(Arte de Pavel Elagin)
O Submundo está
em festa. Comemorando nos corredores, os runners sorriem e aplaudem Nathan.
Todos se surpreendem como o rapaz está mudando e evoluindo. Ao mostrar
disposição para o combate, mais os runners o aceitam e o respeitam. Suas roupas
sujas e seu corpo ferido comprovam isso.
O runner de nome
Retro diz:
- Vocês
precisavam ver! Nathan surgiu através da fumaça azul como um herói libertador! Todo
o povo viu! Sua imagem estará em todos os noticiários amanhã!
Uma garota
comenta:
- Isso ainda não
é nada! Vocês o viram nos terraços? Ele empunhou sua arma e atirou! Até matou
gente!
Envergonhado, o
rapaz responde:
- Eu não tenho
certeza se eles realmente morreram...
- E ele invadindo
a sala do ministro com aquele pirado do General Washington? Simplesmente
espetacular! – comenta outro.
- Não se esqueçam
que o equipamento novo veio graças a Nathan também. Quem aí gostou das
armaduras? Eu simplesmente adorei!
Um runner comenta:
- Eu gostei mais
dos rifles lasers! As submetralhadoras eram imprecisas e não faziam nem cócegas
no inimigo!
- A armadura
salvou minha vida! Chega de tomar tiros da polícia! Da última vez eu tomei três
tiros e fiquei doze horas na sala de cirurgia...
Outro comenta:
- Eu tomei alguns
tiros no assalto ao Ministério da Informação, mas estou tão acostumado que
poderia arrancar as balas e masca-las como chiclete!
- Nem mesmo o
líder da 4 de Julho se conteve. Eu o vi chamar Nathan de Inimigo de Estado!
- Um brinde ao
Inimigo de Estado!
Passando-lhe uma
garrafa, os runners abrem cervejas e começam a beber.
Distraído com
seus amigos, um segurança biônico toca seu ombro e diz:
- O Database quer
vê-lo.
Sentado em sua
poltrona, o chefe assiste seus monitores em silêncio. Nathan entra e,
segurando uma garrafa de cerveja, o cumprimenta.
- Olá, Database.
Queria me ver?
Ao vê-lo, o chefe
responde:
- Olá, Nathan.
Desculpe eu atrapalhar sua festa, mas eu precisava lhe perguntar algo. – inclinando-se,
ele pergunta – O que você fez lá em cima?
O rapaz não
entende.
- Como assim?
- Você e seus
amigos americanos divulgaram arquivos confidenciais corporativos. A mídia, a
população e o ciberespaço inteiro estão agitados agora. Você faz ideia do que
fez?
Nathan não
consegue entender sua reação.
- Por que a
preocupação, chefe?
Apontando para
seu monitores, ele lhe mostra os efeitos da divulgação. O rapaz vê as
corporações sendo invadidas, mercados sendo incendiados e alimentos sendo
queimados. Em outro vídeo, Nathan vê aerocarros tentando atravessar o muro de
Contenção e sendo abatidos pelos canhões autômatos da polícia. Estarrecido, ele
vê que alguns aerocarros se explodiam com famílias inteiras dentro.
- Meu Deus...!
- Você foi o
responsável por isso, Nathan?
- Não. – responde
ele – Foram os americanos que divulgaram.
- Por quê?
- O general falou
algo sobre os valores americanos e os direitos constitucionais à liberdade de
expressão...
- Você não tentou
impedi-los?
- Por que eu
tentaria? – defende-se ele – Eu argumentei algo a princípio, mas, quando a
divulgaram, eu não impedi.
Um vídeo mostra o
ministro se jogando da janela de sua sala. Os noticiários filmam detalhadamente seu corpo caindo em direção à escuridão lá embaixo. Database pergunta:
- Vocês o
mataram?
- Não. – nega ele
– Arquimedes não suportou ver os segredos sendo revelados. Ele decidiu tirar a
própria vida.
Database assente.
Coçando seu queixo, ele diz:
- Por falar em
tirar a vida, veja esse vídeo.
As imagens exibem
um homem ajoelhado e com as mãos presas para trás. Há uma venda em seus olhos e
o rapaz o reconhece. É Galileu. Ao seu redor ele vê vários samurais em suas
armaduras. Outro samurai, vestido com uma armadura preta e vermelha, olha para
a câmera e profere discursos facciosos. Nathan o reconhece. É o Xogum Tokugawa.
O xogum fala
sobre a tomada do Ministério da Segurança Pública e a chegada de uma nova era
em Sonata. Ele afirma que em breve governará toda a metrópole e que não
tolerará colaboradores do antigo império corporativo.
“Império...?”,
intriga-se Nathan.
Tokugawa condena
todas as formas de covardia, traição e colaboração com o inimigo.
Desembainhando sua espada, ele a ergue e, em um único golpe, decepa a cabeça do
ministro. De olhos arregalados, o rapaz vê sua cabeça rolar e seu
corpo cair sem vida no piso. Então o vídeo acaba.
Com semblante
decepcionado, Nathan fecha os olhos.
- Algum problema,
Nathan?
Ele responde:
- Eu realmente
não pensei que Tokugawa fosse executa-lo quando o levou prisioneiro.
Database sorri.
- Você está
lidando com assassinos e terroristas, Nathan. Quantos mais terão de morrer para
você perceber isso?
- Há assassinos
na superfície também.
Apontando para os
noticiários, o chefe o repreende, dizendo:
- Peço que tenha
mais responsabilidade em sua rebelião, Nathan. O ímpeto rebelde deve ser
estrategicamente direcionado à derrubada das corporações, e não ao caos
generalizado e desfocado de seu objetivo.
- Objetivo?
Pensei que você estivesse preocupado com as vidas perdidas na Rebelião.
- E eu pensei que
você não se preocupasse mais com isso, afinal agora você é o Inimigo de Estado,
não é mesmo?
Os dois se
provocavam mutuamente. Nathan buscava autonomia, mas sabia que não podia ficar
sem Database e sua vasta rede de comunicações.
O rapaz vê uma
explosão nos monitores. Um aerocarro é abatido ao tentar atravessar a Contenção. Após sua ida ao Setor L, a polícia havia instalado canhões para
impedir novos incidentes, mas as autoridades não esperavam que eles realmente
fossem usados. Devido ao alto nível de toxicidade no exterior, ninguém seria
louco o bastante para partir. Porém, com a divulgação dos arquivos
ultrassecretos, os cidadãos estavam ávidos para procurar por seus familiares
desaparecidos. E Nathan foi o responsável por isso.
Database estava
certo. A Rebelião havia perdido um pouco do foco. Da revolta coletiva as
pessoas migraram para o interesse pessoal. Procurar por um familiar
desaparecido era mais importante; a Rebelião podia esperar. Mas nem tudo estava
perdido. A polícia se ocupava na Contenção, se sobrecarregando ainda mais, e aqueles
que não tinham parentes desaparecidos se mantinham na luta, manifestando-se nas
passarelas e vandalizando as corporações.
“Não perdemos
força”, pensa Nathan. “A Rebelião ainda não acabou”.
O rapaz termina
sua garrafa e então dá as costas, intentando ir embora. Database intervém:
- A propósito,
hoje à noite você terá uma folga. Não é seguro sair agora que a população está tão afoita.
Nathan ri.
- Há um mês eu venho
tomando tiros da polícia, dos terroristas e dos seguranças corporativos. Mas
obrigado por se preocupar...
O chefe continua:
- Mas amanhã você
tem compromisso.
Interessando-se,
o rapaz pergunta:
- Com quem?
- Com aqueles que
fizeram de você um assassino. – provoca ele – Os Clérigos do Recomeço.
Nathan se
desconcerta, mas, ficando em silêncio, vai embora. Então Database se
encosta em sua poltrona e bebe um gole de seu uísque.
§
Em um aerocarro
com mais três runners, o rapaz segue ao distrito de Deco, Setor E. Chovia
aquela noite, mas as gotas não podiam apagar os focos de incêndio provocados
pela população.
Descendo sobre os
terraços, os runners observam seu alvo. Eles intentavam invadir a Corporação
Electro Core. Memórias inundam sua mente. Durante anos ele trabalhou naquele
prédio e hoje ele intentava ataca-lo. O destino foi irônico. Quando ele
trabalhava ele queria deixa-lo, mas hoje que ele não mais trabalha, ele quer
invadi-lo. O rapaz sorri.
Ele se lembra de
algo, o prédio da Electro Core tinha arquitetura Deco. Isso explica o nome
daquele distrito. Com linhas retas e desenhos imponentes, o prédio se elevava
pelos ares. Apesar de antiquada, Nathan enxergava uma bela construção de
arquitetura exótica.
Gritos são
ouvidos lá embaixo. Aproximando-se do parapeito, Nathan vê as
passarelas lotadas de manifestantes. Há pichações nas paredes e pilhas de
incêndio por toda parte. Aquela não era uma manifestação comum, mas uma espontânea sem qualquer motivação política. As pessoas estavam lá
para causar a destruição.
Aeronaves se
aproximam. Sobrevoando o prédio, eles veem os Clérigos do Recomeço. Então a
facção faz algo imprevisto. Os canhões das aeronaves apontam e atiram,
destruindo os letreiros e as fachadas do prédio corporativo. As explosões se
elevam, espalhando seus fragmentos. O rapaz se espanta.
- Nathan! Nós não
deveríamos coordenar o ataque? – pergunta um runner.
O rapaz está
confuso. Sem a menor estratégia ou planejamento, os clérigos atacavam sozinhos
a Electro Core.
Sobrevoando em
círculos, as aeronaves atiram incessantemente, arrasando o prédio e derrubando
os estilhaços sobre os manifestantes lá embaixo.
Uma runner de
roupas brancas diz:
- Isso só vai
provoca-los... Mais gente poderá morrer! Os clérigos devem suspender o ataque!
Nathan temia um
contra-ataque inesperado da polícia. Se um confronto se iniciar, os manifestantes
serão massacrados no fogo cruzado. Mas o tempo passa e os runners se intrigam.
Não havia sinal da polícia em lugar algum.
Após dez minutos
de explosões e terror, os ataques cessam e as aeronaves pousam no terraço da
própria corporação, espantando a todos.
- Mas o que eles
pensam que estão fazendo?! – intriga-se um runner.
Se a polícia
aparecer e encontra-los ali, os clérigos certamente serão destruídos. Após os
duros combates passados, Nathan esperava um contra-ataque intenso esta noite.
Mas os clérigos se expunham e tornavam-se um alvo fácil nas mãos do inimigo.
Um runner de
óculos vermelhos brinca:
- Por acaso eles
pretendem vencer pela fé?
Então eles veem
uma fumaça azul, sinalizando que o prédio estava seguro. Nathan e os runners
ficam boquiabertos, não entendendo o que estava acontecendo.
De repente o
comunicador toca, assustando-os.
- Nathan na
escuta.
“Boa noite,
Inimigo de Estado. Aqui é o Profeta John August. Venha para a Electro Core.
Temos assuntos a conversar”.
Exasperado, o
rapaz responde:
- John August,
saia já daí! Quando a polícia chegar vocês serão destruídos!
“Não se preocupe,
Nathan. Deus já enviou seu anjo adiante de nós para guerrear em nosso lugar”.
Os runners riem.
- Com certeza! E
as aeronaves eram o anjo!
- John August, a
minha equipe não está segura de ir se encontrar aí.
“Estamos seguros
sob as mãos de Deus”.
Eles riem
novamente. Uma runner diz:
- Ei, cara. Diga
a esse doido para “não tentar o Senhor teu Deus...”.
Enxugando o suor
de sua testa, o rapaz responde:
- O senhor tem
certeza?
“Sim”.
- Certo, eu estou
indo.
Nathan se arruma
e se prontifica. Os runners protestam atrás dele.
- Não faça isso,
cara! Se formos pegos no contra-ataque, todo mundo vai morrer!
- Não se
preocupe. – responde ele – Eu vou sozinho.
O rapaz entra no
aerocarro e fecha a porta. Os runners temem por sua vida.
- Você tem
certeza? Vai mesmo acreditar nesses fanáticos?
Sorrindo, Nathan brinca:
- Tenham fé.
Então o aerocarro
se levanta e deixa o terraço.
As alturas de
Sonata estavam um caos. Os motoristas não respeitavam as vias virtuais e voavam
desordenadamente sobre os prédios. Não apenas a manifestação obstruíam as vias
públicas, mas no ar os vândalos dificultavam a passagem.
A fachada da Electro
Core está toda destruída, aquela bela arquitetura Deco não existia mais. Os
canhões destruíram alguns andares, provocando incêndios pelo interior. As
antenas estavam tombadas, cortando a comunicação externa. Eles haviam condenado
o edifício.
O rapaz se
aproxima e encontra os clérigos envoltos por aquela fumaça azul. Pousando
o veículo, Nathan é recebido por soldados vestindo armaduras vermelhas,
semelhantes aos cavaleiros medievais. Ele os reconhece, são os cardeais da
facção. Eles então apontam seus rifles para o seu rosto e ordenam:
- Mãos para cima!
O rapaz tenta
argumentar, mas eles o mandam calar a boca. Revistando-o, Nathan tem sua arma
levada pelos soldados. Segurando-o pelos braços, os cardeais então o levam para
uma aeronave de combate. Soldados de armadura prateada a protegem e o rapaz os
reconhece também. São os paladinos dos Clérigos do Recomeço. Um homem de longas
e requintadas vestes brancas o aguarda.
- Boa noite,
Nathan. Prazer em revê-lo.
Empurrando-o para
mais perto, os soldados o obrigam a responder.
- Olá, Profeta
John August. Adorei o tratamento de seus homens.
O profeta sorri.
- Uma medida necessária
de segurança.
O rapaz se
indigna.
- Medida de
segurança?! Pelo amor de Deus, John August! Vocês pousaram em um barril de
pólvora! Devemos sair daqui imediatamente!
Os clérigos se
irritam, mas Nathan não entende o porquê.
- Meu rapaz, eu
entendo sua preocupação, mas devo assegurar que não há perigo. E outra coisa.
Meus homens não toleram aqueles que proferem o nome de Deus em vão.
Olhando ao redor,
ele vê incêndios e ouve explosões na manifestação abaixo. Nathan pergunta:
- Por que não há
perigo aqui?
- Meus serviços
de espionagem nos informaram horas atrás. As forças corporativas abandonaram o
edifício.
- Por quê? –
intriga-se ele.
- Não valia a
pena dispender recursos em sua defesa. A Electro Core não possui valor
estratégico, é apenas uma corporação responsável pelo abastecimento de água e
energia. Mesmo que tomemos o prédio, pouco importa. Os prédios mais valiosos
tem seu próprio abastecimento.
Então o rapaz
compreende. Os clérigos chegaram bombardeando o local para comprovar seu
abandono.
- Entretanto –
adverte John August – o interior ainda está repleto de sistemas de segurança.
Os meus hackers já estão trabalhando para desarma-los.
Apesar de temer
um ataque surpresa, o rapaz se alivia. Pouco sangue seria derramado aquela
noite.
- Espero que seus
espiões estejam certos, eminência.
- Eles estão. –
assegura ele.
Então ele se
lembra de algo.
- Eminência, se
não há valor estratégico nesse prédio, então por que os Clérigos do Recomeço querem
toma-lo?
Sorrindo, o
Profeta John August ajunta suas mãos e o rapaz consegue ver as joias preciosas
em seus anéis.
- As pessoas
estão afundadas no materialismo. Erroneamente, elas confiaram suas vidas aos
serviços e utilidades tidos como fundamentais na sociedade. Sua sobrevivência depende
da eletricidade e da água, mas se alienam ao fato de que a eletricidade é um
privilégio e que a água é a vida. Eles estão cegos, embriagados pelas
facilidades que as corporações lhes proporcionam. Hoje eu vou tirar isso deles.
Hoje eu vou abrir seus olhos e fazê-los enxergar que o materialismo não é o
caminho. – fazendo uma pausa, o profeta conclui – O único caminho é Deus.
O rapaz se
intriga.
- Está dizendo
que vai cortar o abastecimento de água e energia, essencial em suas vidas, para
força-los a conversão?
Sem se importar,
o profeta responde:
- Essencial é
viver pela fé.
Virando-se, ele
entra em sua aeronave e se enxuga. A chuva havia recomeçado.
Um cardeal ajeita
suas armaduras e se aproxima.
- Boa noite,
Inimigo de Estado. Eu me chamo Jean Baptiste e humildemente te convido a nos
acompanhar na tomada do edifício.
O rapaz sorri.
- Eu agradeço o
convite, Jean Baptiste, mas eu já tenho os meus runners.
Apontando o rifle
para sua barriga, o cardeal responde:
- Eu insisto.
Desanimando-se, o
rapaz passa as mãos no rosto. Cordialidade era apenas uma fachada naquela facção.
- Pensando bem,
acho que meus runners merecem descansar um pouco esta noite.
- Vamos descer! –
ordena Jean Baptiste.
Os cardeais e
paladinos se prontificam e descem as escadas. Nathan é escoltado com uma arma apontada
para as suas costas. Vendo o profeta sentado dentro da aeronave, ele pergunta:
- Ei, “irmão”. O
seu líder não vem conosco?
- O Profeta John
August é um homem de idade. Sua arma é a pregação e não as armas de fogo.
Descendo pelos
andares, os clérigos os encontram vazios e abandonados. Aparentemente os
funcionários os deixaram às pressas, pois muitos computadores estavam ligados e
haviam papeis pelo chão.
- Cuidado com os
sistemas de segurança! Os hackers não conseguiram desarmar todos!
De repente um
alarme dispara e metralhadores surgem do teto. Ao começarem a atirar, os
clérigos agilmente se esquivam. Apesar da armadura, eles eram muito organizados e disciplinados em combate. Jogando uma bomba de EMP, as
metralhadoras se desativam.
Eles continuam
descendo. Outros alarmes disparam e liberam suas metralhadoras, mas são
facilmente destruídas pelo grupo. Eles também são atacados por bots, mas as
máquinas são pequenas e frágeis, não resistindo a poucas rajadas lasers.
Passando por um
vasto escritório, Nathan reconhece seu antigo local de trabalho. Ele se sentava
em uma daquelas mesas, trabalhando em seu posto e vivendo uma vida
insignificante.
“E se nada disso
tivesse acontecido?”, pergunta-se ele. “Eu continuaria vivendo minha vida
patética em paz, mas estaria eu melhor agora?”.
O rapaz pensa nas
coisas boas que aconteceram na Rebelião. Rindo sozinho, ele não consegue listar
muito, mas pelo menos ele se lembra de alguém.
“Laura”.
Se a metrópole
não tivesse virado de cabeça para baixo, ele não teria conhecida Laura. Mas
essa era uma coisa boa apenas para ele.
“A garota me
odeia”, pensa ele.
Mas, por alguma
razão, o rapaz sabe que, no fundo, ela também o ama de verdade.
Chegando aos
andares de serviço, eles veem o acesso a um grande galpão industrial. No galpão
encontrava-se o painel de controle de fornecimento de água e energia. Por
questões de segurança, a estação de tratamento de água e a estação de
distribuição de energia encontravam em outras regiões de Sonata. Na
Electro Core havia apenas as instalações de serviço e o painel de controle.
Jean Baptiste se
aproxima do painel. Da sede na corporação eles controlavam remotamente
o fornecimento em toda a metrópole. Haviam dois botões principais e vários
cabos conectados às máquinas. O cardeal aperta os botões e interrompe o
fornecimento geral. Os geradores fazem ruídos altos e assustadores, encerrando
sua operação. Lentamente as lâmpadas se apagam, sobrando apenas as avermelhadas
luzes de emergência. O rapaz se assusta.
Pegando um pacote
em sua bolsa, Jean Baptiste o posiciona sobre o painel. Nathan reconhece uma
bomba. Programando o temporizador, ele se afasta.
- Vamos, Inimigo
de Estado. Nossa trabalho acabou aqui.
- Você tem
certeza disso, Jean Baptiste? Interromper o fornecimento vai prejudicar os hospitais
da metrópole.
- Mas não foi
pela água que as corporações a contaminaram em primeiro lugar?
- Eu sei, mas...
Muitos inocentes sofrerão sem água e energia.
Entediado, o
cardeal responde:
- Você quer que a
Rebelião termine ou não?
Pegando os elevadores,
os clérigos voltam ao terraço. Enquanto sobem, eles sentem um tremor no
edifício. A bomba havia se detonado. Sonata sofreria com a interrupção.
No terraço, o
Profeta John August os espera ansiosamente. Havia uma câmera à sua frente, ele
acabara de gravar uma mensagem. Nathan se aproxima e ele diz:
- Veja, meu
rapaz. As luzes de Sodoma se apagam e, em 72 horas, 90% da metrópole estará no escuro. Ferimos a cabeça da besta hoje à noite.
Irritado, ele
responde:
- Não achei
prudente o que fizeram. Os inocentes vão sofrer!
- Que inocentes?
Esses badernando e vandalizando aí embaixo? - ironiza ele - Ouça-me, Nathan. Os bárbaros invadiram
Roma, mas destruíram as raízes pagãs do império, vindo depois a consolidação da
Igreja. Hoje permitiremos que os bárbaros invadam o império novamente, o
império corporativo. Eles destruirão as raízes do materialismo, por nós
visto como uma forma de idolatria pagã, e o que virá depois? – sorri ele – A
consolidação da Santa Igreja fundada por nós, os Clérigos do Recomeço!
Os cardeais e
paladinos abaixam suas cabeças em sinal de respeito.
- Do que você
está falando?
O profeta acena e um
hacker faz um comando em seu computador. Eles ouvem um ruído e os manifestantes
ficam eufóricos lá embaixo. John August diz:
- Eu acabei de
abrir as portas da Electro Core. Nesse momento, os bárbaros estão invadindo o
edifício. Eles o tomarão, eventualmente. Sugiro que fuja, senhor Nathan. Essa
multidão de oprimidos e enlouquecidos não vai poupar ninguém em seu caminho.
Entrando em suas
aeronaves, os clérigos se preparam para partir. Mas antes, o
profeta diz:
- Até a próxima, senhor Nathan. Espero que um dia você se converta à nossa religião também.
Irônico, o rapaz
responde:
- Eu não acredito
em milagres.
Então as portas
se fecham e a aeronave vai embora.
§
Horas mais tarde,
Nathan descansa no Submundo. Nos noticiários ele vê os manifestantes
vandalizarem e atearem fogo no prédio da Electro Core. Apesar da chuva, o fogo
se espalhou descontroladamente, alimentado pela fúria da multidão. Em um vídeo
caseiro, ele vê o Profeta John August dizer:
“Povo de Sonata. Nós,
os Clérigos do Recomeço, com a ajuda do Inimigo do Estado, interrompemos o
fornecimento de água e energia na cidade. Tempos difíceis virão, mas será
necessário para extirparmos vossa dependência e cegueira materialista. Nós queremos abrir os vossos olhos para o verdadeiro provedor: o Deus dos clérigos e de vosso líder, o Inimigo
de Estado”.
Então Nathan se enfurece.
“Haverá escassez
de água e energia, sofrimento e miséria virão. Pais se levantarão contra os filhos
e filhos se levantarão contra os pais. Mas não se preocupem. Quando a provação
chegar aos vossos lares, eu vos sugiro orar. Deus abençoe a todos”.
O vídeo se
encerra. Mostrando imagens dentro da Electro Core, o noticiário exibe os
clérigos e Nathan sabotando o fornecimento da metrópole. Em seguida tudo se
explode e as portas da corporação são abertas, recebendo os manifestantes e
tendo seu interior incendiado pela multidão.
Indignado, o
rapaz pega uma garrafa e a joga contra a parede. Cheio de ódio, ele diz:
- Ele me usou...!
– vocifera ele – Esse maldito profeta me usou...!

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