sexta-feira, 19 de março de 2021

Tiergarten - 22 - Übermensch


 

É uma bela manhã nos alpes suíços. Nuvens passam pelas cordilheiras e a neve repousa no topo das montanhas. Gunther sobe uma montanha ao lado de Sils Maria, um belo e tranquilo vilarejo no sul da Suíça.

A trilha é longa e íngreme. A pesada caminhada agrava sua frágil saúde, deixando-o fraco. Dores de cabeça o afligem, a náusea o desequilibra, mas sua força de vontade o faz prosseguir ao seu objetivo. Então ele pensa:

 “A vida é como essa montanha. De seus pés, ela parece grande, alta e assustadora. Ao escalar seus paredões rochosos e subir suas sinuosas trilhas, a dor, o cansaço e o inexorável clima o farão pensar em desistir. E, de fato, muitos desistem. Mas os superiores, aqueles com vontade inabalável e espírito excepcional, com muito esforço continuarão até finalmente conquistarem o topo”.

“Sim”, continua ele, “a caminhada será longa, angustiante e penosa, mas a magnífica vista do cume fará tudo valer a pena”.

Durante a subida, Gunther reflete sobre a natureza de tudo. Em brilhantes ponderações, ele tem o seguinte pensamento:

“Portanto, o sofrimento é necessário para a formação do homem; todo homem de boa compleição deve trilhar esse caminho. Essas dores podem ser bastante penosas, mas sem dores não é possível tornar-se guia e educador da humanidade. E coitado daquele que queira sê-lo sem ter essa pura consciência!".

Para Gunther, ninguém que não tivesse conquistado o topo da montanha podia tornar-se proeminente. A dor é uma constante e tentar separa-la da vida é embarcar em um ato tolo, covarde e infrutífero.

Começar a escalar a montanha é o início da dor. Alguns param perto da base, encurtando o sofrimento. Outros avançam até a metade, guiados até o limite de sua ambição. Mas os excepcionais flagelam-se a na excruciante subida onde cada passo é um novo ferimento, uma nova gota de sangue deixada pelo caminho.

“Pois para mim, a vida vai ficando cada vez mais dura perto do topo”.

Diante dessa reflexão, ele faz o seguinte desejo:

“A todos com quem realmente me importo, desejo sofrimento, desolação, doença, maus tratos, indignidades, o profundo desprezo por si, a tortura da falta de confiança e a desgraça dos derrotados!”.

Pelo bem de todos, Gunther quer que todos sofram.

Ignorando as dores de cabeça, ele continua subindo, mas a náusea é forte demais e ele é obrigado a parar. Em longos e pesados suspiros, ele se apoia em uma pedra e vomita. Sentando-se, ele espera a náusea passar um pouco.

O sofrimento da saúde debilitada o acompanhou por toda a sua vida. Lembrando-se disso, ele pensa:

“O gênio que sobrevive ao sofrimento que lhe cria e lhe acompanha acaba superando as noções de 'bom' e 'mau', e a moral existirá apenas como um vestígio de uma cultura inferior”.

- Ah, a moral! – exclama ele.

Gunther desprezava a moral, ou como ele chamava, os “ideais ascetas”. Para ele, o ascetismo era proveniente de uma dicotomia de castas onde a “moralidade de senhores” era deformada em favor da “moralidade de escravos”. Os valores eram invertidos; os “homens bons”, ou seja, aqueles felizes por serem ricos, fortes, saudáveis e belos eram sabotados e vilipendiados pelos “homens maus”, ou seja, os infelizes por serem pobres, fracos, doentes e feios. Para o rapaz, essa inversão era consequência do ascetismo, uma doutrina que rejeitava as inclinações da carne ao ponto de ser tornar inimiga dela, odiando-a.

“São inimigos da dádiva do corpo”, pensa ele, enquanto caminha.

A inversão da moralidade de senhor e escravo era fruto do ressentimento dos escravos, uma forma de vingança passiva contra os belos, valentes e heroicos pertencentes à casta dos senhores. O ascetismo fomentava essa inversão, mas agora era reforçada pelo mais novo inimigo de Gunther: o Cristianismo.

“Para ler o Novo Testamento, é conveniente calçar luvas. Diante de tanta sujeira, tal ação é necessária”, pensa ele.

O rapaz detestava essa doutrina de negação da vida. Os prazeres carnais são abolidos e a temperança, castidade e recato glorificados em um código moral novo, proveniente de um plano espiritual superior conhecido como o “Reino de Deus”.

Para Gunther, o cristianismo era uma extensão da moralidade de escravo, algo que desgraçou a sociedade greco-romana e agora retornava de cara nova sobre toda a Europa.   

Considerando essa religião, que exaltava a fraqueza e condenava a força, uma doença na sociedade, o rapaz pensa:

“O cristianismo é chamado de religião da misericórdia. Misericórdia é o oposto das emoções que elevam nossa vitalidade: ela tem um efeito deprimente. Somos privados da força quando sentimos misericórdia. Essa sofrível perda de força infligida na vida é agravada e multiplicada pela misericórdia. Misericórdia torna o sofrimento contagioso”. 

Apesar de suas duras críticas, Gunther não era contra Cristo, mas contra seus seguidores que pregam e não praticam o que seu Senhor lhes ensinou. De fato, o rapaz tinha aversão aos ensinamentos do apóstolo Paulo que, ao doutrinar os gentios no conceito de bem e mal, reclassificava os senhores como maus e os escravos como bons, completamente ignorando que o próprio apóstolo colocou ambos sob a mesma autoridade de Cristo.

“O estabelecimento de um sistema moral baseado no bem e no mal é um erro calamitoso e os cristãos deveriam reavaliar seus valores religiosos na sociedade, substituindo-os por aqueles que exaltam os impulsos da vida terrena ao invés de repudia-la”.

Restabelecer os valores só é possível sob uma única condição. Então, parando no caminho, Gunther olha para o céu e tem uma tremenda conclusão. Ele pensa:

“Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós! Como haveremos de nos consolar, nós, os algozes dos algozes? O que o mundo possuiu, até agora, de mais sagrado e mais poderoso, sucumbiu aos golpes de nossas lâminas. Quem nos limpará desse sangue? Qual a água que nos lavará? Que solenidades de desagravo, que jogos sagrados haveremos de inventar? A grandiosidade desse ato não será demasiada para nós? Não teremos de nos tornar nossos próprios deuses, para parecermos apenas dignos dele? Nunca existiu ato mais grandioso e, quem quer que nasça depois de nós, passará a fazer parte, mercê desse ato, de uma história superior a toda a história até hoje!”.

Mas, assim como a montanha à sua volta é imensamente grande, o caminho do Homem para sua libertação é imensamente longo. Subindo os degraus de pedra, ele novamente reflete:

“Deus está morto. Mas considerando o estado em que se encontra a espécie humana, talvez ainda por um milênio existirão grutas em que se mostrará a sua sombra”. 

A falta de ar e tontura o enfraquecem. Reconhecendo as próprias fraquezas, ele olha para cima e pensa:

“Não é possível para o homem atual rescrever a moralidade. É necessário um homem novo, um homem que compreenda a vontade de poder, ou seja, um Super Homem”.

Vontade de poder era a forma de Gunther classificar o comportamento humano. Para ele, viver não se resumia apenas à sobrevivência e à conservação do corpo, mas à necessidade humana de se superar, exceder a própria força e conquistar respeito, território e poder.

A metafísica, sendo algo não material, e a religião, focada no campo espiritual, eram rejeitadas por ele. Para Gunther, a vontade de poder era essencialmente um impulso físico de vida. O ascetismo, o niilismo e o utilitarismo eram teorias que rejeitavam a vida, dessa maneira abominadas por ele. Assim como o ditado diz: “o que importa é o caminho e não o destino”, a felicidade para Gunther não era o objetivo, mas sim a superação das adversidades pelo caminho que o levariam à verdadeira felicidade.

A vontade de poder residia em cada elemento da natureza, estimulando a vida. Ela era a força motriz das ambições humanas, pois os provocavam a sempre buscar o máximo da vida através do esforço, da conquista e da realização. Reconhecendo isso, ele pensa:

“O mundo em si é a vontade de poder, e nada mais. E nós mesmos somos a vontade de poder, e nada mais”.

 Horas se passam. Tropeços são constantes no solo pedregoso, concussões ferem seu corpo, problemas de saúde lhe afetam... E então, após todas as dificuldades, o rapaz se agarra a uma pedra e finalmente alcança o cume.

A vista é magnífica. Do topo da montanha, Gunther contempla as nuvens e os belíssimos alpes. Respirando fundo, ele sente o ar puro refrescando-o e revigorando suas energias. Enxugando o suor de sua testa, o rapaz alegremente pensa:

“Valeu a pena!”.

Sentando-se de pernas cruzadas, no tipo borboleta, ele espera a dor alivia-lo um pouco. Seu corpo lateja, a náusea o atormenta, mas o rapaz se felicita. Ele venceu a montanha. Gunther solenemente diz:

- O que não me mata me torna mais forte.

Uma ideia vem à sua mente como um trovão. Levantando-se em um pulo, ele faz uma proclamação aos sete ventos sobre o que acaba de compreender.

- Eu rejeito a negação da vida! Eu rejeito a ideia de um mundo posterior bom para quem não é bom! Eu rejeito uma vida vindoura digna para quem não foi digno da vida! Os valores não mais serão invertidos, a moralidade não mais será corrompida. Um novo conjunto de valores virá pelas mãos daquele que não tem medo do futuro, da morte ou da ausência de Deus. Eu vos apresento o Super Homem! Não mais sofreremos a pequenez de espírito, a superstição vingativa e a ausência de ousadia do velho homem, o Último Homem. A nova sociedade reformulada, apaixonada e viva surgirá. Contemplem o Super Homem!

Alegre por sua conquista, ele desfruta da elevada paisagem pelo resto do dia.

 

§

 

Horas mais tarde, Gunther volta para sua casa, um pequeno quarto alugado em uma pousada nas montanhas. Abrindo a porta, ele vê sua cama, a janela e uma rústica mesa no canto. Havia um espelho na parede. Ignorando-o, ele tira sua blusa, caminha até a janela e olha lá fora.

Naquele momento, Gunther se lembra que faziam oito anos que ele habitava aquele lugar. Afastado de seu emprego por motivos de saúde, ele reconhece que, apesar de sua grandeza, ele era um homem triste e sozinho. Escrevendo uma carta a um amigo que era casado, o rapaz disse:

“Graças a sua esposa, as coisas são cem vezes melhores para você do que para mim. Vocês têm seu ninho juntos. Eu tenho, no muito, uma caverna”.

Colocando a mão no rosto, ele se lamenta dizendo:

- Ah, Anneliese! Se ao menos você estivesse comigo. Eu te amo tanto...

Por três vezes Gunther a pediu em casamento, e por três vezes ela disse não. Inteligente e ambiciosa, Anneliese quis seguir sua pesquisa em comportamento sexual e psicanálise. Visando sua carreira, ela propôs ao rapaz que ambos fossem apenas amigos. Apaixonado demais para perceber que ela mesmo o seduzia para a coleta de dados em sua pesquisa, Gunther não pôde deixar de sofrer.

Após tanta dor, desilusão e sofrimento em sua vida, o rapaz friamente reconhece:

“Mas esse é o destino do Super Homem. O caminho do conhecimento para se tornar um Super Homem o tornará infeliz, todavia essa é a vida que eu escolhi para mim”.

Lembrando-se do quanto as pessoas medíocres eram felizes em suas frívolas maneiras de viver, ele comenta:  

- A ignorância é uma bênção.     

Enquanto divaga em pensamentos, duas mulheres vestidas de branco entram em seu quarto.

- Mas o que é que o senhor está fazendo? – pergunta uma delas.

Gunther se vira, assustado.

- Oh, me desculpe. Eu não sei como vim parar aqui. Na verdade, eu sinto como se morasse aqui.

As mulheres se entreolham.   

- Do que você está falando?

- Não quis invadir esse quarto. Eu só quis passear pelos alpes suíços. É uma belíssima cidade, essa Sils Maria. Vocês têm sorte em morarem aqui. Já estou de saída.

Uma delas diz:

- Mas nós não estamos em Sils Maria. Nós estamos em Basel.

O rapaz se confunde. Basel era uma cidade no noroeste da Suíça. Ele pensava estar no sudeste suíço, na outra ponta do país.

- Escutem, eu preciso ir embora agora.

- O senhor não pode ir. O senhor precisa descansar. Não quer se deitar e descansar um pouco?

Gunther desconfia do comportamento delas. Ele responde:

- Não. Eu apenas quero partir.

- Mas o senhor deve ficar. Estamos aqui para cuidar do senhor.

O rapaz não compreende.

- Do que estão falando? Eu não quero ser cuidado! Deve haver algum engano! Estão me confundindo com outra pessoa!

Irritado, Gunther intenta ir até a saída, mas as mulheres não saem do caminho.

- Senhor Nietzsche, o senhor precisa se acalmar.

Intrigado, o rapaz pergunta:

- Do que você me chamou?

As mulheres insistem.

- Senhor Nietzsche, se acalme por favor.

- Eu não sou esse Nietzsche! – exclama ele – Eu sou Gunther!

O rapaz aponta para o espelho. Arregalando os olhos, ele tem uma terrível surpresa. Gunther tem cabelos castanhos e lisos repartidos no topo da cabeça, seu rosto é de outra pessoa e ele veste uma roupa de paciente. Mas é o seu bigode que lhe espanta, um grande e volumoso bigode, tão grande que é capaz de cobrir sua boca.

Encarando a si mesmo, ele treme e pergunta:

- Quem é esse homem?!

As mulheres se aproximam e o seguram pelos braços.

- Venha, descanse um pouco. Nós vamos lhe dar os remédios e tudo ficará bem.

Gunther está confuso e se deixa levar. Deitando-o na cama, elas lhe dão água com comprimidos para beber. Minutos depois ele adormece sobre o colchão.

 

§

 

O rapaz acorda com o som de vozes. Ele está fraco e não consegue se mexer ou falar. Olhando para a porta, ele vê as duas mulheres conversando com um homem. O desconhecido pergunta:

- Qual é o estado dele, enfermeira?

- Doutor, ele parece estar sofrendo de alucinação. Hoje ele pensa ser alguém chamado Gunther. Semana passada ele assinou cartas com os nomes de “Dionísio”, “o Crucificado” e “o Nazareno”.

O homem pondera.

- Provavelmente sua demência se agravou devido à sífilis. Ele tomou os medicamentos?

- Sim. Ele deve estar dormindo agora.

- Obrigado, enfermeira.

Entrando no quarto, o médico o examina. Inesperadamente, o rapaz balbucia.

- Zaratustra...

- O que disse...? 

- Assim como Zaratustra... Eu serei lembrado postumamente. Alguém que alcançou toda a sabedoria no mundo... Mas... Sem discípulos para o ouvirem e o seguirem... Se tornou o homem mais solitário do mundo...

O médico sorri.

- Mas o senhor não está sozinho, herr Nietzsche. Estamos aqui como o senhor.

- Mas somos poucos e... Estando eu no fim dos meus dias... Não terei tempo para mudar a sociedade à minha volta...

- O senhor está mesmo decidido a mudar o mundo, não é mesmo?

Gunther assente.

- Se eu não morrer antes...

- O senhor não vai. Nós vamos salva-lo, herr Nietzsche. Nem que o senhor viva mais alguns anos sentindo dor.

- Oh, não se preocupe, doutor... Pois o que não me mata... – responde ele – Me torna mais forte.

 

 

 

 

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