O ambiente é
barulhento e movimentado. Pessoas andam de um lado ao outro, o som de máquinas
de datilografar o irritam e um forte cheiro de cigarro paira no ar. Alguém ao seu
lado bebe café enquanto lê um artigo. Ao olhar ao redor, Gunther percebe que
está em uma redação de jornal.
Novamente ele nota
que as pessoas usam roupas inusitadas e antiquadas. Vestindo um colete aberto,
camisa de manga comprida e suspensórios para as calças, um homem conversa
tranquilamente com seu colega enquanto bebem café.
- O Rote Fahne[1]
continua espalhando sua podre mensagem comunista para os operários. Veja seu
manifesto publicado em 1918. – o homem lê um pequeno jornal em sua mão – “A
questão hoje não é sobre democracia ou ditadura. A questão que a história nos
apresenta diz: democracia burguesa ou democracia socialista. Pela ditadura do
proletariado não se trata de bombas, golpes, tumultos ou anarquia, como os agentes
do capitalismo deliberadamente lucram em cima e falsamente nos acusam. Ao
invés, ela significa usar todos os instrumentos de poder político para alcançar
o socialismo, para expropriar a classe capitalista, através e em acordo com a
vontade da maioria revolucionária do proletariado”.
Seu colega ouve
aquilo com desgosto.
- Esses
agitadores deveriam ter sido contidos em 1876, o ano de sua fundação. Graças a
eles, mais problemas estão surgindo na nova e frágil república.
- Exatamente. – o
homem pausa para beber um gole de café – O Rote Fahne está veiculando propaganda
antirrepublicana e revolucionária pela Alemanha, sobretudo de extremistas como
o USPD[2]
e a Liga Espartaquista.
Ao expelir a
fumaça de seu cigarro, seu colega pergunta:
- Você acha que o
governo Ebert-Scheidemann terá problemas com essa greve?
- Estou mais
preocupado com o Noske. – responde o outro – Se ele não tiver problemas com os
espartaquistas, ele certamente os terá com os Freikorps.
Gunther se lembra
que Gustav Noske foi o primeiro Ministro da Defesa da recém criada República de
Weimar, tendo a árdua tarefa de restabelecer a ordem em meio a revoluções e a
golpes de Estado.
Chamando a todos
na redação, o editor-chefe diz:
- Senhores!
Estamos tendo a maior paralisação da história da Alemanha! 500.000 pessoas se
aglomeram em protesto no centro de Berlim, exigindo a saída imediata do novo
chefe de polícia, Eugen Ernst, e a readmissão de Emil Eichhorn, membro do
espúrio USPD. Não há mais fornecimento de energia, gás ou água na cidade. Esta
é uma crise sem precedentes! Temos a tarefa de evitar que a tentativa de
revolução ocorrida em 1918 se repita! Senhores, – clama ele – declarem apoio
aos Freikorps!
Então os
jornalistas começam a escrever artigos a favor dos paramilitares e da república.
Confuso com tudo
aquilo, Gunther se aproxima dos dois colegas e pergunta:
- Com licença,
senhores. Onde é que eu estou?
Os homens se
intrigam. Olhando-o da cabeça aos pés, eles veem um homem esquisito vestindo
calça jeans e jaqueta com zíper, inventado décadas mais tarde. Um deles responde:
- Você está no
Vörwarts[3].
- Onde? –
confunde-se ele.
Vörwarts era o
famoso jornal de classe média apoiador do Partido Social-democrata Alemão.
Fundado em 1876 como um órgão de propaganda social-democrata, o jornal
opunha-se à Revolução Russa e desejava implantar o parlamentarismo na Alemanha pós-guerra.
- Quem é você? –
interrompe o outro.
O rapaz ia
responder quando uma explosão é ouvida lá embaixo. Todos correm para a janela e
se espantam ao verem centenas de homens armados correndo pelas ruas. Alguém
entra na redação e, ofegante, diz:
- Os operários se
revoltaram! A greve se tornou uma insurreição!
“Greve?” pensa
Gunther. Abordando uma mulher, ele pergunta:
- De que greve
ele está falando?
A mulher lhe faz
um olhar como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo.
- Da greve geral,
oras! De que planeta você veio?
- Ano, na
verdade.
- O quê...?!
Outra explosão é
ouvida. Os revoltosos grevistas estão incendiando os carros nas ruas. De
repente o vidro da janela se estoura e uma pedra cai no escritório.
- Eles estão
chegando! Protejam-se!
Então tiros são
ouvidos e mais janelas se estouram com balas e pedradas. Um tiroteio é ouvido
lá embaixo, parecendo haver um confronto. Os jornalistas se assustam e logo a
redação se torna um pandemônio generalizado.
- Não se
preocupem! – grita o editor-chefe – A guarnição do governo irá nos proteger!
Acalmem-se!
- Acalmar?! –
protesta alguém – Há milhares de revoltosos lá embaixo! Nossa guarnição tem
apenas oitenta homens!
Minutos de tensão
e gritaria se passam. Os jornalistas se agacham e se protegem atrás de suas
mesas. Então passos pesados são ouvidos nas escadas e, de repente, a porta
violentamente se abre. Homens com boinas de operário, paletós antiquados e
lenços vermelhos entram, portando longos rifles em suas mãos.
- Mãos para cima!
– grita um operário.
Os jornalistas
imediatamente se rendem, totalmente tomados pelo pânico. Atônito, Gunther assiste
a tudo e, ao ver a ponta de um rifle entre os seus olhos, levanta suas mãos
também. Outro operário entra e, portando uma longa bandeira vermelha, a estende
na janela, sinalizando que o prédio havia sido tomado.
Um casal aparece
na porta. O rapaz olha para eles e vê um casal de postura determinada e olhar
feroz. O homem tinha cabelos castanhos, bigode volumoso e usava óculos
redondos. A mulher tinha um rosto redondo e longos cabelos castanhos presos no
topo da cabeça.
O homem chama
pelo editor-chefe. Levantando-se atrás de uma mesa, dois revoltosos o agarram e o lançam aos pés do ilustre visitante.
- Você sabe quem
eu sou?
Ofegante, o
editor-chefe responde:
- Karl
Liebknecht...!
Imediatamente o
rapaz se lembra. Karl Liebknecht foi o famoso comunista que, ao lado de Rosa
Luxemburgo e Clara Zetkin, fundaram a Liga Espartaquista. Em 1917, membros
radicais do SPD deixam o partido para formar o USPD, um partido com objetivos
socialistas e revolucionários. Juntando-se ao USPD, extremistas e paramilitares
criaram a facção conhecida como Liga Espartaquista, o braço armado da
Revolução.
Inicialmente
chamada de Spartakusgruppe, em 1916 o grupo opunha-se ao apoio social-democrata
da guerra, incitando as massas a implantar o socialismo na
Alemanha. Tendo seu nome inspirado no gladiador Spartacus, do qual provocou a
maior rebelião de escravos na Roma Antiga, os espartaquistas tinham por
objetivo derrubar a burguesia dominante e implantar a ditadura do proletariado.
Mais tarde, em
janeiro de 1919, membros do USPD e da Liga Espartaquista fundariam o célebre
Partido Comunista Alemão.
- Sabe o que
queremos? – pergunta o espartaquista.
- A revolução...!
Liebknecht sorri.
- Camaradas! – brada
ele – O coração podre da propaganda social-democrata foi tomado! Sua mensagem
contrarrevolucionária não mais existirá!
Então os
revoltosos erguem seus rifles, gritando em seguida “viva Lênin!”. Enquanto eles
vibram, a mulher ao lado de Liebknecht o chama.
- Algum problema,
Rosa?
Ao ouvir seu
nome, Gunther se lembra dela também. Tão famosa quanto Liebknecht, Rosa
Luxemburg foi uma mulher incrível de grandes atributos, sendo filósofa,
marxista, economista, ativista e revolucionária. Nascida na Polônia, ela se
naturalizou alemã aos 28 anos, vindo a formar a Liga Espartaquista e o KPD[4]
com Liebknecht e outros. Com sua ajuda, ela reativou a circulação do jornal
Rote Fahne e espalhou a causa comunista pela Alemanha.
Luxemburg
concorre às eleições da nova república de Weimar, mas perde o pleito. Alegando
fraude, ela passa a boicotar as eleições e o novo governo. Em janeiro de 1919,
em meio à greve geral, ela discursa: “Hoje nós podemos nos dedicar a destruir o
capitalismo de uma vez por todas. Não hesitem mais; hoje nós não estamos apenas
em posição de cumprir essa tarefa, ou ela é o dever apenas do proletariado, mas
nossa solução oferece apenas os meios de salvar a sociedade da destruição”.
- Karl, você tem
certeza disso? Provocar uma revolução agora pode ser catastrófico! – adverte
ela.
- Eu sei, Rosa!
Mas devemos aproveitar que as massas estão a nosso favor! Não foi você mesma
que disse que uma revolução só seria possível como o apoio popular maciço?
Luxemburg
concorda, mas responde:
- Mas não temos o
apoio dos marinheiros amotinados. Nem mesmo os russos estão nos apoiando! Me
parece... – reflete ela – que estamos sozinhos.
Incisivo,
Liebknecht diz:
- Não negociarei com
esse governo ilegítimo!
A mulher
concorda. Dias antes ela escreveu um artigo no Rote Fahne incitando os
revoltosos a ocupar as redações da imprensa liberal e, em seguida, as
instituições democráticas. Luxemburg inclusive chegou a promover a violência e
a não negociação com os “inimigos mortais” da Revolução, os social-democratas.
Os dois se
retiram. Gunther, juntamente com os jornalistas, passam o dia cativos dos
revoltosos. Enquanto está sozinho, o rapaz observa que aqueles revoltosos
não são simples operários. Na verdade, são militantes comunistas organizados,
membros do KPD e da liga.
Sentado no chão,
o rapaz pensa: “o apoio popular referido por Rosa não é maciço. Os operários
até compartilham de algumas pautas espartaquistas, como os direitos
trabalhistas e o fim do desemprego, mas a liga se utiliza do operariado, inclusive se
vestindo como eles, para promoverem suas próprias agendas políticas como a
implantação do socialismo e a Revolução. Se o partido comunista fosse tão
popular, teria vencido as eleições, algo que em toda a sua existência nunca
ocorreu”.
Lá embaixo,
Gunther ouve Liebknecht discursando nas ruas. Esgueirando-se, o rapaz olha pela
janela e vê o homem de pé em uma tribuna. “Mas que presunçoso” pensa ele. “Ele
pensa ser o próximo Lênin em sua república soviética”.
Gunther se lembra
que, em 9 de janeiro de 1918, Liebknecht subiu em uma varanda do Palácio do
Kaiser e pretensamente proclamou a “República Socialista Livre da Alemanha”.
Entretanto, apenas duas horas antes, Philipp Scheidemann havia feito o mesmo da
janela do Reichstag, declarando inconstitucionalmente a república.
O início da
década de 20 foi tensa para a Alemanha pós-guerra, pois o rapaz reconhece que
muitas facções antagônicas disputaram o poder, seja politicamente ou à mão
armada. E muitos sofreram até finalmente alcançarem a estabilidade
política.
Os revoltosos
montam barricadas nas ruas. Gunther se intriga ao ver alguns deles tirando
fotos com os jornalistas do Vörwarts capturados. Ao observar melhor, haviam
alguns soldados da guarnição do governo também. “Propaganda” pensa ele. “Eles
estão registrando o momento para encorajar os comunistas do resto da Alemanha
para iniciar a Revolução”. Enquanto observa, alguém aparece atrás dele e diz:
- Ei! O que você
está fazendo? Saia já daí!
Um espartaquista
aponta o rifle para ele. Assustado, o rapaz levanta as mãos e volta a se sentar
no piso.
Um grupo de
espartaquistas entra no escritório e começa a conversar com os captores. Eles informam
que capturaram prédios do governo e as estações de trem próximas. Aparentemente
a insurreição ia bem.
Então algo
acontece.
Uma mulher
aparece entre eles. Vestida com uniforme de operário e um lenço vermelho em seu
pescoço, Gunther reconhece Anneliese. Seus olhos se arregalam.
Engatinhando
entre as mesas, ele corajosamente se aproxima da garota. Os jornalistas ao
redor olham para ele e, exasperados, o perguntam:
- Mas o que você
está fazendo?!
Os espartaquistas
estão distraídos. O rapaz olha para a garota e diz:
- Anneliese?
Os revoltosos são
um bando de amadores. Eles se viram assustados e desordenadamente apontam suas
armas para ele. Anneliese também se vira e, olhando para o rapaz, responde:
- Gunther...?!
- O quê?! –
surpreende-se ele – Nesse tempo você me conhece?
Um espartaquista
desconfia. Olhando para a garota, ele pergunta:
- Espere um
pouco. Você conhece esse homem?
- Não! – responde
ela – Quero dizer, sim... Eu não sei ao certo.
Então todo o
grupo desconfia dela.
- Qual é o seu
envolvimento com os social-democratas?
Antes que pudesse
responder, outro homem pergunta:
- Ou nas palavras
de Luxemburg, nossos inimigos mortais?
Anneliese se
sente ameaçada. O rapaz intervém.
- Esperem! Eu não
sou um social-democrata! Novamente eu estou em um lugar do qual eu nem sei como
vim parar aqui.
Os espartaquistas
se entreolham.
- Mas do que é
que você está falando? Por acaso você surgiu do ar?
Eles riem, mas Gunther
afirma convictamente:
- Sim.
Então eles
imediatamente param de rir.
- Quer saber de
uma coisa? Isso está muito estranho para mim. Vamos leva-lo para o comitê. Eles
saberão o que fazer.
De repente alguém
levanta a cauda de seu rifle e o bate em sua cabeça.
§
Gunther acorda em um porão. Muitos
espartaquistas estão reunidos e o rapaz vê Liebknecht falando acaloradamente
com Luxemburg. Ao lançarem-no aos seus pés, eles interrompem sua discussão.
- Quem é esse
homem? – pergunta o líder.
- Não sabemos.
Mas ele parece conhecer uma dos nossos, a Anneliese.
O espartaquista
aponta para a garota. Liebknecht olha para ela e não a reconhece. Virando sua
cabeça, ele pergunta para Luxemburg. Ela nega conhece-la também.
- Acreditamos que
o rapaz seja um espião dos social-democratas, ou pior, que Anneliese seja um
espião deles.
- Nunca! –
protesta ela.
Os líderes pedem
silêncio.
- Quem é você,
meu jovem?
Liebknecht o
encara nos olhos. Como foi com Thälmann, Gunther sente pena dele. Vindo do
futuro, o rapaz sabe a maneira trágica como ele vai morrer. O rapaz infelizmente
sente como se estivesse conversando com um cadáver inconsciente de seu
inevitável fim.
- Eu me chamo
Gunther.
- Você é um
espião, Gunther?
Os comunistas lhe
fizeram a mesma pergunta na reunião do Antifaschistische Aktion.
- Não. Eu nunca
espionei ninguém em toda a minha vida.
Assentindo, o
homem pergunta:
- Então como você
conhece um dos nossos? – ele se refere a Anneliese.
- Eu a amo.
A garota abaixa
seu rosto, envergonhada. Luxemburg se assusta e deixa escapar um sorriso.
Sem entender o
desconforto das duas, Liebknecht continua:
- De onde você é?
- Sou da Alemanha
comunista, a mesma que vocês hoje tentam implantar.
- O que você
disse?
- O comunismo
será implantado na Alemanha, mas não do jeito que vocês planejam. Apesar das
dificuldades, será um Estado igualitário e justo. Também autoritário e prisional, mas
justo.
Os líderes se
entreolham, intrigados. Por fim, Luxemburg diz:
- Não, ele não é
um espião. É só um sonhador. Eu o admitiria em nosso grupo para auxiliar os
combatentes.
Liebknecht
protesta.
- Nós nem sabemos
quem ele é! E eu não quero ter nada em comum com esse doido varrido.
Inesperadamente o
rapaz comenta:
- Mas nós temos.
O homem não
entende.
- Como é?
- O Tiergarten. –
revela ele – E como você, lá eu acredito que eu também encontrarei o meu
destino.
Os espartaquistas
não fazem ideia do que ele está falando. Respirando fundo, Liebknecht levanta
as mãos e diz:
- Eu desisto.
Deixem-no sob custódia. Se ele tentar fugir, atirem nele.
O homem dá as
costas e continua tratando de seus assuntos. Gunther é levado de volta à
redação do Vörwarts. Antes de sair, ele pede um tempo aos espartaquistas e
aborda a garota.
- Anneliese, por
favor me ouça! A liga não vai vencer essa revolta. Você tem que fugir!
- Eu não vou a
lugar algum.
- Você não
entende! Muitos, juntamente com os líderes, irão morrer!
- Eu sei. –
responde ela.
O rapaz se
espanta.
- Sabe...?
- Eu sei do
futuro, Gunther. Eu sei do confronto com os Freikorps e também da execução de
Leibknecht no Tiergarten.
- Mas... –
confunde-se ele – Você não me conhecia em 1933 e tampouco vinha do meu... – ele
hesita – nosso tempo.
Anneliese não
sabe do que ele está falando.
- Gunther, se o
universo me deu a chance de prevenir que o nazismo ocorra, e que a libertadora
ideologia marxista salve a Europa, eu o farei.
A garota era uma
comunista convicta. Intrigado, o rapaz pergunta:
- Anneliese, por
que esse fanatismo todo pelo comunismo?
A garota se
silencia, ela não vai responde-lo. Então os espartaquistas os interrompem e o
levam dali.
§
Dias se passam.
Encontrando um
documento na redação do Vörwarts, um espartaquista comenta com outro revoltoso:
- Veja só isso
aqui! “A hora do acerto de contas está chegando”. Os social-democratas se
aliaram aos Freikorps!
O outro revoltoso
lê e concorda.
- Eles não apenas
se aliaram aos burgueses, mas também pedem o assassinato de toda a liga!
- Temos que
mostrar isso ao Liebknecht!
Antes de saírem,
tiros são ouvidos lá embaixo e um deles é atingido no pescoço. Os jornalistas
se apavoram, o homem sufocava em uma poça de seu próprio sangue.
Abandonando o
documento, o revoltoso restante desce as escadas para lutar. Aproveitando o
momento, Gunther o pega e desce as escadas também, com o pretexto de passar a informação e encontrar Anneliese.
Ao chegar na rua
ele pensa estar em uma zona de guerra. Embarricados em linha, os espartaquistas
se organizam bravamente. O rapaz olha para o fim da rua e vê carros
fortificados se aproximando. Ele os reconhece, são os Freikorps.
Vestindo
uniformes escuros e capacetes pintados com caveiras e suásticas, os
paramilitares avançam com metralhadores e canhões da Primeira Guerra Mundial.
De fato, aqueles eram veteranos e fanáticos, tropas ressentidas pela derrota na
guerra e esperançosos de restabelecer a Alemanha em sua velha glória.
A artilharia
dispara na fachada dos edifícios. A explosão é ensurdecedora e retumba pelas
ruas. Assustado, o rapaz reconhece que os Freikorps têm poder de fogo
incomparavelmente superior e que certamente irão vencer. Entretanto, os
espartaquistas revidam e Gunther os admira por sua vontade resoluta de
combater.
Atravessando a
rua sob o perigosíssimo zunido das balas, o rapaz procura pela garota, mas ela
não estava em lugar algum.
- Ei! – chama ele.
Um jovem comunista olha para ele. Gunther nota que o jovem não tem mais de dezoito anos. O rapaz continua:
- Eu tenho uma mensagem importante para Liebknecht! Me diga onde
ele...
Então uma bala
atravessa a têmpora do jovem, fazendo-o desabar sem vida no chão. Gunther se
desespera.
- Mas o que é que
você está fazendo aí, rapaz?! Proteja-se!
Um revoltoso o
pega pelas roupas e o tira dali. Gunther pode ver que, do alto das janelas,
algumas mulheres jogam vasos e outros objetos pesados nos paramilitares.
- Eu tenho uma
mensagem importante para Karl Liebknecht!
- Do que se trata
essa mensagem?
- O governo se
aliou aos Freikorps!
Explosões, gritos
e tiros de metralhadora são ouvidos pela rua. Com sorriso sarcástico, o
revoltoso responde:
- Acho que isso ficou
meio óbvio, não?
O carro
fortificado se aproxima. Os espartaquistas jogam bombas incendiárias, mas não
são capazes de conter seu avanço. A torreta aponta para Gunther e começa a
atirar. O rapaz vê os buracos de bala se formando na parede até sua posição. O
revoltoso arromba uma porta e o puxa para dentro. Segundos depois a torreta
metralha todo o batente, reduzindo-o a migalhas.
- Você salvou a
minha vida! – agradece ele.
- Ainda é cedo
para comemorar.
- Você sabe onde
eu encontro o Liebknecht?
- Você é um
espartaquista?
- Sim! – mente
ele.
O revoltoso
hesita, mas não há tempo para pensar.
- Siga-me!
Levando-o pelo
fundo dos prédios, os dois adentram os porões por um alçapão no pátio. Dentro
do esconderijo, Gunther vê aproximadamente cinquenta pessoas reunidas ao redor
dos líderes. Alguém diz:
- Estamos sob
ataque! O Provisoricher Revolutionsausschuss[5]
precisa se decidir!
- Onde está
Clara? – pergunta Liebknecht.
O líder se
referia a Clara Zetkin, uma marxista, cofundadora da Liga Espartaquista e
ativista dos direitos das mulheres.
- Karl, você sabe
que a luta da Clara não é aqui! – responde Luxemburg.
- Como pode uma
de nossas líderes não estar presente nas decisões?
Novamente mais
discordância entre Liebknecht e Luxemburg. Enquanto o comitê discute, eles
parecem ignorar a presença de Gunther. Haviam alguns feridos no chão e o
rapaz aproveita para procurar por Anneliese lá embaixo.
O comitê se
divide entre a revolução armada e a implantação do socialismo, ou uma reforma
política dentro do poder administrativo da nova república. Incapazes de
resolver suas diferenças, o comitê não toma decisão alguma.
Uma explosão é
ouvida e poeira cai do teto. Com medo de ser soterrado lá embaixo, Gunther
deixa o porão.
Ao sair no pátio,
alguém atrás dele diz:
- Parado aí,
comunista!
Virando-se
rapidamente, o rapaz se petrifica. Um paramilitar de olhar férreo e uniforme cinzento
o encara furiosamente. Gunther diz:
- Não atire! Eu
me rendo.
Sem a menor
reação, o homem de semblante rígido o ignora e puxa o gatilho. A bala
atravessa o seu peito e Gunther cai no chão. Tremendo de medo, sangue escorre
de sua ferida e mancha suas mãos. Olhando para cima, ele vê meia dúzia de
Freikorps olhando para ele. Eles não demonstram nenhuma compaixão, aquilo foi
puro assassinato. Passados alguns segundos, eles se viram e vão embora.
Enquanto o rapaz definha
sozinho, ele sussurra:
- Telefones... –
ele tosse sangue – eu ouço telefones tocando em toda parte...

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