sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Tiergarten - 13 - Martinho Lutero

 


Voltando tranquilamente para casa, nuvens negras se revolvem no céu e formam uma terrível tempestade. Trovões são ouvidos e raios caem violentamente do céu, atingindo o topo dos edifícios e das casas. Assustando-se, Gunther corre por sua vida.

Enquanto avança, fragmentos dos prédios caem nas ruas, ferindo-o. Mais raios atingem os objetos ao redor, estourando os cabos dos postes, estilhaçando os vidros dos carros e partindo árvores ao meio. Em pânico, o rapaz vê uma árvore inteira queimando apesar da chuva da tempestade. Desesperado, ele clama:

- Salve-me, Senhor!

A chuva se intensifica. Correndo pelas poças d’água, outro raio atinge uma luminária e dezenas de milhares de faíscas caem sobre sua cabeça. Novamente ele clama:

- Salve-me, Senhor!

Ainda correndo, suas roupas, agora toda encharcada pela chuva, se cola em seu corpo e seus movimentos tornam-se pesados. Sentindo o frio acomete-lo em seguida, seu fôlego começa a desvanecer. Então, outro raio atravessa o céu e cai à sua frente, atingindo um carro e levantando-o em uma imensa bola de fogo.

- Meu Deus! – brada ele – Tens misericórdia de mim!

Mas misericórdia era a última coisa que parecia haver. Arrastando-se aos tropeços pela devastada rua, outro raio atinge a lateral de um prédio e os fragmentos ferem suas costas, lacerando-o. Cansado e sem mais forças para prosseguir, o pobre Gunther ergue seus olhos ao impiedoso céu, dizendo:

- Senhor, se poupar minha vida eu prometo que... – nesse instante o rapaz hesita.

Gunther ia dizer que se tornaria um padre, mas ele não era católico e tampouco membro de religião alguma. Surpreso, ele se lembra que sequer acreditava em Deus. Na verdade, ele era tão indiferente à sua existência que poderia se chamar de agnóstico, mas nunca se importou muito com isso.

Olhando para o lado, ele vê a entrada de seu prédio e rapidamente corre para a escadaria. A chuva finalmente havia ficado para trás.

Parando em frente à sua porta, ele gira a maçaneta e entra. O susto é tão repentino que o grito sobe por sua garganta assim que seus olhos focalizam um homem dentro de seu apartamento.

- Quem é você?!

No meio da sala, um homem está parado de costas para ele. Suas roupas são longas e inteiramente pretas, como as de um monge. Virando-se, Gunther nota que ele está usando uma exótica boina medieval. Encarando-o, o rosto perfeitamente barbeado do homem sorri e ele responde:

- Boa tarde, meu rapaz. Que chuva, não?

Gunther olha para o sofá e vê um denso tomo no assento. Na capa ele lê, em letras góticas, o título: “O Novo Testamento”. Mais abaixo, ele lê o nome do autor.

- Martinho Lutero...?! – espanta-se ele.

- Muito prazer. – responde o monge.

Boquiaberto, o rapaz se recusa a acreditar.

- O que veio fazer aqui? 

O monge simplesmente responde:

- Esses não são os seus aposentos na Igreja do Castelo de Wittenberg?

“A famosa Wittenberg”, pensa Gunther. Uma eminente cidade na Saxônia onde Lutero ficou famoso por pregar, na porta da igreja, suas noventa e cinco teses contradizendo o papado católico.

- Não, senhor. Na verdade, essa é minha casa e estamos em Berlim.

Lutero parece não se importar com sua resposta. Ao invés, ele faz outra pergunta:

- Então é você quem tem dúvida quanto à existência de Deus?

Ao ouvi-lo, o rapaz estranha a súbita mudança de assunto, mas não sente vontade de se esconder. Ele lhe dá uma resposta direta.

- Sim.

O monge assente, parecendo refletir no assunto.

- Me parece um pouco estranho que um jovem monge não acredite em Deus.

O rapaz se surpreende.

- Não, eu não sou monge. Na verdade, eu sou... – Gunther hesita, pois sem diploma ou profissão, ele não sabe o que dizer – como diria uma recém conhecida amiga, sou um “paradoxo dimensional”.

Novamente sem se importar, Lutero continua:

- Eu já tive dúvidas acerca de Deus como você, mas nunca quanto à sua existência. Duvidei que um Deus, que se diz amoroso, fosse cruel ao ponto de criar pecadores para tão somente lança-los no fogo do inferno. Felizmente, percebi que minha angústia não se tratava de seu caráter, mas dos falsos dogmas católicos.

Lembrando-se do debate no Parque de Treptow, Gunther se empolga ao responder:

- Sim, é sobre isso que falávamos ontem, dogmas e suas consequentes tradições do Cristianismo. Falávamos da tradição do casamento, certamente. Alguns comunistas acreditam que o Cristianismo, com suas tradições e costumes, é um obstáculo à Revolução e ao comunismo. 

- Comunismo? - indaga ele.

- É um sistema utópico onde não existe governo, dinheiro, exército, polícia e, principalmente, classes. É um paraíso terreno idealizado por seu criador, o Karl Marx. Entretanto, seus defensores implantaram somente o seu estágio intermediário, um sistema ditatorial, tirânico, ganancioso e corrupto que eles chamam de socialismo.

Confuso, o monge não sabe o que é comunismo ou socialismo, mas sabe o que é tirania, ganância e corrupção. Eloquentemente, o monge pergunta:

- E você é um... como você disse... comunista?

Gunther ri.

- Não, não sou. Mas tampouco sou um capitalista, socialista, ou qualquer uma dessas porcarias que se interessam por somente uma coisa: o dinheiro.

Lutero responde rapidamente:

- Como as indulgências?

Reconhecendo a semelhança, Gunther concorda.

- Sim.

Lutero então sorri.

 

§

  

Uma hora depois, o rapaz está de roupas secas e conversa tranquilamente com o monge em sua sala. Sentados no sofá, os dois tomam chá enquanto falam.

- O casamento é sagrado, Sr. Lutero? – pergunta Gunther.

- Sim, meu jovem.

- Mas quem valida sua sacralidade? E ao valida-lo, por que o devemos também?

Sem pensar muito, o monge responde:

- As Escrituras o validam.

- A Bíblia é um livro muito antigo escrita por vários autores. Como confiar que tratam genuinamente da Palavra de Deus?

- A Bíblia trata apenas de Deus. – ressalta Lutero – Como foi nos relatos dos Dez Mandamentos, e mais tarde com a chegada do Evangelho, ambos tratam da Palavra de Deus. Acreditar em sua Palavra é acreditar em Deus. Como diz em João 1:1, “no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”.

Aflito, o rapaz não se convence.

- Se o casamento é sagrado, então por que os protestantes não o consideram um sacramento como ainda o fazem os católicos?

Lutero parece gostar de sua pergunta.

- Meu jovem, creio que os únicos sacramentos que devemos observar são o Batismo, a Eucaristia e a Penitência, mas falarei apenas dos dois primeiros. Entenda que a eles o elemento material, água, pão e vinho, são atribuídos poderes espirituais vinculados, evangelicamente, à promessa.

- Que promessa? – interessa-se Gunther.

- Arrependimento no processo de redenção, e comunhão necessária à salvação. A água do batismo, e o pão e vinho da eucaristia, se transformam. Posso afirmar que, ao nos afundarmos na água, nos lavamos no sangue do Cordeiro e, ao participarmos da Ceia, o pão torna-se carne e o vinho, sangue. Há a transformação desses elementos, não materialmente, mas espiritualmente segundo a Palavra de Deus.

Gunther ainda não se convence.

- Há semelhanças entre esses sacramentos com o casamento, pois como o senhor disse, os três tratam dessa transformação espiritual e metafísica. O próprio Jesus Cristo declarou em Marcos 10:8, “e serão os dois uma só carne; e assim já não serão dois, mas uma só carne”. 

O monge sorri em desaprovação, mas muito educadamente.

- Não meu jovem, está enganado. Por acaso o ímpio, ao casar-se, tem assegurada a sua Salvação? Ou o justo, batizado e comungado, consegue mantê-la casando-se em prostituição ou adultério?

O rapaz não compreende.

- Eu não entendi.

- O batismo, mediante arrependimento, e a ceia, mediante comunhão, são obrigatórias à Salvação. Mas o casamento não. Podemos ser salvos se mantivermos um voto celibatário, como o fazem os monges, mas não podemos apenas nos casando. – sorri ele – Portanto, considero apenas o Batismo, a Eucaristia e a Penitência sacramentos, mas não o casamento.

Gunther reflete a respeito. Mesmo o monge Lutero se casou no passado. Diz a História que ele ajudou doze freiras a escaparem do cativeiro no Convento de Nimbschen, vindo a casar-se com uma delas, Catarina von Bora, com a qual teve seis filhos. Lutero, quebrando seu voto com a ordem agostiniana, e Catarina, quebrando seu voto com a ordem beneditina, marcaram seu rompimento definitivo com a Igreja Católica.

Atribulado, o rapaz pergunta:

- Por que se casou, sr. Lutero?

O monge percebe que o rapaz não se contentará com uma resposta sentimental e romântica como “por amor”.

- O apóstolo Paulo, em sua carta aos convertidos de Corinto, os exorta a serem solteiros como ele próprio para que pudessem se dedicar inteiramente ao Reino de Deus. Foi uma permissão, ou sugestão se preferir. Como ele mesmo disse, “digo-vos isto como que por permissão, não por mandamento ”.

Lutero cita a passagem de 1 Coríntios 7:6. Gunther reconhece que, de fato, se tratava apenas de uma sugestão. Entretanto, também considera muito válido os monges fazerem votos celibatários, como parte da exigência das ordens monásticas. Afinal, como o próprio Paulo disse, o celibato é uma preferência maior do que a do casamento.

Ainda refletindo no assunto, o rapaz reconhece que Lutero, ao casar-se, não o fez apenas por amor, mas por um ato político. Em um período tão conturbado como aquele, quando não havia separação da Igreja e do Estado, um monge casar-se não era apenas um escândalo, mas uma afronta à Igreja e um prelúdio à Revolução.

“Revolução!”, pensa Gunther. Lutero era um revolucionário ao seu tempo. Quão irônica a Humanidade era. Nos tempos de Lutero eles lutavam pela separação da Igreja e do Estado. Hoje, em um sistema totalitariamente ateísta, os cristãos lutam novamente para recuperarem sua liberdade religiosa e política. Confuso, o rapaz pondera. Seria a religião realmente o ópio do povo, com disse Karl Marx, ou o materialismo dialético, o “culto à razão” como diriam os franceses, o inferno na Terra segundo os cristãos?

“Não, não é isso”, pondera Gunther. “Não se trata de religiões, monarquias, impérios ou socialismo. A humanidade lutou e sempre lutará contra a tirania e a opressão, não importa sua bandeira. Como eu pude ser tão cego?”, lamenta-se ele.

- No que está pensando, meu jovem?

O monge quebra sua distração. Gunther olha para ele e pergunta:

- O senhor concorda com a separação da Igreja e do Estado?

- Separação da Igreja e do Estado? – intriga-se ele.

Gunther entende que os termos eram um pouco diferentes no tempo de Lutero.

- Quis dizer se o senhor concorda que a monarquia deve se sujeitar à autoridade do Papa.

- Nunca! – exclama ele, assustando o rapaz – Não apenas os monarcas, mas a plebe, a nobreza e o próprio Papa devem se sujeitar apenas a Cristo.

- Mas o senhor defendeu a separação desses poderes, inclusive exigindo o reconhecimento do governo secular.

Respirando fundo, Lutero responde:

- Meu jovem, entenda que eu combatia a falsa doutrina da indulgência. Eu nunca quis que houvesse uma divisão e, consequentemente, rompimento com a Igreja Católica. Eu intentei a Reforma, e não a separação. Entretanto, muitas das minhas propostas, que originalmente visavam acabar com os abusos eclesiásticos, coincidiram com os interesses da nobreza alemã, que há muito encontrava-se revoltada com a exigência de ter de enviar suas riquezas à Roma.

- Está me dizendo que a causa da Reforma foi a venda de indulgências?  

- Não exatamente. – responde ele – Minha indignação se deveu ao fato das indulgências não conterem sustentação bíblica. O Papa, intentando expandir a Basílica de Roma, procurou extorquir o dinheiro dos fiéis, dos quais eram majoritariamente pobres. Eu decididamente denunciei isso.

Ao que lhe parece, Lutero criticou as riquezas de Roma, dizendo que elas deveriam permanecer com os fiéis, e não com os opulentos clérigos romanos.

Pesaroso, o rapaz reconhece que a Reforma teve interesses não apenas doutrinários, mas financeiros. “A riqueza”, pensa ele. “A mesma riqueza, sem face e nacionalidade, que inflamou revoltas, rebeliões e revoluções pelo mundo”. “Como a revolução socialista”, pensa o rapaz. Ao contrário dos protestantes, que se revoltaram com a riqueza papal, os socialistas se revoltaram com a riqueza czarista. Ou os franceses, revoltados com as riquezas monárquica e eclesiástica ao mesmo tempo.

Pensando mais a fundo, Gunther se lembra que inclusive os americanos protestaram o aumento contínuo dos impostos, rebelando-se contra os ingleses e clamando, consequentemente, pela Revolução.

“Sempre está envolvida a riqueza”, pensa Gunther. “Ou como dizem atualmente, o dinheiro”.

- O senhor protegeu as riquezas do povo e da nobreza alemã. – afirma Gunther.

O monge meneia negativamente a cabeça.

- O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus.

Lutero cita a sexagésima segunda de suas noventa e cinco teses. As teses foram decisivas para a Reforma, pois desafiaram abertamente o poder da Igreja Católica. O rapaz, então, pergunta:

- O senhor tinha noção que, ao desafiar a autoridade papal, estava inflamando uma Revolução?

Lutero parece se lamentar.

- Nunca quis que chegasse tão longe. Eu queria uma reforma dentro da Igreja Católica. O que aconteceu foi uma guerra entre os camponeses e os príncipes, gerando um banho de sangue por toda a Alemanha. Os príncipes cometiam injustiças e tiranias, e os camponeses se aproveitaram dos meus discursos para se rebelarem contra seus senhores. Na Turíngia pude ver a terrível violência. Entre os camponeses haviam bandidos, ladrões e assassinos, o que me fez escrever contra essas hordas. Infelizmente fui mal compreendido, pois os verdadeiramente injustiçados e oprimidos se sentiram traídos por mim. Meu Deus – suspira ele –, que época terrível...

Enquanto o monge se lamenta, Gunther pensa nas consequências políticas da Reforma. Os nobres, revoltados com os abusos de Roma, abandonaram os ideais reformadores para adotar uma postura mais protestante. Isso ficou explícito no evento histórico conhecido como a Confissão de Augsburgo em 1530.

Mas as controvérsias eram características de Martinho Lutero. Além de criticar o catolicismo, ele também atacou ferozmente os judeus. Ele escreveu o infame “Sobre os Judeus e suas Mentiras”, um livro que incentivava a desapropriação, saque e expulsão dos judeus da Alemanha. Quanto aos judeus, Lutero foi ao extremo de incentivar a sua morte.

 Gunther diz:

- O senhor é considerado um antissemita pelo mundo. Na verdade, os católicos o acusam de ser um dos causadores do nazismo, que Adolf Hitler era a conclusão da Reforma e que o Protestantismo foi o responsável pela ascensão do Terceiro Reich.     

Parecendo não escutar as terríveis acusações contra sua pessoa, o monge se surpreende.  

- Terceiro Reich?! - pergunta ele - Houveram três reichs?

Então o próprio rapaz se surpreende. Lutero morreu em 1546, no início da Idade Moderna. Confuso, Gunther não sabe o que responder.

- Sim... apesar de apenas o último ser conhecido devido ao nazifascismo de Hitler.

O monge não faz ideia do que ele está falando.

- E como era... – pergunta ele, timidamente – a vida nesse “terceiro reich”?

Gunther percebe que seria algo chocante, mas ao mesmo tempo fascinante e complexo para um homem do século XVI entender.

- Porque, se houve um terceiro reich, deve ter havido um segundo e um primeiro, não é mesmo? - sorri Lutero.

Eu... – de repente o telefone toca em seu quarto.

- O que é isso? – pergunta o monge, virando-se assustado para trás.

- É um aparelho de telefone. Venha, vou mostra-lo ao senhor.

Levantando-se, o rapaz caminha até seu quarto para atendê-lo. Lutero vai atrás dele, curioso para ver.

Ao atende-lo, Gunther não diz “alô”, ao invés ele diz:

- Com esse aparelho, podemos falar com as pessoas em qualquer... – então ele olha para trás e se espanta. Lutero havia desaparecido – lugar...

Deixando o receptor sobre a mesa, ele caminha de volta à sala.

- Sr. Lutero...?

Mas o apartamento estava completamente vazio. O rapaz se confunde. Enquanto está parado ali, ele ouve apenas o som da chuva batendo continuamente contra a janela. Então ele se lembra do telefone.

Voltando ao quarto, ele pega o receptor e finalmente responde:

- Alô?

A voz de mulher diz:

- Vá dormir, Gunther. E sonhe.

Então o rapaz, sentindo um sono pesado acomete-lo, cai em sua cama, adormecendo imediatamente em seguida.

 

 

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