domingo, 12 de setembro de 2021

Sonata - 48 - O Retorno ao Submundo

 


(Arte de Adrian Gutierrez)


Caminhando com passos determinados, Nathan entra na sala de Database e, enfurecidamente, pergunta:

- Database, como a população sabia que eu estava no Ministério de Segurança Pública?!

O chefe não entende.

- Do que está falando?

- Durante o ataque, milhares de manifestantes protestaram nas passarelas, pondo em risco suas vidas! Como eles sabiam que eu estaria lá? Estas são linhas de comunicação seguras; seria impossível o vazamento de informações vindas daqui!

Bebendo seu uísque, Database se encosta em sua poltrona e, evasivamente, responde:

- Nathan, esses são modos de se comportar em frente à visita?

Intrigado, ele pergunta:

- Que visita?

Apontando para alguém atrás dele, o rapaz se vira e arregala os olhos.

- Laura...?!

Encostada na parede, a garota cruza seus braços.

- Database, eu voltarei depois. Até breve.

Como de costume, Laura dá as costas e vai embora.

- Espere! – interrompe o chefe – Fique mais um pouco. Nathan vai querer ouvir o que você tem a dizer.

O rapaz se intriga. Ele sempre era o último a saber dos segredos da superfície. Olhando para Database, ele pergunta:

- O que é tão importante para eu querer saber?

- É o Vertigo. – responde ele – O hacker traiu a Laura, a superfície... – e então ele conclui – E você, Nathan.

Arregalando os olhos, o rapaz se recusa a acreditar.

- O quê?

Apertando um botão em sua mesa, um monitor se liga e exibe imagens do circuito de segurança no laboratório da Bio Prótesis. O rapaz vê Laura se esgueirando e invadindo o local.

Surpreendendo-se, o rapaz pergunta:

- Database, você tem acesso aos sistemas de segurança corporativos?

- Eu sou um banco de dados, não sou?

Usando dispositivos de hackeamento, Laura invade uma câmara protegida no laboratório da Bio Prótesis. Em seguida Vertigo aparece e lhe aponta uma arma. Os dois conversam e, de repente, Laura atira no hacker, derrubando-o sobre os frascos de vidro. A garota deixa um objeto sobre um console e depois deixa o local. De repente as imagens tremem e a conexão é cortada, presumivelmente pela explosão.

- Laura...? – assusta-se o rapaz – Você matou ele?

Com uma série de fatores envolvidos, a garota se recusa a responder. Database diz:

- Pouco antes de morrer, Vertigo havia se aliado aos Trans-humanistas. Desejando ascender aos níveis superiores e a procura de uma causa para defender, ele traiu a superfície e o Submundo. Isso explica seu desaparecimento e sua súbita mudança de comportamento. Secretamente ele havia se tornado um agente infiltrado entre nós.

Confuso, o rapaz põe as mãos na cabeça e se senta.

- Mas o que ele estava fazendo no laboratório, chefe? A missão era tomar a Bio Prótesis, não destruí-la.

Database e Laura se entreolham.

- O hacker foi enviado pelos Trans-humanistas para invadir o laboratório e roubar a tecnologia corporativa. Laura, felizmente, o impediu antes.

- Impediu?! – desconfia Nathan – Mas como ela sabia que Vertigo estaria lá? E se sabia, como ela estava lá antes? Não deveria ser o contrário?

Questionado, o chefe se silencia. O rapaz sabia que a runner não havia se aliado ao Submundo, portanto ela não deveria participar da missão em primeiro lugar. Ademais, se apoderar da tecnologia corporativa estava explícito no ataque trans-humanista. “Então por que impedi-lo?”, pergunta-se Nathan.

 Database respira fundo. O rapaz estava ficando cada vez mais perspicaz.          

 - Nathan, nós sabemos que aquela tecnologia nas mãos dos Trans-humanistas seria muito útil para acabarmos com a Rebelião, mas este é um risco muito alto para corrermos. Você, mais do nunca, sabe que eles são cruéis e assassinos. É isso o que você quer? Dar mais armas aos assassinos? – pergunta ele, sabiamente – Por isso eu enviei a Laura, para prevenir que isso acontecesse.

Aos poucos, o rapaz se convence.

- Isso quer dizer que a Laura se juntou ao Submundo? – pergunta ele, olhando para ela.

- Não é tão simples. Laura é uma colaboradora especial, uma agente tanto da superfície quanto do Submundo.  Sua versatilidade é excepcional, não se encaixando em nenhuma causa política. Ela faz o que quer e quando quer. E eu passo os melhores serviços para a melhor runner... Lótus.

A garota se irrita.

Ao ouvi-lo, inesperadamente Nathan discursa:

- Você quer saber o que eu acho? Que eu estou sendo usado como um peão nesta Rebelião, constantemente manipulado pelas facções e pela superfície em prol de seus próprios objetivos egoístas. Me usam para inflamar as massas e provocarem manifestações. Me usam como ponta de lança e garantia de cooperação entre as facções. Me usam para liderar ataques quando não tenho autoridade ou liderança alguma... Estou sendo “emoldurado” por terroristas e subversivos para me tornar um monstro impiedoso igual a eles, abandonando a minha alma para me tornar o Inimigo de Estado, um subversivo implacável que pouco se importa com o custo de vidas humanas no decorrer da Rebelião. Mas eu te pergunto, Database. Esse Inimigo de Estado idealizado que todos desejam conseguirá ser contido?

O chefe se intriga. O rapaz continua:

- Você me disse que Laura é uma agente tanto da superfície quanto do Submundo, elogiando sua versatilidade excepcional. Como pode ser isto? Estamos combatendo a ameaça do genocídio, oras! Isto não é mera causa política, é a sobrevivência nossa e de outros milhões! Pode você confiar em alguém que não dá a mínima para a única causa mais importante da história de Sonata?

Afrontada, Laura responde:

- Você não...

- Eu ainda não terminei! – interrompe ele, surpreendendo-os – E você, Database, como pode ter melhores ou piores serviços neste momento tão crítico? Pode algo ser mais importante do que a causa do Submundo? As facções lá em cima estão se matando pela superioridade ideológica e bélica. Nos rebaixamos a esse nível? Lutando por influência e egoísmo quando deveríamos nos fortalecer nos unindo? – fazendo uma pausa, ele conclui – De fato, não somos tão diferentes das facções, ou mesmo das corporações. Somos como o finado Vertigo disse, um bando de conspiradores conspirando contra os conspiradores.

Laura e Database se entreolham novamente, não sabendo o que dizer. Então o chefe quebra o silêncio e diz:

- Por que isso agora, Nathan? Em seu sonho de acabar com a Rebelião, pretende se rebelar contra mim?

- Quais são seus objetivos, Database? – pergunta ele, confundindo-o.

- O que quer dizer?

- O fim do Projeto Gemini, a vingança contra as corporações ou o poder sobre Sonata?

Exposto, o chefe tenta persuadi-lo.

- Isto não é óbvio?

Nathan não responde. Para ele era evidente que o fim do Projeto Gemini era o menor dos seus objetivos.

- Pois bem. Se compartilhamos da mesma causa, então por que tolera alguém que, além de não compartilha-la, não lhe dá a mínima? – ele se referia a Laura.

Maliciosamente o chefe responde:

- Você não confia mais em Laura, não é mesmo? Ou está lidando com algo mais pessoal e profundo como a rejeição?

Ao ouvi-lo, Nathan sente dor.

- Fui acusado por Laura de ser um assassino por ter apertado um botão. Ela, porém, apertou um gatilho, matando friamente como eu jamais o faria. Ao detonar a bomba, eu tinha um objetivo em mente; mas ela tinha apenas seu ego e sua reputação. Você me perguntou se eu confio nela e eu te responderei: não, eu não confio. O lugar desta mulher não é aqui e sim lá em cima com as facções. Se é que, de alguma forma, ela já não está com eles...

Desmascarada, a garota não se contém e avança contra Nathan. Database se levanta e a segura, impedindo-a. Com o barulho, os seguranças entram e interrompem a confusão. Laura exclama:

- Maldito almofadinha! Pensa que pode se intrometer nos assuntos da superfície?!

O rapaz responde:

- Assassina! Me acusa de assassinato e mata meu amigo?!

A garota está decidida a agredi-lo. Preocupado, o chefe pede para seus seguranças a tirarem da sala.

- Eu espero que você morra em sua rebelião, Inimigo de Estado!

- Quem está morto é você! E por dentro, com um cubo de gelo em seu peito!

Fechando a porta, a confusão se encerra e o silêncio volta novamente. Database enxuga o suor de sua testa e diz:

- Você tem coragem, rapaz.

- Não! Eu tenho é pressa. Agora que ela saiu, podemos falar de negócios.

O chefe não entende.

- O que quer dizer?

- O Submundo, Database. Precisamos treinar os runners e deixá-los minimamente decentes, do contrário jamais teremos respeito dos terroristas e das corporações.

Database não compreende.

- Respeito...?

Arrumando-se, o rapaz novamente se senta e então diz:

- Os Trans-humanistas e a Bushido muito me humilharam comentando o quanto o meu “exército” era marginalizado e patético. Eu quero mudar isso. Planejo criar uma classe de runners nova, um híbrido de habilidade física, típica da superfície, com poder de fogo e hierarquia, típicos das facções. Esta seria uma classe exclusiva do Submundo, focada e objetivamente orientada, diferente dos hackers e ladrões do Mystique. – então ele conclui dizendo – Devemos treina-los, disciplina-los e, principalmente, arma-los com armamentos corporativos.

Database se intriga com a proposta de Nathan. Ele sabiamente pergunta:

- Meu rapaz, tudo isso foi um ardil para tirar Laura da sala?

O chefe não era nenhum idiota. Agora ele percebeu que Nathan intentava conversar com privacidade.

- O que você acha? – sorri ele.

Database sorri também. Sentando-se, ele acende um charuto e diz:

- Por que isso agora, Nathan? Por que se preocupar com os runners?

- Não teremos prestígio se continuarmos batalhando como parasitas das corporações. Não queremos mantê-las, queremos destruí-las. A nossa causa deve estar implícita em nossa aparência.

Puxando a fumaça, o chefe pergunta:

- De que prestígio está falando? Das facções?

- Não! – discorda ele – Prestígio do povo! Estamos batalhando pelo povo!

Assentindo, Database pergunta:

- Você quer mudar nossa aparência para nos tornarmos aceitáveis à população de Sonata, como relações públicas?

- Exatamente.

- Mas você protestou contra as manifestações durante os ataques do Submundo. Mudou de ideia agora?    

- As manifestações podem ser úteis, desde que mantenham uma distância segura. – mudando o tom, ele continua – A população está disposta a morrer por mim. Não existe Rebelião sem o Inimigo de Estado. Quero dá-los um Inimigo de Estado que eles possam confiar, incluindo um exército disciplinado e com um mínimo de credibilidade. – apontando para a porta, ele diz – Infelizmente esses moleques viciados e vagabundos não convencem a ninguém.

Database ri.

- Disciplinar os runners? Meu rapaz, apesar de todo esse tempo na superfície, acho que você ainda não os conhece direito.

- Não todos, apenas aqueles comprometidos com a Rebelião.

- E de onde tiraremos equipamentos para treina-los.

- Do Ministério de Segurança Pública. Há um arsenal lá dentro. A Bushido já é bem equipada e não usará tudo.

Então o chefe coça seu queixo.

- Pode funcionar.

- Você conhece o efetivo do Submundo?      

- Quinhentos, talvez menos. – responde ele, dando de ombros.

- Muito pouco. Em uma cidade com milhões de habitantes, quinhentos delinquentes armados não farão nada contra o exército bem treinado das corporações. Precisamos recrutar o povo.

Database se espanta.

- O povo?!

- Eles lutam por mim nas manifestações. Agora lutarão ao meu lado em combate.

O chefe não consegue acreditar no que ouve.

- Está dizendo que quer trazer gente dos níveis superiores para cá?

- Nosso território é seguro aqui embaixo, livre da influência dos facciosos e das corporações. Podemos usá-lo.

Preocupado, o chefe responde:

- Nathan, trazer esses forasteiros para a superfície é perigoso. Estaremos nos sujeitando a traidores e espiões...

- Elimine-os!

Com sua interrupção contundente, Database se assusta.

- Como é?

- Estamos lutando contra a ameaça do genocídio, e espiões e traidores são cúmplices disso.  

Novamente fumando, o chefe encara bem o rapaz à sua frente. Era como se ali houvesse outro Nathan.

- O que aconteceu lá em cima, meu rapaz? O que aconteceu para você mudar tanto?

- Xogum Tokugawa me ensinou algo importante ontem à noite. Neste momento tão delicado, a liderança não pode ser torpe. É necessário um líder focado para a causa. Tokugawa lidera a facção mais disciplinada e bem treinada de Sonata. Ele me mostrou que o líder é o reflexo da tropa. Se ele não for consistente, seus subordinados também não o serão.

Database lhe faz um olhar desconfiado.

- Pretende liderar a Rebelião? Você sabe o que isso significa?

- Eu sei o que você está pensando, Database. Não pretendo derruba-lo e tomar o seu lugar, mas devo ressaltar que a Rebelião não existe sem o Inimigo de Estado. Nesse jogo de enganos e manipulações, todos usam a mim, e eu mudarei isso. – em tom ameaçador, ele conclui – Desta vez, eu usarei a todos.

O chefe se sente afrontado.

- Todos usam a Nathan?

- Nathan Hill é passado. Agora eu sou o Inimigo de Estado.

Então o rapaz se encosta no sofá e cruza sua perna.

Database sorri, Nathan estava se tornando aquilo que ele queria. Entretanto, ele se lembra de algo e sabiamente pergunta:

- Nathan, você não se importa que Laura possa se afastar deste novo homem que você quer ser?

Lidando com seus sentimentos, o rapaz responde:

- Se afastar? E quando foi que ela se aproximou de mim?

- A Lótus é uma mulher independente. Seus objetivos são obscuros até para mim.

- Mas os meus são explícitos, não é mesmo? Acho que todos no Submundo sabem que eu a amo.

Expelindo fumaça, o chefe responde:

- Se na superfície houvesse um jornal, seu interesse por ela estaria na primeira página.

Então os dois riem. Mas, secretamente, o rapaz esconde seu abatimento por dentro.

 

 

  

 

 

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