De volta ao
presente, Valentim almoça com seus colegas da fábrica. Ele se distrai,
lembrando-se de sua vida com Danica. Os anos se passaram. A vida foi um pouco
cruel. Seu passado com ela foi cheio de altos e baixos, adversidades que poucos
casais que realmente se amam suportariam juntos.
Valentim se
lembra do imperador visitando a cidade. Ele veio pessoalmente apresentar ao
povo a chegada dos investimentos ingleses. O imperador havia prometido
desenvolvimento industrial e o progresso a Carníola, fonte da substância de
nome Plasma. Olhando para aquela fábrica imunda e seu emprego de semiescravidão,
ele vê o resultado desse “progresso”.
Seus colegas
comiam o žganci, a famosa refeição
dos pobres e dos trabalhadores braçais. O prato era feito de farinha de trigo
sarraceno, milho ou uma combinação de batata e farinha de trigo. Era fervido
com água, óleo de cozinha e sal. A refeição era tão popular que os carníolos
tinham um famoso dizer: “o žganci é o
pedestal de Carníola”. De fato, o prato era crucial para a sobrevivência da
população, pois podia ser servido como café da manhã ou almoço. Também podia
ser reaquecido para a janta ou o café da manhã do dia seguinte.
Diferente deles,
Valentim não comia a “refeição dos pobres”. Danica pegou alguns pães velhos e
os misturou em uma sopa de legumes. Ao pegar os pães, o marido desconfiou que
sua esposa ficaria sem café da manhã. Ele perguntou:
- Dani, se eu
levar meu almoço, você não ficará sem ter o que comer hoje?
- Não se
preocupe, Vali. Há mais pães na cozinha.
Mas mesmo Orfeu
miava de fome; passeando entre suas pernas, ele lhes pedia por comida. Olhando
para sua esposa, Valentim percebe que ela respondera de maneira estranha. Seu
semblante estava distante e abatido.
- Isto aqui são
apenas sobras, Dani. Não poderei levar sabendo que só tem isso.
- Valentim, eu te
asseguro, não ficarei sem comida hoje.
Ao olhar para a
cozinha, ele a via com os armários vazios como sempre.
- Eu lamento,
Dani, mas não poderei leva-los. Não há mais comida alguma aí.
Então ela se
enfurece e exclama:
- Eu quero que o diabo me carregue para o
inferno se não houver mais comida aqui!
Valentim se
espanta e até o gato foge, assustado.
- Danica...!
Aquilo era blasfêmia. Danica, uma mulher
devota na igreja, jamais diria uma coisa dessas. Arfando de ódio, a vela
iluminava o seu rosto irascível. Sem saber o que lhe passava, o marido
pergunta:
- Dani, está tudo
bem?
Virando-se, a
esposa põe as mãos na cabeça e responde:
- Valentim,
apenas pegue o seu almoço e vá.
A mulher falava
como se estivesse prestes a ter um colapso nervoso.
- Mas, Dani...
- Vá embora!
Assustando-se, o
marido se silencia. Então ele pega sua marmita e deixa a casa.
§
Vendo a panelinha
enrolada delicadamente com um pano de guardanapo, ele pensa:
“Tudo o que ela
faz é com bastante carinho”.
A sopa não tinha
um sabor bom ou boa aparência, mas garantiria sua sobrevivência por mais um
dia.
“Teu esforço não
será em vão, minha esposa. Eu prometo”.
Sentados em
troncos, seus colegas comiam com colheres tortas. Então eles começam a falar de
filhos. Valentim ouve a conversa e descobre que todos ali eram pais. Alguns
tinham seus filhos de seis anos trabalhando naquela mesma fábrica. Ele nota
como ali havia mesmo muitas crianças; elas esfregavam o piso e lavavam tecidos
em tanques com sabão.
Um homem ruivo
olha para ele e pergunta:
- E você,
Valentim? Você tem filhos?
Ele responde:
- Não, senhor.
Todos se
espantam. Valentim tinha a aparência de um homem maduro de quarenta anos.
- Por que não? –
pergunta o ruivo – Tem problemas de virilidade? – brinca ele.
As memórias
amargas inundam sua mente. Danica engravidou três vezes e todas terminaram em
lamentáveis tragédias. Na primeira ela perdeu o bebê enquanto dormia; na segunda
seu pai a estapeou, fazendo-a perder a gravidez; e na terceira, o bebê nasceu
morto, abalando os familiares e vizinhos.
Com dificuldade
em controlar a garganta, ele responde:
- Eu... – ele
hesita – Minha esposa não pode ter filhos.
- Ela é estéril?
- Não. –
esclarece ele – Nós decidimos não tentar mais desde a última vez.
Seus colegas se
intrigam, não conseguindo entender.
- Decidiram não
tentar mais? E como conseguiram?
- Como assim?
- Queremos saber
como, pois creio que deve ser muito difícil evita-los durante a intimidade.
Valentim se
constrange.
- Este não é um
assunto que eu gosto de falar a respeito.
- Mas...
- Ei, pare já,
cabelo de fogo! Você não vê que o deixou constrangido? – interrompe alguém.
O ruivo desiste
de questiona-lo e o deixa em paz. Valentim fica em um silêncio pesaroso; apesar
do fato ser há quase vinte anos, as memórias ainda eram vívidas em sua mente.
Olhando para um
homem de barba castanha, o ruivo pergunta:
- E você, Cvetko[1]?
Você tem filhos?
O homem se
assusta, parecendo esconder algo.
- Não. – responde
ele – Eu tinha.
Todos se
intrigam.
- Tinha? –
interessa-se ele – O que houve?
- Não sei se
vocês vão querer saber.
- Ora, você está
entre homens aqui! Ninguém está acima dos erros e da culpa!
O homem sorri.
- Está bem. – então
ele baixa sua cabeça e conta sua história revirando a comida – Eu vivia no
campo antes de me mudar para a cidade. Nossa família costumava plantar trigo ao
sul de Carníola. A situação financeira estava má. Durante a guerra, o império
fez requisições cada vez mais altas para suprir o exército. Então os prussianos
venceram e não tínhamos mais o que comer...
- Ora, isso é bem
trágico! – comenta alguém.
- Acho que todos
aqui passamos por isso.
Cvetko continua:
- Minha família
quis vir para a cidade. Disseram que os ingleses pretendiam instalar indústrias
aqui. Mas eu quis ficar porque sou do campo e agricultura é tudo o que eu sei
fazer. – explica ele – Então um dia eu me propus a recuperar o campo e
replantar o trigo. Fui ao vilarejo e comprei veneno para as pragas, colocando-o
em um garrafão de vinho. Ao trazê-lo para casa, eu o deixei na porta da cozinha
e fui ao campo. Meu filho de três anos viu a garrafa e pensou que era suco,
pois minha família costumava encher as garrafas de suco ao se esgotar o vinho.
– nesse momento ele começa a enfraquecer a voz – Meu menino abriu a garrafa,
viu o veneno e o tomou. Não sei como ele conseguiu abri-la, mas suas mãozinhas
fizeram força. Desde cedo e ele já era forte como o pai... – sorri ele – Depois
ele chamou minha sobrinha e a ofereceu também. Se minha mãe não chegasse a
tempo ela também teria bebido.
Seus colegas
ouvem atônitos e em silêncio. Ele continua:
- Eu o coloquei
em minha carroça e corri ao médico do vilarejo. Meu menino foi no colo da mãe.
Ele estava pálido, seus olhos se reviravam e seus lábios estavam roxos. O
vômito era tanto que ensopava suas roupas. Enquanto a carroça seguia eu batia
tão forte na rédea que feri o cavalo. Mas eu não me importei, continuei batendo
até o sangue se espirrar em minhas roupas... – lágrimas se escorrem – Chegando no
destino, eu peguei meu menino no colo, mas não havia mais tempo. – ele hesita –
Meu filho havia falecido.
Então todos se
horrorizam.
Um silêncio
pesado paira no grupo. Um minuto depois alguém olha para o ruivo e diz:
- Ei, cabelo de
fogo. Que tal falarmos de outra coisa?
O apito assopra,
liberando o vapor. O horário de almoço acaba e todos voltam a trabalhar em
silêncio.
§
Finado o
expediente, Valentim volta para casa. Ele passa pelas ruas e becos sinuosos de
Liubliana. A noite chegara e ventava frio. Acostumado a situações difíceis em
sua vida, ele não se importa.
Suas roupas
estavam suadas e levemente esverdeadas. Na fábrica, a caldeira de Plasma assoprava
sobre ele, impregnando suas roupas. Passando nos becos, elas curiosamente
brilhavam no escuro.
Nas ruas abertas,
ele vê as carruagens autômatas. Aos poucos elas tomavam a cidade, substituindo
aquelas puxadas por cavalos. Liubliana, uma cidade pacata de prédios claros e
telhados vermelhos, perdia a tonalidade para o onipresente verde. O vapor do
Plasma estava em toda parte, nas máquinas industriais, nas carruagens autômatas
e até na iluminação dos postes. Valentim não sabia o que era aquela substância,
mas ela parecia se adaptar bem ao seu uso.
Os operários
ingleses também voltavam para a casa. Eles se dirigem ao seu bairro ao norte da
cidade. Nem todos eram maus e Valentim se sente um preconceituoso ao iguala-los
aos seus patrões burgueses. Pensando novamente, se a burguesia era a nova
nobreza da Inglaterra, ele preferia a tirania de seus próprios nobres
austro-húngaros.
Próximo ao Rio
Liublianica, as carruagens de bombeiros passavam apressadamente. Mesmo os
guardas da Gendarme Austríaca[2]
pareciam bastante afoitos aquela noite. Enquanto caminha, Valentim estranha a
pressa incomum em sua cidade provinciana.
Ao longe, ele vê um incêndio. Ele se aproxima e
vê uma casa em chamas no meio de um bairro de operários. A Gendarme isola o
local enquanto os bombeiros tentam apagar o fogo. Os residentes e curiosos se
aglomeravam, querendo ver o que estava acontecendo. Valentim vê um casal
conversando e pergunta:
- Boa noite,
senhores. O que houve aqui?
O homem olha para
Valentim e responde:
- É a Helena,
nossa vizinha. Ela causou o incêndio.
- Por quê?
Desta vez a
mulher responde:
- Ela se cansou
de ser agredida e humilhada por seu marido. Ela esperou ele dormir, derramou
Plasma pela casa inteira e depois ateou fogo. Maldito porco alcóolatra... Teve
o que merecia.
Ao ouvi-la, ele
se surpreende.
- Por que o
marido guardava Plasma em sua casa?
O homem sorri.
- Ora, essa! Você
não viu o que os ingleses conseguiram? Eles o transformaram em combustível. E
isso faz dois anos já! – ri ele – O marido alcóolatra o guardava porque
trabalhava em seu refinamento. Trapaceiro e ladrão como era, ele o roubou na
intenção de vende-lo a algum trambiqueiro por aí!
Então Valentim se
constrange. Se ele soubesse que secretamente vendiam o Plasma, ele o compraria
para que Danica não precisasse mais acender o fogo com lenha e carvão.
- E ele morreu?
Os dois estranham
a pergunta óbvia.
- Certamente,
oras!
A Gendarme
guardava uma carruagem com rifles em mãos. Ele pergunta:
- E quanto a
esposa? Os guardas conseguiram prende-la?
- Sim. Ela está ali
dentro da carruagem. A pobre coitada passará o resto de seus dias na prisão.
A mulher
complementa:
- Eu não entendo
por que ela fez isso. Ela era tão calma e amigável! Não sei por que Deus
colocou um fardo tão pesado em seus ombros como o seu marido, mas jamais pensei
que um dia ela fosse capaz de mata-lo. E pior: queimando-o vivo.
Valentim se
espanta.
- Uma onda de
violência se espalha pela cidade. Nunca antes se viu um aumento tão grande na
criminalidade assim. Pessoas estão sendo assassinadas, outras estão
desaparecidas... Ninguém mais quer sair à noite. – afirma o homem – Isso só
pode ser culpa dos ingleses! Não havia nada disso antes deles morarem aqui!
- Ou é culpa do
Plasma. – sugere a mulher – Lembre-se que os ingleses só vieram após sua
descoberta e a convite do próprio império. Ninguém sabe de onde ele veio.
Talvez devêssemos estuda-lo melhor antes de mexer com algo tão misterioso. Mas
vocês conhecem o Homem; sempre egoísta e ganancioso em seu intento.
- De qualquer
forma... – conclui ele, suspirando – Esta cidade está ficando louca.
Valentim concorda
em silêncio.
Enquanto a casa
arde em chamas, o inspetor caminha ao redor. Valentim o observa e vê um homem
de casaco marrom e cabelos loiros. Algo lhe chama a atenção, um fascínio
misturado com um incômodo que ele não consegue compreender. Parecia que, de
alguma forma, eles se conheciam há muito tempo. Então seus olhares se encontram
e o inspetor se intriga. Eles se encaram por alguns segundos. Valentim e o
inspetor não sabiam, mas seus destinos estavam traçados e suas vidas mudariam
para sempre.
A madeira se
estrala e o telhado da casa cede, levantando uma onda de brasa pela rua. A
fumaça o sufoca e Valentim se afasta. Temendo por sua segurança, ele se vira e
decide voltar para casa.
Caminhando em
silêncio, ele vê os postes iluminando a rua com a chama verde. Valentim pensa
em falar para sua esposa sobre o filho falecido de seu colega. Ele estima que,
ao saber que outros também perderam seus filhos, a história aplacará a sua dor.
Sua casa se aproxima e ele já consegue ver a porta de entrada. O vento sopra
mais frio e ele abotoa o casaco, aquecendo-se.
Ao abrir a porta,
ele se intriga; ela estava entreaberta. Adentrando a casa, ele a encontra vazia
e silenciosa. Entretanto, as velas estavam acesas.
- Dani! Eu
cheguei! – alerta ele.
Caminhando pela sala, ele encontra o gato
Orfeu em sua poltrona. Irritando-se, ele pensa:
“Mas que peste!
Agora minhas roupas ficarão cheias de pelos!”.
Espantando-o, ele
abana o estofado e depois vai para a cozinha. Um silêncio funéreo pairava nela.
Os armários, as panelas e todo o resto estava em perfeita ordem. A janela
estava fechada e ele conseguia ver o beco lá fora.
Subindo as
escadas, seus passos rangiam sinistramente pela escuridão. Ele chega ao seu
quarto e também o encontra vazio. A cama e o roupeiro estavam arrumados; não
havia sinal de desordem em lugar algum. Valentim se intriga.
Ele desce as
escadas e chama por sua esposa.
- Danica! Onde
você está?
Não encontrando-a,
ele se desespera. Sua esposa jamais sairia à noite assim.
Valentim deixa a
casa e dá a volta pelos becos. Eles estavam vazios e sinistros como um
cemitério. Nas ruas ele via apenas as carruagens e as pessoas voltando
apressadas para casa. Então ele põe as mãos nos cabelos e olha ao redor, confuso.
Voltando para a
casa, ele encontra Orfeu novamente em sua poltrona. Preocupado como estava, ele
nem teve tempo de se irritar com ele. Valentim estava desesperado; ele olhava
ao redor e não sabia o que fazer.
Ele sobe as
escadas e checa novamente o quarto. Não havia ninguém. Com as pernas trêmulas,
ele se senta na cama e sente o seu coração disparar. O medo o havia subjugado.
Suor se escorre de sua testa e sua boca fica seca. Em pânico ele reconhece. Não
havia mais onde procurar.
Danica havia
desaparecido.

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