segunda-feira, 21 de julho de 2025

Shenzhou Wénzi - 15 - Belerofonte


(Arte de Hug Perrier)
 

Yang está desacordado.

O sistema de navegação de Wénzi está desligado e a cabine está em completa escuridão. Mesmo o Navcom não funciona; no pequeno visor está escrito: “reiniciando. Por favor, aguarde”.

De repente dois drones aparecem. Eles aproximam e afastam suas lentes, tentando captar a misteriosa espaçonave à deriva no meio do espaço.

Os drones ligam seus holofotes. A forte luz ilumina o piloto desacordado dentro da cabine. Yang se incomoda e se mexe com a luz ofuscando-o. Ele abre os olhos e põe as mãos contra a luz para se proteger.

O painel está todo apagado; Navcom está inoperante. Apertando um botão de emergência, o sistema se reinicia e o painel se acende. Inúmeras mensagens aparecem no para-brisa; eram as tentativas de contato dos drones. Yang abre uma delas e se confunde. A mensagem estava em inglês.

Um minuto depois, uma espaçonave surge por detrás do Wénzi e paira à sua frente. Yang reconhece uma nave de patrulha. Ele recebe uma solicitação de chamada no canal de comunicação e, ao atender, alguém na nave lhe falava também em inglês. Yang falava um pouco da língua, mas não no nível fluente. Ele responde em chinês mandarim e o outro lado se silencia. Um minuto depois alguém lhe responde também em chinês, mas com notável sotaque estrangeiro.

- Você está invadindo espaço restrito. Identifique-se.

Yang olha ao redor e vê apenas pequenos asteroides à distância. Ele tenta contato com Li Fen, mas não há resposta.

- Olá. Eu sou o Tenente Yang Haisheng. Sou piloto da Força Aérea da República Popular da China.

O outro lado se silencia por um momento.

- O que está fazendo aqui, tenente?

Desconfiado, Yang hesita em responder, mas ele sabe que não tem outra opção.

- Eu estava em Marte. A capital Zhurong foi atacada e invadida por uma frota alienígena e, na fuga, eu acabei me perdendo no espaço. E foi assim que eu vim parar aqui.

O patrulheiro se silencia por um minuto.

- Vamos ter que pedir que nos acompanhe.

Ainda desconfiado, Yang pergunta:

- Para quê?

- Apenas nos acompanhe, por favor.

Yang tenta dar ignição nos motores, mas eles falham.

- Minha nave não está funcionando.

- Nós já sabemos.

Então ele percebe. Ele estava sendo observado o tempo todo. Naves rebocadores aparecem e conectam cabos na fuselagem do Wénzi. Yang se impressiona. Atrás dele havia uma unidade inteira de combate. Em um eventual ataque, ele não teria chance.

Os conectores se magnetizam e ele é puxado pelo espaço. Toda a unidade o acompanha ao seu redor, em uma formação de defesa hostil tanto a um inimigo quanto ao próprio Wénzi.

A escolta avança pelo espaço e Yang é levado involuntariamente no meio deles. Adiante ele vê centenas de milhares de rochas flutuando pelo espaço e então ele reconhece: ele estava no Cinturão de Asteroides.

Na academia de pilotos Yang se lembra de ter estudado sobre o cinturão. Era uma região do Sistema Solar entre as órbitas dos planetas Marte e Júpiter. Lá continham vários asteroides de tamanhos irregulares que, apesar do tamanho, eram menores do que os planetas do sistema. Em média, os asteroides estavam um milhão de quilômetros um do outro e cerca de 60% da massa do cinturão se situava ao redor de quatro asteroides maiores: Ceres, Vesta, Pallas e Hygiea. Apesar de sua extensão, estimava-se que a massa do cinturão era de apenas 3% a da Lua.

Uma voz surge no comunicador.

- Piloto Haisheng. Aqui é o Almirante Jones. Espero que os meus homens tenham te tratado bem.

A outra voz também tinha sotaque estrangeiro.

- Almirante Jones? – pergunta ele – Eu sou seu prisioneiro?

A voz hesita antes de responder.

- Não. Mas antes de te libertar, temos que fazer algumas perguntas.

- Mas que perguntas? Eu estou à deriva aqui! Eu já respondi tudo o que sei!

O almirante parece sorrir. 

- Acalme-se, tenente. Você está em uma zona restrita. Queremos saber como a descobriu e, principalmente, quem te enviou.

- Zona restrita? Do que está falando? O Sistema Solar é administrado diretamente pela República Popular da China! Administrações estrangeiras são exercidas sob a permissão direta de Pequim, e apenas para pesquisa.

Yang não conhece muito os detalhes políticos, mas sabe que as fronteiras do domínio chinês se estendem por todo o Sistema Solar.

A voz responde em tom obscuro:

- Aqui nós não respondemos a Pequim.

A escolta continua levando-o pelo cinturão de asteroides. Ele tenta arduamente ligar o comunicador, mas não havia o menor sinal. Seus misteriosos captores hackearam o equipamento e os desligaram. Contatar Li Fen e o Alto Comando era inútil.

Yang vê aqueles asteroides no espaço. Eles eram compostos de minerais e flutuavam no vácuo. O piloto pensa como aquele emaranhado de rochas era o remanescente de um planeta não formado. De maneira interessante, ele pensa como era necessário uma quantidade imensa de matéria para um planeta se forma, criando sua própria gravidade e vencendo a deriva cósmica do espaço.

Mais naves aparecem e voam ao redor. Naquela região desolada, Yang percebe que não estava sozinho. Algumas tinham canhões e Yang reconhece naves militares. Ele se preocupa, pois teme sofrer um ataque em uma emboscada.

Para sua surpresa, as naves também vão embora e então ele percebe. Tanto a escolta quanto os viajantes habitavam aquela parte do cinturão; todos pertenciam ao mesmo grupo.

O tráfego espacial fica mais intenso. Algumas rochas flutuam de maneira incomum e Yang se intriga. Ao ver melhor, ele percebe que não eram rochas e sim satélites artificiais, ou como o Guoanbi os chamava, satélites espiões. Não importa onde eventuais invasores estivessem, eles seriam detectados por eles.

- Vocês são paramilitares...!

- Paramilitares talvez, mas sobretudo, civis. – corrige a voz.

Yang se distrai com a estranha paisagem; ele deveria estar próximo de um posto espacial muito movimentado, apesar de que ali não deveria haver nenhum. Então a voz comenta:

- É notável como a mitologia grega influenciou o Ocidente. Áreas do conhecimento como a filosofia e a matemática, a física e a biologia, têm origem no vocabulário grego. Também é o caso do relacionamento dos humanos consigo mesmo e com a sociedade, como a ética, a política e a democracia. Os termos técnicos e científicos que deram nome a diferentes teorias filosóficas, muitas derivadas dos mitológicos contos gregos... Herança esta que permaneceu no pensamento ocidental nos influenciando por mais de 3500 anos.

“Nós...?”, pergunta-se Yang.

- E então surgiram os romanos. O império romano dominou por séculos a Grécia, política e militarmente, mas se adaptou aos modelos gregos culturalmente. Nem mesmo a queda do império romano no séc. V, e a ascensão do cristianismo na Idade Média, foram o suficiente para derrubar a influência dos gregos. No séc. XV, a mitologia grega ganhou novamente força com o surgimento do Renascentismo.

O piloto, sendo um natural do oriente, não estava entendendo muito do que o almirante estava falando.

- As obras de Homero, conhecidas como a "Ilíada" e a "Odisseia", e a de Hesíodo, "Teogonia", serviram de fonte para a origem do imaginário ocidental. Essas três obras podem ser consideradas as fontes básicas para o conhecimento da mitologia grega. A "Teogonia" narra a origem dos deuses. A "Ilíada" e a "Odisseia" tratam de aventuras de heróis, respectivamente Aquiles e Odisseu, acompanhadas da participação dos deuses em ambas as narrativas. E entre os famosos mitos narrados pelos antigos gregos, o meu preferido é o de Belerofonte.

Neste momento a voz assume um novo tom.

- Filho do deus Poseidon, Belerofonte foi enviado por Lobates, rei de Lídia, para matar Quimera, um terrível monstro que soltava fogo pela boca e pelo nariz. Em Corinto, o vidente Polyeidos lhe revela que ele precisaria do auxílio do mítico cavalo Pégaso para derrotar o monstro. Enquanto dormia no templo de Atena, a deusa lhe aparece em sonho e lhe entrega a rédea de ouro, necessária para domar o animal. Então, montado sobre o Pégaso, Belerofonte parte em busca de Quimera para confronta-lo.

O piloto não conhecia aquele mito e não entende por que o almirante estava lhe contando aquilo.

- Quimera era uma grande besta que possuía cabeça de leão e corpo de cabra. Em sua cauda havia uma cabeça de dragão. Com sua lança, Belerofonte mata o terrível monstro e, assim, se torna vitorioso.

O tráfego espacial se intensifica ao seu redor.

- Orgulhoso deste e de outros feitos, Belerofonte decide voar até o Monte Olimpo montado em seu cavalo Pégaso. Zeus, ofendido por sua ousadia, envia um vespa para picar o cavalo, causando a queda de Belerofonte dos céus.

Yang pode ver que um enorme asteroide se aproxima.

- O fim de Belerofonte é controverso. Algumas narrativas dizem que, após a queda, ele morreu. Outros dizem que ele caiu sobre espinhos e se tornou cego. Por último, conta-se que ele se tornou um mendigo aleijado, procurando pelo Pégaso pelo resto de sua vida.

Luzes parecem indicar o caminho, como uma via espacial.

- Este mito me fascina porque os Estados Unidos, assim como Belerofonte, realizou grandes feitos enquanto existiram. Ambos ascenderam ao topo e, movidos pela arrogância, tentaram se tornar “deuses” do mundo. E ambos caíram. – lamenta-se ele.

O piloto nota que o asteroide era incomum, pois tinha um longo formato cilíndrico e as espaçonaves sumiam em sua superfície.

- Mas as vida não é um mito, tenente. E eu tenho a esperança de que os Estados Unidos recuperarão seu glorioso Pégaso e derrotarão esse terrível Quimera que hoje governa a Terra.

O asteroide se aproxima perigosamente. Mais um pouco e ele e toda a escolta se espatifarão contra a superfície. Mas então toda superfície desaparece e, de repente, Yang se vê no meio de uma colossal estação espacial no meio do Cinturão de Asteroides.    

Yang vê milhares de letreiros de neon espalhados por vias espaciais dentro da estação. Ele vê nomes de fast-foods famosos, estúdios de cinema, filmes, propagandas de produtos, e várias outras coisas sendo transmitidas em enormes telões.  

Espaçonaves arrojadas aparecem ao seu lado, tão belas que mais se pareciam carros esportivos do século 21. O piloto se impressiona. 

Em seguida passam espaçonaves policiais, com suas giratórias luzes coloridas. Linhas de metrô interligam um setor ao outro da estação, com seus vagões cheios de passageiros. Espaçonaves amarelas voam de um lado ao outro; Yang reconhece táxis. Milhares de pessoas passeavam nas vias públicas, fazendo compras, tirando fotos e se divertindo. Os setores tinham nomes de famosas cidades americanas, como Nova Iorque, Los Angeles, São Francisco e Houston.  

A estação pulsava com vida e energia. O ambiente alegre e colorido era contagiante. Yang não pode fazer nada a não ser se deixar envolver por aquela animação.

Extasiado, Yang percebe. O sonho americano não havia morrido.

A escolta atravessa uma barreira de Kinect e aporta em uma doca de pouso. A cabine do Wénzi se abre sozinha e militares armados levam Yang pelo hangar. Ao longe ele vê cinco homens; um era o oficial da estação e os outros quatro eram seus seguranças. O piloto se aproxima e vê um homem alto e negro aguardando-o; ele vestia uma requintada farda branca.  

Ao se aproximar, o oficial lhe estende a mão e diz:

- Olá, Tenente. Bem-vindo a Belerofonte.

 

 

segunda-feira, 7 de abril de 2025

Shenzhou Wénzi - 14 - Cruzadores Sobre Zhurong

 


(Artista desconhecido)


Três horas se passam. Os engenheiros instalam o avançado propulsor no chassi do Wénzi e os programadores o conectam ao Navcom. Então, um minuto depois, os alarmes começam a soar.

Compartimentos secretos se abrem nas paredes e os colonos pegam poderosos rifles lasers. Todos, tanto homens como mulheres, portam os rifles e os recarregam com notável agilidade. Eles formam um perímetro e montam uma posição defensiva. Nesse momento Yang percebe. Todos ali tinham treinamento militar, semelhante ao Exército de Defesa de Israel.

- O que está acontecendo?! – pergunta Elisheva.

Os seguranças falam algo em hebraico e a conduzem para a sala de comunicações. Yang os segue logo atrás.   

Nos monitores, eles veem as imagens de segurança de Zhurong. Aeronaves de aparência alienígena sobrevoavam os prédios. Vias públicas eram destruídas e o ar tóxico invadia os espaços internos, sufocando os habitantes. Poderosos raios lasers desciam do céu e arrasavam prédios inteiros. As câmeras miram suas lentes para cima e eles conseguem ver. Em meio às nuvens, espaçonaves massivas desciam do céu, negras e imponentes como os executores do Juízo Final.  

Haviam cruzadores sobre Zhurong.

A metrópole estava sendo invadida. Os canhões antiaéreos que outrora atacaram Yang agora defendiam a cidade. Surpreendentemente, os fragmentos dos projéteis tem certa eficiência contra os enxames, mas apenas conseguem atrasar o inevitável.

Um segurança fala algo para Elisheva. Ela concorda e, dirigindo-se a Yang, ela diz:

- Piloto Haisheng, detectamos espaçonaves inimigas aproximando-se de nosso kibutz. Entraremos em estado de lockdown. Ninguém entra e ninguém sai até o fim da invasão.

- Não! – protesta ele – Eu tenho que voltar e defender Zhurong!

Os engenheiros falam algo para Elisheva e ela responde:

- Yang, o propulsor não foi totalmente instalado. Ainda falta programar o PLH ao firmware[1].  

- Ele pode voar?

A diretora pergunta aos engenheiros. Ao ouvi-los, ela responde:

- Sim, mas...

- Isso é tudo o que eu quero saber.

Virando-se, ele veste seus trajes e põe seu capacete. Impaciente, ele não tinha tempo a perder.

As portas do hangar se abrem e ele se prepara. Acenando, o Wénzi pega voo e ele deixa Nova Degania.

 

§

 

No céu marciano, Yang checa o arsenal de sua nave. Estava tudo recarregado e pronto para atirar. Checando os níveis de escudo, as barreiras Kinect foram carregadas 100%. O Wénzi estava plenamente operacional.

Mas faltava um último teste; a manobrabilidade.

O novo propulsor deixou a nave incrivelmente leve. Yang vira os manches e o Wénzi se vira instantaneamente, como um balão de gás hélio nas mãos de uma criança. 

Algo o incomoda. No para-brisa ele vê frases escritas em hebraico. Era a tela de navegação do propulsor. Por falta de tempo, os engenheiros o haviam deixado em sua própria língua.

A metrópole se aproxima. Neste momento Yang pode ver. Haviam cruzadores sobre Zhurong.

Os prédios eram devastados e destruídos. Poeira e fumaça se elevavam no céu marciano, mas, diferente da Terra, naquele planeta elas se dissipavam mais lentamente.

Uma explosão é sentida. O piloto é sacudido dentro da cabine.

- Escudos a 91%. – informa Navcom.

Olhando ao redor, Yang se assusta.

- Zhè shì bĭshŏu ma?[2]

 Ele é atacado por uma espaçonave diferente. O inimigo lança uma aeronave nova, rápida e pontiaguda como uma adaga.

Como os enxames, as adagas voam em bando, mas são tão velozes quanto os caças da Terra. As adagas sobrevoam os prédios e lançam bombas, destruindo-os. Os canhões antiaéreos conseguiam abater alguns enxames, mas eram lentas demais para causar danos no novo inimigo.

Por não contar com as forças do Exército e Aeronáutica, a cidade era facilmente subjugada. As bombas explodiam tudo ao redor, destruindo vias de transporte e abastecimento. No planeta vermelho, o ar atmosférico sufocava até a morte os habitantes, forçando-os a permanecer na cidade e procurar abrigo.

O piloto vê os cidadãos lutando para sobreviver. Lá embaixo, eles se tumultuavam e se pisoteavam para entrar nos abrigos. Os prédios e vias públicas perdiam o fornecimento de oxigênio, impedindo a permanência.  Alguns entravam em rovers e fugiam pelo deserto, apenas para sofrerem uma morte agoniante de inanição.

Aquela cena catastrófica lhe lembrava Tiangong mas, diferente da inospitalidade do espaço, ali os humanos enfrentavam a atmosfera marciana.

Irritado, Yang manobra o Wénzi e se dirige à cidade. Ele arremete contra os enxames e destrói alguns. Em alvos próximos, ele utiliza a metralhadora Vulcan. Em alvos dispersos, ele utiliza o canhão Estrela da Manhã. Ágil e leve como estava, ele sentia que não voava, mas sim flutuava. O novo propulsor lhe estava sendo formidável.

Um enxame se concentrava sobre um prédio, lançando bombas enquanto o rodeavam como abelhas. Yang seleciona o míssil Macro e então atira. Dois mísseis são disparados e atingem o terraço, causando uma explosão mínima que então se multiplica, aumentando de tamanho e engolindo aqueles enxames. A onda de fogo os despedaçam e eles logo caem no árido solo marciano.

De repente o poderoso raio laser desce do céu. Os cruzadores também atacavam. Yang se esquiva, mas assiste o impotente raio fulminar a cidade. Por sua proximidade, seu elevadíssimo calor era capaz de danificar o Wénzi.

- Escudos a 84%.

Mas Yang também tinha um laser.

Subindo, ele enxerga o seu alvo, um cruzador alienígena. Da parte inferior, o cruzador disparava o laser. Yang já havia visto aquilo antes, na terrível invasão de Shangai. Então ele seleciona o mini canhão Yu Huang e atira.

O laser amarelo avança e atinge a parte inferior do cruzador. O calor derrete a fuselagem e a atravessa, danificando o equipamento e provocando uma série de explosões. Imediatamente o ataque de laser daquele cruzador sai de operação.

Outro impacto é sentido em sua nave. Navcom informa:

- Escudos a 77%.

A nova ameaça o atacava. Aquelas naves em forma de adaga o perseguiam.

Yang estava furioso. Com um arsenal destrutivo e um propulsor formidável, ele se prepara para o combate.

Então a voz surge em seu comunicador.

“Piloto Haisheng, aqui é Li Fen. Fuja imediatamente de Zhurong”.

O piloto não compreende.

- O quê?!

“Eu repito. Fuja de Zhurong agora”.

Yang não consegue entender. Se ele ficasse, o Alto Comando podia enviar suporte e a invasão seria contida.

- Mas por quê? – pergunta ele.

“Os antiaéreos e a frota de Yaping ficarão para defendê-la, mas não por muito tempo. A cidade será tomada. Esta é uma batalha perdida”.

Ele se espanta com a frieza de sua assistente.

Mas logo ele entende o que ela quis dizer.

Zunidos agudos são ouvidos. Olhando para o céu, ele se petrifica. Uma frota inteira de cruzadores desciam pelas nuvens alaranjadas de Marte. Yang enxerga em torno de cinquenta. Nem em Shangai ele viu um número tão alto assim.

Os enxames destruíam a cidade lá embaixo. O piloto sabe que os canhões antiaéreos e a frota de Yaping não serão páreos para o inimigo. Zhurong seria entrega à própria sorte.

Ondas de enxames e raios lasers fulminam a cidade. Com as naves do tipo adaga em seu encalço, ele seria destruído. Tomando uma difícil decisão, ele decide fugir.

As adagas atiravam contra ele, drenando seu escudo. Yang sobrevoa os prédios em chamas e se desvia habilmente. Marte não era mais segura; além da metrópole, restava apenas a colônia de Israel e o infindável deserto pelo planeta. Puxando seus manches, ele intenta subir.

Outra complicação aparece. Os céus estavam tomados pelos cruzadores. Haviam muitos entre as nuvens e ele não conseguiria alcançar o espaço por Zhurong. Estando na região metropolitana, Yang precisava se afastar.

Virando os manches, ele acelera e avança pelo deserto. Com pesar, ele assiste a metrópole ser subjugada pelo inimigo, como aconteceu em Tiangong.

Mas ele ainda não estava a salvo. As adagas o perseguiam.

Sob fogo inimigo, Yang avança pelo deserto. Tentando evadir, o piloto faz um rasante e voa perto do solo, levantando uma poeira fina e formando uma nuvem tóxica. Alguns tiros o atingem e a fuselagem se estremece; ele precisava se apressar.

De repente o deserto cessa e uma fantástica paisagem se revela. Yang chega a uma gigantesca fenda em Marte.

O piloto estava sobre o famoso Valles Marineris, um gigantesco vale onde águas supostamente fluíram bilhões de anos atrás. Esta vasta rede de cânions se esticava por 3 mil quilômetros, e tinha uma profundidade média de 8 quilômetros. Nem em Nova Degania ele viu uma cânion tão vasto assim. Yang se sente voando sobre a face do abismo.

Descendo pelo penhasco, Yang voa entre os paredões rochosos. Apesar da alta velocidade, sua aeronave não conseguia evadir das adagas; elas o perseguiam em velocidade igual.

O tiroteio começa. Yang é frequentemente atingido pelos projéteis inimigos. O piloto se intriga. Desta vez o inimigo não atacava com suas lentas bombas de energia; agora eles atiravam com armas semelhantes à metralhadora Vulcan.

Os escudos se drenam rápido. O tiro causa pouco dano e é repelido facilmente, mas são muitos. As adagas se emparelham ao lado do Wénzi e o atacam incessantemente. Por sua posição, o piloto não pode contra-atacar. Os mísseis teleguiados não tinham espaço. O canhão Yu Huang e os Mísseis Macro só atiravam para frente. A metralhadora Vulcan não era articulada para atirar para os lados. Bombas seriam inúteis. O canhão Estrela da Manhã também. Com os escudos se drenando rápido, Yang precisava agir.

- Escudos a 39%.  

O piloto tenta se esquivar com manobras evasivas, mas no gigantesco cânion, a agilidade do Wénzi era ineficaz. Yang desce e arremete, mas as adagas o perseguiam sem dificuldade. Freando a nave, o piloto consegue abater algumas com mísseis teleguiados, mas elas logo se emparelhavam de novo, mantendo-se ao seu lado. Naquele ritmo, o Wénzi seria abatido no ar.

- Escudos a 25%. Estamos entrando em estado crítico, senhor.

De repente uma adaga se colide contra o Wénzi. Yang se assusta. Elas estavam tentando derruba-lo a força.

Alarmes soam dentro da cabine. Uma luz vermelha piscante o ofusca. Os escudos do Wénzi se esgotavam e o piloto não conseguia fazer nada.

Olhando ao redor, ele vê apenas os paredões do gigantesco cânion. Eles estavam tão distantes um do outro que mal se podia vê-los. Abaixo havia apenas a escuridão. Não havia onde se esconder.

Então ele se lembra do Propulsor Luciferino Hyperdrive.

Ativando o propulsor, ele intenta utiliza-lo no máximo para fugir dali. Faíscas se soltam do teto e a luz vermelha lhe dá enjoo. O som do alarme lhe dava dor de cabeça. Ligando o propulsor, letras aparecem no para-brisa e, sem tempo para ler, ele simplesmente aperta os botões.

Um som é ouvido. Ele pensa ouvir o ruído de um reator nuclear. De repente a nave abruptamente se acelera e pega velocidade muito rápido. No momento Yang se sente sentado nas turbinas de um avião a jato.

A nave se acelera em uma rapidez inimaginável. Apesar da largura do cânion, ele teme se colidir contra os altos paredões. Agarrando os manches, ele os ergue e intenta alcançar o céu. Com muito esforço ele sobe e, para sua surpresa, o céu foi alcançado rápido demais. Surpreso como estava, Yang não teve tempo de perceber que as adagas ficaram há muito tempo para trás. Yang agora lutava para não perder o controle do Shenzhou Wénzi.

A velocidade aumentava e aumentava, e aumentava. A pressão era tamanha que logo ele iria desmaiar. Tentando alcançar o painel, ele intenta desligar o propulsor. Mas então ele se lembra de algo. No para-brisa as letras estavam em hebraico; os engenheiros de Nova Degania não tiveram tempo de reprogramar e traduzir o equipamento.

A nave atravessa as nuvens alaranjadas e se exfiltra da atmosfera marciana. A fuselagem treme. Superaquecendo-se, Yang teme ser queimado vivo. A escuridão da espaço já pode ser vista, mas a velocidade não parava de aumentar.

O Wénzi avança à deriva pelo espaço exterior. A tontura o afeta, seu corpo perde o vigor e seu sangue não consegue mais irrigar seu cérebro. Enquanto a nave avança rápida como uma estrela cadente, Yang solta os manches e se desfalece.

Ele havia perdido a consciência.

 

 

 



[1] Firmware é um programa que controla o funcionamento dos dispositivos eletrônicos, como um software incorporado ao hardware. Mas, diferente do software que pode ser modificado e atualizado frequentemente, o firmware é um conjunto de instruções programadas e gravadas permanentemente no hardware.  

[2] “Isso é uma adaga?” em chinês

sábado, 1 de fevereiro de 2025

Shenzhou Wénzi - 13 - Kibutz Nova Degania

 


(Arte de Antarik Fox)


Avançando sobre Zhurong, Yang deixa a metrópole para trás. Ele avança alguns quilômetros pelo rochoso deserto e, nos arredores da cidade, ele chega à colônia israelense de Marte.

A colônia era vasta, plana e majoritariamente agrícola. Ela se encontrava ao lado de uma fenda geológica, muito comum naquele planeta.

Yang se impressiona. Na colônia, a agricultura era mantida em estufas, fechadas por domos de vidro que captavam a luz solar, responsável pela fotossíntese. Ele vê cerca de 30 estufas pela colônia. Para a produção de energia, haviam milhares de painéis solares sobre o solo e os módulos habitacionais. Ali também haviam usinas eólicas, com suas enormes hélices captando os fortes ventos marcianos. Aparentemente os israelenses se preocupavam com a eficiência energética.

Tubulações conectavam toda a colônia. Em diferentes cores, o piloto reconhece água, óleo e combustíveis. Pequenas estações de tratamento e refinarias abasteciam o local, conectando os módulos nas vias dutoviárias. 

Bandeiras de Israel flamulavam por toda a colônia. Assim Yang pode notar o patriotismo e pioneirismo nos colonos de Israel.

O piloto vê o espaço-porto ao lado dos hangares. Navcom solicita pouso; um minuto depois ele recebe a permissão da torre de controle. O Wénzi aciona o seu trem de pouso e suavemente aterrissa na pista. Checando os níveis de oxigênio de seu traje, Yang veste seu capacete e aperta o botão de saída. A cabine se abre; o vento sopra e seu corpo se esfria. A gravidade era suave e ele se sente leve ao se levantar. Então, pela primeira vez na vida, o piloto pisa em solo marciano. De pernas trêmulas, seu coração se emociona.

Técnicos o recebem e ele é levado para dentro da colônia. As portas se fecham e eles passam pelo rápido processo de esterilização.

No lado de dentro, Yang nota como a colônia era altamente tecnológica, muito mais até do que Tiangong. Ali era tudo automatizado e muito limpo. Haviam computadores e pads[1]digitais para todos os colonos. Todos trabalhavam mutuamente, cooperando entre si pelo funcionamento da colônia. Técnicos fazem a manutenção do sistema de distribuição de oxigênio. Outros trabalham na purificação da água. Em todos parecia haver um forte senso de comunidade.

Yang nota que, não importava a função, todos eram instruídos e tinham acesso à automatização da colônia. Câmeras de segurança, bancos de dados, internet, e comandos prediais básicos, tudo lhes era acessível.

O piloto é levado pelo local. Nas paredes, ele vê os nomes das seções na parede; elas estavam escritas em hebraico, inglês e chinês mandarim. Yang falava um pouco de inglês, mas não sabia nada de hebraico.

Os técnicos o levam para uma seção com reservatórios e tubos de bombeamento. Na parede ele lê “Estação de Tratamento de Água”. Uma mulher de longos cabelos castanhos e jaleco branco trabalha em frente a um painel. Os técnicos a chamam e lhe informam algo em hebraico. Então ela olha para o piloto e diz:

- Shalom[2], piloto Haisheng. Eu sou Elisheva, diretora do kibutz Nova Degania. Como vai?

Sorridente, ela lhe estende a mão. A diretora lhe falava em um chinês impecável. Um pouco confuso, ele lhe estende também.

- Boa tarde, diretora Elisheva. Eu estou bem, obrigado.

- O que te traz ao nosso humilde kibutz?

Ele se confunde.

- Kibutz...?

- Kibutz é uma palavra em hebraico que significa agrupamento, ou mesmo colmeia. O kibutz é uma comunidade israelense baseada tradicionalmente na agricultura, mas que foi substituída por outros ramos econômicos com o tempo. A comunidade é baseada na coesão social e no trabalho em equipe, onde nós combinamos os ideais utópicos do socialismo e do sionismo.

Yang se intriga. Ele sabe o que é socialismo, mas nunca ouviu falar do sionismo.

- O que é sionismo?

- Sionismo é um movimento étnico e nacionalista que visava a colonização da Palestina e o estabelecimento do Estado de Israel. Ele surgiu no final do século 19 como uma resposta ao crescente antissemitismo, sobretudo no continente europeu.

O piloto assente.  

- E então? O que deseja, piloto Haisheng?

- Eu... – nesse momento, os colonos de Nova Degania olham desconfiados para ele – A Terra está sob ataque, como já devem saber. Venho em nome do governo global da China requisitar o novo armamento sendo desenvolvido aqui, na colônia israelense.

Os colonos se entreolham.

- Novo armamento? – intriga-se ela – O que te faz pensar que desenvolvemos armas aqui?

- Eu não sei. O Alto Comando chinês me enviou.

Elisheva sorri.

- O Alto Comando? – pergunta ela – Esta é uma colônia pacífica voltada ao desenvolvimento agrário e à extração de minerais. Estamos terraformando este planeta. Não temos objetivos militares aqui.

Yang não sabe o que responder.

- Esta é a minha missão. Isso é tudo o que eu posso dizer.

- Pois então eu vejo que o Guoanbi está informando muito mal os seus superiores. – comenta ela – Venha. Como sinal de boa amizade, vou lhe mostrar o que procura.

Acenando aos técnicos, a diretora permite a passagem do piloto. Então ela o conduz pela colônia.

Passando pelas estufas, Yang vê plantações de trigo, milho e uva. Ele se impressiona. Os israelenses conseguiram fertilizar o solo marciano e o irrigam com água reciclada. Apesar da atmosfera opressiva, nas estufas ele vê fartura.

- É fascinante, não? – pergunta Elisheva – Os colonos do primeiro kibutz também se assentaram em um local árido e desértico, e lá eles fundaram o Degania, à beira do deserto do Neguebe. Marte se tornou o nosso novo Neguebe, e hoje nós construímos o primeiro kibutz interplanetário, este para ser uma referência à colonização de outros planetas.

Mais adiante, Yang também vê instalações especiais para a geração de energia e para a comunicação com o espaço exterior. Tudo era muito automatizado e tecnológico; eles também tinham robôs para fazer os serviços básicos pela colônia.

A diretora comenta:

- Silicon Wadi, ou Vale do Silício em árabe, é uma região que abriga o centro de tecnologia avançada em Israel. Seu nome é uma alusão ao Silicon Valley dos Estados Unidos, o primeiro centro de alta tecnologia do mundo. Tel Aviv tem a maior concentração de indústrias assim em nosso país, incluindo outras cidades da região costeira. Devido a isso, Israel ficou conhecido como o país dos “start-ups”, um termo em inglês que significa uma empresa em fase inicial, com um modelo de negócio inovador e de alto impacto na sociedade. Como pode ver, nós trouxemos essa alta tecnologia para Marte, e aqui ela nos ajuda a realizar o grandioso sonho de dar um novo lar para o nosso povo.

Elisheva falava com um pouco de lamentação. Percebendo o seu pesar, Yang pergunta:

- Por que um novo lar? Vocês estão tendo problemas em seu país?  

Então todos olham incomodados para ele. Yang percebe que tocou em um assunto sensível.

- Creio que não tenha visto notícias do mundo antes da invasão alienígena, não é mesmo? As relações políticas entre a China e Israel estão delicadas ultimamente. Israel reconheceu a existência da República Popular da China em 1950, mas as relações diplomáticas só foram estabelecidas em 1992. Desde então, ambos os países desenvolveram laços econômicos, militares e tecnológicos um com o outro. Não coincidentemente, a China se tornou o terceiro parceiro comercial de Israel, atrás dos Estados Unidos e da União Europeia. Entretanto, a China também foi amigável aos inimigos do meu país, apoiando sua insurgência e luta armada. – revela ela – Após a derrota dos Estados Unidos no século 21, Israel foi novamente atacado por todos os lados. Houveram invasões por terra, pela água e pelo ar... Prestes a sermos vencidos, beiramos a destruição. Nessa nova Intifada[3], centenas de milhares morreram, alguns de maneira bárbara nas mãos de terroristas cruéis. Nosso povo foi entregue à própria sorte. E o que o novo governo mundial estabelecido pela China fez a respeito? Nada.

Yang faz um olhar pesaroso. Assim como a maioria dos chineses, ele não sabia nada a respeito.

- Talvez o novo governo chinês estivesse ocupado em se consolidar no momento.

A diretora faz um sorriso amargo.

- Talvez.

Eles chegam na extremidade da colônia. Diante deles, Yang vê uma enorme janela panorâmica. No exterior havia a colossal fenda geológica marciana. A fenda era tão profunda que o piloto pensa ver a um segundo Grand Canyon, desta vez fora da Terra.       

Elisheva comenta:

- Imigrantes israelenses trabalham lá embaixo dia e noite. São judeus de todo o mundo, asquenazes, sefarditas, mizrahim... De toda origem étnica existente. Aqui no kibutz de Nova Degania o ideal de igualdade é pregado e não existe distinção.

O piloto vê gigantescos tratores e carregadeiras lá embaixo. Mas o que mais o impressiona são as famosas escavadeiras Bucyrus e Bagger escavando o penhasco.

Curioso, ele pergunta:

- Que tipo de minerais eles estão extraindo?    

- Basalto, ferro e hematita, respectivamente.

Yang se distrai olhando as máquinas trabalhando. As escavadeiras extraem os minérios, as carregadeiras os transportam pela fenda e depois os colocam em esteiras. Em seguida as esteiras os conduzem para instalações onde eles serão separados por categoria.

Pelo ar, o piloto vê plataformas transportadoras. Como drones gigantes, elas sobem e descem da fenda, transportando equipamentos e trabalhadores. Yang reconhece que os israelenses construíram uma excelente estrutura para a mineração em Marte.

De repente Elisheva comenta:

- No passado, eu fui uma arqueóloga em Israel. Sei que isso pode parecer estranho, uma arqueóloga na direção de uma colônia interplanetária, mas foi o que eu fiz. Eu estudava sites arqueológicos bíblicos do Jordão ao Neguebe; minha paixão era comprovar com fatos a veracidade das Escrituras. – explica ela – E então surgiu a oportunidade de eu trabalhar em Marte. Eu abandonei minha paixão e minha profissão para estar aqui. Entendi que, se Israel tivesse que sobreviver, eu teria que abandonar seu passado e construir seu futuro.

Elisheva falava com convicção nas palavras. Yang não sabe nada sobre a Bíblia, a arqueologia ou Israel, mas sabe que eles são um povo resiliente que sobreviveu a inúmeras dificuldades ao longo do tempo.

“Como a China”, pensa ele.

- Diretora Elisheva, eu gostaria de ficar mais, mas eu tenho uma missão a cumprir. Vidas estão sendo perdidas na Terra, e é meu dever impedir que isso aconteça.

A diretora assente.

- É claro. – virando-se, eles se afastam.

Finalmente eles chegam ao laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento de Nova Degania. Yang se vê em um local repleto de robôs, cabos e monitores. Engenheiros trabalhavam em uma nova tecnologia. Sobre os cavaletes, ele vê algo parecido com um reator, mas tinha o formato de um poliedro. Ao ligá-lo, o reator se ilumina por dentro e irradia uma luz azul. Yang se surpreende.

- O que é isso?  

- Esse é o suposto “armamento” que o Guoanbi nos acusou de estar desenvolvendo. – brinca ela – Nós os chamamos de Propulsor Luciferino Hyperdrive[4].

Yang se confunde.

- Eu não entendi.

- É um propulsor. – reitera ela – A luz emitida provém de uma reação química e nuclear, irradiando um azul como as moléculas luciferinas de um vaga-lume. Sua aeronave trabalha com propulsão convencional, combustível sólido na Terra e despressurização a gás no espaço. O PLH é diferente. Ele se utiliza de propulsão autônoma para voos e levitações em curtos espaços, e consegue atingir altíssimas velocidades no modo hyperdrive.           

Ao intensificarem o reator, a luz emitida é tão forte que o azul encobre a todos no laboratório, projetando longas sombras pela parede. E então o reator levita no ar, pairando sobre eles e movendo-se pelo teto. Era como se Yang visse uma bexiga de gás hélio. De tão ágil, nem se parecia com uma pesada estrutura de aço.  

- É impressionante!

- Distâncias interplanetárias longas, que normalmente demorariam semanas para serem percorridas, têm sua duração radicalmente reduzida pelo reator. Com esse propulsor, você poderá viajar rapidamente pelo Sistema Solar.

Yang arregala os olhos. Ele demorou uma semana para vir da Terra até Marte.

- Por favor, diretora Elisheva, eu preciso desse propulsor! Vidas humanas dependem de toda a ajuda que eu puder coletar aqui! – apela ele.

Como antes, Elisheva e os engenheiros lhe fazem um olhar desconfiado. Afastando-se, os colonos sussurram algo nos ouvidos dela. Após alguns minutos, eles parecem deliberar um pouco.

Então a diretora diz:

- Israel e China não tiveram boas relações ultimamente. Na Nova Ordem Mundial chinesa, por pouco Israel deixou de existir. – começa ela, desanimando-o – Mas, apesar dos ressentimentos passados, nós decidimos ajuda-lo.

Sabendo que a ajuda israelense era muito improvável, Yang pergunta:

- Mas por quê?

- Ajudar um necessitado está na Torá. Apesar de Nova Degania ser um colônia secular, é obrigação de todo judeu obedecer à Torá, juntamente com o Tzedaká.

Tzedaká é um mandamento judeu, significando caridade ou justiça social. Para os judeus, é sua obrigação ajudar um judeu necessitado, e também a um “Filho de Noé”, ou seja, todo e qualquer ser humano.                                                            

Em sinal de respeito, Yang aperta a mão de Elisheva e diz:

- Muito obrigado, diretora Elisheva. Em nome do Alto Comando, nós a agradecemos.

A diretora sorri.

- Vejo que sua aeronave, Wénzi, em chinês significa “mosquito”. Com o propulsor hyperdrive em seu chassi, ela se parecerá com um vaga-lume também. – brinca ela.

O piloto sorri. Ele reconhece que Elisheva, além de inteligente, era muito simpática também.

Em seguida os engenheiros trazem o Wénzi para o hangar e começam a instalação do PLH. Enquanto as horas se passam, o piloto se alegra. Ele conseguiu, ele coletou a tecnologia de propulsão na colônia israelense. Embora ainda distante, o plano para a libertação da Terra se aproxima. A missão estava cumprida e ele poderia relaxar um pouco.

Ou pelo menos era isso o que ele achava.

Um minuto depois, os alarmes começam a soar.


 



[1] Termo em inglês, significa bloco de papel.

[2] “Paz” em hebraico.

[3] Termo árabe para rebelião, insurgência ou movimento de resistência, usado para se referir a um levante contra a opressão.

[4] Hypedrive é um termo em inglês comumente utilizado na ficção científica para descrever um sistema de propulsão avançado que permite viagens espaciais em velocidades semelhantes ou até superiores à da luz. Fonte: comandogeek.com.br 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Shenzhou Wénzi - 12 - Marte

 


Marte, 06 de dezembro de 2460 EC,ou 511 após a Revolução Maoísta.

Freando sua espaçonave, Yang finalmente chega a Marte.

À distância, ele vê o famoso planeta vermelho. Orbitando ao seu redor, ele vê as luas de Fobos e Deimos. Elas eram relativamente pequenas e, diferente do formato esférico da Lua da Terra, as luas de Marte eram de formatos irregulares. Cientistas acreditam que, na verdade, elas são asteroides capturadas pelo campo gravitacional marciano.  

Marte, por sua vez, tinha um aspecto fascinante. Yang contempla sua coloração alaranjada e vermelha. Aquilo era devido ao óxido de ferro, ou hematita, predominante em sua superfície. Ao contrário dos gigantes gasosos, era um planeta com superfície terrestre, e o segundo menor do Sistema Solar. Um dia em Marte era semelhante ao da Terra, com 24,6 horas. Entretanto, o ano solar era mais longo, com 687 dias terrestres.

O planeta vermelho tem metade do diâmetro da Terra, é menos denso, tendo cerca de 15% o seu volume e 11% de sua massa. Devido a essa densidade, a aceleração da gravidade é de apenas 38% da que se observa na Terra. 

A superfície lhe parecia homogênea de cima. Yang vê fendas geográficas, estendendo-se ao lado de crateras, desfiladeiros e vales. Características geológicas sugerem que Marte já teve mares e oceanos, mas que desapareceram devido a alguns cataclismos. Água líquida não pode existir naturalmente naquele planeta, pois sua pressão atmosférica é muito baixa, sendo cerca de 100 vezes mais fraca que a da Terra. Todavia, o piloto vê calotas polares de água congelada no planeta. No colégio, Yang ouviu que se a água congelada no polo sul de Marte fosse derretida, a água líquida seria suficiente para cobrir toda sua superfície a uma profundidade de 11 metros.

A voz no comunicador quebra sua distração.

“Piloto Haisheng, está na escuta?”.

- Estou aqui, Li Fen.

“A metrópole marciana não está nos respondendo. Inclusive estamos perdendo contato com todas as colônias chinesas pelo Sistema Solar. Seu estado atual é desconhecido”.

- Você acha que eu encontrarei resistência?

“É provável. A metrópole conta com defesas antiaéreas, no caso de invasão estrangeira. Se eles estiverem sob lockdown[1], os antiaéreos poderão te atacar”.

- Outro antiaéreo...? – lamenta-se ele.

“Prossiga com cuidado. Câmbio e desligo”.

- Entendido. Obrigado, Li Fen.

O Alto Comando lhe dirige as coordenadas; Yang deveria passar pela metrópole marciana de Zhurong.

A metrópole recebeu esse nome em homenagem ao primeiro rover[2] lançado em Marte pela Administração Espacial Nacional da China (CNSA). O lançamento do Zhurong fez parte da missão espacial Tiānwèn-1, significando “Perguntas Celestiais”, dedicada à exploração interplanetária. A missão foi um sucesso, sendo responsável por colocar uma sonda em órbita e um rover em solo marciano.

A missão começou em 23 de julho de 2020, usando um veículo de lançamento de carga pesada Longa Marcha 5. Após uma viagem de sete meses, a espaçonave entrou na órbita de Marte no dia 10 de fevereiro de 2021. A sonda espacial então estudou os locais para aterrissagem, a partir da órbita de reconhecimento. Foram necessários três meses de estudo e, no dia 14 de maio de 2021, a sonda é lançada e pousa suavemente maquele planeta. 

Zhurong é uma referência ao “deus do fogo” no folclore chinês. O termo está associado geralmente ao fogo e à luz, já que Marte é chamado de "o Planeta do Fogo" na China. O nome foi selecionado por uma votação online pública, realizada entre 20 de janeiro de 2021 e 28 de fevereiro de 2021, com Zhurong ocupando o primeiro lugar com 504.466 votos. O nome foi escolhido com o significado de "acender o fogo da exploração interestelar na China, e simbolizar a determinação do povo chinês em explorar as estrelas e descobrir o desconhecido no universo".

 

§

 

Entrando em órbita, o Wénzi desce pela atmosfera marciana. De fato, o planeta era mais avermelhado apenas no lado de fora, pois ao entrar Yang percebe que sua atmosfera era mais clara e com coloração mais suave, lembrando um entardecer na Terra.

Voando pelo céu, Yang percebe como aquele era um planeta rochoso; haviam rochas por toda parte. Mas a predominância era daquela poeira fina e leve, semelhante à farinha de trigo. Ventanias e redemoinhos varriam a superfície, provocando um zunido pacífico e livre da intervenção humana.

Enquanto avança, poeira se ajunta no para-brisa e o vento trepida a fuselagem. O ar atmosférico era tóxico, composto de dióxido de carbono e sem nenhum oxigênio. Era como se o planeta fosse uma câmara de veneno. Sua temperatura era fria, chegando aos 6°C. No inverno era mais baixa ainda, chegando aos -73°C. Como a Terra, Marte tinha estações. 

  Aquele era um planeta morto e esteve assim por milhões de anos. Yang se sente em um planeta sarcófago, onde o sepultado era a própria vida.

- Entrando no espaço aéreo de Zhurong, senhor. – informa Navcom.

A metrópole de Zhurong se aproxima. O piloto se alivia, pois a sufocante sensação de desolação lhe causava angústia.

Os prédios de Zhurong eram circulares e brancos, semelhantes aos antigos módulos interplanetários. Yang nota como havia uma camada fina de poeira sobre eles, como um véu. Os estranhos prédios eram conectados por vias tubulares, projetadas para pedestres e veículos leves. Os prédios se elevavam por, no mínimo, quinze andares e, sobre seus terraços, haviam painéis solares. Alguns prédios eram tão largos que se assemelhavam a domos.

No lado de fora, o piloto vê linhas de trem, que se estendiam por todos os distritos. Alguns distritos estavam próximos e outros distantes, indo para além das montanhas e vales.

A cidade se estendia pelo horizonte, ora nas encostas das montanhas e à beira dos vales. Navcom lhe informa que ela tinha um milhão e meio de habitantes, um número expressivo para uma cidade fora da Terra. Como um todo, era uma metrópole organizada e futurista, mas isolada e solitária no meio daquele planeta morto.

Yang se aproxima da praça principal. Ali ele vê um monumento do rover chinês que deu nome à cidade: Zhurong. O monumento tinha dez vezes seu tamanho original e estava coberto de poeira. Apenas com trajes especiais os habitantes podiam contempla-lo de perto.

- Navcom, estabeleça contato com a administração de Zhurong, por favor.

- Afirmativo, senhor.

Alguns minutos depois, o Navcom responde.

- Transferindo a gravação do governo de Zhurong.

“Aqui é o governador de Zhurong. Por medida de segurança, a cidade se encontra sob lockdown. Soubemos dos ataques na Terra e da invasão de um inimigo desconhecido. A cidade ficará sob a proteção dos sistemas de defesa antiaérea e toda a comunicação com o exterior ficará cortada até o fim das hostilidades na Terra. Câmbio e desligo”.

Então a mensagem começa novamente, repetindo-se sem parar. Aquela era uma mensagem automática, o governo de Zhurong se isolou da Terra, bloqueando seu sinal e preservando a vida de seus habitantes.

De repente um tiro é disparado e um míssil se explode diante do Wénzi. Yang se assusta.  Mais tiros são ouvidos e se estouram muito próximo, liberando fragmentos e uma fumaça preta. Ele reconhece aquele tiro. São canhões Flak[3].

Agora muito mais modernos e avançados do que seus originais alemães, o Flak servia tanto para defesa antiaérea como uma arma antitanque. Ele foi projetado com uma potência capaz de penetrar na blindagem de veículos inimigos.

Yang se esquiva facilmente dos tiros, mas os fragmentos se espirram contra o Wénzi. O sopro era tão forte que provocava estalos na fuselagem; Yang teme ter seu para-brisa rachado.

Manobrando sua nave, ele seleciona seus mísseis teleguiados e se prepara para contra-atacar.

Então a voz no comunicador diz:

“Piloto Haisheng, pare!”.

Ele se intriga.

- Li Fen? O que houve?

“Você não está autorizado a danificar prédios e instalações em Zhurong. Sua missão é alcançar a colônia israelense e coletar o novo armamento”.

Checando o monitor, Yang vê que a colônia se encontrava no outro lado da cidade.

- Então eu devo cruzar 30 km no céu, sob o fogo de artilharia antiaérea, em um planeta inóspito, sem revidar?

“Ordens do Alto Comando”, reitera ela. “O Almirante Yaping recuperou o remanescente da Frota Espacial em Tiangong. Ele cuidará disso”.  

- Eles vão bombardear a cidade?

Li fen não responde.

Enquanto conversam, sua nave treme com o som de explosões no lado de fora.

Então Li fen diz:

“Piloto Haisheng, o Alto Comando emitiu novas ordens. A antena principal das torres de transmissão de Zhurong teve mal funcionamento, provavelmente devido a uma tempestade de areia. O computador da antena está bloqueando o sinal, impedindo a comunicação da cidade com o espaço exterior. Você deve destruí-la”.

Navcom então recebe as novas coordenadas.

“Mas devo alertá-lo que as torres de transmissão contam com expressiva defesa antiaérea. Segurança nacional”.

Yang entende o que ela quer dizer. A China protegia as bases de seu império pelo Sistema Solar.

- Entendido, Li Fen. Câmbio e desligo”. 

Manobrando o Wénzi, Yang parte para seu novo objetivo.

No hostil céu de Marte, o piloto atravessa a cidade. Ele olha para baixo; no terraço dos prédios os canhões atiravam, ameaçando abatê-lo. Yang vê o rastro do míssil subindo até sua posição e então explodindo-se próximo à sua nave, liberando os fragmentos que pouco a pouco a danificavam.

Navcom diz:

- Escudos a 84%.

Dezenas de tiros sobem para abatê-lo. Apesar de não ser difícil evita-los, Yang se preocupa.

Zunidos são ouvidos atrás dele. Olhando para o céu, o piloto vê uma esquadria de espaçonaves se aproximando; elas voavam em uma formação em V. Era a frota de Yaping.

“Piloto Haisheng! Aqui é o capitão da divisão marciana. Somos da Frota Espacial”.

- Como vai, capitão?

“Você deve seguir para o seu novo objetivo. Quanto aos antiaéreos de Zhurong, nós assumimos daqui”.

Assentindo, ele responde:

- Afirmativo, capitão. Câmbio e desligo”.

Detectando o novo inimigo, os canhões se movem e atiram contra eles, aliviando o Wénzi. Assim, o piloto vê sua oportunidade e se afasta dali.

Aproximando-se de seu objetivo, ele vê as torres de transmissão. Aquele era um complexo de torres. O complexo ficava no topo de uma colina e tinha três colossais antenas em forma de prato. Abaixo, pela extensão das torres, ele vê centenas de antenas menores. Luzes vermelhas piscam em suas pontas, dando a impressão de que aquele emaranhando de aço e cabos era um organismo vivo, sobrevivendo ali.

As defesas antiaéreas detectam o Wénzi. Luzes giratórias se acendem e ele ouve alarmes. De repente canhões se desacoplam ao redor da estrutura e apontam para ele. Yang se assusta; haviam mais de cem.

- Eles são muitos...! – impressiona-se ele.

De forma ordenada, os canhões atiram. Enquanto uma linha se recarregava, outra atirava, fazendo turnos. Aqueles mísseis voam em sua direção e se explodem, espirrando os perigosos fragmentos que trituravam sua nave.

O Wénzi se estremece, drenando seus escudos. Navcom o alerta constantemente.

- Escudos a 80%.

- Escudos a 78%

- Escudos a 71%.

Cada explosão soltava uma fumaça preta, encobrindo a visão do piloto. Mesmo os tremores estavam desconcentrando-o.

Yang precisava agir.

Manobrando o Wénzi, ele o afasta da zona de perigo.

- Navcom, selecionar o canhão Estrela da Manhã.

Retornando com cuidado, o piloto olha para o complexo e atira.

O laser teve pouquíssima eficácia. O Estrela da Manhã foi projetado para ser utilizado em ambientes fechados, com paredes sólidas. A céu aberto, o laser avança pelo céu e desaparece. Ao bater no chão arenoso, ele perde potência e é absorvido, não conseguindo se ricochetear.

Ao selecionar a metralhadora Vulcan, ele atira. Os projéteis atingem o alvo, mas causam pouco dano. O corpo metálico dos canhões conseguia defletir os tiros.

Yang tinha a opção das bombas cluster de fósforo branco, mas sobrevoar o complexo de antenas, com os antiaéreos ainda ativos, seria suicídio. Ele pensa em selecionar o mini canhão Yu Huang, mas o poderoso laser só seria eficiente contra a matéria orgânica ou em partes sensíveis da estrutura, como passagens de energia e combustíveis.

Ao redor do complexo, Yang escolhe a opção mais óbvia: os mísseis teleguiados.

Figuras geométricas aparecem no para-brisa. Quando os alvos estão travados, o piloto aperta o gatilho.

Para o seu espanto, os mísseis tem pouca eficiência no ataque. Alguns conseguem destruir seus alvos, mas outros são abatidos no ar, tendo sua trajetória obstruída pelos fragmentos dos antiaéreos.

- Li Fen! Solicitando a nave de reabastecimento!

Alguns segundos depois, sua assistente responde:

“Nave de reabastecimento em cinco minutos. Sugiro elevar sua altitude para sair do alcance dos antiaéreos”.       

Mas Yang era ousado. Ele não ia desperdiçar cinco minutos esperando. Ele ia usar aquele tempo, no máximo de suas habilidades, para cumprir o seu objetivo.

Voltando ao complexo, ele se aproxima perigosamente dos canhões. As explosões trepidam e danificam sua nave, mas ele se esquiva com tremenda habilidade. Ao travarem os alvos, ele rapidamente atira. Os mísseis são disparados e destroem mais alguns canhões, aliviando o espaço aéreo.

Sobrevoando novamente, ele repete o processo. Mais alvos são destruídos.

Yang poderia fazer isso mais vezes, mas a um custo muito alto. Os escudos do Wénzi se drenavam e, com o abate dos seus mísseis no ar, poucos alvos eram destruídos e logo seu estoque se esgotaria.

Um sinal é emitido em seu para-brisa. A nave de reabastecimento chegara.

Acoplando-se ao Wénzi, a nave recarrega seu escudo e troca seu arsenal. Yang troca os mísseis teleguiados pelos poderosos Mísseis Macro.

- Um presente de Yaping. – sussurra ele para si mesmo.

A recarga termina. Antes de ir embora, a nave de reabastecimento emite sua peculiar voz robótica:

- Instalação de armas finalizada. Boa sorte.

Yang conduz o Wénzi de volta ao complexo de antenas. Selecionando os Mísseis Macro, ele mira nas fileiras de antiaéreo e atira.

Os mísseis saem fumegantes pelo céu marciano. Ao atingirem os alvos, Yang se paralisa; ele assiste atônito a assombrosa explosão. A chama multiplicava-se diante de seus olhos, aumentando de tamanho e espalhando-se pelo chão.

Os antiaéreos são destruídos. Os canhões que sobram se retorcem e ficam inoperantes. A munição queima no subterrâneo e explosões são ouvidas, abalando a estrutura das torres. Mas a batalha ainda não estava vencida.

Outros canhões ainda o atacavam. Esquivando-se, Yang atira e se afasta. A explosão provoca uma onda de choque tão grande que se alastra pela metrópole marciana, levantando poeira e fumaça.

Alguns canhões ainda restavam, mas danificados como estavam, ofereciam pouca ameaça ao piloto. Yang os sobrevoa e, selecionando suas bombas cluster, ele aperta o gatilho. As bombas caem sobre o alvo e se estouram, liberando o terrível fósforo branco que corrói o aço.      

O complexo ardia em chamas. O computador bloqueando o sinal agora estava exposto, sem defesas e vulnerável a um ataque. Yang aproveita sua chance.

Não querendo esperar mais, ele decide testar na prática o poder de fogo do mini canhão Yu Huang.

- Imperador de Jade, não me decepcione.

Selecionando-o, ele se posiciona diante das três torres. As luzes das enormes antenas não mais piscavam e os grossos cabos soltavam faíscas; tudo estava arruinado. O abrigo do computador ficava na base da segunda torre. Preparando-se, ele respira fundo e aperta o gatilho.

Algo não sai como o esperado. Ele aperta o gatilho, mas nada acontece. Ao invés, uma barra surge no para-brisa digital, indicando carga. Yang não entende, o mini canhão parece necessitar de um tempo para se carregar.

O piloto pensa haver um mal funcionamento. Enquanto checa os painéis de status da nave, algo acontece. O disparo finalmente se realiza.

O laser avança pelo ar. Menos de um segundo depois, o calor intenso derrete toda a estrutura metálica e tudo se explode, ruindo as torres e derrubando as enormes antenas em forma de pratos.

Yang se espanta. O raio é tão potente que muda de aspecto; a fina espessura inicial torna-se grossa e ilumina tudo com sua cor amarelada. De tão quente, o aço mal teve tempo de derreter; o efeito foi tão imediato que tudo se ruiu sobre si mesmo, como se fosse um golpe de adaga direto ao coração.    

O complexo de antenas estava destruído. Navcom imediatamente começa a captar mensagens de socorro vindas de Zhurong; a metrópole não estava mais isolada em um planeta estranho. Yang a libertou.

Missão cumprida.

 

 



[1] Termo em inglês. Bloqueio imposto pelo Estado ou ação judicial que restringe a circulação de pessoas em áreas e vias públicas, incluindo o fechamento de fronteiras. As atividades liberadas são apenas para serviços essenciais.

[2] Rover é o nome dado a um veículo de exploração espacial que se desloca na superfície de planetas ou outros corpos celestes. Eles são projetados para coletar dados sobre o terreno, como amostras de solo, rochas, poeira e líquidos.

[3] Flak é uma contração alemã com dois significados: Fliegerabwehrkanone ou Flugabwehrkanone, que traduzidos significam Canhão de Defesa Antiaérea.

Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta

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