domingo, 19 de setembro de 2021

Sonata - 51 - Electro Core

 


(Arte de Pavel Elagin)

O Submundo está em festa. Comemorando nos corredores, os runners sorriem e aplaudem Nathan. Todos se surpreendem como o rapaz está mudando e evoluindo. Ao mostrar disposição para o combate, mais os runners o aceitam e o respeitam. Suas roupas sujas e seu corpo ferido comprovam isso.

O runner de nome Retro diz:

- Vocês precisavam ver! Nathan surgiu através da fumaça azul como um herói libertador! Todo o povo viu! Sua imagem estará em todos os noticiários amanhã!

Uma garota comenta:

- Isso ainda não é nada! Vocês o viram nos terraços? Ele empunhou sua arma e atirou! Até matou gente!

Envergonhado, o rapaz responde:

- Eu não tenho certeza se eles realmente morreram...

- E ele invadindo a sala do ministro com aquele pirado do General Washington? Simplesmente espetacular! – comenta outro.

- Não se esqueçam que o equipamento novo veio graças a Nathan também. Quem aí gostou das armaduras? Eu simplesmente adorei!

Um runner comenta:

- Eu gostei mais dos rifles lasers! As submetralhadoras eram imprecisas e não faziam nem cócegas no inimigo!

- A armadura salvou minha vida! Chega de tomar tiros da polícia! Da última vez eu tomei três tiros e fiquei doze horas na sala de cirurgia...

Outro comenta:

- Eu tomei alguns tiros no assalto ao Ministério da Informação, mas estou tão acostumado que poderia arrancar as balas e masca-las como chiclete!

- Nem mesmo o líder da 4 de Julho se conteve. Eu o vi chamar Nathan de Inimigo de Estado!

- Um brinde ao Inimigo de Estado!

Passando-lhe uma garrafa, os runners abrem cervejas e começam a beber.  

Distraído com seus amigos, um segurança biônico toca seu ombro e diz:

- O Database quer vê-lo.

Sentado em sua poltrona, o chefe assiste seus monitores em silêncio. Nathan entra e, segurando uma garrafa de cerveja, o cumprimenta.

- Olá, Database. Queria me ver?

Ao vê-lo, o chefe responde:

- Olá, Nathan. Desculpe eu atrapalhar sua festa, mas eu precisava lhe perguntar algo. – inclinando-se, ele pergunta – O que você fez lá em cima?

O rapaz não entende.

- Como assim?

- Você e seus amigos americanos divulgaram arquivos confidenciais corporativos. A mídia, a população e o ciberespaço inteiro estão agitados agora. Você faz ideia do que fez?

Nathan não consegue entender sua reação.

- Por que a preocupação, chefe?

Apontando para seu monitores, ele lhe mostra os efeitos da divulgação. O rapaz vê as corporações sendo invadidas, mercados sendo incendiados e alimentos sendo queimados. Em outro vídeo, Nathan vê aerocarros tentando atravessar o muro de Contenção e sendo abatidos pelos canhões autômatos da polícia. Estarrecido, ele vê que alguns aerocarros se explodiam com famílias inteiras dentro. 

- Meu Deus...!

- Você foi o responsável por isso, Nathan?

- Não. – responde ele – Foram os americanos que divulgaram.

- Por quê?

- O general falou algo sobre os valores americanos e os direitos constitucionais à liberdade de expressão...

- Você não tentou impedi-los?

- Por que eu tentaria? – defende-se ele – Eu argumentei algo a princípio, mas, quando a divulgaram, eu não impedi.

Um vídeo mostra o ministro se jogando da janela de sua sala. Os noticiários filmam detalhadamente seu corpo caindo em direção à escuridão lá embaixo. Database pergunta:

- Vocês o mataram?

- Não. – nega ele – Arquimedes não suportou ver os segredos sendo revelados. Ele decidiu tirar a própria vida.

Database assente. Coçando seu queixo, ele diz:

- Por falar em tirar a vida, veja esse vídeo.

As imagens exibem um homem ajoelhado e com as mãos presas para trás. Há uma venda em seus olhos e o rapaz o reconhece. É Galileu. Ao seu redor ele vê vários samurais em suas armaduras. Outro samurai, vestido com uma armadura preta e vermelha, olha para a câmera e profere discursos facciosos. Nathan o reconhece. É o Xogum Tokugawa.

O xogum fala sobre a tomada do Ministério da Segurança Pública e a chegada de uma nova era em Sonata. Ele afirma que em breve governará toda a metrópole e que não tolerará colaboradores do antigo império corporativo.

“Império...?”, intriga-se Nathan.

Tokugawa condena todas as formas de covardia, traição e colaboração com o inimigo. Desembainhando sua espada, ele a ergue e, em um único golpe, decepa a cabeça do ministro. De olhos arregalados, o rapaz vê sua cabeça rolar e seu corpo cair sem vida no piso. Então o vídeo acaba.

Com semblante decepcionado, Nathan fecha os olhos.

- Algum problema, Nathan?

Ele responde:

- Eu realmente não pensei que Tokugawa fosse executa-lo quando o levou prisioneiro.

Database sorri.

- Você está lidando com assassinos e terroristas, Nathan. Quantos mais terão de morrer para você perceber isso?

- Há assassinos na superfície também.

Apontando para os noticiários, o chefe o repreende, dizendo:

- Peço que tenha mais responsabilidade em sua rebelião, Nathan. O ímpeto rebelde deve ser estrategicamente direcionado à derrubada das corporações, e não ao caos generalizado e desfocado de seu objetivo.  

- Objetivo? Pensei que você estivesse preocupado com as vidas perdidas na Rebelião.

- E eu pensei que você não se preocupasse mais com isso, afinal agora você é o Inimigo de Estado, não é mesmo?

Os dois se provocavam mutuamente. Nathan buscava autonomia, mas sabia que não podia ficar sem Database e sua vasta rede de comunicações.

O rapaz vê uma explosão nos monitores. Um aerocarro é abatido ao tentar atravessar a Contenção. Após sua ida ao Setor L, a polícia havia instalado canhões para impedir novos incidentes, mas as autoridades não esperavam que eles realmente fossem usados. Devido ao alto nível de toxicidade no exterior, ninguém seria louco o bastante para partir. Porém, com a divulgação dos arquivos ultrassecretos, os cidadãos estavam ávidos para procurar por seus familiares desaparecidos. E Nathan foi o responsável por isso.

Database estava certo. A Rebelião havia perdido um pouco do foco. Da revolta coletiva as pessoas migraram para o interesse pessoal. Procurar por um familiar desaparecido era mais importante; a Rebelião podia esperar. Mas nem tudo estava perdido. A polícia se ocupava na Contenção, se sobrecarregando ainda mais, e aqueles que não tinham parentes desaparecidos se mantinham na luta, manifestando-se nas passarelas e vandalizando as corporações.

“Não perdemos força”, pensa Nathan. “A Rebelião ainda não acabou”.

O rapaz termina sua garrafa e então dá as costas, intentando ir embora. Database intervém:

- A propósito, hoje à noite você terá uma folga. Não é seguro sair agora que a população está tão afoita.

Nathan ri.

- Há um mês eu venho tomando tiros da polícia, dos terroristas e dos seguranças corporativos. Mas obrigado por se preocupar...

O chefe continua:

- Mas amanhã você tem compromisso.

Interessando-se, o rapaz pergunta:

- Com quem?

- Com aqueles que fizeram de você um assassino. – provoca ele – Os Clérigos do Recomeço.

Nathan se desconcerta, mas, ficando em silêncio, vai embora. Então Database se encosta em sua poltrona e bebe um gole de seu uísque.

 

§

 

Em um aerocarro com mais três runners, o rapaz segue ao distrito de Deco, Setor E. Chovia aquela noite, mas as gotas não podiam apagar os focos de incêndio provocados pela população.

Descendo sobre os terraços, os runners observam seu alvo. Eles intentavam invadir a Corporação Electro Core. Memórias inundam sua mente. Durante anos ele trabalhou naquele prédio e hoje ele intentava ataca-lo. O destino foi irônico. Quando ele trabalhava ele queria deixa-lo, mas hoje que ele não mais trabalha, ele quer invadi-lo. O rapaz sorri.

Ele se lembra de algo, o prédio da Electro Core tinha arquitetura Deco. Isso explica o nome daquele distrito. Com linhas retas e desenhos imponentes, o prédio se elevava pelos ares. Apesar de antiquada, Nathan enxergava uma bela construção de arquitetura exótica.   

Gritos são ouvidos lá embaixo. Aproximando-se do parapeito, Nathan vê as passarelas lotadas de manifestantes. Há pichações nas paredes e pilhas de incêndio por toda parte. Aquela não era uma manifestação comum, mas uma espontânea sem qualquer motivação política. As pessoas estavam lá para causar a destruição.

Aeronaves se aproximam. Sobrevoando o prédio, eles veem os Clérigos do Recomeço. Então a facção faz algo imprevisto. Os canhões das aeronaves apontam e atiram, destruindo os letreiros e as fachadas do prédio corporativo. As explosões se elevam, espalhando seus fragmentos. O rapaz se espanta.

- Nathan! Nós não deveríamos coordenar o ataque? – pergunta um runner.

O rapaz está confuso. Sem a menor estratégia ou planejamento, os clérigos atacavam sozinhos a Electro Core.

Sobrevoando em círculos, as aeronaves atiram incessantemente, arrasando o prédio e derrubando os estilhaços sobre os manifestantes lá embaixo.

Uma runner de roupas brancas diz:

- Isso só vai provoca-los... Mais gente poderá morrer! Os clérigos devem suspender o ataque!

Nathan temia um contra-ataque inesperado da polícia. Se um confronto se iniciar, os manifestantes serão massacrados no fogo cruzado. Mas o tempo passa e os runners se intrigam. Não havia sinal da polícia em lugar algum.

Após dez minutos de explosões e terror, os ataques cessam e as aeronaves pousam no terraço da própria corporação, espantando a todos.

- Mas o que eles pensam que estão fazendo?! – intriga-se um runner.

Se a polícia aparecer e encontra-los ali, os clérigos certamente serão destruídos. Após os duros combates passados, Nathan esperava um contra-ataque intenso esta noite. Mas os clérigos se expunham e tornavam-se um alvo fácil nas mãos do inimigo.

Um runner de óculos vermelhos brinca:

- Por acaso eles pretendem vencer pela fé?

Então eles veem uma fumaça azul, sinalizando que o prédio estava seguro. Nathan e os runners ficam boquiabertos, não entendendo o que estava acontecendo.

De repente o comunicador toca, assustando-os.      

- Nathan na escuta.

“Boa noite, Inimigo de Estado. Aqui é o Profeta John August. Venha para a Electro Core. Temos assuntos a conversar”.

Exasperado, o rapaz responde:

- John August, saia já daí! Quando a polícia chegar vocês serão destruídos!

“Não se preocupe, Nathan. Deus já enviou seu anjo adiante de nós para guerrear em nosso lugar”.

Os runners riem.

- Com certeza! E as aeronaves eram o anjo!

- John August, a minha equipe não está segura de ir se encontrar aí.

“Estamos seguros sob as mãos de Deus”.

Eles riem novamente. Uma runner diz:

- Ei, cara. Diga a esse doido para “não tentar o Senhor teu Deus...”.

Enxugando o suor de sua testa, o rapaz responde:

- O senhor tem certeza?

“Sim”.

- Certo, eu estou indo.

Nathan se arruma e se prontifica. Os runners protestam atrás dele.

- Não faça isso, cara! Se formos pegos no contra-ataque, todo mundo vai morrer!

- Não se preocupe. – responde ele – Eu vou sozinho.

O rapaz entra no aerocarro e fecha a porta. Os runners temem por sua vida.

- Você tem certeza? Vai mesmo acreditar nesses fanáticos?

Sorrindo, Nathan brinca:

- Tenham fé.

Então o aerocarro se levanta e deixa o terraço.

As alturas de Sonata estavam um caos. Os motoristas não respeitavam as vias virtuais e voavam desordenadamente sobre os prédios. Não apenas a manifestação obstruíam as vias públicas, mas no ar os vândalos dificultavam a passagem.

A fachada da Electro Core está toda destruída, aquela bela arquitetura Deco não existia mais. Os canhões destruíram alguns andares, provocando incêndios pelo interior. As antenas estavam tombadas, cortando a comunicação externa. Eles haviam condenado o edifício.

O rapaz se aproxima e encontra os clérigos envoltos por aquela fumaça azul. Pousando o veículo, Nathan é recebido por soldados vestindo armaduras vermelhas, semelhantes aos cavaleiros medievais. Ele os reconhece, são os cardeais da facção. Eles então apontam seus rifles para o seu rosto e ordenam:

- Mãos para cima!

O rapaz tenta argumentar, mas eles o mandam calar a boca. Revistando-o, Nathan tem sua arma levada pelos soldados. Segurando-o pelos braços, os cardeais então o levam para uma aeronave de combate. Soldados de armadura prateada a protegem e o rapaz os reconhece também. São os paladinos dos Clérigos do Recomeço. Um homem de longas e requintadas vestes brancas o aguarda.

- Boa noite, Nathan. Prazer em revê-lo.

Empurrando-o para mais perto, os soldados o obrigam a responder.

- Olá, Profeta John August. Adorei o tratamento de seus homens.

O profeta sorri.

- Uma medida necessária de segurança.

O rapaz se indigna.

- Medida de segurança?! Pelo amor de Deus, John August! Vocês pousaram em um barril de pólvora! Devemos sair daqui imediatamente!

Os clérigos se irritam, mas Nathan não entende o porquê.

- Meu rapaz, eu entendo sua preocupação, mas devo assegurar que não há perigo. E outra coisa. Meus homens não toleram aqueles que proferem o nome de Deus em vão.

Olhando ao redor, ele vê incêndios e ouve explosões na manifestação abaixo. Nathan pergunta:   

- Por que não há perigo aqui?

- Meus serviços de espionagem nos informaram horas atrás. As forças corporativas abandonaram o edifício.

- Por quê? – intriga-se ele.

- Não valia a pena dispender recursos em sua defesa. A Electro Core não possui valor estratégico, é apenas uma corporação responsável pelo abastecimento de água e energia. Mesmo que tomemos o prédio, pouco importa. Os prédios mais valiosos tem seu próprio abastecimento.     

Então o rapaz compreende. Os clérigos chegaram bombardeando o local para comprovar seu abandono.

- Entretanto – adverte John August – o interior ainda está repleto de sistemas de segurança. Os meus hackers já estão trabalhando para desarma-los.

Apesar de temer um ataque surpresa, o rapaz se alivia. Pouco sangue seria derramado aquela noite.

- Espero que seus espiões estejam certos, eminência.

- Eles estão. – assegura ele.

Então ele se lembra de algo.

- Eminência, se não há valor estratégico nesse prédio, então por que os Clérigos do Recomeço querem toma-lo?

Sorrindo, o Profeta John August ajunta suas mãos e o rapaz consegue ver as joias preciosas em seus anéis.

- As pessoas estão afundadas no materialismo. Erroneamente, elas confiaram suas vidas aos serviços e utilidades tidos como fundamentais na sociedade. Sua sobrevivência depende da eletricidade e da água, mas se alienam ao fato de que a eletricidade é um privilégio e que a água é a vida. Eles estão cegos, embriagados pelas facilidades que as corporações lhes proporcionam. Hoje eu vou tirar isso deles. Hoje eu vou abrir seus olhos e fazê-los enxergar que o materialismo não é o caminho. – fazendo uma pausa, o profeta conclui – O único caminho é Deus.

O rapaz se intriga.

- Está dizendo que vai cortar o abastecimento de água e energia, essencial em suas vidas, para força-los a conversão?

Sem se importar, o profeta responde:

- Essencial é viver pela fé.

Virando-se, ele entra em sua aeronave e se enxuga. A chuva havia recomeçado.       

Um cardeal ajeita suas armaduras e se aproxima.

- Boa noite, Inimigo de Estado. Eu me chamo Jean Baptiste e humildemente te convido a nos acompanhar na tomada do edifício.

O rapaz sorri.

- Eu agradeço o convite, Jean Baptiste, mas eu já tenho os meus runners.

Apontando o rifle para sua barriga, o cardeal responde:

- Eu insisto.

Desanimando-se, o rapaz passa as mãos no rosto. Cordialidade era apenas uma fachada naquela facção.

- Pensando bem, acho que meus runners merecem descansar um pouco esta noite.

- Vamos descer! – ordena Jean Baptiste.

Os cardeais e paladinos se prontificam e descem as escadas. Nathan é escoltado com uma arma apontada para as suas costas. Vendo o profeta sentado dentro da aeronave, ele pergunta:

- Ei, “irmão”. O seu líder não vem conosco?

- O Profeta John August é um homem de idade. Sua arma é a pregação e não as armas de fogo.

Descendo pelos andares, os clérigos os encontram vazios e abandonados. Aparentemente os funcionários os deixaram às pressas, pois muitos computadores estavam ligados e haviam papeis pelo chão.

- Cuidado com os sistemas de segurança! Os hackers não conseguiram desarmar todos!

De repente um alarme dispara e metralhadores surgem do teto. Ao começarem a atirar, os clérigos agilmente se esquivam. Apesar da armadura, eles eram muito organizados e disciplinados em combate. Jogando uma bomba de EMP, as metralhadoras se desativam.

Eles continuam descendo. Outros alarmes disparam e liberam suas metralhadoras, mas são facilmente destruídas pelo grupo. Eles também são atacados por bots, mas as máquinas são pequenas e frágeis, não resistindo a poucas rajadas lasers.

Passando por um vasto escritório, Nathan reconhece seu antigo local de trabalho. Ele se sentava em uma daquelas mesas, trabalhando em seu posto e vivendo uma vida insignificante.

“E se nada disso tivesse acontecido?”, pergunta-se ele. “Eu continuaria vivendo minha vida patética em paz, mas estaria eu melhor agora?”.

O rapaz pensa nas coisas boas que aconteceram na Rebelião. Rindo sozinho, ele não consegue listar muito, mas pelo menos ele se lembra de alguém.

“Laura”.

Se a metrópole não tivesse virado de cabeça para baixo, ele não teria conhecida Laura. Mas essa era uma coisa boa apenas para ele.

“A garota me odeia”, pensa ele.

Mas, por alguma razão, o rapaz sabe que, no fundo, ela também o ama de verdade.

Chegando aos andares de serviço, eles veem o acesso a um grande galpão industrial. No galpão encontrava-se o painel de controle de fornecimento de água e energia. Por questões de segurança, a estação de tratamento de água e a estação de distribuição de energia encontravam em outras regiões de Sonata. Na Electro Core havia apenas as instalações de serviço e o painel de controle.

Jean Baptiste se aproxima do painel. Da sede na corporação eles controlavam remotamente o fornecimento em toda a metrópole. Haviam dois botões principais e vários cabos conectados às máquinas. O cardeal aperta os botões e interrompe o fornecimento geral. Os geradores fazem ruídos altos e assustadores, encerrando sua operação. Lentamente as lâmpadas se apagam, sobrando apenas as avermelhadas luzes de emergência. O rapaz se assusta.

Pegando um pacote em sua bolsa, Jean Baptiste o posiciona sobre o painel. Nathan reconhece uma bomba. Programando o temporizador, ele se afasta.

- Vamos, Inimigo de Estado. Nossa trabalho acabou aqui.

- Você tem certeza disso, Jean Baptiste? Interromper o fornecimento vai prejudicar os hospitais da metrópole.

- Mas não foi pela água que as corporações a contaminaram em primeiro lugar?

- Eu sei, mas... Muitos inocentes sofrerão sem água e energia.

Entediado, o cardeal responde:

- Você quer que a Rebelião termine ou não?

Pegando os elevadores, os clérigos voltam ao terraço. Enquanto sobem, eles sentem um tremor no edifício. A bomba havia se detonado. Sonata sofreria com a interrupção.

No terraço, o Profeta John August os espera ansiosamente. Havia uma câmera à sua frente, ele acabara de gravar uma mensagem. Nathan se aproxima e ele diz:

- Veja, meu rapaz. As luzes de Sodoma se apagam e, em 72 horas, 90% da metrópole estará no escuro. Ferimos a cabeça da besta hoje à noite.

Irritado, ele responde:

- Não achei prudente o que fizeram. Os inocentes vão sofrer!

- Que inocentes? Esses badernando e vandalizando aí embaixo? - ironiza ele - Ouça-me, Nathan. Os bárbaros invadiram Roma, mas destruíram as raízes pagãs do império, vindo depois a consolidação da Igreja. Hoje permitiremos que os bárbaros invadam o império novamente, o império corporativo. Eles destruirão as raízes do materialismo, por nós visto como uma forma de idolatria pagã, e o que virá depois? – sorri ele – A consolidação da Santa Igreja fundada por nós, os Clérigos do Recomeço!

Os cardeais e paladinos abaixam suas cabeças em sinal de respeito.

- Do que você está falando?

O profeta acena e um hacker faz um comando em seu computador. Eles ouvem um ruído e os manifestantes ficam eufóricos lá embaixo. John August diz:

- Eu acabei de abrir as portas da Electro Core. Nesse momento, os bárbaros estão invadindo o edifício. Eles o tomarão, eventualmente. Sugiro que fuja, senhor Nathan. Essa multidão de oprimidos e enlouquecidos não vai poupar ninguém em seu caminho.

Entrando em suas aeronaves, os clérigos se preparam para partir. Mas antes, o profeta diz:

- Até a próxima, senhor Nathan. Espero que um dia você se converta à nossa religião também.

Irônico, o rapaz responde:

- Eu não acredito em milagres.

Então as portas se fecham e a aeronave vai embora.

 

§

 

Horas mais tarde, Nathan descansa no Submundo. Nos noticiários ele vê os manifestantes vandalizarem e atearem fogo no prédio da Electro Core. Apesar da chuva, o fogo se espalhou descontroladamente, alimentado pela fúria da multidão. Em um vídeo caseiro, ele vê o Profeta John August dizer:

“Povo de Sonata. Nós, os Clérigos do Recomeço, com a ajuda do Inimigo do Estado, interrompemos o fornecimento de água e energia na cidade. Tempos difíceis virão, mas será necessário para extirparmos vossa dependência e cegueira materialista. Nós queremos abrir os vossos olhos para o verdadeiro provedor: o Deus dos clérigos e de vosso líder, o Inimigo de Estado”.

Então Nathan se enfurece. 

“Haverá escassez de água e energia, sofrimento e miséria virão. Pais se levantarão contra os filhos e filhos se levantarão contra os pais. Mas não se preocupem. Quando a provação chegar aos vossos lares, eu vos sugiro orar. Deus abençoe a todos”.

O vídeo se encerra. Mostrando imagens dentro da Electro Core, o noticiário exibe os clérigos e Nathan sabotando o fornecimento da metrópole. Em seguida tudo se explode e as portas da corporação são abertas, recebendo os manifestantes e tendo seu interior incendiado pela multidão.

Indignado, o rapaz pega uma garrafa e a joga contra a parede. Cheio de ódio, ele diz:

- Ele me usou...! – vocifera ele – Esse maldito profeta me usou...!

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta

(Artista desconhecido) Dias se passam. Yang é mantido em um recinto com sofá, mesa e televisão. Não era bem uma cela, mas uma confortável sa...