domingo, 1 de maio de 2022

Liubliana - 08 - Amor Platônico



O amanhecer do novo dia veio cheio de sombras e um funéreo silêncio. Valentim não conseguiu dormir. Ele esperou por Danica a noite toda, atento às batidas na porta. Mas ela nunca retornou.

Deitado e olhando para a janela, o novo dia trazia a neblina do mundo dos mortos. O vento frio soprava e provoca ruídos uivantes. Preocupado, ele teme que sejam os gemidos de tormento de sua esposa no inferno.

A penumbra ainda permanecia em sua casa. Descendo as escadas, ele caminha pela sala e se dirige à porta. Os liublianenses caminhavam apressados pela rua, ocupados em seus afazeres e indo ao trabalho. Lembrando-se da fábrica, Valentim estava atrasado. Ele não pode ir trabalhar, não sabendo que sua esposa havia desaparecido.

Desanimando-se, ele fecha a porta. Ele se dirige à cozinha e, no caminho, encontra Orfeu em sua poltrona.

- Mas você aí de novo?! – exclama ele.

Valentim o espanta dali e o gato foge, assustado.

Abanando a poltrona, ele se senta e respira fundo. O marido estava cansado e preocupado; ele mal dormira à noite e não aguentaria outro dia na fábrica. Enquanto pensa a respeito, seu corpo se esgota e ele adormece.

Alguns minutos se passam. Dormindo na poltrona, o sono paralisa seu corpo e ele perde a noção do tempo. De repente ele escuta um som tão alto que o faz acordar em um susto. De olhos arregalados, ele se ajeita em sua poltrona e olha para a sua casa. Ele se pergunta:

“O que foi isso? Foi a porta batendo?”.

Valentim não sabe o que aconteceu. Levantando-se, ele caminha até a porta e a encontra perfeitamente fechada. Então ele se confunde.

Algo chama a sua atenção. Passando de relance aos seus olhos, ele vê um vulto subindo as escadas. Sua pele se arrepia.

A penumbra era muito forte e ele não reconhece o intruso. De qualquer forma, o vulto já havia se mesclado à escuridão e desaparecido.

- Danica...? – pergunta ele.

Enchendo-se de coragem, ele pisa no primeiro degrau e começa a subir.

Valentim chega ao seu quarto e o encontra vazio. Ele se alivia. Após uma noite inteira sem dormir, era esperado que ele tivesse alucinações. Virando-se, ele intenta voltar à sala quando ouve um ruído. Algo estava se movendo debaixo da cama.

- Orfeu?

O marido ouve o ruído mais uma vez e reconhece um gemido. Abrindo o roupeiro, ele pega seu velho punhal e exclama:

- Quem está aí?!

Agachando-se, ele sobe os lençóis e lentamente se encurva para espiar lá embaixo. Sinistramente, alguma coisa se materializa e forma e um corpo à sua frente. Valentim se espanta. Aquela coisa era escura e tinha olhos amarelos. A aparição sorri, mostrando seus dentes também amarelados. Valentim está imóvel. Aquilo não era Orfeu; a coisa era um anão ou uma criança de outro mundo. A cena dura poucos segundos, mas que se pareceu uma eternidade.

De repente a aparição avança contra Valentim e ele grita. No impulso, ele cai contra a parede e bate a cabeça, soltando seu punhal.

Acordando algum tempo depois, ele ouve Orfeu miando. O gato passeava em sua barriga, miando e tentando acorda-lo.

Valentim acorda e vê o gato. Confuso, ele mexe em sua cabeça e sente dor. Ele se levanta e intenta olhar debaixo da cama mais uma vez. Misteriosamente, a aparição não estava mais lá. Entretanto ele encontra algo em seu lugar. Esticando seu braço, ele encontra um livro.

Abanando a capa, ele lê o título.

“O Banquete”.

Mais abaixo ele reconhece o autor. Era o famoso filósofo Platão.     

Descendo as escadas, ele se senta em sua poltrona e o investiga melhor. Banquete era seu nome e ele pensa:

“Eu nem me lembro da última vez em que participei de um banquete...”.

Valentim pensa que Danica estava lendo um livro de receitas culinárias. Um pouco irônico, já que eles mal tinham o que comer.

“E por falar nisso eu estou morrendo de fome”, lembra-se ele.

Enquanto folheia as páginas, ele sente Orfeu subindo em seu colo e ronronando até se deitar.

- Mas que atrevimento! – irrita-se ele. 

Valentim o espanta e volta a ver o livro.

Diferente do que ele pensou, não era um livro de receitas culinárias, mas de filosofia grega. Valentim tenta ler algumas palavras, mas sente extrema dificuldade. Ele era semianalfabeto; trabalhando desde cedo, ele mal recebeu instrução quando criança. Entretanto, não foi apenas sua condição social que o impediu de se instruir. Valentim era disléxico. As letras tremiam e ele não conseguia formar as palavras. Tendo que trabalhar para se sustentar desde cedo, ele nunca teve tempo de se importar com sua dislexia. Então ele fecha o livro e desiste de lê-lo.

Ao vira-lo, ele vê algo diferente na contracapa. Ali haviam palavras formadas por um carimbo. Com muito esforço ele lê: “biblioteca”.

- Biblioteca? – pergunta-se ele – Pensei que Danica não frequentasse uma biblioteca há anos...

Diferente de Valentim, Danica era letrada e um pouco culta. Sua família era devota e, quando criança, ela recebeu instrução no catecismo. De fato, as melhores escolas da cidade eram da própria Igreja Católica, e Danica usou sua valiosa instrução para se aprofundar na cultura. Ela tinha o hábito de frequentar a biblioteca e emprestar alguns livros, mas com o passar dos anos suas prioridades mudaram e ela se viu obrigada a auxiliar seu marido no sustento da casa.                  

Valentim sorri. Sua esposa era uma pedra preciosa, um diamante bruto entre o povo. Sua desventura foi ter nascido na classe operária e, mais ainda, ter se casado com o pobre Valentim.

Então o marido tem uma grande ideia. Ele decide ir à biblioteca perguntar por Danica.

Levantando-se, ele pega o livro e parte pelas ruas de Liubliana.

 

§

 

A velha biblioteca ficava no centro da cidade, entre a Turjaška ulica[1], Gosposka ulica[2] e a Vegova ulica[3]. Inicialmente o prédio pertencia à Ordem dos Jesuítas, mas no final do século 18 a ordem foi dissolvida e sua biblioteca passou a fazer parte do Império Austríaco. Livros de toda Carníola eram armazenados lá, e também das demais províncias ilírias durante a finada administração francesa. Valentim fica feliz que o legado cultural não tenha sido destruído com a passagem dos poderes em sua cidade.

Ao entrar no prédio, Valentim sente o cheiro de madeira, papel e pó. Os móveis eram de madeira, haviam belos lustres e prateleiras de livros até o teto. Provavelmente aquela era a primeira vez que ele entrava em uma biblioteca na vida. A mera possibilidade de ler livros já lhe era muito enfadonha, porém ele nunca recriminou sua amada Danica por seus interesses literários.

Valentim se aproxima da recepção e vê um rapaz limpando o balcão. 

- Dobro jutro[4]. Eu gostaria de algumas informações sobre este livro.   

O rapaz vê o livro e imediatamente se empolga.

- Uau! O senhor também lê Platão? Eu o adoro!

Ele se assusta.

- Não, eu...

- Eu estudei filosofia grega na Áustria! Ele é o meu filósofo preferido, o Platão!

- Na verdade...

- Ele talvez tenha sido o pai da filosofia, pois as ideias de Sócrates só foram redigidas porque Platão, seu aluno, as redigiu. Sócrates, na verdade, nunca redigiu nenhuma obra em sua vida.

- Muito interessante, mas...

- E “O Banquete” é parte do legado socrático. Suas escritas em forma de diálogos criaram o que hoje conhecemos como Dialética.

- Eu gostaria de...

- E a dialética...

- Mas que inferno! – grita Valentim, batendo no balcão e assustando a todos no recinto – Eu não vim aqui para falar de nenhuma filosofia! Eu vim para perguntar sobre a pessoa que emprestou este livro!

Valentim arfava com sua carranca irritada. Ele sempre foi impulsivo e nunca escondeu o seu jeito ríspido.

Constrangido, o rapaz se desanima e diz:

- Eu trabalho com a organização do acervo e não trato diretamente com quem empresta os livros. A pessoa que você procura está dando uma palestra no anfiteatro. Ela poderá ajudá-lo.

Valentim bufa, dando-lhe as costas e indo embora em seguida.

Chegando ao anfiteatro, ele vê um homem mais velho, de barbas grisalhas e belos trajes ministrando a palestra. Os espectadores eram pessoas jovens, de melhor condição social e muito cultas. Valentim nota que ali haviam mais homens do que mulheres.

Procurando um lugar, ele se senta e espera o palestrante terminar. Ele discursa:

- Diferente do que se pensa, o Amor Platônico não se trata do amor carnal e dos sentimentos a outra pessoa; este é apenas um degrau na Scala Amoris[5]. O Amor Platônico trata-se da evolução do amor físico em direção ao amor da alma, referindo-se à inteligência, ao caráter e à virtude. Entretanto, há um paradoxo nesta filosofia. Confundindo-o com “amor socrático”, Sócrates comparou este sentimento com a pederastia, do qual ele revelava sua atração sexual por rapazes, especialmente Alcibíades, seu aluno preferido.

Então Valentim arregala os olhos.

- Visto pela primeira vez no livro “O Banquete”, Sócrates mantinha um diálogo sobre a evolução do Eros. O filósofo argumentava que foi por meio da profetisa Diotima de Mantineia que a evolução surgiu, partindo do amor carnal à contemplação do divino. Diotima admoestava as pessoas a subirem a Escada do Amor, direcionando o amor terreno às virtudes divinas. Para tanto, Sócrates orientava seus interlocutores a alcançar o amor, aquele proposto por Diotima, no que ele chamava de classificações de gravidez. A gravidez do corpo resulta em filhos; a gravidez da alma produz a Virtude, que é a alma se manifestando em forma material. Para Platão, alma significava Ser ou ideia.

Os espectadores se empolgam, extasiados com sua descoberta. Valentim, porém, não entendia com o que eles estavam se empolgando.

- Para o Amor Platônico a beleza física e o sentimento devem apenas inspirar a mente para as coisas espirituais. Eles se contrapunham do Eros terreno e sexual, ao Eros divino e espiritual. O Eros divino transcendia a atração pela beleza física para a contemplação da beleza divina. Apesar de contrapostos, ambos os Eros estão conectados no mesmo processo de evolução, superando as falhas da natureza humana e culminando na totalidade do ser, um estágio supremo do qual não necessita mais de mudança.

Um espectador pergunta:

- Professor Ambrož, o que é o Eros?

- Estima-se que Eros seja um deus grego, relacionado ao amor e à virtude. Mas a profetisa Diotima propõe que, em sua genealogia, ele seja filho de Poro, o espírito do artifício, e de Pênia, o espírito da pobreza. Ela afirma que ele não é um deus, mas um espírito intermediário entre os deuses e os homens. Um espírito superior, ou como os gregos o chamavam, um daimon

“Um demônio?”, assusta-se Valentim.

Continuando, o palestrante discursa:

- De acordo com a filosofia grega, a virtude é um conceito, ou seja, o resultado de como a essência ideal e verdadeira de uma ideia se manifesta na forma material e, portanto, no mundo real. A definição de virtude sofreu variações com o tempo, referindo-se àquilo que é bom e benevolente. Porém, Platão o definiu com as seguintes palavras: “o que é bom é bonito, e o que é bonito é bom”. Aqui se vê uma preocupação com a estética por parte dos gregos. Isto se torna evidente na Scala Amoris. A Escada do Amor refere-se a cada degrau na direção do Ser e do Belo. Cada degrau se aproxima da verdade, distanciando-se da beleza física e avançando ao amor que é mais fundamentado na sabedoria e na essência da beleza. A exemplo da pederastia de Sócrates, pode-se dizer que o amor começa na atração carnal, mas progride a um amor da alma. Com o tempo, a ideia de beleza não estará mais conectada a um corpo, mas à totalidade do próprio Ser, na ideia estética do Belo.

Os espectadores se extasiam mais uma vez, maravilhados com a lição. Novamente Valentim não compreende onde aquilo era tão importante.

O palestrante continua:

- Na Idade Média, e depois no Renascentismo, o Amor Platônico foi se categorizando por diversas subseções. Atualmente existem sete, mas quatro são as mais conhecidas. Estas são: Eros, popularmente conhecido como um amor sexual, apaixonado e romântico; Philia, significando a amizade, boa vontade e companheirismo; Storge, o amor entre pais e filhos; Ágape, um amor universal e irrestrito, de auto sacrifício, geralmente atribuído a Cristo; Ludus, o amor às brincadeiras e à diversão; Pragma, que se baseia no dever e na razão; e Philautia, que é o amor próprio e saudável se for colocado na autoconfiança e autoestima, e doentia se colocado acima do amor aos deuses. Esta é a definição filosófica de amor. – fechando seu livro, o palestrante conclui – Damas e cavalheiros, aqui encerro a minha palestra. Sintam-se a vontade para fazerem suas perguntas.

Imediatamente os espectadores erguem seus braços, ávidos para tirarem suas dúvidas. Valentim acha aquilo um absurdo, pois não conseguiu ter interesse nenhum na lição. Então ele aguarda pacientemente aqueles garotos prepotentes e de boa vida falarem suas baboseiras enquanto perdem o tempo do professor com seus assuntos.

Enquanto conversam, Valentim observa os detalhes da biblioteca. Era um prédio antigo e seu interior tinha decoração que remontava à Idade Média. O silêncio das salas e o vazio dos corredores lhe evocava medo, como se o lugar fosse mal assombrado. Ele não duvida que, à noite, o interior era assombrado pelos espíritos ruins, ou mesmo de dia, enquanto os funcionários trabalhavam e se deparavam com os desencarnados na escuridão.

Pouco a pouco os espectadores saem e se despedem do professor. Valentim ouve que muitos são estudantes das universidades na Áustria. Aquilo era esperado, já que o Império Austro-húngaro proibiu Carníola de ter sua própria universidade de ensino superior. Logo o anfiteatro se esvazia e sobram apenas ele e Ambrož lá dentro. Vendo a oportunidade, ele se levanta e inicia uma conversação.

- Olá, professor Ambrož. Eu me chamo Valentim e tenho algumas perguntas ao senhor.

- Oh, perdoe-me, meu senhor. A palestra acabou. Volte novamente semana que vem.

- Não, não é sobre a palestra. – esclarece ele – Eu tenho algumas perguntas sobre a minha esposa.

Nesse momento o professor se intriga. Olhando bem para o homem à sua frente, ele via alguém com os cabelos penteados para trás, cavanhaque bem feito e um colar de latão em seu pescoço. Ele usava camiseta semiaberta e exalava seu perfume barato pelo ar. E então o professor percebe; ele conversava com um plebeu.

- Do que se tratam suas perguntas, meu senhor?

- O recepcionista disse que o senhor emprestou este livro à minha esposa. – ele lhe exibe “O Banquete” de Platão – Quero saber se vocês continuam se vendo.

O professor se espanta.

- Meu senhor! Não sei se está passando por problemas em seu casamento, mas eu lhe asseguro que não estou envolvido em nenhum caso extraconjugal!

Valentim arregala os olhos.

- Não! – exclama ele – Não foi isso o que eu quis dizer... A minha esposa desapareceu e não faço ideia de onde ela está! Pensei que, com sua ajuda, eu poderia encontrar pistas de onde ela esteja!

- Mas como eu o ajudaria? Eu sou apenas um bibliotecário!

- Nesta cidade não existem muitos alfabetizados da minha idade, e minha esposa não empresta um livro há muito tempo. Seria muito incomum ver uma mulher mais velha lendo. Na verdade, acho que elas só viriam para uma biblioteca para fazer a faxina... – explica ele – Se o senhor a visse, o senhor se lembraria, não?

Entediando-se, o professor pergunta:

- Valentim, não é? Fique o senhor sabendo que o conhecimento não tem distinção de gênero e nunca é tarde para aprender. Talvez se o senhor se desprender desses preconceitos antigos, e parar de medir as pessoas com suas próprias limitações intelectuais, o senhor possa entender isto. Bom dia.

Dando-lhe as costas, o professor intenta ir embora. Valentim exclama:

- Eu só quero encontrar a minha esposa, inferno! – o grito ecoa pelos salões, acordando os supostos espíritos do outro mundo – Eu já estou farto desse jeito esnobe e altivo! Eu não sou nenhum letrado das classes dominantes! Eu sou um burro e analfabeto que trabalha de manhã até a noite para que meus impostos mantenham estas portas abertas! – diz ele, referindo-se à biblioteca – Me desculpe se eu tenho preconceito com a realidade que o senhor vive, mas eu te asseguro que a minha realidade é bem mais diferente desta, sendo a minha mais feia e mais suja, muito além destas pilhas de livros velhos que o senhor convive aqui!  

 O professor se assusta com a súbita explosão de ira do desconhecido. Valentim o encara ferozmente, impaciente e com bastante vigor.

- Meu senhor! Contenha-se!

- Apenas me diga se o senhor a viu! – exclama ele, novamente.

Respirando fundo, o professor responde:

- Escute, talvez eu tenha visto uma mulher mais velha aqui, mas isso foi há uma semana. Realmente não costumo receber muitas mulheres, especialmente uma da baixa classe operária... – Valentim se ira e ele rapidamente se corrige – Quero dizer... Porque apenas os mais jovens e instruídos frequentam este lugar. Como o senhor mesmo disse, são realidades bem diferentes as quais vivemos.

- E vocês conversaram alguma coisa? Ela disse se iria para algum lugar?

- Não, senhor. Eu não costumo conversar com os... – ele hesita – Frequentadores.

- Apenas com os nobres das classes mais altas, não é? – ironiza ele.

- Quis dizer que são os alunos que vêm até mim. Eu sou um professor, senhor Valentim. Dedico o meu tempo ao meu trabalho, apenas.    

- E aqui eu estou perdendo o meu.

Valentim se vira e vai embora. Sua busca na biblioteca havia se mostrado infrutífera. Então Ambrož o interrompe.

- O senhor disse que sua esposa está desaparecida, não é? Por acaso o senhor pensou em procurar a Gendarme?

Virando-se, Valentim responde:

- De que adiantaria? Eu sou pobre. Se nem os bibliotecários se importam de falar comigo, por que eles se importariam?

- Meu senhor, eu rogo para que pare com esses preconceitos! Sua esposa está desaparecida! Agora o senhor deve se utilizar de todos os recursos para encontrá-la antes que seja tarde demais!

Valentim respira fundo.

“Talvez ele tenha razão”, pensa ele.

O professor continua:

- Vá à estação da Gendarme Austríaca mais tarde. Procure por Tobias. Ele é um inspetor muito promissor e um brilhante aluno meu. Tenho certeza que ele poderá ajudá-lo.

O marido ri.

- Está me dizendo para procurar a guarda da elite austríaca?

- Eu estou te dando uma esperança! Aceite-a! Não volte para casa de mãos vazias.

- Como eu poderia pedir ajuda aos estrangeiros que trazem mais estrangeiros para nos explorar?

Ouvindo-o, Ambrož entende um pouco mais das agruras da classe operária.

- O senhor não costuma frequentar bibliotecas, não é? E hoje o senhor está aqui. Não acredite que foi por acaso que este livro o trouxe até mim.

Após as sábias palavras do professor, ele reflete a respeito. Valentim se lembra da pavorosa aparição debaixo de sua cama; o fantasma lhe revelou o livro, e o livro o trouxe até Ambrož. Aquilo não podia ser simples coincidência.

O professor se despede:

- Eu devo ir agora, senhor Valentim. Lhe desejo sorte em encontrar a sua esposa. Tenha um bom dia.

 

§

  

   Anoitece em Liubliana. A caminhada de volta para casa foi longa. Valentim não teve dinheiro para comprar a passagem de trem e logo não teria mais nenhum. Ele acende as velas e procura por comida na cozinha. Com sorte ele encontra os ingredientes necessários para fazer o žganci.

O gato mia pedindo comida. Ele se irrita, mas é incapaz de deixa-lo morrer de fome. Valentim divide seu žganci e enche sua vasilha com água.  

A casa estava vazia e silenciosa. Valentim põe as mãos em sua cabeça e se entristece; ele sente falta da esposa. Sentando-se na poltrona, ele vê um retrato de Danica na parede. A invenção da fotografia foi uma novidade e todos queriam ter seus retratos em casa. Ao pegar a moldura, as memórias inundam sua mente. Valentim se lembra que trabalhou duro para ajuntar dinheiro e pagar por uma foto. Aquele seria o presente de aniversário para sua esposa.

Lágrimas enchem os seus olhos. Danica estava eufórica em frente à câmera. A mulher faz uma pose e sorri alegremente. Valentim adorava ver o brilho em seus olhos. O marido via em deboche o fotógrafo se esconder debaixo de um manto preto enquanto segurava aquela caixa de madeira sustentada por um tripé. Ele sorri. Então o fotógrafo ergue um recipiente com um pó e uma luz se estoura. Valentim se assusta, rindo como um tolo. Danica sorri também, empolgada com a fotografia. E assim ela ganhava seu adorável presente.

Segurando o retrato nas mãos, ele o acaricia. Danica estava tão linda. Uma delicada flor acariciada pela calejada mão de um trabalhador. Então suas lágrimas caem sobre o retrato. A dor era forte demais. Valentim nunca teve outra mulher na vida, mas se ele pudesse voltar atrás e ter outra esposa, ele a rejeitaria e faria tudo de novo. Apesar de serem casados por tanto tempo, ele nunca duvidou de seu amor por Danica.

Valentim reflete. Ele era incompleto sem ela. Ela era tão grande e ele um pequeníssimo trabalhador braçal. Como um rio que se apaixona pelo mar ou uma colina que se apaixona pela montanha, ele se sentia pequeno perto da grandeza de sua esposa. Danica era inteligente, bondosa e virtuosa, alguém que transcendia a beleza física para um grau superior. E ele a amava em todos os seus graus, irradiando seu sentimento para as maiores alturas dos patamares divinos.  

   Como o brilho de uma estrela morta. Um amor platônico.

 

 



[1] Rua Turjaška

[2] Rua Gosposka

[3] Rua Vegova

[4] Bom dia em esloveno

[5] Escada do amor em latim

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