segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Tiergarten - 15 - O Segundo Reich

 


Enquanto faz seu café, Gunther ouve sons festivos vindos da monótona Berlim. Então o telefone toca.

- Alô?

- Olá, Gunther. Você não vai comemorar também?

O rapaz não compreende.

- Comemorar o quê?

Então ele ouve apenas estática.

Saindo de seu apartamento, o rapaz desce as escadas e caminha até a rua. Na saída do prédio ele é recebido por uma multidão comemorando e cantando um hino antigo. Alguém passa ao seu lado e diz:

- Viva a Alemanha! Viva a Prússia!

“Prússia?” pensa ele.

Outra pessoa grita:

- Viva o Rei Wilhelm I! – e então confete cai sobre as roupas de Gunther.

Olhando ao redor, ele vê várias faixas das cores vermelha, branca e preta pendurada nos prédios. Mas há algo estranho. O ambiente parece mudado, antigo e pitoresco, lembrando os cenários do século XIX. Abordando um homem, o rapaz pergunta:

- Com licença, o que está... – e então Gunther nota sua peculiar aparência. O homem veste paletó, sapatos e um redondo chapéu. Em seu rosto há um volumoso e pontudo bigode, típico dos antigos europeus. Ainda atônito, o rapaz conclui – Acontecendo...?    

- Você não está sabendo? Acabou de ser informado pela rádio. A França capitulou. Nós vencemos a guerra!

- Que guerra? – intriga-se ele.

- Que guerra?! – o homem ri – A Guerra Franco-Prussiana, oras!

O homem volta a comemorar pelas ruas. Caminhando ao redor, Gunther se surpreende ao ver aquela cena típica de um filme antigo. Os homens com seus chapéus e paletós, e as mulheres com seus lenços e vestidos. Carruagens e cavalos passam entre as pessoas, assustando-o. Ao olhar para a cidade, o rapaz vê que algumas construções, especialmente aquelas da república socialista, não existiam.

“Onde está a Fernsehturm?”, pergunta-se ele.

Uma senhora se aproxima e, em lágrimas, diz:

- A guerra finalmente acabou! Meu filho poderá voltar para a casa!

Ao lado dela aparece uma mulher. Ouvindo-a, ela responde:

- Meu marido também voltará. Graças a Deus!

Então as duas se abraçam e choram de alegria.

Afastando-se, o rapaz caminha pela animada multidão. Em uma avenida ele vê militares marcharem altivamente, os oficiais de alta patente sobre seus cavalos e a infantaria em passos sincronizados. A população os vê e os aplaude, jogando pétalas de rosas em seu caminho.

Gunther avista um homem com seu filho e, abordando-o, o pergunta:

- Com licença, senhor. Em que ano estamos?

Estranhando-o, o homem lhe faz um olhar desconfiado e resmunga:

- Louco...! – então ele pega seu filho e vai embora.

Algo o incomoda sob seus pés. Gunther pisava sobre um jornal amassado. Pegando-o, ele lê as manchetes. No jornal diz que em 2 de setembro de 1870 a França perdeu a chamada Batalha de Sedan. Essa derrota foi decisiva na guerra, favorecendo os prussianos e tendo inclusive a captura do Imperador Napoleão III. Todos aclamavam o brilhantismo estratégico do general Helmut von Moltke, sendo promovido a marechal de campo após a vitória.  

Após a rendição francesa, Napoleão III renuncia e a terceira república é proclamada em Paris, apenas dois dias após a derrota em Sedan. O jornal informa que, apesar da derrota, os franceses ainda resistiam aos prussianos, criando um governo provisório em Tours para organizarem a defesa da França. Paris foi sitiada em 19 de setembro de 1870, após o famoso chanceler prussiano se recusar a negociar a paz. Gunther o conhece bem: Otto von Bismarck.

- Bismarck, seu velho ardiloso... – sussurra ele.

“Todos esses eventos já haviam acontecido, então o que as pessoas estão comemorando?” pergunta-se Gunther.

Ao ver a data do jornal, o rapaz lê 19 de janeiro de 1871. Era um dia após a proclamação de Wilhelm I como o Kaiser Alemão, em 18 de janeiro. A cerimônia ocorreu na Galeria dos Espelhos, no Palácio de Versalhes em Paris.

“Bismarck escolheu o Palácio de Versalhes, lar dos antigos reis franceses, como local de coroação de um rei prussiano?!” admira-se Gunther. Apesar de já conhecer a história, era algo completamente diferente vivencia-la. O rapaz reconhece que essa era a razão da comemoração em Berlim. A Confederação da Alemanha do Norte deixava de existir e nascia o Império Alemão.  

“Ora” pensa ele, “se estamos em 1871, então ainda não existe o detestável Muro de Berlim!”. Animado, ele decide atravessar para o ocidente. “Quão patético eu sou” pensa ele, “empolgado para fazer algo que, para esses prussianos, é ridiculamente corriqueiro”.

Enquanto caminha pelas animadas ruas, um grupo de mulheres comenta à sua frente.

- Esse chanceler é lindo, não acham?

- Ora, não seja interesseira! Ele não parece gostar de plebeias!

- Acho que ele não é assim. Ele parece muito humilde e cortês com as mulheres.

- Todos os homens são corteses com as mulheres, quando eles querem você sabe o quê. Não se iluda com um nobre, minha filha!

- Eu não me importo. – comenta outra – Para mim ele é um bonitão e eu não perderia a chance se eu o conhecesse.

- E que chance você teria de tão somente conhece-lo? Creio que ele não frequente as ruas do povo, mas apenas os espaços reservados à nobreza.

Outra mulher pergunta:

- Será que ele é tão esnobe assim?

- Para mim ele é um elitista.

- Pois eu acho que ele é gentil e cavalheiro com todas as mulheres.

- Eu acho que ele é apenas educado, mas não se interessaria por mulheres plebeias como nós.

- Eu acho que ele é um arrogante e prepotente.

- Eu não acho.

- Como será que ele é pessoalmente?

Então a discussão se transforma em uma dúvida. Gunther ouve tudo e se intriga. Ele conheceu Bismarck pessoalmente, inclusive o recebeu em sua casa, mas revelar-lhes geraria desconfiança e gargalhadas. O rapaz decide se afastar.

Adiante, um grupo de homens conversa entre si.

- Quem diria, o rei Wilhelm I se tornou o kaiser de toda a Alemanha.

- Você parece ironiza-lo, meu amigo.

- E estou errado? Um rei inexpressivo e inócuo que apenas teve o mérito de nascer herdeiro do trono prussiano. O que esperar dele agora que é imperador?

- Creio que você está sendo injusto com o nosso rei. O brilhante chanceler foi nomeado por ele. Isso já é prova o bastante de sua competência.

- Bismarck é um ardiloso e egoísta! Ter dado a chancelaria a ele foi o maior desastre da Prússia!

- Como pode dizer isso?! Ele foi o responsável pelas maiores vitórias contra os poloneses, os dinamarqueses, os austríacos e agora os franceses. Creio que o kaiser Wilhelm e seu chanceler serão a ascensão da Prússia em toda a Europa!

- Você está inebriado com as vitórias militares, meu amigo. Espere até a fumaça da guerra abaixar para verem o monstro que criamos.

- O que quer dizer?

- Reinos soberanos foram rebaixados a nobres subalternos e federados. Nesse novo império alemão, insurreição é o que eu prevejo.

- O kaiser saberá resolver a política interna magistralmente. Aliás, eu tenho certeza de que sua posteridade será igualmente brilhante e guiará a Alemanha para um futuro glorioso!

Ao ouvi-lo, Gunther tem vontade de falar o quanto ele está errado.

Chegando na avenida Unter den Linden, ele avista o imponente Portão de Brandemburgo. Atravessando os altos pilares, suas pernas parecem andar mais rápido que seus passos. Então ele tem uma estrondosa surpresa. O muro não estava lá! Não havia guardas, torres, barreiras ou arame farpado, apenas a livre passagem para o desejado exterior. Sem hesitar, ele se apressa em “atravessa-lo”.   

Mas o paradoxo dimensional lhe cobrará um preço alto por isso.

O Tiergarten está a sua frente. Esquivando-se das pessoas e carruagens, ele caminha normalmente. Mas há algo errado. A cada passo o tempo-espaço se altera e, subitamente, o próprio tecido da realidade se contorce diante de seus olhos. Mas Gunther não o percebe.

No primeiro passo, um dia se passa. No segundo, uma semana. No terceiro, quarto e quinto, se vão um mês, dois meses, um ano... Sem estar chovendo, seus pés pisam em poças d’água. Sem estar nevando, seus pés pisam na neve. Sem ser outono, seus pés pisam em folhas secas. O vento sopra frio, e então quente, e então úmido...  

Emocionado, ele vê as avenidas largas e o exuberante verde do bosque à sua frente.

- Mamãe... – sussurra ele.

Lágrimas se escorrem de seus olhos. Gunther, apesar de ainda não ter chegado aos trinta, se sente uma criança sem mãe. Ela foi embora para o ocidente. O rapaz nunca conseguiu aceitar o motivo de sua partida. Como um saco de tijolos, o motivo era demais para ele suportar.

Olhando para trás, ele se lembra que Anneliese ainda vivia na parte oriental. No oeste, sua mãe que o havia deixado. No leste, seu amor que o havia rejeitado. Há amor nas duas partes e motivo para permanecer em ambas. Seu coração se divide.

O rapaz se lembra que sua mãe tem idade avançada e não quer deixa-la sozinha. “Não”, pensa ele. “Eu tenho que encontrar a minha mãe”.

Mas cada passo é um turbilhão de reviravoltas dimensionais. Gunther ama Anneliese. Como a voz no telefone disse, o amor o desestabilizaria e sua vida jamais seria a mesma.

De repente ele vê carros nas avenidas do bosque, mas aqueles não eram carros comuns. Os carros eram antigos e muito rudimentares, semelhante ao Modelo T de Henry Ford. “Para onde foram as carruagens?”, pergunta-se ele.

Caminhando pela calçada, ele vê uma guarnição de policiais conversando entre si. Um deles os pergunta:

- Vocês ouviram o pronunciamento de Bismarck no rádio?

- Sobre sua humilhante demissão expedida pelo Kaiser Wilhelm II? – brinca um deles.

“Kaiser Wilhelm II?”, intriga-se Gunther. “Mas não acabou de ser coroado o primeiro?”.

- Não, mas tem a ver com isso. O ex-chanceler está preocupado e alerta efusivamente o novo kaiser de que, se não mudar sua política externa, colocará o império no meio de dois fronts.

- O que ele quer dizer?

- Wilhelm II está imprudentemente afastando-se da Rússia e ampliando sua frota naval, ameaçando os ingleses. Se ele romper os elos diplomáticos com os russos e continuar provocando o Império Britânico, a França se juntará a essas potências e a Alemanha será estrangulada pelos dois lados.

- A Rússia uma potência...?! – ri ele – O império alemão é uma potência militar, industrial e econômica! Não precisamos temer os russos, os ingleses ou os ressentidos franceses. O kaiser tem poder para derrotar todos!

- Mas Bismarck é um inteligente estrategista. Devemos ouvir seus conselhos.

- Esse arrogante foi devidamente deposto.

- Esse arrogante é o pai do Império Alemão!

- Um pai velho que necessita de um asilo. Esqueça-o, ele não é mais útil na política. Confio no meu kaiser e não nesse “profeta da ruína”.

Dessa vez é o outro policial que ri.

- Profeta da ruína...?!

- Kaiser Wilhelm II é vigoroso e sagaz. Tenho plena confiança nele em caso de guerra.

- Assim espero, camarada. Assim espero...

Avançando, Gunther os deixa para trás.

Dias, semanas e meses se passam, mas o rapaz é incapaz de perceber.

Um casal lê um jornal no banco do parque. O marido comenta:

- Veja, querida. Francisco Fernando, o arquiduque do Império Áustro-húngaro, foi baleado e morto em Sarajevo. Você sabe o que isso significa?

- Não, o que é?

- Os austríacos retaliarão. Se uma invasão à Sérvia ocorrer, o Império Russo, que é aliado dos sérvios e dos franceses, declarará guerra ao Império Austro-húngaro, que é aliado da Alemanha, que recentemente se aliou à Itália e ao Império Otomano, e todos eles entrarão em guerra.

A mulher se confunde.

- Meu Deus, que confusão! Não tenho certeza se entendi.

- Não precisa. Apenas saiba que, se isso acontecer, poderá ser a primeira grande guerra a arrastar o mundo.

- Você parece preocupado, querido. Você disse Sérvia, não é? Não fica na região dos Bálcãs? Não foi o próprio Bismarck que disse que “os Bálcãs inteiros não valem os ossos de um só granadeiro da Pomerânia?”. Por que o império se aventuraria em uma imprudente guerra com eles?

O marido sorri, aliviado pelo comentário de sua esposa.

- Você sempre me conforta quando eu preciso, querida. Te amo. Muito obrigado por existir.

Então os dois se beijam e continuam lendo o jornal em paz.

Gunther avança. O tempo passa em velocidade fenomenal. De repente, um soldado com um elmo pontudo aparece à sua frente e, irritado, o pergunta:

- O que você está fazendo aqui, rapaz?!

Gunther se assusta. “Por que ele está gritando?”, intriga-se ele.

- Estou indo encontrar alguém.

- Compareça agora ao alistamento obrigatório! O Império Alemão está em guerra! Conscritos são necessários no front!

- Mas eu não sou daqui... – na verdade Gunther nasceu em Berlim, mas não sabe como explicar – Quero dizer, eu sou daqui, mas não desse tempo.

- O quê?!

- Sim, eu não sou desse tempo. Estou indo encontrar a minha mãe, mas só agora me ocorreu que ela ainda não é nascida...

- Do que você está falando?!

- Eu estou, estava, indo encontrar alguém que ainda não nasceu. Que desatenção a minha, não é mesmo? – sorri ele.

Sem entender nada, o soldado pergunta:

- Por acaso você é louco?

- Não, senhor. E tampouco sou de 1871.

- 1871?! – intriga-se ele – Estamos em 1914, seu doido varrido! Venha, compareça ao alistamento obrigatório agora!

- Mas, senhor...

- Eu disse agora!

Então Gunther é levado pelo soldado à uma viatura.

Momentos depois, o rapaz se vê vestindo fardas prussianas e segurando um rifle com uma baioneta em sua ponta. Há uma multidão de soldados atrás dele, rapazes jovens com semblantes confusos e tristes por estarem ali. Um trem está a sua frente e, ao abrirem os vagões, o rapaz é irresistivelmente empurrado para dentro. Espremido para junto deles, Gunther olha para alguém e lê o nome “Erich” em sua farda. Então ele o pergunta:

- Para onde estamos indo?

Erich o responde:

- Para a França.

- Para quê?

O soldado ri de sua ingenuidade.

- Para combater no front ocidental.

- E qual é a novidade no front?

Com olhar abatido, ele responde:

- Não há nada de novo no front...

Então o trem se movimenta e eles seguem viagem.

E assim o rapaz conhece o Segundo Reich.

 

 

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