(Arte de Rodrigo Volcas)
Em um bar
qualquer da superfície, uma runner bebe e se diverte com seus amigos. Fumaça de
cigarro ofusca as luzes e eles riem com suas garrafas em mãos, entretidos enquanto
jogam bilhar.
O local era um
típico bar americano, com banquetas em frente ao balcão, luminárias baixas,
mesas de bilhar e dardos na parede. Um letreiro com nome de cerveja ilumina a
parede, colorindo-a de rosa. Havia muito improviso, mas os
donos conseguiram revitalizar o antigo bar e reabrir o que foi deixado para
apodrecer na superfície.
A runner era bem
bonita e atlética. Ela vestia uma blusa laranja e calça apertada. Seu
cabelo era trançado e ela vestia um belo tênis de corrida. Mas
algo em sua cintura chamava a atenção. Ela estava armada, portando uma
submetralhadora típica dos runners.
A garota ri e se
diverte, bebendo sua cerveja a cada tacada. Então ela se afasta, discretamente se dirigindo à porta dos fundos. Sentado em frente ao balcão, um homem bebe um
último gole de sua cerveja e se levanta. Em um beco escuro no lado de fora, a
runner tira um estranho objeto de seu bolso. Era um pequeno frasco com um
conteúdo amarelo. Drogas.
Enquanto ela usa
os entorpecentes, um homem sai pela porta, acende um cigarro e finge fumar. A
runner olha para ele e o ignora, continuando seus afazeres em silêncio. De
repente algo bate em sua cabeça e ela desmaia, caindo irresistivelmente
no chão.
Uma hora mais
tarde, a runner acorda com água sendo jogada em seu rosto. Ela tosse e suspira,
sentindo dores na cabeça. Olhando ao redor, ela se vê em um porão escuro e empoeirado.
Mexendo-se, ela nota que está com os pés e mãos amarrados e, ao seu lado, ela vê
um rapaz desacordado e preso também. Imediatamente ela o reconhece.
- Androide!
Trazendo uma
cadeira, um homem se senta à sua frente e diz:
- Olá, Greta.
Lembra-se de mim?
O homem liga uma
lâmpada no teto. A garota olha para o seu rosto e reconhece o homem do beco. Ela
pergunta:
- Quem é você?
O desconhecido
não responde. Ao invés, ele a exibe um frasco em sua mão, dizendo:
- Você não
deveria usar drogas. Elas fazem mal a você.
Irritada, ela
responde:
- E você não
deveria fumar! Cigarros também te fazem mal.
Rindo, o homem
comenta:
- Por que vocês
viciados ficam tão na defensiva quando falamos de seus vícios? Por acaso vocês
tem mais tolerância ao que é tóxico do que a repreensões?
O rapaz tosse ao
seu lado, lentamente recobrando a consciência.
- O que você fez
com o Androide? – pergunta ela.
- O sequestrei. –
responde ele, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
O tal Androide
acorda e, olhando para o homem à sua frente, exclama:
- Maynard?!
Levantando as
palmas das mãos, o agente sorri.
- Maynard...? –
repete a garota.
Então ela se
lembra. Maynard era alvo que Androide e ela foram contratados para matar. Com
habilidades incríveis e recursos de sobra, o agente conseguiu se salvar,
frustrando seus planos e lhes dando uma tremenda surra.
Com uma longa
faca em sua mão, o agente acende um isqueiro e começa a aquecer a lâmina.
- Eu vou
perguntar só uma vez. Quem e por quê?
Os runners se
entreolham, indispondo-se a falar. Entediado, o agente se levanta e caminha em
direção ao Androide. Então ele encosta a ponta avermelhada da faca em seu
rosto, fazendo-o berrar de agonia.
A garota arregala
os olhos e se desespera. Imediatamente ela tenta se desvencilhar das algemas, mas Maynard olha para ela e diz:
- Eu não faria
isso se você fosse. Essas algemas estão conectadas a bombas de curta
explosão. Se você se soltar, elas detonarão e você perderá suas mãos. Aí será
bem difícil para você pular por aí e se agarrar na beirada dos prédios como uma
aranha... – responde ele, gesticulando como se a habilidade dos runners fosse
uma babaquice.
Androide e grita
e chora de dor. Em sua bochecha havia a marca exata de uma faca pontuda.
Retornando à sua
cadeira, o agente se senta e continua aquecendo sua faca. Greta responde:
- Nós não podemos
falar... Eles nos matariam!
Maynard se
entedia mais uma vez. Levantando-se, ele se aproxima para queima-la. A garota
tenta se afastar com as pernas, mas, estando amarrada contra a parede, nada
consegue fazer para conseguir fugir. Então o runner intervém.
- Espere! Eu
direi quem foi, mas não a machuque!
Admirado, Maynard
sorri.
- Por que você
tanto a protege? É a segunda vez que você tenta protegê-la. Você não percebe
que ela não dá a mínima para você? – pergunta ele – Olhe só para ela. Ela não
pensaria duas vezes em sair daqui e te deixar para apodrecer neste porão. Por
acaso você a ama? – sorrindo mais uma vez, ele conclui – Pode haver amor entre
assassinos de aluguel?
Esquecendo-se do
medo, os dois se olham e se constrangem.
- Mas que
porcaria é essa que você está falando? – pergunta a garota.
- Eu estou tagarelando?
– intriga-se ele – Perdoem minha tagarelice. Foi só curiosidade, mesmo.
Então a garota
ousadamente responde:
- Se você quer
conversar, contrate um terapeuta!
Em seguida ela ri
freneticamente; a droga ainda fazia efeito em seu organismo. Maynard fica
sério. De repente ele crava sua faca em sua coxa, fazendo-a gritar de
desespero. O corte foi tão profundo que atravessou seu fêmur, quebrando sua
perna.
- Meu Deus...! –
exclama Androide.
- Deus?! –
surpreende-se Maynard – Se Ele existir, você estará condenado ao inferno,
sabia? Você não pensou nisso antes de se tornar um assassino?
Irritado, o rapaz
responde:
- Se Ele existir,
você também irá para lá, seu maldito! Todos somos assassinos aqui!
Consternado, o agente retira a faca da runner e responde:
- Tem razão. Será
que este é o momento certo para eu me arrepender?
Em silêncio, o
agente ajunta as mãos e finge começar uma oração.
- Sociopata...! –
vocifera a garota – Você é um maldito sociopata...!
Maynard responde:
- As pessoas
vivem me chamando disso.
Levantando-se,
ele retorna à cadeira e volta a aquecer sua faca. Com sangue na lâmina, o fogo
o evapora e libera um repugnante odor adocicado no ar.
O agente aguarda
uma resposta. Respirando fundo, Androide responde:
- Subtopia... –
começa ele – Foi a Subtopia que nos contratou.
O agente levanta
sua sobrancelha.
- Quem?
- É uma facção,
mas não dos níveis superiores ou da superfície.
- Então de onde?
– intriga-se ele.
- Do exterior da
metrópole.
Entediando-se
novamente, o agente se levanta. Androide exclama:
- É verdade,
cara! Eu juro!
- Eles são uma
facção obscura e desconhecida do exterior da metrópole. – complementa a garota
– Eles nos contataram no distrito Phalanx, no Setor L.
- Setor L?
- Sim. – responde
ela – Ao lado do muro de Contenção. Eles vestiam trapos pretos e imundos e, em
seus rostos, eles usavam máscaras de gás. Aparentemente eles têm uma base de
operações em Phalanx, pois são muito numerosos lá.
O agente recusa-se a acreditar. Aquele era um
distrito irrelevante, contendo apenas indústrias e trabalhadores no local.
- Por que em
Phalanx?
- Não sabemos.
Talvez por estar próximo ao exterior, é difícil dizer.
Maynard pondera.
- Por que eles
escolheram vocês?
Androide
responde:
- E isso importa?
Somos da superfície, cara! Trabalhamos por dinheiro. Recebemos uma mensagem
solicitando duas pessoas para o serviço de assassinato. Alguns recusaram a
proposta, mas Greta e eu os atendemos. Simples assim.
- Por
que eles me queriam morto?
A garota
responde:
- Eles não nos
deram muitos detalhes. Nós até duvidamos que eles fossem uma facção de verdade.
Podiam ser policiais disfarçados, não tínhamos como saber. Entretanto, eles nos
deram uma boa quantia em dinheiro, prometendo o resto após o fim do serviço.
- A única coisa
que nos disseram é que você era uma ameaça aos seus planos, argumentando que
você podia atrapalhar seu controle sobre um tal de Nathan. Creio que eles
estavam falando do Inimigo de Estado. – revela o runner.
Então o agente
arregala os olhos.
- O que eles
querem com o Inimigo de Estado?
- O que todos
querem, oras! – continua ele – Eles pretendem usá-lo para desestabilizar a
metrópole e atacar as corporações.
Maynard se
desanima. Mais um jogador entra no jogo e, em sua busca obstinada pelo poder,
usam o pobre Nathan como um reles peão.
- Mas como uma
facção desconhecida de indigentes do exterior pretende alcançar um objetivo
tão grande?
Novamente atrevida,
Greta responde:
- Isso você vai
ter que perguntar para eles. – e então ela ri.
Sentando-se, o
agente põe a mão nos olhos e pondera em silêncio.
Minutos se
passam. Interrompendo-o, o runner pergunta:
- Ei, cara. Nós
já respondemos tudo o que queria ouvir. Você vai nos deixar ir agora?
Abrindo os olhos,
o agente responde:
- É claro. –
levantando-se, ele aponta para um corredor – A bomba em seus pulsos está
programada para explodir se tentarem fugir. No final do corredor há duas
saídas, uma para a direita e outra para a esquerda. Eu sairei pela direita.
Peço que saiam pela esquerda. Assim que eu estiver longe, a bomba se desarmará
e as algemas se soltarão, liberando vocês. Peço, por gentileza, que não me
sigam, está bem?
Intrigada, a garota pergunta:
- Você vai mesmo
nos deixar ir?
Despreocupado,
ele responde:
- Considere isso
um ato de solidariedade entre companheiros de profissão.
Limpando-se,
Maynard pega suas coisas e vai embora, fazendo seus passos ecoarem pelo
corredor. Os dois escutam a porta se abrir e se fechar, evidenciando a saída do
agente.
Androide vê o
sangramento na perna de Greta e pergunta:
- Você está bem?
Irritada, ela
responde:
- Só quando eu
arrancar a cabeça dele!
- Será que ele
disse a verdade? Que a bomba vai se desarmar?
A garota ri.
- Ele tem que ser
muito burro para isso.
Mas, para a
surpresa de ambos, a bomba se desarma e as algemas se soltam, libertando-os. Eles se
alegram.
Levantando a
garota, o runner diz:
- Rápido! Temos que
sair daqui.
Enquanto eles
caminham, Greta pergunta:
- Androide,
espere! Como estão as suas dívidas?
O rapaz não compreende.
- O quê?
- Você estava bem
endividado quando aceitamos o serviço. Nós ainda não o terminamos, ficando sem receber
o restante do pagamento. Esta é a nossa chance de terminar.
Confuso, ele
pergunta:
- Você tem
certeza? Você também precisa tanto do dinheiro assim?
Entediada, Greta
responde:
- O que você acha?
- Ok. – responde ele
– Vamos segui-lo então e saber onde ele se esconde. Você consegue andar?
Ela não consegue,
mas responde com altivez:
- Sou movida pelo
ódio.
Apoiando-se no
runner, eles percorrem o corredor e se dirigem à saída da direita. Ao girarem a
maçaneta, uma voz no alto-falantes diz:
“Eu avisei”.
Bombas se armam
no batente e então se explodem, destruindo todo o porão.

Nenhum comentário:
Postar um comentário