quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Tiergarten - 16 - O Terceiro Reich


 

Levado pelos corredores da prisão, Gunther tenta desvencilhar-se inutilmente enquanto grita por inocência. Dois homens altos, louros e vestidos de uniformes pretos o levam pelos braços. Nas lapelas de suas fardas, ele lê “SS”. O rapaz segue para o seu derradeiro minuto, ele foi condenado à execução por fuzilamento.  Ele clama:

- Não! Eu sou inocente!

Um dos guardas o responde:

- Então por que está usando esse uniforme?

- Eu não sei! Eu juro!

Os guardas riem.

- Não importa. O seu tempo acabou.

- Para onde estão me levando?

- Você logo saberá.


§


Alguns dias antes.

Acordando de repente, o rapaz se vê em pé em uma alegre cervejaria. Ao seu redor haviam dúzias de rapazes de uniformes pardos rindo e cantando alegremente. Abraçados uns aos outros, a cerveja se derrama de suas canecas, mas nenhum deles se importava.

Em passos desnorteados e zonzos, alguém se aproxima de Gunther e lhe oferece uma caneca cheia.

- Ei! Como é que você entrou aqui e eu não te vi? Tome aqui, rapaz! Venha beber conosco!

O homem estava completamente bêbado, mas apesar da embriaguez, Gunther pode identificar seu sotaque bávaro.

- Me desculpe, senhor, mas acho que não beberei hoje.

- O quê?! – exclama o homem – Não seja tímido! É o partido que está pagando! Tome logo!

Gunther insiste.

- Não, obrigado. Eu estou bem.

- Ora, pare de frescura! O que é você? Um dos namoradinhos do Röhm? Tome logo!

“Röhm?!” pergunta-se ele. Antes que pudesse pensar mais a respeito, o homem estica seu braço e lhe oferece a bebida. Devido à embriaguez, o homem se desatenta e deixa a cerveja cair nas roupas de Gunther, ensopando-o. O homem não pede desculpas, ao invés ele ri alto, divertindo-se. Então o rapaz tem uma estranha surpresa. Ele estava usando um uniforme pardo, braçadeira, quepe e botas de cavalaria. Observando melhor a braçadeira, ele reconhece o inconfundível símbolo. “Uma suástica?!” espanta-se ele. “Mas que diabos...?”.

- Viva a Sturmabteilung![1] – brada o homem.

Então todos os “camisas pardas” erguem suas canecas, repetindo-o. Alguém entre eles grita:

- Viva a Alemanha!

A tropa repete. Outro camisa parda se levanta e grita:

- Viva o Führer!

Estufando os seus peitos, os jovens esticam seus braços e erguem as mãos direitas para cima.

“Heil Hitler!” bradam todos em sincronia, como em um coro. Sinistramente todos viram suas cabeças para o rapaz, encarando-o. Gunther se manteve imóvel durante a saudação e isso os intrigou. Empalidecendo-se como a neve, ele se apavora.

- Camisas pardas! Atenção, por favor! – ao lado do balcão, alguém segura um telefone e pede a atenção geral – Acabo de receber a notícia de que nosso Führer vem amanhã para a Baviera. O partido organizou uma reunião com os dirigentes da SA e deverá ocorrer amanhã em um hotel de Bad Wiessee.

- Bad Wiesse?! – indaga alguém – Por que nesse lugar tão longínquo?

- Eu não sei, mas deve ser importante.

Os camisas pardas concordam, ficando calados por alguns segundos. Levantando-se, alguém quebra o silêncio e grita:

- Vamos comemorar!

Nisso, todos riem e voltam a beber suas cervejas normalmente, esquecendo-se de Gunther. Ele estava a salvo.

Então um homem mais velho entra na cervejaria e, ao verem-no, as pessoas interrompem bruscamente suas festividades. O rapaz nota que ele usa medalhas e insígnias em seu uniforme e parece ter muita autoridade. Ele diz:

- Senhores, eu tive uma ideia melhor para hoje à noite.

Falando à tropa ao longe, Gunther não consegue entende-lo, mas finada a sua fala os camisas pardas soltam um “Heil Hitler” e dirigem-se para fora. O rapaz mantém-se imóvel, até alguém puxá-lo pelas roupas e leva-lo também.

- O que está acontecendo? – pergunta ele.

- Você não ouviu o Obergruppenführer[2] ? Vamos comemorar a visita do Führer!

O rapaz não entende. “Não era isso o que eles já estavam fazendo?” pensa ele.

- Como?

O homem o responde:

- Com uma bela briga de rua!

Então o homem ri maliciosamente.

No lado de fora, os camisas pardas marcham orgulhosamente pelas ruas. Altivos, eles pensam ser os protetores da nação alemã. Alguém entoa o hino nacional e então todos cantam fanaticamente o primeiro verso “Deutschland, Deutschland über alles[3]”.

Devido à escuridão noturna, Gunther demora a perceber, mas logo ele reconhece as belas ruas da cidade de Munique. Extasiado, ele sussurra para si mesmo:

- Então foi aqui que aconteceu o famoso Putsch[4] da Cervejaria...

Ao longe, uma tropa avista um bêbado e, irando-se, atiram-se contra ele. O homem é surpreendido por uma gangue de jovens em uniformes pardos que, subitamente, o agridem com socos, pauladas e pontapés. Horrorizado, Gunther põe sua mão na boca e pergunta:

- Mas o que vocês estão fazendo?!

Um jovem bávaro e baderneiro olha para ele e responde:

- O que uma milícia deve fazer. Espancando vagabundos, judeus e comunistas!

Acompanhando-os, ele vê os camisas pardas aplicarem sua violência a todo aquele desafortunado o bastante para estarem em seu caminho. A gangue espanca bêbados, mendigos, vagabundos, judeus e aterrorizam prostitutas.

O Obergruppenführer também estava lá, mas apenas observando-os. Um assistente se aproxima dele e sussurra algo em seu ouvido. O homem parece se alegrar.

- Tropa! – interrompe ele, chamando-lhes a atenção – Acabo de receber informações de que os comunistas estão reunidos no centro da cidade. O que acham de acabarmos com eles?

Então todos riem, sabendo o que devem fazer.

O rapaz não consegue entender a razão de tanta violência. Ele se pergunta onde estava a polícia de Munique.

- Vocês ouviram o chefe de polícia! Vamos!

“Chefe de polícia?!” surpreende-se Gunther. “A polícia compactua com esses nazistas?!”.

Chegando ao centro da cidade, o rapaz vê uma facção inteira de jovens vestindo boinas de operário e carregando bandeiras vermelhas. Gunther se assusta, os comunistas estavam em maior número que a SA.

- Não vamos nos acovardar. – declara alguém – Hora de limparmos a cidade dessa escória vermelha!

O rapaz olha para trás, mas não encontra o chefe de polícia. Gunther não tinha a intenção de ataca-los, mas dois camisas pardas o seguram pelos braços e então avançam contra os comunistas.

Gunther não era valente. Desde a infância, ele nunca mais havia brigado. Na verdade, ele nunca deu um soco na face de alguém. Mas ali o confronto era inevitável e iminente, e com toda certeza, doloroso. Com uma bandeira em sua mão, o comunista avança contra ele com um olhar feroz. Saltando, o comunista brada “Viva Lênin” e então chuta seu rosto, fazendo-o desmaiar imediatamente.

O tempo parece avançar. Assustado, o rapaz acorda de repente e vê a luz do dia no céu de Munique. As pessoas olham intrigadas para ele, curiosas para saber o que aconteceu. Gunther se levanta e se vê ainda vestido naquele uniforme pardo. Limpando-se, ele procura pela SA, mas não os encontra em lugar algum.   

O rapaz caminha pela cidade, mas não fazia ideia para onde estava indo. Ele não conhecia Munique, essa cidade ficava na Alemanha Ocidental, mas nem que a conhecesse, a paisagem era radicalmente diferente na década de 30.

Enquanto anda sem direção pelas ruas, Gunther se sente observado. Pessoas abaixam os jornais para vê-lo, mas ao serem flagradas, os levantam novamente. Os carros passam ao seu lado, aqueles belos carros antigos que ele só viu nos livros de História. Duas mulheres passam ao seu lado e conversam entre si:

- Você ficou sabendo? O Fuhrer estava em Munique ontem.

- É mesmo? E o que ele veio fazer aqui?

- Eu não sei, mas não ficou muito. Ele seguiu viagem para uma cidade na fronteira com a Áustria.

- Minha nossa! Devia ser algo muito importante para ele ir tão longe.

- É verdade.

Então as duas se afastam e vão embora.

Homens de sobretudos e chapéus se aproximam atrás de Gunther. Distraído com a notícia do Führer, ele não percebe sua presença. Então, segurando-o pelos braços, os homens o enfiam em um carro estacionado ao lado. Antes que pudesse gritar, os homens colocam um capuz preto em sua cabeça e o levam dali.

Gunther sente que é conduzido em alta velocidade por Munique. Ao pararem o carro, o rapaz apenas ouve os homens o levarem por um longo corredor. Os sons de passos são altos, a temperatura cai e Gunther pensa estar em um vasto porão.

Ao tirarem o capuz, os homens o lançam dentro de uma cela. O rapaz cai, mas rapidamente se levanta, tentando agarrar as grades. À sua frente ele vê dois homens vestidos com roupas comuns. Assustado, ele os pergunta:

- Por que me prenderam aqui? O que foi que eu fiz?

Os homens não o respondem.

Atrás deles aparece outra pessoa. Caminhando elegantemente, Gunther vê um homem de uniforme preto, botas de cavalaria e um quepe militar. O rapaz nota que, assim como ele, o homem veste uma braçadeira com uma suástica.

- Boa tarde, herr Gunther. Me chamo Theodor Eicke, sou um Obergruppenführer da Schutzstaffel[5].

“A infame SS!” pensa ele, horrorizado.

- Por que me prenderam aqui?!

- Você está preso por traição.

- Traição?! – pergunta ele – Mas quem foi que eu traí?

- Você e sua milícia conspiraram contra o Reich e o Führer, fomentando uma segunda revolução.

Gunther não sabe do que ele está falando.

- Eu juro que nunca participei de nenhuma conspiração contra o Führer ou contra ninguém!

- Mas você faz parte desses paramilitares. – Eicke aponta para seu uniforme. É indelével o fato de que Gunther vestia a farda da SA – Estávamos de olho em vocês e sabíamos quem eram os principais membros. O seu nome estava na lista e pacientemente esperamos o momento certo para o pegar. Felizmente a Gestapo[6] conseguiu captura-lo a tempo.

Eicke aponta para os seus dois agentes. O rapaz apela:

- Como o meu nome estava na lista? Eu ainda nem sou nascido!

Então os homens olham uns para os outros.

- Por acaso a embriaguez ainda sonda a sua cabeça?

- Mas eu não fiz nada! Vocês têm que acreditar em mim!

- Não precisamos. – responde o Obergruppenführer – Logo você será julgado por seus crimes e tudo será resolvido. Até breve, sr. Gunther.

Eicke e os dois agentes se viram e vão embora. O rapaz é deixado ali, protestando e clamando por liberdade.

Um dia se passa. Pela janela no alto da cela, Gunther pode ver que o dia amanhecia. Passando esporadicamente pelo corredor, ele nota que os guardas vestiam os famosos uniformes pretos da SS. Parando próximo à sua cela, os guardas conversam:

- Prenderam o Röhm. Em breve ele será trazido para cá.

- Para Stadelheim? O que acha que acontecerá com ele?

- O Führer não tolera a alta traição.

O guarda parece concordar.

- Que Deus tenha piedade daquele beberrão e baderneiro... Por que Hitler não terá.

Mais um dia se passa. A prisão parece estar agitada com a chegada de Röhm. Deixado sozinho em sua cela, o rapaz ouve tiros. Um guarda conversa com seu colega:

- Mas que audácia! Röhm mandou o Eicke chamar Hitler para que o executasse pessoalmente!

- Deboche. Atitude típica desse pervertido.

- E o pior é que ele estava completamente nu quando o executaram. Dá para acreditar? O poderoso Ernst Röhm se despindo para ser executado? Por quê?

- Ora, você sabe o porquê. Röhm gostava de se despir para homens.

O guarda se referia à sua suposta homossexualidade.

- Isso são rumores.

- Mas foi o caso com o deputado Edmund Heines. Ele foi flagrado na cama com um jovem. Enojante!

- Isso é grave. O que aconteceu com Heines e o garoto depois?

- O que você acha?

- Foram presos?

O guarda meneia negativamente a cabeça.

- Fuzilados.

Uma longa e excruciante semana se passa. Agora as celas continham milhares de presos, a maioria membros da SA. Espremido contra a parede, Gunther é acordado com o ruído irritante do rádio. Os guardas ligaram o aparelho e ouvem um pronunciamento de Adolf Hitler. O Führer se justifica pelos atos do fim de junho e começo de julho. Ele os trata como uma autodefesa do Estado, uma repressão necessária contra um movimento dedicado a acabar com o nazismo, controlar o exército e o povo alemão.   

Um guarda comenta:

- Uma repressão necessária? Então é assim que o Führer chama o expurgo?

“Expurgo?” pergunta-se Gunther.

- Relações públicas. – responde o outro guarda, sem se importar – De qualquer forma, o que interessa é que os principais inimigos políticos e subversivos foram detidos nessa operação.

- Sim, a operação foi um sucesso. Você ficou sabendo quem morreu?

- Vários traidores. Entre eles estão o ex-nazista Gregor Strasse, o deputado Edmund Heines, o ex-chanceler Franz von Papen, o jornalista Herbert von Bose, o ex-chanceler Kurt von Schleicher e o ex-comissário Gustav Ritter von Kahr, além do próprio líder da SA, Ernst Röhm.

- O reich estará melhor sem eles, principalmente o Röhm, do qual Reinhard Heydrich acusou de receber dinheiro da França para depor Hitler.

- E você acreditou?

O guarda sorri.

- Quer acabar atrás das grades igual a eles?

Então os dois riem.

Na manhã do dia seguinte, Theodore Eicke retorna à sua cela. Apontando seu dedo para Gunther, os guardas abrem as portas e o puxam para fora. Comandados por Eicke, o grupo se dirige a uma sala dentro da prisão.

- Bom dia, herr Gunther. – cumprimenta ele.

O rapaz estava cheio de dores por dormir vários dias desajeitado em uma pequena cela com dezenas de outros detentos. Ele encara aquele cumprimento como uma ironia.

- Bom dia, se é que posso chama-lo de bom.

- Mas você vai, se quiser. – o Obergruppenführer se senta e então diz – Primeiro eu devo dizer que o senhor é um mistério. Seus arquivos da Gestapo são curiosos. Você não tem residência, não tem documentos, não tem ocupação, não tem filiação e, por incrível que pareça, nem mesmo um sobrenome. Eu não faço ideia de quem seja mas, ao olhar a lista de procurados, o seu nome simplesmente... – ele hesita por um segundo – estava lá. Quem é o senhor, herr Gunther?

O rapaz sorri.

- Você quer dizer quando, de quando eu sou. Eu não sou desse tempo.

Eicke e os guardas não compreendem.

- Logo vejo que fizemos um favor erradicando essa milícia, pois ela aceitava qualquer um, desde os degenerados – ele refere-se a Röhm – até os doidos varridos...

Os guardas riem.

- Eu...

- Mas – interrompe Eicke – eu tenho uma proposta a lhe fazer. Uma guerra vem aí, sr. Gunther, e Himmler quer aumentar o contingente da SS para combate-la. Para isso estamos convidando os antigos membros da SA para se juntarem a nós. Eu não o alistaria, mas a circunstância nos obriga. Então... – continua ele – eu estou convidando-o a se alistar à SS.

Assustando-se, Gunther se enoja. A Schutzstaffel foi responsável pelos piores crimes contra a humanidade ocorridos no século 20, e o rapaz deparava-se com três de seus membros convidando-o a participar dessa barbárie. Gunther é enérgico ao responder, ele jamais se juntaria aos genocidas.

- Não! – vocifera ele.

- O que disse? - o homem se recusa a entender.

- Eu disse que não!

Enervando-se, os guardas se sentem ultrajados. Eicke também se irrita, mas, contendo-se, apenas respira fundo em lamentação.

- Fico desapontado ao ouvir sua rejeição quando tantos outros a aceitaram. Muito bem, sr. Gunther. Fique com o que decidiu. – levantando-se, o Obergruppenführer diz – O senhor cometeu alta traição e por isso eu o condeno a execução por fuzilamento. Podem leva-lo!

Aproximando-se, um dos guardas ergue a cauda de seu rifle e o golpeia na cabeça.

 

§

 

Ao acordar, o rapaz se vê sendo levado pelos guardas. Sua cabeça dói. Algo se escorre de sua testa e, ao chegar ao seu lábio, ele experimenta sangue.

Gunther tenta se desvencilhar inutilmente. Ele alega inocência, mas os guardas o acusam de estar vestindo o uniforme dos camisas pardas. Em um último ato de desespero, o rapaz suplica:

- Esperem! Eu tenho um último direito!

- Um direito?! – intriga-se um deles, sorrindo.

- E qual é? – pergunta o outro guarda.

- Exijo que me deixem fazer um último telefonema.

Os guardas se entreolham.

- Mas do que é que você está falando?

- Sim! Me deixem fazer um último telefonema! É tudo o que eu peço.

Intrigado com sua estranha petição, o guarda o pergunta:

- Direito a um telefonema? Mas de onde é que você tirou isso? Por acaso pensa que ainda estamos em uma democracia?

Gunther reconhece que os direitos eram desprezados ou abolidos naquela terrível ditadura.

- É tudo o que eu peço.

Sacudindo os ombros, o guarda olha para seu companheiro e não vê problema algum. Na verdade, ele parecia estar se divertindo por dentro.

Conduzindo-o a uma sala separada, o rapaz vê um aparelho de telefone sobre a mesa. Gunther esperava que, ao atende-lo, a misteriosa voz interdimensional pudesse transporta-lo dali como aconteceu na Torre de Televisão.

Observando o telefone, o rapaz nota o peculiar teclado onde a discagem era feita girando-o com a ponta dos dedos. Suando, suas mãos tremem ao pegar o receptor. Imediatamente ele diz:

- Me tire daqui!

Mas não parecia haver ninguém no outro lado da linha. O rapaz insiste.

- Por favor, atenda!

Atrás dele, os guardas cruzam os braços, rindo da estranha situação.

- Por favor! Fale alguma coisa!

Então, para o alívio de Gunther, alguém o responde.

- Telefonista de Stadelheim, em que posso ajuda-lo?

- O quê? – ele não compreende – Por favor, você tem que me tirar daqui agora!

- Senhor, eu não consigo entende-lo. Pode me informar a quem eu devo redirecionar sua ligação?

- Você não entende! Eles vão me matar!

- Senhor, eu sou a assistente telefonista da prisão de Stadelheim. Meu trabalho é redirecionar ligações. Eu não posso ajuda-lo.

- Não faça isso comigo. É apenas você quem pode me ajudar!

- Eu não sei do que está falando.

Atrás dele os guardas gargalham. Aproximando-se, um deles tira o receptor de suas mãos e diz:

- A brincadeira acabou.

Puxando-o, os guardas o levam para o pátio da prisão. Colocando-o contra um paredão, eles amarram suas mãos e carregam seus rifles. Gunther nota que há buracos de bala na parede e enormes manchas de sangue no chão. Eicke aparece atrás deles e, tranquilamente, diz:

- A Operação Colibri foi um sucesso. Não há mais adversários políticos de Hitler. Os principais opositores se foram.

Maliciosamente, um guarda o responde:

- Ainda falta esse aqui.

Eicke não se importa de olhar para Gunther. Ele continua:

- Vida longa ao Terceiro Reich!

Então Gunther arregala os olhos. Confuso demais para perceber, ele participara da famosa Noite das Facas Longas, um expurgo extrajudicial na Alemanha nazista que iniciou o diabólico Terceiro Reich.

- Esperem! Não atirem!

Os guardas o ignoram. Apontando suas armas para o rapaz, eles bradam simultaneamente:

- Heil Hitler!

[Bang!]

 

 



[1] Destacamento Tempestade ou Tropas de Assalto em alemão, mais conhecida como a SA.

[2] Líder de grupo sênior

[3] Alemanha, Alemanha sobre todos

[4] Golpe em alemão, nesse caso referindo-se a um golpe de Estado

[5] Tropa de Proteção em alemão

[6] Polícia secreta nazista



segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Tiergarten - 15 - O Segundo Reich

 


Enquanto faz seu café, Gunther ouve sons festivos vindos da monótona Berlim. Então o telefone toca.

- Alô?

- Olá, Gunther. Você não vai comemorar também?

O rapaz não compreende.

- Comemorar o quê?

Então ele ouve apenas estática.

Saindo de seu apartamento, o rapaz desce as escadas e caminha até a rua. Na saída do prédio ele é recebido por uma multidão comemorando e cantando um hino antigo. Alguém passa ao seu lado e diz:

- Viva a Alemanha! Viva a Prússia!

“Prússia?” pensa ele.

Outra pessoa grita:

- Viva o Rei Wilhelm I! – e então confete cai sobre as roupas de Gunther.

Olhando ao redor, ele vê várias faixas das cores vermelha, branca e preta pendurada nos prédios. Mas há algo estranho. O ambiente parece mudado, antigo e pitoresco, lembrando os cenários do século XIX. Abordando um homem, o rapaz pergunta:

- Com licença, o que está... – e então Gunther nota sua peculiar aparência. O homem veste paletó, sapatos e um redondo chapéu. Em seu rosto há um volumoso e pontudo bigode, típico dos antigos europeus. Ainda atônito, o rapaz conclui – Acontecendo...?    

- Você não está sabendo? Acabou de ser informado pela rádio. A França capitulou. Nós vencemos a guerra!

- Que guerra? – intriga-se ele.

- Que guerra?! – o homem ri – A Guerra Franco-Prussiana, oras!

O homem volta a comemorar pelas ruas. Caminhando ao redor, Gunther se surpreende ao ver aquela cena típica de um filme antigo. Os homens com seus chapéus e paletós, e as mulheres com seus lenços e vestidos. Carruagens e cavalos passam entre as pessoas, assustando-o. Ao olhar para a cidade, o rapaz vê que algumas construções, especialmente aquelas da república socialista, não existiam.

“Onde está a Fernsehturm?”, pergunta-se ele.

Uma senhora se aproxima e, em lágrimas, diz:

- A guerra finalmente acabou! Meu filho poderá voltar para a casa!

Ao lado dela aparece uma mulher. Ouvindo-a, ela responde:

- Meu marido também voltará. Graças a Deus!

Então as duas se abraçam e choram de alegria.

Afastando-se, o rapaz caminha pela animada multidão. Em uma avenida ele vê militares marcharem altivamente, os oficiais de alta patente sobre seus cavalos e a infantaria em passos sincronizados. A população os vê e os aplaude, jogando pétalas de rosas em seu caminho.

Gunther avista um homem com seu filho e, abordando-o, o pergunta:

- Com licença, senhor. Em que ano estamos?

Estranhando-o, o homem lhe faz um olhar desconfiado e resmunga:

- Louco...! – então ele pega seu filho e vai embora.

Algo o incomoda sob seus pés. Gunther pisava sobre um jornal amassado. Pegando-o, ele lê as manchetes. No jornal diz que em 2 de setembro de 1870 a França perdeu a chamada Batalha de Sedan. Essa derrota foi decisiva na guerra, favorecendo os prussianos e tendo inclusive a captura do Imperador Napoleão III. Todos aclamavam o brilhantismo estratégico do general Helmut von Moltke, sendo promovido a marechal de campo após a vitória.  

Após a rendição francesa, Napoleão III renuncia e a terceira república é proclamada em Paris, apenas dois dias após a derrota em Sedan. O jornal informa que, apesar da derrota, os franceses ainda resistiam aos prussianos, criando um governo provisório em Tours para organizarem a defesa da França. Paris foi sitiada em 19 de setembro de 1870, após o famoso chanceler prussiano se recusar a negociar a paz. Gunther o conhece bem: Otto von Bismarck.

- Bismarck, seu velho ardiloso... – sussurra ele.

“Todos esses eventos já haviam acontecido, então o que as pessoas estão comemorando?” pergunta-se Gunther.

Ao ver a data do jornal, o rapaz lê 19 de janeiro de 1871. Era um dia após a proclamação de Wilhelm I como o Kaiser Alemão, em 18 de janeiro. A cerimônia ocorreu na Galeria dos Espelhos, no Palácio de Versalhes em Paris.

“Bismarck escolheu o Palácio de Versalhes, lar dos antigos reis franceses, como local de coroação de um rei prussiano?!” admira-se Gunther. Apesar de já conhecer a história, era algo completamente diferente vivencia-la. O rapaz reconhece que essa era a razão da comemoração em Berlim. A Confederação da Alemanha do Norte deixava de existir e nascia o Império Alemão.  

“Ora” pensa ele, “se estamos em 1871, então ainda não existe o detestável Muro de Berlim!”. Animado, ele decide atravessar para o ocidente. “Quão patético eu sou” pensa ele, “empolgado para fazer algo que, para esses prussianos, é ridiculamente corriqueiro”.

Enquanto caminha pelas animadas ruas, um grupo de mulheres comenta à sua frente.

- Esse chanceler é lindo, não acham?

- Ora, não seja interesseira! Ele não parece gostar de plebeias!

- Acho que ele não é assim. Ele parece muito humilde e cortês com as mulheres.

- Todos os homens são corteses com as mulheres, quando eles querem você sabe o quê. Não se iluda com um nobre, minha filha!

- Eu não me importo. – comenta outra – Para mim ele é um bonitão e eu não perderia a chance se eu o conhecesse.

- E que chance você teria de tão somente conhece-lo? Creio que ele não frequente as ruas do povo, mas apenas os espaços reservados à nobreza.

Outra mulher pergunta:

- Será que ele é tão esnobe assim?

- Para mim ele é um elitista.

- Pois eu acho que ele é gentil e cavalheiro com todas as mulheres.

- Eu acho que ele é apenas educado, mas não se interessaria por mulheres plebeias como nós.

- Eu acho que ele é um arrogante e prepotente.

- Eu não acho.

- Como será que ele é pessoalmente?

Então a discussão se transforma em uma dúvida. Gunther ouve tudo e se intriga. Ele conheceu Bismarck pessoalmente, inclusive o recebeu em sua casa, mas revelar-lhes geraria desconfiança e gargalhadas. O rapaz decide se afastar.

Adiante, um grupo de homens conversa entre si.

- Quem diria, o rei Wilhelm I se tornou o kaiser de toda a Alemanha.

- Você parece ironiza-lo, meu amigo.

- E estou errado? Um rei inexpressivo e inócuo que apenas teve o mérito de nascer herdeiro do trono prussiano. O que esperar dele agora que é imperador?

- Creio que você está sendo injusto com o nosso rei. O brilhante chanceler foi nomeado por ele. Isso já é prova o bastante de sua competência.

- Bismarck é um ardiloso e egoísta! Ter dado a chancelaria a ele foi o maior desastre da Prússia!

- Como pode dizer isso?! Ele foi o responsável pelas maiores vitórias contra os poloneses, os dinamarqueses, os austríacos e agora os franceses. Creio que o kaiser Wilhelm e seu chanceler serão a ascensão da Prússia em toda a Europa!

- Você está inebriado com as vitórias militares, meu amigo. Espere até a fumaça da guerra abaixar para verem o monstro que criamos.

- O que quer dizer?

- Reinos soberanos foram rebaixados a nobres subalternos e federados. Nesse novo império alemão, insurreição é o que eu prevejo.

- O kaiser saberá resolver a política interna magistralmente. Aliás, eu tenho certeza de que sua posteridade será igualmente brilhante e guiará a Alemanha para um futuro glorioso!

Ao ouvi-lo, Gunther tem vontade de falar o quanto ele está errado.

Chegando na avenida Unter den Linden, ele avista o imponente Portão de Brandemburgo. Atravessando os altos pilares, suas pernas parecem andar mais rápido que seus passos. Então ele tem uma estrondosa surpresa. O muro não estava lá! Não havia guardas, torres, barreiras ou arame farpado, apenas a livre passagem para o desejado exterior. Sem hesitar, ele se apressa em “atravessa-lo”.   

Mas o paradoxo dimensional lhe cobrará um preço alto por isso.

O Tiergarten está a sua frente. Esquivando-se das pessoas e carruagens, ele caminha normalmente. Mas há algo errado. A cada passo o tempo-espaço se altera e, subitamente, o próprio tecido da realidade se contorce diante de seus olhos. Mas Gunther não o percebe.

No primeiro passo, um dia se passa. No segundo, uma semana. No terceiro, quarto e quinto, se vão um mês, dois meses, um ano... Sem estar chovendo, seus pés pisam em poças d’água. Sem estar nevando, seus pés pisam na neve. Sem ser outono, seus pés pisam em folhas secas. O vento sopra frio, e então quente, e então úmido...  

Emocionado, ele vê as avenidas largas e o exuberante verde do bosque à sua frente.

- Mamãe... – sussurra ele.

Lágrimas se escorrem de seus olhos. Gunther, apesar de ainda não ter chegado aos trinta, se sente uma criança sem mãe. Ela foi embora para o ocidente. O rapaz nunca conseguiu aceitar o motivo de sua partida. Como um saco de tijolos, o motivo era demais para ele suportar.

Olhando para trás, ele se lembra que Anneliese ainda vivia na parte oriental. No oeste, sua mãe que o havia deixado. No leste, seu amor que o havia rejeitado. Há amor nas duas partes e motivo para permanecer em ambas. Seu coração se divide.

O rapaz se lembra que sua mãe tem idade avançada e não quer deixa-la sozinha. “Não”, pensa ele. “Eu tenho que encontrar a minha mãe”.

Mas cada passo é um turbilhão de reviravoltas dimensionais. Gunther ama Anneliese. Como a voz no telefone disse, o amor o desestabilizaria e sua vida jamais seria a mesma.

De repente ele vê carros nas avenidas do bosque, mas aqueles não eram carros comuns. Os carros eram antigos e muito rudimentares, semelhante ao Modelo T de Henry Ford. “Para onde foram as carruagens?”, pergunta-se ele.

Caminhando pela calçada, ele vê uma guarnição de policiais conversando entre si. Um deles os pergunta:

- Vocês ouviram o pronunciamento de Bismarck no rádio?

- Sobre sua humilhante demissão expedida pelo Kaiser Wilhelm II? – brinca um deles.

“Kaiser Wilhelm II?”, intriga-se Gunther. “Mas não acabou de ser coroado o primeiro?”.

- Não, mas tem a ver com isso. O ex-chanceler está preocupado e alerta efusivamente o novo kaiser de que, se não mudar sua política externa, colocará o império no meio de dois fronts.

- O que ele quer dizer?

- Wilhelm II está imprudentemente afastando-se da Rússia e ampliando sua frota naval, ameaçando os ingleses. Se ele romper os elos diplomáticos com os russos e continuar provocando o Império Britânico, a França se juntará a essas potências e a Alemanha será estrangulada pelos dois lados.

- A Rússia uma potência...?! – ri ele – O império alemão é uma potência militar, industrial e econômica! Não precisamos temer os russos, os ingleses ou os ressentidos franceses. O kaiser tem poder para derrotar todos!

- Mas Bismarck é um inteligente estrategista. Devemos ouvir seus conselhos.

- Esse arrogante foi devidamente deposto.

- Esse arrogante é o pai do Império Alemão!

- Um pai velho que necessita de um asilo. Esqueça-o, ele não é mais útil na política. Confio no meu kaiser e não nesse “profeta da ruína”.

Dessa vez é o outro policial que ri.

- Profeta da ruína...?!

- Kaiser Wilhelm II é vigoroso e sagaz. Tenho plena confiança nele em caso de guerra.

- Assim espero, camarada. Assim espero...

Avançando, Gunther os deixa para trás.

Dias, semanas e meses se passam, mas o rapaz é incapaz de perceber.

Um casal lê um jornal no banco do parque. O marido comenta:

- Veja, querida. Francisco Fernando, o arquiduque do Império Áustro-húngaro, foi baleado e morto em Sarajevo. Você sabe o que isso significa?

- Não, o que é?

- Os austríacos retaliarão. Se uma invasão à Sérvia ocorrer, o Império Russo, que é aliado dos sérvios e dos franceses, declarará guerra ao Império Austro-húngaro, que é aliado da Alemanha, que recentemente se aliou à Itália e ao Império Otomano, e todos eles entrarão em guerra.

A mulher se confunde.

- Meu Deus, que confusão! Não tenho certeza se entendi.

- Não precisa. Apenas saiba que, se isso acontecer, poderá ser a primeira grande guerra a arrastar o mundo.

- Você parece preocupado, querido. Você disse Sérvia, não é? Não fica na região dos Bálcãs? Não foi o próprio Bismarck que disse que “os Bálcãs inteiros não valem os ossos de um só granadeiro da Pomerânia?”. Por que o império se aventuraria em uma imprudente guerra com eles?

O marido sorri, aliviado pelo comentário de sua esposa.

- Você sempre me conforta quando eu preciso, querida. Te amo. Muito obrigado por existir.

Então os dois se beijam e continuam lendo o jornal em paz.

Gunther avança. O tempo passa em velocidade fenomenal. De repente, um soldado com um elmo pontudo aparece à sua frente e, irritado, o pergunta:

- O que você está fazendo aqui, rapaz?!

Gunther se assusta. “Por que ele está gritando?”, intriga-se ele.

- Estou indo encontrar alguém.

- Compareça agora ao alistamento obrigatório! O Império Alemão está em guerra! Conscritos são necessários no front!

- Mas eu não sou daqui... – na verdade Gunther nasceu em Berlim, mas não sabe como explicar – Quero dizer, eu sou daqui, mas não desse tempo.

- O quê?!

- Sim, eu não sou desse tempo. Estou indo encontrar a minha mãe, mas só agora me ocorreu que ela ainda não é nascida...

- Do que você está falando?!

- Eu estou, estava, indo encontrar alguém que ainda não nasceu. Que desatenção a minha, não é mesmo? – sorri ele.

Sem entender nada, o soldado pergunta:

- Por acaso você é louco?

- Não, senhor. E tampouco sou de 1871.

- 1871?! – intriga-se ele – Estamos em 1914, seu doido varrido! Venha, compareça ao alistamento obrigatório agora!

- Mas, senhor...

- Eu disse agora!

Então Gunther é levado pelo soldado à uma viatura.

Momentos depois, o rapaz se vê vestindo fardas prussianas e segurando um rifle com uma baioneta em sua ponta. Há uma multidão de soldados atrás dele, rapazes jovens com semblantes confusos e tristes por estarem ali. Um trem está a sua frente e, ao abrirem os vagões, o rapaz é irresistivelmente empurrado para dentro. Espremido para junto deles, Gunther olha para alguém e lê o nome “Erich” em sua farda. Então ele o pergunta:

- Para onde estamos indo?

Erich o responde:

- Para a França.

- Para quê?

O soldado ri de sua ingenuidade.

- Para combater no front ocidental.

- E qual é a novidade no front?

Com olhar abatido, ele responde:

- Não há nada de novo no front...

Então o trem se movimenta e eles seguem viagem.

E assim o rapaz conhece o Segundo Reich.

 

 

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Tiergarten - 14 - O Primeiro Reich

 


- Ei, garoto.

Alguém cutuca o rapaz com uma vara e ele desperta em um pulo. Olhando assustado para os lados, ele se vê em uma frondosa floresta no meio de um vale. Um homem permanece parado à sua frente, observando-o com bizarra atenção.

- Onde é que eu estou? – pergunta ele.

O homem olha para trás. Gunther percebe que havia uma carruagem ali, e uma senhora com duas crianças também olhavam para ele. O rapaz percebe que eram uma família.

- Bem... – começa ele, um pouco confuso – Estamos na Renânia, a caminho de Worms. O que você está fazendo aí?

“Worms?!”, se pergunta o rapaz. “Esta cidade não fica na Alemanha Ocidental?”.

- Como eu vim parar aqui?

O homem e sua família parecem não entendê-lo.

- Esperava que você nos dissesse.

- Eu... – nesse momento ele nota que a família vestia os peculiares trajes medievais do século XIV – Por que vocês estão vestidos assim?

Então o homem suspira. Entediando-se, ele olha para sua esposa e diz:

- Vamos, vamos embora. Ele é só mais um bêbado perdido na floresta.

Dando-lhe as costas, o homem se afasta. Assustado, Gunther se levanta e o interrompe.

- Espere! Me levem com vocês!

O homem desconfia.

- Levar um estranho com minha família? Está me tomando por um tolo?

Subindo em sua carruagem, o homem pega as rédeas dos cavalos.

- Espere! Eu não sei onde estou! Eu preciso de ajuda!

- Como não sabe onde está? Por acaso você apareceu do ar?

“Sim!”, pensa o rapaz, mas ninguém entenderia.

- Por favor, me ajude! – apela ele.

O homem o ignora e, preparando-se para seguir viagem, sua esposa intervém.

- Querido, eu te peço, ajude esse moço.

- Nós não o conhecemos. Pode ser um desses ladrões da floresta.

- Mas ele parece estar perdido. Um ladrão não demonstraria tamanha inocência.

- E se for uma armadilha?

- Querido, é nossa obrigação cristã. Lembre-se da parábola do bom samaritano.

O homem pondera. Pegando seu colar, ele beija o crucifixo em sua ponta. Aparentemente, ele era um fiel muito fervoroso.

- Está bem. Você pode vir conosco.

- Obrigado! Muitíssimo obrigado!

Gunther os agradece intensamente. Em seguida ele sobe na carruagem e eles seguem viagem.

 

§

  

Chegando em Worms, o rapaz vê uma incrível cidade medieval diante de seus olhos. Passando sobre a antiga ponte, ele contempla boquiaberto a belíssima Torre dos Nibelungos. Observando atentamente seus detalhes arquitetônicos, ele reconhece que aquela era uma das edificações mais belas que ele já viu.

O casal olha para Gunther e o estranham. O rapaz olhava fixamente para cima onde não havia nada. Ele parecia admirar emotivamente algo invisível, impossível de se ver. Em sua existência dimensional paradoxal, Gunther olhava para uma torre que somente seria construída em 1897, quatrocentos anos no futuro.

- Ele é louco? – pergunta uma das crianças.

- Deve estar possuído por demônios. – responde o pai.

Diante do enorme muro que rodeia a cidade, ele atravessa o portão e nota as igrejas cinzentas, as ruas estreitas e as arcaicas carruagens em toda parte. Gunther se extasia ao ver a impressionante Catedral de São Pedro ao longe, a famosa igreja de estilo romanesco. Sentindo o forte odor de estrume de cavalo, ele se pergunta como os medievais conseguiam suporta-lo.

- Bem-vindo à Worms. – diz o homem.

O rapaz está perdido em admiração. A mulher olha para ele e pergunta:  

- Então você não sabe como veio parar aqui?

Interrompendo-se, ele responde:

- Eu simplesmente não sei.

- Não sabe? O que aconteceu para estar desmaiado no meio da floresta horas atrás?

Gunther não sabe o que responder. Então um som alto de trombeta é ouvido próximo ao mercado principal.

- O que está havendo? – pergunta o homem.

A mulher também está confusa e olha intrigada.

Enxergando um cartaz na parede, o rapaz lê as complicadas palavras em um alemão antigo.

- Ali diz que hoje haverá uma reunião de nobres em Worms.

O casal olha intrigado para ele.

- Como você sabe? – pergunta o homem.

- É o que diz ali. Veja.

Então todos se constrangem. Gunther não entende. Em seguida o homem esclarece:

- Nós não sabemos ler.

Dessa vez é Gunther quem se sente constrangido.

Descendo da carruagem, a família o deixa no mercado principal. O rapaz os agradece e eles vão embora. “Louco!”, sussurra uma das crianças, mostrando-lhe a língua em seguida.

- Ora, essa... – irrita-se ele.

Em um estalar de dedos, Gunther se vê no meio de uma reunião de nobres e clérigos em um suntuoso salão. Perplexo, ele olha para os lados e vê garçons e músicos encantando os presentes com seus aperitivos e músicas. Por alguma razão desconhecida, o rapaz segura uma taça de champanhe em sua mão, mas ele não fazia ideia de como veio parar ali.

Abordando um garçom, o rapaz pergunta:

- Com licença. Onde estamos?

O garçom arregala os olhos, como se não esperasse que os presentes fossem falar com ele. Nervoso e com as mãos tremendo, ele responde:

- Em Worms, meu senhor.

Gunther caminha até a janela e vê a paisagem lá fora. Ele ainda estava naquela cidade.

Confuso, ele retorna ao garçom e exasperadamente pergunta:

- Como é que eu vim parar aqui?!

Ainda tenso, o garçom não compreende. Ao invés, ele educadamente responde:

- Perdoe-me, meu senhor. Eu preciso voltar ao trabalho.   

Então ele apressadamente vai embora, se esforçando para que não o notassem.

Naquela reunião as pessoas vestiam exuberantes trajes medievais, coloridos e requintados, típicos da alta nobreza. Algumas pessoas olham para ele de longe e riem, parecendo zomba-lo.

Um homem, vestindo belas roupas e um chapéu com uma pena, se aproxima e elegantemente o pergunta:

- Boa tarde, vossa alteza. De onde és?

Gunther rapidamente responde:

- Berlim.

- Oh, de Berlim? – surpreende-se ele – Não esperava que fossem enviar um emissário para o Reichstag[1].

- Reichstag...?

- Por certo que sim! Esse é o primeiro em que o rei comparecerá pessoalmente para prestigia-lo. Pelo menos esperamos que seja o rei, já que seu pai, Frederico III, morreu há apenas dois anos sem nunca ter comparecido. Velho teimoso e cabeça dura. Que Deus o tenha...

Gunther não faz ideia do que ele está falando.

- A propósito, eu sou o Conde de Hohenzollern. Muito prazer.

- Eu sou Gunther.

O rapaz ia lhe estender a mão, mas o conde se curva e, afastando os braços, dobra levemente as pernas. Confuso, o rapaz o imita.

Em seguida, mais pessoas se aproximam para conversar também.

- Boa tarde, vossa alteza! Como está o senhor?

Gunther vê um homem mais velho falar com o duque. Ele responde:

- Eu estou bem, vossa alteza. Quero que conheça o nosso novo convidado, o Gunther de Berlim.

- De Berlim?! – surpreende-se igualmente ele – Por acaso és o príncipe de Brandemburgo?

- Não, senhor.

- E por falar nisso, como está a região? Fiquei sabendo que seus vizinhos da Pomerânia estão lhe dando trabalho.

O rapaz não sabe o que lhe responder.

- Na verdade eu não posso falar no assunto.

- Ah, uma situação diplomática delicada, não?

O rapaz sorri, sem entender coisa alguma.

- Muito prazer, vossa alteza. Eu sou o Conde de Wertheim.

O homem se curva e, em seguida, Gunther o imita.

Um terceiro homem se aproxima e pergunta:

- E que trajes são esses, alteza? Estão mudando os costumes no norte?

Gunther vê um homem com um longo bigode sorrindo para ele. Então o rapaz percebe que ainda usava as típicas roupas da Alemanha Oriental, jaqueta, camisa, calça jeans e tênis. Arrumando-as, ele responde:

- Sim... Nossa política mudou radicalmente nos últimos anos.

Ele improvisa uma resposta, mas para seu azar, todos imediatamente se interessam.

- É mesmo? E como foram essas mudanças? Deixaram de ser um principado para se unir a reinos maiores? Isso está ficando cada vez mais comum hoje em dia. Diga-me, alteza. O que mudou?

- Bem... – suspira ele – Meu país se tornou socialista.

Franzindo a testa, os três nobres se entreolham. Ninguém sabia do que ele estava falando.

Quebrando o silêncio, o conde de Wertheim diz:

- Onde estão os seus modos, vossa alteza? O senhor já se apresentou ao nosso novo amigo?

- Oh, é claro! – sorri ele – Perdoe-me, meu senhor. Eu sou o Conde de Hesse.

Então ambos se curvam um ao outro.

Os três condes conversam sobre os assuntos políticos de seus respectivos condados. Gunther timidamente os acompanha, apesar de não comentar uma palavra. Conforme o conde de Hohenzollern havia citado minutos antes, o falecido Rei Frederico III não havia comparecido a nenhuma reunião do Reichstag durante todo o seu reinado. De fato, seu filho, o herdeiro real do trono, ainda não havia assumido a coroa do reino, mas se tornara o Arquiduque da Áustria naquele mesmo ano. Então o rapaz se intriga. Em que anos eles estavam?

- Com licença, meus senhores. – interrompe ele, fazendo-os o encararem com olhares altivos – Poderiam me dizer em que ano estamos? Sabem como é, com todos esses reis, principados e condados eu acabo me perdendo, entenderam?

O conde de Hesse ri, admirando-se.

- Ora, vossa alteza. Estamos em 1495.

Gunther arregala os olhos. Controlando-se rapidamente, ele não deixa os nobres perceberem sua surpresa.

- É claro. Perdoem minha desatenção.

O rapaz disfarça e logo os condes voltam a conversar entre si.

“1495?!”, pensa Gunther. “Eu voltei no tempo! Meu Deus, como isso é possível?!”.

Um homem vestido com roupas clericais passa pelo grupo. O conde de Wertheim o avista e diz:

- Abade de Hersfeld! Que prazer vê-lo aqui!

Parando, o abade sorri e então responde:

- Que a paz do nosso Senhor esteja com vocês.

- Abade, quero que conheça o nosso novo convidado, o Príncipe Gunther, o socialista de Berlim.

“Socialista de Berlim?!”, surpreende-se ele.

- Muito prazer, vossa alteza.

Gunther se curva como anteriormente, mas o abade o abençoa com o sinal da cruz.

Então um arauto entra no salão e, chamando a atenção de todos, diz:

- Todos recebam a presença do nosso regente, o Arquiduque Maximiliano I da Áustria e futuro rei do Sacro Império Romano!

Músicos portando trombetas se enfileiram na porta e tocam seus instrumentos, anunciando a chegada do rei. Os presentes se encurvam em silêncio, aguardando o monarca passar. Gunther se surpreende. Ele, crescido em um país em que o Partido Socialista pregava a ideia de igualdade, se via encurvando-se para um nobre, o maior dos nobres, um rei em sua figura mais autêntica. Nobres, clérigos e vassalos o seguiam. Impressionado com tamanha pompa, o rapaz se pergunta. “Isso realmente é necessário?”.

O rei adentra o salão e caminha em direção ao seu trono. Os demais nobres o saúdam e o rapaz  o observa à distância. Maximiliano ainda não era rei, para isso era necessário passar por um processo eletivo, mas já carregava consigo a responsabilidade do cargo.

Os três condes e o abade vão à presença do rei e o saúdam. Gunther não entende. O antigo império era descentralizado e fragilmente unido. Portanto, por que os nobres ainda se reuniam?

Aproveitando o momento sozinho, o rapaz reflete sobre o assunto. O antigo Império Romano foi dividido em duas partes em 395 a.C. A parte ocidental caiu em 476, deixando de existir formalmente. Entretanto, com a formidável expansão territorial empreendida por Carlos Magno nos séculos XVIII e IX, o papa Leão III tentou resgatar a glória do finado império coroando Carlos como o “Rei dos Romanos”. E muitos acreditam que foi nesse momento que nasceu o Sacro Império Romano.

O termo “sacro” se popularizou devido ao fato de que os imperadores desse novo império eram tradicionalmente coroados pelo Papa. Funcionando no “eixo” Roma, bastião do catolicismo, e Viena, capital do reino, a ideia de império defensor da fé cristã permaneceu.

O termo “romano” carrega controvérsias. Gunther se lembra que, ao estudar o assunto na escola, o império oriental nunca reconheceu os ocidentais como seus pares. Os orientais eram os legítimos herdeiros de Roma, pois descendiam diretamente de seu reinado, mas no momento da coroação de Carlos Magno, o papa Leão III não se importou de consulta-los antes do grandioso ato.

A história é enfática ao afirmar que o papa Leão III estava, na verdade, tramando contra o recém coroado imperador. O papa intentou recuperar os territórios de Roma, utilizando-se de um documento falso onde Constantino, o primeiro imperador cristão da História, concedia o poder do império à autoridade papal.

Ao que lhe parece, o papado tinha duas opções: pedir a anuência dos orientais na coroação ou arrogar-se o direito de governar Roma, utilizando-se do documento falso conhecido como Doação de Constantino. Gunther reconhece que o papa tramou usurpar não apenas as conquistas de Carlos Magno, mas a porção ocidental inteira, desejando transforma-la no bastião de toda a cristandade.

Por outro lado, o papa não estava de todo errado em suas escolhas. No ano de 800, ao coroar Carlos Magno, o império oriental era governado por Irene de Bizâncio, que além de ser uma mulher, era suspeita de matar seu próprio filho para subir ao trono.

“Não importa qual período da História eu estude”, pensa Gunther, “ela sempre estará escrita com sangue”.

Mas chamar o império de império é mergulhar em outra complexidade histórica. Apesar dos sucessos militares de Carlos Magno, o recém-nascido império ainda não estava pronto para se afirmar. Seus herdeiros o dividiram e, após inúmeras disputas internas, o legado de Carlos se desfaleceu. Foram necessários mais 136 anos para que as sementes do império, sob Otão I, pudessem florescer. Mais tarde conhecido como Otão, o Grande, o rei consolidou o Sacro Império Romano e o tornou um dos impérios mais longevos da humanidade, durando mais de mil anos. 

A sessão se inicia. Observando como os nobres discutiam suas reivindicações políticas, o rapaz nota sua fragilidade. Apesar de seu imenso território, os duques, príncipes e senhores das cidades-livres demonstram resistência em acatar à autoridade do rei. Gunther reconhece que a liberdade e o espírito indomável estiveram sempre presente no coração dos alemães.

O rei se mantém em silêncio e raramente fala aos presentes. Ao tomar uma decisão importante, alguns nobres imediatamente protestam, acusando-o de ainda não ser o imperador. Outros pedem moderação, pois sabem que um trono vago os enfraquecerá perante os inimigos. Assim, o Reichstag se divide.

- O império é o bastião da cristandade e de Roma. Devemos resguarda-lo e fortalecer suas fronteiras! – declara um conde.

- Como é possível fortalecermos o império ao custo de perdermos nossa soberania? Isso é um absurdo! – protesta um príncipe.

- E de que adianta soberania em um império que não pode se defender? – pergunta um abade.

- Exatamente! – concorda um bispo – Devemos sufocar o desejo egoísta de soberania e nos proteger dos inimigos. Lembrem-se dos turcos!

Então os nobres desfalecem, lembrando-se das invasões turcas.

- Meus irmãos, vossas altezas bem sabem da ameaça dos otomanos. Entretanto, a liberdade é um direito cristão dado pelo próprio Deus! Se não a guardarmos nesse império, quem garantirá que os infiéis a mantenham depois? – pergunta outro príncipe.

Ao ouvi-lo, os nobres ponderam.

- Mas como manteremos o império e nossa soberania? – pergunta um duque.

Do fundo da sala, uma ilustre e improvável voz responde:

- Protegendo povo!

Intrigados, os nobres viram suas cabeças, procurando aquele que lhes falou.

- O que vossa alteza disse, meu senhor? – pergunta o abade de Hersfeld.

Os nobres abrem espaço, querendo avista-lo também.

- Protegendo o nosso povo. – repete Gunther.

A sala se silencia.

O futuro imperador se reluta ao perguntar:

- Quem é esse homem?

- Vossa alteza, esse é o Príncipe Gunther, o socialista de Berlim. – responde o conde de Hoherzollern.

Franzindo a testa, todos se perguntam: “o que é socialismo?”.

Intrigado, o rei olha para ele e pergunta:

- O que quer dizer, Príncipe Gunther?

O rapaz se enche de ousadia para responder:

- No regime socialista onde cresci, existe o ideal de que todos são iguais. Não há nobres, plebeus, ricos, pobres ou qualquer distinção de classes, apenas a Igualdade. Sim, o socialismo tem muitas falhas, mas também muitas vitórias e conquistas. Portanto eu vos rogo, meus nobres senhores. Fortaleçam o império ou o enfraqueçam em prol de vossas soberanias, eu não me oporei. Mas em nome de Deus eu vos peço: protejam o nosso povo!

Ao proferir sua admirável declaração, o Reichstag se silencia. O silêncio incômodo paira no ar e todos esperam uma resposta do rei. Finalmente ele diz:

- O império é o bastião do cristianismo, mas também é o lar dos nobres soberanos. Juntos somos mais fortes, mas o povo é sua base e verdadeira força. Garantirei vossas soberanias – declara ele, agradando os nobres – Mas também exigirei a minha. Altezas, ouçam o que eu tenho a propor.   

Então o rei faz suas propostas ao Reichstag. Os nobres analisam, debatem e ponderam e em seguida tomam as importantes decisões que prolongariam a existência do vasto império. Eles assinam o histórico Reichsreform[2], um conjunto de decretos que instituíam os círculos imperiais, o Reichskammergericht[3] e a manutenção da corte particular do rei, funcionando paralelamente com a corte imperial. Nisso, o território imperial se manteria, mas ao custo da autoridade do próprio rei, que gradualmente diminuía. Satisfeitos, os nobres concordam com as reformas.

Curvando-se, os nobres saúdam o rei e então o aplaudem, se confraternizando no Reichstag.

Gunther não apenas testemunha, mas influencia um evento histórico em seu país. Ele presencia uma mudança na organização política e jurídica da Alemanha que se manteria por gerações. Sentindo-se satisfeito, ele sorri.

Essas reformas na estrutura imperial sobreviveriam até sua dissolução, em 1806. Estudante dedicado como sempre foi, o rapaz sabe que não naquele ano, mas somente em 1512, o rei Maximiliano I seria coroado imperador. Observando o jovem rei agora, ele lhe deseja sorte.

E por falar em 1512, nesse mesmo ano o império receberia seu novo título, o Heiliges Römisches Reich Deutscher Nation[4], ou em sua forma mais resumida, o Sacro Império Romano-Germânico. “Um império alemão?”, se pergunta ele. É nesse momento que o rapaz percebe.

Gunther havia conhecido o Primeiro Reich.

 

 

 



[1] Parlamento em alemão

[2] Reforma imperial

[3] Câmara da corte imperial

[4] Sacro Império Romano da Nação Germânica 

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