(Arte de Adrian Gutierrez)
Caminhando com
passos determinados, Nathan entra na sala de Database e,
enfurecidamente, pergunta:
- Database, como
a população sabia que eu estava no Ministério de Segurança Pública?!
O chefe não entende.
- Do que está
falando?
- Durante o
ataque, milhares de manifestantes protestaram nas passarelas, pondo em risco
suas vidas! Como eles sabiam que eu estaria lá? Estas são linhas de comunicação
seguras; seria impossível o vazamento de informações vindas daqui!
Bebendo seu
uísque, Database se encosta em sua poltrona e, evasivamente, responde:
- Nathan, esses
são modos de se comportar em frente à visita?
Intrigado, ele
pergunta:
- Que visita?
Apontando para
alguém atrás dele, o rapaz se vira e arregala os olhos.
- Laura...?!
Encostada na
parede, a garota cruza seus braços.
- Database, eu
voltarei depois. Até breve.
Como de costume,
Laura dá as costas e vai embora.
- Espere! –
interrompe o chefe – Fique mais um pouco. Nathan vai querer ouvir o que você
tem a dizer.
O rapaz se
intriga. Ele sempre era o último a saber dos segredos da superfície. Olhando
para Database, ele pergunta:
- O que é tão
importante para eu querer saber?
- É o Vertigo. –
responde ele – O hacker traiu a Laura, a superfície... – e então ele conclui –
E você, Nathan.
Arregalando os
olhos, o rapaz se recusa a acreditar.
- O quê?
Apertando um
botão em sua mesa, um monitor se liga e exibe imagens do circuito de segurança
no laboratório da Bio Prótesis. O rapaz vê Laura se esgueirando e invadindo o
local.
Surpreendendo-se,
o rapaz pergunta:
- Database, você
tem acesso aos sistemas de segurança corporativos?
- Eu sou um banco
de dados, não sou?
Usando
dispositivos de hackeamento, Laura invade uma câmara protegida no laboratório
da Bio Prótesis. Em seguida Vertigo aparece e lhe aponta uma arma. Os dois
conversam e, de repente, Laura atira no hacker, derrubando-o sobre os frascos
de vidro. A garota deixa um objeto sobre um console e depois deixa o local. De
repente as imagens tremem e a conexão é cortada, presumivelmente pela explosão.
- Laura...? –
assusta-se o rapaz – Você matou ele?
Com uma série de
fatores envolvidos, a garota se recusa a responder. Database diz:
- Pouco antes de
morrer, Vertigo havia se aliado aos Trans-humanistas. Desejando ascender aos
níveis superiores e a procura de uma causa para defender, ele traiu a
superfície e o Submundo. Isso explica seu desaparecimento e sua súbita mudança
de comportamento. Secretamente ele havia se tornado um agente infiltrado entre
nós.
Confuso, o rapaz
põe as mãos na cabeça e se senta.
- Mas o que ele
estava fazendo no laboratório, chefe? A missão era tomar a Bio Prótesis, não
destruí-la.
Database e Laura
se entreolham.
- O hacker foi enviado
pelos Trans-humanistas para invadir o laboratório e roubar a tecnologia
corporativa. Laura, felizmente, o impediu antes.
- Impediu?! –
desconfia Nathan – Mas como ela sabia que Vertigo estaria lá? E se sabia, como
ela estava lá antes? Não deveria ser o contrário?
Questionado, o
chefe se silencia. O rapaz sabia que a runner não havia se aliado ao Submundo,
portanto ela não deveria participar da missão em primeiro lugar. Ademais, se
apoderar da tecnologia corporativa estava explícito no ataque trans-humanista.
“Então por que impedi-lo?”, pergunta-se Nathan.
Database respira fundo. O rapaz estava ficando
cada vez mais perspicaz.
- Nathan, nós sabemos que aquela tecnologia
nas mãos dos Trans-humanistas seria muito útil para acabarmos com a Rebelião,
mas este é um risco muito alto para corrermos. Você, mais do nunca, sabe que
eles são cruéis e assassinos. É isso o que você quer? Dar mais armas aos
assassinos? – pergunta ele, sabiamente – Por isso eu enviei a Laura, para
prevenir que isso acontecesse.
Aos poucos, o
rapaz se convence.
- Isso quer dizer
que a Laura se juntou ao Submundo? – pergunta ele, olhando para ela.
- Não é tão
simples. Laura é uma colaboradora especial, uma agente tanto da superfície
quanto do Submundo. Sua versatilidade é
excepcional, não se encaixando em nenhuma causa política. Ela faz o que quer e
quando quer. E eu passo os melhores serviços para a melhor runner... Lótus.
A garota se
irrita.
Ao ouvi-lo, inesperadamente
Nathan discursa:
- Você quer saber
o que eu acho? Que eu estou sendo usado como um peão nesta Rebelião,
constantemente manipulado pelas facções e pela superfície em prol de seus
próprios objetivos egoístas. Me usam para inflamar as massas e provocarem
manifestações. Me usam como ponta de lança e garantia de cooperação entre as
facções. Me usam para liderar ataques quando não tenho autoridade ou liderança alguma...
Estou sendo “emoldurado” por terroristas e subversivos para me tornar um
monstro impiedoso igual a eles, abandonando a minha alma para me tornar o Inimigo
de Estado, um subversivo implacável que pouco se importa com o custo de vidas humanas no decorrer da
Rebelião. Mas eu te pergunto, Database. Esse Inimigo de Estado idealizado que
todos desejam conseguirá ser contido?
O chefe se
intriga. O rapaz continua:
- Você me disse
que Laura é uma agente tanto da superfície quanto do Submundo, elogiando sua
versatilidade excepcional. Como pode ser isto? Estamos combatendo a ameaça do
genocídio, oras! Isto não é mera causa política, é a sobrevivência nossa e de outros milhões! Pode
você confiar em alguém que não dá a mínima para a única causa mais importante da
história de Sonata?
Afrontada, Laura
responde:
- Você não...
- Eu ainda não
terminei! – interrompe ele, surpreendendo-os – E você, Database, como pode ter
melhores ou piores serviços neste momento tão crítico? Pode
algo ser mais importante do que a causa do Submundo? As facções lá em cima
estão se matando pela superioridade ideológica e bélica. Nos rebaixamos a esse
nível? Lutando por influência e egoísmo quando deveríamos nos fortalecer nos
unindo? – fazendo uma pausa, ele conclui – De fato, não somos tão diferentes das
facções, ou mesmo das corporações. Somos como o finado Vertigo disse, um bando
de conspiradores conspirando contra os conspiradores.
Laura e Database
se entreolham novamente, não sabendo o que dizer. Então o chefe quebra o
silêncio e diz:
- Por que isso
agora, Nathan? Em seu sonho de acabar com a Rebelião, pretende se rebelar
contra mim?
- Quais são seus
objetivos, Database? – pergunta ele, confundindo-o.
- O que quer
dizer?
- O fim do
Projeto Gemini, a vingança contra as corporações ou o poder sobre Sonata?
Exposto, o chefe
tenta persuadi-lo.
- Isto não é
óbvio?
Nathan não
responde. Para ele era evidente que o fim do Projeto Gemini era o menor dos seus
objetivos.
- Pois bem. Se
compartilhamos da mesma causa, então por que tolera alguém que, além de não
compartilha-la, não lhe dá a mínima? – ele se referia a Laura.
Maliciosamente o
chefe responde:
- Você não confia
mais em Laura, não é mesmo? Ou está lidando com algo mais pessoal e profundo como a
rejeição?
Ao ouvi-lo,
Nathan sente dor.
- Fui acusado por
Laura de ser um assassino por ter apertado um botão. Ela, porém, apertou um
gatilho, matando friamente como eu jamais o faria. Ao detonar a bomba, eu tinha
um objetivo em mente; mas ela tinha apenas seu ego e sua reputação. Você me
perguntou se eu confio nela e eu te responderei: não, eu não confio. O lugar
desta mulher não é aqui e sim lá em cima com as facções. Se é que, de alguma
forma, ela já não está com eles...
Desmascarada, a
garota não se contém e avança contra Nathan. Database se levanta e a segura,
impedindo-a. Com o barulho, os seguranças entram e interrompem a confusão.
Laura exclama:
- Maldito
almofadinha! Pensa que pode se intrometer nos assuntos da superfície?!
O rapaz responde:
- Assassina! Me
acusa de assassinato e mata meu amigo?!
A garota está
decidida a agredi-lo. Preocupado, o chefe pede para seus seguranças a tirarem
da sala.
- Eu espero que
você morra em sua rebelião, Inimigo de Estado!
- Quem está morto
é você! E por dentro, com um cubo de gelo em seu peito!
Fechando a porta,
a confusão se encerra e o silêncio volta novamente. Database enxuga o suor de sua
testa e diz:
- Você tem
coragem, rapaz.
- Não! Eu tenho é
pressa. Agora que ela saiu, podemos falar de negócios.
O chefe não
entende.
- O que quer
dizer?
- O Submundo,
Database. Precisamos treinar os runners e deixá-los minimamente decentes, do
contrário jamais teremos respeito dos terroristas e das corporações.
Database não compreende.
- Respeito...?
Arrumando-se, o
rapaz novamente se senta e então diz:
- Os
Trans-humanistas e a Bushido muito me humilharam comentando o quanto o meu “exército” era marginalizado e patético. Eu quero mudar isso. Planejo criar
uma classe de runners nova, um híbrido de habilidade física, típica da superfície, com poder de fogo e hierarquia, típicos das facções. Esta
seria uma classe exclusiva do Submundo, focada e objetivamente orientada, diferente
dos hackers e ladrões do Mystique. – então ele conclui dizendo – Devemos treina-los,
disciplina-los e, principalmente, arma-los com armamentos corporativos.
Database se intriga
com a proposta de Nathan. Ele sabiamente pergunta:
- Meu rapaz, tudo
isso foi um ardil para tirar Laura da sala?
O chefe não era
nenhum idiota. Agora ele percebeu que Nathan intentava conversar com privacidade.
- O que você
acha? – sorri ele.
Database sorri também.
Sentando-se, ele acende um charuto e diz:
- Por que isso
agora, Nathan? Por que se preocupar com os runners?
- Não teremos
prestígio se continuarmos batalhando como parasitas das corporações. Não queremos
mantê-las, queremos destruí-las. A nossa causa deve estar implícita em nossa aparência.
Puxando a fumaça,
o chefe pergunta:
- De que
prestígio está falando? Das facções?
- Não! – discorda
ele – Prestígio do povo! Estamos batalhando pelo povo!
Assentindo,
Database pergunta:
- Você quer mudar
nossa aparência para nos tornarmos aceitáveis à população de Sonata, como relações
públicas?
- Exatamente.
- Mas você
protestou contra as manifestações durante os ataques do Submundo. Mudou de
ideia agora?
- As manifestações
podem ser úteis, desde que mantenham uma distância segura. – mudando o tom, ele
continua – A população está disposta a morrer por mim. Não existe Rebelião sem
o Inimigo de Estado. Quero dá-los um Inimigo de Estado que eles possam confiar,
incluindo um exército disciplinado e com um mínimo de credibilidade. –
apontando para a porta, ele diz – Infelizmente esses moleques viciados e
vagabundos não convencem a ninguém.
Database ri.
- Disciplinar os
runners? Meu rapaz, apesar de todo esse tempo na superfície, acho que você ainda
não os conhece direito.
- Não todos,
apenas aqueles comprometidos com a Rebelião.
- E de onde
tiraremos equipamentos para treina-los.
- Do Ministério
de Segurança Pública. Há um arsenal lá dentro. A Bushido já é bem equipada e não
usará tudo.
Então o chefe
coça seu queixo.
- Pode funcionar.
- Você conhece o efetivo
do Submundo?
- Quinhentos,
talvez menos. – responde ele, dando de ombros.
- Muito pouco. Em
uma cidade com milhões de habitantes, quinhentos delinquentes armados não farão
nada contra o exército bem treinado das corporações. Precisamos recrutar o
povo.
Database se
espanta.
- O povo?!
- Eles lutam por
mim nas manifestações. Agora lutarão ao meu lado em combate.
O chefe não consegue
acreditar no que ouve.
- Está dizendo
que quer trazer gente dos níveis superiores para cá?
- Nosso território
é seguro aqui embaixo, livre da influência dos facciosos e das corporações. Podemos
usá-lo.
Preocupado, o
chefe responde:
- Nathan, trazer
esses forasteiros para a superfície é perigoso. Estaremos nos sujeitando a
traidores e espiões...
- Elimine-os!
Com sua interrupção
contundente, Database se assusta.
- Como é?
- Estamos lutando
contra a ameaça do genocídio, e espiões e traidores são cúmplices disso.
Novamente fumando,
o chefe encara bem o rapaz à sua frente. Era como se ali houvesse outro Nathan.
- O que aconteceu
lá em cima, meu rapaz? O que aconteceu para você mudar tanto?
- Xogum Tokugawa
me ensinou algo importante ontem à noite. Neste momento tão delicado, a
liderança não pode ser torpe. É necessário um líder focado para a causa. Tokugawa
lidera a facção mais disciplinada e bem treinada de Sonata. Ele me mostrou que
o líder é o reflexo da tropa. Se ele não for consistente, seus subordinados também
não o serão.
Database lhe faz
um olhar desconfiado.
- Pretende
liderar a Rebelião? Você sabe o que isso significa?
- Eu sei o que você
está pensando, Database. Não pretendo derruba-lo e tomar o seu lugar, mas devo
ressaltar que a Rebelião não existe sem o Inimigo de Estado. Nesse jogo de
enganos e manipulações, todos usam a mim, e eu mudarei isso. – em tom
ameaçador, ele conclui – Desta vez, eu
usarei a todos.
O chefe se sente
afrontado.
- Todos usam a
Nathan?
- Nathan Hill é
passado. Agora eu sou o Inimigo de Estado.
Então o rapaz se
encosta no sofá e cruza sua perna.
Database sorri,
Nathan estava se tornando aquilo que ele queria. Entretanto, ele se lembra de
algo e sabiamente pergunta:
- Nathan, você não
se importa que Laura possa se afastar deste novo homem que você quer ser?
Lidando com seus
sentimentos, o rapaz responde:
- Se afastar? E quando
foi que ela se aproximou de mim?
- A Lótus é uma
mulher independente. Seus objetivos são obscuros até para mim.
- Mas os meus são
explícitos, não é mesmo? Acho que todos no Submundo sabem que eu a amo.
Expelindo fumaça,
o chefe responde:
- Se na
superfície houvesse um jornal, seu interesse por ela estaria na primeira página.
Então os dois
riem. Mas, secretamente, o rapaz esconde seu abatimento por dentro.

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