(Arte de L'Enfant de la Forêt)
Dezesseis anos
atrás.
Valentim e Danica
passavam por maus momentos. Brigas e desentendimentos eram frequentes. Eles não
tinham mais paz; era como se aquela vela preta tivesse trazido uma nuvem de
contenda sobre a casa.
Certo dia, Danica
lhes sugere ir à igreja. Entediado, o marido assente. Não fazia muito tempo que
sua esposa havia perdido o bebê. As brigas a abalavam e agrada-la agora era o
mais importante.
No domingo de
manhã eles se levantam. O mau humor era visível em Valentim; ele não suportava
a missa, pois a achava desnecessária e enfadonha. Ele não entende por que tinham
de acordar tão cedo. Ao olhar pela janela, o sol mal havia nascido no
horizonte.
Vestindo suas
melhores roupas, eles deixam a casa e partem à Catedral de São Nicolau, também
conhecida como Catedral de Liubliana. Lá fora eles veem as ruas frias e
nevoentas, típicas de sua cidade. Balbuciando algo, ele resmunga em
descontentamento.
Chegando à
catedral, eles a veem cheias de idosos na entrada.
“Malditos velhos!”,
pensa ele. “Fizeram maldade a vida inteira e agora pensam que terão salvação”.
Valentim não
entendia muito de doutrinas e dogmas, mas sabia que Deus não era nenhum ingênuo
que podia ser enganado com uma confissão desonesta dos pecados. A mudança tinha
de vir do coração.
No interior, ele
procura um banco e se senta. O cheiro de madeira velha e a fumaça das velas lhe
dão enjoo. O casal não tinha uma Bíblia; Valentim mal sabia ler e Danica não
tinha dinheiro para comprar uma. Mas ao olhar ao redor, eles notam que ninguém
tinha também. Devido a Contrarreforma, o Vaticano não publicara muitas nas
prensas protestantes, e as poucas que haviam estavam em grego ou latim,
linguagens incompreensíveis para as classes mais pobres.
Nos primeiros
bancos o casal vê as figuras mais importantes de Carníola; eram os nobres,
políticos e latifundiários da província. Suas belas e requintadas roupas os
impressionam. Perto deles os dois se sentiam um casal de maltrapilhos,
cachorros que se arrastavam entre suas pernas a procura de migalhas que caíam
de suas mesas.
O padre começa o
culto e coincidentemente a mensagem era sobre o casamento. Incomodado, Valentim
vê aquilo como uma conspiração.
- Em Provérbios 12:4 diz: A mulher virtuosa é
coroa de honra para seu marido, mas a de atitudes vergonhosas é como podridão
nos ossos dele.
Ouvindo que a
admoestação era para as esposas e não para os maridos, ele se anima. Pelo menos
aquele dia Danica não ia azucrinar seus ouvidos com tendenciosas citações
bíblicas.
O padre continua:
- E em Provérbios
14:1 diz: A mulher sábia edifica a sua casa, mas com as próprias mãos a
insensata destrói o seu lar.
E então ele
sorri. Ao vê-lo se divertindo, Danica o cutuca. Ela estava desconfortável e
irritada com seu marido.
Por último, o
padre discursa:
- Maridos, cuidem
de seus passos, pois em Provérbios 23 diz: Filho meu, dá-me o teu coração, e
que teus filhos apreciem também os meus caminhos, pois as mulheres imorais e
insensatas são como uma armadilha profunda e mortal. Como um assaltante elas
espreitam suas vítimas, e multiplicam entre os homens o número de infiéis!
Nesse momento
Valentim se incomoda. Coçando sua nuca, ele olha para o lado e encontra o olhar
de uma mulher observando-o. Ele se intriga, pois suspeita que já a havia visto
antes.
- Para que são os
ais de pesar? Para quem as expressões de profunda tristeza? Para quem são as
brigas e inimizades?
E então Danica o
encara. Eles estavam brigando muito.
- Para quem são os
ferimentos desnecessários?
E então Valentim
se desconcerta. Mortes ocorriam devido ao adultério.
A missa
prossegue. Discretamente olhando para o lado, o marido observa a mulher
desconhecida ao longe. Ela tinha longos cabelos negros e se parecia muito com
sua esposa. Algo o incomodava, pois a conhecia de algum lugar.
Despertando
atenção desnecessária, ele se vira e volta a assistir ao culto.
Uma hora depois o
padre encerra a missa e eles vão embora.
No lado de fora,
ele procura pela mulher. Danica está conversando com outras fiéis e se distrai.
Vendo um conhecido seu à distância, Valentim se aproxima e o cumprimenta:
- Olá, Rajmund.
Como vai?
O homem se vira e
responde:
- Valentim?! Não
esperava encontra-lo aqui...
Ele brinca:
- Eu também não.
Minha mulher me obrigou.
Rajmund ri.
- E então? Como
estão as coisas? Está tudo bem com Danica?
- Sim, sim, está
tudo bem. – mudando de assunto, ele pergunta o que lhe interessa – Rajmund, por
acaso você viu uma mulher de cabelos pretos no culto? Ela estava sentada
próximo ao confessionário.
- Vi, sim. Por
quê?
- Você a conhece?
Eu acho que já a vi em algum lugar.
- Sim, ela é de
nossa vizinhança. O nome dela é Irena. Éramos amigos de infância, então ela se
casou e se mudou para outro bairro. E então uma tragédia aconteceu.
- Tragédia? –
interessa-se ele.
- Ela ficou
viúva. Seu marido morreu na guerra contra os prussianos. Malditos Habsburgos!
Nos mandam à guerra enquanto eles dormem em palácios de ouro...!
Ignorando-o, ele
pergunta:
- E onde ela está
morando?
- Na rua de trás
de sua casa. Na verdade ela cresceu lá. Fico espantando que você não se lembre.
De fato ele não
se lembrava, mas a mulher parecia conhece-lo também.
- Entendi. Muito
obrigado, Rajmund. Tenha um bom dia.
- De nada, Vali!
Mande lembranças para Danica!
§
Na semana
seguinte, Valentim trabalha normalmente na oficina. O movimento era modesto e
poucas pessoas solicitavam seus serviços. Distraído enquanto talha uma cadeira,
alguém aparece e pergunta:
- Dobro jutro, gospod[1].
Vocês fazem reparos de dobradiças?
Valentim se vira
e imediatamente arregala os olhos. Ele via a Irena. Ela vestia um véu e
carregava uma cesta de frutas em seus braços.
- Pozdravljena, gospa[2].
– responde ele, quase gaguejando – Fazemos sim. De que dobradiças está falando?
- São de minhas
portas e janelas. Me mudei recentemente para minha velha casa e elas estão
rangendo muito. Gostaria que algo fosse feito a respeito.
- É claro.
Podemos agendar uma visita em sua casa, se quiser. E então eu levarei minhas
ferramentas.
- Está bem. –
responde ela – Aqui está o meu endereço. Eu tenho certa urgência. Poderia
passar amanhã?
Valentim assente
e então sorri.
Um dia se passa.
Levando um estojo de madeira em sua mão, o homem percorre as ruas de Liubliana.
Ele estava irritado, pois na mesma manhã havia brigado com Danica. Lentamente
ele se acostuma com o fato de que não a suporta mais.
Chegando ao seu
destino, ele bate à porta. Não foi uma caminhada longa; Irena morava na rua de
trás, ele apenas precisou pegar suas ferramentas na oficina antes.
Irena abre. Ao
encara-la, algo místico paira no ar. A mulher tinha um olhar hipnótico, como se
perscrutasse sua alma e descobrisse seus medos. Por outro lado, Valentim se
empolga. Seu olhar efusivo lhe evoca interesse. Ele não sabe dizer se ela o
queria, mas ele se enche de desejo.
- Bom dia,
senhora. Vim fazer o serviço, como combinado.
- Oh, por favor.
Me chame de Irena.
O homem assente,
omitindo o fato de que ele já a conhecia.
Os dois entram.
Levando-o pela casa, ela lhe indica as dobradiças com defeito. Enquanto o homem
se prepara para conserta-las, ela pergunta:
- E você, senhor?
Como se chama?
- Valentim.
A mulher sorri.
- Valentim... –
repete ela – Do latim Valentinus.
Significa forte, valente, vigoroso... Um nome de acordo, como se pode ver.
Irena notava sua
camisa aberta e suas mangas arregaçadas. O peito de Valentim tinha muitos pelos
e suas mãos demonstravam força.
Encabulado, ele sorri.
Ele não sabia o significado do próprio nome.
- Obrigado,
senhorita Irena.
Valentim continua
trabalhando normalmente. As dobradiças estavam velhas e enferrujadas, mas não
era difícil substitui-las. De repente a mulher pergunta:
- Você é casado,
senhor Valentim?
O homem se
espanta. A pergunta foi direta demais.
- Sim. – responde
ele.
- Você não usa
aliança. – acusa ela, sorrindo.
Valentim se
entristece, desviando o olhar.
- Eu não tinha dinheiro.
Prometi lhe dar uma quando pudesse comprar.
- Para sua
esposa?
- Sim.
A mulher pensa em
silêncio. Nesse momento, Valentim nota como seus olhos eram grandes, como uma
linda coruja observando-o à noite.
- Sabe, eu já fui
casada antes, mas meu marido morreu. Ele perdeu sua vida na Tchecoslováquia.
Ela se referia à
guerra contra os prussianos em 1866. Valentim comenta:
- Eu lamento
muito. Meu irmão também morreu lá, no front em Königgrätz.
A mulher se
surpreende.
- Será que eles
se conheceram?
Ele responde um
pouco distante:
- Eu não sei.
Valentim não sabe
dizer se os dois se conheceram em vida, mas na morte ambas as suas almas deviam
estar vagando naqueles campos sombrios.
Enquanto retira
uma porta, a mulher comenta:
- Eu te vi me
olhando na igreja, senhor Valentim.
Os olhos do homem
se arregalam.
- Eu vi como me
olhava. Mas não se preocupe. Eu acho que te conheço também.
- Conhece? –
finge ele.
- Sim. Nós
crescemos nesta mesma vizinhança, mas não nos víamos muito. Seu pai era um
limpador de chaminés e o meu, um produtor de vinho.
Valentim finge
não se lembrar.
Irena o encarava
fixamente, o que o deixa muito desconfortável. Finado o serviço, ele a informa
o preço e ela paga. Em seguida, ela diz:
- Aqui está sua
gorjeta. Um presente a um amigo de infância. Até a próxima.
“Próxima?”,
pergunta-se ele. Valentim era um excelente profissional. Ao consertar sua casa,
as esquadrias não rangeriam por um bom tempo.
- Muito obrigado,
senhorita Irena. Adeus.
§
Dois dias se
passam. Valentim trabalha irritado o dia inteiro. Todas as noites ele brigava
com Danica e isso muito o enraivece. Sua esposa o culpava por tudo e, ao ser
pega em contradição, chorava cinicamente, dando-lhe as costas e dizendo que não
queria mais falar com ele.
Distraído
enquanto pensa a respeito, alguém entra na oficina e o chama. Inesperadamente
era Irena novamente. Ela estava vestindo um véu preto, semelhante a um hijab das muçulmanas da Bósnia.
- Senhorita
Irena? – espanta-se ele – Posso ajuda-la?
Com um sorriso
misterioso, ela responde:
- Bom dia,
Valentim. Eu gostaria de falar com você. Preciso novamente dos seus serviços.
Ele se intriga.
- O que houve?
- As dobradiças.
Elas ainda estão rangendo.
Valentim duvida.
Seu serviço foi impecável.
- Como isso é
possível?
- Não se
preocupe. Eu pagarei novamente, como esperado.
- Está bem. –
responde ele, um pouco confuso – Podemos agendar para amanhã?
Nesse momento seu
patrão intervém.
- Não se
preocupe, Vali! Não há muito serviço hoje. Você pode partir agora mesmo, se a
senhorita quiser.
Seu patrão ri.
Ele sentia um clima de romance no ar.
- É muita
gentileza, mestre! – agradece ela – Aquele barulho está me matando!
Contrariado,
Valentim não tem escolha. Ele pega suas ferramentas e nota que uma estava
faltando. Ele diz:
- Esqueci minha talhadeira
em casa. Preciso voltar para pega-la.
- Eu vou com
você. – diz ela, surpreendendo-os – Faz tempo que eu não vejo minha vizinhança.
Gostaria de rever Danica, se não se importar.
- Você quer ir ver
a minha mulher? – estranha ele.
- Sim.
Valentim não
consegue acreditar no que ouve. Seu patrão, porém, ri escondido à distância.
- Está bem.
Em seguida eles
deixam a oficina.
No caminho, ele nota
como Irena estava perfumada. Ela caminha ao seu lado e pergunta por antigos
conhecidos. Valentim tenta ser simpático, mas não consegue esconder o incômodo
da situação.
Ao chegar em sua
casa, Irena permanece na porta. Valentim a convida e ela entra. Ele procura por
sua ferramenta e a mulher fica sozinha na sala. Percebendo que a casa estava
vazia, ela pergunta:
- Valentim, onde
está Danica?
Irritado, ele
responde:
- Provavelmente
na casa da mãe me culpando por tudo.
A mulher se
interessa.
- Problemas no
casamento?
- Eu não sei.
Acho que sim. Estamos passando por um momento difícil.
A mulher parece
se alegrar.
- E vocês brigam
muito?
Desanimado, ele
sussurra:
- Sim.
Irena finge se
preocupar.
- Eu tenho
certeza que vocês irão superar.
Em seguida os
dois deixam a casa e vão embora.
Na casa de Irena,
ele começa o seu trabalho. Ela lhe indica o defeito e ele testa a porta.
Valentim se intriga, não havia rangido algum. Ele troca a peça assim mesmo e
então vê algo. Irena tirava seu véu e soltava seus longos cabelos negros. Ela
estava perfumada e o homem sentia o suave cheiro se exalando no ar.
Valentim tenta se
concentrar, mas é difícil. Irena permanecia logo atrás, sorrindo
maliciosamente. O cheiro dela lhe extasia, como o ópio usado pelos ingleses em
sua guerra na China.
Cheio de desejo,
Valentim começa a delirar. Para ele aquilo não era um perfume e sim um veneno
de mulher, uma armadilha sexual feminina usada por elas na sedução. E ele caía irresistivelmente
nesta sedutora armadilha.
Valentim maneja
sua ferramenta, mas suas mãos suam. Se aquilo era um veneno, ele tinha vontade
de inala-lo, bebê-lo e então cair em seus braços. Mas ele não podia cair;
Valentim era casado.
Suando frio, ele
tenta manter a calma. Ele tenta encontrar uma lógica para aquilo tudo, mas não
havia lógica no amor, especialmente quando era inflamado pelo fogo da paixão.
Ele finge trabalhar normalmente, mas o olhar intenso de Irena o despia atrás dele,
expondo sua alma e arrastando-a para o fogo da perdição.
Amor, sexo, o
desejo de se ter o que nunca teremos, tudo é cobiça. Valentim amava Danica, mas
ele queria Irena. Se ele a possuísse ele a devoraria, lançando-a na cama,
rasgando suas roupas e penetrando-a com a intensidade de um animal.
“Meu Deus!”,
pensa ele. “O que está acontecendo com meus pensamentos?!”.
- Você quer café?
Valentim se
assusta.
- O quê?!
- Café. – repete
ela – Você quer?
- Não, obrigado.
– responde ele, de impulso – Na verdade eu já terminei o serviço.
Apressadamente
ele guarda suas ferramentas, recebe o dinheiro e deixa aquela casa.
§
Tentando dormir,
Valentim passa a noite toda pensando em Irena. Ele inclusive sonha com ela. De
tão distraído, ele nem teve tempo de brigar com sua esposa. Olhando para a
janela, ele pensa como largaria Danica para se casar com aquela viúva
deliciosa.
Pensando
novamente, ele não precisava largar. Irena podia ser sua amante.
“Não!”,
repreende-se ele. “Eu amo minha Danica e ela não merece isso”.
Mas seu coração
diz o contrário. Seu corpo se abrasava por ela e ele não aguentaria mais um encontro
se Irena o procurasse um dia.
Lembrando-se de
seu bom serviço, ele se pergunta:
“E por que ela
iria?”.
Então ele fecha
os olhos e tenta dormir.
No dia seguinte,
ele chega à oficina e seu patrão prontamente diz:
- Valentim, a viuvinha
te procurou de novo. Disse para você fazer outro serviço na casa dela.
O homem não
consegue acreditar no que ouve.
- Isso é
impossível, senhor Matjaž! Meu serviço foi impecável.
- Tenho certeza
que foi. – responde ele, sem se importar – Mas eu acho que não é esse o serviço
e sim outro que ela está solicitando.
- Outro? –
intriga-se ele.
- Sim. Um mais
íntimo e pessoal.
- Íntimo e
pessoal?! – exclama ele.
- Ela disse para
você ir o quanto antes. Acho que ela vai dar uma dobradiça para você abrir. Um outro tipo de dobradiça...! – e então
ele sorri – Seu garanhão!
Em seguida o
patrão gargalha intensamente.
Minutos depois,
Valentim chega à casa de Irena. Ao bater na porta, ela a abre e ele se espanta;
Irena o recebia apenas de camisola.
- Bom dia,
senhorita. – gagueja ele – Meu patrão disse para eu vir aqui. Posso ajuda-la?
- Olá, Valentim.
São as dobradiças de novo. Elas estão com defeito.
- Como?
- É esta casa, eu
acho que ela está estragando o seu serviço.
Valentim entra.
Pegando suas ferramentas, ele intenta consertar as dobradiças, mas ao examina-las
ele não encontra defeito algum. Ele pergunta:
- Você não me
disse que as dobradiças estavam com defeito?
- Sim, estavam!
Elas estão rangendo muito!
- Mas é a
terceira vez que eu venho aqui e não vejo defeito algum!
Irena não se
importa de responder. Ao invés, ela sobe a alça de sua camisola.
- Talvez só faça
ruído à noite...
O homem perde a
paciência. Com seu jeito ríspido, ele diz:
- Você pensa que
eu não sei por que me chamou aqui? Pensa que eu não sei o que está querendo?
- Mas do que é
que você está falando? – pergunta ela.
- Me recebendo de
camisola e se portando como uma vagabunda. Pensa que eu trocarei minha esposa,
que é uma mulher séria e direita, por uma mulher adúltera como você?
Irena se finge de
ofendida. Em seguida ela maliciosamente sorri.
- Mas ainda assim
você veio aqui.
- O que disse?
- Sabendo de minhas
intenções, pela terceira vez você vem à minha casa. Você fala de sua esposa, de
sua postura e suas virtudes, mas eu também percebi como me olha, como me
observa, como me deseja... – e então ela acaricia seu rosto.
Valentim segura
seu pulso e a prensa contra a parede.
- Cobra! Eu nunca
te desejei!
- Não?
Movendo a cabeça,
os cabelos de Irena revelam seu pescoço. Um fogo abrasador domina o seu corpo e
Valentim sente seu coração disparar em seu peito. Tomado pelo instinto, ele
cheira os cabelos dela lentamente. Sua mente parecia delirar. Descontrolando-se,
a excitação era tanta que suas mãos tremiam.
Irresistivelmente
ela a beija. Suas línguas se friccionavam uma na outra freneticamente. Aquele
era um beijo quente, apaixonado e voluptuoso, diferente do beijo morno,
baforento e maçante de Danica.
Irena o empurra e
ele cai na cama. Montando sobre ele, a mulher tira sua camisa e apalpa o peito
de Valentim, sentindo seus pelos e seus músculos.
De pernas
abertas, a mulher se esfregava em seu quadril. O homem percebe como a vagina
dela estava quente e fumegava tesão. Irena jogava os cabelos de um lado ao
outro, gesticulando como uma serpente seduzindo sua vítima.
As alças de sua
camisola caem e ela não mais as puxa. Valentim vê seus seios empinados e seus
escuros mamilos hipnotizando-o. Ele se levanta e os beija, sentindo o calor e o
cheiro da mulher.
Valentim não
estava aguentando mais. Seu pênis estava tão ereto que parecia que ia estoura
suas calças. Irena era uma mulher astuta; ela não fazia nada sem a iniciativa
do homem. Enquanto se excitam, ela maliciosamente sorri.
Virando-a na
cama, Valentim intenta penetra-la sexualmente. Então algo acontece. Um
constrangimento muito forte se apodera do jovem marido. Ele sente algo segurando-o,
impedindo-o de consumar o ato. Desviando-se desses pensamentos, ele se
concentra e tenta de novo. Mas novamente ele não consegue.
Valentim amava
Danica. Seu sentimento era sincero e verdadeiro. Dentre tantas dúvidas e
incertezas em sua vida, seu amor por Danica era imutável.
Constrangido, ele
sente seu ímpeto diminuir.
- O que foi,
Vali? Algum problema?
“Vali?”, pensa
ele. “É assim que Danica me chama”.
- Eu...
Mas ele não
consegue terminar a frase. As palavras morriam em sua garganta.
Percebendo que o
homem perdeu o interesse, Irena o empurra e se levanta. Nua e furiosa, ela
cerrava os dentes de raiva.
- O que deu em
você? Você vai querer ou não?
Deitado de braços
abertos, ele responde:
- Eu não posso.
- Como assim você
não pode?
Valentim passa as
mãos no rosto, envergonhado.
- Eu não posso
fazer isso com ela.
Irena muda seu
semblante. Agora ela parecia demonstrar sentimentos por ele.
- Nós podemos
ficar juntos! Você pode viver aqui, se quiser!
O marido abotoa
sua camisa em silêncio. Ela insiste:
- Você gosta de
mulher de religiosa, não é? Tudo bem! Eu serei mais devota na igreja!
O homem se senta
e põe seus sapatos.
- Já sei o que
você quer! Eu lavo, passo e cozinho! Sou uma excelente mulher do lar!
Mas Irena mentia.
Ele nunca se dedicou aos afazeres domésticos durante seu casamento.
Valentim pega seu
estojo e guarda suas ferramentas.
- Você não
entende... – murmura ele – Nós não podemos ficar juntos.
Valentim e Danica
tinham um laço muito mais forte do que o matrimonial; eles estavam ligados
espiritualmente. Sacramentados pelo matrimônio, sua conexão era eterna, como se
tivessem se tornado uma só carne e um só corpo. E esse laço nenhuma união
extraconjugal podia quebrar.
Ele se vira e
caminha até a porta. Mas antes que pudesse sair, Irena se atira contra ele e
crava suas unhas em suas costas. Valentim grita, sentindo as unhas rasgando a
sua pele. Ele se desvencilha e a empurra; ele sabe que a mulher não ia deixa-lo
partir assim tão facilmente.
Com as marcas em
seu corpo, o marido teme. Se Danica visse, ele terá problemas. Preocupado, ele
coloca as mãos na cabeça e não sabe o que fazer. Enquanto isso, Irena ria. Ela
estava disposta a destruir seu casamento.
Não querendo
ficar mais um minuto naquele lugar, Valentim foge. Mais uma investida e ele não
resistiria.
Voltando à sua
casa, ele passa água nas feridas e lava sua camisa. Se Danica ver os arranhões,
ela desconfiará. Enfaixando-se, ele troca de camisa e volta à oficina.
Valentim tenta
trabalhar normalmente, embora sob as piadas de seu patrão. No fim do dia ele
volta para casa e sua esposa não pergunta nada, aparentemente ela não havia
visto o sangue em sua roupa.
Uma semana se
passa. Valentim parecia estar intoxicado por Irena. Ele pensa constantemente
nela e sente vontade de voltar à sua casa para possui-la de novo. Ele estava
obcecado; desta vez ele ia terminar o “serviço”. Mas não é isso o que acontece.
Amigos da
vizinhança passam e conversam com seu patrão. Rindo dos inusitados encontros de
Valentim, eles falam de Irena. Eles o informam que ela não estava mais na
cidade; ela havia se mudado há alguns dias para Maribor, na província de Styria.
Então ele se espanta.
Seus amigos se
despedem e vão embora. Apesar de disfarçar, Valentim não consegue esconder seu
abatimento. Ele estava aliviado, mas abatido. Seu caso extraconjugal, que mal
começara, já havia terminado.
Lentamente sua
vida voltaria ao normal. Já sentindo o gosto insosso de sua vida maçante e sem
emoção, ele se lamenta. Ele sentia saudades de Irena.
Segurando suas
lágrimas, ele se despede em pensamentos. Então, dirigindo-se aos seus afazeres,
ele enxuga seus olhos e volta a trabalhar em silêncio.
Valentim estava
triste.

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