domingo, 14 de agosto de 2022

Liubliana - 22 - Mistério no Bairro Judeu

 



(Foto de Vadim Vasenin)

 

No dia seguinte, Valentim vai ao hospital da cidade. Já havia passado do meio-dia e as ruas estavam movimentadas lá fora. Ao chegar ao saguão principal, ele vê várias estátuas de santos católicos nas paredes. Muitas enfermeiras eram freiras e ajudavam os enfermos com remédios e orações.

Valentim caminha pelo corredor e chega ao seu destino. Em um quarto com mais sete leitos, ele encontra Tobias repousando. O inspetor estava sem camisa e com muitas faixas em seu ombro. Ele se aproxima e diz:

- Boa tarde, inspetor. Como está?

Tobias responde:

- Estou bem, obrigado. Ainda me recuperando, na verdade.

- E como está o ferimento?

- O virote atravessou meu ombro, mas não houve muita perda de sangue. Eles quiseram me tratar com remédios à base de Plasma, mas eu recusei todos.  

Ele aprova a prudência do inspetor.

- Os médicos já disseram quanto tempo levará até você voltar ao trabalho?

- Sim. Eles estimam um período de três meses para a recuperação.

Valentim se assusta. Ele não pode esperar tanto.

- Me parece que seu ferimento é parecido com o meu. Eu também estou me recuperando, mas não me debilitou a ponto de me invalidar.

Então os dois ficam em silêncio por um tempo.

Valentim pega uma cadeira e se senta. Em seguida ele relata detalhadamente o que aconteceu na noite anterior. Tobias ouve a tudo com muita atenção e surpresa; aparentemente os lobisomens eram reais. Ao final o inspetor se felicita; seu assistente mais uma vez havia resolvido o caso.

Enquanto pensa a respeito, Tobias nota as roupas novas de seu assistente. Ele pergunta:

- Senhor Valentim, que roupas são essas?

- Ora, essas...? – pergunta ele, sem dar importância – Eu as comprei hoje de manhã.

Tobias se intriga. Fazendo um olhar de suspeita, ele sabe que seu assistente mal podia sobreviver.

- Com que dinheiro? – pergunta ele, enfim.

- Lembra-se daquele revólver de prata que eu emprestei dos Caçadores Britânicos? Eu o vendi no mercado negro.

- O senhor o quê?! – espanta-se ele.

- Eu comprei comida, alimentei meu gato e paguei algumas dívidas. Também aproveitei para comprar algumas roupas. As minhas estavam velhas após tanto usa-las nas fábricas, assim elas acabaram estragando um pouco... – comenta tranquilamente ele – E aquele revólver era bem valioso, caso queira saber.  

- Senhor Valentim! Aquela arma era propriedade alheia e possível prova no crime de assassinato!

Valentim sacode os ombros.

- Relaxe, inspetor. Aqueles ricos não precisarão mais dela.

Então Tobias se silencia, abismado com o desprezo de seu assistente pela morte dos nobres ingleses.

 

§

 

Na manhã seguinte, Tobias e Valentim vão à Gendarmerie. O inspetor passou a noite escrevendo seu relatório e intentava encerrar o caso junto ao seu capitão. Valentim insistiu para que ele deixasse Benjamin e sua esposa partirem e, apesar de muito contrariado, Tobias acatou.

Ao entrar na sala de evidências, Tobias se senta em sua cadeira. Um minuto depois alguém atrás deles pergunta:

- Inspetor Hessler? O que está fazendo aqui?

Os dois olham para a porta e veem o capitão Vilko.

- Bom dia, capitão. Vim lhe entregar o relatório do caso em Zgornji Kašelj.

Segurando a pasta em sua mão, o capitão diz:

- Você não deveria estar aqui, inspetor. Você deveria estar em casa se recuperando. – afirma ele – Mas... – continua ele – Já que está aqui... Preciso lhe pedir um imenso favor.

- Do que o senhor está falando?

- Há um novo caso... – responde ele – E preciso que você o investigue.

Tobias se surpreende.

- Por que eu?

- Não é um simples caso. Coisas estranhas estão acontecendo nos arredores da Praça Jurčičev. – revela ele – Há um mistério no bairro judeu.  

- E por que os outros inspetores não podem investiga-lo?

Levantando a sobrancelha, Vilko responde:

- Eu realmente preciso lhe responder, Hessler?

Então Tobias entende. Os outros não queriam aceitar o caso devido ao antissemitismo.

- Como vê, eu ainda estou me recuperando, capitão. Não posso aceitar o caso.

- Pois eu insisto que aceite. – diz Valentim, interrompendo-os.

- O que disse?

- Tobias, você foi o único aqui competente o bastante para relacionar o aumento dos crimes com o Plasma. Profissionais velhos e experientes não tiveram a mesma inteligência, apesar de seus anos de Gendarme. E, mesmo agora, se agarram às suas ignorâncias recusando-se a se envolver com os judeus por puro preconceito. – comenta ele, insultando indiretamente o capitão – Creio que esta seria mais uma chance de lhes mostrar o quanto são uns velhos, estúpidos e incompetentes, bem abaixo do nível de profissionalismo exemplar que apenas você, um jovem estrangeiro e brilhante, tem.   

O capitão se irrita.

- Escute aqui, seu insolente! Eu ainda não me convenci do ocorrido no Bosque das Espatódeas! E agora estou com a nobreza inglesa no meu pescoço por sua causa! – vocifera ele.

- Pois então por que não entra lá o senhor mesmo e descubra o que aconteceu? Creio que a nobreza inglesa sairá do seu pescoço quando encontrarem o seu corpo em pedaços!

- Ora, essa!

O capitão avança contra Valentim e o inspetor é obrigado a se interpor entre eles.

- Eu aceito! – exclama ele – Eu aceito o caso...!

Os dois se acalmam, recompondo-se.

- Não poderei deixa-lo ir sozinho neste estado, ainda mais com um assistente tão vil... – comenta ele – Vou convocar um guarda para acompanha-lo. – então ele se dirige à porta e diz – Guarda Davud, apresente-se!

Um segundo depois o jovem guarda entra. Endireitando-se, ele bate continência e diz:

- Sim, senhor capitão!

- Guarda Davud, quero que novamente acompanhe o Inspetor Hessler em sua investigação. Hessler está ferido e preciso que você o proteja. – explica ele – Vocês devem partir imediatamente. Vão para a Praça Jurčičev e resolvam o caso. Não queremos problemas com os judeus.

Então Davud se assusta.

- Espere um pouco, senhor capitão. O senhor quer me mandar para o bairro judeu?

- Sim. Por quê?

- Senhor, eu sou um muçulmano da Bósnia. O Profeta, que a paz esteja sobre ele, nos instruiu a não nos misturarmos com os judeus. Não posso ir contra o Alcorão.

O capitão se mantém firme.

- Guarda Davud, o senhor não estará se misturando com os judeus e sim com os cidadãos deste império. É um império multiétnico, como já deve saber. Se quiser se juntar a ele, sugiro tratar seus cidadãos como iguais. – virando-se, ele caminha até a porta e conclui – Boa sorte, senhores. E Valentim... – chama ele – Estou de olho no senhor.

Em seguida o capitão Vilko deixa a sala e vai embora.   

 

§

 

A Praça Jurčičev tinha belos prédios de arquitetura barroca. Em seu entorno haviam bares, restaurantes e mercearias. Estando próximos do Rio Liublianica, eles ouvem as máquinas de bombeamento d’água operando ao longe, fazendo os becos ficarem encobertos da fuligem esverdeada de Plasma.

Caminhando pelo belo pavimento de pedras, eles jamais suspeitariam que algo sinistro ocorria naquele lugar à noite.  

Adentrando os becos, eles seguem pela Židovska steza[1] e viram à esquerda na Židovska ulica[2]. Eles notam como haviam muitos homens barbudos, com tranças sob os chapéus e roupas pretas. As crianças brincavam e eles veem quipás em suas cabeças. Tobias vê muitas estrelas de Davi nas portas. Em alguns pontos ele também via a Menorá, o famoso candelabro de sete braços, símbolo do Judaísmo.

E assim Valentim, Tobias e Davud havia entrado no pequeno bairro judeu.

Sob seu elmo, Davud andava com sua faixa com a frase islâmica. Ele estava muito incomodado caminhando pela comunidade judaica, e não conseguia esconder seu desagrado. Os judeus notam o jovem muçulmano passando ali e se intrigam, espantados com sua presença. Desta maneira, Davud e os judeus se repeliam mutuamente.

Chegando ao endereço, Tobias encontra uma pequena sinagoga improvisada. Ali era um antigo comércio adaptado para servir de salão aos rabinos em seus cultos. Parando na entrada, ele vê homens velhos de barba comprida lendo rolos escritos em hebraico.

“As Escrituras”, pensa ele.

- Com licença. – interrompe ele – Eu estou procurando pelo rabino Ronistein. Sabem onde posso encontra-lo?

Os homens se entreolham. De repente alguém entre eles responde.

- Guten Morgen, junger Österreicher[3]. Eu sou o rabino Ronistein. Como posso ajudá-lo?

Tobias via a um homem barbudo com faixas de cor azul e branca em seus ombros.

- Bom dia, rabino. Eu sou o Inspetor Tobias Hessler da Gendarmerie. Vim porque o senhor prestou queixa sobre acontecimentos estranhos no bairro judeu.

Os rabinos se entreolham, concordando. Ronistein responde:

- Exatamente. Eu tenho muito o que falar. Mas entrem, por favor. Eu vou lhes fazer um chá.

Tobias e Valentim aceitam e entram na sinagoga. Davud, porém, permanece lá fora, com semblante sério e os pés virados para a rua. Os judeus de Židovska ulica percebem sua repulsa e um silêncio pesado paira no ar, mas ninguém diz nada.

Dentro da sinagoga, Valentim vê rolos de escrituras, o Menorá, as tábuas com os Dez Mandamentos e muitos livros. Pedindo-os para se sentarem, o rabino finalmente diz:

- Nós, o povo judeu, não somos estranhos à perseguição e à xenofobia. Desde a nossa expulsão da Palestina, fomos perseguidos pelo mundo; na Idade Média, na Inquisição, nas Cruzadas, pelos pogroms no oriente e finalmente pelos califados islâmicos. – comenta ele, referindo-se a Davud.

Pogrom é a perseguição de um grupo étnico ou religioso tolerada ou até promovida pelas autoridades do Estado, utilizando-se de violência, prisões, expulsões, deportações, pilhagens e confisco de seus pertences. Valentim não sabe o que significa o termo, mas estima seu significado pela recusa dos outros inspetores de investigar o caso entre os judeus.

O rabino lhes traz chá. Ao pegar o copo, Tobias responde:

- Não se incomode com o guarda Davud. Ele é apenas um jovem impetuoso e obstinado, típico de sua idade, mas tem um bom coração.

Ronistein sorri.

- Em um hadith[4] narrado por Abu Huraira diz: “A hora do julgamento não chegará até que os muçulmanos combatam os judeus e terminem por mata-los, e mesmo que os judeus se escondam atrás de rochas e árvores, cada rocha e cada árvore dirá: ó Muçulmano, servo de Allah! Há um judeu atrás de mim! Venha e mate-o!”.

Tobias faz um olhar pesaroso. Mesmo Valentim se assusta com tal citação.

- Bem... – começa Tobias – Eu tenho certeza que é um relato de interpretação complexa e que nem todos os muçulmanos pratiquem tal discriminação.

Eles ficam em silêncio por um momento. Então o rabino comenta:

- Veja minha sinagoga, inspetor. A comunidade judaica está trabalhando duro para restabelecer seu local de culto em Liubliana.

- Restabelecer? – intriga-se ele.

- Durante o Sacro Império Romano-Germânico, os judeus foram expulsos da cidade pelo Imperador Maximiliano em 1515, mas tivemos permissão de voltar durante a regência do Imperador José II dois séculos mais tarde. Traços da antiga comunidade judaica ainda se encontram nestas ruas: a Židovska steza e a Židovska ulica. Estamos tentando resgatar nossa cultura e nossa origem. O primeiro passo será estabelecer uma língua comum. E eu tenho fé de que um dia o hebraico será o idioma falado por todo o Israel. – divaga ele – Bem, na Idade Média nosso gueto se localizava onde hoje fica a Praça Jurčičev, e é lá onde os nossos problemas começaram.

O inspetor se interessa.

- O que houve?

- Como vê, estamos voltando para Liubliana. As fábricas inglesas e a descoberta do Plasma trouxeram novas oportunidades de negócios. O Império Austro-Húngaro foi benevolente com o nosso povo, nos permitindo nos reassentar e investir. Por enquanto estamos ocupados com o restabelecimento do local de culto. Minha sinagoga ainda é pequena e modesta, mas tenho fé em Yaweh que logo lhe daremos sua devida opulência. – diz ele, olhando para os adornos no ambiente – Mas, voltando ao assunto, estávamos na Praça Jurčičev há algumas noites. As ruas eram iluminadas pelo Plasma e uma neblina verde se arrastava pelo local. Os jovens judeus voltavam para as suas casas, cansados após o dia de trabalho nas fábricas, e tudo parecia bem. E então figuras desconhecidas apareceram.

- Figuras desconhecidas?

- Homens vestidos com longos mantos, semelhantes àqueles usados pelos monges... Seus mantos tinham cores estranhas, vermelho com azul e preto com púrpura... – descreve ele – Me pareciam magos pagãos da Inglaterra e, com o grande número de ingleses em Liubliana, eu realmente pensei que fossem. Mas não eram.

- O que o fez pensar isso?

- Eles falavam o eslavo do sul fluente e seus rostos, aqueles não encobertos pelo capuz, denunciavam sua origem. – afirma ele – Eles se aproximaram de repente, com passos que não emitiam nenhum som, como se flutuassem no ar. Estranhamente eles disseram que precisavam de nossa ajuda.

Com a mão no queixo, Tobias assente.

- E o que eles queriam?

- As figuras encapuzadas perguntaram sobre o ritual de ressureição e encarnação na Cabala.

Tobias se intriga. Cabala era um sistema filosófico-religioso que envolvia esoterismo e misticismo judaicos. A palavra significa literalmente “receber” ou “tradição”. Ela compreende preceitos práticos, especulações de natureza mística, esotérica e taumatúrgica, afirmando que o universo é uma emanação divina. A Cabala tem grande importância na interpretação e deciframento dos textos bíblicos, especialmente do Antigo Testamento.

- Eles disseram por que queriam saber aquilo?

- Não, mas dissemos que não podíamos ajuda-los. Lhes explicamos que a Cabala não é totalmente aceita pelo rabinato e que muitos a consideram magia. Como devem saber, magia é condenada no Antigo Testamento. No livro de Deuteronômio diz: “Não permitam que se ache alguém no meio de vocês que queime em sacrifício o seu filho ou a sua filha; que pratique adivinhação, ou se dedique à magia, ou faça presságios, ou pratique feitiçaria ou encantamentos; que seja médium, consulte os espíritos ou consulte os mortos”. – Ronistein falava dos versículos 10 e 11 do livro de Deuteronômio.

- E o que mais?

- Eles insistiram, nos fazendo uma pergunta que nos deixou profundamente intrigados.

- O que eles perguntaram?

Com olhar perturbado, o rabino responde:

- Eles quiseram saber onde estava o Maharal.

Novamente Tobias se intriga. Maharal era o apelido do antigo rabino de Praga no final do século 16. Ele ficou conhecido por ter criado o famoso humanoide de argila e barro, o temível Golem.

- Eles disseram o porquê?

- Não. – responde Ronistein – Nós os explicamos que o Maharal morreu há quase dois séculos e que sua pergunta era sem sentido, mas eles não quiseram ouvir. As figuras nos deram as costas e foram embora, até desaparecerem totalmente na escuridão. Desde então coisas estranhas passaram a acontecer no bairro judeu. Houve aparições sinistras na sinagoga à noite, e alguns temem que minha sinagoga seja assombrada! – exclama ele – E também relatos de corujas horrendas aparecendo nos telhados e nas janelas.

Nesse momento Valentim se assusta.

- Aparições e corujas? Rabino Ronistein, eu não creio que isso seja motivo para uma investigação da Gendarme.

- Não é apenas isso, senhor inspetor. Há algumas noites eu vi uma criatura alta e metálica se movendo pelos becos. Ela sonda Židovska steza e Židovska ulica, e eu temo que esteja aqui para nos ferir. – explica ele – Nós, judeus, já passamos por muitas perseguições em nossas vidas. Eu, como o rabino da comunidade judaica em Liubliana, tenho o dever de proteger o meu povo. Há mulheres e crianças aqui! – apela ele – Por esta razão eu chamei a Gendarme. 

Tobias assente.

- O senhor tem visto essa criatura com muita frequência?

- Sim. Ela aparece sempre às três da manhã. É como se as corujas batessem em minha janela para me avisar de sua presença. E quando eu olho para o beco, lá está ela, caminhando sinistramente com seus olhos verdes e brilhantes.

“Plasma”, pensa o inspetor.

- Está bem, rabino Ronistein. Nós vamos investigar o seu caso, mas vamos precisar de sua ajuda durante a investigação

O rabino assente.

- Eu farei tudo o que estiver ao meu alcance.

Levantando-se, Tobias diz:

- Voltaremos amanhã cedo.

- Não. – proíbe ele, assustando-os – Amanhã é o Shabat[5]. Voltem após o anoitecer.

Tobias entende. O Sábado é um dia santo e de descanso para os judeus. Violá-lo lhes é extremamente ofensivo, e assim eles ficam proibidos de prestar qualquer serviço do amanhecer ao anoitecer.

- Está bem. – concorda ele – Nos vemos ao anoitecer.

 

 



[1] Passagem dos judeus em esloveno

[2] Ruas dos judeus em esloveno

[3] “Bom dia, jovem austríaco” em alemão

[4] Relato oral transmitido pelo Profeta Maomé

[5] Sábado em hebraico

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