terça-feira, 9 de março de 2021

Tiergarten - 20 - A Liga Espartaquista

 


O ambiente é barulhento e movimentado. Pessoas andam de um lado ao outro, o som de máquinas de datilografar o irritam e um forte cheiro de cigarro paira no ar. Alguém ao seu lado bebe café enquanto lê um artigo. Ao olhar ao redor, Gunther percebe que está em uma redação de jornal.

Novamente ele nota que as pessoas usam roupas inusitadas e antiquadas. Vestindo um colete aberto, camisa de manga comprida e suspensórios para as calças, um homem conversa tranquilamente com seu colega enquanto bebem café.

- O Rote Fahne[1] continua espalhando sua podre mensagem comunista para os operários. Veja seu manifesto publicado em 1918. – o homem lê um pequeno jornal em sua mão – “A questão hoje não é sobre democracia ou ditadura. A questão que a história nos apresenta diz: democracia burguesa ou democracia socialista. Pela ditadura do proletariado não se trata de bombas, golpes, tumultos ou anarquia, como os agentes do capitalismo deliberadamente lucram em cima e falsamente nos acusam. Ao invés, ela significa usar todos os instrumentos de poder político para alcançar o socialismo, para expropriar a classe capitalista, através e em acordo com a vontade da maioria revolucionária do proletariado”.

Seu colega ouve aquilo com desgosto.

- Esses agitadores deveriam ter sido contidos em 1876, o ano de sua fundação. Graças a eles, mais problemas estão surgindo na nova e frágil república.

- Exatamente. – o homem pausa para beber um gole de café – O Rote Fahne está veiculando propaganda antirrepublicana e revolucionária pela Alemanha, sobretudo de extremistas como o USPD[2] e a Liga Espartaquista.

Ao expelir a fumaça de seu cigarro, seu colega pergunta:

- Você acha que o governo Ebert-Scheidemann terá problemas com essa greve?

- Estou mais preocupado com o Noske. – responde o outro – Se ele não tiver problemas com os espartaquistas, ele certamente os terá com os Freikorps.

Gunther se lembra que Gustav Noske foi o primeiro Ministro da Defesa da recém criada República de Weimar, tendo a árdua tarefa de restabelecer a ordem em meio a revoluções e a golpes de Estado.

Chamando a todos na redação, o editor-chefe diz:

- Senhores! Estamos tendo a maior paralisação da história da Alemanha! 500.000 pessoas se aglomeram em protesto no centro de Berlim, exigindo a saída imediata do novo chefe de polícia, Eugen Ernst, e a readmissão de Emil Eichhorn, membro do espúrio USPD. Não há mais fornecimento de energia, gás ou água na cidade. Esta é uma crise sem precedentes! Temos a tarefa de evitar que a tentativa de revolução ocorrida em 1918 se repita! Senhores, – clama ele – declarem apoio aos Freikorps!

Então os jornalistas começam a escrever artigos a favor dos paramilitares e da república.

Confuso com tudo aquilo, Gunther se aproxima dos dois colegas e pergunta:   

- Com licença, senhores. Onde é que eu estou?

Os homens se intrigam. Olhando-o da cabeça aos pés, eles veem um homem esquisito vestindo calça jeans e jaqueta com zíper, inventado décadas mais tarde. Um deles responde:

- Você está no Vörwarts[3].

- Onde? – confunde-se ele.

Vörwarts era o famoso jornal de classe média apoiador do Partido Social-democrata Alemão. Fundado em 1876 como um órgão de propaganda social-democrata, o jornal opunha-se à Revolução Russa e desejava implantar o parlamentarismo na Alemanha pós-guerra.

- Quem é você? – interrompe o outro.

O rapaz ia responder quando uma explosão é ouvida lá embaixo. Todos correm para a janela e se espantam ao verem centenas de homens armados correndo pelas ruas. Alguém entra na redação e, ofegante, diz:

- Os operários se revoltaram! A greve se tornou uma insurreição!

“Greve?” pensa Gunther. Abordando uma mulher, ele pergunta:

- De que greve ele está falando?

A mulher lhe faz um olhar como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo.

- Da greve geral, oras! De que planeta você veio?

- Ano, na verdade.

- O quê...?!

Outra explosão é ouvida. Os revoltosos grevistas estão incendiando os carros nas ruas. De repente o vidro da janela se estoura e uma pedra cai no escritório.

- Eles estão chegando! Protejam-se!

Então tiros são ouvidos e mais janelas se estouram com balas e pedradas. Um tiroteio é ouvido lá embaixo, parecendo haver um confronto. Os jornalistas se assustam e logo a redação se torna um pandemônio generalizado.

- Não se preocupem! – grita o editor-chefe – A guarnição do governo irá nos proteger! Acalmem-se!

- Acalmar?! – protesta alguém – Há milhares de revoltosos lá embaixo! Nossa guarnição tem apenas oitenta homens!

Minutos de tensão e gritaria se passam. Os jornalistas se agacham e se protegem atrás de suas mesas. Então passos pesados são ouvidos nas escadas e, de repente, a porta violentamente se abre. Homens com boinas de operário, paletós antiquados e lenços vermelhos entram, portando longos rifles em suas mãos.

- Mãos para cima! – grita um operário.

Os jornalistas imediatamente se rendem, totalmente tomados pelo pânico. Atônito, Gunther assiste a tudo e, ao ver a ponta de um rifle entre os seus olhos, levanta suas mãos também. Outro operário entra e, portando uma longa bandeira vermelha, a estende na janela, sinalizando que o prédio havia sido tomado.

Um casal aparece na porta. O rapaz olha para eles e vê um casal de postura determinada e olhar feroz. O homem tinha cabelos castanhos, bigode volumoso e usava óculos redondos. A mulher tinha um rosto redondo e longos cabelos castanhos presos no topo da cabeça.

O homem chama pelo editor-chefe. Levantando-se atrás de uma mesa, dois revoltosos o agarram e o lançam aos pés do ilustre visitante.

- Você sabe quem eu sou?

Ofegante, o editor-chefe responde:

- Karl Liebknecht...!

Imediatamente o rapaz se lembra. Karl Liebknecht foi o famoso comunista que, ao lado de Rosa Luxemburgo e Clara Zetkin, fundaram a Liga Espartaquista. Em 1917, membros radicais do SPD deixam o partido para formar o USPD, um partido com objetivos socialistas e revolucionários. Juntando-se ao USPD, extremistas e paramilitares criaram a facção conhecida como Liga Espartaquista, o braço armado da Revolução.

Inicialmente chamada de Spartakusgruppe, em 1916 o grupo opunha-se ao apoio social-democrata da guerra, incitando as massas a implantar o socialismo na Alemanha. Tendo seu nome inspirado no gladiador Spartacus, do qual provocou a maior rebelião de escravos na Roma Antiga, os espartaquistas tinham por objetivo derrubar a burguesia dominante e implantar a ditadura do proletariado.

Mais tarde, em janeiro de 1919, membros do USPD e da Liga Espartaquista fundariam o célebre Partido Comunista Alemão.

- Sabe o que queremos? – pergunta o espartaquista.

- A revolução...!

Liebknecht sorri.

- Camaradas! – brada ele – O coração podre da propaganda social-democrata foi tomado! Sua mensagem contrarrevolucionária não mais existirá!

Então os revoltosos erguem seus rifles, gritando em seguida “viva Lênin!”. Enquanto eles vibram, a mulher ao lado de Liebknecht o chama.

- Algum problema, Rosa?

Ao ouvir seu nome, Gunther se lembra dela também. Tão famosa quanto Liebknecht, Rosa Luxemburg foi uma mulher incrível de grandes atributos, sendo filósofa, marxista, economista, ativista e revolucionária. Nascida na Polônia, ela se naturalizou alemã aos 28 anos, vindo a formar a Liga Espartaquista e o KPD[4] com Liebknecht e outros. Com sua ajuda, ela reativou a circulação do jornal Rote Fahne e espalhou a causa comunista pela Alemanha.

Luxemburg concorre às eleições da nova república de Weimar, mas perde o pleito. Alegando fraude, ela passa a boicotar as eleições e o novo governo. Em janeiro de 1919, em meio à greve geral, ela discursa: “Hoje nós podemos nos dedicar a destruir o capitalismo de uma vez por todas. Não hesitem mais; hoje nós não estamos apenas em posição de cumprir essa tarefa, ou ela é o dever apenas do proletariado, mas nossa solução oferece apenas os meios de salvar a sociedade da destruição”.

- Karl, você tem certeza disso? Provocar uma revolução agora pode ser catastrófico! – adverte ela.

- Eu sei, Rosa! Mas devemos aproveitar que as massas estão a nosso favor! Não foi você mesma que disse que uma revolução só seria possível como o apoio popular maciço?

Luxemburg concorda, mas responde:

- Mas não temos o apoio dos marinheiros amotinados. Nem mesmo os russos estão nos apoiando! Me parece... – reflete ela – que estamos sozinhos.

Incisivo, Liebknecht diz:

- Não negociarei com esse governo ilegítimo!

A mulher concorda. Dias antes ela escreveu um artigo no Rote Fahne incitando os revoltosos a ocupar as redações da imprensa liberal e, em seguida, as instituições democráticas. Luxemburg inclusive chegou a promover a violência e a não negociação com os “inimigos mortais” da Revolução, os social-democratas.

Os dois se retiram. Gunther, juntamente com os jornalistas, passam o dia cativos dos revoltosos. Enquanto está sozinho, o rapaz observa que aqueles revoltosos não são simples operários. Na verdade, são militantes comunistas organizados, membros do KPD e da liga.

Sentado no chão, o rapaz pensa: “o apoio popular referido por Rosa não é maciço. Os operários até compartilham de algumas pautas espartaquistas, como os direitos trabalhistas e o fim do desemprego, mas a liga se utiliza do operariado, inclusive se vestindo como eles, para promoverem suas próprias agendas políticas como a implantação do socialismo e a Revolução. Se o partido comunista fosse tão popular, teria vencido as eleições, algo que em toda a sua existência nunca ocorreu”.

Lá embaixo, Gunther ouve Liebknecht discursando nas ruas. Esgueirando-se, o rapaz olha pela janela e vê o homem de pé em uma tribuna. “Mas que presunçoso” pensa ele. “Ele pensa ser o próximo Lênin em sua república soviética”.

Gunther se lembra que, em 9 de janeiro de 1918, Liebknecht subiu em uma varanda do Palácio do Kaiser e pretensamente proclamou a “República Socialista Livre da Alemanha”. Entretanto, apenas duas horas antes, Philipp Scheidemann havia feito o mesmo da janela do Reichstag, declarando inconstitucionalmente a república.   

O início da década de 20 foi tensa para a Alemanha pós-guerra, pois o rapaz reconhece que muitas facções antagônicas disputaram o poder, seja politicamente ou à mão armada. E muitos sofreram até finalmente alcançarem a estabilidade política.  

Os revoltosos montam barricadas nas ruas. Gunther se intriga ao ver alguns deles tirando fotos com os jornalistas do Vörwarts capturados. Ao observar melhor, haviam alguns soldados da guarnição do governo também. “Propaganda” pensa ele. “Eles estão registrando o momento para encorajar os comunistas do resto da Alemanha para iniciar a Revolução”. Enquanto observa, alguém aparece atrás dele e diz:

- Ei! O que você está fazendo? Saia já daí!

Um espartaquista aponta o rifle para ele. Assustado, o rapaz levanta as mãos e volta a se sentar no piso.

Um grupo de espartaquistas entra no escritório e começa a conversar com os captores. Eles informam que capturaram prédios do governo e as estações de trem próximas. Aparentemente a insurreição ia bem.

Então algo acontece.

Uma mulher aparece entre eles. Vestida com uniforme de operário e um lenço vermelho em seu pescoço, Gunther reconhece Anneliese. Seus olhos se arregalam.

Engatinhando entre as mesas, ele corajosamente se aproxima da garota. Os jornalistas ao redor olham para ele e, exasperados, o perguntam:

- Mas o que você está fazendo?!

Os espartaquistas estão distraídos. O rapaz olha para a garota e diz:

- Anneliese?

Os revoltosos são um bando de amadores. Eles se viram assustados e desordenadamente apontam suas armas para ele. Anneliese também se vira e, olhando para o rapaz, responde:

- Gunther...?!

- O quê?! – surpreende-se ele – Nesse tempo você me conhece?

Um espartaquista desconfia. Olhando para a garota, ele pergunta:

- Espere um pouco. Você conhece esse homem?

- Não! – responde ela – Quero dizer, sim... Eu não sei ao certo.

Então todo o grupo desconfia dela.

- Qual é o seu envolvimento com os social-democratas?

Antes que pudesse responder, outro homem pergunta:

- Ou nas palavras de Luxemburg, nossos inimigos mortais?

Anneliese se sente ameaçada. O rapaz intervém.

- Esperem! Eu não sou um social-democrata! Novamente eu estou em um lugar do qual eu nem sei como vim parar aqui.

Os espartaquistas se entreolham.

- Mas do que é que você está falando? Por acaso você surgiu do ar?

Eles riem, mas Gunther afirma convictamente:

- Sim.

Então eles imediatamente param de rir.

- Quer saber de uma coisa? Isso está muito estranho para mim. Vamos leva-lo para o comitê. Eles saberão o que fazer.

De repente alguém levanta a cauda de seu rifle e o bate em sua cabeça.

 

§

      

  Gunther acorda em um porão. Muitos espartaquistas estão reunidos e o rapaz vê Liebknecht falando acaloradamente com Luxemburg. Ao lançarem-no aos seus pés, eles interrompem sua discussão.

- Quem é esse homem? – pergunta o líder.

- Não sabemos. Mas ele parece conhecer uma dos nossos, a Anneliese.

O espartaquista aponta para a garota. Liebknecht olha para ela e não a reconhece. Virando sua cabeça, ele pergunta para Luxemburg. Ela nega conhece-la também.

- Acreditamos que o rapaz seja um espião dos social-democratas, ou pior, que Anneliese seja um espião deles.

- Nunca! – protesta ela.

Os líderes pedem silêncio.

- Quem é você, meu jovem?

Liebknecht o encara nos olhos. Como foi com Thälmann, Gunther sente pena dele. Vindo do futuro, o rapaz sabe a maneira trágica como ele vai morrer. O rapaz infelizmente sente como se estivesse conversando com um cadáver inconsciente de seu inevitável fim.

- Eu me chamo Gunther.

- Você é um espião, Gunther?

Os comunistas lhe fizeram a mesma pergunta na reunião do Antifaschistische Aktion.

- Não. Eu nunca espionei ninguém em toda a minha vida.

Assentindo, o homem pergunta:

- Então como você conhece um dos nossos? – ele se refere a Anneliese.

- Eu a amo.

A garota abaixa seu rosto, envergonhada. Luxemburg se assusta e deixa escapar um sorriso.

Sem entender o desconforto das duas, Liebknecht continua:

- De onde você é?

- Sou da Alemanha comunista, a mesma que vocês hoje tentam implantar.

- O que você disse? 

- O comunismo será implantado na Alemanha, mas não do jeito que vocês planejam. Apesar das dificuldades, será um Estado igualitário e justo. Também autoritário e prisional, mas justo.

Os líderes se entreolham, intrigados. Por fim, Luxemburg diz:

- Não, ele não é um espião. É só um sonhador. Eu o admitiria em nosso grupo para auxiliar os combatentes.

Liebknecht protesta.

- Nós nem sabemos quem ele é! E eu não quero ter nada em comum com esse doido varrido.

Inesperadamente o rapaz comenta:

- Mas nós temos.  

O homem não entende.

- Como é?

- O Tiergarten. – revela ele – E como você, lá eu acredito que eu também encontrarei o meu destino.

Os espartaquistas não fazem ideia do que ele está falando. Respirando fundo, Liebknecht levanta as mãos e diz:

- Eu desisto. Deixem-no sob custódia. Se ele tentar fugir, atirem nele.

O homem dá as costas e continua tratando de seus assuntos. Gunther é levado de volta à redação do Vörwarts. Antes de sair, ele pede um tempo aos espartaquistas e aborda a garota.

- Anneliese, por favor me ouça! A liga não vai vencer essa revolta. Você tem que fugir!

- Eu não vou a lugar algum.

- Você não entende! Muitos, juntamente com os líderes, irão morrer!

- Eu sei. – responde ela.

O rapaz se espanta.

- Sabe...?

- Eu sei do futuro, Gunther. Eu sei do confronto com os Freikorps e também da execução de Leibknecht no Tiergarten.

- Mas... – confunde-se ele – Você não me conhecia em 1933 e tampouco vinha do meu... – ele hesita – nosso tempo.

Anneliese não sabe do que ele está falando.

- Gunther, se o universo me deu a chance de prevenir que o nazismo ocorra, e que a libertadora ideologia marxista salve a Europa, eu o farei.

A garota era uma comunista convicta. Intrigado, o rapaz pergunta:

- Anneliese, por que esse fanatismo todo pelo comunismo?

A garota se silencia, ela não vai responde-lo. Então os espartaquistas os interrompem e o levam dali.

 

§

 

Dias se passam.

Encontrando um documento na redação do Vörwarts, um espartaquista comenta com outro revoltoso:

- Veja só isso aqui! “A hora do acerto de contas está chegando”. Os social-democratas se aliaram aos Freikorps!

O outro revoltoso lê e concorda.

- Eles não apenas se aliaram aos burgueses, mas também pedem o assassinato de toda a liga!

- Temos que mostrar isso ao Liebknecht!

Antes de saírem, tiros são ouvidos lá embaixo e um deles é atingido no pescoço. Os jornalistas se apavoram, o homem sufocava em uma poça de seu próprio sangue.

Abandonando o documento, o revoltoso restante desce as escadas para lutar. Aproveitando o momento, Gunther o pega e desce as escadas também, com o pretexto de passar a informação e encontrar Anneliese.

Ao chegar na rua ele pensa estar em uma zona de guerra. Embarricados em linha, os espartaquistas se organizam bravamente. O rapaz olha para o fim da rua e vê carros fortificados se aproximando. Ele os reconhece, são os Freikorps.

Vestindo uniformes escuros e capacetes pintados com caveiras e suásticas, os paramilitares avançam com metralhadores e canhões da Primeira Guerra Mundial. De fato, aqueles eram veteranos e fanáticos, tropas ressentidas pela derrota na guerra e esperançosos de restabelecer a Alemanha em sua velha glória.

A artilharia dispara na fachada dos edifícios. A explosão é ensurdecedora e retumba pelas ruas. Assustado, o rapaz reconhece que os Freikorps têm poder de fogo incomparavelmente superior e que certamente irão vencer. Entretanto, os espartaquistas revidam e Gunther os admira por sua vontade resoluta de combater.

Atravessando a rua sob o perigosíssimo zunido das balas, o rapaz procura pela garota, mas ela não estava em lugar algum.

- Ei! – chama ele. 

Um jovem comunista olha para ele. Gunther nota que o jovem não tem mais de dezoito anos. O rapaz continua:

- Eu tenho uma mensagem importante para Liebknecht! Me diga onde ele...

Então uma bala atravessa a têmpora do jovem, fazendo-o desabar sem vida no chão. Gunther se desespera.

- Mas o que é que você está fazendo aí, rapaz?! Proteja-se!

Um revoltoso o pega pelas roupas e o tira dali. Gunther pode ver que, do alto das janelas, algumas mulheres jogam vasos e outros objetos pesados nos paramilitares.

- Eu tenho uma mensagem importante para Karl Liebknecht!

- Do que se trata essa mensagem?

- O governo se aliou aos Freikorps!

Explosões, gritos e tiros de metralhadora são ouvidos pela rua. Com sorriso sarcástico, o revoltoso responde:

- Acho que isso ficou meio óbvio, não?

O carro fortificado se aproxima. Os espartaquistas jogam bombas incendiárias, mas não são capazes de conter seu avanço. A torreta aponta para Gunther e começa a atirar. O rapaz vê os buracos de bala se formando na parede até sua posição. O revoltoso arromba uma porta e o puxa para dentro. Segundos depois a torreta metralha todo o batente, reduzindo-o a migalhas.

- Você salvou a minha vida! – agradece ele.

- Ainda é cedo para comemorar.

- Você sabe onde eu encontro o Liebknecht?

- Você é um espartaquista?

- Sim! – mente ele.

O revoltoso hesita, mas não há tempo para pensar.

- Siga-me!

Levando-o pelo fundo dos prédios, os dois adentram os porões por um alçapão no pátio. Dentro do esconderijo, Gunther vê aproximadamente cinquenta pessoas reunidas ao redor dos líderes. Alguém diz:

- Estamos sob ataque! O Provisoricher Revolutionsausschuss[5] precisa se decidir!

- Onde está Clara? – pergunta Liebknecht.

O líder se referia a Clara Zetkin, uma marxista, cofundadora da Liga Espartaquista e ativista dos direitos das mulheres.

- Karl, você sabe que a luta da Clara não é aqui! – responde Luxemburg.

- Como pode uma de nossas líderes não estar presente nas decisões?

Novamente mais discordância entre Liebknecht e Luxemburg. Enquanto o comitê discute, eles parecem ignorar a presença de Gunther. Haviam alguns feridos no chão e o rapaz aproveita para procurar por Anneliese lá embaixo.

O comitê se divide entre a revolução armada e a implantação do socialismo, ou uma reforma política dentro do poder administrativo da nova república. Incapazes de resolver suas diferenças, o comitê não toma decisão alguma.

Uma explosão é ouvida e poeira cai do teto. Com medo de ser soterrado lá embaixo, Gunther deixa o porão.

Ao sair no pátio, alguém atrás dele diz:

- Parado aí, comunista!

Virando-se rapidamente, o rapaz se petrifica. Um paramilitar de olhar férreo e uniforme cinzento o encara furiosamente. Gunther diz:

- Não atire! Eu me rendo.

Sem a menor reação, o homem de semblante rígido o ignora e puxa o gatilho. A bala atravessa o seu peito e Gunther cai no chão. Tremendo de medo, sangue escorre de sua ferida e mancha suas mãos. Olhando para cima, ele vê meia dúzia de Freikorps olhando para ele. Eles não demonstram nenhuma compaixão, aquilo foi puro assassinato. Passados alguns segundos, eles se viram e vão embora.

Enquanto o rapaz definha sozinho, ele sussurra:

- Telefones... – ele tosse sangue – eu ouço telefones tocando em toda parte...    

 

  



[1] A Bandeira Vermelha em alemão

[2] Unabhängige Sozialdemokratische Partei, ou Partido Social-democrata Independente

[3] Para frente 

[4] Partido Comunista Alemão

[5] Comitê Revolucionário Regional

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