(Arte de Kazuhiko Nakamua)
Dirigindo-se à
carruagem da Gendarmerie, Valentim é abordado por algumas vizinhas. Albina, a
senhora que o ajudou dias atrás, pergunta:
- Boa tarde,
senhor Valentim? Perdoe-me a intromissão, mas aonde o senhor vai tão tarde?
Não querendo demonstrar-se
ingrato, ele satisfaz a sua curiosidade.
- Estou
trabalhando em um novo caso. Devo me apresentar no bairro dos judeus hoje à
noite.
- Bairro dos
judeus? – intriga-se ela – Eles vêm sofrendo perseguição de novo?
- Aparentemente
não, mas é difícil dizer. Na verdade é isso o que queremos descobrir.
Assentindo com a
cabeça, ela pergunta:
- O senhor ainda
não encontrou nenhuma pista de Danica, não é?
Pesaroso, ele
responde:
- Não, senhora.
Os dois ficam em
silêncio por um tempo.
- O senhor se lembra
daquele casal que morava ali, virando a esquina? Que tiveram um filho
recentemente? – pergunta ela, mudando de assunto.
- Sim. O que tem
eles?
- Eles foram
encontrados mortos ontem à noite.
Valentim se
assusta.
- Mortos?!
- Foram
assassinados, certamente. Sua carruagem foi encontrado à beira da estrada; os
corpos estavam no meio da floresta. A esposa teve sua garganta cortada de
orelha a orelha. O marido, bem... – ela hesita por um instante – Teve seus
olhos arrancados por um objeto pontudo, uma chave de fenda, talvez.
Valentim se
espanta.
- Meu Deus...!
- O bebê foi
encontrado na carruagem, debaixo de alguns jornais. Felizmente ele não estava
morto, mas estava tão fraco que mal pôde ser salvo. As autoridades estão
procurando por parentes próximos para adotá-lo. Mas se ninguém o quiser, temo
que ele será levado a um orfanato.
Valentim entende
o que ela quer dizer. Dificilmente alguém teria condições de criar uma criança
naquele momento. Além da violência, a sombra da miséria também pairava sobre
Liubliana.
- Que Deus tenha
piedade dessa pobre alma. – consterna-se ele.
Com olhar
preocupado, ela comenta:
- Encontre
Danica, senhor Valentim, antes que seja tarde demais.
Ele se enrijece,
concordando com a cabeça. Encontra-la é seu único objetivo, nem que seja a última
coisa que ele faça em sua vida.
§
Encontrando-se
com Tobias e Ronistein, Valentim entra na sinagoga. Davud estava ausente, mas o
inspetor disse que ele estaria no lado de fora vigiando a rua. E assim o trio
começa a vigília.
No andar superior
eles veem o beco abaixo; ele era fracamente iluminado por alguns postes cuja
luz criava penumbras na escuridão. Haviam mais pessoas observando o escuro beco
com eles; Valentim vê um casal de idosos e um rapaz. Valentim nota como o rapaz
vestia um quipá e tinha tranças ruivas descendo por suas têmporas.
Pegando um
pequeno bloco de notas, Tobias refaz algumas perguntas para passar o tempo.
- Responda-me
novamente, rabino Ronistein. As figuras desconhecidas que o senhor relatou já
foram vistas aqui antes?
- Não, senhor
inspetor. Mas desde que apareceram, coisas estranhas começaram a acontecer
aqui.
- O senhor
relatou que elas queriam saber sobre a Cabala e o ritual de reanimação dos
mortos...?
- Por mais
estranho que seja, sim.
Tobias anota em
seu caderno.
- O senhor também
relatou que eles queriam se encontrar com o Maharal, não é?
- Exatamente. Nós
os explicamos que ele estava morto há dois séculos, mas eles não quiseram
ouvir.
- Mas o Maharal não
é só uma lenda?
- Não. – nega ele
– O Maharal é conhecido por ter criado o famoso Golem, mas ele em si não é uma
lenda. Ele existiu e está enterrado em Praga.
O inspetor coça a
cabeça, tentando entender.
- Mas deve ter um
motivo para as figuras terem perguntado por ele aqui. Com toda essa violência
aí fora, coisas sobrenaturais vêm ocorrendo ao mesmo tempo. Vocês têm certeza
de que não viram seu espírito perambulando pelos becos à noite?
Então os judeus
deixam escapar um sorriso.
- Inspetor
Tobias, violência física foi algo que sempre sofremos. Temo que a razão dos
nossos problemas foi muito mais real do que sobrenatural, como o senhor deve
saber.
Tobias insiste.
- O senhor tem
alguma relíquia do Maharal aqui em Liubliana? Objetos pessoais, diários, livros?
- Provavelmente
esses objetos não estariam conosco e sim em sua sinagoga em Praga, ou mesmo em
sua genizah no cemitério da cidade.
- Genizah?
- Pequenos
depositórios nas sinagogas ou cemitérios; são usados para guardas livros e
documentos religiosos. Em nossa religião é proibido jogar fora qualquer
documento contendo o nome de Deus, por isso os guardamos nesses locais.
O inspetor
assente.
- O Maharal tem
algum descendente entre vocês?
- Nossa
comunidade é bem pequena e todos nos conhecemos aqui. Se houvesse algum
descendente do Rabi Judah Loew ben Bezalel aqui, nós saberíamos.
- Então aqui não
há nenhum parente?
- Não.
- Sim! – brada alguém, assustando-os.
Valentim olha
para trás e vê a esposa do casal bravamente encarando os homens à sua frente.
- Elisheva! –
repreende o marido.
- Não! Eles
precisam saber! – responde ela – Meu marido, Yohanann, é descendente direto do
Rabi Loew, o Maharal.
Ronistein se
espanta.
- Irmão Yohanann,
isso é verdade?
Abaixando a
cabeça, ele responde:
- Sim.
- E por que não
nos disse?
Ele se silencia e
a esposa novamente toma a palavra.
- Nós tememos a
perseguição, rabino Ronistein. Eu não suportarei outro pogrom novamente; ser
separada dos meus filhos, assim como ocorreu com meus avós na Geórgia. Por isso
eu vim para a Europa. Minha família foi expulsa de casa. A família de meu
marido foi expulsa de Praga. Mesmo os judeus já foram expulsos de Liubliana.
Nenhum lugar mais é seguro para o nosso povo...
Compadecido, o
rabino responde:
- Irmã Elisheva,
você devia ter nos contado...
- Senhor
Yohanann, essas figuras desconhecidas falaram com o senhor? – pergunta Tobias,
interrompendo-os com empolgação.
- Sim. – responde
ele, cabisbaixo.
- E o que elas
queriam?
Respirando fundo,
ele revela:
- Eles queriam
reencarnar o deus Exúvia.
Então Valentim e
Tobias se entreolham. Exúvia era o misterioso deus pagão, cujas imagens eles
encontraram na macabra floresta do Monte Santa Maria.
- Mas por que
eles o procuraram? Eu quero dizer, por que eles precisariam de sua ajuda?
- As figuras
acreditam que, por eu ser descendente do Maharal, eu possa recriar um
humanoide, um outro Golem, para reencarnar o seu deus. Pois como disse o meu
ancestral, apenas seus descendentes podem subir ao sótão da sinagoga onde o
Golem está confinado.
- Blasfêmia! – brada Ronistein,
assustando-os – O Maharal se referiu aos seus sucessores, e não aos
descendentes!
- E mesmo assim
nenhum sucessor se atreveu a subir os degraus! – responde Yohanann,
discordando-o – Esse privilégio é só nosso!
Interrompendo-os,
Tobias pergunta:
- Perdoe-me a
ignorância, senhores, mas não estamos familiarizados com os detalhes desta
intrigante história.
Yohanann diz:
- Judah Loew ben
Bezalel, o rabino de Praga, também conhecido como Maharal, foi o criador do
lendário humanoide conhecido como Golem. O termo é em hebraico e quer dizer
matéria, argila ou barro, uma alusão ao versículo 2, capítulo 7, do livro de
Gênese, que diz: “e do pó da terra Deus criou o homem”. – explica ele – Maharal
criou o humanoide com a argila das margens do Rio Vitava, trazendo-o à vida com
rituais e encantações hebraicas, provavelmente cabalísticas. Sua intenção era
usá-lo para defender os judeus de ataques antissemitas e pogroms, estes
promovidos pelo Sacro Império Romano. O Golem era chamado Yossele e diz a lenda
que ele podia se tornar invisível e invocar espíritos dos mortos. O Maharal o
desativava a cada sexta-feira à noite, antes do Shabat[1],
removendo o shem de sua boca.
- Shem?
– pergunta Tobias.
- Mais um dos nomes que os judeus dão
para Deus. – elucida ele – Algumas histórias dizem que, em uma noite de
sexta-feira, o Maharal se esqueceu de remover o shem e temeu que o Golem fosse violar o Shabat. Outra história diz que o Golem se apaixonou por uma mulher
humana e foi rejeitado, tornando-o um monstro violento e cometendo morticínios.
Com muita coragem o Maharal conseguiu remover o shem de sua boca, assim imobilizando-o em frente à sua sinagoga
onde o Golem caiu em pedaços. Mas estes são apenas romances fictícios muito
longe da verdade.
Tobias se
interessa. Ele se extasia com a expectativa da lenda do Golem ser verdadeira.
- E qual é a
verdade?
- O verdadeiro Golem
tinha uma palavra inscrita em sua testa. O Maharal colocou letras que formavam
a palavra emét; em hebraico ela
significa “verdade”. Para desativa-lo, era necessário remover a letra Aleph, formando a palavra mét, “morte”.
Ponderando, o
inspetor comenta:
- Senhor
Yohanann, eu estou confuso. A lenda diz que o Maharal removeu o shem do Golem. Mas o senhor está dizendo
que se deve remover a letra Aleph.
Vejo que há um conflito de narrativas aqui.
- Como eu disse,
algumas são apenas ficções. Nossa família deve se acautelar para que os gentios
não ponham a nós e a si mesmos em perigo.
Interrompendo-os,
o rabino Ronistein comenta:
- O Golem foi encerrado
em sua sinagoga desde o século 16. Não há motivos para temermos o perigo.
De repente eles
ouvem um apito lá embaixo, alertando-os. Aquele era o sinal do guarda Davud.
- Pois eu
discordo, rabino Ronistein. – comenta Tobias – O Golem pode estar confinado,
mas ainda corremos perigo.
O inspetor abre a
janela. Ao olhar para baixo, ele imediatamente se espanta. Uma criatura imensa
se movia a passos pesados, tremendo o piso com o ritmo. Tobias nota que o
monstro tinha olhos verdes e brilhantes, levitando na escuridão.
- É o Golem...! –
sussurra ele.
Davud apitava sem
parar. Sacudindo o ombro de Tobias, Valentim quebra o seu espanto e diz:
- Vamos,
inspetor! Temos que deter esse monstro!
Recompondo-se,
Tobias e Valentim descem as escadas. Atrás deles Ronistein desce também.
Yohanann acalma sua esposa e a pede para ficar com o jovem ruivo no andar de
cima, protegidos na sinagoga.
O beco estava
escuro e coberto por uma cerração verde. Tobias nota que os judeus estavam
acordados, mas se trancaram dentro de casa. Eles oravam, pedindo a Deus que os
protegesse daquele monstro.
Davud apitava até
perder o fôlego. Ao alcança-lo no fim do beco, Valentim nota que o rapaz estava
branco de pavor.
- Guarda Davud,
recomponha-se! – ordena ele.
O guarda olha
para o beco e, com a mão trêmula, aponta para algo atrás de Valentim. Ele se
vira e arregala os olhos, deparando-se com uma enorme silhueta. O monstro
levanta seu braço e os esbofeteia, lançando-os longe.
- Valentim!
Tobias corre para
socorrê-los, mas, olhando ao redor, não encontra o monstro em lugar algum.
- Para onde ele
foi?
O inspetor não compreende.
Da janela o monstro era imenso e impossível de se ocultar.
- Não temam! –
diz alguém atrás deles. Tobias olha para trás e vê Yohanann – O Golem pode se
tornar invisível e invocar os espíritos dos mortos.
Contorcendo-se de
dor, Davud ironiza:
- E estes são
motivos para não temer...?!
Eles se levantam
e retornam à sinagoga. Irritado, o inspetor confronta Ronistein.
- O senhor zombou
de mim agora há pouco, mas aí está a sua ameaça sobrenatural, rabino!
Todos estão
confusos e não sabem o que fazer. Ninguém podia combater um inimigo que se
tornava invisível. Então algo acontece.
O monstro se
materializa ao lado do grupo. A silhueta negra se forma, revelando sua elevada
estatura. Eles ouvem o som de pistões e engrenagens, como se o monstro fosse
uma máquina profana. Seus olhos brilhavam intensamente, destacando-se em meio à
cerração de Plasma.
Valentim o
reconhece. Aquele não era o Golem e sim o robô trazido pelos ingleses durante a
visita do imperador. No dia da visita, o robô teve mal funcionamento e foi
desativado, a mando do próprio Franz Joseph. Vendo a máquina soltando vapor
diante de seus olhos, Valentim pensou que ele tivesse sido desmontado e levado
de volta à Inglaterra, mas ali ele o via restaurado e de volta à vida.
“Se é que posso
chamar assim”, reflete ele.
Tobias também se
intriga. O robô tinha símbolos e entalhes pagãos em seu metálico corpo. Os
judeus notam outro detalhe; eles viam símbolos cabalísticos e judaicos.
Atônitos, eles
não sabem se investigam ou se fogem. Davud era o único ali caído e sentindo dores.
De repente Ronistein o puxa e por pouco ele não tem sua cabeça esmagada pelo
poderoso robô.
Surpreso, o jovem
muçulmano sussurra ao judeu segurando o seu braço.
- O senhor salvou
a minha vida...! Por quê?
Ciente da rixa
religiosa, o rabino responde:
- Faz parte de
nossa religião ajudar ao próximo.
Valentim chama o
inspetor e diz:
- Tobias! Use a
sua arma! Atire no monstro!
O inspetor saca
sua pistola e atira no robô. As balas ricocheteiam em seu peito e parecem não
lhe fazer dano algum. De repente o monstro o estapeia no ombro, fazendo-o voar
contra a vidraça de uma janela.
Eliminada a
ameaça, o robô agora direcionava sua atenção para o restante do grupo.
Pressentindo o perigo, Davud saca sua pistola e atira. Desta vez os tiros não
ricocheteiam no monstro; estranhamente ele havia desaparecido.
- Davud! Eu vou
socorrer o Tobias! Proteja os civis!
Valentim então se
ausenta. Davud traz os judeus para trás de si e empunha sua arma, assustado e
suando frio.
Minutos se
passam. As mãos do guarda tremiam e ele ofega sem parar. De repente eles ouvem
passos tremendo o chão e se atentam; o robô se aproxima.
Sem pensar duas
vezes, Davud atira contra a escuridão. Os sons se silenciam, mas como se
quisesse zombá-lo, o robô se materializa no lado oposto de Davud. Ele olha para
o lado e o monstro o estapeia, empurrando-os com grande força e fazendo-os voar
pelo beco.
Os três rolam
pelo chão. Ronistein sacode a cabeça e sente dores em seus joelhos e cotovelos.
Ao lado ele vê o guarda inconsciente no chão. Correndo de volta à sinagoga, ele
tem uma ideia.
- Rabino
Ronistein, o que vai fazer! – pergunta Yohanann.
- Eu me cansei de
ser perseguido e não reagir nunca! Esta noite eu lutarei de volta!
O rabino retorna com
um rifle do exército austro-húngaro em suas mãos. Yohanann se impressiona; ele
sabe que aquela arma fora contrabandeada pelo rabino.
O robô se
aproxima, estremecendo o piso. Ronistein mira seu rifle e põe o dedo no
gatilho. De repente ele atira.
Ronistein se
impressiona. A bala acertou o olho esquerdo do monstro, fazendo-o se virar. Mas
o monstro vira a cabeça novamente e, ao encara-los, Ronistein tem uma terrível
surpresa. A cabeça do robô parecia ser toda preenchida de Plasma. O olho
esquerdo foi estraçalhado e um buraco horrível se formara no lugar. O Plasma se
escorria do buraco e deslizava sobre seu tórax, brilhando na escuridão.
Ronistein se imobiliza, apanhado por aquele verde hipnótico.
O monstro avança
e golpeia Ronistein, lançando-o pelos ares contra a sinagoga. Ele se choca
contra a mobília e derruba os objetos sagrados, espalhando-os pelo chão.
De repente
Yohanann pode ver. A substância ilumina o corpo metálico, clareando os símbolos
místicos no robô. Então ele tem uma audaciosa ideia.
Passando pelo
rabino desacordado, Yohannan pega alguns objetos religiosos na sinagoga. Ele se
unge com óleo sagrado e enrola filactérios em sua testa e seu braço. Os
filactérios são pequenas caixinhas contendo pergaminhos bíblicos com o
propósito de lembrarem o portador da Palavra de Deus. Normalmente os judeus os
usam durante seus rituais e orações, e desta vez não seria diferente.
Munido de seus
pertences, Yohanann ousadamente se aproxima do monstro. Estando a poucos passos
dele, alguém segura seu braço e o detém.
- Ei, você! O que
você pensa que está fazendo?
Yohannan olha
para o lado e reconhece a Valentim.
- Deixe-me,
senhor! Só eu posso deter esse monstro.
- E como faria
isso?
- No passado,
apenas meu ancestral pôde desativar o Golem. Se eu me aproximar o suficiente,
poderei detê-lo sem apelar para o uso de armas de fogo.
Valentim ri.
- Se você se
aproximar, ele vai esmagar a sua cabeça como uma casca de ovo.
- Não, não vai. –
discorda ele – Tenho os filactérios e a unção do óleo sagrado comigo. Eles me
protegerão do perigo.
Mais uma vez
Valentim o segura.
- Não cometa esta
insensatez, Yohanann! Ele vai matá-lo!
Yohanann, porém,
se desvencilha.
- Tenha fé.
O Golem
desaparece. De repente eles ouvem urros e vozes ao redor, como se os mortos
estivessem rondando na escuridão. Valentim sabe do que se trata; conforme disse
a lenda, o monstro podia invocar espíritos dos mortos e, ao ouvi-los, ele sente
o seu sangue gelar.
- Não tenha medo.
Ele está tentando nos confundir.
Mas Valentim não
consegue controlar o terror. Vultos passeavam entre as sombras e passos
avançavam contra ele, como se quisessem apanha-lo.
Ajuntando as
mãos, Yohanann abaixa sua cabeça e faz orações em hebraico. Os espíritos
parecem se perturbar e gritam horrivelmente, fazendo Valentim se sentir na
presença dos demônios. De repente o ruído das engrenagens retorna e eles veem o
monstro metálico ressurgindo no beco.
Caminhando
bravamente, Yohanann intenta aproximar-se do Golem. O monstro se prepara para
golpeá-lo e Valentim se aflige; o pescoço do judeu se quebraria como um graveto
pela poderosa mão. Mas então algo acontece. O monstro se encurva e se
enfraquece, combalido pelo poder místico de Yohanann.
Sem hesitar, o
judeu sobe no monstro e tenta alcançar a sua cabeça. O Golem o repele e ele se
choca contra a parede. Controlando a tontura, Yohanann avança novamente e pula
em suas costas. O monstro se sacode e o derruba, fazendo-o rolar pelo chão
empoeirado. O Golem se vira e ergue o seu pé, preparando-se para esmaga-lo
impiedosamente. Novamente Valentim se aflige.
Um tiro é ouvido
e a bala atinge o peito do Golem. A bala ricocheteia no Plasma e a chama
imediatamente se forma, provocada pelo calor no líquido inflamável.
Atônitos,
Valentim e Yohanann olham para trás. Alguém se apoiava no peitoril empunhando
sua arma; era Tobias.
- Não! – alerta
Yohanann – Fogo e balas não podem destruí-lo! Ele precisa ser desativado!
- O senhor está
louco! Esse monstro deve ser destruído! – exclama o inspetor.
- Ele está certo!
– uma terceira pessoa falava com eles. Ao olhar para trás, eles viam a
Ronistein – O Golem está protegido pelos poderes místicos da Cabala. Ele deve
ser desativado e só assim perderá a sua vida.
Yohanann se
levanta e se dirige em direção ao monstro. O Golem golpeia e destrói uma parede
de tijolos; o judeu corria um risco de vida altíssimo perto dele. Com muita
coragem, ele estica seu braço e tenta tocar-lhe. O calor do fogo o afeta e o
monstro o agarra, segurando-o com as duas mãos.
O grupo assiste
aflito ao monstro esmagar Yohanann com as próprias mãos. Seus ossos se deslocam
e alguns se estralam, quebrando-se com ruídos horríveis. Algo viscoso se
escorrega pelas mãos do Golem e ele se atrapalha; era o óleo da unção. O judeu
desvencilha seu braço e o estica na direção da cabeça do monstro, tocando as
letras em sua testa. “Emét”, lê ele.
Yohanann tenta ignorar o fogo; seus dedos se queimam no metal quente e ele agoniza,
lutando para suportar a dor. Cravando suas unhas e gritando alto, ele
finalmente puxa a primeira letra.
O objeto queima em
sua mão, mas ele não o solta; era a primeira letra da palavra na testa do
Golem. Olhando para a sua flamejante testa, agora ele lia apenas “mét”, morte.
O monstro solta
Yohanann e, como se estivesse se enferrujando, se imobiliza rigidamente e volta
ao seu estado inanimado. Em segundos, seus olhos se apagam e ele não se move
mais.
Tobias e Valentim
partem rapidamente para socorrer Yohanann. Ronistein acode Davud, que acorda
com muitas dores no corpo. E assim se encerrava aquela ferrenha luta contra o
Golem.
§
Meia hora depois,
guardas de patrulha e médicos socorrem Yohanann. Ele teve várias fraturas pelo
corpo e está gravemente ferido. Sua esposa o acompanha ao hospital, mas antes
agradece fervorosamente aos gendarmes.
Tobias se
aproxima do robô. Ele está imóvel e desativado no meio beco. Plasma ainda se
escorria do buraco em seu crânio e nada mais podia reativar suas engrenagens. O
inspetor se aproxima de sua boca e encontra algo estranho. Havia um frasco com
um papel dentro, como uma mapa inserido em uma velha garrafa. Abrindo-o, ele
desenrola o papel e lê “Exúvia”.
Ronistein se
aproxima e também vê o misterioso papel. Ele comenta:
- Não está
escrito “Shem”, que é um dos nomes de
Deus, mas “Exúvia”, que é o nome de um outro deus.
O inspetor
complementa:
- Um deus pagão.
O rabino faz algumas
lamentações.
- Eles usurparam
o conhecimento místico da Cabala e recriaram o Golem, não de barro ou de argila
como diz a lenda, mas de engrenagens e de ferro. Triste.
Tobias discorda.
- Esta máquina é
propriedade dos ingleses, e não uma criação mística. Vou descobrir quem o
lançou aqui para aterrorizá-los, rabino. O senhor tem a minha palavra.
Satisfeito,
Ronistein se vira e se afasta.
Valentim pondera.
Finada a luta, ele está descansando em um local afastado. Novamente ele
escapara da morte e se pergunta se sua sorte durará mais tempo. Então ele nota
algo.
Acima, nos
telhados, ele vê uma dúzia de corujas encarando-o. As aves o observam com olhares
medonhos, que lembram o de um ser humano. De repente elas batem as asas e voam,
desaparecendo na noite. Um objeto se solta de suas garras e cai aos seus pés. Agachando-se,
ele o pega e então tem uma enorme surpresa; aquilo era o véu de cabelo de
Danica.
Valentim o cheira
e imediatamente reconhece o cheiro de sua esposa. No véu haviam cabelos e ele
reconhece os seus cabelos negros. Emocionado, ele levanta a cabeça e sonda os
telhados, procurando avidamente pelas misteriosas corujas.
Um guarda se
aproxima e o cumprimenta. Valentim rapidamente esconde o véu, omitindo da
Gendarmerie, e mesmo de Tobias, o que acabara de acontecer.
§
No dia seguinte,
Tobias faz o relatório. O robô é devolvido às autoridades, mas o inspetor sabe
que quem quer que o tenha ativado faz parte do alto escalão do império.
Yohanann está hospitalizado e vai sobreviver. Ronistein o agradece por sua
ajuda e o intitula como um amigo da comunidade judaica. O jovem Davud aprendeu
lições valiosas sobre tolerância naquela noite e Valentim, sem um motivo
plausível, anda um pouco distraído ultimamente, obcecado por corujas. Julgando
que seu assistente esteja abalado pelos últimos eventos na Gendarmerie, o
inspetor prefere não incomodá-lo.
Em seguida Tobias
fecha a pasta e encerra o caso; o curioso caso do lendário Golem.

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