O amanhecer do
novo dia veio cheio de sombras e um funéreo silêncio. Valentim não conseguiu
dormir. Ele esperou por Danica a noite toda, atento às batidas na porta. Mas
ela nunca retornou.
Deitado e olhando
para a janela, o novo dia trazia a neblina do mundo dos mortos. O vento frio
soprava e provoca ruídos uivantes. Preocupado, ele teme que sejam os gemidos de
tormento de sua esposa no inferno.
A penumbra ainda
permanecia em sua casa. Descendo as escadas, ele caminha pela sala e se dirige à
porta. Os liublianenses caminhavam apressados pela rua, ocupados em seus
afazeres e indo ao trabalho. Lembrando-se da fábrica, Valentim estava atrasado.
Ele não pode ir trabalhar, não sabendo que sua esposa havia desaparecido.
Desanimando-se, ele
fecha a porta. Ele se dirige à cozinha e, no caminho, encontra Orfeu em sua
poltrona.
- Mas você aí de
novo?! – exclama ele.
Valentim o
espanta dali e o gato foge, assustado.
Abanando a
poltrona, ele se senta e respira fundo. O marido estava cansado e preocupado; ele
mal dormira à noite e não aguentaria outro dia na fábrica. Enquanto pensa a
respeito, seu corpo se esgota e ele adormece.
Alguns minutos se
passam. Dormindo na poltrona, o sono paralisa seu corpo e ele perde a noção do
tempo. De repente ele escuta um som tão alto que o faz acordar em um susto. De
olhos arregalados, ele se ajeita em sua poltrona e olha para a sua casa. Ele se
pergunta:
“O que foi isso?
Foi a porta batendo?”.
Valentim não sabe
o que aconteceu. Levantando-se, ele caminha até a porta e a encontra
perfeitamente fechada. Então ele se confunde.
Algo chama a sua
atenção. Passando de relance aos seus olhos, ele vê um vulto subindo as
escadas. Sua pele se arrepia.
A penumbra era
muito forte e ele não reconhece o intruso. De qualquer forma, o vulto já havia
se mesclado à escuridão e desaparecido.
- Danica...? –
pergunta ele.
Enchendo-se de
coragem, ele pisa no primeiro degrau e começa a subir.
Valentim chega ao
seu quarto e o encontra vazio. Ele se alivia. Após uma noite inteira sem dormir,
era esperado que ele tivesse alucinações. Virando-se, ele intenta voltar à sala
quando ouve um ruído. Algo estava se movendo debaixo da cama.
- Orfeu?
O marido ouve o
ruído mais uma vez e reconhece um gemido. Abrindo o roupeiro, ele pega seu
velho punhal e exclama:
- Quem está aí?!
Agachando-se, ele
sobe os lençóis e lentamente se encurva para espiar lá embaixo. Sinistramente,
alguma coisa se materializa e forma e um corpo à sua frente. Valentim se
espanta. Aquela coisa era escura e tinha olhos amarelos. A aparição sorri,
mostrando seus dentes também amarelados. Valentim está imóvel. Aquilo não era
Orfeu; a coisa era um anão ou uma criança de outro mundo. A cena dura poucos
segundos, mas que se pareceu uma eternidade.
De repente a aparição
avança contra Valentim e ele grita. No impulso, ele cai contra a parede e bate
a cabeça, soltando seu punhal.
Acordando algum
tempo depois, ele ouve Orfeu miando. O gato passeava em sua barriga, miando e tentando
acorda-lo.
Valentim acorda e
vê o gato. Confuso, ele mexe em sua cabeça e sente dor. Ele se levanta e
intenta olhar debaixo da cama mais uma vez. Misteriosamente, a aparição não
estava mais lá. Entretanto ele encontra algo em seu lugar. Esticando seu braço,
ele encontra um livro.
Abanando a capa,
ele lê o título.
“O Banquete”.
Mais abaixo ele
reconhece o autor. Era o famoso filósofo Platão.
Descendo as
escadas, ele se senta em sua poltrona e o investiga melhor. Banquete era seu
nome e ele pensa:
“Eu nem me lembro
da última vez em que participei de um banquete...”.
Valentim pensa
que Danica estava lendo um livro de receitas culinárias. Um pouco irônico, já
que eles mal tinham o que comer.
“E por falar
nisso eu estou morrendo de fome”, lembra-se ele.
Enquanto folheia
as páginas, ele sente Orfeu subindo em seu colo e ronronando até se deitar.
- Mas que
atrevimento! – irrita-se ele.
Valentim o
espanta e volta a ver o livro.
Diferente do que
ele pensou, não era um livro de receitas culinárias, mas de filosofia grega.
Valentim tenta ler algumas palavras, mas sente extrema dificuldade. Ele era
semianalfabeto; trabalhando desde cedo, ele mal recebeu instrução quando
criança. Entretanto, não foi apenas sua condição social que o impediu de se
instruir. Valentim era disléxico. As letras tremiam e ele não conseguia formar
as palavras. Tendo que trabalhar para se sustentar desde cedo, ele nunca teve
tempo de se importar com sua dislexia. Então ele fecha o livro e desiste de
lê-lo.
Ao vira-lo, ele
vê algo diferente na contracapa. Ali haviam palavras formadas por um carimbo.
Com muito esforço ele lê: “biblioteca”.
- Biblioteca? –
pergunta-se ele – Pensei que Danica não frequentasse uma biblioteca há anos...
Diferente de
Valentim, Danica era letrada e um pouco culta. Sua família era devota e, quando
criança, ela recebeu instrução no catecismo. De fato, as melhores escolas da
cidade eram da própria Igreja Católica, e Danica usou sua valiosa instrução
para se aprofundar na cultura. Ela tinha o hábito de frequentar a biblioteca e
emprestar alguns livros, mas com o passar dos anos suas prioridades mudaram e
ela se viu obrigada a auxiliar seu marido no sustento da casa.
Valentim sorri.
Sua esposa era uma pedra preciosa, um diamante bruto entre o povo. Sua
desventura foi ter nascido na classe operária e, mais ainda, ter se casado com
o pobre Valentim.
Então o marido
tem uma grande ideia. Ele decide ir à biblioteca perguntar por Danica.
Levantando-se,
ele pega o livro e parte pelas ruas de Liubliana.
§
A velha
biblioteca ficava no centro da cidade, entre a Turjaška ulica[1],
Gosposka ulica[2]
e a Vegova ulica[3].
Inicialmente o prédio pertencia à Ordem dos Jesuítas, mas no final do século 18
a ordem foi dissolvida e sua biblioteca passou a fazer parte do Império
Austríaco. Livros de toda Carníola eram armazenados lá, e também das demais
províncias ilírias durante a finada administração francesa. Valentim fica feliz
que o legado cultural não tenha sido destruído com a passagem dos poderes em
sua cidade.
Ao entrar no
prédio, Valentim sente o cheiro de madeira, papel e pó. Os móveis eram de
madeira, haviam belos lustres e prateleiras de livros até o teto. Provavelmente
aquela era a primeira vez que ele entrava em uma biblioteca na vida. A mera possibilidade
de ler livros já lhe era muito enfadonha, porém ele nunca recriminou sua amada
Danica por seus interesses literários.
Valentim se
aproxima da recepção e vê um rapaz limpando o balcão.
- Dobro jutro[4].
Eu gostaria de algumas informações sobre este livro.
O rapaz vê o
livro e imediatamente se empolga.
- Uau! O senhor
também lê Platão? Eu o adoro!
Ele se assusta.
- Não, eu...
- Eu estudei
filosofia grega na Áustria! Ele é o meu filósofo preferido, o Platão!
- Na verdade...
- Ele talvez
tenha sido o pai da filosofia, pois as ideias de Sócrates só foram redigidas
porque Platão, seu aluno, as redigiu. Sócrates, na verdade, nunca redigiu
nenhuma obra em sua vida.
- Muito
interessante, mas...
- E “O Banquete”
é parte do legado socrático. Suas escritas em forma de diálogos criaram o que
hoje conhecemos como Dialética.
- Eu gostaria
de...
- E a
dialética...
- Mas que inferno! – grita Valentim,
batendo no balcão e assustando a todos no recinto – Eu não vim aqui para falar
de nenhuma filosofia! Eu vim para perguntar sobre a pessoa que emprestou este
livro!
Valentim arfava
com sua carranca irritada. Ele sempre foi impulsivo e nunca escondeu o seu
jeito ríspido.
Constrangido, o
rapaz se desanima e diz:
- Eu trabalho com
a organização do acervo e não trato diretamente com quem empresta os livros. A
pessoa que você procura está dando uma palestra no anfiteatro. Ela poderá
ajudá-lo.
Valentim bufa,
dando-lhe as costas e indo embora em seguida.
Chegando ao anfiteatro,
ele vê um homem mais velho, de barbas grisalhas e belos trajes ministrando a
palestra. Os espectadores eram pessoas jovens, de melhor condição social e
muito cultas. Valentim nota que ali haviam mais homens do que mulheres.
Procurando um
lugar, ele se senta e espera o palestrante terminar. Ele discursa:
- Diferente do
que se pensa, o Amor Platônico não se trata do amor carnal e dos sentimentos a
outra pessoa; este é apenas um degrau na Scala
Amoris[5].
O Amor Platônico trata-se da evolução do amor físico em direção ao amor da
alma, referindo-se à inteligência, ao caráter e à virtude. Entretanto, há um
paradoxo nesta filosofia. Confundindo-o com “amor socrático”, Sócrates comparou
este sentimento com a pederastia, do qual ele revelava sua atração sexual por
rapazes, especialmente Alcibíades, seu aluno preferido.
Então Valentim
arregala os olhos.
- Visto pela
primeira vez no livro “O Banquete”, Sócrates mantinha um diálogo sobre a
evolução do Eros. O filósofo argumentava que foi por meio da profetisa Diotima
de Mantineia que a evolução surgiu, partindo do amor carnal à contemplação do
divino. Diotima admoestava as pessoas a subirem a Escada do Amor, direcionando
o amor terreno às virtudes divinas. Para tanto, Sócrates orientava seus
interlocutores a alcançar o amor, aquele proposto por Diotima, no que ele
chamava de classificações de gravidez. A gravidez do corpo resulta em filhos; a
gravidez da alma produz a Virtude, que é a alma se manifestando em forma
material. Para Platão, alma significava Ser ou ideia.
Os espectadores
se empolgam, extasiados com sua descoberta. Valentim, porém, não entendia com o
que eles estavam se empolgando.
- Para o Amor
Platônico a beleza física e o sentimento devem apenas inspirar a mente para as
coisas espirituais. Eles se contrapunham do Eros terreno e sexual, ao Eros
divino e espiritual. O Eros divino transcendia a atração pela beleza física
para a contemplação da beleza divina. Apesar de contrapostos, ambos os Eros
estão conectados no mesmo processo de evolução, superando as falhas da natureza
humana e culminando na totalidade do ser, um estágio supremo do qual não
necessita mais de mudança.
Um espectador
pergunta:
- Professor
Ambrož, o que é o Eros?
- Estima-se que
Eros seja um deus grego, relacionado ao amor e à virtude. Mas a profetisa
Diotima propõe que, em sua genealogia, ele seja filho de Poro, o espírito do
artifício, e de Pênia, o espírito da pobreza. Ela afirma que ele não é um deus,
mas um espírito intermediário entre os deuses e os homens. Um espírito superior,
ou como os gregos o chamavam, um daimon.
“Um demônio?”, assusta-se
Valentim.
Continuando, o
palestrante discursa:
- De acordo com a
filosofia grega, a virtude é um conceito, ou seja, o resultado de como a
essência ideal e verdadeira de uma ideia se manifesta na forma material e,
portanto, no mundo real. A definição de virtude sofreu variações com o tempo,
referindo-se àquilo que é bom e benevolente. Porém, Platão o definiu com as
seguintes palavras: “o que é bom é bonito, e o que é bonito é bom”. Aqui se vê
uma preocupação com a estética por parte dos gregos. Isto se torna evidente na Scala Amoris. A Escada do Amor refere-se
a cada degrau na direção do Ser e do Belo. Cada degrau se aproxima da verdade,
distanciando-se da beleza física e avançando ao amor que é mais fundamentado na
sabedoria e na essência da beleza. A exemplo da pederastia de Sócrates, pode-se
dizer que o amor começa na atração carnal, mas progride a um amor da alma. Com
o tempo, a ideia de beleza não estará mais conectada a um corpo, mas à
totalidade do próprio Ser, na ideia estética do Belo.
Os espectadores
se extasiam mais uma vez, maravilhados com a lição. Novamente Valentim não
compreende onde aquilo era tão importante.
O palestrante
continua:
- Na Idade Média,
e depois no Renascentismo, o Amor Platônico foi se categorizando por diversas
subseções. Atualmente existem sete, mas quatro são as mais conhecidas. Estas
são: Eros, popularmente conhecido como um amor sexual, apaixonado e romântico;
Philia, significando a amizade, boa vontade e companheirismo; Storge, o amor
entre pais e filhos; Ágape, um amor universal e irrestrito, de auto sacrifício,
geralmente atribuído a Cristo; Ludus, o amor às brincadeiras e à diversão;
Pragma, que se baseia no dever e na razão; e Philautia, que é o amor próprio e
saudável se for colocado na autoconfiança e autoestima, e doentia se colocado
acima do amor aos deuses. Esta é a definição filosófica de amor. – fechando seu
livro, o palestrante conclui – Damas e cavalheiros, aqui encerro a minha
palestra. Sintam-se a vontade para fazerem suas perguntas.
Imediatamente os
espectadores erguem seus braços, ávidos para tirarem suas dúvidas. Valentim
acha aquilo um absurdo, pois não conseguiu ter interesse nenhum na lição. Então
ele aguarda pacientemente aqueles garotos prepotentes e de boa vida falarem
suas baboseiras enquanto perdem o tempo do professor com seus assuntos.
Enquanto conversam,
Valentim observa os detalhes da biblioteca. Era um prédio antigo e seu interior
tinha decoração que remontava à Idade Média. O silêncio das salas e o vazio dos
corredores lhe evocava medo, como se o lugar fosse mal assombrado. Ele não
duvida que, à noite, o interior era assombrado pelos espíritos ruins, ou mesmo
de dia, enquanto os funcionários trabalhavam e se deparavam com os
desencarnados na escuridão.
Pouco a pouco os
espectadores saem e se despedem do professor. Valentim ouve que muitos são
estudantes das universidades na Áustria. Aquilo era esperado, já que o Império
Austro-húngaro proibiu Carníola de ter sua própria universidade de ensino
superior. Logo o anfiteatro se esvazia e sobram apenas ele e Ambrož lá dentro. Vendo
a oportunidade, ele se levanta e inicia uma conversação.
- Olá, professor
Ambrož. Eu me chamo Valentim e tenho algumas perguntas ao senhor.
- Oh, perdoe-me,
meu senhor. A palestra acabou. Volte novamente semana que vem.
- Não, não é
sobre a palestra. – esclarece ele – Eu tenho algumas perguntas sobre a minha
esposa.
Nesse momento o
professor se intriga. Olhando bem para o homem à sua frente, ele via alguém com
os cabelos penteados para trás, cavanhaque bem feito e um colar de latão em seu
pescoço. Ele usava camiseta semiaberta e exalava seu perfume barato pelo ar. E
então o professor percebe; ele conversava com um plebeu.
- Do que se
tratam suas perguntas, meu senhor?
- O recepcionista
disse que o senhor emprestou este livro à minha esposa. – ele lhe exibe “O
Banquete” de Platão – Quero saber se vocês continuam se vendo.
O professor se
espanta.
- Meu senhor! Não
sei se está passando por problemas em seu casamento, mas eu lhe asseguro que
não estou envolvido em nenhum caso extraconjugal!
Valentim arregala
os olhos.
- Não! – exclama
ele – Não foi isso o que eu quis dizer... A minha esposa desapareceu e não faço
ideia de onde ela está! Pensei que, com sua ajuda, eu poderia encontrar pistas
de onde ela esteja!
- Mas como eu o
ajudaria? Eu sou apenas um bibliotecário!
- Nesta cidade não
existem muitos alfabetizados da minha idade, e minha esposa não empresta um
livro há muito tempo. Seria muito incomum ver uma mulher mais velha lendo. Na
verdade, acho que elas só viriam para uma biblioteca para fazer a faxina... –
explica ele – Se o senhor a visse, o senhor se lembraria, não?
Entediando-se, o
professor pergunta:
- Valentim, não
é? Fique o senhor sabendo que o conhecimento não tem distinção de gênero e
nunca é tarde para aprender. Talvez se o senhor se desprender desses
preconceitos antigos, e parar de medir as pessoas com suas próprias limitações
intelectuais, o senhor possa entender isto. Bom dia.
Dando-lhe as
costas, o professor intenta ir embora. Valentim exclama:
- Eu só quero encontrar a minha esposa, inferno!
– o grito ecoa pelos salões, acordando os supostos espíritos do outro mundo –
Eu já estou farto desse jeito esnobe e altivo! Eu não sou nenhum letrado das
classes dominantes! Eu sou um burro e analfabeto que trabalha de manhã até a
noite para que meus impostos mantenham estas portas abertas! – diz ele, referindo-se
à biblioteca – Me desculpe se eu tenho preconceito com a realidade que o senhor
vive, mas eu te asseguro que a minha realidade é bem mais diferente desta, sendo
a minha mais feia e mais suja, muito além destas pilhas de livros velhos que o
senhor convive aqui!
O professor se assusta com a súbita explosão
de ira do desconhecido. Valentim o encara ferozmente, impaciente e com bastante
vigor.
- Meu senhor!
Contenha-se!
- Apenas me diga
se o senhor a viu! – exclama ele, novamente.
Respirando fundo,
o professor responde:
- Escute, talvez
eu tenha visto uma mulher mais velha aqui, mas isso foi há uma semana. Realmente
não costumo receber muitas mulheres, especialmente uma da baixa classe
operária... – Valentim se ira e ele rapidamente se corrige – Quero dizer... Porque
apenas os mais jovens e instruídos frequentam este lugar. Como o senhor mesmo
disse, são realidades bem diferentes as quais vivemos.
- E vocês
conversaram alguma coisa? Ela disse se iria para algum lugar?
- Não, senhor. Eu
não costumo conversar com os... – ele hesita – Frequentadores.
- Apenas com os
nobres das classes mais altas, não é? – ironiza ele.
- Quis dizer que
são os alunos que vêm até mim. Eu sou um professor, senhor Valentim. Dedico o
meu tempo ao meu trabalho, apenas.
- E aqui eu estou
perdendo o meu.
Valentim se vira
e vai embora. Sua busca na biblioteca havia se mostrado infrutífera. Então Ambrož
o interrompe.
- O senhor disse
que sua esposa está desaparecida, não é? Por acaso o senhor pensou em procurar
a Gendarme?
Virando-se, Valentim
responde:
- De que
adiantaria? Eu sou pobre. Se nem os bibliotecários se importam de falar comigo,
por que eles se importariam?
- Meu senhor, eu
rogo para que pare com esses preconceitos! Sua esposa está desaparecida! Agora
o senhor deve se utilizar de todos os recursos para encontrá-la antes que seja
tarde demais!
Valentim respira
fundo.
“Talvez ele tenha
razão”, pensa ele.
O professor
continua:
- Vá à estação da
Gendarme Austríaca mais tarde. Procure por Tobias. Ele é um inspetor muito
promissor e um brilhante aluno meu. Tenho certeza que ele poderá ajudá-lo.
O marido ri.
- Está me dizendo
para procurar a guarda da elite austríaca?
- Eu estou te
dando uma esperança! Aceite-a! Não volte para casa de mãos vazias.
- Como eu poderia
pedir ajuda aos estrangeiros que trazem mais estrangeiros para nos explorar?
Ouvindo-o, Ambrož
entende um pouco mais das agruras da classe operária.
- O senhor não
costuma frequentar bibliotecas, não é? E hoje o senhor está aqui. Não acredite
que foi por acaso que este livro o trouxe até mim.
Após as sábias
palavras do professor, ele reflete a respeito. Valentim se lembra da pavorosa
aparição debaixo de sua cama; o fantasma lhe revelou o livro, e o livro o
trouxe até Ambrož. Aquilo não podia ser simples coincidência.
O professor se despede:
- Eu devo ir
agora, senhor Valentim. Lhe desejo sorte em encontrar a sua esposa. Tenha um
bom dia.
§
Anoitece em Liubliana. A caminhada de volta
para casa foi longa. Valentim não teve dinheiro para comprar a passagem de trem
e logo não teria mais nenhum. Ele acende as velas e procura por comida na
cozinha. Com sorte ele encontra os ingredientes necessários para fazer o žganci.
O gato mia
pedindo comida. Ele se irrita, mas é incapaz de deixa-lo morrer de fome.
Valentim divide seu žganci e enche
sua vasilha com água.
A casa estava
vazia e silenciosa. Valentim põe as mãos em sua cabeça e se entristece; ele sente
falta da esposa. Sentando-se na poltrona, ele vê um retrato de Danica na
parede. A invenção da fotografia foi uma novidade e todos queriam ter seus
retratos em casa. Ao pegar a moldura, as memórias inundam sua mente. Valentim
se lembra que trabalhou duro para ajuntar dinheiro e pagar por uma foto. Aquele
seria o presente de aniversário para sua esposa.
Lágrimas enchem
os seus olhos. Danica estava eufórica em frente à câmera. A mulher faz uma pose
e sorri alegremente. Valentim adorava ver o brilho em seus olhos. O marido via
em deboche o fotógrafo se esconder debaixo de um manto preto enquanto segurava
aquela caixa de madeira sustentada por um tripé. Ele sorri. Então o fotógrafo
ergue um recipiente com um pó e uma luz se estoura. Valentim se assusta, rindo
como um tolo. Danica sorri também, empolgada com a fotografia. E assim ela
ganhava seu adorável presente.
Segurando o
retrato nas mãos, ele o acaricia. Danica estava tão linda. Uma delicada flor
acariciada pela calejada mão de um trabalhador. Então suas lágrimas caem sobre
o retrato. A dor era forte demais. Valentim nunca teve outra mulher na vida,
mas se ele pudesse voltar atrás e ter outra esposa, ele a rejeitaria e faria
tudo de novo. Apesar de serem casados por tanto tempo, ele nunca duvidou de seu
amor por Danica.
Valentim reflete.
Ele era incompleto sem ela. Ela era tão grande e ele um pequeníssimo
trabalhador braçal. Como um rio que se apaixona pelo mar ou uma colina que se
apaixona pela montanha, ele se sentia pequeno perto da grandeza de sua esposa.
Danica era inteligente, bondosa e virtuosa, alguém que transcendia a beleza
física para um grau superior. E ele a amava em todos os seus graus, irradiando
seu sentimento para as maiores alturas dos patamares divinos.
Como o brilho de uma estrela morta. Um amor
platônico.
[1]
Rua Turjaška
[2]
Rua Gosposka
[3]
Rua Vegova
[4]
Bom dia em esloveno
[5]
Escada do amor em latim

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