(Artista desconhecido)
A aeronave
sobrevoa o distrito de Apogeu, Setor C. A polícia havia instalado canhões
antiaéreos pelo distrito, prevenindo o prédio da corporação de receber ataques
inimigos. Eles ouvem as explosões lá fora, sacudindo a aeronave e desestabilizando-os.
Felizmente os canhões eram poucos e não conseguiam abater as aeronaves da frota
purista.
Iluminada por uma
tênue luz vermelha, Laura observa o interior do veículo. Os puristas estão na
cabine e conversam normalmente. Nasier está sentado à sua frente e conversa com
seu tenente. Mas são os tripulantes atrás dela que a incomodavam. Ela vê homens
de estatura elevada e músculos estufados olhando para o vazio. Sua pele era tão
horrível que parecia do avesso. “Será que são ciborgues?”, pergunta-se ela.
- Não tenha medo.
– diz Nasier, sorrindo – Estes são meus androides da classe Advance, os mais
avançados desenvolvidos pela Resistência Purista. Eu te asseguro que eles são
inofensivos, a não ser, é claro, que você seja seu inimigo.
Mantendo sua
postura durona, ela responde:
- Eu não tenho
medo de nada.
O líder percebe
que ela está um pouco nervosa e inquieta.
- Algum problema,
Laura?
- Não. Por quê?
- Ainda abalada
por causa do Vertigo, não é? Eu te avisei que os Trans-humanistas eram
ardilosos e nada confiáveis.
A garota sorri em
desprezo.
- E qual facção
não é?
Nasier ri.
- Muito espertos
vocês nativos da superfície. Eu me pergunto como o Vertigo, sendo tão sagaz e
inteligente, pôde se convencer com aquela profana doutrina mecanicista.
- Talvez ele não
tenha se convencido, mas escolhido o menos pior.
Laura se referia
à sua declarada ambição de ascender aos níveis superiores.
- Pode ser. – pondera
ele – Talvez ele tenha se cansado da superfície, querendo subir para um nível
condizente com o seu intelecto. Acredito que os Trans-humanistas eram só mais
um degrau em sua premeditada ascensão, uma vez que seu nível intelectual dos mecanicistas é tão
baixo quanto o das baratas na superfície. Sem ofensa.
Explosões lá fora
sacodem o veículo, mas a aeronave continua ininterruptamente seu percurso.
- Vocês eram
muito amigos, não é?
Com semblante
sério, ela pergunta:
- Por que quer
saber?
- Deve ter sido
difícil para você suportar a traição de seu amigo ou, pior ainda, executa-lo a
sangue frio.
O líder sabia que
os dois se conheciam desde criança, mas ele a perguntava para provoca-la,
tentando arrancar algo da fria runner.
- Não interessa.
- Ainda mais por
que os amigos de infância são como família. E fazemos tudo pela família, não é
mesmo? Desde favores... – comenta ele – Até o perdão.
Intrigada, a
garota pergunta:
- O que quer
dizer?
Nasier sorri. Seus
espiões informaram que a runner foi vista com um homem mais velho,
presumivelmente seu pai. Interessando-se, o líder quis saber mais sobre sua freelance. No passado, ele conheceu pessoalmente
Ultra e tinha grande admiração por ela. Nasier sabe que ela está desaparecida,
mas o pai de Laura, entretanto, vivia como indigente nos becos da superfície.
Apesar de Nasier
ser um terrorista assassino, fanático pela pureza física, ele acha surpreendente
como uma filha deixa seu próprio pai viver nas ruas como um mendigo. Mas ele
não pôde deixar de se interessar ao saber que a fria runner o havia abrigado
novamente em sua casa.
Em tom
condescendente, ele diz:
- Laura, eu não
quero parecer insensível, mas estamos vivendo tempos difíceis. O Projeto
Gemini, a Rebelião, o vazamento de arquivos ultrassecretos... Mas nós temos um
trabalho para fazer hoje à noite. Portanto eu te peço: não amoleça!
A aeronave chega
ao seu destino. Ao abrir a porta, a garota se vê em uma zona de guerra.
Aerocarros voam de um lado ao outro, os puristas trocam tiros com a polícia e,
sobre os terraços, os canhões antiaéreos atiram incessantemente. Nem durante o
ataque à Bio Prótesis Laura viu tamanha ferocidade assim.
Adiante ela vê o
belo prédio da corporação Cellgenesis. Espelhado e iluminado por neons verdes,
a enorme edificação se sobressaía no distrito, encantando a vista dos
habitantes. Nas plataformas abaixo ela vê as manifestações populares, mas
aquela era diferente. Os manifestantes não estavam lá para apoiar a Rebelião e
sim destruir aqueles que aprisionaram seus parentes e os baniram da metrópole.
“Mais uma
consequência do vazamento de informação”, pensa ela.
Aproximando-se,
Nasier chama a garota e diz:
- Laura, nós
vamos deixar o combate para os soldados da Resistência Purista. Eu, meu tenente
e meus androides vamos escolta-la até o interior da corporação. Uma vez dentro,
procure pelo laboratório. Creio que você já sabe o que fazer.
Recarregando suas
armas, ela responde:
- Então o que
estamos esperando?
O líder e seu
tenente sorriem.
- Essa é minha
Lótus!
Em seguida eles
se dirigem para a escadaria externa.
Com um mapa em
sua mão, o tenente traça uma rota longa, porém discreta. Três androides os
seguiam, com passos pesados e em silêncio. Seria muito difícil manter a
discrição com eles por perto, mas podiam ser úteis em um confronto repentino.
Passando por trás
dos prédios, o grupo se esgueira atrás dos painéis e dos letreiros. Um
pandemônio havia cercado a corporação, mas no distrito seus habitantes se
protegiam dentro de seus apartamentos. Notando o silêncio incomum, Laura se
surpreende.
Descendo a um
túnel, eles o encontram totalmente deserto. Normalmente ele estaria abarrotado
de pessoas e barracas de ambulantes. Nasier ouve um ruído atrás deles. Duas
aeromotos de polícia se aproximavam.
Os policiais
passavam apressadamente, dirigindo-se para o combate. De repente os androides
os empurram, derrubando-os das aeromotos. Após a queda, os policiais tentam
sacar suas armas e revidar, mas são baleados por Nasier e seu tenente, morrendo
em seguida.
- Rápido! Vamos
sair daqui antes que mais apareçam. – ordena o líder.
O grupo continua
seu caminho até saírem ao ar livre. Sobre as plataformas, as viaturas voam
perigosamente pelo céu. Os aerocarros da facção passam também, ocupadas em
combate. Laura nota uma abertura no teto dos veículos com um purista operando
uma metralhadora fixa. Seria um combate ferrenho aquela noite.
Alcançando uma
megatorre, eles sobem pelas escadas de incêndio. No andar de estacionamento,
eles encontram um canhão antiaéreo atirar contra seus veículos. Aproximando-se
lentamente, eles veem os policiais distraídos, operando-o. Empunhando suas
armas, Nasier e seu tenente atiram, fuzilando-os.
- Androides!
Derrubem este canhão! – ordena o líder.
Laura se confunde,
pensando que eles vão tombar o pesado canhão no chão. Então os androides se
aproximam e, erguendo-o com as próprias mãos, o empurram contra a beirada do
edifício, jogando-o lá embaixo. A garota se espanta.
- Impressionante,
não? – comenta Nasier – A força de meus androides é cem vezes maior do que a de
um humano comum.
Então a runner
percebe. Aqueles monstros podiam esmagar crânios com as próprias mãos.
Chegando ao topo,
o caminho indicava que eles teriam de pular de um terraço ao outro. Felizmente era uma
distância de poucos metros entre os prédios. Porém, a queda era de centenas de
metros que, na escuridão da noite, parecia interminável.
O tenente diz:
- Espero que não
tenham medo de altura.
Nasier brinca:
- Você tem,
Laura?
Ignorando-o, ela
corre e então pula agilmente como um gato. Ao chegar no outro lado, ela rola
habilmente, amortecendo a queda. Os puristas ficam boquiabertos.
- Bem... – começa
o tenente – Se ela fez, nós também podemos fazer...
O líder e seu
tenente pulam, caindo desajeitados no chão. Os androides seguem logo atrás, com
passos pesados e estremecendo o piso na queda.
Avançando, ele encontram
outro canhão. Os puristas atiram e eliminam os policiais. Um deles tenta fugir,
mas é atingido por Laura. Outro se levanta e tenta ataca-los pelas costas. Um
androide é baleado, mas, para o pavor do policial, ele não morre e continua em
pé. Erguendo-o com apenas um braço, o androide o segura pelo pescoço e o atira
do terraço. A garota ouve seus gritos até eles cessarem lentamente.
Os androides erguem
o canhão e o lançam do terraço. O equipamento se choca contra uma passarela e
gira, caindo desordenadamente entre as megatorres.
“Esses fanáticos
não se importam com quem eles possam ferir lá embaixo”, pensa ela.
Uma passarela
liga o terraço ao prédio mais próximo. No céu, o combate era intenso e os
aerocarros voavam atirando por toda parte. Preocupado, o líder pede para todos
terem cuidado.
Enquanto
atravessam, uma viatura aparece e atira com sua minigun, metralhando um dos
androides. Apesar de sua resistência sobre-humana, as balas o atravessam e
esmigalham seus ossos, perfurando-o de cima a baixo. Sangue jorra de suas
feridas e ele cospe sangue, perdendo suas forças. Desequilibrando-se, ele se
encosta no corrimão e se precipita, caindo acidentalmente lá embaixo.
- Perdemos um
androide...! – exclama o tenente.
Lamentando-se,
Nasier responde:
- Não importa.
Temos que continuar a missão.
Descendo pelas
escadarias, eles prosseguem. Desta vez eles chegam a outros túneis e plataformas
desertas. O tenente diz:
- Nós estamos
próximos da megatorre indicada. Ela é a mais próxima do prédio da corporação. A
partir de lá, Laura deve infiltra-lo pelas aberturas dos dutos.
Eles ouvem sons
abafados vindos de cima.
- Os canhões
continuam operacionais pelo distrito. Esta não será uma batalha fácil. –
comenta Nasier.
O grupo continua
em seu caminho.
Em um túnel,
alguns policiais aparecem e são fuzilados pelos puristas. Intrigados, eles não
encontram armas em seus cadáveres. Então eles percebem que aqueles não eram combatentes
e sim desertores.
- Eles estavam
fugindo! – diz o tenente.
- As corporações
os usam como cães de guarda, mas são apenas assalariados em seu trabalho. Eles
não têm uma causa para defenderem, ao contrário da Resistência Purista, que defende
uma causa nobre.
Ao ouvi-lo, a
garota deixa escapar um sorriso.
Prosseguindo,
eles atravessam uma larga passarela e, no vão entre as megatorres, veem a
passarela que conduz à corporação. O grupo se assusta com uma multidão de
manifestantes ateando fogo e depredando a fachada da Cellgenesis.
Na megatorre
indicada, o mapa indica uma protuberância em sua lateral. À frente se localiza
o ponto mais próximo da corporação. Se Laura conseguir atravessa-lo, ela terá
evadido o combate e alcançado o prédio em segurança.
Subindo as
escadarias, eles chegam ao local indicado. A protuberância tinha uma abertura
onde os policiais atiravam com seu canhão. O grupo os elimina facilmente, mas
os sons se propagam e todos ao redor conseguem ouvi-los.
Os androides
erguem o canhão e se preparam para atira-lo do prédio. De repente eles ouvem um
estrondo e um dos androides é horrivelmente despedaçado. No terraço da
corporação, outra equipe de um canhão os havia visto, disparando contra o
androide.
- Ei! Saia já
daí! – ordena o líder.
Mas o aviso veio
tarde. Os policiais disparam novamente e fulminam o outro androide. O canhão se
queima e provoca uma explosão, lançando-os pelos ares.
O impacto
desorienta Laura. A pequena protuberância havia sido arrasada. Ela tenta se
manter acordada, mas vê apenas as chamas se espalhando. Agora descobertos, os
policiais miram seus canhões e atiram contra eles, destruindo toda a lateral do
prédio. Levantando-se, ela vê Nasier e seu tenente desacordados no chão. A
estrutura ao redor estremecia, começando a ruir. Nas paredes, Laura vê
tubulações de gás inflamável. Temendo por sua vida, ela precisava fugir, não
havia tempo para acorda-los.
“Mas”, pensa ela,
“pensando bem, eu nem quero”.
Correndo através
das chamas, ela toma impulso e se atira do edifício. A explosão forma uma onda
de fogo atrás dela, assoprando os detritos e os estilhaços pelos ares. O tempo
parece se desacelerar. Propulsionada pelo ar quente, ela é lançada contra o prédio
da corporação, voando rápida como um raio, porém vendo tudo em câmera lenta. Ela
vê um tubo e atira um gancho amarrado a uma corda. O gancho se prende e ela
interrompe a queda, evitando ter seus ossos estraçalhados pelo impacto.
Pendurada pela corda, Laura assiste à abertura do prédio ser tomada pelas chamas. Ela respira fundo, aliviada.
Balançando-se como um pêndulo, ela toma impulso e se atira a
uma varanda no prédio corporativo. Ela aterrissa e espera um minuto para
descansar um pouco. No terraço, a polícia ainda atirava com seus canhões.
Felizmente eles não a viram.
Laura percebe
algo. Olhando para cima, o combate aéreo prosseguia. Olhando para baixo, a
violenta manifestação também. Nos terraços, os puristas combatiam com fuzis e
rifles de longo alcance, tornando impossível atravessa-los. Pelo distrito,
haviam defesas por toda parte. Em lamento, ela reconhece que estava em um
matadouro.
Escorando-se no
parapeito, ela nota que apenas as tubulações industriais eram seguras. Se ela
tiver sorte, ela conseguirá descer até a superfície e esgueirar-se até os
combates cessarem amanhã.
Pegando uma
corda, ela sobe no parapeito e se prepara para descer. Então algo acontece.
- Desça já daí,
Laura!
Assustada, ela
olha para trás. Não acreditando em seus olhos, ela via Nasier. O líder estava
todo ferido, parcialmente queimado e com as roupas rasgadas. Todavia, ele
estava furioso e lhe apontava uma arma.
- Nasier?!
- O que você
pensa que está fazendo, menina? Por acaso intentava fugir e abandonar a missão?
Isso era
exatamente o que ela ia fazer.
- Eu não sou uma
ferramenta para você me usar.
Rindo, o líder
responde:
- Nós fizemos um
acordo. Eu te ajudei e agora você me ajuda. Você não honra seus compromissos?
A garota lhe olha
com desprezo.
- A causa purista
não vale o risco.
- Ora, sempre tão
durona... – sorri ele – Mas não tem palavra. Ultra jamais faria isso.
A garota
vocifera.
- Não ouse falar
da minha mãe!
- Então seja como
ela! – exclama ele – Infiltre-se na Cellgenesis, roube a tecnologia corporativa
e termine o serviço! Como Ultra o faria.
Laura sabe que
não pode se recusar. Ela não podia arriscar a vida de seu pai nas mãos daqueles
loucos mutiladores.
- Está bem.
A entrada do duto
de ventilação estava logo acima. Pendurando-se nos tubos, ela alcança a grade e
a desparafusa com suas ferramentas. Dentro da tubulação, ela olha pelas grades
e vê as salas abaixo. Laura nota que os sistemas de segurança estão ligados,
mas as salas estavam vazias. Com todo aquele confronto ocorrendo lá fora, os
seguranças foram defender o edifício.
Seu rastreador
localiza o terminal de segurança. Descendo do duto, ela assopra seu spray e
enxerga os lasers no corredor. Habilmente se esquivando, ela cautelosamente avança.
Seu pé toca acidentalmente um laser e os alarmes disparam, assustando-a. As
metralhadoras se desacoplam do teto e começam a surgir.
Sob uma chuva de
balas, ela corre em direção a um escritório. As mesas e os computadores são
alvejados, levantando os papeis e os pedaços de madeira. Pegando uma bomba EMP,
ela a joga e se protege. A descarga elétrica desativa as metralhadoras, mas ela
ainda não estava a salvo.
Saindo dos
compartimentos ocultos, bots percorrem o andar, procurando a intrusa. Escondida,
Laura vê robôs de tamanho médio movidos a esteira. Recarregando sua arma, ela
se levanta e pressiona o gatilho, cerrando os dentes furiosamente. O bot
é estraçalhado pelas balas, caindo em pedaços em seguida.
Os outros bots se
aproximam. Voltando pelo andar, ela encontra a entrada de outro duto e entra.
Arrastando-se lá dentro, ela olha pela grade e vê o bot patrulhando. Deixando o
duto, ela pula sobre o robô e agarra sua cabeça. Desorientado, o bot tenta se
desvencilhar, mas a garota enfia uma faca em seu pescoço e arranca sua cabeça,
puxando-a violentamente em meio a descargas elétricas.
O último robô a
detecta, preparando-se para atirar. A garota se abaixa e vê um extintor na
parede. Ela atira e uma fumaça de pó branco se levanta. Os rastreadores do bot
são afetados e ele se confunde. De repente a runner aparece e dá uma voadora em
sua cabeça, derrubando o robô violentamente. Antes que pudesse se levantar, a
garota pisa em seu corpo e descarrega sua arma, estraçalhando-o.
Passado o perigo,
Laura calmamente recarrega e se dirige à sala de segurança.
“Trancada”, constata
ela.
Pegando sua
gazua, ela a insere na fechadura e destranca a porta. A sala de segurança tinha
muitos monitores, a garota via o interior de todo o edifício. Os policiais
defendiam o prédio em seu topo, mas o interior estava sinistramente deserto.
O terminal de
segurança estava à sua frente. Pegando seu decodificador, ela o posiciona sobre
o painel e conecta os cabos no aparelho. De repente uma tristeza enche o seu
peito. Ela se lembra que foi Vertigo quem lhe deu o decodificador. Apesar de sua
vergonhosa traição, ela não deixava de sentir saudades dele.
A garota hackeia
o sistema. Agora liberado, ela desliga os alarmes, câmeras e metralhadoras de
teto. Acessando o controle das portas, ela destranca o laboratório, deixando a
sala em seguida.
Caminhando
livremente pelos escritórios, Laura chega aos elevadores. Apertando o botão, as
portas começam a se fechar quando alguém subitamente diz:
- Espere! – uma
mão impede o fechamento das portas – Eu também vou descer.
Nasier então entra
no elevador. Surpresa, a garota pergunta:
- Como você
entrou aqui?
Mexendo em suas
feridas, o líder responde:
- Arrombando as
portas. Você desligou os alarmes, lembra?
A runner assente.
- E por que você
está aqui?
Nasier é irônico.
- Pensei que você
fosse precisar de ajuda.
A garota se
irrita. Ele estava lá para vigia-la e se certificar de que ela faria o serviço.
O elevador começa
a descer e um silêncio constrangedor se levanta. Com as mãos no bolso, o líder
comenta:
- Sabe... Eu
sempre me perguntei o que aconteceu com sua mãe.
Como esperado, a
garota se irrita com ele. Laura o ameaça, dizendo:
- É melhor você
não falar da minha mãe, Nasier! Senão você pode se arrepender!
- Ei, acalme-se!
– pede ele – Estamos do mesmo lado, eu e você. Mas o que eu quero dizer é que a
última missão de Ultra foi aqui na Cellgenesis. Entretanto, ela desapareceu e
ninguém sabe onde foi. Ela simplesmente... – hesita ele – Deixou de existir.
A garota se
intriga.
- O que está
querendo dizer?
E então a porta
se abre. Saindo do elevador, eles se deparam com as paredes brancas do vasto
laboratório. Empunhando suas armas, eles percorrem o ambiente.
Nasier continua:
- Com o vazamento
dos arquivos ultrassecretos, nada consta sobre ela no Ministério da Informação,
o que é muito estranho. – olhando para a garota, ele pergunta – Você não acha
estranho?
Laura não sabe o
que responder.
- Eu...
- A minha teoria
é a seguinte. – interrompe ele – Ultra era tão valiosa que quem a capturou lhe
tenha dado um tratamento especial. Essa pessoa era alguém muito poderosa, pois
deletou seus registros e a apagou da metrópole, confinando-a em algum lugar e a
tomando para si. Assim morria Ultra e nascia um mito.
Interessando-se,
ela pergunta:
- Está dizendo
que minha mãe foi raptada?
- Eu não sei. Ela
era muito habilidosa, ninguém ousaria confronta-la. Mas é como dizem: ninguém
vive para sempre.
Semelhante ao
laboratório da Bio Prótesis, ele veem vários componentes genéticos em frascos
de vidro.
- Impossível. –
responde ela.
- Minha outra
teoria é que Ultra se aposentou, abandonando sua carreira no auge e
retirando-se para o anonimato. Da mesma forma, alguém muito poderoso a ajudou,
pois conseguiu apagar seu registro e alterar sua identidade.
Então o coração
da garota treme.
“Será possível
que minha mãe me abandonou assim?”.
- Ela jamais
faria isso. – diz Laura, controlando-se.
Os dois veem
vários frascos com órgãos artificiais dentro. Em uma parede eles leem:
“clonagem”. Antes de entrarem, o comunicador de Nasier toca.
- O que foi?
“Senhor Nasier!
Temos o controle do espaço aéreo do distrito. Separarei unidades para destruir
os canhões e depois concentrarei as forças para o assalto final na corporação”.
- Negativo,
coronel. Inicie o assalto no prédio imediatamente. Ele está deserto e
desprotegido por dentro. Separe equipes menores para cuidar dos canhões”.
“Entendido, senhor!
Devo solicitar os androides Advance para o assalto?”.
- Afirmativo.
Pegue o quanto quiser e se apresse.
“Outra coisa,
senhor. Tentei contatar o tenente e ele não atendeu. O senhor conhece sua
situação?”.
O líder friamente
responde:
- Morto. O
tenente infelizmente morreu em ação. – e então o coronel emudece no outro lado
da linha – Coronel?
“Estou aqui,
senhor. Estou indo agora. Desligo”.
Laura ouve a
conversa e se enoja. O líder não demonstra a menor comoção com a morte de seu
subordinado.
Na sala de
clonagem, eles veem vários cadáveres abertos. A garota se desconcerta, segurando-se
para não vomitar.
- Algum problema,
Laura?
- Não interessa.
- Não está
acostumada com os procedimentos cirúrgicos, não é? Não se preocupe, você se
acostuma com o tempo. – e então ele sorri – Pode confiar em mim, eu sou médico.
A garota já
estava se cansando de sua simpatia cínica.
À frente eles
veem um gigantesco computador. Cabos se conectavam à sua robusta unidade de processamento,
como uma enorme matriz.
Ao lado eles veem
uma câmara criogênica com um bizarro androide. Ele era cinzento e não tinha
pelos ou cabelos. Os dois também notam que ele tinha garras no lugar dos dedos.
O androide era semelhante aos androides da classe Advance da Resitência
Purista, mas menor e menos musculoso. Em uma placa na câmara eles leem:
“Demiurgo”.
- Tremenda
aberração, não? – pergunta o líder.
- Lembra os seus
androides. – provoca ela.
A garota liga o
computador. Colocando o decodificador sobre o painel, ela conecta os cabos e
inicia a extração de dados. De repente eles ouvem um ruído, mas não dão
atenção. O ruído vai ficando cada vez mais alto e eles se intrigam, reconhecendo
o som de vidro se trincando. Confusos, eles olham um para o outro.
Em um estrondo, a
câmara criogênica se estoura de repente. Os dois se assustam e se
protegem dos pedaços de vidro. Em meio a névoa de nitrogênio alguém se levanta,
revelando-se.
Era o androide de
nome Demiurgo.

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