(Arte de Dusty Crosley)
Assistindo em
seus monitores, um homem acompanha o avanço dos invasores pelo prédio. Ele
veste roupas elegantes e se abriga em seu requintado escritório, protegendo-se enquanto se preocupa com o que virá a seguir.
Explosões são
ouvidas e estremecem todas as paredes. Os invasores, um bando de terroristas e delinquentes da superfície, tomam andar por andar, eliminando os
policiais e rendendo os seguranças. De repente eles alcançam o
andar mais importante do prédio, a vasta sala dos servidores. Há pouco mais de
um mês uma runner o invadiu e o inferno se levantou em Sonata. Roubando
informação confidencial, os subversivos a usaram para corroborar o relato do Inimigo de Estado. Na verdade, foi com a informação
roubada que o Inimigo de Estado nasceu.
- Maldito
seja...! – irrita-se ele, referindo-se a Nathan.
O rapaz foi o
responsável pela maior rebelião da história de Sonata, e hoje ele traz consigo sua
horda, pilhando e queimando tudo em seu caminho. O homem o observa em seus monitores, acompanhando-o enquanto ele avança com os terroristas da 4 de Julho.
Na sala
dos servidores, os invasores rendem o último segurança e a tomam. O homem sussurra:
- Está tudo
acabado...
Aproximando-se, um
segurança o interrompe e então pergunta:
- Não é melhor
abandonar o edifício, ministro Arquimedes?
Desanimado, o
homem responde:
- Eu devo estar
aqui quando o ministério cair. Aliás, eu creio que posso convencê-los mais
tarde.
Preocupado, o
segurança pergunta:
- O senhor tem
certeza? São delinquentes e terroristas violentos lá fora.
- Sim, não se
preocupe. – respirando fundo, ele conclui – Vá para casa, amigo. Volte para sua
família. Não queira morrer aqui em vão.
O segurança sorri
e se despede.
- Obrigado,
ministro Arquimedes. Até a próxima.
Ajuntando sua
equipe, o segurança vai embora e o deixa sozinho.
Nos monitores, os
terroristas vasculham a sala de servidores. Agora em mãos inimigas, o ministro
sabe o que aquilo significa. “Se uma informação foi o suficiente para
começar a Rebelião, imagine o vazamento de trinta milhões”, pensa ele. Ele pensa em beber seu caríssimo uísque, mas todo o
álcool do mundo não poderia relaxar os seus nervos agora.
Minutos depois,
passos pesados são ouvidos e alguém chuta a sua porta, escancarando-a.
Sentado à sua mesa, o ministro permanece em silêncio enquanto sua sala é invadida por vários soldados apontando fuzis para ele. Um homem mais velho entra e o cumprimenta, dizendo:
- Ministro
Arquimedes? O seu reinado de espionagem e terror chega ao fim.
Sorrindo, o
ministro responde:
- Olá, General
Washington.
Em seguida o
rapaz entra. Suas roupas estavam encardidas devido a batalha.
- Nathan, conhece
o nosso novo amigo? – pergunta George.
- Temo que não,
general. Nunca o vi pessoalmente.
- Mas eu já o vi
pessoalmente, Inimigo de Estado. Pouco antes de você fugir da prisão e começar
todo esse inferno.
Sorrindo, o rapaz
responde:
- Perdoe minha
trapalhada, senhor ministro. Eu devia ter me calado e ter
permitido que cometessem genocídio.
- Você não entende. Nunca vai entender!
George pega seu comunicador e ordena:
- Chamem os
hackers! Quero todos esses arquivos no ciberespaço em trinta minutos!
- Na verdade, é
sobre isso que eu quero falar. – diz Arquimedes – Nathan, você não deve expor
as informações contidas aqui.
O rapaz se
intriga.
- Por que não?
- Com apenas uma
informação se deflagrou a Rebelião. Entretanto, este ministério armazena
mais de trinta milhões de arquivos. Imagine o estrago que poderia acontecer com
tamanha revelação!
Nathan ri.
- Está me apelando para manter em sigilo os séculos de terrorismo psicológico da espionagem
corporativa?
- Não é tão
simples. A espionagem foi necessária para estabilizar uma cidade habitada por
milhões. Após a catástrofe de 2057, deixa-la sem vigilância poderia levar ao
seu desfalecimento precoce! Mas não é sobre isso que me refiro.
Estou falando dos arquivos ultrassecretos.
Antes que pudesse
responde-lo, o general diz:
- Guarde suas
advertências, ministro! A liberdade de imprensa será o primeiro a nascer do
cadáver da censura aqui.
Trazendo seus óculos de realidade virtual, os hackers ocupam os computadores e acessam o
ciberespaço. Arquimedes é afastado de sua mesa e um hacker ocupa seu
computador, desbloqueando o sistema com dispositivos de
hackeamento.
Explosões são
ouvidas pelo céu, o combate aéreo ainda prosseguia lá fora. Irritado, George
pega seu comunicador e pergunta:
- Quanto tempo
até pacificarmos o prédio?
Um americano
responde no outro lado da linha:
“Trinta minutos,
senhor! Talvez mais”.
- Pois eu quero
em dez minutos! - exclama ele - Temos um trabalho a fazer aqui!
De repente as
janelas se estouram e uma onda de fogo invade o andar. Um aerocarro havia se
colidido contra o edifício.
- Apressem-se! –
ordena o general.
Matrizes alfanuméricas aparecem nos monitores. O banco de dados do Ministério da Informação era o maior que Nathan já viu. Milhões e milhões de dados aparecem contendo nomes de pessoas, setores e distritos. Era como se cada detalhe fosse registrado no supercomputador corporativo.
Uma explosão é ouvida no topo do edifício. Distraindo-se, o general pega seu comunicador e se afasta.
O rapaz se aproxima de um computador e acessa o banco de dados.
Como um espião do ministério, ele lê os arquivos confidenciais de um cidadão qualquer do
Setor D. Em espanto, ele percebe que o Ministério da Informação sabia tudo ao
seu respeito, até os mínimos detalhes. O cidadão tinha registrado suas
características físicas, sua primeira namorada, seu primeiro emprego, os
lugares que frequentava e os sites pornográficos que ele acessava. O ministério
sabia de seus adultérios, suas brigas de trânsito e de suas afiliações criminosas. Nas últimas linhas, o rapaz vê que o cidadão aderiu a
Rebelião e que participara das manifestações na Cúpula Corporativa. Ao
tomar dois tiros, o cidadão encontrava-se em um hospital clandestino controlado pela Resistência Purista.
Então Nathan tem uma brilhante ideia. Vasculhando os arquivos, ele procura pelos nomes de seu pai e mãe. Explosões estremecem o prédio, derramando poeira sobre os móveis. Com a batalha prosseguindo lá fora, ele precisava se apressar. Fazendo o upload, ele envia os dados diretamente ao Submundo, deixando para vê-los mais tarde.
Pegando bombas de
fumaça, George se aproxima das janelas e diz:
- Soldados! O
Ministério da Informação é nosso!
Então os
facciosos fazem o tradicional brado do Exército dos Estados Unidos.
- Hooah!
A 4 de Julho
comemora. Mais um inimigo havia caído. Com a vitória fácil, a facção recupera a
moral. Nathan se alegra também; a Rebelião se aproximava do fim.
- Parabéns,
general!
O rapaz lhe
estende a mão, mas George sorri e o abraça, apertando-o tão forte que estrala
suas costas.
Os americanos
atiram para o céu e estendem bandeiras nas janelas. Aerocarros passam buzinando
e eles ouvem fogos de artifício lá embaixo. Apesar da comemoração, os hackers continuam trabalhando ininterruptamente nos
computadores.
Acessando as
redes restritas, os americanos se espantam com seu alcance. As corporações
tinham toda a metrópole sob seu controle, operando com antenas distintas e
satélites independentes. Secretamente eles acumulavam dados dos quatro cantos
de Sonata, passando pelos ministérios e armazenadas no Ministério da
Informação.
Uma sensação de
vulnerabilidade se apodera de George. Ele percebe que as corporações
conheciam plenamente seu território, tendo em seu banco de dados os nomes de todos os membros da 4 de Julho. De fato, as redes secretas da facção não eram tão
secretas assim, pois todo o acesso era vigiado e registrado naquele obscuro
ministério. O general sentia que as corporações permitiam sua existência, tolerando-os para um propósito maior. Confuso, ele
deixa essa hipótese para depois.
Então uma pasta
lhes chama a atenção. Os hackers haviam encontrado os arquivos ultrassecretos. Os americanos pausam o que estão
fazendo para ver. Eles leem nomes como exterior, experimentos,
protótipos e vírus. Fascinados, era como se estivessem olhando para um tesouro às suas frentes,
hipnotizados pelo brilhante ouro. Com curiosidade inabalável, eles se apressam
a abri-los.
- Nathan, eu
imploro! – interrompe Arquimedes – Revelar essas informações condenará Sonata!
O rapaz responde:
- Sonata já está
condenada. Se esqueceu do Projeto Gemini?
Ignorando-o, o
ministro continua:
- A população não
pode saber o que escondemos aqui. Será um caminho sem volta!
Nathan se irrita.
- Eles têm o direito de saber!
Exibindo os arquivos, os invasores veem os segredos corporativos. Assim como
Nathan revelou, um vírus incurável trazido de Marte eliminou 95% da população mundial. O conglomerado industrial Sonata construiu
um último reduto para a humanidade, o último oásis habitável como eles costumavam dizer. Essa cidade seria construída sobre as ruínas de uma outrora grande
nação.
“Os Estados
Unidos...”, reconhece George.
Com o
desfalecimento da soberania nacional, Sonata teria território irrestrito para
realizar seu projeto. A nova cidade se localiza próxima a costa leste dos
Estados Unidos, a sudoeste da antiga capital. Convidando seus melhores
funcionários ao redor do mundo, a jovem metrópole recebeu populações
canadenses, europeias, latinas e asiáticas, sobretudo japonesas.
“A origem da
Bushido...”, pensa Nathan.
De fato, as
corporações realizavam experimentos em seus habitantes. Infectando o
abastecimento de água e adulterando a composição dos alimentos, muitos cidadãos adoeceram, mas outros sofreram bizarra mutação.
- Meu Deus! Qual é
a finalidade disto?! – espanta-se um americano.
Após anos de
ingestão de mutagênicos, os habitantes não mais sofriam mutação
evidente. Os dados revelam que o objetivo das experiências não era a mutação e
sim a adaptação das cobaias, mas não fica claro o motivo.
A seguir eles
veem uma lista de ex-ministros do Ministério da Informação. Ao ascenderem ao cargo eles tinham seus nomes mudados, adotando os curiosos nomes de figuras ilustres do passado. Nathan percorre a lista e encontra o nome de
Copérnico; Database falava a verdade sobre ele. O ex-ministro, e
atualmente o líder da Subtopia, foi banido por expor informações confidenciais.
Sua ficha mostra que ele não suportou ocultar segredos tão imorais,
recusando-se a continuar conivente com os experimentos.
Copérnico era o
responsável por falsificar as investigações sobre os desaparecimentos. Cidadãos
sequestrados ou presos eram classificados, simplesmente, como desaparecidos. Em sua ficha continham milhares e milhares de nomes, todos
confinados ou mortos dentro dos sinistros laboratórios corporativos.
Algo chama a
atenção de Nathan. O antecessor de Copérnico também consta como desaparecido.
Semelhante ao líder da Subtopia, ele também foi condenado pelas corporações,
mas não por expor os arquivos ultrassecretos, mas desvia-los. Sua pena foi o banimento, mas ele fugiu antes de o pegarem, permanecendo desaparecido desde
então. O rapaz lê seu nome ministerial.
- Descartes...
Os arquivos sobre
os banidos contém dezenas de milhares de nomes. A maioria são presos políticos,
acusados de subversão e afiliação a terroristas. Vídeos os mostram sendo levados para além do muro de Contenção e deixados no exterior para
morrer. Os policiais lhes davam casacos, mantimentos e uma máscara de gás. Os banidos choram e imploram para que os policiais voltem. Muitos apelam dizendo que têm esposa e filhos, mas, infelizmente, já estava selado seu destino.
Lágrimas se
formam em seus olhos. Nathan percebe que muitos filhos cresceriam sem pais.
Olhando para
Arquimedes, o General Washington pergunta:
- Então é isso o
que aconteceu com os meus soldados? Eles não estão desaparecidos?
Em seus olhos
havia o fervente ódio dos indignados sedentos por justiça. O ministro responde:
- Vocês não
entendem... Estas informações devem permanecer em segredo...!
Os americanos
clamavam por vingança. O rapaz temia que Arquimedes fosse trucidado ali.
- E o que há para
se entender, verme?
Ofegante, o
ministro controla o nervosismo e responde:
- As corporações
trabalham pela sobrevivência da metrópole! Essas espionagens, experiências e
banimentos são um mal necessário, o alto preço a se pagar
para sobreviver!
O general cerra
furiosamente os dentes.
- Por acaso você
fez experiências em meus homens ainda vivos?
Arquimedes meneia
negativamente a cabeça.
- Vocês não
entendem...
Nathan nota que
George segurava muito firmemente sua arma. Ele temia uma execução.
Aproximando-se, ele diz:
- General Washington,
nós vencemos. Acabou.
Mas em suas veias
corria o ódio assassino e terrorista da 4 de Julho.
- Não, não acabou,
Inimigo de Estado. Ainda resta um último inimigo a ser abatido.
O rapaz insiste.
- É um inimigo rendido, George. Não há necessidade de abatê-lo. Era costume do exército americano executar os prisioneiros?
Questionado, o
general pondera. Nathan tinha razão. Ele se acalma e guarda sua arma.
- Você está
certo. Somos civilizados... Democratas... Livres... Não somos fascistas.
Respirando fundo, o rapaz se alivia.
- Você fez bem,
general. Arquimedes será mais útil vivo.
- É como disse o
pai fundador Benjamin Franklin: “tome conselhos com o vinho, mas tome decisões
com a água”. – arrumando-se, o general diz – Vamos, Inimigo de Estado. Vamos
comemorar nossa vitória em paz.
Interrompendo-os,
um hacker diz:
- Senhor, as
informações estão prontas para serem liberadas no ciberespaço.
Olhando para os
monitores, George responde:
- Podem liberar.
- Não! – protesta
Arquimedes, assustando-os – Vocês não podem fazer isso! Vocês não podem condenar
Sonata!
Entediado, o
general diz:
- Ainda servindo
as corporações como um cão adestrado?
Os dados começam
a ser liberados. Iniciado o processo, não havia mais volta. O ministro exclama:
- Bando de
insensatos e irresponsáveis! O que vocês fizeram?!
Desta vez é
Nathan quem se irrita.
- Mas o que há de
errado com você? Por que se preocupa tanto?
Arquimedes ri de
indignação.
- Vocês ainda não
compreendem, não é? Ao publicarem as informações ultrassecretas, os cidadãos se
revoltarão. A sua patética rebelião de terroristas e marginais também não
poderá conte-los. Os cidadãos sabotarão as indústrias, cortarão as linha de
abastecimento e atravessarão a Contenção a procura de seus entes banidos. Será
um caos sem precedentes e a ruína de Sonata. O vírus a tanto custo mantido fora
dos muros voltará e, mesmo que vocês vençam essa guerra, não haverá mais
metrópole para ser governada. Acabou.
O ministro parece
profetizar o fim. Zombando-o, o general responde:
- Pois esse caos parece conveniente a mim.
- Upload
completo, senhor.
Apavorado, o
ministro olha atônito para os monitores. A partir daquele momento o Ministério
da Informação havia deixado de existir.
- O que vocês
fizeram...? – repete ele, caminhando de costas – O que vocês fizeram...?
Aproximando-se da janela, seus pés chegam na beirada do edifício. Com o vento soprando seu elegante terno, ele novamente diz:
- O que vocês
fizeram...?
Então ele dá mais
um passo e se joga, caindo na imensa altura e tirando sua vida.

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