(Capa do filme The Woman in Black - Angel of Death)
Dezoito anos
atrás.
Em pé em frente
ao espelho, Danica sorri. Ela contempla sua enorme barriga de grávida.
Finalmente ela havia conseguido; ela estava grávida de seis meses.
Acariciando-a, ela se alegra.
Recém casada com
Valentim, ela se lembra de seu marido todo eufórico na cerimônia de casamento.
Ele muito a amava e todo o seu semblante irradiava isso.
Danica se lembra
do quanto ele queria um filho. Liubiana passava por um momento difícil; o
Império Austro-Húngaro havia acabado de perder a guerra contra a Prússia e
agora se recuperava do conflito. Abraçada ao seu jovem marido, ela pergunta:
- Vali, vivemos
tempos difíceis aí fora. Como conseguiremos sustentar uma criança?
Exultante, o
jovem marido responde:
- Não se preocupe,
minha esposa. A partir de agora seremos nós contra o mundo!
A mulher sorri.
No passado, Danica
tentou engravidar duas vezes e nas duas vezes ela falhou. Na primeira vez suas
regras se atrasaram e ela teve constantes enjoos. Chamando a parteira em sua
casa, ela perguntou:
- Božena, o que
eu tenho?
A mulher a examinou
e alegremente disse:
- Meus parabéns,
Danica! Você vai ter um bebê!
Então as duas se
abraçaram.
Nos dias
seguintes, Danica recebeu visitas de sua família. Sua mãe e irmãs vieram parabeniza-la
e oferecer-lhe roupas e comida. Ela notou como não recebeu muito. Muitas roupas
eram pequenas e velhas, de seus tempos de criança, e a comida era em pequena
quantidade. Com a escassez na província, o pouco era essencial para a
sobreviver por mais um dia.
Valentim estava
eufórico. Apesar de seu jeito rude, ela andava alegremente pela casa.
Atenciosos, ele se preocupava com os menores gemidos de dor de sua esposa. Ele prontamente
a ajudava buscando objetos e cuidando dela.
Então o pior
aconteceu.
Certa noite
enquanto dormiam, Danica sentiu algo molhar suas pernas. Ao acender as velas,
ela viu suas calças cobertas de sangue. Em pânico ela chorou aos berros e
acordou toda a vizinhança. Ela havia perdido o bebê.
Na segunda vez, ela
estava na oficina vendo o seu marido trabalhar. Ela não entendia por que seu
sogro o maltratava tanto. Valentim trabalhava sob muitos esporros, não importa
o quão rápido ele realizasse suas tarefas. Danica o pergunta por que seu sogro
o tratava assim e o marido responde:
- Não se preocupe.
Ele diz que isso é necessário para me enrijecer e me preparar para a vida
adulta.
Mas Valentim
sabia que isso não era verdade. Seu pai perdeu seu irmão mais velho na guerra.
Por não ser casado, seu irmão partiu como conscrito para o conflito. Meses
depois, sua família recebeu uma carta dizendo que ela havia morrido na batalha
de Königgrätz, na República Tcheca. Seu pai ficou arrasado e desde então
Valentim nunca mais teve dúvida de quem era o filho preferido de sua família.
Os dois voltam para
casa em silêncio. Era evidente a mágoa do jovem Valentim. Pesaroso, ele segurou
a mão de sua esposa e disse:
- Danica, se um
dia tivermos muitos filhos, eu jamais terei um preferido.
A mulher sorri.
Apesar de seus defeitos, seu marido era um homem bom.
Dias se passaram.
Danica sente enjoo e suas regras se atrasam; novamente ela havia concebido. Ela
informou a seus familiares e eles se alegraram; todos
esperavam que desta vez a gestação fosse bem.
A esposa pega sua
cesta e parte para levar comida ao seu marido. Ela pretendia informa-lo de sua
gravidez em seu trabalho. Chegando na oficina, ela viu seu sogro o maltratando
na frente de todos. Aparentemente Valentim tinha feito algo errado e seu pai o
repreendia duramente. Indignada, ela partiu em defesa de seu marido e gritou de
volta com ele. Danica exigia respeito, pois sabia que seu marido era um homem
bom.
Os vizinhos
assistiram espantados o sogro estapear a sua face. Danica caiu no chão e
derrubou a sua cesta. A confusão se formara; Valentim avançou contra seu pai e
tentou golpear a sua cabeça com um martelo. Os vizinhos apartaram a briga e
então ouviram um gemido no chão. Danica agonizava com as mãos na barriga. O
marido a socorreu e, em pânico, viu sangue se escorrer entre suas pernas.
E assim ela
perdeu a sua segunda gravidez.
§
Estas memórias
vêm à sua mente e ela se distrai. Perdida em devaneios, ela não ouve o seu
marido abrir a porta e encontra-la em frente ao espelho. Ele aparece no reflexo
atrás dela e pergunta:
- Dani, você está
bem?
Ela retoma a
consciência.
- Vali, eu não o
vi entrando.
Seu marido estava
todo sujo e desarrumado; ele acabara de retornar do trabalho. Valentim a segura
pela cintura e suas mãos sujam as suas roupas, mas ela não se importa. Ela
apenas vê o quanto ele estava feliz.
- Olhe! Eu acho
que ele se mexeu!
Valentim olha,
mas não vê movimentação alguma. Então ele coça a cabeça, confuso.
A mulher
pergunta:
- O que será que
ele vai ser?
Ainda confuso,
ele responde:
- Eu não sei.
Talvez um menino.
- Você quer que
ele seja um menino?
- Eu só quero que
ele nos ame e seja feliz.
Então sua esposa
sorri. Aquilo foi muito carinhoso de sua parte.
Um minuto se
passa. Referindo-se à sua gravidez, a mulher pergunta:
- Você vai contar
à sua família?
Seu rosto parece
corar.
- Não vejo nenhum
motivo para conta-los.
A mulher assente
em silêncio.
- Você ainda vai
trabalhar hoje?
- Sim.
- Vali, você não
está trabalhando muito?
Danica se
preocupa com seu marido. Após a briga com seu pai, ele passou a trabalhar de artesão
em outra oficina. O trabalho pesado o desgastava, mas ele estava disposto a
fazer de tudo para sustentar sua esposa.
- Eu não vou
demorar. – responde ele – Te vejo mais tarde.
Então Valentim se
abaixa e beija sua barriga. Em seguida ele pega as mãos dela e as beija. Ela
pode perceber o quanto suas mãos foram calejadas pelo trabalho árduo. Em
seguida o marido se vira e vai embora.
§
Está uma tarde
cinzenta e gelada lá fora. Neve cobre as ruas da pacata Liubliana e os telhados
vermelhos perdem a cor para o gélido branco. Em seu quarto, Danica grita de
dor; houve complicações na gestação. Božena, a parteira, tenta arduamente
salvar o bebê. Muito sangue se escorre e ela teme que a própria mãe morra de
hemorragia.
- Božena, salve o
meu filho!
A parteira recebe
ajuda de suas auxiliares; elas lhe dão panos mornos e úmidos. Valentim está lá
embaixo com seus vizinhos e não consegue esconder a preocupação.
- Por que ela
está gritando tanto?
Um vizinho diz:
- É um parto,
Valentim. É normal sentir dores de contração.
- Não, não é
normal! – retruca ele – É um bebê de seis meses! O parto é prematuro!
Danica grita
novamente. Ela aparentava sentir muita dor.
- Já chega! Eu
vou subir.
- Não! – impedem
eles – Você só atrapalharia. Deixe as mulheres trabalharem!
No quarto, a
parteira arregala os olhos e se assusta. Ela olha abalada para a esposa e informa:
- Danica, o bebê
está virado em seu ventre.
- Virado?! –
exclama ela.
Danica sabe o que
aquilo significa. Se o parto não fosse feito rapidamente, ela e o bebê morreriam.
- Me escute. Você
vai ter que empurrar.
As auxiliares se
entreolham. Forçar o parto naquele momento seria uma sentença de morte. Sangue
se escorria nos lençóis. Se a esposa desmaiasse, ela estaria condenada.
Gritos de agonia
se ecoam pela casa. O tempo estava acabando.
- Božena...! –
suplica ela – Salve o meu filho!
A parteira olha
para os pezinhos do bebê e já estima o seu destino. Pesarosa, ela assente e
fica em silêncio.
Danica empurra em
um alto e estendido grito. De repente o bebê sai de suas entranhas. Božena o
puxa e seus ossinhos se estralam; eram suas pernas se quebrando em suas mãos.
A esposa ofegava
constantemente. Sua cama estava lavada de sangue. A parteira segurava o bebê em
seus braços e tentava oculta-lo da mãe. Danica respirava, mas estava
fisicamente exausta. Uma auxiliar vê aquilo e sussurra para si mesma:
- É um
milagre...!
Mas ela falava da
sobrevivência da mãe, e não do nascimento de seu filho.
Enfraquecida, a
esposa pergunta em sussurros:
- Meu filho...
Onde está o meu filho...?
Božena o segurava
em seus braços. Hesitante, ela olha para a mãe e responde:
- Danica, eu
sinto muito.
- O que houve...?
- Você vai ter
que ser forte.
- Onde ele
está...?
A parteira lhe
faz um olhar abatido.
- Eu tentei de
tudo...
- Onde ele está?! – grita ela.
Božena lhe
estende os braços e lhe entrega o seu filho. Danica o segura e vê um bebê
prematuro, mole e inconsciente em seus braços. Inexperiente em ser mãe, ela
pergunta:
- Por que ele não
está chorando?
Mas ela já sabia
a resposta. A parteira diz:
- O seu bebê está
morto. Eu sinto muito.
Então Danica
levanta a cabeça e chora em desespero.
§
No cemitério
ocorre uma procissão pela neve. O padre guia os vizinhos e os familiares
recitando hinos religiosos. Obreiros carregavam o caixãozinho em seus braços.
Flores murchas e baratas o adornavam. Valentim e Danica eram um casal jovem,
muito inexperientes na vida, mas sua dor se equiparava às dos mais velhos.
Em seu surrado
casaco preto, Valentim acompanhava a procissão. Ele não tinha forças para
carregar o caixão. Ele andava encurvado e parecia muito doente. Seus rosto
estava ossudo e seus olhos pareciam afundados pelas olheiras. Para um homem
forte de vinte e poucos anos, sua aparência era de alguém de sessenta.
Danica era
acompanhada por sua mãe e suas irmãs. Ela parecia em estado de pânico com seu
rosto pálido e seus lábios roxos. Ela nunca pensou que veria o seu filho morto
em um caixão barato a caminho de uma cova fria. Para ela aquilo era um maldito
pesadelo.
Em frente à cova,
o padre faz um sermão sobre a Sagrada Família. Ele cita que, ao Deus enviar o
seu Filho ao mundo, ele escolheu como mãe a Maria.
- Como diz em
Lucas capítulo 1, versículo 43, Maria é a mãe do nosso Senhor Jesus. E não
apenas mãe como também intercessora, pois foi por sua intercessão que o
primeiro milagre foi operado nas bodas de Caná.
O primeiro
milagre do ministério de Jesus Cristo foi a transformação da água em vinho,
como consta no evangelho de João, capítulo 2. O padre continua:
- Bendito é o
fruto do teu ventre, doce Mãe de Deus! E assim como Maria, que viu seu Filho
morrer na cruz, que Ela também console esta mãe que hoje enterra a seu filho. E
que ele seja recebido nos braços do bondoso Pai. Amém.
Os coveiros
descem o caixão na pequena cova e o enterram em seguida.
§
Semanas se
passam. Após a tragédia ocorrida, o casal não quis mais ter filhos. Valentim se
fechara dentro de si mesmo e parecia distante. Danica não saiu mais de casa.
Ela estava apática e passava o dia inteiro deitada olhando para a neve lá fora.
Boatos se espalharam.
A vizinhança comentava que ela era estéril, que foi amaldiçoada no nascimento
com um ventre infrutífero.
“Seca”, pensa
ela. Este era o termo usado pelas mulheres.
Danica ainda
sentia o cheiro de sangue em seu quarto. Após o parto forçado e a hemorragia,
era um milagre ela ainda estar viva. Respirando fundo, ela se pergunta por que
Deus não a levou no lugar do seu filho.
“E quanto ao
Valentim?”, pergunta-se ela.
Seu marido a
amava profundamente. Ele mal demonstrava com palavras e eram raras suas ações,
mas seus sentimentos eram puros. A esposa sabe que ele não conseguiria
sobreviver sozinho, quanto mais com um filho. Provavelmente o bebê sofreria
negligência em alguma creche ou Valentim seria forçado a se casar de novo,
arrumando uma esposa que cuidasse da criança enquanto o maltratava em oculto.
Danica conhece essas mulheres. Tão somente a futura esposa engravidasse, ela
expulsaria o seu filho de casa.
Virando a cabeça,
ela pensa.
“Homens são tolos
e cegos por não verem”.
Então algo acontece.
Alguém bate em
sua porta. Ela não estava esperando visita, mas muitos vizinhos vinham lhe dar
flores e lhe oferecer condolências pelo ocorrido. Então Danica veste seu casaco
e desce as escadas.
Abrindo a porta,
ela vê uma idosa de cabelos grisalhos e vestido vermelho. Não reconhecendo-a de
lugar nenhum, a esposa se intriga.
- Pois, não?
- Bom dia, minha
jovem. Eu ouvi sobre sua tragédia e vim oferecer minhas condolências.
Sua voz era
incomum, como o grasnado de um corvo.
- Muito obrigado,
mas quem é a senhora?
Danica nunca a
viu na vizinhança.
- Não se preocupe
comigo. Apenas aceite o meu presente.
A mulher vê uma
vela de cor preta.
- Por que está me
dando isto?
- É pelas almas
dos nascituros. O seu filho morreu no parto e sua alma pode estar presa neste
plano. Se ele não partir, ele drenará as suas energias, aprisionará o seu
marido e comprometerá o seu casamento. Acenda a vela para que a sua chama o
ajude a encontrar a luz.
Olhando para a
vela, Danica acha aquilo um esoterismo típico do paganismo. Ela responde:
- Eu não sei
se...
Mas ao olhar para
frente, a idosa havia desaparecido. Danica olha para ambos os lados e não a
encontra em lugar algum. Nem mesmo suas pegadas estavam na neve. Intentando
procura-la nos becos, ela sente o frio intenso e se desencoraja, desistindo em
seguida.
Fechando a porta,
a mulher via uma simples vela em suas mãos. Lembrando-se das palavras da idosa,
ela realmente pensa como o clima estava pesado em sua casa. Não querendo que
aquilo perdure para sempre, ela põe a vela em um candeeiro e a acende.
A vela preta fica
acesa sobre a mesa. Satisfeita, ela sobe as escadas e se deita novamente.
Ao cair da noite,
Valentim chega. Estava uma noite fria e escura lá fora. Na sala, ele encontra
uma vela acesa sobre a mesa e imediatamente se intriga.
Caminhando pela
casa, Valentim encontra sua esposa na cozinha. Ela estava de costas para ele
observando a janela. Então ele se aproxima e pergunta:
- Olá, Danica.
Está tudo bem?
Mas ela não responde.
Lembrando-se que ela ficou apática devido ao parto, ele prefere deixa-la em
paz.
O homem sobe as
escadas e se dirige ao quarto. Ao passar pela porta, ele encontra sua esposa
deitada na cama. Então ele pula de susto.
- Danica?! –
exclama ele – Como chegou aqui tão rápido?
A mulher lhe faz
um olhar de dúvida.
- Do que está
falando, Vali?
- Eu acabei de
vê-la na cozinha agora mesmo!
Ela não compreende.
- Isso é
impossível. Eu passei o dia todo aqui.
Então os dois
descem e encontram a cozinha vazia. Valentim sente arrepios.
- Valentim, está
tudo bem com você?
Ele não sabe o
que responder. Olhando para a vela na mesa, ele pergunta:
- Danica, por que
esta vela está acesa aí?
A mulher
responde:
- Eu a recebi de
uma estranha hoje. Disse que ajudava os nascituros a encontrarem a luz.
Sabendo que sua
esposa era católica devota, ele se confunde. Ela jamais participaria de práticas
pagãs.
- Dani, velas
para os mortos atraem espíritos ruins!
Desconfiada, ela
pergunta:
- Como você sabe?
- Espíritos bons
não necessitam de luz, tampouco os nascituros que morrem sem pecado nenhum.
Apenas os espíritos de trevas a necessitam.
Danica se
surpreende com sua resposta.
- De onde você
tirou isso?
- Eu ouvi de
minha mãe quando criança.
- Pois eu vou
mantê-la acesa se isso ajudar o meu filho e o meu casamento.
- Mas você nunca
fez tal coisa. Por que começar agora?
Com os olhos
lacrimejando, ela apenas diz:
- Por favor,
Vali... Me deixe ter esperança...
Pesaroso, Valentim
desiste e volta aos seus afazeres. Mas antes ele observa aquela estranha vela
cuja chama parecia não consumi-la.
Nos dias
seguintes, coisas bizarras acontecem pela casa. Os dois ouvem passos no andar
de baixo, batidas na porta no meio da noite, algo se movendo nos cantos escuros
e uma sensação sinistra de estar sendo observado.
Sons de portas se
batendo os acordavam. Descendo as escadas, eles viam as portas dos armários
abertas. Valentim as fecha e, ao se levantarem no dia seguinte, elas estavam
novamente abertas.
O relacionamento
de casal se deteriora. Brigas e desentendimentos eram frequentes. O humor
parecia mudar quando se viam. Muitas vezes a gritaria assustava os vizinhos e
eles pensavam que o casal ia acabar se agredindo. Mas a vela preta jamais
cessava de queimar.
Certa manhã Valentim
se levanta e vê um homem parado no meio da escada. Outra vez Danica abriu os
olhos e viu um criança ao lado da cama. As noites eram perturbadoras e sinistras.
O marido ouvia unhas arranhando o vidro da janela, mas ele não tinha coragem de
abrir os olhos e ver o que era. A esposa, porém, ouvia crianças rindo nos
cantos da casa.
Em uma manhã,
Valentim desce as escadas e vê uma mulher de preto na sala. Sua aparência era
horrenda e sua face estava oculta com um imundo véu. Era como se ela tivesse
voltado do inferno para assistir ao seu próprio funeral. Apavorado, ele corre
pelas escadas berrando como uma criança assustada.
No mesmo dia,
eles pegam aquela vela e a destroem, picando-a em vários pedaços e
descartando-a na esquina. Fazendo uma oração, eles se viram e vão embora.
E assim se encerravam aquelas manifestações fantasmagóricas em sua casa.

Nenhum comentário:
Postar um comentário