sábado, 4 de setembro de 2021

Sonata - 47 - A Descoberta de Maynard

 


(Arte de Rodrigo Volcas)

Em um bar qualquer da superfície, uma runner bebe e se diverte com seus amigos. Fumaça de cigarro ofusca as luzes e eles riem com suas garrafas em mãos, entretidos enquanto jogam bilhar.

O local era um típico bar americano, com banquetas em frente ao balcão, luminárias baixas, mesas de bilhar e dardos na parede. Um letreiro com nome de cerveja ilumina a parede, colorindo-a de rosa. Havia muito improviso, mas os donos conseguiram revitalizar o antigo bar e reabrir o que foi deixado para apodrecer na superfície.

A runner era bem bonita e atlética. Ela vestia uma blusa laranja e calça apertada. Seu cabelo era trançado e ela vestia um belo tênis de corrida. Mas algo em sua cintura chamava a atenção. Ela estava armada, portando uma submetralhadora típica dos runners. 

A garota ri e se diverte, bebendo sua cerveja a cada tacada. Então ela se afasta, discretamente se dirigindo à porta dos fundos. Sentado em frente ao balcão, um homem bebe um último gole de sua cerveja e se levanta. Em um beco escuro no lado de fora, a runner tira um estranho objeto de seu bolso. Era um pequeno frasco com um conteúdo amarelo. Drogas.

Enquanto ela usa os entorpecentes, um homem sai pela porta, acende um cigarro e finge fumar. A runner olha para ele e o ignora, continuando seus afazeres em silêncio. De repente algo bate em sua cabeça e ela desmaia, caindo irresistivelmente no chão.

Uma hora mais tarde, a runner acorda com água sendo jogada em seu rosto. Ela tosse e suspira, sentindo dores na cabeça. Olhando ao redor, ela se vê em um porão escuro e empoeirado. Mexendo-se, ela nota que está com os pés e mãos amarrados e, ao seu lado, ela vê um rapaz desacordado e preso também. Imediatamente ela o reconhece.

- Androide!

Trazendo uma cadeira, um homem se senta à sua frente e diz:

- Olá, Greta. Lembra-se de mim?

O homem liga uma lâmpada no teto. A garota olha para o seu rosto e reconhece o homem do beco. Ela pergunta:

- Quem é você?

O desconhecido não responde. Ao invés, ele a exibe um frasco em sua mão, dizendo:

- Você não deveria usar drogas. Elas fazem mal a você.

Irritada, ela responde:

- E você não deveria fumar! Cigarros também te fazem mal.

Rindo, o homem comenta:

- Por que vocês viciados ficam tão na defensiva quando falamos de seus vícios? Por acaso vocês tem mais tolerância ao que é tóxico do que a repreensões?

O rapaz tosse ao seu lado, lentamente recobrando a consciência.

- O que você fez com o Androide? – pergunta ela.

- O sequestrei. – responde ele, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

O tal Androide acorda e, olhando para o homem à sua frente, exclama:

- Maynard?!

Levantando as palmas das mãos, o agente sorri.

- Maynard...? – repete a garota.

Então ela se lembra. Maynard era alvo que Androide e ela foram contratados para matar. Com habilidades incríveis e recursos de sobra, o agente conseguiu se salvar, frustrando seus planos e lhes dando uma tremenda surra.

Com uma longa faca em sua mão, o agente acende um isqueiro e começa a aquecer a lâmina.

- Eu vou perguntar só uma vez. Quem e por quê?

Os runners se entreolham, indispondo-se a falar. Entediado, o agente se levanta e caminha em direção ao Androide. Então ele encosta a ponta avermelhada da faca em seu rosto, fazendo-o berrar de agonia.

A garota arregala os olhos e se desespera. Imediatamente ela tenta se desvencilhar das algemas, mas Maynard olha para ela e diz:

- Eu não faria isso se você fosse. Essas algemas estão conectadas a bombas de curta explosão. Se você se soltar, elas detonarão e você perderá suas mãos. Aí será bem difícil para você pular por aí e se agarrar na beirada dos prédios como uma aranha... – responde ele, gesticulando como se a habilidade dos runners fosse uma babaquice.

Androide e grita e chora de dor. Em sua bochecha havia a marca exata de uma faca pontuda.

Retornando à sua cadeira, o agente se senta e continua aquecendo sua faca. Greta responde:

- Nós não podemos falar... Eles nos matariam!

Maynard se entedia mais uma vez. Levantando-se, ele se aproxima para queima-la. A garota tenta se afastar com as pernas, mas, estando amarrada contra a parede, nada consegue fazer para conseguir fugir. Então o runner intervém.

- Espere! Eu direi quem foi, mas não a machuque!

Admirado, Maynard sorri.

- Por que você tanto a protege? É a segunda vez que você tenta protegê-la. Você não percebe que ela não dá a mínima para você? – pergunta ele – Olhe só para ela. Ela não pensaria duas vezes em sair daqui e te deixar para apodrecer neste porão. Por acaso você a ama? – sorrindo mais uma vez, ele conclui – Pode haver amor entre assassinos de aluguel?

Esquecendo-se do medo, os dois se olham e se constrangem.

- Mas que porcaria é essa que você está falando? – pergunta a garota.

- Eu estou tagarelando? – intriga-se ele – Perdoem minha tagarelice. Foi só curiosidade, mesmo.

Então a garota ousadamente responde:

- Se você quer conversar, contrate um terapeuta!

Em seguida ela ri freneticamente; a droga ainda fazia efeito em seu organismo. Maynard fica sério. De repente ele crava sua faca em sua coxa, fazendo-a gritar de desespero. O corte foi tão profundo que atravessou seu fêmur, quebrando sua perna.

- Meu Deus...! – exclama Androide.

- Deus?! – surpreende-se Maynard – Se Ele existir, você estará condenado ao inferno, sabia? Você não pensou nisso antes de se tornar um assassino?

Irritado, o rapaz responde:

- Se Ele existir, você também irá para lá, seu maldito! Todos somos assassinos aqui!

Consternado, o agente retira a faca da runner e responde:

- Tem razão. Será que este é o momento certo para eu me arrepender?

Em silêncio, o agente ajunta as mãos e finge começar uma oração.

- Sociopata...! – vocifera a garota – Você é um maldito sociopata...!

Maynard responde:

- As pessoas vivem me chamando disso.

Levantando-se, ele retorna à cadeira e volta a aquecer sua faca. Com sangue na lâmina, o fogo o evapora e libera um repugnante odor adocicado no ar.

O agente aguarda uma resposta. Respirando fundo, Androide responde:

- Subtopia... – começa ele – Foi a Subtopia que nos contratou.

O agente levanta sua sobrancelha.

- Quem?

- É uma facção, mas não dos níveis superiores ou da superfície.

- Então de onde? – intriga-se ele.

- Do exterior da metrópole.

Entediando-se novamente, o agente se levanta. Androide exclama:

- É verdade, cara! Eu juro!

- Eles são uma facção obscura e desconhecida do exterior da metrópole. – complementa a garota – Eles nos contataram no distrito Phalanx, no Setor L.

- Setor L?

- Sim. – responde ela – Ao lado do muro de Contenção. Eles vestiam trapos pretos e imundos e, em seus rostos, eles usavam máscaras de gás. Aparentemente eles têm uma base de operações em Phalanx, pois são muito numerosos lá.

 O agente recusa-se a acreditar. Aquele era um distrito irrelevante, contendo apenas indústrias e trabalhadores no local.

- Por que em Phalanx?

- Não sabemos. Talvez por estar próximo ao exterior, é difícil dizer.

Maynard pondera.

- Por que eles escolheram vocês?

Androide responde:

- E isso importa? Somos da superfície, cara! Trabalhamos por dinheiro. Recebemos uma mensagem solicitando duas pessoas para o serviço de assassinato. Alguns recusaram a proposta, mas Greta e eu os atendemos. Simples assim.

- Por que eles me queriam morto?

A garota responde:

- Eles não nos deram muitos detalhes. Nós até duvidamos que eles fossem uma facção de verdade. Podiam ser policiais disfarçados, não tínhamos como saber. Entretanto, eles nos deram uma boa quantia em dinheiro, prometendo o resto após o fim do serviço.  

- A única coisa que nos disseram é que você era uma ameaça aos seus planos, argumentando que você podia atrapalhar seu controle sobre um tal de Nathan. Creio que eles estavam falando do Inimigo de Estado. – revela o runner.

Então o agente arregala os olhos.

- O que eles querem com o Inimigo de Estado?

- O que todos querem, oras! – continua ele – Eles pretendem usá-lo para desestabilizar a metrópole e atacar as corporações.

Maynard se desanima. Mais um jogador entra no jogo e, em sua busca obstinada pelo poder, usam o pobre Nathan como um reles peão.

- Mas como uma facção desconhecida de indigentes do exterior pretende alcançar um objetivo tão grande?

Novamente atrevida, Greta responde:

- Isso você vai ter que perguntar para eles. – e então ela ri.

Sentando-se, o agente põe a mão nos olhos e pondera em silêncio.

Minutos se passam. Interrompendo-o, o runner pergunta:

- Ei, cara. Nós já respondemos tudo o que queria ouvir. Você vai nos deixar ir agora?

Abrindo os olhos, o agente responde:

- É claro. – levantando-se, ele aponta para um corredor – A bomba em seus pulsos está programada para explodir se tentarem fugir. No final do corredor há duas saídas, uma para a direita e outra para a esquerda. Eu sairei pela direita. Peço que saiam pela esquerda. Assim que eu estiver longe, a bomba se desarmará e as algemas se soltarão, liberando vocês. Peço, por gentileza, que não me sigam, está bem?

Intrigada, a garota pergunta:

- Você vai mesmo nos deixar ir?

Despreocupado, ele responde:

- Considere isso um ato de solidariedade entre companheiros de profissão.

Limpando-se, Maynard pega suas coisas e vai embora, fazendo seus passos ecoarem pelo corredor. Os dois escutam a porta se abrir e se fechar, evidenciando a saída do agente.

Androide vê o sangramento na perna de Greta e pergunta:

- Você está bem?

Irritada, ela responde:

- Só quando eu arrancar a cabeça dele!

- Será que ele disse a verdade? Que a bomba vai se desarmar?   

A garota ri.

- Ele tem que ser muito burro para isso.

Mas, para a surpresa de ambos, a bomba se desarma e as algemas se soltam, libertando-os. Eles se alegram.

Levantando a garota, o runner diz:

- Rápido! Temos que sair daqui.

Enquanto eles caminham, Greta pergunta:

- Androide, espere! Como estão as suas dívidas?

O rapaz não compreende.

- O quê?

- Você estava bem endividado quando aceitamos o serviço. Nós ainda não o terminamos, ficando sem receber o restante do pagamento. Esta é a nossa chance de terminar.

Confuso, ele pergunta:

- Você tem certeza? Você também precisa tanto do dinheiro assim?

Entediada, Greta responde:

- O que você acha?

- Ok. – responde ele – Vamos segui-lo então e saber onde ele se esconde. Você consegue andar?

Ela não consegue, mas responde com altivez:

- Sou movida pelo ódio.

Apoiando-se no runner, eles percorrem o corredor e se dirigem à saída da direita. Ao girarem a maçaneta, uma voz no alto-falantes diz:

“Eu avisei”.

Bombas se armam no batente e então se explodem, destruindo todo o porão.   

 

 

 

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