quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Sonata - 50 - Arquivos Ultrassecretos

 


(Arte de Dusty Crosley)

Assistindo em seus monitores, um homem acompanha o avanço dos invasores pelo prédio. Ele veste roupas elegantes e se abriga em seu requintado escritório, protegendo-se enquanto se preocupa com o que virá a seguir.

Explosões são ouvidas e estremecem todas as paredes. Os invasores, um bando de terroristas e delinquentes da superfície, tomam andar por andar, eliminando os policiais e rendendo os seguranças. De repente eles alcançam o andar mais importante do prédio, a vasta sala dos servidores. Há pouco mais de um mês uma runner o invadiu e o inferno se levantou em Sonata. Roubando informação confidencial, os subversivos a usaram para corroborar o relato do Inimigo de Estado. Na verdade, foi com a informação roubada que o Inimigo de Estado nasceu.

- Maldito seja...! – irrita-se ele, referindo-se a Nathan.

O rapaz foi o responsável pela maior rebelião da história de Sonata, e hoje ele traz consigo sua horda, pilhando e queimando tudo em seu caminho. O homem o observa em seus monitores, acompanhando-o enquanto ele avança com os terroristas da 4 de Julho.

Na sala dos servidores, os invasores rendem o último segurança e a tomam. O homem sussurra:

- Está tudo acabado...

Aproximando-se, um segurança o interrompe e então pergunta:

- Não é melhor abandonar o edifício, ministro Arquimedes?

Desanimado, o homem responde:

- Eu devo estar aqui quando o ministério cair. Aliás, eu creio que posso convencê-los mais tarde.

Preocupado, o segurança pergunta:

- O senhor tem certeza? São delinquentes e terroristas violentos lá fora.

- Sim, não se preocupe. – respirando fundo, ele conclui – Vá para casa, amigo. Volte para sua família. Não queira morrer aqui em vão.

O segurança sorri e se despede.

- Obrigado, ministro Arquimedes. Até a próxima.

Ajuntando sua equipe, o segurança vai embora e o deixa sozinho.

Nos monitores, os terroristas vasculham a sala de servidores. Agora em mãos inimigas, o ministro sabe o que aquilo significa. “Se uma informação foi o suficiente para começar a Rebelião, imagine o vazamento de trinta milhões”, pensa ele. Ele pensa em beber seu caríssimo uísque, mas todo o álcool do mundo não poderia relaxar os seus nervos agora.

Minutos depois, passos pesados são ouvidos e alguém chuta a sua porta, escancarando-a. Sentado à sua mesa, o ministro permanece em silêncio enquanto sua sala é invadida por vários soldados apontando fuzis para ele. Um homem mais velho entra e o cumprimenta, dizendo:

- Ministro Arquimedes? O seu reinado de espionagem e terror chega ao fim.

Sorrindo, o ministro responde:

- Olá, General Washington.

Em seguida o rapaz entra. Suas roupas estavam encardidas devido a batalha.

- Nathan, conhece o nosso novo amigo? – pergunta George.

- Temo que não, general. Nunca o vi pessoalmente.

- Mas eu já o vi pessoalmente, Inimigo de Estado. Pouco antes de você fugir da prisão e começar todo esse inferno.

Sorrindo, o rapaz responde:

- Perdoe minha trapalhada, senhor ministro. Eu devia ter me calado e ter permitido que cometessem genocídio.

- Você não entende. Nunca vai entender!

George pega seu comunicador e ordena:

- Chamem os hackers! Quero todos esses arquivos no ciberespaço em trinta minutos!

- Na verdade, é sobre isso que eu quero falar. – diz Arquimedes – Nathan, você não deve expor as informações contidas aqui.

O rapaz se intriga.

- Por que não?

- Com apenas uma informação se deflagrou a Rebelião. Entretanto, este ministério armazena mais de trinta milhões de arquivos. Imagine o estrago que poderia acontecer com tamanha revelação!

Nathan ri.

- Está me apelando para manter em sigilo os séculos de terrorismo psicológico da espionagem corporativa?

- Não é tão simples. A espionagem foi necessária para estabilizar uma cidade habitada por milhões. Após a catástrofe de 2057, deixa-la sem vigilância poderia levar ao seu desfalecimento precoce! Mas não é sobre isso que me refiro. Estou falando dos arquivos ultrassecretos.

Antes que pudesse responde-lo, o general diz:

- Guarde suas advertências, ministro! A liberdade de imprensa será o primeiro a nascer do cadáver da censura aqui.

Trazendo seus óculos de realidade virtual, os hackers ocupam os computadores e acessam o ciberespaço. Arquimedes é afastado de sua mesa e um hacker ocupa seu computador, desbloqueando o sistema com dispositivos de hackeamento.

Explosões são ouvidas pelo céu, o combate aéreo ainda prosseguia lá fora. Irritado, George pega seu comunicador e pergunta:

- Quanto tempo até pacificarmos o prédio?

Um americano responde no outro lado da linha:

“Trinta minutos, senhor! Talvez mais”.

- Pois eu quero em dez minutos! - exclama ele - Temos um trabalho a fazer aqui!

De repente as janelas se estouram e uma onda de fogo invade o andar. Um aerocarro havia se colidido contra o edifício.

- Apressem-se! – ordena o general.

Matrizes alfanuméricas aparecem nos monitores. O banco de dados do Ministério da Informação era o maior que Nathan já viu. Milhões e milhões de dados aparecem contendo nomes de pessoas, setores e distritos. Era como se cada detalhe fosse registrado no supercomputador corporativo.

Uma explosão é ouvida no topo do edifício. Distraindo-se, o general pega seu comunicador e se afasta. 

O rapaz se aproxima de um computador e acessa o banco de dados. Como um espião do ministério, ele lê os arquivos confidenciais de um cidadão qualquer do Setor D. Em espanto, ele percebe que o Ministério da Informação sabia tudo ao seu respeito, até os mínimos detalhes. O cidadão tinha registrado suas características físicas, sua primeira namorada, seu primeiro emprego, os lugares que frequentava e os sites pornográficos que ele acessava. O ministério sabia de seus adultérios, suas brigas de trânsito e de suas afiliações criminosas. Nas últimas linhas, o rapaz vê que o cidadão aderiu a Rebelião e que participara das manifestações na Cúpula Corporativa. Ao tomar dois tiros, o cidadão encontrava-se em um hospital clandestino controlado pela Resistência Purista.    

Então Nathan tem uma brilhante ideia. Vasculhando os arquivos, ele procura pelos nomes de seu pai e mãe. Explosões estremecem o prédio, derramando poeira sobre os móveis. Com a batalha prosseguindo lá fora, ele precisava se apressar. Fazendo o upload, ele envia os dados diretamente ao Submundo, deixando para vê-los mais tarde.

Pegando bombas de fumaça, George se aproxima das janelas e diz:

- Soldados! O Ministério da Informação é nosso!

Então os facciosos fazem o tradicional brado do Exército dos Estados Unidos.

- Hooah!   

A 4 de Julho comemora. Mais um inimigo havia caído. Com a vitória fácil, a facção recupera a moral. Nathan se alegra também; a Rebelião se aproximava do fim.

- Parabéns, general!

O rapaz lhe estende a mão, mas George sorri e o abraça, apertando-o tão forte que estrala suas costas.

Os americanos atiram para o céu e estendem bandeiras nas janelas. Aerocarros passam buzinando e eles ouvem fogos de artifício lá embaixo. Apesar da comemoração, os hackers continuam trabalhando ininterruptamente nos computadores.

Acessando as redes restritas, os americanos se espantam com seu alcance. As corporações tinham toda a metrópole sob seu controle, operando com antenas distintas e satélites independentes. Secretamente eles acumulavam dados dos quatro cantos de Sonata, passando pelos ministérios e armazenadas no Ministério da Informação.

Uma sensação de vulnerabilidade se apodera de George. Ele percebe que as corporações conheciam plenamente seu território, tendo em seu banco de dados os nomes de todos os membros da 4 de Julho. De fato, as redes secretas da facção não eram tão secretas assim, pois todo o acesso era vigiado e registrado naquele obscuro ministério. O general sentia que as corporações permitiam sua existência, tolerando-os para um propósito maior. Confuso, ele deixa essa hipótese para depois.

Então uma pasta lhes chama a atenção. Os hackers haviam encontrado os arquivos ultrassecretos. Os americanos pausam o que estão fazendo para ver. Eles leem nomes como exterior, experimentos, protótipos e vírus. Fascinados, era como se estivessem olhando para um tesouro às suas frentes, hipnotizados pelo brilhante ouro. Com curiosidade inabalável, eles se apressam a abri-los.    

- Nathan, eu imploro! – interrompe Arquimedes – Revelar essas informações condenará Sonata!

O rapaz responde:

- Sonata já está condenada. Se esqueceu do Projeto Gemini?

Ignorando-o, o ministro continua:

- A população não pode saber o que escondemos aqui. Será um caminho sem volta!

Nathan se irrita.

- Eles têm o direito de saber!

Exibindo os arquivos, os invasores veem os segredos corporativos. Assim como Nathan revelou, um vírus incurável trazido de Marte eliminou 95% da população mundial. O conglomerado industrial Sonata construiu um último reduto para a humanidade, o último oásis habitável como eles costumavam dizer. Essa cidade seria construída sobre as ruínas de uma outrora grande nação.     

“Os Estados Unidos...”, reconhece George.

Com o desfalecimento da soberania nacional, Sonata teria território irrestrito para realizar seu projeto. A nova cidade se localiza próxima a costa leste dos Estados Unidos, a sudoeste da antiga capital. Convidando seus melhores funcionários ao redor do mundo, a jovem metrópole recebeu populações canadenses, europeias, latinas e asiáticas, sobretudo japonesas. 

“A origem da Bushido...”, pensa Nathan.

De fato, as corporações realizavam experimentos em seus habitantes. Infectando o abastecimento de água e adulterando a composição dos alimentos, muitos cidadãos adoeceram, mas outros sofreram bizarra mutação.

- Meu Deus! Qual é a finalidade disto?! – espanta-se um americano.

Após anos de ingestão de mutagênicos, os habitantes não mais sofriam mutação evidente. Os dados revelam que o objetivo das experiências não era a mutação e sim a adaptação das cobaias, mas não fica claro o motivo.

A seguir eles veem uma lista de ex-ministros do Ministério da Informação. Ao ascenderem ao cargo eles tinham seus nomes mudados, adotando os curiosos nomes de figuras ilustres do passado. Nathan percorre a lista e encontra o nome de Copérnico; Database falava a verdade sobre ele. O ex-ministro, e atualmente o líder da Subtopia, foi banido por expor informações confidenciais. Sua ficha mostra que ele não suportou ocultar segredos tão imorais, recusando-se a continuar conivente com os experimentos.

Copérnico era o responsável por falsificar as investigações sobre os desaparecimentos. Cidadãos sequestrados ou presos eram classificados, simplesmente, como desaparecidos. Em sua ficha continham milhares e milhares de nomes, todos confinados ou mortos dentro dos sinistros laboratórios corporativos.  

Algo chama a atenção de Nathan. O antecessor de Copérnico também consta como desaparecido. Semelhante ao líder da Subtopia, ele também foi condenado pelas corporações, mas não por expor os arquivos ultrassecretos, mas desvia-los. Sua pena foi o banimento, mas ele fugiu antes de o pegarem, permanecendo desaparecido desde então. O rapaz lê seu nome ministerial.

- Descartes...

Os arquivos sobre os banidos contém dezenas de milhares de nomes. A maioria são presos políticos, acusados de subversão e afiliação a terroristas. Vídeos os mostram sendo levados para além do muro de Contenção e deixados no exterior para morrer. Os policiais lhes davam casacos, mantimentos e uma máscara de gás. Os banidos choram e imploram para que os policiais voltem. Muitos apelam dizendo que têm esposa e filhos, mas, infelizmente, já estava selado seu destino.

Lágrimas se formam em seus olhos. Nathan percebe que muitos filhos cresceriam sem pais.  

Olhando para Arquimedes, o General Washington pergunta:

- Então é isso o que aconteceu com os meus soldados? Eles não estão desaparecidos?

Em seus olhos havia o fervente ódio dos indignados sedentos por justiça. O ministro responde:

- Vocês não entendem... Estas informações devem permanecer em segredo...!

Os americanos clamavam por vingança. O rapaz temia que Arquimedes fosse trucidado ali.

- E o que há para se entender, verme?

Ofegante, o ministro controla o nervosismo e responde:

- As corporações trabalham pela sobrevivência da metrópole! Essas espionagens, experiências e banimentos são um mal necessário, o alto preço a se pagar para sobreviver!

O general cerra furiosamente os dentes.

- Por acaso você fez experiências em meus homens ainda vivos?

Arquimedes meneia negativamente a cabeça.

- Vocês não entendem...

Nathan nota que George segurava muito firmemente sua arma. Ele temia uma execução. Aproximando-se, ele diz:

- General Washington, nós vencemos. Acabou.

Mas em suas veias corria o ódio assassino e terrorista da 4 de Julho.

- Não, não acabou, Inimigo de Estado. Ainda resta um último inimigo a ser abatido.

O rapaz insiste.

- É um inimigo rendido, George. Não há necessidade de abatê-lo. Era costume do exército americano executar os prisioneiros?

Questionado, o general pondera. Nathan tinha razão. Ele se acalma e guarda sua arma.

- Você está certo. Somos civilizados... Democratas... Livres... Não somos fascistas.

Respirando fundo, o rapaz se alivia.

- Você fez bem, general. Arquimedes será mais útil vivo.

- É como disse o pai fundador Benjamin Franklin: “tome conselhos com o vinho, mas tome decisões com a água”. – arrumando-se, o general diz – Vamos, Inimigo de Estado. Vamos comemorar nossa vitória em paz.

Interrompendo-os, um hacker diz:

- Senhor, as informações estão prontas para serem liberadas no ciberespaço.

Olhando para os monitores, George responde:

- Podem liberar.

- Não! – protesta Arquimedes, assustando-os – Vocês não podem fazer isso! Vocês não podem condenar Sonata!

Entediado, o general diz:

- Ainda servindo as corporações como um cão adestrado?

Os dados começam a ser liberados. Iniciado o processo, não havia mais volta. O ministro exclama:

- Bando de insensatos e irresponsáveis! O que vocês fizeram?!  

Desta vez é Nathan quem se irrita.

- Mas o que há de errado com você? Por que se preocupa tanto?

Arquimedes ri de indignação.

- Vocês ainda não compreendem, não é? Ao publicarem as informações ultrassecretas, os cidadãos se revoltarão. A sua patética rebelião de terroristas e marginais também não poderá conte-los. Os cidadãos sabotarão as indústrias, cortarão as linha de abastecimento e atravessarão a Contenção a procura de seus entes banidos. Será um caos sem precedentes e a ruína de Sonata. O vírus a tanto custo mantido fora dos muros voltará e, mesmo que vocês vençam essa guerra, não haverá mais metrópole para ser governada. Acabou.     

O ministro parece profetizar o fim. Zombando-o, o general responde:

- Pois esse caos parece conveniente a mim.

- Upload completo, senhor.

Apavorado, o ministro olha atônito para os monitores. A partir daquele momento o Ministério da Informação havia deixado de existir.

- O que vocês fizeram...? – repete ele, caminhando de costas – O que vocês fizeram...?

Aproximando-se da janela, seus pés chegam na beirada do edifício. Com o vento soprando seu elegante terno, ele novamente diz:

- O que vocês fizeram...?

Então ele dá mais um passo e se joga, caindo na imensa altura e tirando sua vida.

 

 

  

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