sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Sonata - 46 - Banzai!

 


De armas em mãos, os policiais observam os três terroristas desacordados. Ao ver o formato do aerocarro, eles se impressionam; a Bushido o havia transformado em um avião. Eles discutem o que fazer com as vítimas do ataque suicida e um deles sugere matar todos. Concordando, eles apontam suas armas e se preparam para atirar.

Nathan acorda, mas, enxergando com dificuldade, vê um grupo de policiais parados e apontando suas armas para ele. De repente pessoas desconhecidas aparecem logo atrás e os surpreendem, atirando em suas costas e eliminando-os um a um.

Correndo em direção aos sobreviventes, os desconhecidos resgatam Nathan, Tokugawa e o motorista dentro do aerocarro. Levando-os a uma distância segura, uma fagulha de fogo se forma e o aerocarro se explode, iluminando o interior do edifício.

- Nathan, você está bem?

O rapaz abre os olhos e vê um jovem vestido de colete camuflado e máscara de goleiro de hóquei. “Um runner”, reconhece ele.

- Sim. – responde ele, apesar de dolorido – O que houve?

- Nós invadimos o Ministério de Segurança Pública, mas não conseguimos neutralizar os canhões. Perdemos muitos runners na invasão. Eu e meus companheiros somos tudo o que sobrou.

Nathan olha para o grupo e vê quinze runners ao seu redor.

- E a Bushido? Os samurais conseguiram invadir?

O runner ri.

- Seus aerocarros se transformaram em aviões em pleno ar e estavam dando uma surra na polícia! Então chegaram reforços e eles começaram a se lançar contra o edifício, se matando na colisão. Eles são loucos...!

Levantando-se, ele caminha pelo andar. Uma fileira de corpos encontrava-se contra a parede. Eram runners. Aproximando-se, ele olha para seus rostos e os reconhece. Nathan via aquela garota de jaqueta amarela e de cabelos azuis de horas atrás. Buracos de bala cobriam seu peito e sangue seco havia colado o cabelo em seu rosto. O rapaz se aflige. Ele também vê os outros runners de seu furgão, inclusive o motorista de nome Trent. Eles conseguiram invadir o ministério, mas não foram páreos para os policiais e seus armamentos corporativos.

O rapaz caminha até o parapeito. No ar, a Bushido estava perdendo a batalha; a polícia estava em maior número. Entretanto, os ataques kamikazes debilitaram a artilharia antiaérea, destruindo-a.

Um Zero flamejante cruza o céu noturno e colide contra o edifício. Nathan vê a explosão e outro canhão sendo destruído pelo suicida.

- Meu Deus...! – sussurra ele.

O rapaz se estarrece com a determinação férrea e o desapego à própria vida dos samurais. Ele percebe que nem mesmo o seu líder hesitou em fazer o mesmo e realizar um ataque suicida.

“Honra”, pensa ele. “Para eles, a maior de todas as virtudes”.

Olhando para baixo, Nathan vê as plataformas tomadas de manifestantes. Eles atacam a polícia com bombas caseiras e fogos de artifício. Então algo chama sua atenção. Marchando lado a lado, enormes robôs avançam entre eles. O rapaz os reconhece. São Securitrons.

Repelidos pelas enormes máquinas, os manifestantes são abatidos e esmagados pelas pesadas patas de metal. Assim como na Cúpula Corporativa, Nathan sabe que aqueles cidadãos estavam ali para apoia-lo. Mais do que ele, os cidadãos estavam sangrando pelo fim das corporações. Então ele se consterna. O rapaz podia estar traumatizado e ferido, mas aquele não era o momento dele se entregar e sucumbir. Não naquela batalha.

Retornando a Tokugawa, ele o encontra ferido, mas acordado. Ele diz:

- Tokugawa-san! O senhor está bem?

- Nathan-san? – surpreende-se ele – Não era para estarmos vivos...

- E o motorista?

Meneando negativamente a cabeça, o xogum responde:

- Ele não sobreviveu.

O rapaz lamenta.

- O senhor consegue lutar?

Tokugawa se irrita.

- Apenas quando a minha alma deixar o meu corpo eu não conseguirei lutar mais.

Nathan se anima.

- Ótimo. Temos uma batalha para vencer.

Eles ainda ouvem os disparos dos canhões acima.

- Temos que destruir essa maldita artilharia! – vocifera o xogum.

- Certo. Eu tenho os runners comigo. Vamos nos dividir e surpreende-los lá em cima.

Olhando para aqueles moleques, Tokugawa sente pena.

- Tenho uma ideia melhor. Você me segue em silêncio.

Os runners riem, desprezando a autoconfiança do velho xogum. Porém, ele saca sua espada e a maneja, fazendo-os se recuar.

Subindo pelas escadarias, eles sobem cinco andares e encontram outro canhão. Os policiais estavam cercados de munições, mas com os constantes ataques, as lâmpadas haviam se estourado e eles tropeçavam nas cápsulas vazias.

Nathan e os runners sacam suas armas. O rapaz dá um passo à frente e então Tokugawa o interrompe, segurando-o com a palma de sua mão. Pedindo silêncio, ele caminha sozinho em direção ao canhão.

O runner mascarado diz:

- Ele está louco? Há oito policiais ali!

O rapaz não pode fazer nada senão observar.

O policial está substituindo a cápsula quando uma espada atravessa suas costas. O grupo ouve o grito e todos se assustam. De repente um robusto samurai de armadura negra avança e golpeia outro homem no peito. Um policial tenta sacar sua arma quando tem sua antebraço decepado. Tiros são disparados, mas, protegendo-se atrás do canhão, o xogum os espera recarregarem suas armas e os ataca novamente. A golpes de espada, os policiais caem e morrem aos seus pés, incapazes de resistir ao poderoso samurai.

Um policial consegue se esquivar e atira com sua pistola. As balas ricocheteiam na armadura do samurai, surpreendendo-o. Irritado, o policial se desarma e corajosamente inicia um combate mano a mano. Ao tentar soca-lo, o samurai se esquiva e decepa sua cabeça, separando-a de seu corpo em um único golpe. Os runners se chocam.

Vendo a cabeça se rolando em sons abafados e úmidos pelo chão, eles se emudecem. Antes que Nathan pudesse dizer alguma coisa, um runner se encosta na parede e vomita.

Colocando a espada na junta de seu braço, Tokugawa limpa o sangue da lâmina e diz:

- Diga ao seus amigos da superfície para destruírem o canhão. E rápido. Não temos muito tempo.

Minutos depois, uma voz no comunicador diz:

- Tokugawa-san, o senhor está aí?

O xogum reconhece a voz de seu capitão.

- Kyaputen Yamada?! Prossiga!

- Os canhões foram neutralizados. Os Kamikazes conseguiram.

Alegrando-se, o líder responde:

- Ótimo. Envie as aeronaves tripuladas. Vamos começar a invasão.

- Hai!

Com a ameaça antiaérea eliminada, os Zeros retomam a vantagem. Mesmo em maior número, as viaturas policiais não conseguiam abater os ágeis aviões de combate japoneses.

Olhando pelas janelas, Nathan vê as aeronaves atravessarem o fogo cruzado e pousarem pelo edifício. Ao abrirem suas portas, dezenas de samurais saem, vestindo armaduras e portando katanas. Impressionado, o rapaz vê alguns deles portando estandartes.

- Nathan-san! A vitória se aproxima. Vamos subir à ponte e cortar a cabeça deste dragão.

O rapaz se confunde novamente. O xogum misturava batalha naval com mitologia oriental.

O interior do Ministério de Segurança Pública estava todo embarricado. Aguardando a concentração de suas forças, o xogum planeja a estratégia a seguir. Enquanto avançam por um corredor, um policial agarra Nathan e o puxa para dentro de uma sala. Apontando uma arma para sua cabeça, ele diz:

- Abaixem as armas ou ele morre!

Assustados, os runners não sabem o que fazer. Nathan percebe que não era um policial comum e sim um mercenário contratado para o serviço. “Mais criminosos protegidos pelo Estado corporativo”, pensa ele.

- Agora! – ordena o policial.

Então os runners largam suas metralhadoras. Porém, Tokugawa segura firmemente sua espada.

- Você também, vovô! – ordena ele – Que velho patético! Pensou que podia entrar em um confronto armado com uma espada? Não me faça rir...

Enquanto ri, alguém aparece atrás dele e crava sua espada no topo de sua cabeça. O policial perde os sentidos e cai irresistivelmente ao chão, expirando em uma horrenda poça de sangue.

Virando-se, o rapaz exclama em surpresa:

- Yamada!

Em sua belíssima armadura vermelha, o velho samurai ajeita sua pontuda barba.

- Kon'nichiwa, Nathan-san. Como vai?

- Kyaputen! – chama o xogum – Reporte!

- Tokugawa-san, perdi todo o meu pelotão nos ataques Kamikazes. Caí não muito longe daqui e tive que me esgueirar pelo local. A maioria dos Zeros foi destruída.

- Ainda vejo viaturas lá fora. Temos o bastante para nos mantermos no combate?

- A Polícia Corporativa mantém a superioridade aérea. As chances são baixas, mas com determinação e disciplina nossos pilotos alcançarão a vitória.

Apesar das más notícias, o xogum diz:

- Vamos. Temos um porta-aviões para afundar.

Subindo as escadas, eles chegam ao andar de estacionamento do edifício. A polícia combatia o invasor no outro lado. Nathan vê os destemidos samurais atirarem com rifles lasers, criando um espetáculo de luzes.

Enquanto se aproximam, um policial avança contra o xogum e o golpeia com um cassetete. Yamada intervém e ambos entram em luta corporal. O policial era alto e forte enquanto que o capitão era velho e pequeno. Apesar da desvantagem, Yamada luta bravamente e faz ágeis movimentos. O policial tenta golpear sua cabeça, mas o capitão se esquiva e dá um impressionante chute giratório em seu rosto, fazendo-o desmaiar estaticamente no chão. Nathan e os runners ficam boquiabertos.

Aproximando-se de seus subordinados, o xogum é reverenciado pelos samurais. Tokugawa ordena:

- Reportem!

O oficial de maior patente responde:

- Tokugawa-san, o exército corporativo não poderá mais repelir a invasão!

- Como assim?

- O combate aéreo está penoso lá fora, mas já avançamos demais no coração desta fortaleza. Nós não retrocederemos!

- As aeronaves tripuladas conseguiram desembarcar os soldados?

- Hai! A fortaleza foi infestada pela Bushido. Em breve nossos inimigos serão exterminados!

Satisfeito, o xogum sorri. Vendo os policiais atirarem por detrás dos aerocarros, ele empunha sua espada e diz:

- Vamos mostrar a eles o verdadeiro espírito guerreiro japonês. – olhando para seus subordinados, ele ordena – Samurais! Preparem-se!

Os soldados largam seus rifles e desembainham suas espadas. Nathan não compreende. De repente, Tokugawa faz um brado de guerra.

- Banzai!

Os samurais também bradam e avançam enfurecidamente contra a polícia. Enquanto correm, muitos são alvejados e mortos, mas eles não retrocedem e continuam avançando resolutamente. Surpresos, os policiais arregalam os olhos e recuam, acuados pelo demoníaco inimigo de armadura.

Pulando por sobre as defesas da polícia, um samurai enfia sua espada no tórax de seu inimigo, atravessando-o até suas costas. Membros são decepados e sangue se espirra para todos os lados, cobrindo os aerocarros e as paredes. Estarrecido, Nathan presencia um massacre.

- Yamada! Concentre as forças para o confronto final! Vamos para o último andar!

Assentindo, o capitão usa seu comunicador.

A invasão a pé mostrava seus resultados. Em toda parte eles ouviam gritos e explosões. O prédio estava tomado pela Bushido. Os runners seguem os samurais, embora protegidos na retaguarda e incapazes de tomar o mesmo ritmo de seus aliados.

Enquanto sobem, Nathan vê poças de sangue e respingos pelas paredes das salas. Pelas janelas, ele ainda via o combate aéreo lá fora; os tiros atingiam o prédio e os aerocarros voavam em chamas pelo céu.

Chegando ao último andar, o capitão Yamada diz:

- O Ministério de Segurança Pública será o cemitério da polícia!

Mas um runner temerosamente diz:

- Ou da Bushido. Olhe.

Protegendo a sala do ministro, cem policiais guardam sua entrada. Ao vê-los, os samurais se posicionam.

Uma voz nos alto-falantes diz:

“Xogum Tokugawa, aqui é o Ministro Galileu. Renda-se agora e entreguem o Inimigo de Estado”.

- Me render? – pergunta-se ele e então ele gargalha.

“Meus policiais têm permissão para matar. Este banho de sangue não precisa continuar mais. Renda-se agora e eu prometo bom tratamento nas prisões para a Bushido”.

Desta vez são os samurais que riem.

As tropas se convergem no último andar. Do teto, metralhadoras acopladas se formam e miram nos samurais.

- Yamada! – chama Tokugawa – As tropas estão prontas?  

- Hai!

- Então vamos combater com honra.

Novamente eles empunham suas espadas. Em seguida as tropas se levantam e bradam:

- Banzai!    

Insanamente atacando policiais armados, os samurais avançam contra o inimigo. Tiros são disparados e alguns caem, mas outros são poupados graças às suas armaduras a prova de balas. As metralhadoras de teto atiram até avermelharem seus canos. Protegendo-se atrás das mesas, Nathan temia outro massacre. Mas não foi aquilo que ele viu.

Fumaça se ergue e ele vê a silhueta de Tokugawa golpeando os inimigos. No meio da confusão, os samurais gritam a cada ataque, apavorando os policiais desorientados. Eles atiram para todos os lados, inclusive atingindo a si mesmos. Os samurais, porém, mantém um ataque disciplinado no meio daquele caos.

Bombas de EMP se estouram, criando um clarão azul. As metralhadoras de teto imediatamente param de atirar, eliminando sua ameaça.

Alcançando a porta, Tokugawa diz:

- Xogum Galileu se encontra aqui dentro! Derrubem esta porta!

Instalando bombas na madeira, os samurais se afastam e explodem a entrada da sala. Tokugawa e Yamada entram, empunhando suas espadas gotejantes de sangue.

A sala continha luxuosa mobília e belíssima decoração. Atrás de sua mesa, Galileu entra em um pequeno compartimento e fecha a porta de vidro. Apertando um botão, o compartimento começa a subir.

- Ele está fugindo para o terraço! – alerta Yamada.

Rindo, o xogum diz:

- O inimigo se acovarda em sua fortaleza e agora pretende deixa-la! Subam para o terraço!

Os samurais avançam para as escadas. Nathan os segue logo atrás, ansioso pelo fim da batalha.

Saindo ao ar livre, o rapaz olha para o céu e vê o intenso combate aéreo ao redor do prédio. Os samurais formam posições ofensivas e procuram pelo ministro. Então eles se assustam.

Ao lado de sua aeronave, dez Securitrons protegem Galileu. Intimidados, os soldados sabem que não podem atacar robôs blindados e ilesos a golpes de espada. O ministro diz:

- Xogum Tokugawa, este é meu último aviso! Meus Securitrons têm permissão para matar quem ousar me ferir. Pela última vez eu te peço. Renda-se agora e entregue o Inimigo de Estado!

O ministro olha para Nathan. As memórias tomam sua mente e ele se lembra. O rapaz o viu pela primeira vez antes de fugir da prisão com Maynard. O ministro era aquele homem requintado e eloquente em seu interrogatório, ávido para extrair informações.

Tokugawa responde:

- Xogum Galileu! Seus samurais foram vencidos e sua fortaleza está em chamas! Bravatas não irão salva-lo! Se tiver um pingo de honra em ti, tire sua própria vida!

Então o ministro ri.

- Estes não são os meus costumes, Tokugawa! Aliás, de ninguém com um mínimo de equilíbrio mental.

Olhando para Yamada, o xogum pergunta:

- Quanto tempo até a chegada dos robôs Kyoto?

“Robôs Kyoto?”, pergunta-se Nathan.

- Um minuto, senhor.

Novamente falando com o ministro, Tokugawa responde:

- Sei o que você pretende, Galileu-san! Você quer fugir! Mas antes pretende nos persuadir com um blefe!

Astutamente ele pergunta:

- Xogum Tokugawa, o Inimigo de Estado vale todo esse banho de sangue? Ele vale tanto assim?

Os samurais olham para Nathan. Ele se sente menosprezado.

- Não se trata do Inimigo de Estado, mas do plano hediondo de exterminar Sonata para a construção de uma sociedade utópica! – responde o xogum.

- Hah! – indigna-se ele – Você falando de utopia? O líder de uma facção terrorista utópica que quer transformar Sonata em um Japão feudal?

- Trinta segundos, senhor. – sussurra Yamada.

O xogum continua:

- Acho que ambos temos planos parecidos, xogum Galileu, mas o Império Japonês não será detido pelo hediondo Império Corporativo!

De repente um Zero cruza o céu e atira contra a aeronave do ministro, danificando-a. Chamas se formam, inutilizando o veículo atrás dele.

- Ora, essa! – enfurece-se ele.

- Acabou! – diz Tokugawa.

Galileu brada:

- Não! Eu ainda não estou vencido! – olhando para seus Securitrons, ele ordena – Extermine-os!

As metralhadoras começam a girar. Os samurais se intimidam. Prestes a estraçalha-los, aeronaves da Bushido aparecem e liberam suas cargas. Nathan olha para trás e vê seis máquinas se montando sozinhas e formando enormes robôs. Então ele os reconhece.  

- Os robôs samurais!

O rapaz via os mesmos robôs samurais da noite em que ele e Maynard fugiram da sede da Bushido. Os poderosos robôs se levantam e seus olhos brilham, preparando-se para o combate.

Todos se afastam e lhes dão passagem. Nathan se assusta ao vê-los portando pesadas espadas. Os Securitrons se mantém em posição defensiva, protegendo o ministro. O conflito estava prestes a começar.

Do topo de seus ombros, os robôs Kyoto disparam seus mísseis. Os Securitrons cambaleiam, mas revidam com suas metralhadoras, estraçalhando as armaduras dos Kyotos. Montando suas armas lasers, os robôs samurais atiram e derretem as armaduras dos Securitrons. Mas a luta estava só começando.

Mísseis cruzam o céu e destroem o restante das armaduras japonesas. Agora desprotegidos, eles precisavam agir. Nathan vê os Kyotos avançarem contra o inimigo. Seus pesados passos tremiam o piso, desequilibrando-os. Empunhando suas espadas, os Kyotos se aproximam dos Securitrons e rasgam suas armaduras ainda fragilizadas após a saraivada de lasers.   

Apesar da desvantagem numérica, os Kyotos lutam bem e derrubam alguns Securitrons. Os robôs corporativos não foram projetados para o combate próximo e, ao terem suas metralhadoras decepadas pelas espadas, não conseguem usar seus lança-mísseis.

- A vitória se aproxima! – comemora Tokugawa.

Os Securitrons disparam alguns mísseis, mas também sofrem dano devido a curta distância. Com suas armaduras derretidas e seus membros decepados, eles caem e se explodem devido aos danos. Após sofrerem avarias, alguns robôs japoneses caem e se explodem também, incapazes de resistir ao poderoso armamento inimigo.

Ao final do combate, apenas dois Kyotos restam. Em contrapartida, todos os Securitrons haviam sido destruídos.

Aproximando-se de sua aeronave, os samurais encontram Galileu deitado e ferido. O xogum aponta sua espada para sua garganta e diz:

- Seus samurais foram mortos e sua fortaleza foi destruída. Acho que você sabe o que deve fazer.

Cuspindo sangue, Galileu olha para o xogum e ri.

- Você espera que eu cometa suicídio, não é? Para sua facção, esta é uma rendição aceitável?

Inflexível, Tokugawa responde:

- Sua derrota o desonra.

Nathan aparece ao lado deles.

- Ora, aí está você, Inimigo de Estado? Você deve estar orgulhoso, não? Se aliando às facções que cometem os atentados mais covardes para promover sua Rebelião.

Vendo-o todo sujo e humilhado no chão, ele responde:

- Olá, ministro Galileu. Você está bem diferente da última vez em que nos vimos. Sinto falta da eloquência e do requinte de antes.

- Você não faz ideia do que fez, moleque! Se as corporações caírem, Sonata cai também! Os ministérios não são os governadores e sim os executores da vontade corporativa. A Cúpula é a legisladora; nós aplicamos sua lei.

- Mesmo que isso signifique cometer genocídio?

Discordando, o ministro responde:

- Imagine Sonata como o corpo. As corporações são a alma. Sem a alma o corpo morre.

Galileu não queria ouvi-lo. Aproximando-se, o rapaz repete o que o próprio ministro disse meses atrás:

- Por acaso você sabe o que está em jogo aqui?

Com olhar férreo, Yamada diz:

- Devemos executa-lo e fazer o que ele não tem coragem de fazer.

- Não! – intervém Tokugawa – Vamos leva-lo prisioneiro.

Uma aeronave pousa no terraço. Os samurais levantam o ministro e o levam dali. Nathan assiste aquilo e acha tudo muito irônico. Da última vez ele era o prisioneiro e agora o era Galileu. Sem querer admitir, o rapaz era o responsável pelas mudanças mais profundas ultimamente.

O xogum e seus samurais se preparam para partir. Nathan se aproxima e pergunta:

- Tokugawa-san, o que vocês vão fazer com ele?

Escondendo suas reais intenções, ele responde:

- Galileu-san tem muitas informações. Vamos leva-lo ao interrogatório.

Desconfiado, o rapaz faz outra pergunta:

- E depois vocês o deixarão viver?

Evasivo, o xogum pergunta:

- Nathan-san, como você conquistou o respeito dos runners?

O rapaz não entende a mudança brusca de assunto.

- Há apenas três semanas você iniciou a Rebelião. Hoje você comanda um exército – se é que posso chama-lo assim – de delinquentes e marginais que sofrem a cada dia para sobreviver. Logo você, que era um cidadão dos confortáveis níveis superiores. O que você fez?

Nathan não sabe o que responder.

- Eu não sei. Talvez eles vejam mérito em minha coragem para derrubar o governo.   

Tokugawa sorri.

- Não, Nathan-san. Os subordinados só respeitam quem eles temem. E se você nunca sangrou para sobreviver, seja com eles ou sozinho, você não tem o direito de envia-los para sangrarem combatendo por você.

Então o rapaz teme estar sendo manipulado. Ele responde:

- Talvez o senhor tenha razão.

- Eu e os Trans-humanistas falhamos em torna-lo um guerreiro, mas a guerra passa constantemente por você, cobrando-o de quem você deverá se tornar. Então você deve escolher: quer continuar sendo o inocente e bondoso Nathan ou o obstinado e implacável Inimigo de Estado?

Mais uma vez Nathan se via pressionado a se sacrificar pela Rebelião. Ele ousadamente pergunta:

- Eu não posso ser os dois?

- Talvez. Mas em um mundo dicotômico e dualista, você só pode escolher um, nunca os dois ao mesmo tempo. – afastando-se, o xogum diz – Sayonara, Nathan-san.

Levantando sua espada, o xogum brada:

- Banzai!

Em seguida os samurais levantam bandeiras e entoam um poderoso coro capaz de estremecer todo o prédio.

“Banzai!”.

 

 

 

 

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