domingo, 17 de abril de 2022

Liubliana - 06 - A Visita do Imperador

 


Dois anos atrás.

Era uma bela manhã de verão. Valentim e Danica se levantam e se preparam para ir a um extraordinário evento; o imperador austríaco Franz Joseph ia fazer uma visita oficial à cidade e o Parlamento convocou os cidadãos para comparecerem. A população se extasia; todos queriam ver com seus próprios olhos aquele que os governava.

O marido troca de roupas e se perfuma. A esposa, porém, reservara um tempo para restaurar o seu vestido. No passado Danica rasgou seu véu e agora ela costurava um novo. Com grande habilidade, ela passava a linha e a agulha, costurando os rasgos de seu empoeirado vestido.

Um hora mais tarde eles chegam na Praça do Congresso. As ruas estavam tão abarrotadas que eles mal podiam ver o prédio do Parlamento. O casal se aperta entre a multidão e se aproxima da varanda. Valentim não se importava com as figuras públicas, mas Danica se interessava e queria ver de perto seus governantes.

A cerimônia estava prestes a começar. Com os modernos rifles semiautomáticos em suas mãos, a guarda imperial isola o acesso e a carruagem do imperador se aproxima. Na entrada do Parlamento havia outra guarda, uma mais cerimonial e solene; eles portavam espadas e elmos com penas. Ao som de trombetas, a carruagem do imperador chega.

A carruagem abre as portas e a multidão vê o tão esperado imperador. Ele era calvo, tinha cabelos loiros, longa barba e olhos azuis.  Ele vestia um uniforme solene de cor branca, uma faixa vermelha em seu tórax e dezenas de insígnias militares em seu peito.  Sua aparência era de um homem elegante, porém robusto, típico de um nobre austríaco. Ao seu lado eles veem sua esposa, a imperatriz Elisabeth Amalie Eugenie von Bayern, também conhecida por “Sissi”. Ela tinha uma aparência jovem e delicada; seus cabelos eram castanhos, longos e ela vestia um belíssimo vestido branco.

Da carruagem também sai outra figura importante. A multidão via um lorde inglês com trajes elegantes, pretos e uma bengala debaixo do braço. Eles não o conheciam, mas era o embaixador do império britânico na Áustria-Hungria, o Sir Augustus Paget.

Os ilustres convidados são recebidos pelo Landespräsident[1] de Carníola, um cargo apontado pelo próprio imperador. Todos os parlamentares estão lá também e os recebem com muita formalidade. Em seguida eles são levados para o interior do prédio.

Os nobres do Império Austro-Húngaro chegam diretamente da Áustria. Eles eram da dinastia dos Habsburgos, os centenários governantes de sua terra e de outros povos. Todos vestiam roupas requintadas e muito lindas.

Muitas outras carruagens chegam logo em seguida. A multidão não via nenhum conhecido, mas sabiam de sua importância ao império. Aqueles eram os burgueses do Reino Unido, industrialistas super ricos que investiam e financiavam a indústria em Carníola. Eles vestiam cartolas, portavam bengalas e usavam esquisitos monóculos em seus rostos.  

Mais atrás chegavam outros convidados de honra. Eles viam inventores e engenheiros ingleses, mas pouco conhecidos.

A cerimônia começa. Na varanda do Parlamento, o imperador, a imperatriz e o embaixador inglês se apresentam à multidão. A Praça do Congresso exulta o seu nome, o que deixa Valentim muito intrigado. Dezoito anos atrás ele os havia mandado a uma guerra desastrosa contra os prussianos, e muitos perderam seus familiares, inclusive o próprio Valentim. Os que ficaram passaram fome; a economia fora destruída. Mas, afastando esses pensamentos, ele prefere não pensar nisso.

O Landespräsident inicia o discurso. Ele agradece a presença do imperador e dos ingleses na cerimônia, e o grande prestígio que a província recebia.

Na multidão, um homem próximo a Valentim comenta a seu amigo:

- Com certeza Franz Joseph veio para nos subjugar com sua polícia secreta. Você conhece esses nobres. Eles farão de tudo pelos pobres, menos descer de suas costas.

O outro cidadão responde:

- Será mesmo, Andrej? Acho que ele veio justificar a adesão dual de seu reino com a Hungria.

- A Hungria é o menor dos seus problemas, Goran... – discorda o homem – Ele veio nos dar desculpas esfarrapadas pelo colapso diplomático com os prussianos e sua vergonhosa submissão aos ingleses. É claro, às custas do povo eslavo, naturalmente. 

- Você tem certeza? – pergunta Danica, para a surpresa de todos.

O tal Andrej se vira e pergunta:

- Perdão, senhora?

- Não acho que sua aliança aos ingleses seja vergonhosa. Após as derrotas contra os franceses e os prussianos, é natural que ele tenha de procurar outros aliados. O império está enfraquecido e o isolamento agora seria catastrófico para o país, podendo culminar em uma onda de revoluções.

Os homens se espantam com as palavras de Danica. Ninguém esperava tamanho conhecimento e sensatez de uma plebeia. Andrej ia comentar alguma coisa, mas então o imperador inicia o seu discurso.

- Cidadãos e súditos de Carníola, eu sou o Imperador Franz Joseph I da Áustria e Rei da Hungria, Croácia e Boêmia. Me sinto honrado pelo caloroso recebimento e vos agradeço do fundo do meu coração. Eu bem conheço a história de vossa gloriosa terra. Sei que passaram por dificuldades e árduos momentos, mas nenhum deles foi ignorado por mim. Em 1809, a França vos submeteu ao seu imperialismo despótico, fundando os governos fantoches das Províncias Ilirianas. Em 1816 a Áustria os rechaçou e retomou as províncias de Ilíria, mas fomos novamente derrotados em 1859, perdendo o valioso território de Lombardia. Entretanto, eu venho lhes dizer que o império não vos abandonou.        

Goran comenta:

- Ele está falando dos tempos em que Carníola englobava o Reino de Ilíria. Isso foi antes da guerra contra os prussianos, não?

Franz Joseph continua:

- Eu lamento pelos danos materiais causados e pela perda de vidas humanas em 1866, mas devo informar que fomos arrastados para uma guerra provocada pelas mazelas de uma cobra venenosa, uma figura espúria que hoje ocupa a chancelaria do fajuto Reich Alemão: Otto von Bismarck.

Então os nobres e os ingleses se espantam com suas palavras ásperas.

- É de minha responsabilidade a manutenção do império. Sou responsável pelo bem-estar dos meus súditos. Por estas razões eu abandonei o absolutismo e reconheci o dualismo com os húngaros, assinando o Compromisso Austro-Húngaro de 1867. Não me esqueci das minorias étnicas do império, sobretudo eslavas. Por esta razão instaurei o voto universal para a eleição do Reichsrat[2].

- Ora, mas que cinismo! – comenta Andrej – Ele o fez sob pressão!

- Mesmo Liubliana compartilha de um passado alemão com os austríacos. Por muitos séculos esta cidade teve o nome de Laybach, evidenciando a nossa história mútua. Portanto eu vos digo: nós não os abandonaremos!

Então a multidão aplaude ao seu imperador.

- Vejo que ele não perdeu seu carisma. – comenta Goran.

- É um interlúdio. – interrompe Danica – Um método discursivo destinado a emocionar e inflamar as massas. Isso manipula as nossas emoções, nos dando a impressão de que somos cuidados por um bondoso e paternal rei.

Goran, Andrej e também Valentim olham espantados para ela. Mesmo seu marido não sabia que ela era tão culta.

O imperador continua:

- Para reerguermos o império e resgatarmos o orgulho cívico dos cidadãos, nós nos aliamos ao Império Britânico para a mútua cooperação e o desenvolvimento tecnológico. E esta aliança já nos rendeu bons frutos. Com a descoberta do miraculoso Plasma, e com o aparato tecnológico necessário para o seu refinamento, ingleses e austríacos contribuíram para o progresso da sociedade, como demonstraremos a seguir.

Dando espaço para Sir Augustus Paget, o embaixador discursa com forte sotaque inglês:

- Cidadãos de Carníola, graças ao espantoso potencial energético do Plasma conseguimos adapta-lo ao funcionamento das máquinas. Não sabemos exatamente sua origem, mas ele se tornou imprescindível no maquinário da indústria. Ao dispensarmos totalmente a utilização do vapor d’água nas máquinas, nós o aplicamos nas locomotivas, nos motores e agora nas novas invenções dos nossos engenheiros. Cidadãos de Carníola, eu vos apresento nossas novas invenções!

E então carruagens aparecem, mas os liublianenses não entendem; as carruagens não eram puxadas por cavalos. Ocultos em um compartimento na traseira, as carruagens eram movidas por motores.

O embaixador diz:

- Baseando-nos nos projetos do belga Jean Lenoir, de 1860, e do francês Alphonse Rochas, de 1862, reconstruímos seus protótipos e readaptamos o combustível. Nós trocamos o vapor da água pelo Plasma. Sim, meus amigos. O estudo aprofundado desta incrível substância possibilitou a mistura química dos componentes, transformando-o de mero fertilizante a combustível.

Os ignorantes provincianos não entendem o que ele quis dizer, mas aquilo pouco importava. Atônitos, eles não conseguiam acreditar no que viam. As carruagens autômatas moviam-se sozinhas pela praça, guiadas apenas pelos cocheiros ingleses. Alguns riam, outros se assustavam, mas ninguém compreendia bem aquilo.

Em seguida, o embaixador exibe motores outrora movidos por vapor d’água. Eles viam bombas de poço, moinhos de grãos e teares de algodão movidas pelo Plasma. Além das máquinas industriais, prensas de jornal, máquinas de lavar, ventiladores e outros aparelhos domésticos eram exibidos. A fumaça verde emanava das máquinas, perfumando o ar com aquele cheiro de mato.

De repente aparece uma carruagem com algo oculto sob um manto. Os ingleses o revelam e a multidão se assusta, reconhecendo um enorme robô. Ele tinha dois metros e meio, era feito de ferro fundido e movido a engrenagens mecânicas. O inventor o liga e seus olhos brilham em um verde hipnótico, surpreendendo a todos. O robô começa a andar sozinho e os cidadãos se assustam, recuando pela praça. Alguns gritam e abertamente os acusam de bruxaria. Temendo um tumulto, o embaixador diz:

- Cidadãos de Carníola! Acalmem-se, por favor! O robô é totalmente inofensivo! Ele não tem consciência e não pode lhes fazer mal algum!

Mas não era isso o que eles viam. O monólito de ferro caminhava com passos pesados, girando suas engrenagens e polias, e soltando vapor. Ao menor comando ele poderia esmagar seus crânios com suas poderosas mãos.  

Alguém entre o povo pergunta:

- Qual é a finalidade desta abominação?

- O autômato foi construído para demonstração apenas. Sua finalidade é demonstrar o potencial energético do Plasma. – responde o embaixador.

Agarrando um pesadíssimo motor de ferro, o robô o levanta sobre a cabeça. A multidão recua. O robô faz um movimento errado e intenta arremessa-lo contra as pessoas; e neste momento elas se desesperam.

A gritaria e o pânico se alastram. Obrigado a intervir, o imperador se aproxima e diz:

- Alguém desligue esta máquina, pelo amor de Deus!

       

§

 

O robô é afastado do público e a cerimônia continua normalmente. Os inventores retornam e continuam exibindo suas estranhas engenhocas. Valentim ri da maioria delas, mas Danica as contempla com muito fascínio.

Uma hora se passa e a cerimônia se encerra. O imperador vai embora em sua carruagem, esta puxada por cavalos.

“É melhor ter precaução, não?”, pensa Valentim, ironizando-o.

Os burgueses, por outro lado, decidem conhecer a cidade da qual eles investiram tanto dinheiro. Acompanhados dos nobres austro-húngaros, eles sobem nas intrigantes carruagens automatizadas e partem pela cidade.

Percorrendo as ruas, os burgueses olhavam para os cidadãos de Liubliana. Sobre a carruagem eles comentavam sobre sua nova classe operária em Carníola. Os burgueses lançavam olhares altivos sobre o povo, como se eles fossem poucos mais do que animais devido a sua insignificância. Eles os viam como uma plebe suja, rude, burros de carga destinada ao trabalho árduo das fábricas. 

A carruagem passa pelo casal. Valentim e Danica vestiam seus habituais trapos e estavam magros pela subnutrição. O marido vestia sua camisa aberta até a metade, cabelo penteado para trás e suas botas de sola gasta. A esposa tinha seus cabelos eriçados e vestidos que mais se pareciam com as cortinas da sala. De queixos erguidos, os burgueses olham para eles e os observam. Magros, feios e mal vestidos, eles viam a dois miseráveis.

Valentim se sente sondado e então retirado de sua dignidade. Ele, um amante de sua esposa, um homem esforçado e trabalhador honesto, diminuído pelo olhar de um rico industrialista estrangeiro. Ele se sente rebaixado, desprezado e humilhado a ponto de sentir vergonha de si mesmo.

Com suas bengalas sob seus braços, os burgueses retiram sua humanidade. Agora Valentim se via como um animal. Mesmo sua esposa não é poupada; eles lhe fazem semblantes de pena e desprezo. Nestes poucos segundos o casal percebe o quanto suas vidas eram deprimentes, o quanto elas eram desprovidos de qualquer valor.

Todos queriam dinheiro. Os pobres eram capazes de tudo para consegui-lo, incluindo roubar e matar. Os burgueses eram ricos, absurdamente ricos; eles tinham aquilo que os pobres mais queriam na vida e se portavam como se pudessem compra-los por um preço. Com dinheiro os ricos compravam seu trabalho, sua lealdade e até sua dignidade. Alguns pobres se sujeitavam a este abuso tornando-se seus servos fiéis. Muitas foram as vezes em que algumas mulheres tiveram sua honra explorada pelos nobres do império. Porém, quando engravidaram foram abandonadas e forçadas a criar sozinhas seus filhos bastardos. Em espanto Valentim se lembra de quantos destes mesmos filhos se tornaram lacaios de seus desprezíveis pais, na esperança de que eles mesmos se ascendessem à nobreza. E ele sabia o porquê: dinheiro.      

Então os burgueses sorriem e viram seus rostos em insignificância, indo embora em seguida. A carruagem se afasta e o casal os assiste olharem para outros plebeus com aquela mesma soberba. Os burgueses riam, sabendo que se eles pendurassem pedaços de rosbife na ponta de suas bengalas, os pobres se acotovelariam para pega-los. Para eles a singela possibilidade de humilha-los já era uma grande diversão.

Abatido, o marido vira seu rosto e encontra o olhar de sua esposa. Ela se sentiu mal também. Humilhados, os dois ficam em silêncio por um tempo, fingindo estar tudo bem. Então Danica agarra o braço de Valentim e o puxa para perto de si. Ela sorri amorosamente. Apesar da humilhação, ela ainda encontrava forças para consolar a seu marido.   

Valentim não consegue corresponde-la. O olhar tóxico dos ricos o esgotara completamente. Então ele segura a mão de sua esposa e a leva dali. Aquela exposição de engenhocas inglesas podia ir para o inferno para o seu bem entender.

 

§

 

Anoitece lá fora. Os acendedores acendiam os postes e as ruas se iluminavam com a chama verde. De volta à sua casa, o casal se senta à mesa e janta em silêncio. Eles comiam uma sopa rala feita de brócolis e outros legumes da feira.

Uma vela no meio da mesa iluminava tenuamente o casal. Eles viam apenas o suficiente para enxergar o prato de sopa na mesa. Valentim a sugava da colher fazendo o característico ruído. Danica tomava a sopa também, embora com um pouco mais de classe e etiqueta.

“E quando foi que isso me levou para frente na vida?”, pergunta-se ela, em desprezo.

De repente o marido quebra o silêncio e diz:  

- Danica, passamos por muitas situações difíceis na vida. Talvez eu não consiga ficar rico e te dar o conforto que você merece, mas saiba que você terá para sempre o meu amor, o meu corpo e minha fidelidade a você. Por que eu te amo para sempre... – nesse momento ele começa a chorar – E se houver espaço no seu coração para o amor de um miserável, nojento e desprezível plebeu... Saiba que você é minha maior riqueza... E eu dou o meu amor a você... Pois isso é tudo o que eu tenho.

Surpresa com sua súbita declaração de amor, a mulher o abraça. Valentim permanece sentado na cadeira, agarrado a sua esposa e chorando tristemente. Danica beija sua cabeça e o abraça firmemente. Apesar do jeito rude de seu marido, eram sinceros os sentimentos de seu coração.

- Não se preocupe com riquezas, Vali. Eu também te amo e terei tudo o que preciso se você estiver bem aqui.

Acima dos quarenta anos e sem filhos, Danica sabe que estaria desamparada se seu marido morresse. Valentim, por outro lado, era um ignorante, inepto nas tarefas domésticas e um rejeitado de sua família. E neste momento eles percebem. Não era apenas o amor, mas também a necessidade que os conectava. 

Então eles amargamente reconhecem. Naquela vida de miséria em que viviam, ambos eram tudo o que tinham.     

 

 



[1] Governador em alemão

[2] Parlamento em alemão

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