segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Sonata - 55 - Demiurgo

 


(Artista Desconhecido)


Voando com suas aeronaves, os puristas se aproximam da corporação Cellgenesis. Mirando a entrada do prédio, eles apontam seus mísseis e atiram.

A manifestação está em andamento. Os cidadãos depredam a fachada, picham as portas e atiram bombas nos policiais. De repente tudo se explode violentamente, levantando uma onda de chamas e lançando-os pelos ares. A entrada do prédio está toda destruída, tendo suas portas pulverizadas pela explosão.

Em meio a fumaça negra e aos corpos pelo chão, os sobreviventes enegrecidos pelas chamas olham ao redor, confusos com o que aconteceu. Acima, aeronaves da Resistência Purista voam em formação pelo céu.

Um piloto da aeronave diz:

- Solicitando permissão para lançamento, senhor.

Uma voz em seu comunicador responde:

- Lançamento permitido.

As comportas se abrem e dezenas de bombas são liberadas, caindo sistematicamente sobre o edifício corporativo.

Sob o som de assovios, os sobreviventes veem objetos metálicos caindo em sua direção. De repente as bombas se explodem e devastam o terraço da Cellgenesis, fulminando o telhado e os canhões em seu topo. Nas plataformas, centenas de manifestantes e policiais morrem atingidos pelo raio devastador das explosões. Para os cidadãos, uma perda trágica; para a facção, um efeito colateral do bombardeio.

Em um ataque coordenado, as tropas avançam pelas plataformas até a entrada do prédio. Os androides Advance marcham com enormes armas em seus braços, pisoteando os manifestantes e policiais caídos no chão. Das janelas, alguns policiais ainda tentam proteger o prédio, mas são desintegrados pelos lasers dos androides.          

No interior, as equipes se dividem. Laura desligou os sistemas de segurança, mas alguns ainda estavam ligados em outras áreas. Metralhadoras de teto e bots impõem certa resistência, mas são logo neutralizados pelo consistente avanço purista. Escritórios, salas de reunião e corredores, tudo é detalhadamente checado pelos invasores, pacificando o interior do edifício.

Os puristas sobem as escadas e continuam até o final. Eles se surpreendem ao ver o último andar; ele estava em chamas e fora esmagado pelo mesmo teto onde os policiais estavam minutos atrás. Tudo foi destruído. Se ali estava a sala da direção, ela foi certamente destruída pelo bombardeio purista.

Com a parte superior do prédio pacificada, os invasores se dirigem aos elevadores de acesso ao laboratório. Os canhões antiaéreos ainda atiravam pelo distrito, mas não havia tempo a perder.

As equipes se dividem, seguindo para os elevadores e para as escadas. O acesso ao laboratório era altamente restrito, mas a runner conseguiu libera-lo. A primeira equipe desce pelo elevador e as demais utilizam as escadas. No final da descida, as equipes se reagrupam no saguão do laboratório. Atentas e com armas em mãos, o grupo avança ao lado de uma alta parede branca. De repente algo irrompe através da parede, levantando uma nuvem de poeira com o estrondo. Revirando-se no entulho, duas pessoas erguem suas armas e atiram desesperadamente na abertura.

Os puristas se assustam. Eles reconhecem aqueles dois, eram Nasier e Laura. O coronel diz:

- Senhor Nasier! – espanta-se ele – O que é que está havendo?!

Os dois se levantam e passam rapidamente por eles. O líder apenas diz:

- Fujam!

Os puristas se entreolham, confusos. Atrás de si eles ouvem sons de passos sobre o entulho. Uma figura elevada surge através da poeira e então eles contemplam o bizarro androide, alto e desforme, revelar-se diante de seus olhos.

O gigante tem pele cinzenta e sem pelos, como se estivesse morto. Bolhas surgem e se estouram em sua pele, espalhando um pus azul. Eles viam enormes garras em sua mão esquerda e seu braço direito estava mutilado, presumivelmente devido ao combate com a runner e o líder. Então algo espantoso acontece.

Bolhas se estouram sobre a ferida, estancando o sangramento e criando um novo tecido orgânico. Após alguns segundos, um novo braço havia se formado, regenerando o antigo membro. Perplexos, os puristas se paralisam.

De repente o monstro avança contra eles, rasgando e mutilando-os com seus golpes. Sangue jorra por toda parte, espirrando-se contra o chão e as paredes. Assustando-se, o coronel exclama:

- Abram fogo!

As equipes atiram, descarregando suas cargas lasers. O calor queima a pele do monstro, liberando um cheiro horrível enquanto o despedaça. Ele cambaleia e, incapaz de resistir, tomba perante os puristas. Eles recarregam suas armas e se aliviam, o monstro fora derrotado.

Haviam muitos soldados feridos no chão. Alguns sobreviveram, mas muitos estavam mortos com cortes vertiginosos em seu corpos. Verificando os ferimentos, o coronel via um corte afiado e limpo, semelhante ao golpe de espadas. Ele também constata que foram golpes poderosos, pois atravessaram a armadura como se ela fosse de papel. Com a quantidade tremenda de baixas, ele se lamenta.   

Ocupados socorrendo os feridos, os puristas se preparam para leva-los a um local seguro. Eles se distraem, dando as costas ao monstro. Então, após alguns minutos, seus músculos começam a se mover.

Bolhas se estouram e regeneram sua pele queimada. Os buracos se fecham e o pus deixa de escorrer pelas feridas. Em pequenos espasmos, o monstro reage e abre os olhos, voltando à vida.

- Levem os mais feridos pelo elevador! Os que conseguem andar, levem pelas escadas!

Enquanto ordena seus homens, o coronel se distrai. De repente uma mão atravessa suas costas e sai pelo seu tórax. Seu grito esganiçado os assusta, chamando-lhes a atenção. Espantados, os puristas assistem o coronel ser levantado no ar pelo poderoso braço em seu corpo. Seus olhos se arregalam.

Apavorados, eles correm para as saídas, abandonando os feridos e pisoteando-os.

Nos andares acima, Nasier e Laura encontram as equipes responsáveis por pacificarem o prédio. O líder ordena:

- Preciso que fiquem aqui e não deixem nada subir pelas escadas ou pelo elevador, entenderam?

Os puristas veem seu líder todo ferido e com as roupas rasgadas. Preocupados, eles perguntam:

- Algum problema, senhor? O que aconteceu?

Nesse momento, a runner o encara. Dependendo do que ele responder, aqueles fanáticos tentarão matá-la.

- Apenas fiquem aqui e guardem essa posição, está bem? Façam embarricadas se necessário, mas não deixem nada subir!

- Mas e quanto as equipes lá embaixo? – pergunta alguém.

- Estão mortos. – responde ele, dando as costas em seguida.

Caminhando pelo prédio, o líder pega seu comunicador e diz:

- Atenção, frota de aeronaves! Nasier na escuta, respondam!

Alguns segundos depois, o capitão da frota diz:

"Pode falar, senhor Nasier!".

- Preciso de aeronaves de extração no prédio da Cellgenesis agora!

"Negativo, senhor! Estamos ocupados neutralizando os canhões!".

Irritado, ele ordena:

- Abortar a missão! Venham para a Cellgenesis imediatamente!

O piloto se confunde.

"Eu... – ele hesita por um segundo – Entendido, senhor! Devo chamar toda a frota para a sua posição?".

Enxugando o suor de sua testa, o líder fala para si mesmo:

- Não precisaremos de tanto...

"O que disse, senhor?".

- Traga metade! As demais fiquem próximas e atentas. Quando extrairmos todos os soldados, se preparem para deixar o distrito, entenderam?

"Entendido!".

Então o líder se senta em uma cadeira e agoniza, sentindo dor.

Afastando-se, Laura caminha até uma varanda e olha para o distrito. Apesar do evidente avanço purista, a polícia não estava inteiramente derrotada. O espaço aéreo e os terraços ainda eram perigosos. Olhando para baixo, só lhe restava a escuridão da superfície. A garota se apoia e planeja como vai fugir.

- Você realmente é arredia como dizem.

Acompanhado de dez soldados, Nasier falava com ela. A runner revira os olhos de tédio.

- O que quer de mim, Nasier? A Cellgenesis foi tomada. Acabou.

O líder ri.

- O que eu quero? Por acaso pensa que eu sou estúpido? – pergunta ele – Há um androide sanguinário se regenerando lá embaixo. A batalha ainda não acabou.

Ele se referia ao Demiurgo.

- Isso não é problema meu.

- Mas o que você tem em sua bolsa é. Agora seja uma boa menina e me dê o que me pertence. 

Respirando fundo, a garota acata. Ela abre sua bolsa e tira o decodificador.

- Se eu te der você vai manter sua palavra?

Laura esperava que, ao cumprir sua parte no acordo, Nasier a deixasse em paz. Ele novamente ri.

- É claro que sim. Aliás, quem não tem palavra aqui é você. Se esqueceu que, agora há pouco, você tentou abandonar a missão?

A garota não responde, permanecendo séria. Ela não é nenhuma idiota. No distrito haviam centenas de puristas; Laura sabe que, assim que o líder tivesse o que queria, ela não seria mais necessária, podendo ele ordenar a sua execução. A garota hesita.

- O que está esperando? – pergunta ele – Passe esse decodificador para cá!

O clima fica tenso. Os soldados pareciam esperar o momento certo para apontarem suas armas e estraçalha-la com as balas.

Então algo acontece.

Uma explosão é ouvida lá dentro. Virando-se, os soldados vão averiguar. Laura aproveita para deixar o prédio, mas o líder a interrompe novamente.

- Você vem comigo, querida.

Aproximando-se, os puristas se estarrecem ao ver um enorme androide surgir da poeira. Seu corpo se revira por dentro como se tivessem tentáculos sob sua pele.

- Demiurgo...! – sussurra o líder.

Os puristas abrem fogo. O robô cambaleia, mas, protegendo-se, ele recua para dentro do elevador e pula para o alçapão. A poeira se abaixa e eles tentam encontra-lo lá dentro. Inesperadamente o androide não estava lá. Todos se confundem.

De repente o monstro desce do forro, arrebentando-o. Pegos pelas costas, os soldados são mutilados e decapitados pelas longas garras, espirrando sangue para todos os lados. Nasier e Laura testemunhavam um horror.

Pegando seu comunicador, o líder ordena:

- Chamem os androides Advance!

Ouvindo os tiros, mais soldados aparecem e se deparam com o monstro. Assustados, eles atiram desesperadamente. Aproveitando a distração, os dois correm para as escadas e sobem um andar.

Laura ouve gritos lá embaixo, o monstro dizimava a todos. Nasier se aproxima de uma janela e acende uma bomba de fumaça vermelha. A cor sinalizava que eles estavam em perigo e necessitavam de reforços.

Um purista aparece no andar e diz:

- Senhor Nasier! O que está havendo? Eu ouvi tiros!

- Há algum androide Advance aqui?

- Sim, senhor! Eles estão lá em cima nos terraços. 

O soldado se referia às partes que não foram destruídas pelo bombardeio.

- Ótimo! Mande-os para o andar inferior a...

Mas o líder não teve tempo de terminar. O monstro subia as escadas e seu corpo estava lavado de sangue.

Apavorado, o purista pergunta:

- O que é esta coisa?!

- É o Demiurgo! Fuja!

Os três correm para o terraço. Perseguindo-os pelo escritório, o monstro golpeia as mesas e elas se repartem em dois. Pegando um vaso, Demiurgo a lança contra eles. O soldado é atingido e imediatamente desmaia. Enquanto ele está desacordado no chão, o monstro ergue sua mão e o golpeia, atravessando suas costas.

Passos pesados são ouvidos. Às suas frentes, os dois veem três androides Advance se aproximarem. O líder se alegra.

- Destruam aquele monstro! – ordena ele.

Laura acha aquilo irônico, pois os androides eram tão feios quanto o Demiurgo.

Os androides avançam e golpeiam o monstro, fazendo-o cair no chão. Os três o rodeiam e agarram seus braços, imobilizando-o. Demiurgo tenta se desvencilhar, mas é incapaz de resistir à sua força. Segurando sua cabeça, o androide violentamente a puxa. Laura consegue ouvir, enojada, os ossos, músculos e nervos do monstro se rasgando aos poucos. Pus azul jorra para todos os lados e a cabeça de Demiurgo é, finalmente, arrancada de seu corpo.

- Meu Deus...! – sussurra a garota.

Então o Advance a segura entre suas mãos e, com grande força,  a esmaga, fazendo seus olhos se saltarem para fora. O líder sorri.

- Vencemos!

Mas, ao olhar para a runner, ela não havia resistido e vomitava no chão.

- Levante-se, Laura. Ainda temos assuntos a resolver aqui.

Os androides soltam seu corpo e se dirigem para o terraço. Nasier ajuda a garota e a leva também.

- O que você está fazendo? – irrita-se ela.

- Estou te ajudando. Por quê?

- Tire as mãos de mim!

- Você tem algo que me pertence.

Enquanto discutem, alguém se aproxima dos androides e os golpeiam pelas costas. Assustados, o líder e a garota olham para trás e veem uma garra atravessada no peito de um androide. Ele cai de joelhos e então se desaba, morrendo em seguida. Então os dois conseguem ver.

A cabeça desencarnada de Demiurgo se formava. Eles veem seu cérebro sendo gradualmente coberto pela tampa do crânio e seus músculos faciais ocultando seus dentes. As bolhas se estouravam e sua pele se regenerava, formando seu rosto. Finalizado o processo, o monstro estava igual como antes.

Os dois se espantam. Eles percebem que não podiam destruí-lo arrancando sua cabeça.

Os androides restantes avançam. Trocando golpes, claramente é visível que eles eram mais fortes do que o monstro, mas sua desvantagem era de que eles não se regeneravam. Demiurgo golpeia um androide, cortando seu tórax de cima a baixo. O corte profundo se abre e seus intestinos se expelem para fora. O androide expira e então cai no chão.

O último androide segura um de seus braços e o quebra. Então o androide o agarra e o lança no chão. Antes que pudesse consertar seu braço, o androide o puxa e o arranca de seu corpo. Agarrando sua cabeça, o androide intentava esmaga-la contra o chão, mas Demiurgo o derruba e golpeia seu rosto, cegando-o.

Agora desnorteado, o androide se levanta e tenta encontra-lo socando o ar. O monstro se aproxima e, com um único golpe, arranca sua cabeça, cortando-a com suas garras. O androide se desequilibra e cai em seguida. Diferente de Demiurgo, sua cabeça não ia se regenerar.

- Corra, Laura... – desespera-se o líder – Corra, agora!

Os dois fogem. Em silêncio, o monstro olha para trás e os avista. Eles corriam para as escadas.  

Saindo no terraço, o vento frio assopra por suas roupas e eles veem os puristas, dois androides Advance e as aeronaves de transporte. Nasier gritava enquanto corria, intrigando a todos.

- Fujam! Fujam!

Mas os puristas não entendem.

- O que está havendo, senhor?

- Levantar voo, agora!

Um pouco confusos, os puristas começam a embarcar. Então alguém aparece.

Ao longe, eles veem um androide alto e cinzento se aproximar. Um de seus braços borbulhava, soltando um pus azul.

- Atirem! Atirem!

Mas, antes que pudessem raciocinar, Demiurgo corre e se lança contra eles. Como um feroz leopardo, ele golpeia para todos os lados. O pandemônio se forma e, no fogo cruzado, as balas atingem as turbinas da aeronave. Apavorado, Nasier ouve os motores se desligarem lentamente.

Demiurgo estava todo perfurado pelos lasers. Os androides o golpeiam e ele voa longe. Segurando suas pernas, eles as quebram e então as arrancam brutalmente. Agora aleijado, o monstro se rastejava pelo chão.

- Ligue os motores, rápido!

O piloto não entende.

- Senhor, por que o desespero? Os androides acabaram de vencê-lo!

- Depressa!

Rastejando-se para longe, Demiurgo aguarda suas pernas se regenerarem. Os androides o perseguem e tentam esmaga-lo sob seus pés. Um androide tenta pisoteá-lo e então tem sua canela partida em dois. Caindo, ele olha confuso para sua perna e a vê pendurada pela pele.

O último androide o pisoteia, mas era tarde demais. Suas pernas se regeneram e ele o derruba. Arrastando-se sobre ele, Demiurgo agarra sua garganta e a puxa, rompendo suas jugulares e arrancando-lhe a traqueia.

O androide sem perna tenta fugir, mas tem sua fuga impedida pelo imponente monstro. Ele agarra sua cabeça e a torce, virando-a totalmente para trás. Segundos depois, o Advance expira sem vida.

Distraídos na aeronave, o líder exclama:

- Depressa!

O piloto responde:

- Senhor, se acalme! Está tudo bem! O monstro...

De repente um braço atravessa o para-brisa e o empala violentamente. O piloto se engasga em seu próprio sangue, perdendo sua vida. E então Demiurgo puxa seu braço de volta e o derruba na cabine.

Olhando para os lados, Nasier se desespera. Todos os puristas estavam mortos. Apenas um sobrevivente restava. Laura.

A garota pega um fuzil e o recarrega.

- Nasier, ponha esse pássaro para voar.

- O que você vai fazer?

Sem paciência, ela grita:

- Anda logo!  

 

§

 

Nathan estava tão irritado que não conseguia ficar parado.

- Malditos clérigos! Eles me usaram de novo! – ele soca a parede – E malditos puristas! Me boicotaram em minha própria Rebelião! – e então ele soca novamente.

Furioso, ele soca a parede repetidas vezes, fazendo-a tremer. De repente algo se balança e cai ao seus pés. Intrigado, ele se agacha e pega um objeto, reconhecendo uma lente. Olhando para cima, ele vê cabos e percebe que uma câmera havia se desconectado.  

Então o rapaz entende tudo. Database havia instalado câmeras em seu quarto para o espionar. Nathan descobre que aquilo tudo era um teatro, um jogo engendrado para o chefe e as facções o manipularem.

Furioso, o rapaz percebe: quanto mais ele se debatia, mais as teias o prendiam. E haviam aranhas demais naquela árvore. Ele pensa:

“Então eu vou por essa mosca para voar”.

Pegando uma chave, ele deixa o Submundo. Um runner o vê e o pergunta:

- Ei, Nathan! Aonde é que você vai?

Sem olha-lo nos olhos, ele enigmaticamente responde:

- Vou matar uma aranha.

Entrando em um aerocarro, ele deixa a superfície.

 

§

  

Com o gatilho pressionado, Laura grita. A rajada laser pica todo o corpo de Demiurgo como se ele fosse de papel. De repente a carga se esgota e o fuzil deixa de atirar. Ferido, o monstro se levanta e olha para ela. Ele parece irritado.

Demiurgo a golpeia, mas, em uma sequência de estrelas, piruetas e rolamentos de tirar o fôlego, a runner se esquiva de todos.

- Nasier! Como está a aeronave?

Na cabine, o líder responde:

- Eu estou tentando! Só mais um pouco!

A garota encontra uma arma de fogo. Recarregando-a, ela atira. O monstro se retarda, mas ele não vai parar. A arma emperra e deixa de atirar, a bala havia travado na câmara de fogo. Desconcentrando-se, ela tenta destrava-la e isso foi o tempo suficiente para Demiurgo atingi-la com um golpe.

Laura é lançada pelos ares, caindo rolando até a beirada do edifício. Tocando-se, ela procura por ferimentos. A runner teve sorte, pois apenas o braço do monstro a atingiu. Se fossem suas garras, a garota agora estaria dividida em dois.

Demiurgo se aproxima. Atordoada, ela se arrasta para a beirada. Olhando para baixo, ela vê a queda infindável altura e se assusta. Não havia mais para onde fugir.

Voando em seu aerocarro, Nathan vê canhões atirando perigosamente pelo ar. Aeronaves da Resistência Purista os combatiam, atirando mísseis em suas posições.

Aproximando-se da Cellgenensis, ela olha para o prédio e o vê avariado e em chamas. Então algo chama a sua atenção.

Sobre o terraço, um tipo bizarro de androide avança contra uma garota. Ela está acuada e sem armas em suas mãos. Em espanto ele a reconhece.

- Laura!

Sem tempo para pensar, o rapaz instintivamente alinha o veículo em direção àquele monstro. Pisando no acelerador, ele embica o aerocarro e grita. Desesperado, ele tentava salvar a sua vida.

Demiurgo levanta suas garras e a garota se protege, virando o seu rosto. De repente um aerocarro desce do céu e o atropela, esmagando-o contra o terraço. A garota se confunde.

Segundos depois, o motorista abre a porta do veículo e se desvencilha do air-bag. Preocupado, ele corre em direção da garota e, com olhos lacrimejando, exclama:

- Laura...!

A garota o reconhece.

- Nathan?!

O rapaz chorava notando como ela estava ferida. Ajudando-a a se levantar, ele pergunta:

- Você está bem?

Mas não havia tempo para conversar. Pegando-o pela mão, ela diz:

- Vamos!

O rapaz se intriga.

- O que foi?

- Não há tempo para falar. Apresse-se!

No terraço, Laura vê que Nasier havia ligado a aeronave. Embarcando, ela fecha a porta e exclama:

- Voe logo! Rápido!

Olhando para a cabine, Nathan se espanta. Atrás dos painéis lavados de sangue, ele reconhece ninguém menos que Nasier, o líder da Resistência Purista.

- Você?! – intriga-se ele.

O líder tinha ferimentos e queimaduras por todo o corpo.

- Olá, Nathan. Que noite, não?

A aeronave levanta voo e se afasta do prédio. Olhando para baixo, Laura vê o monstro se arrastando por debaixo do aerocarro. Ela diz:

- Dispare os mísseis, rápido!

Ouvindo-a, ele responde:

- Tenho uma ideia melhor. – contatando a frota, ele ordena – Aeronaves, ataque concentrado no terraço da Cellgenesis! Agora!

“Entendido, senhor!”.

Então uma dezena de aeronaves aparecem e, mirando seus mísseis, os disparam simultaneamente contra o prédio. Um espetáculo de explosões se levantam, iluminando as megatorres próximas com sua coloração amarelada. Aturdido, Nathan se impressiona com a potência das explosões. Era como se ele presenciasse uma erupção vulcânica.  

Aliviando-se, Nasier e Laura respiram fundo e então deixam o distrito.

 

 

 

 

sábado, 25 de setembro de 2021

Sonata - 54 - Cellgenesis

 


(Artista desconhecido)


A aeronave sobrevoa o distrito de Apogeu, Setor C. A polícia havia instalado canhões antiaéreos pelo distrito, prevenindo o prédio da corporação de receber ataques inimigos. Eles ouvem as explosões lá fora, sacudindo a aeronave e desestabilizando-os. Felizmente os canhões eram poucos e não conseguiam abater as aeronaves da frota purista.

Iluminada por uma tênue luz vermelha, Laura observa o interior do veículo. Os puristas estão na cabine e conversam normalmente. Nasier está sentado à sua frente e conversa com seu tenente. Mas são os tripulantes atrás dela que a incomodavam. Ela vê homens de estatura elevada e músculos estufados olhando para o vazio. Sua pele era tão horrível que parecia do avesso. “Será que são ciborgues?”, pergunta-se ela.

- Não tenha medo. – diz Nasier, sorrindo – Estes são meus androides da classe Advance, os mais avançados desenvolvidos pela Resistência Purista. Eu te asseguro que eles são inofensivos, a não ser, é claro, que você seja seu inimigo.

Mantendo sua postura durona, ela responde:

- Eu não tenho medo de nada.

O líder percebe que ela está um pouco nervosa e inquieta.

- Algum problema, Laura?

- Não. Por quê?

- Ainda abalada por causa do Vertigo, não é? Eu te avisei que os Trans-humanistas eram ardilosos e nada confiáveis.

A garota sorri em desprezo.

- E qual facção não é?

Nasier ri.

- Muito espertos vocês nativos da superfície. Eu me pergunto como o Vertigo, sendo tão sagaz e inteligente, pôde se convencer com aquela profana doutrina mecanicista.

- Talvez ele não tenha se convencido, mas escolhido o menos pior.

Laura se referia à sua declarada ambição de ascender aos níveis superiores.   

- Pode ser. – pondera ele – Talvez ele tenha se cansado da superfície, querendo subir para um nível condizente com o seu intelecto. Acredito que os Trans-humanistas eram só mais um degrau em sua premeditada ascensão, uma vez que seu nível intelectual dos mecanicistas é tão baixo quanto o das baratas na superfície. Sem ofensa.

Explosões lá fora sacodem o veículo, mas a aeronave continua ininterruptamente seu percurso. 

- Vocês eram muito amigos, não é?

Com semblante sério, ela pergunta:

- Por que quer saber?

- Deve ter sido difícil para você suportar a traição de seu amigo ou, pior ainda, executa-lo a sangue frio.

O líder sabia que os dois se conheciam desde criança, mas ele a perguntava para provoca-la, tentando arrancar algo da fria runner.

- Não interessa.

- Ainda mais por que os amigos de infância são como família. E fazemos tudo pela família, não é mesmo? Desde favores... – comenta ele – Até o perdão.

Intrigada, a garota pergunta:

- O que quer dizer?

Nasier sorri. Seus espiões informaram que a runner foi vista com um homem mais velho, presumivelmente seu pai. Interessando-se, o líder quis saber mais sobre sua freelance. No passado, ele conheceu pessoalmente Ultra e tinha grande admiração por ela. Nasier sabe que ela está desaparecida, mas o pai de Laura, entretanto, vivia como indigente nos becos da superfície.    

Apesar de Nasier ser um terrorista assassino, fanático pela pureza física, ele acha surpreendente como uma filha deixa seu próprio pai viver nas ruas como um mendigo. Mas ele não pôde deixar de se interessar ao saber que a fria runner o havia abrigado novamente em sua casa.

Em tom condescendente, ele diz:

- Laura, eu não quero parecer insensível, mas estamos vivendo tempos difíceis. O Projeto Gemini, a Rebelião, o vazamento de arquivos ultrassecretos... Mas nós temos um trabalho para fazer hoje à noite. Portanto eu te peço: não amoleça!

A aeronave chega ao seu destino. Ao abrir a porta, a garota se vê em uma zona de guerra. Aerocarros voam de um lado ao outro, os puristas trocam tiros com a polícia e, sobre os terraços, os canhões antiaéreos atiram incessantemente. Nem durante o ataque à Bio Prótesis Laura viu tamanha ferocidade assim. 

Adiante ela vê o belo prédio da corporação Cellgenesis. Espelhado e iluminado por neons verdes, a enorme edificação se sobressaía no distrito, encantando a vista dos habitantes. Nas plataformas abaixo ela vê as manifestações populares, mas aquela era diferente. Os manifestantes não estavam lá para apoiar a Rebelião e sim destruir aqueles que aprisionaram seus parentes e os baniram da metrópole.

“Mais uma consequência do vazamento de informação”, pensa ela.

Aproximando-se, Nasier chama a garota e diz:

- Laura, nós vamos deixar o combate para os soldados da Resistência Purista. Eu, meu tenente e meus androides vamos escolta-la até o interior da corporação. Uma vez dentro, procure pelo laboratório. Creio que você já sabe o que fazer.    

Recarregando suas armas, ela responde:

- Então o que estamos esperando?

O líder e seu tenente sorriem.

- Essa é minha Lótus!

Em seguida eles se dirigem para a escadaria externa.

Com um mapa em sua mão, o tenente traça uma rota longa, porém discreta. Três androides os seguiam, com passos pesados e em silêncio. Seria muito difícil manter a discrição com eles por perto, mas podiam ser úteis em um confronto repentino.

Passando por trás dos prédios, o grupo se esgueira atrás dos painéis e dos letreiros. Um pandemônio havia cercado a corporação, mas no distrito seus habitantes se protegiam dentro de seus apartamentos. Notando o silêncio incomum, Laura se surpreende.

Descendo a um túnel, eles o encontram totalmente deserto. Normalmente ele estaria abarrotado de pessoas e barracas de ambulantes. Nasier ouve um ruído atrás deles. Duas aeromotos de polícia se aproximavam.

Os policiais passavam apressadamente, dirigindo-se para o combate. De repente os androides os empurram, derrubando-os das aeromotos. Após a queda, os policiais tentam sacar suas armas e revidar, mas são baleados por Nasier e seu tenente, morrendo em seguida.

- Rápido! Vamos sair daqui antes que mais apareçam. – ordena o líder.

O grupo continua seu caminho até saírem ao ar livre. Sobre as plataformas, as viaturas voam perigosamente pelo céu. Os aerocarros da facção passam também, ocupadas em combate. Laura nota uma abertura no teto dos veículos com um purista operando uma metralhadora fixa. Seria um combate ferrenho aquela noite.

Alcançando uma megatorre, eles sobem pelas escadas de incêndio. No andar de estacionamento, eles encontram um canhão antiaéreo atirar contra seus veículos. Aproximando-se lentamente, eles veem os policiais distraídos, operando-o. Empunhando suas armas, Nasier e seu tenente atiram, fuzilando-os.

- Androides! Derrubem este canhão! – ordena o líder.

Laura se confunde, pensando que eles vão tombar o pesado canhão no chão. Então os androides se aproximam e, erguendo-o com as próprias mãos, o empurram contra a beirada do edifício, jogando-o lá embaixo. A garota se espanta.

- Impressionante, não? – comenta Nasier – A força de meus androides é cem vezes maior do que a de um humano comum.      

Então a runner percebe. Aqueles monstros podiam esmagar crânios com as próprias mãos.

Chegando ao topo, o caminho indicava que eles teriam de pular de um terraço ao outro. Felizmente era uma distância de poucos metros entre os prédios. Porém, a queda era de centenas de metros que, na escuridão da noite, parecia interminável.

O tenente diz:

- Espero que não tenham medo de altura.

Nasier brinca:

- Você tem, Laura?

Ignorando-o, ela corre e então pula agilmente como um gato. Ao chegar no outro lado, ela rola habilmente, amortecendo a queda. Os puristas ficam boquiabertos.

- Bem... – começa o tenente – Se ela fez, nós também podemos fazer...

O líder e seu tenente pulam, caindo desajeitados no chão. Os androides seguem logo atrás, com passos pesados e estremecendo o piso na queda.

Avançando, ele encontram outro canhão. Os puristas atiram e eliminam os policiais. Um deles tenta fugir, mas é atingido por Laura. Outro se levanta e tenta ataca-los pelas costas. Um androide é baleado, mas, para o pavor do policial, ele não morre e continua em pé. Erguendo-o com apenas um braço, o androide o segura pelo pescoço e o atira do terraço. A garota ouve seus gritos até eles cessarem lentamente.

Os androides erguem o canhão e o lançam do terraço. O equipamento se choca contra uma passarela e gira, caindo desordenadamente entre as megatorres.

“Esses fanáticos não se importam com quem eles possam ferir lá embaixo”, pensa ela.

Uma passarela liga o terraço ao prédio mais próximo. No céu, o combate era intenso e os aerocarros voavam atirando por toda parte. Preocupado, o líder pede para todos terem cuidado.

Enquanto atravessam, uma viatura aparece e atira com sua minigun, metralhando um dos androides. Apesar de sua resistência sobre-humana, as balas o atravessam e esmigalham seus ossos, perfurando-o de cima a baixo. Sangue jorra de suas feridas e ele cospe sangue, perdendo suas forças. Desequilibrando-se, ele se encosta no corrimão e se precipita, caindo acidentalmente lá embaixo.  

- Perdemos um androide...! – exclama o tenente.

Lamentando-se, Nasier responde:

- Não importa. Temos que continuar a missão.

Descendo pelas escadarias, eles prosseguem. Desta vez eles chegam a outros túneis e plataformas desertas. O tenente diz:

- Nós estamos próximos da megatorre indicada. Ela é a mais próxima do prédio da corporação. A partir de lá, Laura deve infiltra-lo pelas aberturas dos dutos.

Eles ouvem sons abafados vindos de cima.

- Os canhões continuam operacionais pelo distrito. Esta não será uma batalha fácil. – comenta Nasier.

O grupo continua em seu caminho.

Em um túnel, alguns policiais aparecem e são fuzilados pelos puristas. Intrigados, eles não encontram armas em seus cadáveres. Então eles percebem que aqueles não eram combatentes e sim desertores.

- Eles estavam fugindo! – diz o tenente.

- As corporações os usam como cães de guarda, mas são apenas assalariados em seu trabalho. Eles não têm uma causa para defenderem, ao contrário da Resistência Purista, que defende uma causa nobre.

Ao ouvi-lo, a garota deixa escapar um sorriso.

Prosseguindo, eles atravessam uma larga passarela e, no vão entre as megatorres, veem a passarela que conduz à corporação. O grupo se assusta com uma multidão de manifestantes ateando fogo e depredando a fachada da Cellgenesis.

Na megatorre indicada, o mapa indica uma protuberância em sua lateral. À frente se localiza o ponto mais próximo da corporação. Se Laura conseguir atravessa-lo, ela terá evadido o combate e alcançado o prédio em segurança.

Subindo as escadarias, eles chegam ao local indicado. A protuberância tinha uma abertura onde os policiais atiravam com seu canhão. O grupo os elimina facilmente, mas os sons se propagam e todos ao redor conseguem ouvi-los.

Os androides erguem o canhão e se preparam para atira-lo do prédio. De repente eles ouvem um estrondo e um dos androides é horrivelmente despedaçado. No terraço da corporação, outra equipe de um canhão os havia visto, disparando contra o androide.

- Ei! Saia já daí! – ordena o líder.

Mas o aviso veio tarde. Os policiais disparam novamente e fulminam o outro androide. O canhão se queima e provoca uma explosão, lançando-os pelos ares.

O impacto desorienta Laura. A pequena protuberância havia sido arrasada. Ela tenta se manter acordada, mas vê apenas as chamas se espalhando. Agora descobertos, os policiais miram seus canhões e atiram contra eles, destruindo toda a lateral do prédio. Levantando-se, ela vê Nasier e seu tenente desacordados no chão. A estrutura ao redor estremecia, começando a ruir. Nas paredes, Laura vê tubulações de gás inflamável. Temendo por sua vida, ela precisava fugir, não havia tempo para acorda-los.

“Mas”, pensa ela, “pensando bem, eu nem quero”.     

Correndo através das chamas, ela toma impulso e se atira do edifício. A explosão forma uma onda de fogo atrás dela, assoprando os detritos e os estilhaços pelos ares. O tempo parece se desacelerar. Propulsionada pelo ar quente, ela é lançada contra o prédio da corporação, voando rápida como um raio, porém vendo tudo em câmera lenta. Ela vê um tubo e atira um gancho amarrado a uma corda. O gancho se prende e ela interrompe a queda, evitando ter seus ossos estraçalhados pelo impacto.

Pendurada pela corda, Laura assiste à abertura do prédio ser tomada pelas chamas. Ela respira fundo, aliviada. 

Balançando-se como um pêndulo, ela toma impulso e se atira a uma varanda no prédio corporativo. Ela aterrissa e espera um minuto para descansar um pouco. No terraço, a polícia ainda atirava com seus canhões. Felizmente eles não a viram.

Laura percebe algo. Olhando para cima, o combate aéreo prosseguia. Olhando para baixo, a violenta manifestação também. Nos terraços, os puristas combatiam com fuzis e rifles de longo alcance, tornando impossível atravessa-los. Pelo distrito, haviam defesas por toda parte. Em lamento, ela reconhece que estava em um matadouro.

Escorando-se no parapeito, ela nota que apenas as tubulações industriais eram seguras. Se ela tiver sorte, ela conseguirá descer até a superfície e esgueirar-se até os combates cessarem amanhã.     

Pegando uma corda, ela sobe no parapeito e se prepara para descer. Então algo acontece.

- Desça já daí, Laura!

Assustada, ela olha para trás. Não acreditando em seus olhos, ela via Nasier. O líder estava todo ferido, parcialmente queimado e com as roupas rasgadas. Todavia, ele estava furioso e lhe apontava uma arma.

- Nasier?!

- O que você pensa que está fazendo, menina? Por acaso intentava fugir e abandonar a missão?

Isso era exatamente o que ela ia fazer.

- Eu não sou uma ferramenta para você me usar.

Rindo, o líder responde:

- Nós fizemos um acordo. Eu te ajudei e agora você me ajuda. Você não honra seus compromissos?

A garota lhe olha com desprezo.

- A causa purista não vale o risco.

- Ora, sempre tão durona... – sorri ele – Mas não tem palavra. Ultra jamais faria isso.

A garota vocifera.

- Não ouse falar da minha mãe!  

- Então seja como ela! – exclama ele – Infiltre-se na Cellgenesis, roube a tecnologia corporativa e termine o serviço! Como Ultra o faria.

Laura sabe que não pode se recusar. Ela não podia arriscar a vida de seu pai nas mãos daqueles loucos mutiladores.

- Está bem.

A entrada do duto de ventilação estava logo acima. Pendurando-se nos tubos, ela alcança a grade e a desparafusa com suas ferramentas. Dentro da tubulação, ela olha pelas grades e vê as salas abaixo. Laura nota que os sistemas de segurança estão ligados, mas as salas estavam vazias. Com todo aquele confronto ocorrendo lá fora, os seguranças foram defender o edifício.

Seu rastreador localiza o terminal de segurança. Descendo do duto, ela assopra seu spray e enxerga os lasers no corredor. Habilmente se esquivando, ela cautelosamente avança. Seu pé toca acidentalmente um laser e os alarmes disparam, assustando-a. As metralhadoras se desacoplam do teto e começam a surgir.

Sob uma chuva de balas, ela corre em direção a um escritório. As mesas e os computadores são alvejados, levantando os papeis e os pedaços de madeira. Pegando uma bomba EMP, ela a joga e se protege. A descarga elétrica desativa as metralhadoras, mas ela ainda não estava a salvo.

Saindo dos compartimentos ocultos, bots percorrem o andar, procurando a intrusa. Escondida, Laura vê robôs de tamanho médio movidos a esteira. Recarregando sua arma, ela se levanta e pressiona o gatilho, cerrando os dentes furiosamente. O bot é estraçalhado pelas balas, caindo em pedaços em seguida.

Os outros bots se aproximam. Voltando pelo andar, ela encontra a entrada de outro duto e entra. Arrastando-se lá dentro, ela olha pela grade e vê o bot patrulhando. Deixando o duto, ela pula sobre o robô e agarra sua cabeça. Desorientado, o bot tenta se desvencilhar, mas a garota enfia uma faca em seu pescoço e arranca sua cabeça, puxando-a violentamente em meio a descargas elétricas.

O último robô a detecta, preparando-se para atirar. A garota se abaixa e vê um extintor na parede. Ela atira e uma fumaça de pó branco se levanta. Os rastreadores do bot são afetados e ele se confunde. De repente a runner aparece e dá uma voadora em sua cabeça, derrubando o robô violentamente. Antes que pudesse se levantar, a garota pisa em seu corpo e descarrega sua arma, estraçalhando-o.

Passado o perigo, Laura calmamente recarrega e se dirige à sala de segurança.

“Trancada”, constata ela.

Pegando sua gazua, ela a insere na fechadura e destranca a porta. A sala de segurança tinha muitos monitores, a garota via o interior de todo o edifício. Os policiais defendiam o prédio em seu topo, mas o interior estava sinistramente deserto.

O terminal de segurança estava à sua frente. Pegando seu decodificador, ela o posiciona sobre o painel e conecta os cabos no aparelho. De repente uma tristeza enche o seu peito. Ela se lembra que foi Vertigo quem lhe deu o decodificador. Apesar de sua vergonhosa traição, ela não deixava de sentir saudades dele.

A garota hackeia o sistema. Agora liberado, ela desliga os alarmes, câmeras e metralhadoras de teto. Acessando o controle das portas, ela destranca o laboratório, deixando a sala em seguida.

Caminhando livremente pelos escritórios, Laura chega aos elevadores. Apertando o botão, as portas começam a se fechar quando alguém subitamente diz:

- Espere! – uma mão impede o fechamento das portas – Eu também vou descer.

Nasier então entra no elevador. Surpresa, a garota pergunta:

- Como você entrou aqui?

Mexendo em suas feridas, o líder responde:       

- Arrombando as portas. Você desligou os alarmes, lembra?

A runner assente.

- E por que você está aqui?

Nasier é irônico.

- Pensei que você fosse precisar de ajuda.

A garota se irrita. Ele estava lá para vigia-la e se certificar de que ela faria o serviço.

O elevador começa a descer e um silêncio constrangedor se levanta. Com as mãos no bolso, o líder comenta:

- Sabe... Eu sempre me perguntei o que aconteceu com sua mãe.

Como esperado, a garota se irrita com ele. Laura o ameaça, dizendo:

- É melhor você não falar da minha mãe, Nasier! Senão você pode se arrepender!

- Ei, acalme-se! – pede ele – Estamos do mesmo lado, eu e você. Mas o que eu quero dizer é que a última missão de Ultra foi aqui na Cellgenesis. Entretanto, ela desapareceu e ninguém sabe onde foi. Ela simplesmente... – hesita ele – Deixou de existir.

A garota se intriga.

- O que está querendo dizer?

E então a porta se abre. Saindo do elevador, eles se deparam com as paredes brancas do vasto laboratório. Empunhando suas armas, eles percorrem o ambiente.

Nasier continua:

- Com o vazamento dos arquivos ultrassecretos, nada consta sobre ela no Ministério da Informação, o que é muito estranho. – olhando para a garota, ele pergunta – Você não acha estranho?

Laura não sabe o que responder.

- Eu...

- A minha teoria é a seguinte. – interrompe ele – Ultra era tão valiosa que quem a capturou lhe tenha dado um tratamento especial. Essa pessoa era alguém muito poderosa, pois deletou seus registros e a apagou da metrópole, confinando-a em algum lugar e a tomando para si. Assim morria Ultra e nascia um mito.

Interessando-se, ela pergunta:

- Está dizendo que minha mãe foi raptada?

- Eu não sei. Ela era muito habilidosa, ninguém ousaria confronta-la. Mas é como dizem: ninguém vive para sempre.

Semelhante ao laboratório da Bio Prótesis, ele veem vários componentes genéticos em frascos de vidro.

- Impossível. – responde ela.

- Minha outra teoria é que Ultra se aposentou, abandonando sua carreira no auge e retirando-se para o anonimato. Da mesma forma, alguém muito poderoso a ajudou, pois conseguiu apagar seu registro e alterar sua identidade.

Então o coração da garota treme.

“Será possível que minha mãe me abandonou assim?”.

- Ela jamais faria isso. – diz Laura, controlando-se.

Os dois veem vários frascos com órgãos artificiais dentro. Em uma parede eles leem: “clonagem”. Antes de entrarem, o comunicador de Nasier toca.

- O que foi?

“Senhor Nasier! Temos o controle do espaço aéreo do distrito. Separarei unidades para destruir os canhões e depois concentrarei as forças para o assalto final na corporação”.

- Negativo, coronel. Inicie o assalto no prédio imediatamente. Ele está deserto e desprotegido por dentro. Separe equipes menores para cuidar dos canhões”.

“Entendido, senhor! Devo solicitar os androides Advance para o assalto?”.

- Afirmativo. Pegue o quanto quiser e se apresse.

“Outra coisa, senhor. Tentei contatar o tenente e ele não atendeu. O senhor conhece sua situação?”.

O líder friamente responde:

- Morto. O tenente infelizmente morreu em ação. – e então o coronel emudece no outro lado da linha – Coronel?

“Estou aqui, senhor. Estou indo agora. Desligo”.

Laura ouve a conversa e se enoja. O líder não demonstra a menor comoção com a morte de seu subordinado.

Na sala de clonagem, eles veem vários cadáveres abertos. A garota se desconcerta, segurando-se para não vomitar.

- Algum problema, Laura?

- Não interessa.

- Não está acostumada com os procedimentos cirúrgicos, não é? Não se preocupe, você se acostuma com o tempo. – e então ele sorri – Pode confiar em mim, eu sou médico.

A garota já estava se cansando de sua simpatia cínica.

À frente eles veem um gigantesco computador. Cabos se conectavam à sua robusta unidade de processamento, como uma enorme matriz.

Ao lado eles veem uma câmara criogênica com um bizarro androide. Ele era cinzento e não tinha pelos ou cabelos. Os dois também notam que ele tinha garras no lugar dos dedos. O androide era semelhante aos androides da classe Advance da Resitência Purista, mas menor e menos musculoso. Em uma placa na câmara eles leem: “Demiurgo”.

- Tremenda aberração, não? – pergunta o líder.

- Lembra os seus androides. – provoca ela.

A garota liga o computador. Colocando o decodificador sobre o painel, ela conecta os cabos e inicia a extração de dados. De repente eles ouvem um ruído, mas não dão atenção. O ruído vai ficando cada vez mais alto e eles se intrigam, reconhecendo o som de vidro se trincando. Confusos, eles olham um para o outro.

Em um estrondo, a câmara criogênica se estoura de repente. Os dois se assustam e se protegem dos pedaços de vidro. Em meio a névoa de nitrogênio alguém se levanta, revelando-se.

Era o androide de nome Demiurgo.        

    

 

  

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Sonata - 53 - A História se Repete

 



(Arte de Thomas Dubois)


Deitado em seu quarto, Nathan descansa. Ele olha para a tela de seu notebook e hesita, ele ainda não tinha coragem abrir os arquivos do Ministério da Informação sobre os seus pais. Respirando fundo, ele fecha o computador.

De repente seu celular toca. Lendo a mensagem, Database queria vê-lo.

Database o espionava em seu monitor. Instaladas em pontos ocultos de seu quarto, câmeras secretas o vigiavam. O chefe sabia sobre os arquivos de seus pais. Desde o dia em que o ministério foi tomado, os rastreadores interceptaram o envio de arquivo ao Submundo. Database decididamente quis lê-lo e, antes mesmo do próprio Nathan, ele já sabia tudo sobre a vida de seus pais.

Diligentemente o chefe apagou as partes comprometedoras e incriminatórias, adulterando-o. Seus pais tinham envolvimento com a superfície. Se Nathan tivesse de saber sobre o seu passado, seria apenas o quanto Database quisesse revelar.

Encostando-se em sua poltrona, o chefe sorri. Database era um homem astuto e poderoso; ele jamais deixaria um moleque ingênuo dos níveis superiores manipula-lo.

Abrindo a porta, Nathan o encontra em sua sala escura. Database olhava para ele, iluminado pelas dezenas de monitores em sua parede.

- Olá, chefe. Queria me ver?

Assentindo, ele responde:

- Olá, Nathan. Sente-se, por favor. – o chefe lhe indica uma cadeira e o serve um copo de uísque – O conselho me ligou. Haverá um ataque hoje à noite. O alvo será a corporação Cellgenesis.

O rapaz pondera. A Cellgenesis era a corporação responsável pela engenharia genética em Sonata. Sua avançada tecnologia desenvolvia aprimoramentos celulares capazes de criar órgãos artificiais, restaurar tecidos queimados, reverter deficiências físicas e, em alguns casos, dispensar o uso de biopróteses em paralíticos. O serviço prestado à sociedade era essencial, rivalizando com a outra gigante Bio Prótesis, tomada recentemente.

- E quem vai participar do ataque? – pergunta Nathan.

- A Resistência Purista.

O rapaz sorri.

- É claro... Quem mais seria?

- Só que tem um coisa. Você não irá junto desta vez.

Ao ouvi-lo, o rapaz se assusta.

- Como não?

- Os puristas precisam de alguém com as habilidades adequadas para o ataque.

- Eles pretendem lutar na Rebelião sem o Inimigo de Estado?!

- Sim. E eles querem a pessoa certa para o serviço.

O rapaz desconfia.

- Serviço? E quem seria essa pessoa?

- Laura.

- O quê?!

Apoiando-se em sua mesa, o chefe continua:

- Devido ao seu histórico de serviços e às suas habilidades, eles pediram o acompanhamento de Laura.

Nathan exclama:

- Database, eles não querem lutar na Rebelião! Eles querem roubar a tecnologia corporativa!

Cruzando os braços, o chefe responde:

- Eu não duvido, mas também o quiseram os Trans-humanistas na Bio Prótesis. Todos queremos algo, Nathan. Atacar alvos difíceis pelo desejo bobo de recuperar a honra, como a Bushido, ou atacar alvos irrelevantes pelo desejo bobo de restaurar a instituição religiosa, como os Clérigos do Recomeço. Ninguém é inocente.

- Você me faz pensar que os objetivos das facções são bobos, mas são muito mais sérios os objetivos dos mecanicistas e dos puristas. E você não se importa?

- Os puristas são nossos aliados e meus antigos clientes do Mystique. Gostaria que as coisas fossem diferentes, mas não são.

- Então já está decidido?

Database respira fundo.

- Lamento, Nathan, mas eu não pude fazer nada.

 

§

 

Algumas horas antes.

Através dos becos sujos da superfície, Laura conduz seu pai pelos braços. Ele está claramente embriagado, mas ainda assim consciente de si mesmo. A runner diz:

- Venha, pai. Eu vou leva-lo para casa.

Preocupado, ele pergunta:

- Você tem certeza, filha? Você me conhece. Sabe que eu não consigo mudar.

- Não importa. Você é o meu pai e eu sempre o amarei por isso.

Assentindo, o velho pergunta:

- Seu apartamento tem espaço? Você me disse que ele é muito pequeno.

- Não tem problema. Eu alugarei um maior para nós dois.

- Eu sou um velho alcóolatra e fedorento, Laura. E se me impedirem de morar junto?

A garota ri.

- Não se preocupe. Ninguém tentará impedir. – assegura ela.

Seu pai se assusta com a segurança dela. Ele sabe que a garota é muito respeitada e temida na superfície.

- E você tem dinheiro para alugar um outro apartamento, filha?

- Eu consigo um dinheiro por aí.

- Minha filha, eu não quero que você faça coisa errada. Você pode se machucar!

A garota se irrita.

- Nós vamos falar nisso de novo, pai!?

Então o velho se cala.

Chegando ao seu apartamento, Laura pede que seu pai tome um banho. O velho não consegue se equilibrar e a garota é obrigada a despi-lo e ajuda-lo a se lavar. Ela nota como ele está magro e doente. Esfregando-o, a água desce preta de tão suja. A garota pega suas roupas velhas e as joga no lixo, recusando-se a lava-las.

- Eu vou te trazer uma toalha.

Enquanto seu pai se enxuga, ela lhe traz roupas limpas. O velho pergunta:

- Minha filha, de onde você tirou essas roupas?

- Eu as comprei para você.

Em silêncio, ele percebe que ela havia preparado tudo para a sua chegada.

Vestindo-se, o velho se senta na cama. Sua barba e cabelo perderam a cor loira e estavam todos grisalhos. Pegando um pente, a garota carinhosamente penteia seus cabelos para o lado. Ele não era um senhor feio, afinal, mas se prejudicou devido ao seu degradante vício.

Sentando-se ao seu lado, Laura diz:

- Embora eu não goste, eu sei que você precisa disso, pai. – então ela tira uma garrafa de vodca de sua mochila.

O velho se surpreende.

- Por que você está fazendo isso, filha?

Encolhendo-se, ela diz:

- Porque eu quero te pedir perdão...

E então ela começa a chorar. Seu pai a abraça e apoia sua cabeça em seu ombro.

- Pelo o quê, minha filha? Sou eu quem te fez mal. Eu que te devo perdão.

- Não... – discorda ela – Eu te julguei mal e eu me arrependo tanto...

Lágrimas se escorrem dos olhos do velho também. Ele se controla para responder:

- Tudo bem, minha filha. Eu te perdoo e também peço perdão.

Minutos se passam. Então a garota diz:

- Eu sinto tanta falta da minha mãe...

Lembrando-se de Ultra, o coração do velho se aperta.

- A sua mãe foi embora, minha filha. E já faz tanto tempo.... Aceite que ela se foi.

A garota parece confusa.

- Eu não consigo... – responde ela – Eu não consigo aceitar que ela se foi. O desejo de encontrá-la é maior e me motiva a continuar procurando. E eu continuarei procurando e procurando e procurando...

Ponderando, o velho responde:

- E se você não precisar procura-la, minha filha? Olhe para você agora. Você se tornou tão forte quanto ela! Ultra pode não estar aqui agora, mas você é a parte dela que ficou e sempre ficará. Pelo menos no meu coração velho e rabugento... – brinca ele – E nada poderá mudar isso.

Seu pai estava certo. A garota se lembra que estava idêntica à sua mãe.

“E se, metaforicamente, eu me tornei ela?”, reflete Laura. “Se na memória uma pessoa não morre, imagine em mim, que sou sua filha?”.

Afastando esses pensamentos, ela se recompõe.

Algum tempo depois ela diz:

- Pai, eu comprei comida. Também deixei algum dinheiro, não muito, caso precise. Você pode ficar aqui.

O velho olha para seu minúsculo apartamento e vê apenas uma cama. Intrigado, ele pergunta:

- Minha filha, mas se eu ficar aqui, onde é que você vai dormir?

- Não se preocupe, pai. Eu já tenho tudo arranjado. Quando eu voltar, nós nos mudaremos daqui.

Seu pai ainda não entende.

- Vai a algum lugar?

- Eu tenho um serviço hoje à noite.

- Que tipo de serviço?

A garota se recusa a responder.

- Você não entenderia.

Um pouco rígido, o velho comenta:

- Eu me casei com a maior runner de todos os tempos, Laura. É claro que eu vou entender.

Normalmente Laura se mostraria uma garota inflexível, mas ela não queria se afastar de seu pai.

- É sobre a Rebelião. Eu tenho um serviço na Cellgenesis.

Então seus olhos se arregalam.

- Na Cellgenesis?! – exclama ele – Laura! Mas esse serviço é muito arriscado!

- Pai, por favor...!

- Não! Não tem por favor! Você pretende atacar as corporações! Elas são muito poderosas, minha filha!

- Pai, eu sempre realizei serviços arriscados e perigosos! Por que se preocupar agora?

Abatido, o velho se esforça a responder.

- Porque foi na Cellgenesis que eu perdi sua mãe!

A garota se cala. Novamente as coincidências com Ultra se revelavam.

- Mas, pai...

- Laura, eu já perdi sua mãe. Não vou suportar te perder também.

Laura pensa, mas não consegue encontrar uma saída. Ela sabe que não se pode desonrar um compromisso feito com as facções.

- Me desculpe, pai. Mas eu preciso ir.

- Por quê?

- É um favor que me fizeram e agora eu tenho de pagar esse favor.

- E para quem você deve esse favor?

- A Resistência Purista.

O seu pai se estarrece.

- Mas por que você está se envolvendo com essa gente, minha filha?!

- Eles me ajudaram a libertar o Vertigo, mas então descobrimos que ele nos traiu e se aliou aos Trans-humanistas. – suspirando, ela diz – Me desculpe, pai, mas essa é uma longa história...

Confuso, o velho pergunta:

- Vertigo, um traidor? Ele não era seu amiguinho de infância?

O velho sente dificuldade ao lembrar. Levantando-se, a garota diz:

- Me desculpe, pai, mas eu tenho que ir. Se eu não for, eles virão atrás de mim e eu não posso arriscar a sua segurança.

Vendo o passado se repetindo diante de seus olhos, o velho adverte:

- Minha filha, se você for, você pode não voltar mais.

Laura percebe também. A história se repete. Então ela simplesmente diz:

- Me desculpe.

 

§

 

Horas se passam.

Caminhando pelo Submundo, Laura entra na sala de Database e alguém diz:

- Oh, aí está você. Pronta para o serviço esta noite?

Nos monitores, Laura vê o rosto de Nasier, o líder da Resistência Purista. Ela pergunta:

- Se eu for, a minha dívida estará paga?

Sorrindo, ele responde:

- Isso dependerá de você.

Nasier se referia ao êxito de Laura em conseguir roubar a tecnologia corporativa.

Database os interrompe.

- Você tem certeza de que não precisará do Inimigo de Estado?

- Absoluta. – reforça ele – Eu não posso permitir que aquele moleque atrapalhe os meus planos.

O chefe assente.

- Está bem.

- Tudo certo então?

A runner responde:

- Sim.

- Ótimo. – sorri ele, satisfeito – Vamos atacar a Cellgenesis!

 

 

 

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