É uma bela manhã
nos alpes suíços. Nuvens passam pelas cordilheiras e a neve repousa no topo das
montanhas. Gunther sobe uma montanha ao lado de Sils Maria, um belo e tranquilo
vilarejo no sul da Suíça.
A trilha é longa
e íngreme. A pesada caminhada agrava sua frágil saúde, deixando-o fraco. Dores
de cabeça o afligem, a náusea o desequilibra, mas sua força de vontade o faz
prosseguir ao seu objetivo. Então ele pensa:
“A vida é como essa montanha. De seus pés, ela
parece grande, alta e assustadora. Ao escalar seus paredões rochosos e subir suas sinuosas trilhas, a dor, o cansaço e o inexorável clima o farão pensar
em desistir. E, de fato, muitos desistem. Mas os superiores, aqueles com
vontade inabalável e espírito excepcional, com muito esforço continuarão até
finalmente conquistarem o topo”.
“Sim”, continua
ele, “a caminhada será longa, angustiante e penosa, mas a magnífica vista do
cume fará tudo valer a pena”.
Durante a subida,
Gunther reflete sobre a natureza de tudo. Em brilhantes ponderações, ele tem o
seguinte pensamento:
“Portanto, o
sofrimento é necessário para a formação do homem; todo homem de boa compleição
deve trilhar esse caminho. Essas dores podem ser bastante penosas, mas sem
dores não é possível tornar-se guia e educador da humanidade. E coitado daquele
que queira sê-lo sem ter essa pura consciência!".
Para Gunther,
ninguém que não tivesse conquistado o topo da montanha podia tornar-se proeminente.
A dor é uma constante e tentar separa-la da vida é embarcar em um ato tolo,
covarde e infrutífero.
Começar a escalar
a montanha é o início da dor. Alguns param perto da base, encurtando o
sofrimento. Outros avançam até a metade, guiados até o limite de sua ambição.
Mas os excepcionais flagelam-se a na excruciante subida onde cada
passo é um novo ferimento, uma nova gota de sangue deixada pelo caminho.
“Pois para mim, a
vida vai ficando cada vez mais dura perto do topo”.
Diante dessa
reflexão, ele faz o seguinte desejo:
“A todos com quem
realmente me importo, desejo sofrimento, desolação, doença, maus tratos,
indignidades, o profundo desprezo por si, a tortura da falta de confiança e a
desgraça dos derrotados!”.
Pelo bem de
todos, Gunther quer que todos sofram.
Ignorando as
dores de cabeça, ele continua subindo, mas a náusea é forte demais e ele é
obrigado a parar. Em longos e pesados suspiros, ele se apoia em uma pedra e
vomita. Sentando-se, ele espera a náusea passar um pouco.
O sofrimento da
saúde debilitada o acompanhou por toda a sua vida. Lembrando-se disso, ele
pensa:
“O gênio que
sobrevive ao sofrimento que lhe cria e lhe acompanha acaba superando as noções
de 'bom' e 'mau', e a moral existirá apenas como um
vestígio de uma cultura inferior”.
- Ah, a moral! –
exclama ele.
Gunther
desprezava a moral, ou como ele chamava, os “ideais ascetas”. Para ele, o
ascetismo era proveniente de uma dicotomia de castas onde a “moralidade de
senhores” era deformada em favor da “moralidade de escravos”. Os valores eram
invertidos; os “homens bons”, ou seja, aqueles felizes por serem ricos, fortes,
saudáveis e belos eram sabotados e vilipendiados pelos “homens maus”, ou seja, os
infelizes por serem pobres, fracos, doentes e feios. Para o rapaz, essa inversão
era consequência do ascetismo, uma doutrina que rejeitava as inclinações da carne
ao ponto de ser tornar inimiga dela, odiando-a.
“São inimigos da
dádiva do corpo”, pensa ele, enquanto caminha.
A inversão da
moralidade de senhor e escravo era fruto do ressentimento dos escravos, uma
forma de vingança passiva contra os belos, valentes e heroicos pertencentes à
casta dos senhores. O ascetismo fomentava essa inversão, mas agora era
reforçada pelo mais novo inimigo de Gunther: o Cristianismo.
“Para ler o Novo
Testamento, é conveniente calçar luvas. Diante de tanta sujeira, tal ação é
necessária”, pensa ele.
O rapaz detestava
essa doutrina de negação da vida. Os prazeres carnais são abolidos e a
temperança, castidade e recato glorificados em um código moral novo,
proveniente de um plano espiritual superior conhecido como o “Reino de Deus”.
Para Gunther, o
cristianismo era uma extensão da moralidade de escravo, algo que desgraçou a
sociedade greco-romana e agora retornava de cara nova sobre toda a Europa.
Considerando essa
religião, que exaltava a fraqueza e condenava a força, uma doença na sociedade, o
rapaz pensa:
“O cristianismo é
chamado de religião da misericórdia. Misericórdia é o oposto das emoções que
elevam nossa vitalidade: ela tem um efeito deprimente. Somos privados da força quando
sentimos misericórdia. Essa sofrível perda de força infligida na vida é agravada
e multiplicada pela misericórdia. Misericórdia torna o sofrimento
contagioso”.
Apesar de suas
duras críticas, Gunther não era contra Cristo, mas contra seus seguidores que
pregam e não praticam o que seu Senhor lhes ensinou. De fato, o rapaz tinha
aversão aos ensinamentos do apóstolo Paulo que, ao doutrinar os gentios no
conceito de bem e mal, reclassificava os senhores como maus e os escravos como
bons, completamente ignorando que o próprio apóstolo colocou ambos sob a mesma
autoridade de Cristo.
“O
estabelecimento de um sistema moral baseado no bem e no mal é um erro
calamitoso e os cristãos deveriam reavaliar seus valores religiosos na
sociedade, substituindo-os por aqueles que exaltam os impulsos da vida terrena ao
invés de repudia-la”.
Restabelecer os
valores só é possível sob uma única condição. Então, parando no caminho,
Gunther olha para o céu e tem uma tremenda conclusão. Ele pensa:
“Deus está morto!
Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós! Como haveremos de nos consolar,
nós, os algozes dos algozes? O que o mundo possuiu, até agora, de mais sagrado e
mais poderoso, sucumbiu aos golpes de nossas lâminas. Quem nos limpará desse
sangue? Qual a água que nos lavará? Que solenidades de desagravo, que jogos
sagrados haveremos de inventar? A grandiosidade desse ato não será demasiada
para nós? Não teremos de nos tornar nossos próprios deuses, para parecermos apenas
dignos dele? Nunca existiu ato mais grandioso e, quem quer que nasça depois de
nós, passará a fazer parte, mercê desse ato, de uma história superior a toda a
história até hoje!”.
Mas, assim como a
montanha à sua volta é imensamente grande, o caminho do Homem para sua
libertação é imensamente longo. Subindo os degraus de pedra, ele novamente
reflete:
“Deus está morto.
Mas considerando o estado em que se encontra a espécie humana, talvez ainda por
um milênio existirão grutas em que se mostrará a sua sombra”.
A falta de ar e
tontura o enfraquecem. Reconhecendo as próprias fraquezas, ele olha para cima e
pensa:
“Não é possível
para o homem atual rescrever a moralidade. É necessário um homem novo, um homem
que compreenda a vontade de poder, ou seja, um Super Homem”.
Vontade de poder
era a forma de Gunther classificar o comportamento humano. Para ele, viver não
se resumia apenas à sobrevivência e à conservação do corpo, mas à necessidade
humana de se superar, exceder a própria força e conquistar respeito, território
e poder.
A metafísica,
sendo algo não material, e a religião, focada no campo espiritual, eram
rejeitadas por ele. Para Gunther, a vontade de poder era essencialmente um impulso
físico de vida. O ascetismo, o niilismo e o utilitarismo eram teorias que rejeitavam
a vida, dessa maneira abominadas por ele. Assim como o ditado diz: “o que
importa é o caminho e não o destino”, a felicidade para Gunther não era o
objetivo, mas sim a superação das adversidades pelo caminho que o levariam à verdadeira felicidade.
A vontade de poder
residia em cada elemento da natureza, estimulando a vida. Ela era a força
motriz das ambições humanas, pois os provocavam a sempre buscar o máximo da
vida através do esforço, da conquista e da realização. Reconhecendo isso, ele pensa:
“O mundo em si é
a vontade de poder, e nada mais. E nós mesmos somos a vontade de poder, e nada
mais”.
Horas se passam. Tropeços são constantes no
solo pedregoso, concussões ferem seu corpo, problemas de saúde lhe afetam...
E então, após todas as dificuldades, o rapaz se agarra a uma pedra e finalmente
alcança o cume.
A vista é
magnífica. Do topo da montanha, Gunther contempla as nuvens e os belíssimos
alpes. Respirando fundo, ele sente o ar puro refrescando-o e revigorando
suas energias. Enxugando o suor de sua testa, o rapaz alegremente pensa:
“Valeu a pena!”.
Sentando-se de pernas
cruzadas, no tipo borboleta, ele espera a dor alivia-lo um pouco. Seu corpo
lateja, a náusea o atormenta, mas o rapaz se felicita. Ele venceu a montanha. Gunther
solenemente diz:
- O que não me
mata me torna mais forte.
Uma ideia vem à sua mente como um trovão. Levantando-se em um pulo, ele faz uma proclamação aos
sete ventos sobre o que acaba de compreender.
- Eu rejeito a
negação da vida! Eu rejeito a ideia de um mundo posterior bom para quem não é
bom! Eu rejeito uma vida vindoura digna para quem não foi digno da vida! Os
valores não mais serão invertidos, a moralidade não mais será corrompida. Um novo
conjunto de valores virá pelas mãos daquele que não tem medo do futuro, da
morte ou da ausência de Deus. Eu vos apresento o Super Homem! Não mais
sofreremos a pequenez de espírito, a superstição vingativa e a ausência de ousadia
do velho homem, o Último Homem. A nova sociedade reformulada, apaixonada e viva
surgirá. Contemplem o Super Homem!
Alegre por sua
conquista, ele desfruta da elevada paisagem pelo resto do dia.
§
Horas mais tarde,
Gunther volta para sua casa, um pequeno quarto alugado em uma pousada nas
montanhas. Abrindo a porta, ele vê sua cama, a janela e uma rústica mesa no
canto. Havia um espelho na parede. Ignorando-o, ele tira sua blusa, caminha até a janela e olha lá fora.
Naquele momento, Gunther
se lembra que faziam oito anos que ele habitava aquele lugar. Afastado de seu
emprego por motivos de saúde, ele reconhece que, apesar de sua grandeza, ele
era um homem triste e sozinho. Escrevendo uma carta a um amigo que era casado, o
rapaz disse:
“Graças a sua
esposa, as coisas são cem vezes melhores para você do que para mim. Vocês têm
seu ninho juntos. Eu tenho, no muito, uma caverna”.
Colocando a mão
no rosto, ele se lamenta dizendo:
- Ah, Anneliese! Se
ao menos você estivesse comigo. Eu te amo tanto...
Por três vezes Gunther
a pediu em casamento, e por três vezes ela disse não. Inteligente e ambiciosa,
Anneliese quis seguir sua pesquisa em comportamento sexual e psicanálise. Visando
sua carreira, ela propôs ao rapaz que ambos fossem apenas amigos. Apaixonado demais
para perceber que ela mesmo o seduzia para a coleta de dados em sua pesquisa, Gunther
não pôde deixar de sofrer.
Após tanta dor, desilusão
e sofrimento em sua vida, o rapaz friamente reconhece:
“Mas esse é o destino
do Super Homem. O caminho do conhecimento para se tornar um Super Homem o
tornará infeliz, todavia essa é a vida que eu escolhi para mim”.
Lembrando-se do
quanto as pessoas medíocres eram felizes em suas frívolas maneiras de viver, ele
comenta:
- A ignorância é
uma bênção.
Enquanto divaga
em pensamentos, duas mulheres vestidas de branco entram em seu quarto.
- Mas o que é que
o senhor está fazendo? – pergunta uma delas.
Gunther se vira,
assustado.
- Oh, me desculpe.
Eu não sei como vim parar aqui. Na verdade, eu sinto como se morasse aqui.
As mulheres se
entreolham.
- Do que você está
falando?
- Não quis invadir
esse quarto. Eu só quis passear pelos alpes suíços. É uma belíssima cidade, essa
Sils Maria. Vocês têm sorte em morarem aqui. Já estou de saída.
Uma delas diz:
- Mas nós não estamos
em Sils Maria. Nós estamos em Basel.
O rapaz se confunde.
Basel era uma cidade no noroeste da Suíça. Ele pensava estar no sudeste suíço,
na outra ponta do país.
- Escutem, eu
preciso ir embora agora.
- O senhor não pode
ir. O senhor precisa descansar. Não quer se deitar e descansar um pouco?
Gunther desconfia
do comportamento delas. Ele responde:
- Não. Eu apenas
quero partir.
- Mas o senhor deve
ficar. Estamos aqui para cuidar do senhor.
O rapaz não compreende.
- Do que estão
falando? Eu não quero ser cuidado! Deve haver algum engano! Estão me confundindo
com outra pessoa!
Irritado, Gunther
intenta ir até a saída, mas as mulheres não saem do caminho.
- Senhor Nietzsche,
o senhor precisa se acalmar.
Intrigado, o
rapaz pergunta:
- Do que você me
chamou?
As mulheres
insistem.
- Senhor Nietzsche,
se acalme por favor.
- Eu não sou esse
Nietzsche! – exclama ele – Eu sou Gunther!
O rapaz aponta
para o espelho. Arregalando os olhos, ele tem uma terrível surpresa. Gunther tem
cabelos castanhos e lisos repartidos no topo da cabeça, seu rosto é de outra
pessoa e ele veste uma roupa de paciente. Mas é o seu bigode que lhe espanta,
um grande e volumoso bigode, tão grande que é capaz de cobrir sua boca.
Encarando a si
mesmo, ele treme e pergunta:
- Quem é esse
homem?!
As mulheres se
aproximam e o seguram pelos braços.
- Venha, descanse
um pouco. Nós vamos lhe dar os remédios e tudo ficará bem.
Gunther está
confuso e se deixa levar. Deitando-o na cama, elas lhe dão água com comprimidos para beber. Minutos depois ele adormece sobre o colchão.
§
O rapaz acorda
com o som de vozes. Ele está fraco e não consegue se mexer ou falar. Olhando para
a porta, ele vê as duas mulheres conversando com um homem. O desconhecido
pergunta:
- Qual é o estado
dele, enfermeira?
- Doutor, ele
parece estar sofrendo de alucinação. Hoje ele pensa ser alguém chamado Gunther.
Semana passada ele assinou cartas com os nomes de “Dionísio”, “o Crucificado” e
“o Nazareno”.
O homem pondera.
- Provavelmente sua
demência se agravou devido à sífilis. Ele tomou os medicamentos?
- Sim. Ele deve
estar dormindo agora.
- Obrigado, enfermeira.
Entrando no quarto,
o médico o examina. Inesperadamente, o rapaz balbucia.
- Zaratustra...
- O que disse...?
- Assim como Zaratustra...
Eu serei lembrado postumamente. Alguém que alcançou toda a sabedoria no mundo... Mas... Sem discípulos para o ouvirem e o seguirem... Se tornou o homem mais
solitário do mundo...
O médico sorri.
- Mas o senhor não
está sozinho, herr Nietzsche. Estamos aqui como o senhor.
- Mas somos
poucos e... Estando eu no fim dos meus dias... Não terei tempo para mudar a
sociedade à minha volta...
- O senhor está mesmo
decidido a mudar o mundo, não é mesmo?
Gunther assente.
- Se eu não morrer
antes...
- O senhor não vai.
Nós vamos salva-lo, herr Nietzsche. Nem que o senhor viva mais alguns anos
sentindo dor.
- Oh, não se
preocupe, doutor... Pois o que não me mata... – responde ele – Me torna mais
forte.

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