Enquanto faz seu
café, Gunther ouve sons festivos vindos da monótona Berlim. Então o telefone
toca.
- Alô?
- Olá, Gunther.
Você não vai comemorar também?
O rapaz não
compreende.
- Comemorar o
quê?
Então ele ouve
apenas estática.
Saindo de seu
apartamento, o rapaz desce as escadas e caminha até a rua. Na saída do prédio
ele é recebido por uma multidão comemorando e cantando um hino antigo. Alguém
passa ao seu lado e diz:
- Viva a
Alemanha! Viva a Prússia!
“Prússia?” pensa
ele.
Outra pessoa
grita:
- Viva o Rei
Wilhelm I! – e então confete cai sobre as roupas de Gunther.
Olhando ao redor, ele vê várias faixas das cores vermelha, branca e preta pendurada nos prédios.
Mas há algo estranho. O ambiente parece mudado, antigo e pitoresco, lembrando
os cenários do século XIX. Abordando um homem, o rapaz pergunta:
- Com licença, o
que está... – e então Gunther nota sua peculiar aparência. O homem veste paletó,
sapatos e um redondo chapéu. Em seu rosto há um volumoso e pontudo bigode,
típico dos antigos europeus. Ainda atônito, o rapaz conclui – Acontecendo...?
- Você não está
sabendo? Acabou de ser informado pela rádio. A França capitulou. Nós vencemos a
guerra!
- Que guerra? –
intriga-se ele.
- Que guerra?! –
o homem ri – A Guerra Franco-Prussiana, oras!
O homem volta a
comemorar pelas ruas. Caminhando ao redor, Gunther se surpreende ao ver aquela
cena típica de um filme antigo. Os homens com seus chapéus e paletós, e as
mulheres com seus lenços e vestidos. Carruagens e cavalos passam entre as
pessoas, assustando-o. Ao olhar para a cidade, o rapaz vê que algumas
construções, especialmente aquelas da república socialista, não existiam.
“Onde está a
Fernsehturm?”, pergunta-se ele.
Uma senhora se aproxima
e, em lágrimas, diz:
- A guerra
finalmente acabou! Meu filho poderá voltar para a casa!
Ao lado dela
aparece uma mulher. Ouvindo-a, ela responde:
- Meu marido
também voltará. Graças a Deus!
Então as duas se
abraçam e choram de alegria.
Afastando-se, o
rapaz caminha pela animada multidão. Em uma avenida ele vê militares marcharem
altivamente, os oficiais de alta patente sobre seus cavalos e a infantaria em passos sincronizados. A população os vê e os aplaude, jogando
pétalas de rosas em seu caminho.
Gunther avista um
homem com seu filho e, abordando-o, o pergunta:
- Com licença,
senhor. Em que ano estamos?
Estranhando-o, o
homem lhe faz um olhar desconfiado e resmunga:
- Louco...! –
então ele pega seu filho e vai embora.
Algo o incomoda
sob seus pés. Gunther pisava sobre um jornal amassado. Pegando-o, ele lê as
manchetes. No jornal diz que em 2 de setembro de 1870 a França perdeu a chamada
Batalha de Sedan. Essa derrota foi decisiva na guerra, favorecendo os prussianos e tendo inclusive a captura do Imperador Napoleão III. Todos aclamavam
o brilhantismo estratégico do general Helmut von Moltke, sendo promovido a
marechal de campo após a vitória.
Após a rendição
francesa, Napoleão III renuncia e a terceira república é proclamada em Paris,
apenas dois dias após a derrota em Sedan. O jornal informa que, apesar da
derrota, os franceses ainda resistiam aos prussianos, criando um governo provisório
em Tours para organizarem a defesa da França. Paris foi sitiada em 19 de setembro
de 1870, após o famoso chanceler prussiano se recusar a negociar a paz. Gunther o
conhece bem: Otto von Bismarck.
- Bismarck, seu
velho ardiloso... – sussurra ele.
“Todos esses
eventos já haviam acontecido, então o que as pessoas estão comemorando?” pergunta-se
Gunther.
Ao ver a data do
jornal, o rapaz lê 19 de janeiro de 1871. Era um dia após a proclamação de Wilhelm
I como o Kaiser Alemão, em 18 de janeiro. A cerimônia ocorreu na Galeria dos
Espelhos, no Palácio de Versalhes em Paris.
“Bismarck
escolheu o Palácio de Versalhes, lar dos antigos reis franceses, como local de
coroação de um rei prussiano?!” admira-se Gunther. Apesar de já conhecer a
história, era algo completamente diferente vivencia-la. O rapaz reconhece que
essa era a razão da comemoração em Berlim. A Confederação da Alemanha do Norte
deixava de existir e nascia o Império Alemão.
“Ora” pensa ele, “se
estamos em 1871, então ainda não existe o detestável Muro de Berlim!”. Animado,
ele decide atravessar para o ocidente. “Quão patético eu sou” pensa ele, “empolgado
para fazer algo que, para esses prussianos, é ridiculamente corriqueiro”.
Enquanto caminha pelas animadas ruas, um grupo de mulheres comenta à sua frente.
- Esse chanceler
é lindo, não acham?
- Ora, não seja
interesseira! Ele não parece gostar de plebeias!
- Acho que ele não
é assim. Ele parece muito humilde e cortês com as mulheres.
- Todos os homens
são corteses com as mulheres, quando eles querem você sabe o quê. Não se iluda
com um nobre, minha filha!
- Eu não me
importo. – comenta outra – Para mim ele é um bonitão e eu não perderia a chance
se eu o conhecesse.
- E que chance você
teria de tão somente conhece-lo? Creio que ele não frequente as ruas do povo,
mas apenas os espaços reservados à nobreza.
Outra mulher pergunta:
- Será que ele é
tão esnobe assim?
- Para mim ele é
um elitista.
- Pois eu acho
que ele é gentil e cavalheiro com todas as mulheres.
- Eu acho que ele
é apenas educado, mas não se interessaria por mulheres plebeias como nós.
- Eu acho que ele
é um arrogante e prepotente.
- Eu não acho.
- Como será que
ele é pessoalmente?
Então a discussão
se transforma em uma dúvida. Gunther ouve tudo e se intriga. Ele conheceu Bismarck
pessoalmente, inclusive o recebeu em sua casa, mas revelar-lhes geraria
desconfiança e gargalhadas. O rapaz decide se afastar.
Adiante, um grupo
de homens conversa entre si.
- Quem diria, o
rei Wilhelm I se tornou o kaiser de toda a Alemanha.
- Você parece
ironiza-lo, meu amigo.
- E estou errado?
Um rei inexpressivo e inócuo que apenas teve o mérito de nascer herdeiro do
trono prussiano. O que esperar dele agora que é imperador?
- Creio que você está
sendo injusto com o nosso rei. O brilhante chanceler foi nomeado por ele. Isso já
é prova o bastante de sua competência.
- Bismarck é um ardiloso
e egoísta! Ter dado a chancelaria a ele foi o maior desastre da Prússia!
- Como pode dizer
isso?! Ele foi o responsável pelas maiores vitórias contra os poloneses, os dinamarqueses,
os austríacos e agora os franceses. Creio que o kaiser Wilhelm e seu chanceler serão
a ascensão da Prússia em toda a Europa!
- Você está inebriado
com as vitórias militares, meu amigo. Espere até a fumaça da guerra abaixar
para verem o monstro que criamos.
- O que quer
dizer?
- Reinos soberanos
foram rebaixados a nobres subalternos e federados. Nesse novo império alemão,
insurreição é o que eu prevejo.
- O kaiser saberá
resolver a política interna magistralmente. Aliás, eu tenho certeza de que sua
posteridade será igualmente brilhante e guiará a Alemanha para um futuro glorioso!
Ao ouvi-lo, Gunther
tem vontade de falar o quanto ele está errado.
Chegando na avenida
Unter den Linden, ele avista o imponente Portão de Brandemburgo. Atravessando os
altos pilares, suas pernas parecem andar mais rápido que seus passos. Então ele
tem uma estrondosa surpresa. O muro não estava lá! Não havia guardas, torres,
barreiras ou arame farpado, apenas a livre passagem para o desejado exterior. Sem hesitar,
ele se apressa em “atravessa-lo”.
Mas o paradoxo
dimensional lhe cobrará um preço alto por isso.
O Tiergarten está
a sua frente. Esquivando-se das pessoas e carruagens, ele caminha normalmente. Mas
há algo errado. A cada passo o tempo-espaço se altera e, subitamente, o próprio
tecido da realidade se contorce diante de seus olhos. Mas Gunther não o
percebe.
No primeiro
passo, um dia se passa. No segundo, uma semana. No terceiro, quarto e quinto,
se vão um mês, dois meses, um ano... Sem estar chovendo, seus pés pisam em
poças d’água. Sem estar nevando, seus pés pisam na neve. Sem ser outono, seus
pés pisam em folhas secas. O vento sopra frio, e então quente, e então úmido...
Emocionado, ele
vê as avenidas largas e o exuberante verde do bosque à sua frente.
- Mamãe... –
sussurra ele.
Lágrimas se
escorrem de seus olhos. Gunther, apesar de ainda não ter chegado aos trinta, se
sente uma criança sem mãe. Ela foi embora para o ocidente. O rapaz nunca
conseguiu aceitar o motivo de sua partida. Como um saco de tijolos, o motivo
era demais para ele suportar.
Olhando para
trás, ele se lembra que Anneliese ainda vivia na parte oriental. No oeste, sua
mãe que o havia deixado. No leste, seu amor que o havia rejeitado. Há amor nas
duas partes e motivo para permanecer em ambas. Seu coração se divide.
O rapaz se lembra
que sua mãe tem idade avançada e não quer deixa-la sozinha. “Não”, pensa ele. “Eu tenho que encontrar a minha mãe”.
Mas cada passo é
um turbilhão de reviravoltas dimensionais. Gunther ama Anneliese. Como a voz no
telefone disse, o amor o desestabilizaria e sua vida jamais seria a mesma.
De repente ele vê
carros nas avenidas do bosque, mas aqueles não eram carros comuns. Os carros eram antigos
e muito rudimentares, semelhante ao Modelo T de Henry Ford. “Para onde foram as
carruagens?”, pergunta-se ele.
Caminhando pela
calçada, ele vê uma guarnição de policiais conversando entre si. Um deles os pergunta:
- Vocês ouviram o
pronunciamento de Bismarck no rádio?
- Sobre sua humilhante
demissão expedida pelo Kaiser Wilhelm II? – brinca um deles.
“Kaiser Wilhelm
II?”, intriga-se Gunther. “Mas não acabou de ser coroado o primeiro?”.
- Não, mas tem a
ver com isso. O ex-chanceler está preocupado e alerta efusivamente o novo
kaiser de que, se não mudar sua política externa, colocará o império no meio de
dois fronts.
- O que ele quer
dizer?
- Wilhelm II está
imprudentemente afastando-se da Rússia e ampliando sua frota naval, ameaçando os
ingleses. Se ele romper os elos diplomáticos com os russos e continuar provocando
o Império Britânico, a França se juntará a essas potências e a
Alemanha será estrangulada pelos dois lados.
- A Rússia uma
potência...?! – ri ele – O império alemão é uma potência militar, industrial e econômica!
Não precisamos temer os russos, os ingleses ou os ressentidos franceses. O kaiser
tem poder para derrotar todos!
- Mas Bismarck é
um inteligente estrategista. Devemos ouvir seus conselhos.
- Esse arrogante
foi devidamente deposto.
- Esse arrogante
é o pai do Império Alemão!
- Um pai velho
que necessita de um asilo. Esqueça-o, ele não é mais útil na política. Confio no
meu kaiser e não nesse “profeta da ruína”.
Dessa vez é o
outro policial que ri.
- Profeta da ruína...?!
- Kaiser Wilhelm II
é vigoroso e sagaz. Tenho plena confiança nele em caso de guerra.
- Assim espero,
camarada. Assim espero...
Avançando,
Gunther os deixa para trás.
Dias, semanas e
meses se passam, mas o rapaz é incapaz de perceber.
Um casal lê um jornal
no banco do parque. O marido comenta:
- Veja, querida.
Francisco Fernando, o arquiduque do Império Áustro-húngaro, foi baleado e morto
em Sarajevo. Você sabe o que isso significa?
- Não, o que é?
- Os austríacos retaliarão. Se uma invasão à Sérvia ocorrer, o Império Russo, que é aliado
dos sérvios e dos franceses, declarará guerra ao Império Austro-húngaro, que
é aliado da Alemanha, que recentemente se aliou à Itália e ao Império Otomano,
e todos eles entrarão em guerra.
A mulher se confunde.
- Meu Deus, que confusão!
Não tenho certeza se entendi.
- Não precisa. Apenas
saiba que, se isso acontecer, poderá ser a primeira grande guerra a arrastar o mundo.
- Você parece
preocupado, querido. Você disse Sérvia, não é? Não fica na região dos Bálcãs?
Não foi o próprio Bismarck que disse que “os Bálcãs inteiros não valem os ossos
de um só granadeiro da Pomerânia?”. Por que o império se aventuraria em uma
imprudente guerra com eles?
O marido sorri,
aliviado pelo comentário de sua esposa.
- Você sempre me
conforta quando eu preciso, querida. Te amo. Muito obrigado por existir.
Então os dois se
beijam e continuam lendo o jornal em paz.
Gunther avança. O
tempo passa em velocidade fenomenal. De repente, um soldado com um elmo
pontudo aparece à sua frente e, irritado, o pergunta:
- O que você está
fazendo aqui, rapaz?!
Gunther se
assusta. “Por que ele está gritando?”, intriga-se ele.
- Estou indo
encontrar alguém.
- Compareça agora
ao alistamento obrigatório! O Império Alemão está em guerra! Conscritos são necessários
no front!
- Mas eu não sou
daqui... – na verdade Gunther nasceu em Berlim, mas não sabe como explicar –
Quero dizer, eu sou daqui, mas não desse tempo.
- O quê?!
- Sim, eu não sou
desse tempo. Estou indo encontrar a minha mãe, mas só agora me ocorreu que ela
ainda não é nascida...
- Do que você
está falando?!
- Eu estou, estava, indo
encontrar alguém que ainda não nasceu. Que desatenção a minha, não é mesmo? –
sorri ele.
Sem entender nada, o soldado pergunta:
- Por acaso você é
louco?
- Não, senhor. E tampouco
sou de 1871.
- 1871?! –
intriga-se ele – Estamos em 1914, seu doido varrido! Venha, compareça ao
alistamento obrigatório agora!
- Mas, senhor...
- Eu disse
agora!
Então Gunther é
levado pelo soldado à uma viatura.
Momentos depois,
o rapaz se vê vestindo fardas prussianas e segurando um rifle com uma baioneta
em sua ponta. Há uma multidão de soldados atrás dele, rapazes jovens com semblantes
confusos e tristes por estarem ali. Um trem está a sua frente e, ao abrirem os vagões, o rapaz é irresistivelmente empurrado para dentro. Espremido para
junto deles, Gunther olha para alguém e lê o nome “Erich” em sua farda. Então ele o
pergunta:
- Para onde
estamos indo?
Erich o responde:
- Para a França.
- Para quê?
O soldado ri de
sua ingenuidade.
- Para combater
no front ocidental.
- E qual é a novidade no front?
Com olhar abatido, ele responde:
- Não há nada de
novo no front...
Então o trem se
movimenta e eles seguem viagem.
E assim o rapaz
conhece o Segundo Reich.

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