplicata era mais pálida e mórbida, semelhante a um fantasma do outro mundo. Com aparições cada vez mais frequentes, os alunos se assustaram e passaram a evitar Emilie. A professora acabou demitida, mas seu relato se espalhou.

A ciência explica as aparições macabras dos doppelgängers. Os cientistas combinam sintomas de esquizofrenia com os de epilepsia. Na primeira, os pacientes sofrem de psicoses, perdendo o contato com a realidade. Na segunda, as patologias se caracterizam por lapsos de consciência, acompanhados de convulsões que aparecem em intervalos não regulares de tempo. Ao serem diagnosticados com sintomas das duas doenças, os cientistas classificam a nova doença de Heautoscopia, caracterizada quando o paciente sofre um delírio, acreditando ver sósias.

Gunther também conhecia o conto dos doppelgängers, mas não do escritor alemão Jean Paul, mas de Fyodor Dostoievski. No famoso livro “O Duplo”, o escritor russo conta uma interessante história sobre um burocrata que se encontra consigo mesmo e, a princípio, ambos se tornam grandes amigos. Mais tarde, eles se tornam piores inimigos e o sósia, possuindo melhores qualidades do que ele, tenta tomar o lugar do original.

De qualquer forma, o mito dos doppelgängers se difundiu e, existindo ou não, tudo é possível na quarta dimensão.

 

§

  

Passeando em frente a uma escola, Gunther reconhece o local onde estudou durante sua infância. Localizada no distrito de Pankow, ele tem boas lembranças daquele lugar. O prédio era cúbico, avermelhado e cheio de janelas. No quintal havia um vasto gramado com mesas e brinquedos para as crianças. Ao lado ele vê a velha quadra poliesportiva onde ele praticou muitos esportes com as outras crianças.

“Enfim”, pensa ele, “um belo lugar”.

Ao ver melhor, parecia ser o primeiro dia de aula daquelas crianças, pois todas acompanhavam seus pais. Alguns alunos estão empolgados e outros choram junto de seus pais, temendo serem separados deles. Para acalma-las, as professoras lhes presenteiam com lápis, réguas, borrachas e cadernos encapados com desenhos alegres e divertidos. Essa era a forma da Alemanha Oriental incentivar suas crianças, dando-lhes presentes antes das aulas começarem.

Olhando para o nome da escola, o rapaz vê que seu nome está escrito em alemão e russo. Diferente da Alemanha Ocidental, que ensinava seus alunos a língua inglesa junto da língua alemã, na oriental lhes era ensinado a língua russa. Dessa maneira, todos aprendiam o idioma dos responsáveis pela destruição Terceiro Reich alemão.

Era duas da tarde. Enquanto estava ali, calmamente observando os alunos, alguém aparece atrás dele e, chamando-o, o assusta.

- Ei, Gunther!

Virando-se, ele vê um rapaz magro, de barba e cabelos pretos sorrir para ele. 

- Boa tarde...?

- Boa tarde?! – intriga-se ele – Está com algum problema?

Confuso, Gunther pergunta:

- Eu te conheço?

- Ora, mas é claro que me conhece! – exclama ele – Estivemos conversando agora há pouco!

O rapaz se confunde mais ainda.

- Quem é você?

- Sou eu! Dieter!

Erguendo a sobrancelha, o rapaz não sabe o que responder. Ele não conseguia recorda-lo de lugar algum.

- Desculpe-me, mas eu não me lembro de você.

Insistente, o tal Dieter diz:

- Durante a infância, nós estudamos juntos nessa escola – ele aponta para o prédio à frente – e éramos amigos lá.

Gunther ainda não consegue se lembrar.

- E você tem certeza que era eu?

- E como eu poderia me esquecer? – responde ele – Eu só briguei uma vez na vida, e foi com você.

Então o rapaz se lembra. Na segunda série, Dieter era o idiota que não aceitava perder no jogo de bolinhas de gude.

- Ah, sim. Eu me lembro. – responde ele, sem interesse – Eu não o reconheci.

- Impossível – insiste ele –, pois há uma hora estivemos conversando em Marzahn.

- Marzahn?!

- Sim. Nós estávamos em um evento esportivo lá. É só isso o que a Alemanha Oriental tem a nos oferecer: eventos políticos, escolares e esportivos. Tremendo entretenimento, não?

Ao ouvir a ironia, Gunther sorri.

- Desculpe, mas eu não fui para Marzahn hoje. Você deve ter me confundido com outra pessoa.

Dieter gargalha.

- Mas é claro que era você! Nós conversamos por horas sobre a nossa infância, a vida adulta e sobre política...

- Você tem certeza?

- Sim, tenho! Só você poderia saber de nossas memórias de infância. Estranhamente, você só me deu conselhos ruins, dizendo que, para eu me dar bem na vida eu deveria trapacear, caluniar e até cometer crimes. Sujeito excêntrico... – ri ele – E, obviamente, era você na minha frente. – Dieter o olha de cima a baixo – Apesar de você estar usando roupas diferentes...

Colocando a mão no queixo, Gunther tem dificuldade em acreditar.

- Outra coisa – interrompe o outro –, como você chegou aqui tão rápido?

- Como assim?

- Eu moro aqui perto e vim de carona com um amigo do governo. Ele me trouxe de carro, por que, você sabe... ele é do governo... – Dieter ironiza novamente, afirmando que apenas os funcionários governamentais conseguiam um carro.

- Eu não vim de carro. – responde ele – Eu vim a pé.

- Quê?! – espanta-se ele – São mais de dez quilômetros de Marzahn até aqui!

- Eu não vim de Marzahn...

- E os ônibus – interrompe ele – são velhos e lentos. Você teria que ter um carro, e um bem rápido!

- Pela última vez, eu não estive em Marzahn!

 - Mas eu estou dizendo...

Percebendo que Dieter não ia parar de insistir, o rapaz se irrita.

- Me deixe em paz!

Então ele dá as costas e vai embora.

 

§

 

Aproximando-se de seu prédio, Gunther enxuga o suor de sua testa e suspira. Subindo as escadas, ele se distrai com a expectativa de finalmente se deitar. Ao colocar a chave na fechadura, ele gira a maçaneta e abre a porta. Então ele tem uma terrível surpresa.

Havia um homem em seu apartamento. O desconhecido estava em seu quarto, de costas e conversando ao telefone. Espiando-o, Gunther vê que ele veste uma blusa azul, calça marrom e tênis esportivo.

Ao se aproximar, o rapaz finalmente pergunta:

- Quem é você?

Assustando-se, o desconhecido se vira rapidamente. Então Gunther se petrifica em horror. Aquele homem era idêntico a ele.

- Quem é você? – pergunta o outro.

Franzindo a testa, ele novamente pergunta:

- O que você está fazendo aqui?

Franzindo-a também, o outro responde:

- O que você está fazendo aqui?

Gunther dá um passo à frente. O outro grita:

- Para trás!

Virando-se, seu sósia pega o telefone e, olhando assustado para Gunther, diz:

- Sashenka, me ajude! Tem alguém no meu apartamento! E ele é idêntico a mim!

“Sashenka?!”, pensa ele. “Quem é essa mulher?”.

“Isso não deveria estar acontecendo! As dimensões foram sobrepostas!”, exclama ela, com forte sotaque russo. “Gunther, saia já daí!”.

O rapaz se surpreende, ele também ouviu a voz no telefone. Era como se houvessem alto-falantes nas paredes.

Então, tomado de desespero, o sósia avança contra Gunther e o empurra, dirigindo-se à saída.

O rapaz pega o telefone e, ao dizer alô, a voz apenas responde:

“Vá pegá-lo”.

Em seguida ele ouve apenas estática. Largando o aparelho, Gunther também corre até a saída.

As ruas berlinenses estão barulhentas e movimentadas. Ao sair de seu prédio, ele vê seu sósia puxar um motorista para fora de seu carro, um famoso “Trabant” produzido na Alemanha Oriental. Então o sósia foge pelas ruas de Berlim.

O rapaz olha para o lado e, ao ver outro motorista, o puxa para fora de seu veículo, adentrando-o e perseguindo seu sósia em seguida.

A direção era detestável. Havia folga no volante e os pedais eram duros. Com uma alavanca de câmbio tão frouxa, Gunther engatava as marchas com dificuldade. Finalmente ele entende o velho ditado da RDA que diz: "viver na Alemanha Oriental é como dirigir um carro com o freio de mão levantado".

 Esforçando-se para guiar seu carro, o rapaz avista seu sósia entrando na Karl-Marx Strasse. Cantando pneus pelas ruas, o outro dirige perigosamente, em alta velocidade entre os outros veículos.   

Tentando alcança-lo, o rapaz o segue logo atrás. Sua duplicata avança pelas avenidas e faz curvas abruptas nos cruzamentos, confundindo-o. Sem que o rapaz pudesse perceber, os carros, os pedestres e a paisagem ao redor mudavam de aspecto, como se a cada quarteirão eles voltassem no tempo.

No final de uma rua havia um bloqueio de trânsito. Obrigado a parar, a duplicata abandona seu carro e corre pelas calçadas. Parando ao lado de seu carro, Gunther reconhece o local. Eles estavam em Leipziger Strasse.

Ao abrir a porta, o rapaz sai do veículo e é surpreendido por uma multidão de revoltosos. Um homem vestindo chapéu e um terno barato olha para ele e diz:

- Saia do caminho! Você quer ser pisoteado?!

Gunther se assusta.

- O que está acontecendo?

O homem ri.

- Como assim o que está acontecendo? Por acaso você não é de Berlim?

Então uma explosão é ouvida adiante.

- O que foi isso?!

- Intimidação. – responde ele – O Exército Vermelho e o governo Ulbricht, capacho dos soviéticos, estão tentando nos intimidar. Mas eles não conseguirão!

- Intimidar por quê?

- Você não ouviu nas rádios? O Partido Comunista quer aumentar a jornada de trabalho, mas não quer aumentar nossos salários!

Gunther vê um homem em cima de um carro discursar às pessoas. Ele denuncia os abusos do SED[1], acusando-os de forçar a sovietização da Alemanha. Segundo ele, o partido aumentou a indústria pesada, taxou as indústrias privadas, forçou a coletivização da agricultura e baniu os cultos religiosos. E como resultado dessas desastrosas medidas, as tarifas de transporte público aumentaram, bens de consumo desapareceram das prateleiras, fábricas aumentaram a jornada de trabalho e trabalhadores qualificados fugiram do país.

- Isso é horrível! – exclama ele.

O homem de chapéu continua:

- O custo de vida está subindo, a jornada de trabalho está aumentando, mas os salários continuam os mesmos! E o governo ainda quer que os trabalhadores cumpram cotas de trabalho cada vez maiores. Isso é um ultraje!

Ao longe ele vê um jovem ser espancado pelos manifestantes. Os trabalhadores o chutam, o socam e puxam seu cabelo. Sangue mancha suas roupas, mas eles não param. Gunther pode ver que em seu braço havia uma braçadeira do SED.

Um homem vestindo suspensórios aparece e, em tom de protesto, diz:

- Aquele bando almofadinhas, burocratas do governo, quer acelerar a construção do socialismo, não é mesmo? E querem que nós paguemos a conta, não é? Nunca!

“Coletivização, cotas de trabalho e construção do socialismo?”, pergunta-se Gunther. Ao notar a aparência antiquada das pessoas, ele sabe do que se trata. O rapaz participava da Revolta de 1953.

Mais explosões são ouvidas. Fileiras de policiais se formam ao longe e Gunther ouve veículos pesados tremerem o chão. Disparos de metralhadora são ouvidos e a multidão corre em sua direção. Temendo ser pisoteado, ele corre também, desesperado para salvar sua vida. Ou uma delas.

Pessoas caem ao seu lado, atingidas pelos disparos. O veículo avança logo atrás, mas Gunther não tem tempo de ver o que era. Imediatamente alguém o puxa pelo braço e o rapaz é salvo por um triz de não ser atropelado por um tanque de guerra russo.

O colosso de aço e esteiras avança pela rua e vai embora. Gunther o reconhece, era um formidável tanque T-34-85 soviético. Apesar de quase ser esmagado por ele, o rapaz não consegue deixar de admira-lo ao vê-lo funcionando diante de seus olhos.

- Acorde, rapaz! Você quer morrer aqui?

O homem de suspensórios fala com ele.

Mais tanques se aproximam. Deixando seu devaneio, ele vê o homem pegar pedras do chão e atirar contra eles. As pedras atingem a blindagem dos poderosos veículos, mas não lhes fazem dano algum.

- Mas que droga! – irrita-se ele – Precisamos de coquetéis Molotov!

Os revoltosos abrem uma caixa de madeira. Gunther vê garrafas com trapos e gasolina. Aquele homem parecia tomado de um frenesi de violência. Acendendo o tecido com um isqueiro, ele sorri para um tanque e diz:

- Vyacheslav Molotov sorrirá no inferno!

E então o homem atira a garrafa contra o tanque. A chama envolve sua dianteira, retardando-o. O homem ri psicoticamente, levantando os braços em comemoração. Gunther vê seu sorriso se tornar uma expressão agonizante de desespero. Sangue escorre de seus lábios após dezenas de tiros atravessarem seu peito, crivando-o de balas.   

- Temos que ir para Potsdamer Platz! – grita alguém.

- Está louco?! Eles estão lá também!

Os tanques avançam contra os manifestantes. Os policiais apontam seus rifles e atiram, atingindo-os. O cerco havia se fechado contra os trabalhadores.

Um jovem operário exclama:

- A Volkspolizei está atirando em seus próprios cidadãos!

Outro, um pouco mais velho, se pergunta:

- O governo de Berlim Ocidental não vai intervir nessa carnificina?!

- Devemos apelar aos governos do ocidente por ajuda!

Mas Gunther sabe que eles nunca intervirão. O ocidente teme a eclosão de uma nova guerra na Europa, dessa vez contra os soviéticos. Apesar da queda do nazismo, a Alemanha continuava um barril de pólvora no continente. O país era berço de duas belicosas ideologias, uma buscando a expansão através do Lebensraum[2] de Hitler, e a outra a Revolução Proletária de Karl Marx. Mas com a Revolta de 1953, estava iniciado o período de espionagem e propaganda conhecido como a Guerra Fria.

- Fora Ulbricht! – grita um corajoso jovem, erguendo-se sobre um muro e sendo imediatamente abatido em seguida.

O rapaz continua correndo entre a multidão. O som dos tanques se aproximando é aterrorizador. Incendiado por manifestantes, um carro arde em chamas, liberando densa fumaça negra. De repente o carro explode e Gunther é abruptamente lançado ao chão, totalmente desacordado.

Minutos se passam. Em intervalos de consciência, ele abre os olhos e vê soldados russos e policiais averiguando as vítimas no chão. O capitão da polícia pergunta:

- Qual é o número de mortos?

Um de seus subordinados responde:

- Passou dos trinta...

Um policial se agacha e olha para Gunther. De repente ele arregala os olhos e tem uma incrível surpresa.

- O que foi, cabo?

- Eu não entendo... - confunde-se ele - Eu já vi esse homem morto umas quatorze vezes...

- Quatorze?!

O capitão se aproxima. Ao vê-lo, ele também se intriga.

- Rápido! Ponham aqueles corpos lado a lado.

Então, ao analisarem os cadáveres, todos tinham a face de Gunther.

- Como isso é possível?! – pergunta-se o cabo.

Os policiais e os russos se aproximam para ver. Todos igualmente se espantam.

- É possível alguém ter tantos irmãos gêmeos assim?

- Eu não sei, camarada.

- Ni v Rossii ya ne videl nichego podobnogo...[3]

Enquanto os policiais e os russos discutem, o cabo diz:

- Capitão! Esse aqui ainda está vivo!

A tropa se reúne ao redor de Gunther. Ele tosse e se encolhe no chão.

- Vamos, meu jovem. – diz o capitão – Você tem muito a nos responder.

Então os policiais o levantam e o levam dali.

 

 

 



[1] Partido Comunista Unificado da Alemanha

[2] Espaço Vital em alemão

[3] “Nem na Rússia eu vi algo parecido” em russo

domingo, 4 de abril de 2021

Tiergarten - 25 - A Igreja da Reconciliação

 


Gunther olha para o céu de Berlim. Novamente no presente, ele sente a brisa da manhã soprar por sua jaqueta. As nuvens se desenrolavam suavemente e o vento assoprava a copa das árvores. Então ele se pergunta:

“Como pode tudo ser tão perfeito? Como pode tudo ser mera coincidência?”.

Caminhando ao lado do Muro de Berlim, ele vaga perdido em pensamentos. As folhas assopram por suas pernas e ele pensa estar o outono chegando. Os berlinenses passam por ele e não percebem que o rapaz ora aparece, ora desaparece subitamente.

Gunther se aproxima de um belo edifício. Apesar de se localizar entre o muro interno e o externo, o rapaz reconhece a bela Igreja da Reconciliação. Ele então aprecia a igreja de tijolos vermelhos e arquitetura neogótica. Sua torre de 75 metros se destacava sobre aquele hediondo muro.

O rapaz nota que a igreja se localizava exatamente na faixa da morte. Admirado, ele pensa: “Irônico como um local sagrado dedicado ao Criador da vida encontra-se exatamente na faixa que te dará a morte”.

Parando novamente, ele se pergunta:

“Por que Ele se chama criador da vida?". Então ele responde para si mesmo: "Por que Ele mesmo o disse?”.

No alto da torre, ele vê a cruz. Gunther era inimigo da cruz, pois agora combatia o veneno nocivo do cristianismo. Um Super Homem de Nietzsche, que via no cristianismo a imperdoável inversão de valores; e um marxista, pois aprendeu com Marx que a religião alienava o Homem de si mesmo e aplacava seu ímpeto revolucionário, pois era o ópio do povo.

“Eu sou a Verdade, o Caminho e a Vida”, disse Cristo em João 14:6. “Pois para mim, mais se parece a mentira, o erro e a morte dos ignorantes, fieis dessa cruz, impedidos de mudar o mundo por culpa da doutrina enganadora”.

Sem que pudesse perceber, uma abertura surge na lateral do impenetrável muro. Arregalando os olhos, Gunther se espanta. “Como isso é possível?!”.

Sem nenhuma vigilância, a abertura simplesmente estava lá. Espiando cautelosamente, o rapaz vê a parte de trás da igreja. Inacreditavelmente não haviam guardas. Não conseguindo conter sua curiosidade, Gunther atravessa a passagem e dá a volta pela lateral do edifício. Mais a frente, ele ouve o ruído do piso sendo varrido. Dirigindo-se à fachada principal, ele se depara com um padre católico de cabelos brancos varrendo a entrada.

- Bom dia, meu jovem.

O rapaz se intriga.

- Bom dia... – olhando para a igreja, o rapaz comenta – Não esperava ver um sacerdote católico em uma igreja protestante.

O homem sorri.

- Ora, o local chama-se Igreja da Reconciliação, não?

Sorrindo, Gunther assente.

- Aliás – continua o padre – Eu não sei como vim para aqui.

- Como assim?

- Eu deveria estar na Diocese de Velletri-Segni.

O rapaz se confunde.

- Eu nem sei onde fica isso...

- Fica na Itália.

Gunther se surpreende. Ele nunca esteve na Itália antes e, se depender do seu país, nunca estará.

- Incrível...

- Muito prazer, eu me chamo Joseph Aloisius Ratzinger.

O rapaz já ouviu aquele nome antes, mas não consegue se lembrar de onde.

- Eu sou Gunther.

O padre o convida para entrar e o rapaz rapidamente aceita. Há pelo menos duas décadas ele não pisa em uma igreja.

Em seu interior, Gunther vê um belo salão de arcos góticos, vitrais e um belo altar adiante. Apesar de se encantar com a beleza do local, o rapaz não deixa de sentir desprezo por tudo o que aquilo representa.    

Ratzinger nota que o rapaz olha fixamente para a estátua de Cristo crucificado sobre o altar. Ele então pergunta:

- Por que está atribulado, meu jovem?

Enrijecendo-se, ele responde:

- Aprendi que não devo mais suprimir minha Vontade de Potência com as doutrinas incapacitantes da religião, e muito menos me entorpecer com suas mensagens de perdão e amor ao próximo. E ao olhar para esse homem, eu vejo tudo o que devo combater.

O padre se espanta com sua resposta.

- E onde você aprendeu isso?

- Com os maiores filósofos de todos os tempos.

Assentindo, Ratzinger pergunta:

- Então você aprendeu com filosofia e ideologia?

- Sim.

- Veja – começa ele – quando eu ingressei no seminário, conheci um intelectual chamado Romano Guardini, que me influenciou em minha vida acadêmica. Mais tarde, me tornei professor na Universidade de Bonn e minha primeira aula foi sobre “O Deus da Fé e o Deus da Filosofia”. Apesar de às vezes conflitantes, teologia e filosofia podem ser irmãs. Na busca pela verdade, é mais provável um filósofo se tornar um teólogo do que o contrário. E a ideologia, ao citar a célebre frase de Marx, tende a nos afastar de Deus e nos aproximar da intolerância, do ódio e da violência. Por esse mesmo motivo eu me afastei do movimento estudantil marxista em Tübingen, pois eles não queriam a justiça social e sim a eliminação sistemática dos conservadores e da religião.

Ouvindo-o, o rapaz argumenta:

- Mas a religião inverte os valores dos fortes, tornando os humildes em nobres e os talentosos em arrogantes, graças ao seu mestre que diz ter vindo aos fracos e pobres de espírito. A religião é o alívio dos oprimidos, refreando, senão castrando, seu potencial para a revolução. É uma doutrina falsa e insidiosa, que toma a força dos poderosos e as concentra para si, monopolizando-a. Assim eles validam todo o tipo de atrocidade, sob o pretexto da conversão e da salvação.

Com olhar sério, o padre pergunta:

- A religião toma a força dos poderosos e a concentra para si, monopolizando-a? Por acaso não é o mesmo que fizeram os nazistas e os comunistas? E, apesar das discrepâncias, não eram ambos socialistas?

Gunther reflete. De fato, nacional-socialismo e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas tinham algo em comum: o socialismo.

- Sim, mas o que esses dois fizeram pode-se comparar ao Santo Ofício e a Inquisição. O que faltou aos inquisidores foram os meios e a tecnologia para eles mesmos empreenderem um massacre em larga escala, como fizeram os socialistas. Felizmente, eles estavam presos em seu tempo.

- Ora, eu fiz parte do Santo Ofício. Em 1981, eu me tornei o prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, que você chama de Santo Ofício, e posso assegurar que hoje eles não são uns carrascos sanguinários como foram seus ancestrais. De fato, o Santo Ofício foi o inventor do código penal e do modelo de julgamento que utilizamos nos tribunais até hoje. Não acho justo comparar os inquisidores com os regimes ateístas. Os tribunais revolucionários assassinaram milhões de vezes mais.

Desafiante, Gunther pergunta:

- Qual a diferença entre as filosofias e ideologias ateístas com a teologia cristã, se todos praticaram as mesmas atrocidades?

- E por acaso consegue me dizer onde, no Novo Testamento, Jesus promoveu o assassinato em massa dos infiéis?

Gunther não consegue, pois é uma doutrina totalmente voltada à exortação, perdão e amor ao próximo. Pelo mesmo motivo, Nietzsche se enojou dela, dizendo que, ao lerem, seus leitores deveriam vestir luvas para não sujarem suas mãos.

- Acho que não... – responde ele.

- Alguns marxistas se aventuram chamando Jesus de marxista, apesar de ser uma comparação bem cínica. Jesus multiplicou o pão e não a miséria e execução de milhões. – ri ele.

Lamentando-se, o rapaz diz:

- Me parece que Deus valida o sofrimento dos Homens, deliberadamente entregando-os a uma condição de existência com o único propósito de fazê-los sofrer.

Sorrindo, Ratzinger responde:

- “Deus está morto!”, disse o filósofo. Você acha mesmo que, se O matarmos, os Homens deixarão de sofrer?

Então o rapaz sente suas convicções tremerem.

- As ideologias ateístas – continua o padre – prometem o paraíso na Terra. Hitler, o paraíso aos arianos e os comunistas, o paraíso ao proletariado. Se todas essas utopias prometem o paraíso, então eu prefiro ficar com a utopia de Cristo.

Novamente o rapaz não tem o que responder.

- O Reino dos Céus... – sussurra ele.

- Supondo que Deus não exista, o cristão morre e se lamenta, tendo desperdiçado todos os prazeres da vida. Porém, se o ateu morrer e Deus existir, meu amigo... – alerta ele – ele terá problemas...

Gunther concorda. Mas, lembrando-se de algo, ele comenta:

- Talvez essas filosofias, ideologias e regimes queiram dar solução à miséria humana, coisa que sua religião tarda dois mil anos para fazer.

Dessa vez, é Ratzinger quem se cala.

- Confesso que eu também queria saber. É como a própria Bíblia diz, “um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos é como um dia”[1].

- E como manter o coração puro nesses mil anos que são um dia? Exposto a esse mundo, com todos os seus prazeres e libertinagens, vaidades e riquezas? Nenhuma alma se salvará. As pessoas são más, herr Ratzinger. Durante minha vida, eu abri meu coração a quem não merecia e fui ferido. Consequentemente, eu o endureci quando não deveria e as pessoas se feriram. Quando não é a religião dando alívio às nossas dores, é a ideologia dando um propósito às nossas vidas. Estamos perdidos nesse mundo. Independente ou não de Deus existir, não importa. Ele nos abandonou aqui. Não há salvação.

O padre responde de forma compreensiva. 

- Eu entendo o seu ponto de vista.

- Às vezes eu acho que, no último dia, Jesus dirá aos outros: “Servo fiel, entra na alegria do teu Senhor”[2]. Mas a mim, Ele se enfurecerá, dizendo: “Apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade”[3].

De forma amorosa, o padre sorri.

- Cristo não veio para julgar o mundo, mas para salvá-lo[4]. Afaste esses pensamentos de sua cabeça, pois eles não são de Deus.

- E o que é de Deus? Para mim, a religião é uma história bem contada, uma convicção incutida na mente das pessoas. Mas será que os fieis tem noção do que eles mesmos acreditam? Será que eles pararam para pensar que o Deus que acreditam é o mesmo que abriu o Mar Vermelho? Ou que afogou todo o mundo no dilúvio? Enquanto falamos aqui, eles sabem que seu Deus teve a incrível façanha de parar o sol no céu, impedindo que o dia anoitecesse[5]? Ou será que eles estão tão inebriados com essas mensagens de amor divino que separaram o Deus do Velho e do Novo Testamento?

- O que quer dizer?

- Quero dizer que convicção não é o mesmo de noção. Doutrina religiosa pode contar as histórias mais incríveis, mas nunca praticar o que contam, pois lhes faltam fé. Ou talvez – o rapaz suspeita – veracidade em seus relatos bíblicos.

O padre pergunta de maneira incisiva:

- Com que frequência você tem orado?

Gunther nunca orou em toda a sua vida.

- Com que frequência – continua ele – você pediu a Deus direção em sua vida? Ou um milagre para alguma situação crítica? Você tem buscado Sua presença ou constantemente o rejeita com suas filosofias e ideologias ateístas?

Abaixando sua cabeça, ele responde:

- Eu nunca pedi nada a Deus, herr Ratzinger.

- Então como pode falar em convicção e noção se nunca O buscou, jovem Gunther? – sorri ele – Fale com Ele algum dia. Prove-O. Como diz em Salmos 34:8, “provai e vede que o Senhor é bom”. Somente assim você criará a noção de que tanto precisa.

De alguma maneira, aquelas palavras tocam o coração de Gunther.

- Vamos – diz o padre – deixe-me orar por você.

Pedindo-o para fechar os olhos, Ratzinger segura suas mãos e faz uma oração. Gunther ouve ele falando o nome de Jesus, de Maria e do próprio Deus. O rapaz não sabe o que pensar e acha aquilo muito estranho, afinal ele nunca frequentou uma igreja antes.

O padre ora com muito fervor e, de olhos fechados, Gunther espera ele terminar. Por fim, Ratzinger pede:

- Diga amém, jovem Gunther.

O rapaz responde:

- Amém.

Então as mãos do padre ficam leves e se evaporam lentamente. Intrigado, Gunther abre os olhos e se espanta. Ratzinger havia desaparecido.

Levantando-se do banco de madeira, o rapaz procura o padre pela igreja, mas não o encontra em lugar algum. Ele estava novamente sozinho.

Lágrimas se formam em seus olhos. Levando suas mãos ao rosto, ele se enche de tristeza e revolta. Gunther estava se cansando de ficar sozinho.

Olhando para a estátua de Cristo, ele finalmente exclama:

- Por que está fazendo isso comigo?! – sua voz ecoa pela igreja vazia – O que foi que eu te fiz?!

Mas não há resposta. Nunca houve resposta. Apenas a solidão.

Sentando-se novamente, ele pergunta:

- Por que eu sou um paradoxo dimensional? Que tipo de experimentos os russos fizeram comigo? Isso é um sonho? Eu estou em um estado de R.E.M assistido?

O rapaz se refere ao Rapid Eye Movement[6], uma fase do sono onde a atividade cerebral é tão intensa que pode-se compara-la ao estado acordado.

- Por que o Senhor fez isso comigo? – pergunta ele – Por quê?!

Sua voz ecoa pelo salão, mas, ao terminar, novamente há silêncio.

- Se eu tiver que continuar assim, eu prefiro morrer!

Então o rapaz ouve estrondoso o som das paredes se quebrando. Assustado, ele olha para trás e vê um buraco sendo feito, seguido de uma densa nuvem de poeira. Outro impacto é ouvido e, ao olhar para cima, ele vê as telhas se caindo sobre os velhos bancos.

- O que está acontecendo?! – grita ele.

O rapaz pensa que Berlim está sofrendo um bombardeio aéreo. Ele teme uma invasão soviética e uma reação americana, com explosões logo sobre o muro que divide os blocos.

Algo estoura os vitrais em milhares de pedaços. Protegendo-se dos estilhaços, Gunther olha para cima e vê uma enorme esfera preta pendurada por um cabo de aço. Após outro estrondo, ele vê outra esfera preta, dessa vez na parede à esquerda. A poeira dos escombros se intensifica e pedaços de telha atingem seu corpo.

Encarando a estátua de Cristo, ele clama:

- Salve-me, Senhor!

Mas o teto cede e desaba à sua frente, soterrando o altar e a estátua sob a sufocante poeira.

Gunther grita por socorro, mas ouve apenas a velha igreja cair com golpes de aço. Agora coberto de poeira, o rapaz corre pelo salão até a saída. Tropeçando nos escombros, ele cai e se arrasta arduamente pelo chão. Então algo acontece.

Alguém vestido em um uniforme cinza e esverdeado entra. Ao vê-lo ali, imediatamente ele o socorre.

- Mas o que é que você está fazendo aí?! – pergunta ele.

O rapaz reconhece um guarda da Grenztruppen.

- Me ajude! – pede ele.

- Vamos logo! Esse lugar vai desabar!

Arrastando-o para fora, o guarda o tira da igreja pouco antes da porta cair atrás deles.

Gunther vê máquinas de demolição ao lado da igreja. Guardas fronteiriços os recebem e se surpreendem ao ver que havia alguém ali.

Um minuto depois, as cargas de demolição são acionadas e o chão treme abaixo de si. Gunther se espanta ao ver a alta torre desabar lateralmente ao chão, levantando uma enorme nuvem de poeira e pólvora.  

O guarda olha para ele e diz:

- Eu ouvi gritos lá dentro, mas não havia mais tempo de parar a demolição.

Mais guardas aparecem e, desconfiados, o perguntam:

- Como é que você entrou aqui?

Tossindo, o rapaz responde:

- Havia uma passagem no muro.

- Uma passagem?! – ri alguém.

- Quem é você?

- Eu sou Gunther.

- De onde você é?

- Sou de Berlim Oriental.

Os guardas se entreolham, pensando que ele é um fugitivo.

- Você está preso.

- Por quê?! – protesta ele.

- Você estará sob custódia até maiores esclarecimentos.

- Eu não fiz nada!

Então, segurando-o pelos braços, os guardas o levam pela densa poeira. Mas, ao atravessarem-na, o rapaz simplesmente havia desaparecido no ar.

 

§

 

De volta ao seu apartamento, Gunther se senta em sua poltrona e reflete sobre o ocorrido. Na pequena mesa, ao lado do telefone, ele vê um cigarro. Pegando-o, ele se pergunta como aquilo foi aparecer ali. Querendo fuma-lo, ele tenta  acendê-lo quando o telefone toca.

- Alô?

- Oi, Gunther. Você não deveria fumar. Isso faz mal a você.

- Boa tarde, voz na minha cabeça. Tudo bem com você?

- Depende. Se você estiver bem, eu estou. Se não estiver, então não.

Respirando fundo, o rapaz pergunta:

- Como aquilo foi acontecer, moça? Como eu fui entrar naquela igreja proibida?

- Talvez seja a quarta dimensão querendo te enviar uma mensagem.

- Que mensagem? – intriga-se ele.

- Talvez o conceito de Super Homem de Nietzsche, e o revolucionário de Marx, não sejam o caminho correto para conquistar Anneliese. Se você deseja mudar a realidade, talvez devesse conhecer melhor o Criador dela.

Gunther reflete. A filosofia e ideologia o afastaram da religião, a ponto dele rejeita-la. Ele responde:

- O Criador zomba de mim. Em alguma dimensão eu vivo, morro e vivo de novo, como já aconteceu antes. Ao que me parece, eu não posso morrer.   

De maneira obscura, a voz diz:

- Imagine sua existência como um lustre. Quando a última luz da última lâmpada se apagar, aí será o seu fim.

O rapaz entende que cada lâmpada é uma diferente versão de si mesmo em outra dimensão. Ele comenta:

- Se algum desses “eus” conquistar Anneliese, será o suficiente para mim.

A voz ri.

- Tem certeza?

- Sim. Haverá pelo menos um Gunther feliz.

- E o que te faz pensar que todos querem Anneliese, ou pior, que todos querem destruir o socialismo na Alemanha?

Lembrando-se que foi o socialismo que separou sua mãe de si, ele reafirma:

- Eu tenho certeza que todos odeiam o socialismo tanto quanto eu.

Então a voz responde:

- Espero que sim, Gunther. Eu espero que sim.

Em seguida ele só ouve estática. Colocando o receptor de volta no aparelho, ele olha para a janela e relaxa um pouco.

O rapaz ouve algo sendo arrastado debaixo de sua porta. Levantando-se, ele encontra uma carta na soleira. Abrindo-a, ele vê que haverá um evento em Marzahn. Dando de ombros, ele amassa o papel e o joga no lixo.

Sentando-se novamente, ele acende o cigarro e o fuma até o anoitecer.

 

 



[1] 2 Pedro 3:8

[2] Mateus 25:23

[3] Mateus 7:23

[4] João 12:47

[5] Josué 10:13

[6] Movimento rápido dos olhos em inglês

Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta

(Artista desconhecido) Dias se passam. Yang é mantido em um recinto com sofá, mesa e televisão. Não era bem uma cela, mas uma confortável sa...