sábado, 25 de setembro de 2021

Sonata - 54 - Cellgenesis

 


(Artista desconhecido)


A aeronave sobrevoa o distrito de Apogeu, Setor C. A polícia havia instalado canhões antiaéreos pelo distrito, prevenindo o prédio da corporação de receber ataques inimigos. Eles ouvem as explosões lá fora, sacudindo a aeronave e desestabilizando-os. Felizmente os canhões eram poucos e não conseguiam abater as aeronaves da frota purista.

Iluminada por uma tênue luz vermelha, Laura observa o interior do veículo. Os puristas estão na cabine e conversam normalmente. Nasier está sentado à sua frente e conversa com seu tenente. Mas são os tripulantes atrás dela que a incomodavam. Ela vê homens de estatura elevada e músculos estufados olhando para o vazio. Sua pele era tão horrível que parecia do avesso. “Será que são ciborgues?”, pergunta-se ela.

- Não tenha medo. – diz Nasier, sorrindo – Estes são meus androides da classe Advance, os mais avançados desenvolvidos pela Resistência Purista. Eu te asseguro que eles são inofensivos, a não ser, é claro, que você seja seu inimigo.

Mantendo sua postura durona, ela responde:

- Eu não tenho medo de nada.

O líder percebe que ela está um pouco nervosa e inquieta.

- Algum problema, Laura?

- Não. Por quê?

- Ainda abalada por causa do Vertigo, não é? Eu te avisei que os Trans-humanistas eram ardilosos e nada confiáveis.

A garota sorri em desprezo.

- E qual facção não é?

Nasier ri.

- Muito espertos vocês nativos da superfície. Eu me pergunto como o Vertigo, sendo tão sagaz e inteligente, pôde se convencer com aquela profana doutrina mecanicista.

- Talvez ele não tenha se convencido, mas escolhido o menos pior.

Laura se referia à sua declarada ambição de ascender aos níveis superiores.   

- Pode ser. – pondera ele – Talvez ele tenha se cansado da superfície, querendo subir para um nível condizente com o seu intelecto. Acredito que os Trans-humanistas eram só mais um degrau em sua premeditada ascensão, uma vez que seu nível intelectual dos mecanicistas é tão baixo quanto o das baratas na superfície. Sem ofensa.

Explosões lá fora sacodem o veículo, mas a aeronave continua ininterruptamente seu percurso. 

- Vocês eram muito amigos, não é?

Com semblante sério, ela pergunta:

- Por que quer saber?

- Deve ter sido difícil para você suportar a traição de seu amigo ou, pior ainda, executa-lo a sangue frio.

O líder sabia que os dois se conheciam desde criança, mas ele a perguntava para provoca-la, tentando arrancar algo da fria runner.

- Não interessa.

- Ainda mais por que os amigos de infância são como família. E fazemos tudo pela família, não é mesmo? Desde favores... – comenta ele – Até o perdão.

Intrigada, a garota pergunta:

- O que quer dizer?

Nasier sorri. Seus espiões informaram que a runner foi vista com um homem mais velho, presumivelmente seu pai. Interessando-se, o líder quis saber mais sobre sua freelance. No passado, ele conheceu pessoalmente Ultra e tinha grande admiração por ela. Nasier sabe que ela está desaparecida, mas o pai de Laura, entretanto, vivia como indigente nos becos da superfície.    

Apesar de Nasier ser um terrorista assassino, fanático pela pureza física, ele acha surpreendente como uma filha deixa seu próprio pai viver nas ruas como um mendigo. Mas ele não pôde deixar de se interessar ao saber que a fria runner o havia abrigado novamente em sua casa.

Em tom condescendente, ele diz:

- Laura, eu não quero parecer insensível, mas estamos vivendo tempos difíceis. O Projeto Gemini, a Rebelião, o vazamento de arquivos ultrassecretos... Mas nós temos um trabalho para fazer hoje à noite. Portanto eu te peço: não amoleça!

A aeronave chega ao seu destino. Ao abrir a porta, a garota se vê em uma zona de guerra. Aerocarros voam de um lado ao outro, os puristas trocam tiros com a polícia e, sobre os terraços, os canhões antiaéreos atiram incessantemente. Nem durante o ataque à Bio Prótesis Laura viu tamanha ferocidade assim. 

Adiante ela vê o belo prédio da corporação Cellgenesis. Espelhado e iluminado por neons verdes, a enorme edificação se sobressaía no distrito, encantando a vista dos habitantes. Nas plataformas abaixo ela vê as manifestações populares, mas aquela era diferente. Os manifestantes não estavam lá para apoiar a Rebelião e sim destruir aqueles que aprisionaram seus parentes e os baniram da metrópole.

“Mais uma consequência do vazamento de informação”, pensa ela.

Aproximando-se, Nasier chama a garota e diz:

- Laura, nós vamos deixar o combate para os soldados da Resistência Purista. Eu, meu tenente e meus androides vamos escolta-la até o interior da corporação. Uma vez dentro, procure pelo laboratório. Creio que você já sabe o que fazer.    

Recarregando suas armas, ela responde:

- Então o que estamos esperando?

O líder e seu tenente sorriem.

- Essa é minha Lótus!

Em seguida eles se dirigem para a escadaria externa.

Com um mapa em sua mão, o tenente traça uma rota longa, porém discreta. Três androides os seguiam, com passos pesados e em silêncio. Seria muito difícil manter a discrição com eles por perto, mas podiam ser úteis em um confronto repentino.

Passando por trás dos prédios, o grupo se esgueira atrás dos painéis e dos letreiros. Um pandemônio havia cercado a corporação, mas no distrito seus habitantes se protegiam dentro de seus apartamentos. Notando o silêncio incomum, Laura se surpreende.

Descendo a um túnel, eles o encontram totalmente deserto. Normalmente ele estaria abarrotado de pessoas e barracas de ambulantes. Nasier ouve um ruído atrás deles. Duas aeromotos de polícia se aproximavam.

Os policiais passavam apressadamente, dirigindo-se para o combate. De repente os androides os empurram, derrubando-os das aeromotos. Após a queda, os policiais tentam sacar suas armas e revidar, mas são baleados por Nasier e seu tenente, morrendo em seguida.

- Rápido! Vamos sair daqui antes que mais apareçam. – ordena o líder.

O grupo continua seu caminho até saírem ao ar livre. Sobre as plataformas, as viaturas voam perigosamente pelo céu. Os aerocarros da facção passam também, ocupadas em combate. Laura nota uma abertura no teto dos veículos com um purista operando uma metralhadora fixa. Seria um combate ferrenho aquela noite.

Alcançando uma megatorre, eles sobem pelas escadas de incêndio. No andar de estacionamento, eles encontram um canhão antiaéreo atirar contra seus veículos. Aproximando-se lentamente, eles veem os policiais distraídos, operando-o. Empunhando suas armas, Nasier e seu tenente atiram, fuzilando-os.

- Androides! Derrubem este canhão! – ordena o líder.

Laura se confunde, pensando que eles vão tombar o pesado canhão no chão. Então os androides se aproximam e, erguendo-o com as próprias mãos, o empurram contra a beirada do edifício, jogando-o lá embaixo. A garota se espanta.

- Impressionante, não? – comenta Nasier – A força de meus androides é cem vezes maior do que a de um humano comum.      

Então a runner percebe. Aqueles monstros podiam esmagar crânios com as próprias mãos.

Chegando ao topo, o caminho indicava que eles teriam de pular de um terraço ao outro. Felizmente era uma distância de poucos metros entre os prédios. Porém, a queda era de centenas de metros que, na escuridão da noite, parecia interminável.

O tenente diz:

- Espero que não tenham medo de altura.

Nasier brinca:

- Você tem, Laura?

Ignorando-o, ela corre e então pula agilmente como um gato. Ao chegar no outro lado, ela rola habilmente, amortecendo a queda. Os puristas ficam boquiabertos.

- Bem... – começa o tenente – Se ela fez, nós também podemos fazer...

O líder e seu tenente pulam, caindo desajeitados no chão. Os androides seguem logo atrás, com passos pesados e estremecendo o piso na queda.

Avançando, ele encontram outro canhão. Os puristas atiram e eliminam os policiais. Um deles tenta fugir, mas é atingido por Laura. Outro se levanta e tenta ataca-los pelas costas. Um androide é baleado, mas, para o pavor do policial, ele não morre e continua em pé. Erguendo-o com apenas um braço, o androide o segura pelo pescoço e o atira do terraço. A garota ouve seus gritos até eles cessarem lentamente.

Os androides erguem o canhão e o lançam do terraço. O equipamento se choca contra uma passarela e gira, caindo desordenadamente entre as megatorres.

“Esses fanáticos não se importam com quem eles possam ferir lá embaixo”, pensa ela.

Uma passarela liga o terraço ao prédio mais próximo. No céu, o combate era intenso e os aerocarros voavam atirando por toda parte. Preocupado, o líder pede para todos terem cuidado.

Enquanto atravessam, uma viatura aparece e atira com sua minigun, metralhando um dos androides. Apesar de sua resistência sobre-humana, as balas o atravessam e esmigalham seus ossos, perfurando-o de cima a baixo. Sangue jorra de suas feridas e ele cospe sangue, perdendo suas forças. Desequilibrando-se, ele se encosta no corrimão e se precipita, caindo acidentalmente lá embaixo.  

- Perdemos um androide...! – exclama o tenente.

Lamentando-se, Nasier responde:

- Não importa. Temos que continuar a missão.

Descendo pelas escadarias, eles prosseguem. Desta vez eles chegam a outros túneis e plataformas desertas. O tenente diz:

- Nós estamos próximos da megatorre indicada. Ela é a mais próxima do prédio da corporação. A partir de lá, Laura deve infiltra-lo pelas aberturas dos dutos.

Eles ouvem sons abafados vindos de cima.

- Os canhões continuam operacionais pelo distrito. Esta não será uma batalha fácil. – comenta Nasier.

O grupo continua em seu caminho.

Em um túnel, alguns policiais aparecem e são fuzilados pelos puristas. Intrigados, eles não encontram armas em seus cadáveres. Então eles percebem que aqueles não eram combatentes e sim desertores.

- Eles estavam fugindo! – diz o tenente.

- As corporações os usam como cães de guarda, mas são apenas assalariados em seu trabalho. Eles não têm uma causa para defenderem, ao contrário da Resistência Purista, que defende uma causa nobre.

Ao ouvi-lo, a garota deixa escapar um sorriso.

Prosseguindo, eles atravessam uma larga passarela e, no vão entre as megatorres, veem a passarela que conduz à corporação. O grupo se assusta com uma multidão de manifestantes ateando fogo e depredando a fachada da Cellgenesis.

Na megatorre indicada, o mapa indica uma protuberância em sua lateral. À frente se localiza o ponto mais próximo da corporação. Se Laura conseguir atravessa-lo, ela terá evadido o combate e alcançado o prédio em segurança.

Subindo as escadarias, eles chegam ao local indicado. A protuberância tinha uma abertura onde os policiais atiravam com seu canhão. O grupo os elimina facilmente, mas os sons se propagam e todos ao redor conseguem ouvi-los.

Os androides erguem o canhão e se preparam para atira-lo do prédio. De repente eles ouvem um estrondo e um dos androides é horrivelmente despedaçado. No terraço da corporação, outra equipe de um canhão os havia visto, disparando contra o androide.

- Ei! Saia já daí! – ordena o líder.

Mas o aviso veio tarde. Os policiais disparam novamente e fulminam o outro androide. O canhão se queima e provoca uma explosão, lançando-os pelos ares.

O impacto desorienta Laura. A pequena protuberância havia sido arrasada. Ela tenta se manter acordada, mas vê apenas as chamas se espalhando. Agora descobertos, os policiais miram seus canhões e atiram contra eles, destruindo toda a lateral do prédio. Levantando-se, ela vê Nasier e seu tenente desacordados no chão. A estrutura ao redor estremecia, começando a ruir. Nas paredes, Laura vê tubulações de gás inflamável. Temendo por sua vida, ela precisava fugir, não havia tempo para acorda-los.

“Mas”, pensa ela, “pensando bem, eu nem quero”.     

Correndo através das chamas, ela toma impulso e se atira do edifício. A explosão forma uma onda de fogo atrás dela, assoprando os detritos e os estilhaços pelos ares. O tempo parece se desacelerar. Propulsionada pelo ar quente, ela é lançada contra o prédio da corporação, voando rápida como um raio, porém vendo tudo em câmera lenta. Ela vê um tubo e atira um gancho amarrado a uma corda. O gancho se prende e ela interrompe a queda, evitando ter seus ossos estraçalhados pelo impacto.

Pendurada pela corda, Laura assiste à abertura do prédio ser tomada pelas chamas. Ela respira fundo, aliviada. 

Balançando-se como um pêndulo, ela toma impulso e se atira a uma varanda no prédio corporativo. Ela aterrissa e espera um minuto para descansar um pouco. No terraço, a polícia ainda atirava com seus canhões. Felizmente eles não a viram.

Laura percebe algo. Olhando para cima, o combate aéreo prosseguia. Olhando para baixo, a violenta manifestação também. Nos terraços, os puristas combatiam com fuzis e rifles de longo alcance, tornando impossível atravessa-los. Pelo distrito, haviam defesas por toda parte. Em lamento, ela reconhece que estava em um matadouro.

Escorando-se no parapeito, ela nota que apenas as tubulações industriais eram seguras. Se ela tiver sorte, ela conseguirá descer até a superfície e esgueirar-se até os combates cessarem amanhã.     

Pegando uma corda, ela sobe no parapeito e se prepara para descer. Então algo acontece.

- Desça já daí, Laura!

Assustada, ela olha para trás. Não acreditando em seus olhos, ela via Nasier. O líder estava todo ferido, parcialmente queimado e com as roupas rasgadas. Todavia, ele estava furioso e lhe apontava uma arma.

- Nasier?!

- O que você pensa que está fazendo, menina? Por acaso intentava fugir e abandonar a missão?

Isso era exatamente o que ela ia fazer.

- Eu não sou uma ferramenta para você me usar.

Rindo, o líder responde:

- Nós fizemos um acordo. Eu te ajudei e agora você me ajuda. Você não honra seus compromissos?

A garota lhe olha com desprezo.

- A causa purista não vale o risco.

- Ora, sempre tão durona... – sorri ele – Mas não tem palavra. Ultra jamais faria isso.

A garota vocifera.

- Não ouse falar da minha mãe!  

- Então seja como ela! – exclama ele – Infiltre-se na Cellgenesis, roube a tecnologia corporativa e termine o serviço! Como Ultra o faria.

Laura sabe que não pode se recusar. Ela não podia arriscar a vida de seu pai nas mãos daqueles loucos mutiladores.

- Está bem.

A entrada do duto de ventilação estava logo acima. Pendurando-se nos tubos, ela alcança a grade e a desparafusa com suas ferramentas. Dentro da tubulação, ela olha pelas grades e vê as salas abaixo. Laura nota que os sistemas de segurança estão ligados, mas as salas estavam vazias. Com todo aquele confronto ocorrendo lá fora, os seguranças foram defender o edifício.

Seu rastreador localiza o terminal de segurança. Descendo do duto, ela assopra seu spray e enxerga os lasers no corredor. Habilmente se esquivando, ela cautelosamente avança. Seu pé toca acidentalmente um laser e os alarmes disparam, assustando-a. As metralhadoras se desacoplam do teto e começam a surgir.

Sob uma chuva de balas, ela corre em direção a um escritório. As mesas e os computadores são alvejados, levantando os papeis e os pedaços de madeira. Pegando uma bomba EMP, ela a joga e se protege. A descarga elétrica desativa as metralhadoras, mas ela ainda não estava a salvo.

Saindo dos compartimentos ocultos, bots percorrem o andar, procurando a intrusa. Escondida, Laura vê robôs de tamanho médio movidos a esteira. Recarregando sua arma, ela se levanta e pressiona o gatilho, cerrando os dentes furiosamente. O bot é estraçalhado pelas balas, caindo em pedaços em seguida.

Os outros bots se aproximam. Voltando pelo andar, ela encontra a entrada de outro duto e entra. Arrastando-se lá dentro, ela olha pela grade e vê o bot patrulhando. Deixando o duto, ela pula sobre o robô e agarra sua cabeça. Desorientado, o bot tenta se desvencilhar, mas a garota enfia uma faca em seu pescoço e arranca sua cabeça, puxando-a violentamente em meio a descargas elétricas.

O último robô a detecta, preparando-se para atirar. A garota se abaixa e vê um extintor na parede. Ela atira e uma fumaça de pó branco se levanta. Os rastreadores do bot são afetados e ele se confunde. De repente a runner aparece e dá uma voadora em sua cabeça, derrubando o robô violentamente. Antes que pudesse se levantar, a garota pisa em seu corpo e descarrega sua arma, estraçalhando-o.

Passado o perigo, Laura calmamente recarrega e se dirige à sala de segurança.

“Trancada”, constata ela.

Pegando sua gazua, ela a insere na fechadura e destranca a porta. A sala de segurança tinha muitos monitores, a garota via o interior de todo o edifício. Os policiais defendiam o prédio em seu topo, mas o interior estava sinistramente deserto.

O terminal de segurança estava à sua frente. Pegando seu decodificador, ela o posiciona sobre o painel e conecta os cabos no aparelho. De repente uma tristeza enche o seu peito. Ela se lembra que foi Vertigo quem lhe deu o decodificador. Apesar de sua vergonhosa traição, ela não deixava de sentir saudades dele.

A garota hackeia o sistema. Agora liberado, ela desliga os alarmes, câmeras e metralhadoras de teto. Acessando o controle das portas, ela destranca o laboratório, deixando a sala em seguida.

Caminhando livremente pelos escritórios, Laura chega aos elevadores. Apertando o botão, as portas começam a se fechar quando alguém subitamente diz:

- Espere! – uma mão impede o fechamento das portas – Eu também vou descer.

Nasier então entra no elevador. Surpresa, a garota pergunta:

- Como você entrou aqui?

Mexendo em suas feridas, o líder responde:       

- Arrombando as portas. Você desligou os alarmes, lembra?

A runner assente.

- E por que você está aqui?

Nasier é irônico.

- Pensei que você fosse precisar de ajuda.

A garota se irrita. Ele estava lá para vigia-la e se certificar de que ela faria o serviço.

O elevador começa a descer e um silêncio constrangedor se levanta. Com as mãos no bolso, o líder comenta:

- Sabe... Eu sempre me perguntei o que aconteceu com sua mãe.

Como esperado, a garota se irrita com ele. Laura o ameaça, dizendo:

- É melhor você não falar da minha mãe, Nasier! Senão você pode se arrepender!

- Ei, acalme-se! – pede ele – Estamos do mesmo lado, eu e você. Mas o que eu quero dizer é que a última missão de Ultra foi aqui na Cellgenesis. Entretanto, ela desapareceu e ninguém sabe onde foi. Ela simplesmente... – hesita ele – Deixou de existir.

A garota se intriga.

- O que está querendo dizer?

E então a porta se abre. Saindo do elevador, eles se deparam com as paredes brancas do vasto laboratório. Empunhando suas armas, eles percorrem o ambiente.

Nasier continua:

- Com o vazamento dos arquivos ultrassecretos, nada consta sobre ela no Ministério da Informação, o que é muito estranho. – olhando para a garota, ele pergunta – Você não acha estranho?

Laura não sabe o que responder.

- Eu...

- A minha teoria é a seguinte. – interrompe ele – Ultra era tão valiosa que quem a capturou lhe tenha dado um tratamento especial. Essa pessoa era alguém muito poderosa, pois deletou seus registros e a apagou da metrópole, confinando-a em algum lugar e a tomando para si. Assim morria Ultra e nascia um mito.

Interessando-se, ela pergunta:

- Está dizendo que minha mãe foi raptada?

- Eu não sei. Ela era muito habilidosa, ninguém ousaria confronta-la. Mas é como dizem: ninguém vive para sempre.

Semelhante ao laboratório da Bio Prótesis, ele veem vários componentes genéticos em frascos de vidro.

- Impossível. – responde ela.

- Minha outra teoria é que Ultra se aposentou, abandonando sua carreira no auge e retirando-se para o anonimato. Da mesma forma, alguém muito poderoso a ajudou, pois conseguiu apagar seu registro e alterar sua identidade.

Então o coração da garota treme.

“Será possível que minha mãe me abandonou assim?”.

- Ela jamais faria isso. – diz Laura, controlando-se.

Os dois veem vários frascos com órgãos artificiais dentro. Em uma parede eles leem: “clonagem”. Antes de entrarem, o comunicador de Nasier toca.

- O que foi?

“Senhor Nasier! Temos o controle do espaço aéreo do distrito. Separarei unidades para destruir os canhões e depois concentrarei as forças para o assalto final na corporação”.

- Negativo, coronel. Inicie o assalto no prédio imediatamente. Ele está deserto e desprotegido por dentro. Separe equipes menores para cuidar dos canhões”.

“Entendido, senhor! Devo solicitar os androides Advance para o assalto?”.

- Afirmativo. Pegue o quanto quiser e se apresse.

“Outra coisa, senhor. Tentei contatar o tenente e ele não atendeu. O senhor conhece sua situação?”.

O líder friamente responde:

- Morto. O tenente infelizmente morreu em ação. – e então o coronel emudece no outro lado da linha – Coronel?

“Estou aqui, senhor. Estou indo agora. Desligo”.

Laura ouve a conversa e se enoja. O líder não demonstra a menor comoção com a morte de seu subordinado.

Na sala de clonagem, eles veem vários cadáveres abertos. A garota se desconcerta, segurando-se para não vomitar.

- Algum problema, Laura?

- Não interessa.

- Não está acostumada com os procedimentos cirúrgicos, não é? Não se preocupe, você se acostuma com o tempo. – e então ele sorri – Pode confiar em mim, eu sou médico.

A garota já estava se cansando de sua simpatia cínica.

À frente eles veem um gigantesco computador. Cabos se conectavam à sua robusta unidade de processamento, como uma enorme matriz.

Ao lado eles veem uma câmara criogênica com um bizarro androide. Ele era cinzento e não tinha pelos ou cabelos. Os dois também notam que ele tinha garras no lugar dos dedos. O androide era semelhante aos androides da classe Advance da Resitência Purista, mas menor e menos musculoso. Em uma placa na câmara eles leem: “Demiurgo”.

- Tremenda aberração, não? – pergunta o líder.

- Lembra os seus androides. – provoca ela.

A garota liga o computador. Colocando o decodificador sobre o painel, ela conecta os cabos e inicia a extração de dados. De repente eles ouvem um ruído, mas não dão atenção. O ruído vai ficando cada vez mais alto e eles se intrigam, reconhecendo o som de vidro se trincando. Confusos, eles olham um para o outro.

Em um estrondo, a câmara criogênica se estoura de repente. Os dois se assustam e se protegem dos pedaços de vidro. Em meio a névoa de nitrogênio alguém se levanta, revelando-se.

Era o androide de nome Demiurgo.        

    

 

  

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