sábado, 10 de dezembro de 2022

Liubliana - 23 - Golem

 


(Arte de Kazuhiko Nakamua)


Dirigindo-se à carruagem da Gendarmerie, Valentim é abordado por algumas vizinhas. Albina, a senhora que o ajudou dias atrás, pergunta:

- Boa tarde, senhor Valentim? Perdoe-me a intromissão, mas aonde o senhor vai tão tarde?

Não querendo demonstrar-se ingrato, ele satisfaz a sua curiosidade.

- Estou trabalhando em um novo caso. Devo me apresentar no bairro dos judeus hoje à noite.

- Bairro dos judeus? – intriga-se ela – Eles vêm sofrendo perseguição de novo?

- Aparentemente não, mas é difícil dizer. Na verdade é isso o que queremos descobrir.

Assentindo com a cabeça, ela pergunta:

- O senhor ainda não encontrou nenhuma pista de Danica, não é?

Pesaroso, ele responde:

- Não, senhora.

Os dois ficam em silêncio por um tempo.

- O senhor se lembra daquele casal que morava ali, virando a esquina? Que tiveram um filho recentemente? – pergunta ela, mudando de assunto.

- Sim. O que tem eles?

- Eles foram encontrados mortos ontem à noite.

Valentim se assusta.

- Mortos?!

- Foram assassinados, certamente. Sua carruagem foi encontrado à beira da estrada; os corpos estavam no meio da floresta. A esposa teve sua garganta cortada de orelha a orelha. O marido, bem... – ela hesita por um instante – Teve seus olhos arrancados por um objeto pontudo, uma chave de fenda, talvez.

Valentim se espanta.

- Meu Deus...!

- O bebê foi encontrado na carruagem, debaixo de alguns jornais. Felizmente ele não estava morto, mas estava tão fraco que mal pôde ser salvo. As autoridades estão procurando por parentes próximos para adotá-lo. Mas se ninguém o quiser, temo que ele será levado a um orfanato.

Valentim entende o que ela quer dizer. Dificilmente alguém teria condições de criar uma criança naquele momento. Além da violência, a sombra da miséria também pairava sobre Liubliana.

- Que Deus tenha piedade dessa pobre alma. – consterna-se ele.

Com olhar preocupado, ela comenta:

- Encontre Danica, senhor Valentim, antes que seja tarde demais.

Ele se enrijece, concordando com a cabeça. Encontra-la é seu único objetivo, nem que seja a última coisa que ele faça em sua vida.

 

§

 

Encontrando-se com Tobias e Ronistein, Valentim entra na sinagoga. Davud estava ausente, mas o inspetor disse que ele estaria no lado de fora vigiando a rua. E assim o trio começa a vigília.

No andar superior eles veem o beco abaixo; ele era fracamente iluminado por alguns postes cuja luz criava penumbras na escuridão. Haviam mais pessoas observando o escuro beco com eles; Valentim vê um casal de idosos e um rapaz. Valentim nota como o rapaz vestia um quipá e tinha tranças ruivas descendo por suas têmporas.

Pegando um pequeno bloco de notas, Tobias refaz algumas perguntas para passar o tempo.

- Responda-me novamente, rabino Ronistein. As figuras desconhecidas que o senhor relatou já foram vistas aqui antes?

- Não, senhor inspetor. Mas desde que apareceram, coisas estranhas começaram a acontecer aqui.

- O senhor relatou que elas queriam saber sobre a Cabala e o ritual de reanimação dos mortos...?

- Por mais estranho que seja, sim.

Tobias anota em seu caderno.

- O senhor também relatou que eles queriam se encontrar com o Maharal, não é?

- Exatamente. Nós os explicamos que ele estava morto há dois séculos, mas eles não quiseram ouvir.

- Mas o Maharal não é só uma lenda?

- Não. – nega ele – O Maharal é conhecido por ter criado o famoso Golem, mas ele em si não é uma lenda. Ele existiu e está enterrado em Praga.

O inspetor coça a cabeça, tentando entender.

- Mas deve ter um motivo para as figuras terem perguntado por ele aqui. Com toda essa violência aí fora, coisas sobrenaturais vêm ocorrendo ao mesmo tempo. Vocês têm certeza de que não viram seu espírito perambulando pelos becos à noite?

Então os judeus deixam escapar um sorriso.

- Inspetor Tobias, violência física foi algo que sempre sofremos. Temo que a razão dos nossos problemas foi muito mais real do que sobrenatural, como o senhor deve saber.

Tobias insiste.

- O senhor tem alguma relíquia do Maharal aqui em Liubliana? Objetos pessoais, diários, livros?

- Provavelmente esses objetos não estariam conosco e sim em sua sinagoga em Praga, ou mesmo em sua genizah no cemitério da cidade.

- Genizah?

- Pequenos depositórios nas sinagogas ou cemitérios; são usados para guardas livros e documentos religiosos. Em nossa religião é proibido jogar fora qualquer documento contendo o nome de Deus, por isso os guardamos nesses locais.

O inspetor assente.

- O Maharal tem algum descendente entre vocês?

- Nossa comunidade é bem pequena e todos nos conhecemos aqui. Se houvesse algum descendente do Rabi Judah Loew ben Bezalel aqui, nós saberíamos.

- Então aqui não há nenhum parente?

- Não.

- Sim! – brada alguém, assustando-os.

Valentim olha para trás e vê a esposa do casal bravamente encarando os homens à sua frente.

- Elisheva! – repreende o marido.

- Não! Eles precisam saber! – responde ela – Meu marido, Yohanann, é descendente direto do Rabi Loew, o Maharal.

Ronistein se espanta.

- Irmão Yohanann, isso é verdade?

Abaixando a cabeça, ele responde:

- Sim.

- E por que não nos disse?

Ele se silencia e a esposa novamente toma a palavra.

- Nós tememos a perseguição, rabino Ronistein. Eu não suportarei outro pogrom novamente; ser separada dos meus filhos, assim como ocorreu com meus avós na Geórgia. Por isso eu vim para a Europa. Minha família foi expulsa de casa. A família de meu marido foi expulsa de Praga. Mesmo os judeus já foram expulsos de Liubliana. Nenhum lugar mais é seguro para o nosso povo...

Compadecido, o rabino responde:

- Irmã Elisheva, você devia ter nos contado...

- Senhor Yohanann, essas figuras desconhecidas falaram com o senhor? – pergunta Tobias, interrompendo-os com empolgação.

- Sim. – responde ele, cabisbaixo.

- E o que elas queriam?

Respirando fundo, ele revela:

- Eles queriam reencarnar o deus Exúvia.

Então Valentim e Tobias se entreolham. Exúvia era o misterioso deus pagão, cujas imagens eles encontraram na macabra floresta do Monte Santa Maria.

- Mas por que eles o procuraram? Eu quero dizer, por que eles precisariam de sua ajuda?

- As figuras acreditam que, por eu ser descendente do Maharal, eu possa recriar um humanoide, um outro Golem, para reencarnar o seu deus. Pois como disse o meu ancestral, apenas seus descendentes podem subir ao sótão da sinagoga onde o Golem está confinado.

- Blasfêmia! – brada Ronistein, assustando-os – O Maharal se referiu aos seus sucessores, e não aos descendentes!

- E mesmo assim nenhum sucessor se atreveu a subir os degraus! – responde Yohanann, discordando-o – Esse privilégio é só nosso!

Interrompendo-os, Tobias pergunta:

- Perdoe-me a ignorância, senhores, mas não estamos familiarizados com os detalhes desta intrigante história.

Yohanann diz:

- Judah Loew ben Bezalel, o rabino de Praga, também conhecido como Maharal, foi o criador do lendário humanoide conhecido como Golem. O termo é em hebraico e quer dizer matéria, argila ou barro, uma alusão ao versículo 2, capítulo 7, do livro de Gênese, que diz: “e do pó da terra Deus criou o homem”. – explica ele – Maharal criou o humanoide com a argila das margens do Rio Vitava, trazendo-o à vida com rituais e encantações hebraicas, provavelmente cabalísticas. Sua intenção era usá-lo para defender os judeus de ataques antissemitas e pogroms, estes promovidos pelo Sacro Império Romano. O Golem era chamado Yossele e diz a lenda que ele podia se tornar invisível e invocar espíritos dos mortos. O Maharal o desativava a cada sexta-feira à noite, antes do Shabat[1], removendo o shem de sua boca.

- Shem? – pergunta Tobias.

- Mais um dos nomes que os judeus dão para Deus. – elucida ele – Algumas histórias dizem que, em uma noite de sexta-feira, o Maharal se esqueceu de remover o shem e temeu que o Golem fosse violar o Shabat. Outra história diz que o Golem se apaixonou por uma mulher humana e foi rejeitado, tornando-o um monstro violento e cometendo morticínios. Com muita coragem o Maharal conseguiu remover o shem de sua boca, assim imobilizando-o em frente à sua sinagoga onde o Golem caiu em pedaços. Mas estes são apenas romances fictícios muito longe da verdade.

Tobias se interessa. Ele se extasia com a expectativa da lenda do Golem ser verdadeira.

- E qual é a verdade?

- O verdadeiro Golem tinha uma palavra inscrita em sua testa. O Maharal colocou letras que formavam a palavra emét; em hebraico ela significa “verdade”. Para desativa-lo, era necessário remover a letra Aleph, formando a palavra mét, “morte”.

Ponderando, o inspetor comenta:

- Senhor Yohanann, eu estou confuso. A lenda diz que o Maharal removeu o shem do Golem. Mas o senhor está dizendo que se deve remover a letra Aleph. Vejo que há um conflito de narrativas aqui.

- Como eu disse, algumas são apenas ficções. Nossa família deve se acautelar para que os gentios não ponham a nós e a si mesmos em perigo.

Interrompendo-os, o rabino Ronistein comenta:

- O Golem foi encerrado em sua sinagoga desde o século 16. Não há motivos para temermos o perigo.

De repente eles ouvem um apito lá embaixo, alertando-os. Aquele era o sinal do guarda Davud.

- Pois eu discordo, rabino Ronistein. – comenta Tobias – O Golem pode estar confinado, mas ainda corremos perigo.

O inspetor abre a janela. Ao olhar para baixo, ele imediatamente se espanta. Uma criatura imensa se movia a passos pesados, tremendo o piso com o ritmo. Tobias nota que o monstro tinha olhos verdes e brilhantes, levitando na escuridão.

- É o Golem...! – sussurra ele.

Davud apitava sem parar. Sacudindo o ombro de Tobias, Valentim quebra o seu espanto e diz:

- Vamos, inspetor! Temos que deter esse monstro!

Recompondo-se, Tobias e Valentim descem as escadas. Atrás deles Ronistein desce também. Yohanann acalma sua esposa e a pede para ficar com o jovem ruivo no andar de cima, protegidos na sinagoga.

O beco estava escuro e coberto por uma cerração verde. Tobias nota que os judeus estavam acordados, mas se trancaram dentro de casa. Eles oravam, pedindo a Deus que os protegesse daquele monstro.

Davud apitava até perder o fôlego. Ao alcança-lo no fim do beco, Valentim nota que o rapaz estava branco de pavor.

- Guarda Davud, recomponha-se! – ordena ele.

O guarda olha para o beco e, com a mão trêmula, aponta para algo atrás de Valentim. Ele se vira e arregala os olhos, deparando-se com uma enorme silhueta. O monstro levanta seu braço e os esbofeteia, lançando-os longe.

- Valentim!

Tobias corre para socorrê-los, mas, olhando ao redor, não encontra o monstro em lugar algum.

- Para onde ele foi?

O inspetor não compreende. Da janela o monstro era imenso e impossível de se ocultar.

- Não temam! – diz alguém atrás deles. Tobias olha para trás e vê Yohanann – O Golem pode se tornar invisível e invocar os espíritos dos mortos.

Contorcendo-se de dor, Davud ironiza:

- E estes são motivos para não temer...?!

Eles se levantam e retornam à sinagoga. Irritado, o inspetor confronta Ronistein.

- O senhor zombou de mim agora há pouco, mas aí está a sua ameaça sobrenatural, rabino!

Todos estão confusos e não sabem o que fazer. Ninguém podia combater um inimigo que se tornava invisível. Então algo acontece.

O monstro se materializa ao lado do grupo. A silhueta negra se forma, revelando sua elevada estatura. Eles ouvem o som de pistões e engrenagens, como se o monstro fosse uma máquina profana. Seus olhos brilhavam intensamente, destacando-se em meio à cerração de Plasma.

Valentim o reconhece. Aquele não era o Golem e sim o robô trazido pelos ingleses durante a visita do imperador. No dia da visita, o robô teve mal funcionamento e foi desativado, a mando do próprio Franz Joseph. Vendo a máquina soltando vapor diante de seus olhos, Valentim pensou que ele tivesse sido desmontado e levado de volta à Inglaterra, mas ali ele o via restaurado e de volta à vida.

“Se é que posso chamar assim”, reflete ele.

Tobias também se intriga. O robô tinha símbolos e entalhes pagãos em seu metálico corpo. Os judeus notam outro detalhe; eles viam símbolos cabalísticos e judaicos.

Atônitos, eles não sabem se investigam ou se fogem. Davud era o único ali caído e sentindo dores. De repente Ronistein o puxa e por pouco ele não tem sua cabeça esmagada pelo poderoso robô.

Surpreso, o jovem muçulmano sussurra ao judeu segurando o seu braço.

- O senhor salvou a minha vida...! Por quê?

Ciente da rixa religiosa, o rabino responde:

- Faz parte de nossa religião ajudar ao próximo.

Valentim chama o inspetor e diz:

- Tobias! Use a sua arma! Atire no monstro!

O inspetor saca sua pistola e atira no robô. As balas ricocheteiam em seu peito e parecem não lhe fazer dano algum. De repente o monstro o estapeia no ombro, fazendo-o voar contra a vidraça de uma janela.

Eliminada a ameaça, o robô agora direcionava sua atenção para o restante do grupo. Pressentindo o perigo, Davud saca sua pistola e atira. Desta vez os tiros não ricocheteiam no monstro; estranhamente ele havia desaparecido.

- Davud! Eu vou socorrer o Tobias! Proteja os civis!

Valentim então se ausenta. Davud traz os judeus para trás de si e empunha sua arma, assustado e suando frio.

Minutos se passam. As mãos do guarda tremiam e ele ofega sem parar. De repente eles ouvem passos tremendo o chão e se atentam; o robô se aproxima.

Sem pensar duas vezes, Davud atira contra a escuridão. Os sons se silenciam, mas como se quisesse zombá-lo, o robô se materializa no lado oposto de Davud. Ele olha para o lado e o monstro o estapeia, empurrando-os com grande força e fazendo-os voar pelo beco.

Os três rolam pelo chão. Ronistein sacode a cabeça e sente dores em seus joelhos e cotovelos. Ao lado ele vê o guarda inconsciente no chão. Correndo de volta à sinagoga, ele tem uma ideia.

- Rabino Ronistein, o que vai fazer! – pergunta Yohanann.

- Eu me cansei de ser perseguido e não reagir nunca! Esta noite eu lutarei de volta!

O rabino retorna com um rifle do exército austro-húngaro em suas mãos. Yohanann se impressiona; ele sabe que aquela arma fora contrabandeada pelo rabino.

O robô se aproxima, estremecendo o piso. Ronistein mira seu rifle e põe o dedo no gatilho. De repente ele atira.

Ronistein se impressiona. A bala acertou o olho esquerdo do monstro, fazendo-o se virar. Mas o monstro vira a cabeça novamente e, ao encara-los, Ronistein tem uma terrível surpresa. A cabeça do robô parecia ser toda preenchida de Plasma. O olho esquerdo foi estraçalhado e um buraco horrível se formara no lugar. O Plasma se escorria do buraco e deslizava sobre seu tórax, brilhando na escuridão. Ronistein se imobiliza, apanhado por aquele verde hipnótico.   

O monstro avança e golpeia Ronistein, lançando-o pelos ares contra a sinagoga. Ele se choca contra a mobília e derruba os objetos sagrados, espalhando-os pelo chão.

De repente Yohanann pode ver. A substância ilumina o corpo metálico, clareando os símbolos místicos no robô. Então ele tem uma audaciosa ideia.

Passando pelo rabino desacordado, Yohannan pega alguns objetos religiosos na sinagoga. Ele se unge com óleo sagrado e enrola filactérios em sua testa e seu braço. Os filactérios são pequenas caixinhas contendo pergaminhos bíblicos com o propósito de lembrarem o portador da Palavra de Deus. Normalmente os judeus os usam durante seus rituais e orações, e desta vez não seria diferente.  

Munido de seus pertences, Yohanann ousadamente se aproxima do monstro. Estando a poucos passos dele, alguém segura seu braço e o detém.

- Ei, você! O que você pensa que está fazendo?

Yohannan olha para o lado e reconhece a Valentim.

- Deixe-me, senhor! Só eu posso deter esse monstro.

- E como faria isso?

- No passado, apenas meu ancestral pôde desativar o Golem. Se eu me aproximar o suficiente, poderei detê-lo sem apelar para o uso de armas de fogo.

Valentim ri.

- Se você se aproximar, ele vai esmagar a sua cabeça como uma casca de ovo.

- Não, não vai. – discorda ele – Tenho os filactérios e a unção do óleo sagrado comigo. Eles me protegerão do perigo.

Mais uma vez Valentim o segura.

- Não cometa esta insensatez, Yohanann! Ele vai matá-lo!

Yohanann, porém, se desvencilha.

- Tenha fé.

O Golem desaparece. De repente eles ouvem urros e vozes ao redor, como se os mortos estivessem rondando na escuridão. Valentim sabe do que se trata; conforme disse a lenda, o monstro podia invocar espíritos dos mortos e, ao ouvi-los, ele sente o seu sangue gelar.

- Não tenha medo. Ele está tentando nos confundir.

Mas Valentim não consegue controlar o terror. Vultos passeavam entre as sombras e passos avançavam contra ele, como se quisessem apanha-lo.

Ajuntando as mãos, Yohanann abaixa sua cabeça e faz orações em hebraico. Os espíritos parecem se perturbar e gritam horrivelmente, fazendo Valentim se sentir na presença dos demônios. De repente o ruído das engrenagens retorna e eles veem o monstro metálico ressurgindo no beco.

Caminhando bravamente, Yohanann intenta aproximar-se do Golem. O monstro se prepara para golpeá-lo e Valentim se aflige; o pescoço do judeu se quebraria como um graveto pela poderosa mão. Mas então algo acontece. O monstro se encurva e se enfraquece, combalido pelo poder místico de Yohanann.

Sem hesitar, o judeu sobe no monstro e tenta alcançar a sua cabeça. O Golem o repele e ele se choca contra a parede. Controlando a tontura, Yohanann avança novamente e pula em suas costas. O monstro se sacode e o derruba, fazendo-o rolar pelo chão empoeirado. O Golem se vira e ergue o seu pé, preparando-se para esmaga-lo impiedosamente. Novamente Valentim se aflige. 

Um tiro é ouvido e a bala atinge o peito do Golem. A bala ricocheteia no Plasma e a chama imediatamente se forma, provocada pelo calor no líquido inflamável.

Atônitos, Valentim e Yohanann olham para trás. Alguém se apoiava no peitoril empunhando sua arma; era Tobias.

- Não! – alerta Yohanann – Fogo e balas não podem destruí-lo! Ele precisa ser desativado!

- O senhor está louco! Esse monstro deve ser destruído! – exclama o inspetor.

- Ele está certo! – uma terceira pessoa falava com eles. Ao olhar para trás, eles viam a Ronistein – O Golem está protegido pelos poderes místicos da Cabala. Ele deve ser desativado e só assim perderá a sua vida.

Yohanann se levanta e se dirige em direção ao monstro. O Golem golpeia e destrói uma parede de tijolos; o judeu corria um risco de vida altíssimo perto dele. Com muita coragem, ele estica seu braço e tenta tocar-lhe. O calor do fogo o afeta e o monstro o agarra, segurando-o com as duas mãos.

O grupo assiste aflito ao monstro esmagar Yohanann com as próprias mãos. Seus ossos se deslocam e alguns se estralam, quebrando-se com ruídos horríveis. Algo viscoso se escorrega pelas mãos do Golem e ele se atrapalha; era o óleo da unção. O judeu desvencilha seu braço e o estica na direção da cabeça do monstro, tocando as letras em sua testa. “Emét”, lê ele. Yohanann tenta ignorar o fogo; seus dedos se queimam no metal quente e ele agoniza, lutando para suportar a dor. Cravando suas unhas e gritando alto, ele finalmente puxa a primeira letra.

O objeto queima em sua mão, mas ele não o solta; era a primeira letra da palavra na testa do Golem. Olhando para a sua flamejante testa, agora ele lia apenas “mét”, morte.

O monstro solta Yohanann e, como se estivesse se enferrujando, se imobiliza rigidamente e volta ao seu estado inanimado. Em segundos, seus olhos se apagam e ele não se move mais.

Tobias e Valentim partem rapidamente para socorrer Yohanann. Ronistein acode Davud, que acorda com muitas dores no corpo. E assim se encerrava aquela ferrenha luta contra o Golem.

 

§

 

Meia hora depois, guardas de patrulha e médicos socorrem Yohanann. Ele teve várias fraturas pelo corpo e está gravemente ferido. Sua esposa o acompanha ao hospital, mas antes agradece fervorosamente aos gendarmes.

Tobias se aproxima do robô. Ele está imóvel e desativado no meio beco. Plasma ainda se escorria do buraco em seu crânio e nada mais podia reativar suas engrenagens. O inspetor se aproxima de sua boca e encontra algo estranho. Havia um frasco com um papel dentro, como uma mapa inserido em uma velha garrafa. Abrindo-o, ele desenrola o papel e lê “Exúvia”.

Ronistein se aproxima e também vê o misterioso papel. Ele comenta:

- Não está escrito “Shem”, que é um dos nomes de Deus, mas “Exúvia”, que é o nome de um outro deus.

O inspetor complementa:

- Um deus pagão.

O rabino faz algumas lamentações.

- Eles usurparam o conhecimento místico da Cabala e recriaram o Golem, não de barro ou de argila como diz a lenda, mas de engrenagens e de ferro. Triste.

Tobias discorda.

- Esta máquina é propriedade dos ingleses, e não uma criação mística. Vou descobrir quem o lançou aqui para aterrorizá-los, rabino. O senhor tem a minha palavra.

Satisfeito, Ronistein se vira e se afasta.

Valentim pondera. Finada a luta, ele está descansando em um local afastado. Novamente ele escapara da morte e se pergunta se sua sorte durará mais tempo. Então ele nota algo.

Acima, nos telhados, ele vê uma dúzia de corujas encarando-o. As aves o observam com olhares medonhos, que lembram o de um ser humano. De repente elas batem as asas e voam, desaparecendo na noite. Um objeto se solta de suas garras e cai aos seus pés. Agachando-se, ele o pega e então tem uma enorme surpresa; aquilo era o véu de cabelo de Danica.

Valentim o cheira e imediatamente reconhece o cheiro de sua esposa. No véu haviam cabelos e ele reconhece os seus cabelos negros. Emocionado, ele levanta a cabeça e sonda os telhados, procurando avidamente pelas misteriosas corujas.

Um guarda se aproxima e o cumprimenta. Valentim rapidamente esconde o véu, omitindo da Gendarmerie, e mesmo de Tobias, o que acabara de acontecer.

 

§

 

No dia seguinte, Tobias faz o relatório. O robô é devolvido às autoridades, mas o inspetor sabe que quem quer que o tenha ativado faz parte do alto escalão do império. Yohanann está hospitalizado e vai sobreviver. Ronistein o agradece por sua ajuda e o intitula como um amigo da comunidade judaica. O jovem Davud aprendeu lições valiosas sobre tolerância naquela noite e Valentim, sem um motivo plausível, anda um pouco distraído ultimamente, obcecado por corujas. Julgando que seu assistente esteja abalado pelos últimos eventos na Gendarmerie, o inspetor prefere não incomodá-lo.

Em seguida Tobias fecha a pasta e encerra o caso; o curioso caso do lendário Golem.

 

 



[1] Sábado em hebraico

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