segunda-feira, 30 de maio de 2022

Liubliana - 13 - A Serpente do Éden

 


(Artista desconhecido)

 

Finalmente é domingo. Valentim acorda cedo e se prepara para ir à missa. Embora ele não aguente mais outra pregação bíblica sem sentido, ele não pode dispensar sua alimentação diária; mesmo Orfeu dependia dela.

Ao chegar na catedral, ele se dirige aos lugares reservados de maneira implícita aos mais pobres, aqueles no fundo do salão. Nos primeiros ele vê os nobres e burgueses, e no meio seus bajuladores de todas as classes.

“Homens sem honra”, pensa ele.

Os burgueses não eram católicos; eles vieram de terras protestantes na Inglaterra. Mas ali eles frequentavam as missas em Liubliana para conquistar a boa acepção do povo e da nobreza carníola.

No altar os auxiliares vestiam suas longas vestes clericais. O diácono Izak estava lá também e, ao encontrar Valentim sentado ali, não consegue disfarçar seu olhar cheio de raiva.

Um coral de jovens inicia o culto. Como a maioria dos frequentadores não sabia ler, eles decoravam os louvores para poderem cantarem junto. Valentim fica em silêncio, mas não pode deixar de apreciar as belas canções.

Enquanto o coral canta, os auxiliares passam as cestas de oferta e de dízimo. Obviamente ele não pode doar nada, mas os trabalhadores ao seu lado doam míseras moedas que, apesar de poucas, farão grande diferença em suas vidas. Pesaroso, ele prefere acreditar que elas fazem um ato genuíno de fé ao invés de julga-las por sua insensatez. 

Após alguns minutos, o padre Frančišek aparece. Ele vestia uma longa veste branca com faixas douradas que iam dos ombros até os pés. A congregação se silencia e ele abre sua Bíblia, iniciando a pregação. Frančišek pregava sobre Adão e Eva e a queda do Homem. Lendo o livro de Gênesis em voz alta, ele recitava os versículos em latim. Valentim não entende por que a Igreja insistia em usar aquele idioma; ninguém nas províncias distantes de Roma o falava. Mas o padre os traduz em seguida.

 - Nos versículos 7 e 8 diz que Deus criou o primeiro homem, Adão, e o colocou no jardim paradisíaco do Éden. O versículo 15 diz que Deus ordenou o homem para guarda-lo e lavra-lo. Como veem, no início o trabalho não era como hoje: fatigante, explorador e abusivo... – neste momento, os burgueses se sentem afrontados – No início o trabalho era uma bênção.

Os membros sorriem, extasiados. Valentim acha aquilo muito difícil de ser verdadeiro. Desde sua infância ele trabalhou e nunca houve um único dia em que ele sentisse prazer em se ferir com as ferramentas ou preferisse estar trabalhando ao invés de brincando. Ele pensa:

“Se a Bíblia diz que o trabalho era uma bênção, deve ser porque Deus nunca trabalhou”.

O padre continua:

- Nos versículos 16 e 17 diz que Deus permitiu ao homem comer dos frutos de todas as árvores, com exceção de uma, a árvore do conhecimento do bem e do mal. Caso o homem comesse de seu fruto ele certamente morreria.

Valentim se confunde.

“Mas o homem não foi posto lá para guardar o jardim? Se a árvore do conhecimento do bem e do mal estava restrita, então quem guardaria a árvore do próprio homem?”.

- No versículo 18, encontramos a única passagem em toda a Criação que Deus diz que algo não era bom. Deus decide dar ao homem uma ajudadora idônea, ou seja, uma mulher. – explica ele – Dos versículos 20 ao 24, a Palavra diz que Deus criou a mulher da costela de Adão, assim estabelecendo a origem do casamento monogâmico. “Deixará o homem o seu pai e sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma só carne”. – recita ele – Como veem, no início o casamento também era uma bênção.

As mulheres sorriem, algumas ao ponto de olharem para seus maridos e culpa-los por sua insatisfação. Mais uma vez Valentim se confunde. Ele pensa:

“Sou casado há mais de vinte anos e posso dizer, com certeza, que o casamento está longe de ser uma bênção. Viver é difícil. Às vezes só o amor não basta. A saúde e principalmente o dinheiro são necessários”, reflete ele. “Se Deus diz que o casamento é uma bênção, dever ser porque Ele nunca foi casado”.

Valentim ri de deboche. Neste momento as pessoas olham para ele, intrigadas. Envergonhado, ele abaixa a sua cabeça.

- No capítulo 3, vemos a tentação da serpente. Ela era o animal mais astuto da Criação e Satanás a usou para se infiltrar o Éden. E assim ele tentou a mulher que, apesar das advertências, foi seduzida a comer do fruto proibido. No versículo 4 podemos ver que Satanás é o pai da mentira, pois pela primeira vez na Bíblia alguém mentiu: “certamente não morrereis”.

“Como a serpente se infiltrou no Éden?”, pergunta-se Valentim. “Deus não é onisciente?”.

- No versículo 6 relata que Eva deu o fruto ao seu marido, que também o comeu. E assim eles se viram nus, perdendo sua inocência e envergonhando-se. No versículo 9 Deus chama a Adão, perguntando onde ele estava, e o homem responde que teve vergonha de encontra-lo pois estava nu.

Novamente Valentim se confunde.

“Por que Deus perguntou onde Adão estava? Ele não é onipresente?”.

- Dos versículos 14 ao 19 Deus impõe seu castigo à raça humana, mas o pior caiu sobre a serpente, que foi condenada a se arrastar sobre seu ventre e a comer do pó da terra. Em tom profético, Deus disse que colocaria inimizade entre a semente da serpente e a semente da mulher. “Esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar”.

“Por que Deus castigou a serpente se foi Satanás o culpado por tudo? Foi neste evento ou anteriormente que Satanás caiu do céu? Se foi antes, então esta é a evidência de que o Homem foi criado no meio de uma guerra espiritual?”, pergunta-se Valentim.

- “Maldita é a terra por causa de ti”, disse Deus a Adão. Por sua desobediência o pecado foi introduzido no mundo e hoje padecemos por seu erro cometido no passado. Mas hoje não precisamos mais lamentar sua queda. No versículo 21, Deus sacrificou um animal para vesti-los, cobrindo suas vergonhas com sua pele. Assim o sangue inocente os lavou de seus pecados. Ora, não foi este um ato precursor do sacrifício salvífico de Jesus Cristo, o santo cordeiro de Deus?

Então a congregação se anima, declarando aleluias. Mas Valentim permanece em silêncio, de braços cruzados enquanto pensa a respeito.

- No versículo 22, Deus disse em lamentação: “eis que o Homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal”. Com a introdução do pecado, o mal maculou o mundo. – explica ele – Deus expulsou Adão e Eva do Éden, como castigo. No versículo 24 Ele colocou um querubim em sua entrada, e uma espada flamejante guardando a árvore da vida. 

“Oh, então depois que o desastre estava feito Deus coloca alguma coisa para guardar o jardim do Homem?”, ironiza ele.

- Mas o paraíso estará novamente acessível à humanidade quando Jesus Cristo voltar ao mundo e leva-los ao Céu, onde viveremos com ele para todo o sempre. Amém!

Todos repetem o amém, batendo palmas e glorificando a Deus.

Encerrada a pregação, o padre e os auxiliares se preparam para realizar a Eucaristia. Valentim não se lembra bem, mas ouviu falar que os católicos acreditavam na transubstanciação da hóstia, uma santificação em que ela se transforma na real carne de Cristo. Como está escrito no Evangelho de Mateus, capítulo 26, versículos 26 ao 28.

O padre Frančišek se aproxima do sacrário e retira duas peças sagradas na liturgia católica, a píxide e o ostensório. A píxide é um cálice dourado onde se colocam as hóstias para serem consagradas no rito. O ostensório é uma peça dourada usada para apresentar as hóstias no altar e transporta-lo em procissões.

Apresentando a hóstia ao ostensório, o padre faz uma extensa e fervorosa oração. A igreja o acompanha, orando ajoelhados nos bancos de madeira. Valentim se ajoelha também, mas assiste em silêncio o procedimento no altar. Finada a consagração, os auxiliares formam filas e chamam os fiéis para participarem da Eucaristia. O padre oferece a primeira hóstia, uma pequeno pão circular branco. O fiel o recebe direto na boca, sem toca-lo. Ao voltarem para os seus bancos, os fiéis parecem engoli-lo sem mastiga-lo. Valentim se intriga.

Um auxiliar o vê de braços cruzados assistindo a tudo. Aproximando-se, ele pergunta:

- Com licença, o senhor não vai participar da Eucaristia?

Olhando para o jovem seminarista ao seu lado, ele responde:  

- Eu não posso. Ainda não recebi o crisma.

Valentim se referia à consagração dada aos fiéis após a conclusão do catecismo. Este sacramento chamava-se Confirmação.

- Ora, mas se sua fé for verdadeira, creio que não haverá problema em aceitar o corpo de Cristo. Afinal, o senhor já participa do catecismo, não é?

Um pouco sem jeito, ele responde:

-  Prefiro termina-lo primeiro.

- Mas pelo visto o senhor não vai.

Neste momento o diácono Izak aparece, olhando irritado para ele. Valentim vira a cabeça sorrindo, desprezando o jovem diácono.

- Deseja alguma coisa, diácono Izak?

- Não, obrigado. Só vim supervisionar a igreja para ver se estava tudo bem.

Claramente ele se referia a Valentim. Rude e questionador, Izak não ia deixa-lo tumultuar a igreja no meio da Eucaristia.  

Os auxiliares se afastam e Valentim fica sozinho, esperando a missa terminar. Minutos depois o padre os abençoa e os fiéis se levantam, indo embora aos poucos.

Valentim se dirige aos fundos para a sala de limpeza. Ele passa pelos fiéis pedindo orações e bênçãos ao padre. Ao pegar o balde e o esfregão, ele espera todos saírem para limpar o piso. Então algo acontece.

Frančišek o aborda e pergunta:

- Senhor Valentim, posso falar com o senhor?

Valentim se irrita.

“O que esse chantagista quer comigo, agora?”, pergunta-se ele.

- Pois não, padre?

Com olhar fixo e vigilante, Frančišek diz:

- Chegou ao meu conhecimento que o senhor provocou um tumulto nas aulas de catecismo. Isso é verdade?

- Não é assim que eu chamaria. – responde ele, impositivo – Eu só fiz alguns questionamentos. Não é para isso que estamos aqui? Para tirarmos as dúvidas quanto a doutrina cristã?

Frančišek balança a cabeça.

- Com blasfêmias, heresias e sacrilégios?

- Ora, não foi isso o que eu disse! – irrita-se ele – Mas se soou assim, o senhor não vai me queimar nas fogueiras da Inquisição, não é mesmo?

Frančišek se mantém sério, não achando a menor graça da piada.

- Senhor Valentim, esta catedral é um lugar santo e não um lugar para a disseminação do pecado.

- Como o jardim do Éden? – pergunta ele.

Os auxiliares e os fiéis arregalam os olhos, estarrecidos com sua ousadia. Ao longe, Izak corava de raiva.

- Que sacrilégio é esse?! – exclama Frančišek .

- Não é nenhum sacrilégio, padre. O Éden não era um lugar santo, tão santo que os seres humanos podiam andar nus? Então por que Deus permitiu a presença da serpente? Deus não é onisciente? Se sim, Ele não sabia que, ao permitir Satanás disfarçado, ele iria tentar o homem e induzi-lo a pecar?

As pessoas na catedral pensam a respeito, dando razão a Valentim. Prevenindo uma onda de apostasia, o padre responde:

- Não exatamente. Deus limitou sua onisciência para respeitar as limitações da raça humana, como um pai criando um filho.

Valentim se indigna.

- Como pode ser isso?! Pode alguém suspender a razão para se comportar como um animal? E mesmo que o imite, não saberá em seu íntimo que está apenas fingindo?     

Novamente suas palavras fazem sentido. Frančišek responde:

- Meu filho, Deus pode fazer o que quiser. Ele é onipotente, como já deve saber.

- Então por que o mal existe?

Todos se espantam.

- O que quer dizer?

- Não foi o senhor mesmo que disse que “o Homem se tornou como Deus, conhecendo o bem e o mal”. Ora, então quem criou o mal? – pergunta ele – Satanás o criou ou ele sempre esteve lá, apenas prevenido da raça humana até Satanás aparecer e fazer-nos pecar?

Todos se confundem. Segundo Valentim, a Criação sempre envolveu o mal, antecedendo até o surgimento dos anjos.

- Isso é absurdo! – indigna-se Frančišek.

- Após a queda do Homem, a Terra se tornou o paraíso dos ímpios e o inferno dos justos. Diga-me, padre, isto é justiça? – pergunta ele – E tudo porque Deus permitiu o sacrilégio de seu jardim pela presença da serpente...

- É verdade. – concorda um fiel.

- Deus é onipresente, Ele viu Satanás se infiltrando. Deus é onisciente, Ele sabia de suas intenções. Deus é onipotente, Ele podia tê-lo impedido. E Ele não o fez! – exclama ele – O seu “mito” da Criação não faz sentido! Por que Deus permitiria um anjo rebelde se pendurando em uma de suas árvores mais sagradas?! – pergunta ele, referindo-se à árvore do bem e do mal – E por que, só após a introdução do pecado, foi que Ele guardou suas posses mais importantes?

Então o padre se silencia. Ao olhar ao redor, ele nota que todos estavam em silêncio, ponderando nas palavras de Valentim. Frančišek sorri.

- Vejo que o senhor é muito questionador para um operário das fábricas... – responde ele, tentando desqualifica-lo – Mas responda-me uma coisa, meu filho. O senhor colocaria um filho rebelde para fora de casa?

Estranhando a pergunta, ele responde:

- Eu não tenho filhos.

- Mas se tivesse, o senhor o expulsaria?

Valentim pensa. Ter um filho era tudo o que havia de mais importante para Danica. Por muitos anos foi o seu sonho, mas infelizmente a vida não lhe deu esta bênção.

- O que quer dizer?

- Se um filho fizer algo errado, o senhor o castiga. Se ele fizer algo muito errado, o senhor o castiga mais firmemente. Mas se ele pecar contra a tua face e o senhor tiver de expulsa-lo de casa, não significa que o senhor deixou de ama-lo, mas que o senhor espera que ele se arrependa de seus pecados e se reconcilie.

Ponderando, ele responde:

- Talvez.

- Adão e Eva pecaram, mas Deus não se apartou deles, pois esteve com Caim e Abel fora do Éden. O filho pródigo, na famosa parábola, não foi abandonado pelo pai; ao contrário, foi recebido com honrarias ao retornar para casa. Nós mesmos, da atual geração, também não fomos abandonados, pois Deus enviou o seu único Filho para a remissão dos nossos pecados. – argumenta ele – Mas todos igualmente pecamos, pois como o senhor mesmo disse, o mal surgiu no momento da Criação. Foi necessário um tentador para macular-nos.

Então todos dão razão ao padre, em detrimento de Valentim.

- Aonde o senhor quer chegar?

- Talvez Deus esperasse que Satanás se arrependesse também. Talvez Ele o tolerasse porque o queria de volta no paraíso. Talvez ele ainda o ame apesar de sua rebelião.

Valentim se recusa a concordar.

- Então Deus permitiu que um ser superior, um anjo caído, tentasse uma raça inferior, a humanidade, causando o maior desastre desde a Criação do qual nós até hoje padecemos? – pergunta ele – E tudo isso por puro amor de Pai?

- Talvez, se minha teoria estiver correta. De qualquer forma, isso só evidencia a infinita misericórdia do nosso Deus.            

Meneando negativamente a cabeça, Valentim discorda de tudo.

Os auxiliares e fiéis o rodeiam, pedindo permissão para orar por ele. Valentim nega; ele não estava com a menor paciência para o fanatismo de igreja. O padre diz:

- Vejo que o senhor está muito atribulado, meu filho. Deixe os serviços de limpeza por hoje. Vá para casa e descanse um pouco. Se quiser, nossos auxiliares lhe servirão comida antes de ir.

Comida era a única coisa que ele aceitaria ali.

- Está bem.

- Mas peço que reflita em nossa conversa mais tarde. Pense no que falamos. – pede ele – Espero que a Nossa Senhora o ajude a encontrar a paz de espírito que seu coração tanto precisa. In nomine Patris, et Filii, et Spiritu Sancti, amém.

“Amém”, repetem os fiéis.

Então Valentim abaixa sua cabeça e vai embora.

 

§

 

Passando pelas ruas ensolaradas, ele volta para casa. De fato Valentim estava tribulado, como Frančišek disse. Ele pensa:

“Como eles podem acreditar nessa história?”, pergunta-se ele. “Jardim do Éden, Adão e Eva, uma cobra falante...?”.

Ele chuta um pedrinha no chão.

“Deus sabe tudo, incluindo o futuro. Por que Ele permitiu que Satanás os tentasse e introduzisse o pecado no mundo?”.

As carruagens passam ao seu lado, provocando os ruídos dos cavalos.

“Deus criou o mal, mas o preveniu dos seres humanos. O mal sempre existiu”.

Estava uma bela manhã de domingo e as crianças brincavam nas ruas.

“Nós fomos criados no meio de uma guerra espiritual sim! E Satanás quis arregimentar a raça humana em seu engano!”, enfurece-se ele. “Por que Deus o lançou aqui para habitar a Terra conosco?”.

O dono de uma mercearia conversa com seus clientes. Lembrando-se que lhe deve dinheiro, Valentim vira seu rosto.

“Toda essa miséria no mundo podia ter sido evitada se esse anjo maldito tivesse sido banido para outro mundo. Ou para o quinto dos infernos, que é o seu lugar!”.

Os guardas caminhavam tranquilamente, realizando o seu serviço.

“E agora sofremos a miséria e a injustiça porque, segundo Frančišek, Deus amou inclusive ao diabo, esperando que ele se arrependesse e abandonasse o seus erros. Mas não foi isso o que aconteceu”, reconhece ele. “Como Deus pôde tolera-lo em sua casa?”.  

E assim Valentim prosseguia em seu caminho, culpando a Deus por seu infinito amor.

Ao chegar em casa, Valentim respira fundo e abre a porta. Ele estava cansado; a semana foi humilhante demais para ele.

Pegando o pão em seu bolso, ele o reparte e o serve para Orfeu. O gato come rapidamente. Valentim se entristece; Orfeu o fazia se lembrar de Danica. Sua esposa o resgatou em uma noite fria. Em sua casa não havia nenhuma fartura, mas era um lugar em que o gato podia fazer o seu lar.

- Ah, minha Danica... – sussurra ele, chorando – Onde é que você está?

Danica tinha um bom coração e não deixaria Orfeu morrer de frio. Valentim acha que ela errou em adota-lo. Por sua causa eles dividiam a comida e o gato sujava toda a casa, inclusive a poltrona de Valentim. Apesar de tudo ele não podia expulsa-lo. Agora ele também o amava.   

Ainda de cabeça quente, ele pensa:

“Como Deus tolerou Satanás no Éden?”.

Então ele se vira e se dirige à sala. Intentando sentar na poltrona, ele se aproxima e a encontra cheia de pelos. Irritando-se, ele diz:

- Como eu ainda tolero esse gato em minha casa?!

Valentim finalmente se senta. Enquanto relaxa, Orfeu pula de repente em seu colo e se deita, ronronando até dormir carinhosamente. Novamente espantado com seu atrevimento, ele intenta expulsa-lo com violência, mas então ele percebe. Apesar dos erros, não se pode expulsar quem se ama.

Então a surpresa o atropela e se explode em sua mente.

Apoiando com as mãos o seu rosto, ele respira fundo e se convence, arrependido de seu erro.

Valentim havia aprendido uma lição aquele dia.

 

   

sábado, 28 de maio de 2022

Liubliana - 12 - A Catequese dos Miseráveis

 


(Foto de Francesca Phillips)

As aulas de catecismo começavam todas as manhãs. Ocupado nos assuntos da igreja, o padre Frančišek não ministraria as aulas; esta função foi delegada ao seu auxiliar, o diácono Izak.

Izak era um jovem liublianense de vinte e poucos anos. Ele tinha cabelos castanhos e vestia trajes de monge. Um seminarista devoto desde a adolescência, sua postura expressava profundo conhecimento bíblico.

Valentim não sabia ao certo o que era o catecismo; ele nunca o frequentou. Ele se lembra de uma escola dominical onde se ensinavam os princípios, as doutrinas, os preceitos e os dogmas da fé cristã. Mas, em sua juventude, esta escola era o local onde os adolescentes se encontravam após os estudos para paquerar.

O diácono conduz os mendigos e miseráveis pelas salas da catedral. As salas dos fiéis eram limpas e organizadas, mas Izak os leva a outra sala, uma mais rústica e encardida. O cheiro de poeira e resíduos humanos os desconcertam, mas eles tinham de suporta-lo para tomarem a sopa mais tarde. Todos com exceção do diácono estavam morrendo de fome.

Sentando-se em um frio banco de madeira, Valentim aguarda o início das aulas. Homens e mulheres entram e ele pode ver que eram trabalhadores inválidos, a maioria mutilada pela engrenagem das máquinas. Algumas crianças acompanhavam suas mães; o ranho se escorria de seus narizes e elas tossiam constantemente. Valentim sabe o que lhes aconteceu, elas contraíram problemas respiratórios ao inalar o gás tóxico nas minas de carvão.  

 Ao seu lado se senta um mendigo barbudo com um terrível cheiro de suor. À sua frente se senta um jovem de olhos arregalados, encarando a todos como um louco. Valentim via tudo aquilo como uma humilhação, mas por estar faminto ele não tinha outra escolha.

Izak começa a aula falando sobre o poder de Deus. Ele diz:

- Irmãos, Deus é onisciente, onipotente e onipresente. Como explicou São Tomás de Aquino, a infinitude divina não tem começo e nem fim, pois tais características implicam criação, e Deus não foi criado; Ele é. – explica ele.

Abrindo uma densa Bíblia, o diácono continua:

- Falando sobre a onisciência, o capítulo 12, versículo 2 do Evangelho de Lucas diz: “mas não há nada encoberto que não haja de ser descoberto, e nem oculto que não haja de ser sabido”. E depois no versículo 7: “E até os cabelos de vossa cabeça estão contados”.

Ao ouvi-lo, Valentim se espanta. Ele acha incrível o fato de Deus saber até o número exato dos fios de cabelo das pessoas. De cada pessoa, cada mísera pessoa andando sobre a face da Terra.

“Mas se Ele sabe algo tão inútil, então por que não diz onde está Danica?”, pergunta-se ele.

Izak continua:

- A onipotência de Deus é maravilhosa e apenas revela seu majestoso poder. No livro de Jeremias, capítulo 32, versículo 17 diz: “Ah! Soberano Senhor, tu fizeste os céus e a terra pelo teu grande poder e por teu braço estendido. Nada é difícil demais para ti”. – recita ele – Mesmo o arcanjo Gabriel testifica isto. Ao ser questionado pala Virgem Maria, ele diz: “pois nada é impossível para Deus”.

O diácono citava o Evangelho de Lucas capítulo 1, versículo 37.

Valentim se espanta. Ele se pergunta como seria ter um poder tão tremendo a ponto de nada poder resisti-lo.  

“Se Deus é tão poderoso, então por que não traz Danica de volta ao invés de ignora-la, dando-lhe as costas e prolongando o seu sofrimento?”, pergunta-se ele.

- Deus é onipresente. No livro de Salmos, capítulo 139, versículos 7 ao 10, o salmista diz: “para onde me irei do teu espírito, ou para onde fugirei da tua face? Se subir ao céu, lá tu estás; se fizer no inferno a minha cama, eis que tu ali estás também. Se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar, até ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá”. – recita ele – Novamente Jeremias, no capítulo 23, versículo 24, O testifica: “esconder-se-ia alguém em esconderijos de modo que Eu não o veja? Diz o Senhor”.

Valentim se surpreende, pois não consegue imaginar um corpo imensuravelmente grande a ponto de estar em Liubliana e em Londres ao mesmo tempo.

“Mas se Deus é onipresente, então por que não diz onde Danica está?”.

- E por fim a sempiterna infinitude de Deus.

“Sempiterna?”, pergunta-se Valetim.

- O apóstolo Paulo, em sua carta aos Colossenses, capítulo 1, versículo 17, testifica do nosso Senhor Jesus, dizendo: “e Ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por Ele”. Também João, em Apocalipse, capítulo 1, versículo 8, diz: “Eu sou o Alfa e o Ômega, diz o Senhor Deus, o que é, o que era e o que há de vir, o Todo-poderoso”. Estas são evidências diretas citadas no Evangelho de João, capítulo 10, versículo 30, que diz: “Eu e o Pai somos um”.

Desta vez Valentim não consegue compreender. Ele se pergunta como pode alguém existir antes da própria existência, e mais ainda sustenta-la pessoalmente. Valentim não sabe o que é alfa e ômega, mas acredita serem letras do alfabeto grego. Apesar disso, ele acha difícil alguém que é o primeiro e o último estar além da criação, se não ele não poderia ser o primeiro e nem o último.

“Se Deus é infinito, não seria fútil julgar os homens segundo a sua finitude terrena?”, pergunta-se ele.

Izak termina sua lição. Fechando a Bíblia, ele levanta sua cabeça e olha para a sua congregação paupérrima. Alguns estavam confusos, outros inquietos e alguns cochilavam em seus bancos. O diácono mantém sua classe, mas ele se sente lançando pérolas aos porcos.

- Minha nossa Senhora, rogai por estes pecadores... – sussurra ele.

E então o seu olhar se encontra com o de Valentim. O homem o encarava com evidente indagação, ponderando nas palavras que acabara de dizer. De fato, Valentim parecia ser o único ali minimamente interessado na lição. Todavia, Izak cruza os braços e informa:

- Irmãos necessitados, a sopa será servida a seguir. Devo informa-los que aquele que ficar para a limpeza deste santo templo receberá porção dobrada ao meio-dia. Queiram fazer fila no lado de fora, por favor.

Todos se levantam, cansados e entediados após sua primeira lição de catecismo. Valentim os acompanha para fora e vê os auxiliares da igreja ao lado de um grande tacho de sopa quente. Ao vê-lo, seu estômago ronca.

Os mendigos e inválidos estavam ávidos para comer. Como animais, eles se ajuntam em frente à comida, causando um alvoroço. Valentim é obrigado a se misturar e esticar o seu braço para receber sua porção. Os auxiliares são obrigados a organiza-los e conte-los. Novamente a sensação de humilhação se apodera dele, lamentando-se por ter descido àquele nível. Apesar da escassez, Danica se esforçou para farta-lo no almoço e no jantar.

A fila se forma e, ao chegar a sua vez, Valentim recebe uma tigela de sopa e uma colher de madeira. O cheiro era delicioso. A fome era tanta que ele come tudo com muito gosto. O sabor era bom e ele se alegra por ter se alimentado aquele dia; mais um dia sem comer e ele se desfaleceria.

Sentados contra a parede, os mendigos conversavam tranquilamente. Haviam bêbados e lunáticos que não falavam nada com nada, mas outros eram lúcidos e pareciam estar em uma situação semelhante a de Valentim. Aproximando-se, ele se senta e ouve a conversa.

- Viver é um eterno estado de trabalho e endividamento! – afirma um mendigo calvo.

- Como assim, velho amigo? – pergunta outro.

- Veja, trabalhamos a vida inteira e, mesmo assim, apenas nos endividamos! E você quer saber por quê? Porque os preços são tão altos que, apesar de trabalharmos tanto, não conseguimos paga-los. Na verdade, creio que esta é a razão de muitos estarem aqui. Portanto eu novamente afirmo: viver é um eterno estado de trabalho e endividamento!

Os inválidos se aproximam para ouvir também. Eles parecem concordar com o mendigo calvo.

- E como você sabe disso? Por acaso você já trabalhou?

- Ora, mas é claro que sim! – afirma ele – Eu já tive campos, plantações, uma bela propriedade rural... Mas então as fábricas vieram, trazendo estas benditas máquinas! Eu vendi tudo o que tinha para migrar para a cidade... E perdi tudo também. Fui roubado por estelionatários. Não havia nenhuma casa na cidade; os ladrões roubaram meu dinheiro e, incapaz de comprovar a compra com os papeis de escritura, fui obrigado a morar na rua. Minha família está na rua também, mas eles partiram para Murska Sobota e eu nunca mais os vi.

O mendigo falava de uma cidade na região de Prekmurje, a leste de Carníola.

- Isto é muito triste, meu velho amigo! Torço para que se levante novamente e volte a perseguir o sonho de viver prosperamente e bem.

Então um inválido, aleijado do braço esquerdo, entra na conversa e diz:

- Não tenham tanta esperança.

Os mendigos olham para ele, intrigados.

- O que quer dizer, senhor?

- Só há uma diferença entre os pobres e os mendigos: os pobres pensam que, trabalhando, realizarão os seus planos e sonhos. Mas o fato é que ambos não os realizarão.

Eles notam que havia amargura em sua voz. Então o mendigo calvo diz:

- Mas os esforçados realizam seus sonhos! Na verdade, são os sonhos que compelem a juventude!

Meneando negativamente a cabeça, o inválido diz:

- A juventude não é a melhor fase só porque tínhamos menos responsabilidades, mas porque acreditávamos que, no futuro, nossos sonhos se realizariam. E, na verdade, a despeito do que disse, acho que é por isso que temos sonhos, porque a esperança de realiza-los nos previne de desistirmos da vida. E que vida adulta amarga e solitária aguarda estes jovens sonhadores...! – pranteia ele.

O outro mendigo diz:

- Pois eu prefiro acreditar que nem todos os sonhos sejam arrancados pela dureza da vida. Alguns sonhos se realizam.

- O meu se foi com o meu braço, decepado por uma máquina e me lançando na sarjeta... – ele exibe o coto decepado, causando-lhes aflição.

A conversa fica melancólica e amarga. Valentim discretamente se afasta, evitando os olhares.

Os auxiliares chamam por voluntários na limpeza da catedral. Valentim assiste atônito os indigentes se afastarem e irem embora. Eles só estavam preocupados com a comida gratuita que a igreja oferecia. A missa e o catecismo não lhe interessavam em nada.

Valentim se voluntaria. Ele também não se interessa pelos ensinamentos da igreja, mas não podia dispensar a alimentação no horário de almoço. Mesmo o seu gato necessitava de comida em casa. Ademais, ainda não deu o prazo para ele revisitar Tobias na Gendarmerie.

Dando-lhe um balde e um esfregão, Valentim passa o resto da manhã limpando a sala de catecismo. Ele se sente desonrado, insultado e humilhado por se submeter ao serviço de faxina. Criado nos velhos costumes, Valentim pensa que aquilo é serviço de mulher. Infelizmente para ele, a vida se mostrou ingrata e o orgulho era a última coisa que o alimentaria agora. 

A sala de catecismo cheirava mal e ele sabe o porquê. Mendigos, alcóolatras, miseráveis e vagabundos a frequentavam. Valentim critica o padre por submete-los aos ensinamentos religiosos quando a única coisa que eles queriam era comida. Entretanto, a obra social estava atrelada à Igreja e, sem ela, todos morreriam de fome.

O diácono Izak passeia pelos átrios da catedral. Ele também faz a faxina, tirando poeira dos móveis e polindo as obras de latão. Valentim não entende como aqueles garotos decidiram desperdiçar suas vidas assim, abdicando-se das mulheres e de si mesmos em troca de uma vida celibatária e enfadonha.

O padre Frančišek cuidava dos assuntos burocráticos em seu escritório. Valentim prefere não incomoda-lo; ele não suportaria outra extorsão pelo estômago aquela manhã.  

Finalmente é meio-dia. Guiando-o ao refeitório, os auxiliares lhe servem o almoço. Valentim não pode deixar de notar que os auxiliares o isolavam. Ele e os outros voluntários ficam à distância, comendo sua comida em silêncio. A comida estava boa pois ele vê pães, linguiça e batatas em seu prato. Para acompanhar, eles bebem um saboroso leite de vaca.  

Surrupiando algumas batatas, ele as esconde em seu bolso e a guarda para o seu gato.

Valentim volta para casa e, ao abrir a porta, encontra Orfeu deitado em sua poltrona. Irritado, ele põe suas mãos na cintura e diz:

- Ora, mas que coisa!

Porém Orfeu mia e corre para se esfregar em suas pernas; ele parecia feliz em vê-lo.

Valentim esmaga as batatas e as dilui com um pouco d’água. Normalmente aquilo seria intragável para os gatos, mas Orfeu come com tanta voracidade que o assusta. A fome era tanta em sua casa que cada migalha lhes eram uma bênção.

Preocupado, Valentim se senta e pensa como pagará as suas dívidas. Logo os credores viriam cobra-lo e ele não sabia o que fazer. De repente Orfeu pula em seu colo e se deita, ronronando tranquilamente. Irritado, Valentim prontamente o espanta; ele não estava de bom humor naquele dia.

 

§

 

Na manhã seguinte os miseráveis voltam à catedral. Em seu típico traje de monge, Izak abre a Bíblia e ministra a palavra. Ele diz:

- Hoje vamos falar do perdão de Deus. No Evangelho de João, capítulo 3, versículo 16, diz: “porque Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna”. – prega ele – Deus não quer condena-los, irmãos! Ele quer vos dar a vida eterna! Mas para isto basta que vocês creiam!

A congregação não demonstra o menor entusiasmo em suas palavras. Insistente, o diácono complementa:

- “Quem crê em Jesus não é condenado, mas quem não crê já está condenado, por não crer no nome do Filho Unigênito de Deus”. Entenderam agora a extensão da misericórdia divina? Ele anseia por nossa Salvação!

Mas ninguém lhe dá ouvidos. A pregação era interrompida algumas vezes por crianças chorando e mendigos tossindo. Desanimando-se, o diácono respira fundo.

Enquanto isso, Valentim pensa:

“Por que Deus nos oferece a Salvação se não pedimos para estar neste mundo? Não seria melhor não existirmos ao invés de nos sujeitar à condenação do fogo do inferno?”.

Mais tarde eles recebem a sopa e Valentim fica mais uma vez para a faxina. Assim ele garante o alimento para seu gato e o seu almoço.

 

§

 

No terceiro dia de catecismo, Izak fala sobre a guerra espiritual. Ele diz:

- Na carta de Paulo aos Efésios, o versículo 6, capítulo 12, diz: “porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas sim contra os principados e potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade nos lugares celestiais”. – prega ele – Como veem há uma guerra espiritual lá fora. Não é uma guerra entre os homens gerada pela contenda, pela ganância e pela ira. Ouçam o que disse o apóstolo Paulo no capítulo 4, versículo 26: “irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira. Não deis lugar ao diabo”. Desta forma, ele nos adverte a sermos pacíficos com os nossos irmãos, e não irascíveis como os ímpios.

Uma criança começa a chorar, quebrando sua concentração. Então ele consegue ver que muitos cochilavam. Todos menos um. Valentim ouve tudo atentamente lá no fundo, mas ele não parecia convencido. Ignorando-o, ele volta à sua leitura e diz:

- Acautelem-se da guerra espiritual lá fora, meus irmãos, pois o apóstolo Pedro nos alertou, dizendo: “sede sóbrios, vigiai, porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar”.

Valentim meneia negativamente a cabeça. Ao ouvi-lo, ele pensa:

“Por que Deus nos criou no meio de uma guerra espiritual, nos sujeitando à ação destrutiva dos demônios? Por que seremos condenados se não crermos em Cristo? Não seria melhor sermos criados após a derrota de Satanás para não passarmos por isso?”. 

A aula acaba e eles saem para tomar a sopa. Os mendigos e inválidos conversavam tranquilamente. Nenhum deles falava sobre as lições de catecismo, a não ser para zombar do jovem Izak. De certa forma, Valentim sente pena dele; seu esforço para converte-los estava sendo em vão.

Ao ficar para a faxina, os auxiliares o pedem para abanar o pó dos campanários. Valentim olha para cima e vê uma íngreme escada para cada torre. Irritando-se, ele pergunta:

- Por que vocês, moleques, não sobem lá vocês mesmos?   

Um auxiliar responde:

- Não podemos. Nós temos medo de altura...

Então ele bufa de indignação.

- Mas são uns molengas, mesmo!

Então ele se vira e pega o seu balde.

Ao subir em um dos campanários, Valentim olha para a paisagem lá embaixo. A cidade estendia-se pelo horizonte, com suas casas de telhados vermelhos se misturando com as fábricas inglesas. Ao sul, uma colossal refinaria de Plasma ocupava uma parte do pântano. Distraindo-se, ele tem um curioso pensamento.

“Gostaria de conhecer Liubliana quando esta pertencia-se apenas a si mesma, antes dos ingleses, dos austríacos e também dos romanos. Gostaria de contempla-la em seu estado puro, quando não éramos governados por potências estrangeiras explorando a nossa terra. Como um passeio no passado longínquo, um alvorecer das antigas manhãs”.

Debruçado na pequena mureta, ele se perde em devaneios. Então ele ouve um chirriar acima e se assusta. No topo do campanário ele vê um ninho de corujas. Confuso, ele pensa que elas só habitavam buracos na terra. As corujas olham para ele e viram suas cabeças, mas nunca parando de olha-lo. Por alguma razão, Valentim sente medo. As corujas pareciam conter uma aura negra ao seu redor. Então ele limpa o piso ao redor dos sinos e deixa rapidamente aquele lugar.

 

§

 

No quarto dia ele volta ao catecismo. Izak abre a Bíblia e faz uma pregação sobre a importância da fé. Ele diz:

- Na carta aos Hebreus, capítulo 1, versículo 7 diz: “sem fé é impossível agradar a Deus, pois quem dele se aproxima precisa crer que Ele existe e que recompensa aqueles que O buscam”. – prega ele – Ouçam, meus irmãos. É preciso crer que nosso Criador exista, do contrário nossas petições serão em vão. Ouçam o que diz o próprio Senhor Jesus Cristo no Evangelho de João, capítulo 17: “aquele que crê em mim fará também as obras que tenho realizado”. Versículo 13: “e Eu farei o que vocês pedirem em meu nome, para que o Pai seja glorificado no Filho. Versículo 14: “o que vocês pedirem em meu nome, eu farei”. – olhando para a congregação, ele pergunta – Veem a importância de crerem na existência de Deus?

Mas a congregação estava distraída e desatenta, preocupada apenas com a refeição mais tarde. Izak os ignora e tenta continuar a pregação.

 Cansado daquele monólogo para uma audiência letárgica, Valentim levanta seu braço e ousadamente pergunta:

- Diácono Izak, eu tenho uma pergunta. Se Deus é tão poderoso como você diz, então por que Ele se esconde?

O diácono não compreende.

- O que disse, senhor?

- Se Deus é tão onipotente, onisciente e onipresente como disse, então por que Ele precisa diminuir a Si mesmo para caber na crença das pessoas?

Izak arregala os olhos, confuso. Neste momento a congregação parece acordar.

- Deus não precisa se diminuir para ninguém, senhor! São as pessoas que precisam se humilhar para conhece-Lo! Pois como está na Palavra, Deus não resiste a um coração quebrantado e contrito.

O diácono citava Salmos, capítulo 51, versículo 17. 

Valentim revira os olhos, entediando-se.

- Pois eu vi minha esposa se humilhando para Ele a vida inteira e o que lhe aconteceu? Ela desapareceu há quatro dias! – acusa ele – Nem mesmo a Gendarme quer procura-la! Jesus é o bom pastor, não é? Então por que ele não cuidou de uma de suas ovelhas, ao invés de permitir que ela fosse sequestrada assim?

Izak se espanta.

- Isto é blasfêmia! – brada ele.

- Não! – discorda ele – É a verdade! Se Deus é onisciente, então por que Ele não diz onde ela está? Se Ele é onipotente, então por que não usa seu poder para traze-la de volta? Se Ele é onipresente, então por que tantas pessoas morrem diariamente, sequestradas em cativeiros, sendo que Deus está presente vendo tudo e não faz nada?!

Mais uma vez o diácono arregala os olhos.

- Meu senhor! Não diga isto!

- Por Sua culpa Satanás está solto no mundo! Por Sua decisão fomos criados no meio de uma guerra espiritual! Por sua permissão a humanidade caiu no pecado! E qual é o plano divino para resolver tudo isto? Simplesmente crer que Ele exista! – ironiza ele. 

Desconcertado, o diácono o repreende:

- Meu senhor!

- Não somos nós que precisamos do perdão de Deus, mas Deus que precisa do nosso perdão...! - afronta ele - Devido a sua inação e sua insensibilidade para com o nosso padecimento neste mundo horrível!

Então os miseráveis se agitam, apoiando-o.

- Agitador! – acusa Izak – Você um maldito agitador!

- O que você disse?

- Eu não ficarei aqui ouvindo suas blasfêmias! O senhor não tem parte alguma com Deus! Sua parte é ao lado de Satanás e seus anjos!

Valentim ri.

- Os mesmos que o seu Deus permitiu que habitassem a terra com os humanos? E tenta dizer que os pecadores somos nós?!

- Basta! – grita ele – Esta aula acabou!

Virando-se, Izak pega sua Bíblia e vai embora.

Os miseráveis riem, estupefatos com a discussão que acabaram de assistir. Valentim recebe aplausos, sendo estranhamente homenageado.

Um mendigo aperta sua mão e diz:

- Obrigado por nos livrar desta aula chata!

Outro diz:

- Eu já estava caindo de sono!

E mais outro diz:

- Este diácono é mesmo um palerma!

Então um inválido olha para ele e comenta:

- Eu só espero que eles ainda nos sirvam a sopa...

 

 


domingo, 22 de maio de 2022

Liubliana - 11 - Monstro

 


(Arte do game Blood 2: The Chosen)

 

Sentado em sua poltrona, Valentim reflete sobre o dia anterior. A sol se levanta lá fora e a nova manhã chega. Os trabalhadores passam apressados pelas ruas, aqueles sortudos o bastante por terem trabalho.

Orfeu passa entre suas pernas, pedindo comida. Valentim se entristece. Ouvindo os roncos de seu próprio estômago, ele também estava com fome.

De repente ele ouve uma voz conhecida. Alguém passava por sua porta enquanto conversava normalmente. Valentim se levanta e corre para abri-la.

- Senhora Albina! – chama ele – Espere!

A mulher olha para trás e se assusta. Valentim a abordava apenas de pijamas na porta de sua casa.

- Valentim? – intriga-se ela – Não esperava encontra-lo assim.

O homem se cobre, constrangido.

- Perdoe-me, senhora Albina. Eu sou mesmo um trapalhão.

- Eu passei aqui há um hora. Joguei pedrinhas em sua janela, mas o senhor não acordou. Pensei que já estivesse na fábrica.

- Não estava. Na verdade, eu não trabalho mais lá. Eu fui demitido, ou melhor, pior do que demitido. Eu fui banido de trabalhar em qualquer fábrica inglesa novamente.

A mulher não compreende.

- O que quer dizer?

- Eu agredi o encarregado da fábrica. Eu o golpeei com um golpe de facão. Juro que não foi minha intenção, mas ele me insultou! Como castigo eu fui demitido e banido de trabalhar novamente. O próprio dono me assegurou isso.

Albina meneia negativamente a cabeça.

- Ah, Valentim... Desde menino arrumando confusão...

- Eu sei que isso não é problema seu, mas eu estou desamparado agora. Estou sem trabalho e não tenho o que comer. Aquele burguês maldito se recusou a me pagar pelos dias trabalhados e não poderei saldar minhas dívidas nas mercearias. Além disso, minha Danica está desaparecida e há rumores de que a cidade está ficando louca! Não tenho mais o que comer e a fome atormenta inclusive o meu gato. Rogo à senhora que me ajude! Ou me revele alguém que possa me ajudar...

Albina arregala os olhos, desconcertada.

- O senhor não tem mais o que comer? – duvida ela.

Valentim sempre achou meio estranho ela chama-lo de senhor. A diferença de idade dos dois era de quase trinta anos. De qualquer forma, ele via aquilo como um sinal de educação, algo que ele mal teve.

- Sim.

- Pois deixe-me ver como está a situação em sua casa.

Permitindo-a, Valentim a recebe e a conduz pelo interior. Ao passarem pela sala ele vê Orfeu deitado em sua poltrona e se irrita. Querendo passar uma boa impressão à mulher, ele não diz nada.

Albina chega à cozinha e olha ao redor. Era uma cozinha escura, com um forno cheio de fuligem, e panelas penduradas no teto. Valentim se adianta e abre os armários; eles estavam vazios e esgotados de alimentos.

- Como pode ver, eu não tenho comida. Temo que ficarei dias sem comer!

A mulher assente e volta para a sala. Ao olhar para a poltrona, ela encontra o gato. Orfeu se levanta e se estica, despreguiçando-se. Em seguida o gato mia e passeia entre suas pernas, parecendo pedir algo.

- Vejo que realmente ele está com fome. – constata ela.

- É verdade. – confirma ele – Nós dois estamos.

Albina caminha até a porta e pergunta:

- Que cheiro é esse?

Envergonhado, ele responde:

- É a poeira. Eu não sei fazer os serviços domésticos, senhora Albina. A casa está suja por minha culpa...

- Não. – discorda ela – Falo de outro cheiro. Eu inclusive o sinto no senhor.

Valentim não sabe do que ela está falando. Albina caminha de volta e, passando por aquela cozinha escura, encontra na lavanderia o tanque de lavar roupas. Em um pilha de roupas sujas, ela aproxima o nariz e diz:

- Aqui! Este é o cheiro de que estou falando.

O homem revira a pilha de roupas. Então eles podem ver. As roupas brilhavam no escuro.

- Oh, isto...? – esclarece ele – Este cheiro é de Plasma.

- O senhor andou se banhando com isto? – brinca ela.

- Não. Na fábrica é normal o manuseio do Plasma. Todas as noites eu voltava com a substância respingada em meu corpo.

A mulher assente e eles retornam à sala.

Parando próximo à porta, ela diz:

- Senhor Valentim, eu verei o que... – então ela vira o pescoço rapidamente.

De olhos arregalados, Albina olhava fixamente para a escada que dava acesso ao quarto. Valentim se intriga, pois ela parecia assustada com alguma coisa.  

- Senhora Albina? A senhora está bem?

A mulher continua calada, petrificada de medo. Então o homem respeitosamente sacode o seu ombro, despertando-a de seu transe.

- Oh, me desculpe... – responde ela, confusa – Senhor Valentim, há mais alguém aqui?

- Não, por quê?

- Tive a impressão de ter ouvido passos lá em cima. E também ouvi alguém dizer... – de repente ela se vira, como se estivesse espantando algo de suas costas – Senhor Valentim, ouça-me. Procure uma igreja, a Catedral de Liubliana, na verdade. Lá eles poderão ajudá-lo...

- A catedral? – pergunta ele – Mas por quê?

- Eles prestam serviços sociais e... – algo a incomodava profundamente – Eles oferecem ajuda aos necessitados. – encerrando repentinamente a conversa, ela diz – Adeus, senhor Valentim. Espero ter ajudado.

Abrindo a porta ela mesma, Albina se agarra ao seu casaco e imediatamente deixa aquela casa.

Valentim se intriga. Parado na soleira, ele vê a mulher indo embora e não sabe que lhe aconteceu. Mas Albina sabe muito bem; uma presença maligna havia parado em suas costas. Com uma voz vinda direto das profundezas, algo sussurrou em seus ouvidos:

“Saia!”.

 

§

 

Mais tarde, Valentim chega à Catedral de Liubliana. De fato, faziam anos desde sua última visita naquele lugar. Ele se lembra pesarosamente de ter sido ali, em seus sacros espaços, que ele via Irena pela primeira vez.

“Ou não foi a primeira vez, já que éramos amigos de infância e eu não me lembrava”.

Suas opiniões sobre religião não eram favoráveis. Valentim tinha pesadas críticas à Igreja. Por trás da instituição caridosa e filantrópica, havia um ganancioso poder que derrubou reis, empreendeu guerras santas e matou milhares de inocentes. Ele nunca leu uma única página da Bíblia, mas se tivesse saberia que os atos da Igreja eram diametralmente opostos às palavras de Cristo.

Adentrando o salão, ele caminha até o requintado altar à sua frente. Nele ele vê estátuas da Sagrada Família com a de Jesus Cristo no meio. Algo chama a sua atenção. Cristo era representado de maneira brutal, de braços abertos e pregado na cruz. Torturado e flagelado, haviam cortes e escoriações espalhados pelo seu corpo. Olhando para a sua face abatida e cheia de lágrimas, Valentim sarcasticamente pensa:

“O Senhor tinha de avisa-los que já ressuscitou...”.

O padre e seus auxiliares conversavam próximo ao sacrário; ele usava uma batina preta, um manto roxo sobre os ombros e uma faixa roxa em sua cintura. O padre também usava um colar de crucifixo no pescoço e, em sua cabeça, ele vê um típico chapéu dos clérigos romanos. 

Aproximando-se, Valentim ouve a conversa. Um auxiliar informa o padre que alguém se matou ateando fogo em si mesmo. Ao invés de se consternar com sua morte, o padre sussurra para si mesmo:

- Outro suicídio...

Os auxiliares debatiam se o falecido deveria ou não receber a extrema-unção. O padre se nega, pois para a Igreja o suicídio era pecado e os suicidas não podiam receber o sacramento. Entretanto os auxiliares ponderam se negariam suas condolências aos familiares.

Vendo o operário parado ali, eles interrompem sua conversa e olham para ele. O padre diz:

- A paz de Deus, meu filho. O que deseja?

Um pouco sem jeito, Valentim responde:

- A bênção, padre. Eu...

- Deus te abençoe. – interrompe ele.

Valentim se constrange.

- Bem... Eu... – hesita ele – Perdi o emprego e estou endividado por toda a cidade. Minha esposa está desaparecida e eu não sei o que fazer. Não tenho mais comida, minha última refeição foi ontem à tarde... – explica ele – Uma amiga me disse que a Igreja ainda fazia caridade para com os necessitados. Inclusive minha esposa já recebeu doação de alimentos aqui antes. Eu gostaria de saber se Vossa Santidade poderia me ajudar, pois não tenho mais o que comer!

Ao ouvi-lo, o padre pondera. Valentim pode notar que, apesar de padre, sua aparência era bem austera.

- Como se chama, meu filho?

- Valentim, senhor.

Olhando para seus auxiliares, o padre diz:

- Deixem-nos, por favor. Trataremos deste assunto depois.

Um auxiliar responde:

- Como desejar, padre Frančišek.

Descendo os degraus do altar, o padre se aproxima e Valentim pode ver que seus cabelos eram todos brancos. E então o padre diz:

- Senhor Valentim, eu te agradeço por procurar esta instituição para ajudá-lo, mas devo te alertar de uma coisa: as asas de Lúcifer se estenderam sobre Liubliana, pois suas trevas estão sobre nós.

Valentim se assusta com sua poética, embora dramática, afirmação.

- O que houve, padre?

- A igreja tem tido muito trabalho ultimamente. Diariamente aparecem casos de mortes em nossa administração.

- Mortes?

- Assassinatos, suicídios e massacres pela cidade. Além disso, recebemos notícias de roubos, sequestros e espancamentos bárbaros entre os cidadãos. Os hospitais estão lotados e não temos recursos para tratar a todos.

Valentim se lembra que os hospitais de Carníola pertenciam à Igreja. Seus funcionários eram seminaristas e freiras dos conventos.      

- Então está dizendo que não poderá me ajudar?

- Ao contrário! Esta instituição se compromete a ajuda-lo, mas em nome dela eu te peço algo em troca.

- E o que seria?

- A conversão.

Valentim se assusta novamente. Intrigando-se, ele pergunta:

- Por que está me pedindo isso?

- Eu realmente não sei o que está acontecendo em Liubliana, mas sendo integrante de uma instituição eclesiástica a minha vida inteira, eu só posso recomendar uma coisa: essas pessoas precisam de Deus. – afirma ele – As invenções, os maquinários e a indústria trouxeram avanços maravilhosos para a sociedade, mas ao custo da religião e da fé. Não permitirei que o amor ao próximo se esfrie. A fé em Deus não pode ser abalada pelo avanço tecnológico da indústria. É minha responsabilidade que minha congregação subsista!

Um pouco confuso, Valentim responde:

- Mas padre, eu já sou convertido. Minha família era toda católica, apesar de não sermos frequentadores da igreja.

- O inferno é o lugar dos não praticantes! – brada ele, ecoando pelo salão – As portas do inferno estão abertas! E para que a Igreja prevaleça, é necessário que a congregação se reúna!

Valentim não consegue acreditar no que ouve.

- Está me obrigando a frequentar as missas aos domingos?! – indigna-se ele.

- Exatamente. – impõe-se o padre.

- Isto me parece uma chantagem, uma prisão pelo estômago!

- Oh, isto não é nenhuma prisão, meu filho... Estou tentando salvar a tua alma! Não quero que o senhor, que é uma ovelha desta Igreja, seja tragada pelo lobo lá fora. O senhor está passando fome, mas lembre-se que Jesus é o pão da vida; aquele que vem a Ele jamais terá fome, e aquele que nele crê jamais terá sede!

O padre citava o Evangelho de João capítulo 6, versículo 35.

Com olhar fixo, o padre sorria obsessivamente. Desconfortável, Valentim pergunta:

- Se eu voltar a frequentar a igreja, o senhor me dará comida?

- Se o senhor comparecer às missas, voltar ao catecismo, receber a confirmação pelo crisma e participar da Eucaristia, o senhor poderá comer com os mendigos no lado de fora.

- Comer com os mendigos?! – exclama ele – Padre Frančišek, creio que não fui claro quanto a minha situação! Eu não tenho tempo para o seu catecismo! Minha esposa está desaparecida e eu tenho que procura-la! Além do mais, eu não sou nenhum indigente!

- Mas está como eles, agora. Sem o seu emprego, o senhor terá tempo para o catecismo. E o senhor não tem o que comer. O que resta em sua vida miserável de ovelha perdida?

Novamente o padre citava uma passagem bíblica, no capítulo 10 do Evangelho de João.  

- Está bem. – desiste ele – Eu farei o que for preciso para sobreviver.

Valentim mentia. Agora sua vida era exclusivamente dedicada a encontrar Danica. Mas ele precisava de tempo para pensar.

- Não, meu filho! O senhor não apenas irá sobreviver neste mundo, como também receberá a Vida Eterna! Aleluia!

Frančišek abre os braços e olha para cima, louvando a Deus. Valentim dá as costas e vai embora, deixando aquele louco para trás.

“Realmente as ‘asas de Lúcifer’ estão sobre a cidade, pois a loucura parece ter dominado inclusive a cabeça deste lunático...!”.

 

§

 

Anoitecia em Liubliana. O vento sopra frio e Valentim esfrega os seus braços para se aquecer. Então ele percebe algo. Manchas esverdeadas estavam em sua pele. Observando-as, ele reconhece aquela coloração: Plasma.

As ruas estavam movimentadas aquela tarde. Passando por um parque, ele vê uma mãe com seu bebê sentada em frente a um lago. De repente pensamentos diabólicos inundam a sua mente.

“E se eu tomasse o bebê de seus braços e o lançasse no lago, simplesmente para vê-lo se afogar?”.

Valentim arregala os olhos.

- Meu Deus! O que deu em mim?!

Apressando o passo, ele deixa o parque. Valentim chega às ruas e encontra mais crianças pelo caminho. Elas esperavam as carruagens passarem para atravessar. Então ele pensa:  

“Como eu gostaria de empurra-las para debaixo dos cavalos. Eles passariam por sobre os seus corpos, esmagando seus frágeis ossinhos...”.

“Eu poderia amarra-las nas carruagens e arrasta-las pela cidade. Suas peles se esfolariam, tornando-se carne viva no pavimento pedregoso...”.

Valentim gargalha involuntariamente. As pessoas olham para ele e se intrigam, não entendendo do que ele ria. Constrangido, ele se vira e se afasta para longe.

Os pensamentos ficam mais intensos. Valentim caminhava ofegante e apressadamente. De repente alguém na calçada fala com ele.

- Ei, amigo. Tem uma moeda para me dar?

Deitado sob um sujo cobertor, um mendigo falava com ele. Sem nenhuma razão, Valentim sente vontade de chuta-lo e pisoteá-lo sob os seus pés. Seu ódio era tanto que Valentim queria esmaga-lo, achatando sua face até seus olhos saltarem do crânio.

- Meu Deus! – exclama ele.

Valentim foge, intrigando o velho mendigo.

Suando frio, ele percorria as ruas movimentadas. A noite se aproximava e os acendedores acendiam os postes. Em suas costas eles portavam frascos contendo sua reserva de Plasma. Os acendedores abasteciam os postes a medida que eles apagavam, como se fossem lamparinas. Valentim conhece a volatilidade do Plasma, ele trabalhou muito com ele na fábrica. Seria necessário apenas uma fagulha para incendiá-lo, como as cinzas de um cigarro.

Um transeunte passa com um cigarro em sua boca. Então Valentim pensa:

“Se eu for rápido, eu tiro o cigarro de sua boca e o lanço no frasco do acendedor. A chama se formará e ele será cremado vivo, gritando e esperneando até seu corpo se parecer um graveto retorcido pelo fogo”.

Em um impulso, Valentim avança contra o homem e tenta tirar o cigarro de sua boca. Assustando-se, o homem exclama:

- Meu senhor! Afaste-se!

As pessoas olham para ele e Valentim se vê obrigado a fugir mais uma vez.

Os pensamentos reverberam em sua mente como trovões. Eles se intensificam a ponto dele conseguir ouvi-los.

- São vozes...?! – desespera-se ele.

Entrando em um beco, a penumbra cobre o seu corpo. De repente ele ouve um grito estridente; uma mulher chorava ao longe.

Valentim se aproxima e vê uma senhorita de vestido e cabelos negros. Ele se espanta; a mulher lembrava Danica quando era mais jovem.

- Meu senhor! Por favor me ajude! Eu fui roubada!

Perturbado profundamente, ele responde:

- Lamento… Eu não posso ajuda-la...

- O senhor não entende! Meu dinheiro estava em minha casa! Se eu não recupera-lo, eu não poderei pagar o aluguel!

- Mas eu…

Então a mulher se encosta em seu peito e chora tristemente. Valentim se apavora.

“Veja como ela está frágil e submissa à vontade de estranhos. Como eu gostaria de estraçalhar sua esperança espancando-a sem piedade!”.

- Disse alguma coisa, senhor…?

Intrigada, a mulher enxugava seus olhos. Então o impulso domina sua mente.

Valentim dá um soco em seu rosto. A mulher grita e cai no chão, atordoada. Em seguida ela se vira e olha para ele, confusa. Sangue se escorria de seus lábios.

- Por que fez isso?! – grita ela.

Possuído pelos pensamentos, Valentim se agacha e a soca novamente. Estimulado pela violência, ele bate de novo, e de novo e de novo. A mulher tenta se defender, mas é subjugada pela sua força.

Finado o espetáculo, a mulher gemia no chão. Seu nariz estava quebrado e amassado para o lado. Seus lábios estavam cortados e inchados. Ao redor de seus olhos, o sangue se escorria das lacerações; a pele da face não suportou a fúria de seus golpes.

Valentim se extasia. Tocando o sangue quente da mulher, ele o esfrega em seu rosto. Como um pervertido, ele o lambe de seus dedos. A mulher sangrava intensamente; ele pode ver seus dentes afundados em sua boca. Mas aquilo ainda não lhe era o suficiente.

Olhando para o lado, Valentim encontra um tijolo de cerâmica. Pegando-o, ele o levanta e se prepara para esmagar brutalmente o seu crânio. Valentim estava tomado pelos pensamentos sinistros. Agora ele queria saber a sensação de matar alguém.

E então ele a golpeia.

De repente alguém sacode o seu corpo, dizendo:

- Ei, acorde! O que há de errado com você?!

Valentim acorda de seu transe e se espanta. A mulher falava irritada com ele.

- O que está havendo, senhora?

Mais homens aparecem e se oferecem para ajudá-la. A mulher explica o ocorrido e Valentim aproveita a situação para se afastar dali. Tudo foi só um devaneio.

Ao ver sua casa ao longe, ele arduamente sorri. Ele pega a chave em seu bolso e algo chama a sua atenção. Seus braços brilhavam. As manchas de Plasma ainda estavam em seu corpo, contaminando-o com sua profanação.

Fechando a porta atrás de si, ele ofega constantemente.

“O que houve comigo?! Que pensamentos foram aqueles?!”.

Valentim corre até a cozinha e enche as panelas de água. Ele pretendia encher sua banheira e imediatamente se lavar daquela substância maldita.

Os pensamentos não paravam. Pressionando sua cabeça, ele tenta se livrar daquele tormento. Valentim se sentia um psicopata pervertido; um maníaco capaz de matar friamente por diversão.

Lembrando-se que Danica estava desaparecida, ele pensa como seria fácil trazer vítimas para a sua casa. Ele poderia disseca-las na mesa de jantar, e então cozinha-las e comê-las, e seu sangue ele beberia como vinho.

“Como uma profanação da Santa Ceia, maculada por sacrilégios!”, pensa ele.

“E as mulheres eu estupraria continuamente. Eu as amarraria em minha cama e as abusaria dia após dia, até elas definharem e morrerem por inanição”.  

- Um monstro! – espanta-se ele – Eu sou um maldito monstro!

Enquanto a água se aquece, uma ideia vem à sua mente.

“Pegue o gato e lance-o aí dentro. Veja-o se contorcer na água fervente!”.

Tremendo, ele olha para a sala e caminha lentamente.

- Orfeu? – chama ele – Você está aí?

Deitado em sua poltrona, o gato olha para ele.

- Venha cá, Orfeu. Eu tenho uma coisa para você.

O gato estranha o comportamento de seu dono. Valentim nunca era amigável assim. Então Orfeu se levanta e corre pela sala.

- Ora, o que você está fazendo, seu gato imprestável?! Você não quer comida? Eu tenho comida para você!

Mas Orfeu o ignora e foge, subindo as escadas.

- Não fuja, gatinho! Isso só piorará as coisas!

Valentim o segue e chega ao seu quarto. Percorrendo o local com o olhar, ele não o encontra em lugar algum.

- Eu sei que você está aí! Esta é minha casa! Eu sei onde você se esconde!

De repente ele vira sua cama e o surpreende debaixo do colchão. Acuado, o gato exibe seus dentes. Valentim tenta apanha-lo, mas o gato se esquiva e o arranha, fazendo-o gritar.

- Gato maldito! – vocifera ele.

Orfeu corre pelo quarto. Valentim abre seus cobertores e o lança sobre ele, fazendo-o se prender nos tecidos.

Segurando o cobertor como um saco, Valentim desce tranquilamente as escadas. O gato miava e se debatia, mas nada conseguia fazer para escapar. Seus comoventes miados eram tão altos que ele chorava.

Na cozinha, a água borbulhava tanto que emitia ruídos. Vozes atormentavam o homem, totalmente tomado pelos intentos malignos.

Valentim para em frente à agua fervente. Ao abrir os cobertores, ele é surpreendido com Orfeu avançando contra seu rosto com a força de quem quer sobreviver. O gato o arranha e pula por sobre as suas costas, desequilibrando-o e fazendo-o se esbarrar contra uma panela. A água se espirra e cai em seu peito.

- Oh, meu Deus! – exclama ele.

A água queima sua pele, fazendo-o uivar de dor. A agonia e o pânico o torturam, acordando-o abruptamente.  Assim Valentim sai de seu transe, dolorido e confuso com tudo o que aconteceu.

Orfeu havia fugido pela janela. Rapidamente Valentim tira as panelas do fogo e se afasta. Suas pernas tremem e, perdendo as forças, ele se senta no chão, paralisando-se por alguns minutos.

Em seguida, Valentim apoia a cabeça nos braços e chora, arrependido com o que acabara de fazer.     

 

 


Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta

(Artista desconhecido) Dias se passam. Yang é mantido em um recinto com sofá, mesa e televisão. Não era bem uma cela, mas uma confortável sa...