Voltando
tranquilamente para casa, nuvens negras se revolvem no céu e formam uma
terrível tempestade. Trovões são ouvidos e raios caem violentamente do céu, atingindo
o topo dos edifícios e das casas. Assustando-se, Gunther corre por sua vida.
Enquanto
avança, fragmentos dos prédios caem nas ruas, ferindo-o. Mais raios atingem os
objetos ao redor, estourando os cabos dos postes, estilhaçando os vidros dos
carros e partindo árvores ao meio. Em pânico, o rapaz vê uma árvore inteira
queimando apesar da chuva da tempestade. Desesperado, ele clama:
-
Salve-me, Senhor!
A chuva
se intensifica. Correndo pelas poças d’água, outro raio atinge uma luminária e
dezenas de milhares de faíscas caem sobre sua cabeça. Novamente ele clama:
-
Salve-me, Senhor!
Ainda
correndo, suas roupas, agora toda encharcada pela chuva, se cola em seu corpo e
seus movimentos tornam-se pesados. Sentindo o frio acomete-lo em seguida, seu
fôlego começa a desvanecer. Então, outro raio atravessa o céu e cai à sua
frente, atingindo um carro e levantando-o em uma imensa bola de fogo.
- Meu
Deus! – brada ele – Tens misericórdia de mim!
Mas
misericórdia era a última coisa que parecia haver. Arrastando-se aos tropeços
pela devastada rua, outro raio atinge a lateral de um prédio e os fragmentos
ferem suas costas, lacerando-o. Cansado e sem mais forças para prosseguir, o
pobre Gunther ergue seus olhos ao impiedoso céu, dizendo:
-
Senhor, se poupar minha vida eu prometo que... – nesse instante o rapaz hesita.
Gunther
ia dizer que se tornaria um padre, mas ele não era católico e tampouco membro
de religião alguma. Surpreso, ele se lembra que sequer acreditava em Deus. Na verdade,
ele era tão indiferente à sua existência que poderia se chamar de agnóstico,
mas nunca se importou muito com isso.
Olhando
para o lado, ele vê a entrada de seu prédio e rapidamente corre para a
escadaria. A chuva finalmente havia ficado para trás.
Parando
em frente à sua porta, ele gira a maçaneta e entra. O susto é tão repentino que
o grito sobe por sua garganta assim que seus olhos focalizam um homem dentro de
seu apartamento.
- Quem é
você?!
No meio
da sala, um homem está parado de costas para ele. Suas roupas são longas e
inteiramente pretas, como as de um monge. Virando-se, Gunther nota que ele está
usando uma exótica boina medieval. Encarando-o, o rosto perfeitamente barbeado
do homem sorri e ele responde:
- Boa
tarde, meu rapaz. Que chuva, não?
Gunther
olha para o sofá e vê um denso tomo no assento. Na capa ele lê, em letras
góticas, o título: “O Novo Testamento”. Mais abaixo, ele lê o nome do autor.
-
Martinho Lutero...?! – espanta-se ele.
- Muito
prazer. – responde o monge.
Boquiaberto,
o rapaz se recusa a acreditar.
- O que
veio fazer aqui?
O monge
simplesmente responde:
- Esses
não são os seus aposentos na Igreja do Castelo de Wittenberg?
“A
famosa Wittenberg”, pensa Gunther. Uma eminente cidade na Saxônia onde Lutero
ficou famoso por pregar, na porta da igreja, suas noventa e cinco teses
contradizendo o papado católico.
- Não,
senhor. Na verdade, essa é minha casa e estamos em Berlim.
Lutero
parece não se importar com sua resposta. Ao invés, ele faz outra pergunta:
- Então
é você quem tem dúvida quanto à existência de Deus?
Ao
ouvi-lo, o rapaz estranha a súbita mudança de assunto, mas não sente vontade de
se esconder. Ele lhe dá uma resposta direta.
- Sim.
O monge
assente, parecendo refletir no assunto.
- Me
parece um pouco estranho que um jovem monge não acredite em Deus.
O rapaz
se surpreende.
- Não,
eu não sou monge. Na verdade, eu sou... – Gunther hesita, pois sem diploma ou
profissão, ele não sabe o que dizer – como diria uma recém conhecida amiga, sou
um “paradoxo dimensional”.
Novamente
sem se importar, Lutero continua:
- Eu já
tive dúvidas acerca de Deus como você, mas nunca quanto à sua existência.
Duvidei que um Deus, que se diz amoroso, fosse cruel ao ponto de criar
pecadores para tão somente lança-los no fogo do inferno. Felizmente, percebi
que minha angústia não se tratava de seu caráter, mas dos falsos dogmas católicos.
Lembrando-se
do debate no Parque de Treptow, Gunther se empolga ao responder:
- Sim, é
sobre isso que falávamos ontem, dogmas e suas consequentes tradições do
Cristianismo. Falávamos da tradição do casamento, certamente. Alguns comunistas acreditam
que o Cristianismo, com suas tradições e costumes, é um obstáculo à Revolução e ao comunismo.
-
Comunismo? - indaga ele.
- É um
sistema utópico onde não existe governo, dinheiro, exército, polícia e,
principalmente, classes. É um paraíso terreno idealizado por seu criador, o
Karl Marx. Entretanto, seus defensores implantaram somente o seu estágio
intermediário, um sistema ditatorial, tirânico, ganancioso e corrupto que eles
chamam de socialismo.
Confuso,
o monge não sabe o que é comunismo ou socialismo, mas sabe o que é tirania,
ganância e corrupção. Eloquentemente, o monge pergunta:
- E você
é um... como você disse... comunista?
Gunther
ri.
- Não,
não sou. Mas tampouco sou um capitalista, socialista, ou qualquer uma dessas
porcarias que se interessam por somente uma coisa: o dinheiro.
Lutero
responde rapidamente:
- Como as
indulgências?
Reconhecendo
a semelhança, Gunther concorda.
- Sim.
Lutero
então sorri.
§
Uma hora
depois, o rapaz está de roupas secas e conversa tranquilamente com o monge em
sua sala. Sentados no sofá, os dois tomam chá enquanto falam.
- O
casamento é sagrado, Sr. Lutero? – pergunta Gunther.
- Sim,
meu jovem.
- Mas
quem valida sua sacralidade? E ao valida-lo, por que o devemos também?
Sem pensar
muito, o monge responde:
- As
Escrituras o validam.
- A
Bíblia é um livro muito antigo escrita por vários autores. Como confiar que
tratam genuinamente da Palavra de Deus?
- A
Bíblia trata apenas de Deus. – ressalta Lutero – Como foi nos relatos dos Dez
Mandamentos, e mais tarde com a chegada do Evangelho, ambos tratam da Palavra
de Deus. Acreditar em sua Palavra é acreditar em Deus. Como diz em João 1:1,
“no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”.
Aflito, o rapaz não se convence.
- Se o
casamento é sagrado, então por que os protestantes não o consideram um
sacramento como ainda o fazem os católicos?
Lutero
parece gostar de sua pergunta.
- Meu
jovem, creio que os únicos sacramentos que devemos observar são o Batismo, a
Eucaristia e a Penitência, mas falarei apenas dos dois primeiros. Entenda que a
eles o elemento material, água, pão e vinho, são atribuídos poderes espirituais
vinculados, evangelicamente, à promessa.
- Que
promessa? – interessa-se Gunther.
- Arrependimento
no processo de redenção, e comunhão necessária à salvação. A água do batismo, e
o pão e vinho da eucaristia, se transformam. Posso afirmar que, ao nos
afundarmos na água, nos lavamos no sangue do Cordeiro e, ao participarmos da
Ceia, o pão torna-se carne e o vinho, sangue. Há a transformação desses
elementos, não materialmente, mas espiritualmente segundo a Palavra de Deus.
Gunther ainda
não se convence.
- Há
semelhanças entre esses sacramentos com o casamento, pois como o senhor disse, os três tratam dessa
transformação espiritual e metafísica. O próprio Jesus
Cristo declarou em Marcos 10:8, “e serão os dois uma só carne; e assim já não
serão dois, mas uma só carne”.
O monge
sorri em desaprovação, mas muito educadamente.
- Não
meu jovem, está enganado. Por acaso o ímpio, ao casar-se, tem assegurada a sua
Salvação? Ou o justo, batizado e comungado, consegue mantê-la casando-se em
prostituição ou adultério?
O rapaz
não compreende.
- Eu não
entendi.
- O
batismo, mediante arrependimento, e a ceia, mediante comunhão, são obrigatórias
à Salvação. Mas o casamento não. Podemos ser salvos se mantivermos um voto
celibatário, como o fazem os monges, mas não podemos apenas nos casando. – sorri
ele – Portanto, considero apenas o Batismo, a Eucaristia e a Penitência sacramentos,
mas não o casamento.
Gunther
reflete a respeito. Mesmo o monge Lutero se casou no passado. Diz a História
que ele ajudou doze freiras a escaparem do cativeiro no Convento de Nimbschen,
vindo a casar-se com uma delas, Catarina von Bora, com a qual teve seis filhos.
Lutero, quebrando seu voto com a ordem agostiniana, e Catarina, quebrando seu
voto com a ordem beneditina, marcaram seu rompimento definitivo com a Igreja
Católica.
Atribulado,
o rapaz pergunta:
- Por
que se casou, sr. Lutero?
O monge percebe que o rapaz não se contentará com uma resposta sentimental e romântica como “por amor”.
- O
apóstolo Paulo, em sua carta aos convertidos de Corinto, os exorta a serem
solteiros como ele próprio para que pudessem se dedicar inteiramente ao Reino
de Deus. Foi uma permissão, ou sugestão se preferir. Como ele mesmo disse,
“digo-vos isto como que por permissão, não por mandamento ”.
Lutero
cita a passagem de 1 Coríntios 7:6. Gunther reconhece que, de fato, se tratava
apenas de uma sugestão. Entretanto, também considera muito válido os monges
fazerem votos celibatários, como parte da exigência das ordens monásticas.
Afinal, como o próprio Paulo disse, o celibato é uma preferência maior do que a
do casamento.
Ainda
refletindo no assunto, o rapaz reconhece que Lutero, ao casar-se, não o fez
apenas por amor, mas por um ato político. Em um período tão conturbado como
aquele, quando não havia separação da Igreja e do Estado, um monge casar-se não
era apenas um escândalo, mas uma afronta à Igreja e um prelúdio à Revolução.
“Revolução!”,
pensa Gunther. Lutero era um revolucionário ao seu tempo. Quão irônica a
Humanidade era. Nos tempos de Lutero eles lutavam pela separação da Igreja e do
Estado. Hoje, em um sistema totalitariamente ateísta, os cristãos lutam
novamente para recuperarem sua liberdade religiosa e política. Confuso, o rapaz
pondera. Seria a religião realmente o ópio do povo, com disse Karl Marx, ou o
materialismo dialético, o “culto à razão” como diriam os franceses, o inferno
na Terra segundo os cristãos?
“Não,
não é isso”, pondera Gunther. “Não se trata de religiões, monarquias, impérios
ou socialismo. A humanidade lutou e sempre lutará contra a tirania e a opressão,
não importa sua bandeira. Como eu pude ser tão cego?”, lamenta-se ele.
- No que
está pensando, meu jovem?
O monge
quebra sua distração. Gunther olha para ele e pergunta:
- O
senhor concorda com a separação da Igreja e do Estado?
- Separação
da Igreja e do Estado? – intriga-se ele.
Gunther entende
que os termos eram um pouco diferentes no tempo de Lutero.
- Quis
dizer se o senhor concorda que a monarquia deve se sujeitar à autoridade do Papa.
- Nunca!
– exclama ele, assustando o rapaz – Não apenas os monarcas, mas a plebe, a
nobreza e o próprio Papa devem se sujeitar apenas a Cristo.
- Mas o
senhor defendeu a separação desses poderes, inclusive exigindo o reconhecimento
do governo secular.
Respirando
fundo, Lutero responde:
- Meu
jovem, entenda que eu combatia a falsa doutrina da indulgência. Eu nunca quis
que houvesse uma divisão e, consequentemente, rompimento com a Igreja Católica.
Eu intentei a Reforma, e não a separação. Entretanto, muitas das minhas propostas,
que originalmente visavam acabar com os abusos eclesiásticos, coincidiram com
os interesses da nobreza alemã, que há muito encontrava-se revoltada com a exigência
de ter de enviar suas riquezas à Roma.
- Está
me dizendo que a causa da Reforma foi a venda de indulgências?
- Não
exatamente. – responde ele – Minha indignação se deveu ao fato das indulgências
não conterem sustentação bíblica. O Papa, intentando expandir a Basílica de Roma,
procurou extorquir o dinheiro dos fiéis, dos quais eram majoritariamente pobres.
Eu decididamente denunciei isso.
Ao que
lhe parece, Lutero criticou as riquezas de Roma, dizendo que elas deveriam
permanecer com os fiéis, e não com os opulentos clérigos romanos.
Pesaroso,
o rapaz reconhece que a Reforma teve interesses não apenas doutrinários, mas
financeiros. “A riqueza”, pensa ele. “A mesma riqueza, sem face e
nacionalidade, que inflamou revoltas, rebeliões e revoluções pelo mundo”. “Como
a revolução socialista”, pensa o rapaz. Ao contrário dos protestantes, que se
revoltaram com a riqueza papal, os socialistas se revoltaram com a riqueza
czarista. Ou os franceses, revoltados com as riquezas monárquica e eclesiástica
ao mesmo tempo.
Pensando
mais a fundo, Gunther se lembra que inclusive os americanos protestaram o aumento
contínuo dos impostos, rebelando-se contra os ingleses e clamando, consequentemente,
pela Revolução.
“Sempre está
envolvida a riqueza”, pensa Gunther. “Ou como dizem atualmente, o dinheiro”.
- O senhor
protegeu as riquezas do povo e da nobreza alemã. – afirma Gunther.
O monge
meneia negativamente a cabeça.
- O
verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de
Deus.
Lutero cita
a sexagésima segunda de suas noventa e cinco teses. As teses foram decisivas
para a Reforma, pois desafiaram abertamente o poder da Igreja Católica. O rapaz,
então, pergunta:
- O
senhor tinha noção que, ao desafiar a autoridade papal, estava inflamando uma Revolução?
Lutero parece
se lamentar.
- Nunca
quis que chegasse tão longe. Eu queria uma reforma dentro da Igreja Católica. O
que aconteceu foi uma guerra entre os camponeses e os príncipes, gerando um
banho de sangue por toda a Alemanha. Os príncipes cometiam injustiças e tiranias,
e os camponeses se aproveitaram dos meus discursos para se rebelarem contra
seus senhores. Na Turíngia pude ver a terrível violência. Entre os camponeses
haviam bandidos, ladrões e assassinos, o que me fez escrever contra essas hordas.
Infelizmente fui mal compreendido, pois os verdadeiramente injustiçados e oprimidos
se sentiram traídos por mim. Meu Deus – suspira ele –, que época terrível...
Enquanto
o monge se lamenta, Gunther pensa nas consequências políticas da Reforma. Os nobres,
revoltados com os abusos de Roma, abandonaram os ideais reformadores para
adotar uma postura mais protestante. Isso ficou explícito no evento histórico conhecido
como a Confissão de Augsburgo em 1530.
Mas as controvérsias
eram características de Martinho Lutero. Além de criticar o catolicismo, ele
também atacou ferozmente os judeus. Ele escreveu o infame “Sobre os Judeus e
suas Mentiras”, um livro que incentivava a desapropriação, saque e expulsão dos
judeus da Alemanha. Quanto aos judeus, Lutero foi ao extremo de incentivar a sua
morte.
Gunther diz:
- O
senhor é considerado um antissemita pelo mundo. Na verdade, os católicos o
acusam de ser um dos causadores do nazismo, que Adolf Hitler era a conclusão da
Reforma e que o Protestantismo foi o responsável pela ascensão do Terceiro
Reich.
Parecendo
não escutar as terríveis acusações contra sua pessoa, o monge se surpreende.
- Terceiro
Reich?! - pergunta ele - Houveram três reichs?
Então o próprio
rapaz se surpreende. Lutero morreu em 1546, no início da Idade Moderna. Confuso,
Gunther não sabe o que responder.
- Sim...
apesar de apenas o último ser conhecido devido ao nazifascismo de Hitler.
O monge não
faz ideia do que ele está falando.
- E como
era... – pergunta ele, timidamente – a vida nesse “terceiro reich”?
Gunther percebe
que seria algo chocante, mas ao mesmo tempo fascinante e complexo para um
homem do século XVI entender.
- Porque, se houve um terceiro reich, deve ter havido um segundo e um primeiro, não é mesmo? - sorri Lutero.
Eu... –
de repente o telefone toca em seu quarto.
- O que
é isso? – pergunta o monge, virando-se assustado para trás.
- É um
aparelho de telefone. Venha, vou mostra-lo ao senhor.
Levantando-se,
o rapaz caminha até seu quarto para atendê-lo. Lutero vai atrás dele, curioso
para ver.
Ao atende-lo,
Gunther não diz “alô”, ao invés ele diz:
- Com
esse aparelho, podemos falar com as pessoas em qualquer... – então ele olha para
trás e se espanta. Lutero havia desaparecido – lugar...
Deixando
o receptor sobre a mesa, ele caminha de volta à sala.
- Sr.
Lutero...?
Mas o apartamento
estava completamente vazio. O rapaz se confunde. Enquanto está parado ali, ele
ouve apenas o som da chuva batendo continuamente contra a janela. Então ele se
lembra do telefone.
Voltando
ao quarto, ele pega o receptor e finalmente responde:
- Alô?
A voz de
mulher diz:
- Vá
dormir, Gunther. E sonhe.
Então o
rapaz, sentindo um sono pesado acomete-lo, cai em sua cama, adormecendo
imediatamente em seguida.

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