(Arte de Thomas Dubois)
Deitado em seu
quarto, Nathan descansa. Ele olha para a tela de seu notebook e
hesita, ele ainda não tinha coragem abrir os arquivos do Ministério da
Informação sobre os seus pais. Respirando fundo, ele fecha o computador.
De repente seu
celular toca. Lendo a mensagem, Database queria vê-lo.
Database o
espionava em seu monitor. Instaladas em pontos ocultos de seu quarto, câmeras
secretas o vigiavam. O chefe sabia sobre os arquivos de seus pais. Desde o dia
em que o ministério foi tomado, os rastreadores interceptaram o envio de
arquivo ao Submundo. Database decididamente quis lê-lo e, antes mesmo do
próprio Nathan, ele já sabia tudo sobre a vida de seus pais.
Diligentemente o
chefe apagou as partes comprometedoras e incriminatórias, adulterando-o. Seus
pais tinham envolvimento com a superfície. Se Nathan tivesse de saber sobre o
seu passado, seria apenas o quanto Database quisesse revelar.
Encostando-se em
sua poltrona, o chefe sorri. Database era um homem astuto e poderoso; ele
jamais deixaria um moleque ingênuo dos níveis superiores manipula-lo.
Abrindo a porta,
Nathan o encontra em sua sala escura. Database olhava para ele, iluminado pelas
dezenas de monitores em sua parede.
- Olá, chefe.
Queria me ver?
Assentindo, ele
responde:
- Olá, Nathan.
Sente-se, por favor. – o chefe lhe indica uma cadeira e o serve um copo de
uísque – O conselho me ligou. Haverá um ataque hoje à noite. O alvo
será a corporação Cellgenesis.
O rapaz pondera.
A Cellgenesis era a corporação responsável pela engenharia genética em Sonata.
Sua avançada tecnologia desenvolvia aprimoramentos celulares capazes de criar
órgãos artificiais, restaurar tecidos queimados, reverter
deficiências físicas e, em alguns casos, dispensar o uso de biopróteses em
paralíticos. O serviço prestado à sociedade era essencial, rivalizando com a
outra gigante Bio Prótesis, tomada recentemente.
- E quem vai
participar do ataque? – pergunta Nathan.
- A Resistência
Purista.
O rapaz sorri.
- É claro... Quem
mais seria?
- Só que tem um
coisa. Você não irá junto desta vez.
Ao ouvi-lo, o
rapaz se assusta.
- Como não?
- Os puristas
precisam de alguém com as habilidades adequadas para o ataque.
- Eles pretendem
lutar na Rebelião sem o Inimigo de Estado?!
- Sim. E eles
querem a pessoa certa para o serviço.
O rapaz
desconfia.
- Serviço? E quem
seria essa pessoa?
- Laura.
- O quê?!
Apoiando-se em
sua mesa, o chefe continua:
- Devido ao seu
histórico de serviços e às suas habilidades, eles pediram o acompanhamento de Laura.
Nathan exclama:
- Database, eles
não querem lutar na Rebelião! Eles querem roubar a tecnologia corporativa!
Cruzando os
braços, o chefe responde:
- Eu não duvido,
mas também o quiseram os Trans-humanistas na Bio Prótesis. Todos queremos algo,
Nathan. Atacar alvos difíceis pelo desejo bobo de recuperar a honra, como a
Bushido, ou atacar alvos irrelevantes pelo desejo bobo de restaurar a
instituição religiosa, como os Clérigos do Recomeço. Ninguém é inocente.
- Você me faz
pensar que os objetivos das facções são bobos, mas são muito mais sérios os
objetivos dos mecanicistas e dos puristas. E você não se importa?
- Os puristas são
nossos aliados e meus antigos clientes do Mystique. Gostaria que as coisas
fossem diferentes, mas não são.
- Então já está decidido?
Database respira fundo.
- Lamento,
Nathan, mas eu não pude fazer nada.
§
Algumas horas
antes.
Através dos becos
sujos da superfície, Laura conduz seu pai pelos braços. Ele está claramente
embriagado, mas ainda assim consciente de si mesmo. A runner diz:
- Venha, pai. Eu
vou leva-lo para casa.
Preocupado, ele
pergunta:
- Você tem
certeza, filha? Você me conhece. Sabe que eu não consigo mudar.
- Não importa.
Você é o meu pai e eu sempre o amarei por isso.
Assentindo, o
velho pergunta:
- Seu apartamento
tem espaço? Você me disse que ele é muito pequeno.
- Não tem
problema. Eu alugarei um maior para nós dois.
- Eu sou um velho
alcóolatra e fedorento, Laura. E se me impedirem de morar junto?
A garota ri.
- Não se
preocupe. Ninguém tentará impedir. – assegura ela.
Seu pai se
assusta com a segurança dela. Ele sabe que a garota é muito respeitada e temida
na superfície.
- E você tem
dinheiro para alugar um outro apartamento, filha?
- Eu consigo um
dinheiro por aí.
- Minha filha, eu
não quero que você faça coisa errada. Você pode se machucar!
A garota se
irrita.
- Nós vamos falar nisso de novo, pai!?
Então o velho se
cala.
Chegando ao seu
apartamento, Laura pede que seu pai tome um banho. O velho não consegue se
equilibrar e a garota é obrigada a despi-lo e ajuda-lo a se lavar. Ela nota
como ele está magro e doente. Esfregando-o, a água desce preta de tão suja. A
garota pega suas roupas velhas e as joga no lixo, recusando-se a lava-las.
- Eu vou te
trazer uma toalha.
Enquanto seu pai
se enxuga, ela lhe traz roupas limpas. O velho pergunta:
- Minha filha, de
onde você tirou essas roupas?
- Eu as comprei
para você.
Em silêncio, ele
percebe que ela havia preparado tudo para a sua chegada.
Vestindo-se, o
velho se senta na cama. Sua barba e cabelo perderam a cor loira e estavam todos
grisalhos. Pegando um pente, a garota carinhosamente penteia seus cabelos para
o lado. Ele não era um senhor feio, afinal, mas se prejudicou devido ao seu
degradante vício.
Sentando-se ao
seu lado, Laura diz:
- Embora eu não
goste, eu sei que você precisa disso, pai. – então ela tira uma garrafa de
vodca de sua mochila.
O velho se
surpreende.
- Por que você
está fazendo isso, filha?
Encolhendo-se,
ela diz:
- Porque eu quero
te pedir perdão...
E então ela
começa a chorar. Seu pai a abraça e apoia sua cabeça em seu ombro.
- Pelo o quê,
minha filha? Sou eu quem te fez mal. Eu que te devo perdão.
- Não... –
discorda ela – Eu te julguei mal e eu me arrependo tanto...
Lágrimas se
escorrem dos olhos do velho também. Ele se controla para responder:
- Tudo bem, minha
filha. Eu te perdoo e também peço perdão.
Minutos se
passam. Então a garota diz:
- Eu sinto tanta
falta da minha mãe...
Lembrando-se de
Ultra, o coração do velho se aperta.
- A sua
mãe foi embora, minha filha. E já faz tanto tempo.... Aceite que ela se foi.
A garota parece
confusa.
- Eu não
consigo... – responde ela – Eu não consigo aceitar que ela se foi. O desejo de
encontrá-la é maior e me motiva a continuar procurando. E eu continuarei
procurando e procurando e procurando...
Ponderando, o
velho responde:
- E se você não
precisar procura-la, minha filha? Olhe para você agora. Você se tornou tão
forte quanto ela! Ultra pode não estar aqui agora, mas você é a parte dela
que ficou e sempre ficará. Pelo menos no meu coração velho e rabugento... –
brinca ele – E nada poderá mudar isso.
Seu pai estava
certo. A garota se lembra que estava idêntica à sua mãe.
“E se,
metaforicamente, eu me tornei ela?”, reflete Laura. “Se na memória uma pessoa
não morre, imagine em mim, que sou sua filha?”.
Afastando esses
pensamentos, ela se recompõe.
Algum tempo
depois ela diz:
- Pai, eu comprei
comida. Também deixei algum dinheiro, não muito, caso precise. Você pode ficar
aqui.
O velho olha para
seu minúsculo apartamento e vê apenas uma cama. Intrigado, ele pergunta:
- Minha filha,
mas se eu ficar aqui, onde é que você vai dormir?
- Não se
preocupe, pai. Eu já tenho tudo arranjado. Quando eu voltar, nós nos mudaremos daqui.
Seu pai ainda não
entende.
- Vai a algum
lugar?
- Eu tenho um
serviço hoje à noite.
- Que tipo de
serviço?
A garota se
recusa a responder.
- Você não
entenderia.
Um pouco rígido,
o velho comenta:
- Eu me casei com
a maior runner de todos os tempos, Laura. É claro que eu vou entender.
Normalmente Laura
se mostraria uma garota inflexível, mas ela não queria se afastar de seu
pai.
- É sobre a
Rebelião. Eu tenho um serviço na Cellgenesis.
Então seus olhos se
arregalam.
- Na
Cellgenesis?! – exclama ele – Laura! Mas esse serviço é muito arriscado!
- Pai, por
favor...!
- Não! Não tem
por favor! Você pretende atacar as corporações! Elas são muito poderosas, minha
filha!
- Pai, eu sempre realizei
serviços arriscados e perigosos! Por que se preocupar agora?
Abatido, o velho
se esforça a responder.
- Porque foi na
Cellgenesis que eu perdi sua mãe!
A garota se cala.
Novamente as coincidências com Ultra se revelavam.
- Mas, pai...
- Laura, eu já
perdi sua mãe. Não vou suportar te perder também.
Laura pensa, mas não
consegue encontrar uma saída. Ela sabe que não se pode desonrar um compromisso
feito com as facções.
- Me desculpe,
pai. Mas eu preciso ir.
- Por quê?
- É um favor que
me fizeram e agora eu tenho de pagar esse favor.
- E para quem
você deve esse favor?
- A Resistência
Purista.
O seu pai se
estarrece.
- Mas por que
você está se envolvendo com essa gente, minha filha?!
- Eles me
ajudaram a libertar o Vertigo, mas então descobrimos que ele nos traiu e se aliou aos Trans-humanistas. – suspirando, ela diz – Me
desculpe, pai, mas essa é uma longa história...
Confuso, o velho
pergunta:
- Vertigo, um
traidor? Ele não era seu amiguinho de infância?
O velho sente
dificuldade ao lembrar. Levantando-se, a garota diz:
- Me desculpe,
pai, mas eu tenho que ir. Se eu não for, eles virão atrás de mim e eu não posso
arriscar a sua segurança.
Vendo o passado
se repetindo diante de seus olhos, o velho adverte:
- Minha filha, se
você for, você pode não voltar mais.
Laura percebe
também. A história se repete. Então ela simplesmente diz:
- Me desculpe.
§
Horas se passam.
Caminhando pelo
Submundo, Laura entra na sala de Database e alguém diz:
- Oh, aí está
você. Pronta para o serviço esta noite?
Nos monitores,
Laura vê o rosto de Nasier, o líder da Resistência Purista. Ela pergunta:
- Se eu for, a
minha dívida estará paga?
Sorrindo, ele
responde:
- Isso dependerá
de você.
Nasier se referia
ao êxito de Laura em conseguir roubar a tecnologia corporativa.
Database os
interrompe.
- Você tem
certeza de que não precisará do Inimigo de Estado?
- Absoluta. –
reforça ele – Eu não posso permitir que aquele moleque atrapalhe os meus
planos.
O chefe assente.
- Está bem.
- Tudo certo
então?
A runner
responde:
- Sim.
- Ótimo. – sorri
ele, satisfeito – Vamos atacar a Cellgenesis!

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