sábado, 23 de abril de 2022

Liubliana - 07 - O Desaparecimento de Danica


(Artista desconhecido)  


De volta ao presente, Valentim almoça com seus colegas da fábrica. Ele se distrai, lembrando-se de sua vida com Danica. Os anos se passaram. A vida foi um pouco cruel. Seu passado com ela foi cheio de altos e baixos, adversidades que poucos casais que realmente se amam suportariam juntos.

Valentim se lembra do imperador visitando a cidade. Ele veio pessoalmente apresentar ao povo a chegada dos investimentos ingleses. O imperador havia prometido desenvolvimento industrial e o progresso a Carníola, fonte da substância de nome Plasma. Olhando para aquela fábrica imunda e seu emprego de semiescravidão, ele vê o resultado desse “progresso”.

Seus colegas comiam o žganci, a famosa refeição dos pobres e dos trabalhadores braçais. O prato era feito de farinha de trigo sarraceno, milho ou uma combinação de batata e farinha de trigo. Era fervido com água, óleo de cozinha e sal. A refeição era tão popular que os carníolos tinham um famoso dizer: “o žganci é o pedestal de Carníola”. De fato, o prato era crucial para a sobrevivência da população, pois podia ser servido como café da manhã ou almoço. Também podia ser reaquecido para a janta ou o café da manhã do dia seguinte.

Diferente deles, Valentim não comia a “refeição dos pobres”. Danica pegou alguns pães velhos e os misturou em uma sopa de legumes. Ao pegar os pães, o marido desconfiou que sua esposa ficaria sem café da manhã. Ele perguntou:

- Dani, se eu levar meu almoço, você não ficará sem ter o que comer hoje?

- Não se preocupe, Vali. Há mais pães na cozinha.

Mas mesmo Orfeu miava de fome; passeando entre suas pernas, ele lhes pedia por comida. Olhando para sua esposa, Valentim percebe que ela respondera de maneira estranha. Seu semblante estava distante e abatido.

- Isto aqui são apenas sobras, Dani. Não poderei levar sabendo que só tem isso.

- Valentim, eu te asseguro, não ficarei sem comida hoje.

Ao olhar para a cozinha, ele a via com os armários vazios como sempre.

- Eu lamento, Dani, mas não poderei leva-los. Não há mais comida alguma aí.

Então ela se enfurece e exclama:

- Eu quero que o diabo me carregue para o inferno se não houver mais comida aqui!

Valentim se espanta e até o gato foge, assustado.

- Danica...!

 Aquilo era blasfêmia. Danica, uma mulher devota na igreja, jamais diria uma coisa dessas. Arfando de ódio, a vela iluminava o seu rosto irascível. Sem saber o que lhe passava, o marido pergunta:

- Dani, está tudo bem?

Virando-se, a esposa põe as mãos na cabeça e responde:

- Valentim, apenas pegue o seu almoço e vá.

A mulher falava como se estivesse prestes a ter um colapso nervoso.

- Mas, Dani...

- Vá embora!

Assustando-se, o marido se silencia. Então ele pega sua marmita e deixa a casa.

 

§

 

Vendo a panelinha enrolada delicadamente com um pano de guardanapo, ele pensa:

“Tudo o que ela faz é com bastante carinho”.

A sopa não tinha um sabor bom ou boa aparência, mas garantiria sua sobrevivência por mais um dia.

“Teu esforço não será em vão, minha esposa. Eu prometo”.

Sentados em troncos, seus colegas comiam com colheres tortas. Então eles começam a falar de filhos. Valentim ouve a conversa e descobre que todos ali eram pais. Alguns tinham seus filhos de seis anos trabalhando naquela mesma fábrica. Ele nota como ali havia mesmo muitas crianças; elas esfregavam o piso e lavavam tecidos em tanques com sabão.  

Um homem ruivo olha para ele e pergunta:

- E você, Valentim? Você tem filhos?

Ele responde:

- Não, senhor.

Todos se espantam. Valentim tinha a aparência de um homem maduro de quarenta anos.

- Por que não? – pergunta o ruivo – Tem problemas de virilidade? – brinca ele.

As memórias amargas inundam sua mente. Danica engravidou três vezes e todas terminaram em lamentáveis tragédias. Na primeira ela perdeu o bebê enquanto dormia; na segunda seu pai a estapeou, fazendo-a perder a gravidez; e na terceira, o bebê nasceu morto, abalando os familiares e vizinhos.

Com dificuldade em controlar a garganta, ele responde:

- Eu... – ele hesita – Minha esposa não pode ter filhos.

- Ela é estéril?

- Não. – esclarece ele – Nós decidimos não tentar mais desde a última vez.

Seus colegas se intrigam, não conseguindo entender.

- Decidiram não tentar mais? E como conseguiram?

- Como assim?

- Queremos saber como, pois creio que deve ser muito difícil evita-los durante a intimidade.

Valentim se constrange.

- Este não é um assunto que eu gosto de falar a respeito.

- Mas...

- Ei, pare já, cabelo de fogo! Você não vê que o deixou constrangido? – interrompe alguém.

O ruivo desiste de questiona-lo e o deixa em paz. Valentim fica em um silêncio pesaroso; apesar do fato ser há quase vinte anos, as memórias ainda eram vívidas em sua mente.

Olhando para um homem de barba castanha, o ruivo pergunta:

- E você, Cvetko[1]? Você tem filhos?

O homem se assusta, parecendo esconder algo.

- Não. – responde ele – Eu tinha.

Todos se intrigam.

- Tinha? – interessa-se ele – O que houve?

- Não sei se vocês vão querer saber.

- Ora, você está entre homens aqui! Ninguém está acima dos erros e da culpa!

O homem sorri.

- Está bem. – então ele baixa sua cabeça e conta sua história revirando a comida – Eu vivia no campo antes de me mudar para a cidade. Nossa família costumava plantar trigo ao sul de Carníola. A situação financeira estava má. Durante a guerra, o império fez requisições cada vez mais altas para suprir o exército. Então os prussianos venceram e não tínhamos mais o que comer...

- Ora, isso é bem trágico! – comenta alguém.

- Acho que todos aqui passamos por isso.

Cvetko continua:

- Minha família quis vir para a cidade. Disseram que os ingleses pretendiam instalar indústrias aqui. Mas eu quis ficar porque sou do campo e agricultura é tudo o que eu sei fazer. – explica ele – Então um dia eu me propus a recuperar o campo e replantar o trigo. Fui ao vilarejo e comprei veneno para as pragas, colocando-o em um garrafão de vinho. Ao trazê-lo para casa, eu o deixei na porta da cozinha e fui ao campo. Meu filho de três anos viu a garrafa e pensou que era suco, pois minha família costumava encher as garrafas de suco ao se esgotar o vinho. – nesse momento ele começa a enfraquecer a voz – Meu menino abriu a garrafa, viu o veneno e o tomou. Não sei como ele conseguiu abri-la, mas suas mãozinhas fizeram força. Desde cedo e ele já era forte como o pai... – sorri ele – Depois ele chamou minha sobrinha e a ofereceu também. Se minha mãe não chegasse a tempo ela também teria bebido.

Seus colegas ouvem atônitos e em silêncio. Ele continua:

- Eu o coloquei em minha carroça e corri ao médico do vilarejo. Meu menino foi no colo da mãe. Ele estava pálido, seus olhos se reviravam e seus lábios estavam roxos. O vômito era tanto que ensopava suas roupas. Enquanto a carroça seguia eu batia tão forte na rédea que feri o cavalo. Mas eu não me importei, continuei batendo até o sangue se espirrar em minhas roupas... – lágrimas se escorrem – Chegando no destino, eu peguei meu menino no colo, mas não havia mais tempo. – ele hesita – Meu filho havia falecido.

Então todos se horrorizam.

Um silêncio pesado paira no grupo. Um minuto depois alguém olha para o ruivo e diz:

- Ei, cabelo de fogo. Que tal falarmos de outra coisa?

O apito assopra, liberando o vapor. O horário de almoço acaba e todos voltam a trabalhar em silêncio.

 

§

 

Finado o expediente, Valentim volta para casa. Ele passa pelas ruas e becos sinuosos de Liubliana. A noite chegara e ventava frio. Acostumado a situações difíceis em sua vida, ele não se importa.

Suas roupas estavam suadas e levemente esverdeadas. Na fábrica, a caldeira de Plasma assoprava sobre ele, impregnando suas roupas. Passando nos becos, elas curiosamente brilhavam no escuro.

Nas ruas abertas, ele vê as carruagens autômatas. Aos poucos elas tomavam a cidade, substituindo aquelas puxadas por cavalos. Liubliana, uma cidade pacata de prédios claros e telhados vermelhos, perdia a tonalidade para o onipresente verde. O vapor do Plasma estava em toda parte, nas máquinas industriais, nas carruagens autômatas e até na iluminação dos postes. Valentim não sabia o que era aquela substância, mas ela parecia se adaptar bem ao seu uso.

Os operários ingleses também voltavam para a casa. Eles se dirigem ao seu bairro ao norte da cidade. Nem todos eram maus e Valentim se sente um preconceituoso ao iguala-los aos seus patrões burgueses. Pensando novamente, se a burguesia era a nova nobreza da Inglaterra, ele preferia a tirania de seus próprios nobres austro-húngaros.

Próximo ao Rio Liublianica, as carruagens de bombeiros passavam apressadamente. Mesmo os guardas da Gendarme Austríaca[2] pareciam bastante afoitos aquela noite. Enquanto caminha, Valentim estranha a pressa incomum em sua cidade provinciana.

 Ao longe, ele vê um incêndio. Ele se aproxima e vê uma casa em chamas no meio de um bairro de operários. A Gendarme isola o local enquanto os bombeiros tentam apagar o fogo. Os residentes e curiosos se aglomeravam, querendo ver o que estava acontecendo. Valentim vê um casal conversando e pergunta:

- Boa noite, senhores. O que houve aqui?

O homem olha para Valentim e responde:

- É a Helena, nossa vizinha. Ela causou o incêndio.

- Por quê?

Desta vez a mulher responde:

- Ela se cansou de ser agredida e humilhada por seu marido. Ela esperou ele dormir, derramou Plasma pela casa inteira e depois ateou fogo. Maldito porco alcóolatra... Teve o que merecia.  

Ao ouvi-la, ele se surpreende.

- Por que o marido guardava Plasma em sua casa?

O homem sorri.

- Ora, essa! Você não viu o que os ingleses conseguiram? Eles o transformaram em combustível. E isso faz dois anos já! – ri ele – O marido alcóolatra o guardava porque trabalhava em seu refinamento. Trapaceiro e ladrão como era, ele o roubou na intenção de vende-lo a algum trambiqueiro por aí!

Então Valentim se constrange. Se ele soubesse que secretamente vendiam o Plasma, ele o compraria para que Danica não precisasse mais acender o fogo com lenha e carvão.

- E ele morreu?

Os dois estranham a pergunta óbvia.

- Certamente, oras!

A Gendarme guardava uma carruagem com rifles em mãos. Ele pergunta:

- E quanto a esposa? Os guardas conseguiram prende-la?

- Sim. Ela está ali dentro da carruagem. A pobre coitada passará o resto de seus dias na prisão.

A mulher complementa:

- Eu não entendo por que ela fez isso. Ela era tão calma e amigável! Não sei por que Deus colocou um fardo tão pesado em seus ombros como o seu marido, mas jamais pensei que um dia ela fosse capaz de mata-lo. E pior: queimando-o vivo.

Valentim se espanta.

- Uma onda de violência se espalha pela cidade. Nunca antes se viu um aumento tão grande na criminalidade assim. Pessoas estão sendo assassinadas, outras estão desaparecidas... Ninguém mais quer sair à noite. – afirma o homem – Isso só pode ser culpa dos ingleses! Não havia nada disso antes deles morarem aqui!

- Ou é culpa do Plasma. – sugere a mulher – Lembre-se que os ingleses só vieram após sua descoberta e a convite do próprio império. Ninguém sabe de onde ele veio. Talvez devêssemos estuda-lo melhor antes de mexer com algo tão misterioso. Mas vocês conhecem o Homem; sempre egoísta e ganancioso em seu intento.

- De qualquer forma... – conclui ele, suspirando – Esta cidade está ficando louca.

Valentim concorda em silêncio.

Enquanto a casa arde em chamas, o inspetor caminha ao redor. Valentim o observa e vê um homem de casaco marrom e cabelos loiros. Algo lhe chama a atenção, um fascínio misturado com um incômodo que ele não consegue compreender. Parecia que, de alguma forma, eles se conheciam há muito tempo. Então seus olhares se encontram e o inspetor se intriga. Eles se encaram por alguns segundos. Valentim e o inspetor não sabiam, mas seus destinos estavam traçados e suas vidas mudariam para sempre.

A madeira se estrala e o telhado da casa cede, levantando uma onda de brasa pela rua. A fumaça o sufoca e Valentim se afasta. Temendo por sua segurança, ele se vira e decide voltar para casa.

Caminhando em silêncio, ele vê os postes iluminando a rua com a chama verde. Valentim pensa em falar para sua esposa sobre o filho falecido de seu colega. Ele estima que, ao saber que outros também perderam seus filhos, a história aplacará a sua dor. Sua casa se aproxima e ele já consegue ver a porta de entrada. O vento sopra mais frio e ele abotoa o casaco, aquecendo-se.

Ao abrir a porta, ele se intriga; ela estava entreaberta. Adentrando a casa, ele a encontra vazia e silenciosa. Entretanto, as velas estavam acesas.

- Dani! Eu cheguei! – alerta ele.

 Caminhando pela sala, ele encontra o gato Orfeu em sua poltrona. Irritando-se, ele pensa:

“Mas que peste! Agora minhas roupas ficarão cheias de pelos!”.

Espantando-o, ele abana o estofado e depois vai para a cozinha. Um silêncio funéreo pairava nela. Os armários, as panelas e todo o resto estava em perfeita ordem. A janela estava fechada e ele conseguia ver o beco lá fora.

Subindo as escadas, seus passos rangiam sinistramente pela escuridão. Ele chega ao seu quarto e também o encontra vazio. A cama e o roupeiro estavam arrumados; não havia sinal de desordem em lugar algum. Valentim se intriga.

Ele desce as escadas e chama por sua esposa.

- Danica! Onde você está?

Não encontrando-a, ele se desespera. Sua esposa jamais sairia à noite assim.

Valentim deixa a casa e dá a volta pelos becos. Eles estavam vazios e sinistros como um cemitério. Nas ruas ele via apenas as carruagens e as pessoas voltando apressadas para casa. Então ele põe as mãos nos cabelos e olha ao redor, confuso.

Voltando para a casa, ele encontra Orfeu novamente em sua poltrona. Preocupado como estava, ele nem teve tempo de se irritar com ele. Valentim estava desesperado; ele olhava ao redor e não sabia o que fazer.

Ele sobe as escadas e checa novamente o quarto. Não havia ninguém. Com as pernas trêmulas, ele se senta na cama e sente o seu coração disparar. O medo o havia subjugado. Suor se escorre de sua testa e sua boca fica seca. Em pânico ele reconhece. Não havia mais onde procurar.

Danica havia desaparecido.

 

 



[1] Lê-se “svetko”. Significa flor em esloveno

[2] Instituição equivalente à Polícia Militar

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