O termo
Doppelgänger se popularizou com a obra literária de Johann Paul Friedrich
Richter, mais conhecido por seu pseudônimo Jean Paul. Nascido em Wunsiedel, no sul da
Alemanha, ele escreveu seu famoso livro Siebenkäs, do qual tratava de forma
polêmica o tema da Ressureição cristã. No livro, o termo Doppelgänger foi
utilizado, embora em sua versão mais antiga, “Doppeltgänger”.
Significando
literalmente andarilho (gänger) duplo (doppel), no sentido de um sósia ou
duplicata, o mito do Doppelgänger se espalhou pelo mundo, geralmente referindo-se
a um gêmeo malvado, à má sorte ou a própria morte. Conta-se que, se um amigo
passar pelo doppelgänger de um conhecido, esse amigo passará por uma situação difícil,
como o azar, a miséria ou o divórcio. Porém, se a própria pessoa avistar seu doppelgänger,
ela morrerá. Os doppelgängers geralmente são invisíveis à pessoa. Entretanto,
em sua presença, elas drenam sua energia e lhe anunciam um problema futuro.
Um caso muito conhecido
foi de Emilie Sageé, professora da escola Von Neuwelcke na Lituânia. Os alunos
afirmaram ter visto uma cópia de Emilie diante de seus olhos enquanto ela lecionava
na sala de aula. Embora idêntica, a duplicata era mais pálida e mórbida,
semelhante a um fantasma do outro mundo. Com aparições cada vez mais
frequentes, os alunos se assustaram e passaram a evitar Emilie. A professora
acabou demitida, mas seu relato se espalhou.
A ciência explica
as aparições macabras dos doppelgängers. Os cientistas combinam sintomas de
esquizofrenia com os de epilepsia. Na primeira, os pacientes sofrem de psicoses,
perdendo o contato com a realidade. Na segunda, as patologias se caracterizam
por lapsos de consciência, acompanhados de convulsões que aparecem em
intervalos não regulares de tempo. Ao serem diagnosticados com sintomas das
duas doenças, os cientistas classificam a nova doença de Heautoscopia, caracterizada
quando o paciente sofre um delírio, acreditando ver sósias.
Gunther também conhecia
o conto dos doppelgängers, mas não do escritor alemão Jean Paul, mas de Fyodor
Dostoievski. No famoso livro “O Duplo”, o escritor russo conta uma interessante história sobre um burocrata que se encontra consigo mesmo e, a
princípio, ambos se tornam grandes amigos. Mais tarde, eles se tornam piores
inimigos e o sósia, possuindo melhores qualidades do que ele, tenta tomar o lugar do original.
De qualquer forma,
o mito dos doppelgängers se difundiu e, existindo ou não, tudo é possível na quarta
dimensão.
§
Passeando em
frente a uma escola, Gunther reconhece o local onde estudou durante sua
infância. Localizada no distrito de Pankow, ele tem boas lembranças daquele
lugar. O prédio era cúbico, avermelhado e cheio de janelas. No quintal havia um
vasto gramado com mesas e brinquedos para as crianças. Ao lado ele vê a velha
quadra poliesportiva onde ele praticou muitos esportes com as outras crianças.
“Enfim”, pensa
ele, “um belo lugar”.
Ao ver melhor,
parecia ser o primeiro dia de aula daquelas crianças, pois todas acompanhavam
seus pais. Alguns alunos estão empolgados e outros
choram junto de seus pais, temendo serem separados deles. Para acalma-las, as professoras
lhes presenteiam com lápis, réguas, borrachas e cadernos encapados com desenhos
alegres e divertidos. Essa era a forma da Alemanha Oriental incentivar suas
crianças, dando-lhes presentes antes das aulas começarem.
Olhando para o
nome da escola, o rapaz vê que seu nome está escrito em alemão e russo.
Diferente da Alemanha Ocidental, que ensinava seus alunos a língua inglesa
junto da língua alemã, na oriental lhes era ensinado a língua russa. Dessa
maneira, todos aprendiam o idioma dos responsáveis pela destruição Terceiro Reich alemão.
Era duas da
tarde. Enquanto estava ali, calmamente observando os alunos, alguém aparece atrás
dele e, chamando-o, o assusta.
- Ei, Gunther!
Virando-se, ele vê um rapaz magro, de barba e cabelos pretos sorrir para
ele.
- Boa tarde...?
- Boa tarde?! –
intriga-se ele – Está com algum problema?
Confuso, Gunther
pergunta:
- Eu te conheço?
- Ora, mas é
claro que me conhece! – exclama ele – Estivemos conversando agora há pouco!
O rapaz se
confunde mais ainda.
- Quem é você?
- Sou eu! Dieter!
Erguendo a
sobrancelha, o rapaz não sabe o que responder. Ele não conseguia recorda-lo de lugar
algum.
- Desculpe-me,
mas eu não me lembro de você.
Insistente, o tal
Dieter diz:
- Durante a
infância, nós estudamos juntos nessa escola – ele aponta para o prédio à frente
– e éramos amigos lá.
Gunther ainda não
consegue se lembrar.
- E você tem
certeza que era eu?
- E como eu
poderia me esquecer? – responde ele – Eu só briguei uma vez na vida, e foi com você.
Então o rapaz se
lembra. Na segunda série, Dieter era o idiota que não aceitava perder no jogo
de bolinhas de gude.
- Ah, sim. Eu me lembro.
– responde ele, sem interesse – Eu não o reconheci.
- Impossível –
insiste ele –, pois há uma hora estivemos conversando em Marzahn.
- Marzahn?!
- Sim. Nós
estávamos em um evento esportivo lá. É só isso o que a Alemanha Oriental tem a
nos oferecer: eventos políticos, escolares e esportivos. Tremendo
entretenimento, não?
Ao ouvir a
ironia, Gunther sorri.
- Desculpe, mas
eu não fui para Marzahn hoje. Você deve ter me confundido com outra pessoa.
Dieter gargalha.
- Mas é claro que
era você! Nós conversamos por horas sobre a nossa infância, a vida adulta e sobre
política...
- Você tem
certeza?
- Sim, tenho! Só
você poderia saber de nossas memórias de infância. Estranhamente, você só me deu
conselhos ruins, dizendo que, para eu me dar bem na vida eu deveria trapacear,
caluniar e até cometer crimes. Sujeito excêntrico... – ri ele –
E, obviamente, era você na minha frente. – Dieter o olha de cima a baixo – Apesar
de você estar usando roupas diferentes...
Colocando a mão
no queixo, Gunther tem dificuldade em acreditar.
- Outra coisa –
interrompe o outro –, como você chegou aqui tão rápido?
- Como assim?
- Eu moro aqui
perto e vim de carona com um amigo do governo. Ele me trouxe de carro, por que,
você sabe... ele é do governo... – Dieter ironiza novamente, afirmando que
apenas os funcionários governamentais conseguiam um carro.
- Eu não vim de
carro. – responde ele – Eu vim a pé.
- Quê?! –
espanta-se ele – São mais de dez quilômetros de Marzahn até aqui!
- Eu não vim de
Marzahn...
- E os ônibus –
interrompe ele – são velhos e lentos. Você teria que ter um carro, e um bem
rápido!
- Pela última
vez, eu não estive em Marzahn!
- Mas eu estou dizendo...
Percebendo que
Dieter não ia parar de insistir, o rapaz se irrita.
- Me deixe em
paz!
Então ele dá as
costas e vai embora.
§
Aproximando-se de
seu prédio, Gunther enxuga o suor de sua testa e suspira. Subindo as escadas,
ele se distrai com a expectativa de finalmente se deitar. Ao colocar a chave na
fechadura, ele gira a maçaneta e abre a porta. Então ele tem uma terrível
surpresa.
Havia um homem em
seu apartamento. O desconhecido estava em seu quarto, de costas e conversando ao
telefone. Espiando-o, Gunther vê que ele veste uma blusa azul, calça marrom e
tênis esportivo.
Ao se aproximar,
o rapaz finalmente pergunta:
- Quem é você?
Assustando-se, o
desconhecido se vira rapidamente. Então Gunther se petrifica em horror. Aquele
homem era idêntico a ele.
- Quem é você? –
pergunta o outro.
Franzindo a
testa, ele novamente pergunta:
- O que você está
fazendo aqui?
Franzindo-a
também, o outro responde:
- O que você está
fazendo aqui?
Gunther dá um
passo à frente. O outro grita:
- Para trás!
Virando-se, seu
sósia pega o telefone e, olhando assustado para Gunther, diz:
- Sashenka, me
ajude! Tem alguém no meu apartamento! E ele é idêntico a mim!
“Sashenka?!”,
pensa ele. “Quem é essa mulher?”.
“Isso não deveria
estar acontecendo! As dimensões foram sobrepostas!”, exclama ela, com forte
sotaque russo. “Gunther, saia já daí!”.
O rapaz se
surpreende, ele também ouviu a voz no telefone. Era como se houvessem alto-falantes
nas paredes.
Então, tomado de
desespero, o sósia avança contra Gunther e o empurra, dirigindo-se à saída.
O rapaz pega o
telefone e, ao dizer alô, a voz apenas responde:
“Vá pegá-lo”.
Em seguida ele
ouve apenas estática. Largando o aparelho, Gunther também corre até a saída.
As ruas
berlinenses estão barulhentas e movimentadas. Ao sair de seu prédio, ele vê seu
sósia puxar um motorista para fora de seu carro, um famoso “Trabant” produzido na Alemanha Oriental. Então o sósia foge pelas ruas de Berlim.
O rapaz olha para
o lado e, ao ver outro motorista, o puxa para fora de seu veículo, adentrando-o e perseguindo seu sósia em seguida.
A direção era detestável. Havia folga no volante e os pedais eram duros. Com uma alavanca de câmbio tão frouxa, Gunther engatava as marchas com dificuldade. Finalmente ele entende o velho ditado da RDA que diz: "viver na Alemanha Oriental é como dirigir um carro com o freio de mão levantado".
Esforçando-se
para guiar seu carro, o rapaz avista seu sósia entrando na Karl-Marx Strasse.
Cantando pneus pelas ruas, o outro dirige perigosamente, em alta velocidade entre os outros veículos.
Tentando
alcança-lo, o rapaz o segue logo atrás. Sua duplicata avança pelas avenidas e
faz curvas abruptas nos cruzamentos, confundindo-o. Sem que o rapaz pudesse
perceber, os carros, os pedestres e a paisagem ao redor mudavam de aspecto,
como se a cada quarteirão eles voltassem no tempo.
No final de uma
rua havia um bloqueio de trânsito. Obrigado a parar, a duplicata abandona seu
carro e corre pelas calçadas. Parando ao lado de seu carro, Gunther reconhece o
local. Eles estavam em Leipziger Strasse.
Ao abrir a porta,
o rapaz sai do veículo e é surpreendido por uma multidão de revoltosos. Um homem
vestindo chapéu e um terno barato olha para ele e diz:
- Saia do
caminho! Você quer ser pisoteado?!
Gunther se
assusta.
- O que está
acontecendo?
O homem ri.
- Como assim o
que está acontecendo? Por acaso você não é de Berlim?
Então uma
explosão é ouvida adiante.
- O que foi
isso?!
- Intimidação. –
responde ele – O Exército Vermelho e o governo Ulbricht, capacho dos
soviéticos, estão tentando nos intimidar. Mas eles não conseguirão!
- Intimidar por
quê?
- Você não ouviu
nas rádios? O Partido Comunista quer aumentar a jornada de trabalho, mas não quer
aumentar nossos salários!
Gunther vê um
homem em cima de um carro discursar às pessoas. Ele denuncia os abusos do SED[1],
acusando-os de forçar a sovietização da Alemanha. Segundo ele, o partido aumentou
a indústria pesada, taxou as indústrias privadas, forçou a coletivização da
agricultura e baniu os cultos religiosos. E como resultado dessas desastrosas
medidas, as tarifas de transporte público aumentaram, bens de consumo
desapareceram das prateleiras, fábricas aumentaram a jornada de trabalho e trabalhadores
qualificados fugiram do país.
- Isso é
horrível! – exclama ele.
O homem de chapéu
continua:
- O custo de vida
está subindo, a jornada de trabalho está aumentando, mas os salários continuam
os mesmos! E o governo ainda quer que os trabalhadores cumpram cotas de
trabalho cada vez maiores. Isso é um ultraje!
Ao longe ele vê
um jovem ser espancado pelos manifestantes. Os trabalhadores o chutam, o socam e puxam seu cabelo. Sangue mancha suas roupas, mas eles não
param. Gunther pode ver que em seu braço havia uma braçadeira do SED.
Um homem vestindo
suspensórios aparece e, em tom de protesto, diz:
- Aquele bando
almofadinhas, burocratas do governo, quer acelerar a construção do socialismo, não
é mesmo? E querem que nós paguemos a conta, não é? Nunca!
“Coletivização,
cotas de trabalho e construção do socialismo?”, pergunta-se Gunther. Ao notar a
aparência antiquada das pessoas, ele sabe do que se trata. O rapaz participava
da Revolta de 1953.
Mais explosões
são ouvidas. Fileiras de policiais se formam ao longe e Gunther ouve veículos
pesados tremerem o chão. Disparos de metralhadora são ouvidos e a multidão
corre em sua direção. Temendo ser pisoteado, ele corre também, desesperado para
salvar sua vida. Ou uma delas.
Pessoas caem ao
seu lado, atingidas pelos disparos. O veículo avança logo atrás, mas Gunther
não tem tempo de ver o que era. Imediatamente alguém o puxa pelo braço e o
rapaz é salvo por um triz de não ser atropelado por um tanque de guerra russo.
O colosso de aço e esteiras avança pela rua e vai embora. Gunther o reconhece, era um formidável tanque T-34-85 soviético. Apesar de quase ser esmagado por ele, o rapaz não consegue deixar de admira-lo ao vê-lo funcionando diante de seus olhos.
- Acorde, rapaz!
Você quer morrer aqui?
O homem de suspensórios
fala com ele.
Mais tanques se
aproximam. Deixando seu devaneio, ele vê o homem pegar pedras do chão e atirar
contra eles. As pedras atingem a blindagem dos poderosos veículos, mas não lhes
fazem dano algum.
- Mas que droga!
– irrita-se ele – Precisamos de coquetéis Molotov!
Os revoltosos
abrem uma caixa de madeira. Gunther vê garrafas com trapos e
gasolina. Aquele homem parecia tomado de um frenesi de violência. Acendendo o
tecido com um isqueiro, ele sorri para um tanque e diz:
- Vyacheslav
Molotov sorrirá no inferno!
E então o homem atira a garrafa contra o tanque. A chama envolve sua dianteira, retardando-o. O homem ri psicoticamente, levantando os braços em comemoração. Gunther vê seu sorriso se tornar uma expressão agonizante de desespero. Sangue escorre de seus lábios após dezenas de tiros atravessarem seu peito, crivando-o de balas.
- Temos que ir
para Potsdamer Platz! – grita alguém.
- Está louco?! Eles
estão lá também!
Os tanques
avançam contra os manifestantes. Os policiais apontam seus rifles e atiram,
atingindo-os. O cerco havia se fechado contra os trabalhadores.
Um jovem operário
exclama:
- A Volkspolizei está
atirando em seus próprios cidadãos!
Outro, um pouco mais
velho, se pergunta:
- O governo de
Berlim Ocidental não vai intervir nessa carnificina?!
- Devemos apelar
aos governos do ocidente por ajuda!
Mas Gunther sabe
que eles nunca intervirão. O ocidente teme a eclosão de uma nova guerra na Europa,
dessa vez contra os soviéticos. Apesar da queda do nazismo, a Alemanha
continuava um barril de pólvora no continente. O país era berço de duas belicosas ideologias, uma buscando a expansão através do Lebensraum[2]
de Hitler, e a outra a Revolução Proletária de Karl Marx. Mas com a Revolta de 1953,
estava iniciado o período de espionagem e propaganda conhecido como a
Guerra Fria.
- Fora Ulbricht! –
grita um corajoso jovem, erguendo-se sobre um muro e sendo imediatamente abatido
em seguida.
O rapaz continua
correndo entre a multidão. O som dos tanques se aproximando é aterrorizador. Incendiado
por manifestantes, um carro arde em chamas, liberando densa fumaça negra. De repente
o carro explode e Gunther é abruptamente lançado ao chão, totalmente desacordado.
Minutos se
passam. Em intervalos de consciência, ele abre os olhos e vê soldados russos e
policiais averiguando as vítimas no chão. O capitão da polícia pergunta:
- Qual é o número
de mortos?
Um de seus subordinados
responde:
- Passou dos trinta...
Um policial se
agacha e olha para Gunther. De repente ele arregala os olhos e tem uma incrível
surpresa.
- O que foi,
cabo?
- Eu não entendo... - confunde-se ele - Eu já vi esse homem morto umas quatorze vezes...
- Quatorze?!
O capitão se aproxima. Ao vê-lo, ele também se intriga.
- Rápido! Ponham aqueles
corpos lado a lado.
Então, ao
analisarem os cadáveres, todos tinham a face de Gunther.
- Como isso é possível?!
– pergunta-se o cabo.
Os policiais e os
russos se aproximam para ver. Todos igualmente se espantam.
- É possível alguém
ter tantos irmãos gêmeos assim?
- Eu não sei,
camarada.
- Ni v Rossii ya
ne videl nichego podobnogo...[3]
Enquanto os
policiais e os russos discutem, o cabo diz:
- Capitão! Esse aqui
ainda está vivo!
A tropa se reúne ao
redor de Gunther. Ele tosse e se encolhe no chão.
- Vamos, meu jovem.
– diz o capitão – Você tem muito a nos responder.
Então os policiais
o levantam e o levam dali.

