(Foto de Vadim Vasenin)
No dia seguinte,
Valentim vai ao hospital da cidade. Já havia passado do meio-dia e as ruas
estavam movimentadas lá fora. Ao chegar ao saguão principal, ele vê várias
estátuas de santos católicos nas paredes. Muitas enfermeiras eram freiras e
ajudavam os enfermos com remédios e orações.
Valentim caminha
pelo corredor e chega ao seu destino. Em um quarto com mais sete leitos, ele
encontra Tobias repousando. O inspetor estava sem camisa e com muitas faixas em
seu ombro. Ele se aproxima e diz:
- Boa tarde,
inspetor. Como está?
Tobias responde:
- Estou bem,
obrigado. Ainda me recuperando, na verdade.
- E como está o
ferimento?
- O virote
atravessou meu ombro, mas não houve muita perda de sangue. Eles quiseram me
tratar com remédios à base de Plasma, mas eu recusei todos.
Ele aprova a prudência
do inspetor.
- Os médicos já disseram
quanto tempo levará até você voltar ao trabalho?
- Sim. Eles estimam
um período de três meses para a recuperação.
Valentim se
assusta. Ele não pode esperar tanto.
- Me parece que
seu ferimento é parecido com o meu. Eu também estou me recuperando, mas não me
debilitou a ponto de me invalidar.
Então os dois
ficam em silêncio por um tempo.
Valentim pega uma
cadeira e se senta. Em seguida ele relata detalhadamente o que aconteceu na
noite anterior. Tobias ouve a tudo com muita atenção e surpresa; aparentemente
os lobisomens eram reais. Ao final o inspetor se felicita; seu assistente mais
uma vez havia resolvido o caso.
Enquanto pensa a
respeito, Tobias nota as roupas novas de seu assistente. Ele pergunta:
- Senhor
Valentim, que roupas são essas?
- Ora, essas...?
– pergunta ele, sem dar importância – Eu as comprei hoje de manhã.
Tobias se
intriga. Fazendo um olhar de suspeita, ele sabe que seu assistente mal podia
sobreviver.
- Com que
dinheiro? – pergunta ele, enfim.
- Lembra-se
daquele revólver de prata que eu emprestei dos Caçadores Britânicos? Eu o vendi
no mercado negro.
- O senhor o
quê?! – espanta-se ele.
- Eu comprei
comida, alimentei meu gato e paguei algumas dívidas. Também aproveitei para
comprar algumas roupas. As minhas estavam velhas após tanto usa-las nas
fábricas, assim elas acabaram estragando um pouco... – comenta tranquilamente
ele – E aquele revólver era bem valioso, caso queira saber.
- Senhor
Valentim! Aquela arma era propriedade alheia e possível prova no crime de
assassinato!
Valentim sacode
os ombros.
- Relaxe,
inspetor. Aqueles ricos não precisarão mais dela.
Então Tobias se
silencia, abismado com o desprezo de seu assistente pela morte dos nobres
ingleses.
§
Na manhã seguinte,
Tobias e Valentim vão à Gendarmerie. O inspetor passou a noite escrevendo seu
relatório e intentava encerrar o caso junto ao seu capitão. Valentim insistiu
para que ele deixasse Benjamin e sua esposa partirem e, apesar de muito
contrariado, Tobias acatou.
Ao entrar na sala
de evidências, Tobias se senta em sua cadeira. Um minuto depois alguém atrás
deles pergunta:
- Inspetor
Hessler? O que está fazendo aqui?
Os dois olham
para a porta e veem o capitão Vilko.
- Bom dia,
capitão. Vim lhe entregar o relatório do caso em Zgornji Kašelj.
Segurando a pasta
em sua mão, o capitão diz:
- Você não
deveria estar aqui, inspetor. Você deveria estar em casa se recuperando. –
afirma ele – Mas... – continua ele – Já que está aqui... Preciso lhe pedir um
imenso favor.
- Do que o senhor
está falando?
- Há um novo
caso... – responde ele – E preciso que você o investigue.
Tobias se
surpreende.
- Por que eu?
- Não é um
simples caso. Coisas estranhas estão acontecendo nos arredores da Praça Jurčičev.
– revela ele – Há um mistério no bairro judeu.
- E por que os outros
inspetores não podem investiga-lo?
Levantando a
sobrancelha, Vilko responde:
- Eu realmente
preciso lhe responder, Hessler?
Então Tobias
entende. Os outros não queriam aceitar o caso devido ao antissemitismo.
- Como vê, eu
ainda estou me recuperando, capitão. Não posso aceitar o caso.
- Pois eu insisto
que aceite. – diz Valentim, interrompendo-os.
- O que disse?
- Tobias, você
foi o único aqui competente o bastante para relacionar o aumento dos crimes com
o Plasma. Profissionais velhos e experientes não tiveram a mesma inteligência,
apesar de seus anos de Gendarme. E, mesmo agora, se agarram às suas ignorâncias
recusando-se a se envolver com os judeus por puro preconceito. – comenta ele,
insultando indiretamente o capitão – Creio que esta seria mais uma chance de
lhes mostrar o quanto são uns velhos, estúpidos e incompetentes, bem abaixo do
nível de profissionalismo exemplar que apenas você, um jovem estrangeiro e brilhante,
tem.
O capitão se
irrita.
- Escute aqui,
seu insolente! Eu ainda não me convenci do ocorrido no Bosque das Espatódeas! E
agora estou com a nobreza inglesa no meu pescoço por sua causa! – vocifera ele.
- Pois então por
que não entra lá o senhor mesmo e descubra o que aconteceu? Creio que a nobreza
inglesa sairá do seu pescoço quando encontrarem o seu corpo em pedaços!
- Ora, essa!
O capitão avança
contra Valentim e o inspetor é obrigado a se interpor entre eles.
- Eu aceito! –
exclama ele – Eu aceito o caso...!
Os dois se
acalmam, recompondo-se.
- Não poderei
deixa-lo ir sozinho neste estado, ainda mais com um assistente tão vil... –
comenta ele – Vou convocar um guarda para acompanha-lo. – então ele se dirige à
porta e diz – Guarda Davud, apresente-se!
Um segundo depois
o jovem guarda entra. Endireitando-se, ele bate continência e diz:
- Sim, senhor
capitão!
- Guarda Davud,
quero que novamente acompanhe o Inspetor Hessler em sua investigação. Hessler
está ferido e preciso que você o proteja. – explica ele – Vocês devem partir
imediatamente. Vão para a Praça Jurčičev e resolvam o caso. Não queremos
problemas com os judeus.
Então Davud se
assusta.
- Espere um
pouco, senhor capitão. O senhor quer me mandar para o bairro judeu?
- Sim. Por quê?
- Senhor, eu sou
um muçulmano da Bósnia. O Profeta, que a paz esteja sobre ele, nos instruiu a
não nos misturarmos com os judeus. Não posso ir contra o Alcorão.
O capitão se
mantém firme.
- Guarda Davud, o
senhor não estará se misturando com os judeus e sim com os cidadãos deste
império. É um império multiétnico, como já deve saber. Se quiser se juntar a
ele, sugiro tratar seus cidadãos como iguais. – virando-se, ele caminha até a
porta e conclui – Boa sorte, senhores. E Valentim... – chama ele – Estou de
olho no senhor.
Em seguida o capitão
Vilko deixa a sala e vai embora.
§
A Praça Jurčičev
tinha belos prédios de arquitetura barroca. Em seu entorno haviam bares,
restaurantes e mercearias. Estando próximos do Rio Liublianica, eles ouvem as
máquinas de bombeamento d’água operando ao longe, fazendo os becos ficarem
encobertos da fuligem esverdeada de Plasma.
Caminhando pelo
belo pavimento de pedras, eles jamais suspeitariam que algo sinistro ocorria
naquele lugar à noite.
Adentrando os
becos, eles seguem pela Židovska steza[1]
e viram à esquerda na Židovska ulica[2].
Eles notam como haviam muitos homens barbudos, com tranças sob os chapéus e
roupas pretas. As crianças brincavam e eles veem quipás em suas cabeças. Tobias
vê muitas estrelas de Davi nas portas. Em alguns pontos ele também via a Menorá,
o famoso candelabro de sete braços, símbolo do Judaísmo.
E assim Valentim,
Tobias e Davud havia entrado no pequeno bairro judeu.
Sob seu elmo,
Davud andava com sua faixa com a frase islâmica. Ele estava muito incomodado
caminhando pela comunidade judaica, e não conseguia esconder seu desagrado. Os
judeus notam o jovem muçulmano passando ali e se intrigam, espantados com sua
presença. Desta maneira, Davud e os judeus se repeliam mutuamente.
Chegando ao
endereço, Tobias encontra uma pequena sinagoga improvisada. Ali era um antigo
comércio adaptado para servir de salão aos rabinos em seus cultos. Parando na
entrada, ele vê homens velhos de barba comprida lendo rolos escritos em
hebraico.
“As Escrituras”,
pensa ele.
- Com licença. –
interrompe ele – Eu estou procurando pelo rabino Ronistein. Sabem onde posso
encontra-lo?
Os homens se
entreolham. De repente alguém entre eles responde.
- Guten Morgen, junger Österreicher[3].
Eu sou o rabino Ronistein. Como posso ajudá-lo?
Tobias via a um
homem barbudo com faixas de cor azul e branca em seus ombros.
- Bom dia,
rabino. Eu sou o Inspetor Tobias Hessler da Gendarmerie. Vim porque o senhor
prestou queixa sobre acontecimentos estranhos no bairro judeu.
Os rabinos se
entreolham, concordando. Ronistein responde:
- Exatamente. Eu
tenho muito o que falar. Mas entrem, por favor. Eu vou lhes fazer um chá.
Tobias e Valentim
aceitam e entram na sinagoga. Davud, porém, permanece lá fora, com semblante
sério e os pés virados para a rua. Os judeus de Židovska ulica percebem sua
repulsa e um silêncio pesado paira no ar, mas ninguém diz nada.
Dentro da
sinagoga, Valentim vê rolos de escrituras, o Menorá, as tábuas com os Dez
Mandamentos e muitos livros. Pedindo-os para se sentarem, o rabino finalmente
diz:
- Nós, o povo
judeu, não somos estranhos à perseguição e à xenofobia. Desde a nossa expulsão
da Palestina, fomos perseguidos pelo mundo; na Idade Média, na Inquisição, nas
Cruzadas, pelos pogroms no oriente e finalmente pelos califados islâmicos. –
comenta ele, referindo-se a Davud.
Pogrom é a
perseguição de um grupo étnico ou religioso tolerada ou até promovida pelas
autoridades do Estado, utilizando-se de violência, prisões, expulsões,
deportações, pilhagens e confisco de seus pertences. Valentim não sabe o que
significa o termo, mas estima seu significado pela recusa dos outros inspetores
de investigar o caso entre os judeus.
O rabino lhes
traz chá. Ao pegar o copo, Tobias responde:
- Não se incomode
com o guarda Davud. Ele é apenas um jovem impetuoso e obstinado, típico de sua
idade, mas tem um bom coração.
Ronistein sorri.
- Em um hadith[4]
narrado por Abu Huraira diz: “A hora do julgamento não chegará até que os
muçulmanos combatam os judeus e terminem por mata-los, e mesmo que os judeus se
escondam atrás de rochas e árvores, cada rocha e cada árvore dirá: ó Muçulmano,
servo de Allah! Há um judeu atrás de mim! Venha e mate-o!”.
Tobias faz um
olhar pesaroso. Mesmo Valentim se assusta com tal citação.
- Bem... – começa
Tobias – Eu tenho certeza que é um relato de interpretação complexa e que nem
todos os muçulmanos pratiquem tal discriminação.
Eles ficam em
silêncio por um momento. Então o rabino comenta:
- Veja minha
sinagoga, inspetor. A comunidade judaica está trabalhando duro para
restabelecer seu local de culto em Liubliana.
- Restabelecer? –
intriga-se ele.
- Durante o Sacro
Império Romano-Germânico, os judeus foram expulsos da cidade pelo Imperador
Maximiliano em 1515, mas tivemos permissão de voltar durante a regência do
Imperador José II dois séculos mais tarde. Traços da antiga comunidade judaica ainda
se encontram nestas ruas: a Židovska steza e a Židovska ulica. Estamos tentando
resgatar nossa cultura e nossa origem. O primeiro passo será estabelecer uma
língua comum. E eu tenho fé de que um dia o hebraico será o idioma falado por
todo o Israel. – divaga ele – Bem, na Idade Média nosso gueto se localizava
onde hoje fica a Praça Jurčičev, e é lá onde os nossos problemas começaram.
O inspetor se
interessa.
- O que houve?
- Como vê,
estamos voltando para Liubliana. As fábricas inglesas e a descoberta do Plasma
trouxeram novas oportunidades de negócios. O Império Austro-Húngaro foi
benevolente com o nosso povo, nos permitindo nos reassentar e investir. Por
enquanto estamos ocupados com o restabelecimento do local de culto. Minha
sinagoga ainda é pequena e modesta, mas tenho fé em Yaweh que logo lhe daremos sua
devida opulência. – diz ele, olhando para os adornos no ambiente – Mas,
voltando ao assunto, estávamos na Praça Jurčičev há algumas noites. As ruas
eram iluminadas pelo Plasma e uma neblina verde se arrastava pelo local. Os
jovens judeus voltavam para as suas casas, cansados após o dia de trabalho nas
fábricas, e tudo parecia bem. E então figuras desconhecidas apareceram.
- Figuras
desconhecidas?
- Homens vestidos
com longos mantos, semelhantes àqueles usados pelos monges... Seus mantos
tinham cores estranhas, vermelho com azul e preto com púrpura... – descreve ele
– Me pareciam magos pagãos da Inglaterra e, com o grande número de ingleses em
Liubliana, eu realmente pensei que fossem. Mas não eram.
- O que o fez
pensar isso?
- Eles falavam o
eslavo do sul fluente e seus rostos, aqueles não encobertos pelo capuz,
denunciavam sua origem. – afirma ele – Eles se aproximaram de repente, com passos
que não emitiam nenhum som, como se flutuassem no ar. Estranhamente eles
disseram que precisavam de nossa ajuda.
Com a mão no
queixo, Tobias assente.
- E o que eles
queriam?
- As figuras
encapuzadas perguntaram sobre o ritual de ressureição e encarnação na Cabala.
Tobias se
intriga. Cabala era um sistema filosófico-religioso que envolvia esoterismo e
misticismo judaicos. A palavra significa literalmente “receber” ou “tradição”.
Ela compreende preceitos práticos, especulações de natureza mística, esotérica
e taumatúrgica, afirmando que o universo é uma emanação divina. A Cabala tem
grande importância na interpretação e deciframento dos textos bíblicos,
especialmente do Antigo Testamento.
- Eles disseram
por que queriam saber aquilo?
- Não, mas
dissemos que não podíamos ajuda-los. Lhes explicamos que a Cabala não é
totalmente aceita pelo rabinato e que muitos a consideram magia. Como devem
saber, magia é condenada no Antigo Testamento. No livro de Deuteronômio diz:
“Não permitam que se ache alguém no meio de vocês que queime em sacrifício o
seu filho ou a sua filha; que pratique adivinhação, ou se dedique à magia, ou
faça presságios, ou pratique feitiçaria ou encantamentos; que seja médium,
consulte os espíritos ou consulte os mortos”. – Ronistein falava dos versículos
10 e 11 do livro de Deuteronômio.
- E o que mais?
- Eles
insistiram, nos fazendo uma pergunta que nos deixou profundamente intrigados.
- O que eles
perguntaram?
Com olhar
perturbado, o rabino responde:
- Eles quiseram
saber onde estava o Maharal.
Novamente Tobias
se intriga. Maharal era o apelido do antigo rabino de Praga no final do século
16. Ele ficou conhecido por ter criado o famoso humanoide de argila e barro, o
temível Golem.
- Eles disseram o
porquê?
- Não. – responde
Ronistein – Nós os explicamos que o Maharal morreu há quase dois séculos e que sua
pergunta era sem sentido, mas eles não quiseram ouvir. As figuras nos deram as
costas e foram embora, até desaparecerem totalmente na escuridão. Desde então
coisas estranhas passaram a acontecer no bairro judeu. Houve aparições
sinistras na sinagoga à noite, e alguns temem que minha sinagoga seja
assombrada! – exclama ele – E também relatos de corujas horrendas aparecendo nos
telhados e nas janelas.
Nesse momento
Valentim se assusta.
- Aparições e
corujas? Rabino Ronistein, eu não creio que isso seja motivo para uma
investigação da Gendarme.
- Não é apenas
isso, senhor inspetor. Há algumas noites eu vi uma criatura alta e metálica se
movendo pelos becos. Ela sonda Židovska steza e Židovska ulica, e eu temo que
esteja aqui para nos ferir. – explica ele – Nós, judeus, já passamos por muitas
perseguições em nossas vidas. Eu, como o rabino da comunidade judaica em
Liubliana, tenho o dever de proteger o meu povo. Há mulheres e crianças aqui! –
apela ele – Por esta razão eu chamei a Gendarme.
Tobias assente.
- O senhor tem
visto essa criatura com muita frequência?
- Sim. Ela
aparece sempre às três da manhã. É como se as corujas batessem em minha janela
para me avisar de sua presença. E quando eu olho para o beco, lá está ela, caminhando
sinistramente com seus olhos verdes e brilhantes.
“Plasma”, pensa o
inspetor.
- Está bem,
rabino Ronistein. Nós vamos investigar o seu caso, mas vamos precisar de sua
ajuda durante a investigação
O rabino assente.
- Eu farei tudo o
que estiver ao meu alcance.
Levantando-se,
Tobias diz:
- Voltaremos
amanhã cedo.
- Não. – proíbe
ele, assustando-os – Amanhã é o Shabat[5].
Voltem após o anoitecer.
Tobias entende. O
Sábado é um dia santo e de descanso para os judeus. Violá-lo lhes é extremamente
ofensivo, e assim eles ficam proibidos de prestar qualquer serviço do amanhecer
ao anoitecer.
- Está bem. –
concorda ele – Nos vemos ao anoitecer.
[1]
Passagem dos judeus em esloveno
[2]
Ruas dos judeus em esloveno
[3]
“Bom dia, jovem austríaco” em alemão
[4]
Relato oral transmitido pelo Profeta Maomé
[5]
Sábado em hebraico
