quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Sonata - 53 - A História se Repete

 



(Arte de Thomas Dubois)


Deitado em seu quarto, Nathan descansa. Ele olha para a tela de seu notebook e hesita, ele ainda não tinha coragem abrir os arquivos do Ministério da Informação sobre os seus pais. Respirando fundo, ele fecha o computador.

De repente seu celular toca. Lendo a mensagem, Database queria vê-lo.

Database o espionava em seu monitor. Instaladas em pontos ocultos de seu quarto, câmeras secretas o vigiavam. O chefe sabia sobre os arquivos de seus pais. Desde o dia em que o ministério foi tomado, os rastreadores interceptaram o envio de arquivo ao Submundo. Database decididamente quis lê-lo e, antes mesmo do próprio Nathan, ele já sabia tudo sobre a vida de seus pais.

Diligentemente o chefe apagou as partes comprometedoras e incriminatórias, adulterando-o. Seus pais tinham envolvimento com a superfície. Se Nathan tivesse de saber sobre o seu passado, seria apenas o quanto Database quisesse revelar.

Encostando-se em sua poltrona, o chefe sorri. Database era um homem astuto e poderoso; ele jamais deixaria um moleque ingênuo dos níveis superiores manipula-lo.

Abrindo a porta, Nathan o encontra em sua sala escura. Database olhava para ele, iluminado pelas dezenas de monitores em sua parede.

- Olá, chefe. Queria me ver?

Assentindo, ele responde:

- Olá, Nathan. Sente-se, por favor. – o chefe lhe indica uma cadeira e o serve um copo de uísque – O conselho me ligou. Haverá um ataque hoje à noite. O alvo será a corporação Cellgenesis.

O rapaz pondera. A Cellgenesis era a corporação responsável pela engenharia genética em Sonata. Sua avançada tecnologia desenvolvia aprimoramentos celulares capazes de criar órgãos artificiais, restaurar tecidos queimados, reverter deficiências físicas e, em alguns casos, dispensar o uso de biopróteses em paralíticos. O serviço prestado à sociedade era essencial, rivalizando com a outra gigante Bio Prótesis, tomada recentemente.

- E quem vai participar do ataque? – pergunta Nathan.

- A Resistência Purista.

O rapaz sorri.

- É claro... Quem mais seria?

- Só que tem um coisa. Você não irá junto desta vez.

Ao ouvi-lo, o rapaz se assusta.

- Como não?

- Os puristas precisam de alguém com as habilidades adequadas para o ataque.

- Eles pretendem lutar na Rebelião sem o Inimigo de Estado?!

- Sim. E eles querem a pessoa certa para o serviço.

O rapaz desconfia.

- Serviço? E quem seria essa pessoa?

- Laura.

- O quê?!

Apoiando-se em sua mesa, o chefe continua:

- Devido ao seu histórico de serviços e às suas habilidades, eles pediram o acompanhamento de Laura.

Nathan exclama:

- Database, eles não querem lutar na Rebelião! Eles querem roubar a tecnologia corporativa!

Cruzando os braços, o chefe responde:

- Eu não duvido, mas também o quiseram os Trans-humanistas na Bio Prótesis. Todos queremos algo, Nathan. Atacar alvos difíceis pelo desejo bobo de recuperar a honra, como a Bushido, ou atacar alvos irrelevantes pelo desejo bobo de restaurar a instituição religiosa, como os Clérigos do Recomeço. Ninguém é inocente.

- Você me faz pensar que os objetivos das facções são bobos, mas são muito mais sérios os objetivos dos mecanicistas e dos puristas. E você não se importa?

- Os puristas são nossos aliados e meus antigos clientes do Mystique. Gostaria que as coisas fossem diferentes, mas não são.

- Então já está decidido?

Database respira fundo.

- Lamento, Nathan, mas eu não pude fazer nada.

 

§

 

Algumas horas antes.

Através dos becos sujos da superfície, Laura conduz seu pai pelos braços. Ele está claramente embriagado, mas ainda assim consciente de si mesmo. A runner diz:

- Venha, pai. Eu vou leva-lo para casa.

Preocupado, ele pergunta:

- Você tem certeza, filha? Você me conhece. Sabe que eu não consigo mudar.

- Não importa. Você é o meu pai e eu sempre o amarei por isso.

Assentindo, o velho pergunta:

- Seu apartamento tem espaço? Você me disse que ele é muito pequeno.

- Não tem problema. Eu alugarei um maior para nós dois.

- Eu sou um velho alcóolatra e fedorento, Laura. E se me impedirem de morar junto?

A garota ri.

- Não se preocupe. Ninguém tentará impedir. – assegura ela.

Seu pai se assusta com a segurança dela. Ele sabe que a garota é muito respeitada e temida na superfície.

- E você tem dinheiro para alugar um outro apartamento, filha?

- Eu consigo um dinheiro por aí.

- Minha filha, eu não quero que você faça coisa errada. Você pode se machucar!

A garota se irrita.

- Nós vamos falar nisso de novo, pai!?

Então o velho se cala.

Chegando ao seu apartamento, Laura pede que seu pai tome um banho. O velho não consegue se equilibrar e a garota é obrigada a despi-lo e ajuda-lo a se lavar. Ela nota como ele está magro e doente. Esfregando-o, a água desce preta de tão suja. A garota pega suas roupas velhas e as joga no lixo, recusando-se a lava-las.

- Eu vou te trazer uma toalha.

Enquanto seu pai se enxuga, ela lhe traz roupas limpas. O velho pergunta:

- Minha filha, de onde você tirou essas roupas?

- Eu as comprei para você.

Em silêncio, ele percebe que ela havia preparado tudo para a sua chegada.

Vestindo-se, o velho se senta na cama. Sua barba e cabelo perderam a cor loira e estavam todos grisalhos. Pegando um pente, a garota carinhosamente penteia seus cabelos para o lado. Ele não era um senhor feio, afinal, mas se prejudicou devido ao seu degradante vício.

Sentando-se ao seu lado, Laura diz:

- Embora eu não goste, eu sei que você precisa disso, pai. – então ela tira uma garrafa de vodca de sua mochila.

O velho se surpreende.

- Por que você está fazendo isso, filha?

Encolhendo-se, ela diz:

- Porque eu quero te pedir perdão...

E então ela começa a chorar. Seu pai a abraça e apoia sua cabeça em seu ombro.

- Pelo o quê, minha filha? Sou eu quem te fez mal. Eu que te devo perdão.

- Não... – discorda ela – Eu te julguei mal e eu me arrependo tanto...

Lágrimas se escorrem dos olhos do velho também. Ele se controla para responder:

- Tudo bem, minha filha. Eu te perdoo e também peço perdão.

Minutos se passam. Então a garota diz:

- Eu sinto tanta falta da minha mãe...

Lembrando-se de Ultra, o coração do velho se aperta.

- A sua mãe foi embora, minha filha. E já faz tanto tempo.... Aceite que ela se foi.

A garota parece confusa.

- Eu não consigo... – responde ela – Eu não consigo aceitar que ela se foi. O desejo de encontrá-la é maior e me motiva a continuar procurando. E eu continuarei procurando e procurando e procurando...

Ponderando, o velho responde:

- E se você não precisar procura-la, minha filha? Olhe para você agora. Você se tornou tão forte quanto ela! Ultra pode não estar aqui agora, mas você é a parte dela que ficou e sempre ficará. Pelo menos no meu coração velho e rabugento... – brinca ele – E nada poderá mudar isso.

Seu pai estava certo. A garota se lembra que estava idêntica à sua mãe.

“E se, metaforicamente, eu me tornei ela?”, reflete Laura. “Se na memória uma pessoa não morre, imagine em mim, que sou sua filha?”.

Afastando esses pensamentos, ela se recompõe.

Algum tempo depois ela diz:

- Pai, eu comprei comida. Também deixei algum dinheiro, não muito, caso precise. Você pode ficar aqui.

O velho olha para seu minúsculo apartamento e vê apenas uma cama. Intrigado, ele pergunta:

- Minha filha, mas se eu ficar aqui, onde é que você vai dormir?

- Não se preocupe, pai. Eu já tenho tudo arranjado. Quando eu voltar, nós nos mudaremos daqui.

Seu pai ainda não entende.

- Vai a algum lugar?

- Eu tenho um serviço hoje à noite.

- Que tipo de serviço?

A garota se recusa a responder.

- Você não entenderia.

Um pouco rígido, o velho comenta:

- Eu me casei com a maior runner de todos os tempos, Laura. É claro que eu vou entender.

Normalmente Laura se mostraria uma garota inflexível, mas ela não queria se afastar de seu pai.

- É sobre a Rebelião. Eu tenho um serviço na Cellgenesis.

Então seus olhos se arregalam.

- Na Cellgenesis?! – exclama ele – Laura! Mas esse serviço é muito arriscado!

- Pai, por favor...!

- Não! Não tem por favor! Você pretende atacar as corporações! Elas são muito poderosas, minha filha!

- Pai, eu sempre realizei serviços arriscados e perigosos! Por que se preocupar agora?

Abatido, o velho se esforça a responder.

- Porque foi na Cellgenesis que eu perdi sua mãe!

A garota se cala. Novamente as coincidências com Ultra se revelavam.

- Mas, pai...

- Laura, eu já perdi sua mãe. Não vou suportar te perder também.

Laura pensa, mas não consegue encontrar uma saída. Ela sabe que não se pode desonrar um compromisso feito com as facções.

- Me desculpe, pai. Mas eu preciso ir.

- Por quê?

- É um favor que me fizeram e agora eu tenho de pagar esse favor.

- E para quem você deve esse favor?

- A Resistência Purista.

O seu pai se estarrece.

- Mas por que você está se envolvendo com essa gente, minha filha?!

- Eles me ajudaram a libertar o Vertigo, mas então descobrimos que ele nos traiu e se aliou aos Trans-humanistas. – suspirando, ela diz – Me desculpe, pai, mas essa é uma longa história...

Confuso, o velho pergunta:

- Vertigo, um traidor? Ele não era seu amiguinho de infância?

O velho sente dificuldade ao lembrar. Levantando-se, a garota diz:

- Me desculpe, pai, mas eu tenho que ir. Se eu não for, eles virão atrás de mim e eu não posso arriscar a sua segurança.

Vendo o passado se repetindo diante de seus olhos, o velho adverte:

- Minha filha, se você for, você pode não voltar mais.

Laura percebe também. A história se repete. Então ela simplesmente diz:

- Me desculpe.

 

§

 

Horas se passam.

Caminhando pelo Submundo, Laura entra na sala de Database e alguém diz:

- Oh, aí está você. Pronta para o serviço esta noite?

Nos monitores, Laura vê o rosto de Nasier, o líder da Resistência Purista. Ela pergunta:

- Se eu for, a minha dívida estará paga?

Sorrindo, ele responde:

- Isso dependerá de você.

Nasier se referia ao êxito de Laura em conseguir roubar a tecnologia corporativa.

Database os interrompe.

- Você tem certeza de que não precisará do Inimigo de Estado?

- Absoluta. – reforça ele – Eu não posso permitir que aquele moleque atrapalhe os meus planos.

O chefe assente.

- Está bem.

- Tudo certo então?

A runner responde:

- Sim.

- Ótimo. – sorri ele, satisfeito – Vamos atacar a Cellgenesis!

 

 

 

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