Dois anos atrás.
Era uma bela
manhã de verão. Valentim e Danica se levantam e se preparam para ir a um
extraordinário evento; o imperador austríaco Franz Joseph ia fazer uma visita
oficial à cidade e o Parlamento convocou os cidadãos para comparecerem. A
população se extasia; todos queriam ver com seus próprios olhos aquele que os
governava.
O marido troca de
roupas e se perfuma. A esposa, porém, reservara um tempo para restaurar o seu
vestido. No passado Danica rasgou seu véu e agora ela costurava um novo. Com
grande habilidade, ela passava a linha e a agulha, costurando os rasgos de seu
empoeirado vestido.
Um hora mais
tarde eles chegam na Praça do Congresso. As ruas estavam tão abarrotadas que
eles mal podiam ver o prédio do Parlamento. O casal se aperta entre a multidão
e se aproxima da varanda. Valentim não se importava com as figuras públicas,
mas Danica se interessava e queria ver de perto seus governantes.
A cerimônia estava
prestes a começar. Com os modernos rifles semiautomáticos em suas mãos, a
guarda imperial isola o acesso e a carruagem do imperador se aproxima. Na
entrada do Parlamento havia outra guarda, uma mais cerimonial e solene; eles
portavam espadas e elmos com penas. Ao som de trombetas, a carruagem do
imperador chega.
A carruagem abre
as portas e a multidão vê o tão esperado imperador. Ele era calvo, tinha
cabelos loiros, longa barba e olhos azuis.
Ele vestia um uniforme solene de cor branca, uma faixa vermelha em seu tórax
e dezenas de insígnias militares em seu peito.
Sua aparência era de um homem elegante, porém robusto, típico de um
nobre austríaco. Ao seu lado eles veem sua esposa, a imperatriz Elisabeth
Amalie Eugenie von Bayern, também conhecida por “Sissi”. Ela tinha uma
aparência jovem e delicada; seus cabelos eram castanhos, longos e ela vestia um
belíssimo vestido branco.
Da carruagem
também sai outra figura importante. A multidão via um lorde inglês com trajes elegantes,
pretos e uma bengala debaixo do braço. Eles não o conheciam, mas era o
embaixador do império britânico na Áustria-Hungria, o Sir Augustus Paget.
Os ilustres
convidados são recebidos pelo Landespräsident[1]
de Carníola, um cargo apontado pelo próprio imperador. Todos os parlamentares
estão lá também e os recebem com muita formalidade. Em seguida eles são levados
para o interior do prédio.
Os nobres do
Império Austro-Húngaro chegam diretamente da Áustria. Eles eram da dinastia dos
Habsburgos, os centenários governantes de sua terra e de outros povos. Todos vestiam
roupas requintadas e muito lindas.
Muitas outras
carruagens chegam logo em seguida. A multidão não via nenhum conhecido, mas
sabiam de sua importância ao império. Aqueles eram os burgueses do Reino Unido,
industrialistas super ricos que investiam e financiavam a indústria em
Carníola. Eles vestiam cartolas, portavam bengalas e usavam esquisitos
monóculos em seus rostos.
Mais atrás
chegavam outros convidados de honra. Eles viam inventores e engenheiros
ingleses, mas pouco conhecidos.
A cerimônia
começa. Na varanda do Parlamento, o imperador, a imperatriz e o embaixador
inglês se apresentam à multidão. A Praça do Congresso exulta o seu nome, o que
deixa Valentim muito intrigado. Dezoito anos atrás ele os havia mandado a uma
guerra desastrosa contra os prussianos, e muitos perderam seus familiares,
inclusive o próprio Valentim. Os que ficaram passaram fome; a economia fora
destruída. Mas, afastando esses pensamentos, ele prefere não pensar nisso.
O Landespräsident inicia o discurso. Ele
agradece a presença do imperador e dos ingleses na cerimônia, e o grande
prestígio que a província recebia.
Na multidão, um
homem próximo a Valentim comenta a seu amigo:
- Com certeza
Franz Joseph veio para nos subjugar com sua polícia secreta. Você conhece esses
nobres. Eles farão de tudo pelos pobres, menos descer de suas costas.
O outro cidadão
responde:
- Será mesmo,
Andrej? Acho que ele veio justificar a adesão dual de seu reino com a Hungria.
- A Hungria é o
menor dos seus problemas, Goran... – discorda o homem – Ele veio nos dar
desculpas esfarrapadas pelo colapso diplomático com os prussianos e sua
vergonhosa submissão aos ingleses. É claro, às custas do povo eslavo,
naturalmente.
- Você tem
certeza? – pergunta Danica, para a surpresa de todos.
O tal Andrej se
vira e pergunta:
- Perdão, senhora?
- Não acho que
sua aliança aos ingleses seja vergonhosa. Após as derrotas contra os franceses
e os prussianos, é natural que ele tenha de procurar outros aliados. O império
está enfraquecido e o isolamento agora seria catastrófico para o país, podendo
culminar em uma onda de revoluções.
Os homens se
espantam com as palavras de Danica. Ninguém esperava tamanho conhecimento e
sensatez de uma plebeia. Andrej ia comentar alguma coisa, mas então o imperador
inicia o seu discurso.
- Cidadãos e
súditos de Carníola, eu sou o Imperador Franz Joseph I da Áustria e Rei da
Hungria, Croácia e Boêmia. Me sinto honrado pelo caloroso recebimento e vos
agradeço do fundo do meu coração. Eu bem conheço a história de vossa gloriosa
terra. Sei que passaram por dificuldades e árduos momentos, mas nenhum deles
foi ignorado por mim. Em 1809, a França vos submeteu ao seu imperialismo
despótico, fundando os governos fantoches das Províncias Ilirianas. Em 1816 a
Áustria os rechaçou e retomou as províncias de Ilíria, mas fomos novamente derrotados
em 1859, perdendo o valioso território de Lombardia. Entretanto, eu venho lhes
dizer que o império não vos abandonou.
Goran comenta:
- Ele está
falando dos tempos em que Carníola englobava o Reino de Ilíria. Isso foi antes
da guerra contra os prussianos, não?
Franz Joseph
continua:
- Eu lamento
pelos danos materiais causados e pela perda de vidas humanas em 1866, mas devo
informar que fomos arrastados para uma guerra provocada pelas mazelas de uma
cobra venenosa, uma figura espúria que hoje ocupa a chancelaria do fajuto Reich
Alemão: Otto von Bismarck.
Então os nobres e
os ingleses se espantam com suas palavras ásperas.
- É de minha
responsabilidade a manutenção do império. Sou responsável pelo bem-estar dos
meus súditos. Por estas razões eu abandonei o absolutismo e reconheci o
dualismo com os húngaros, assinando o Compromisso Austro-Húngaro de 1867. Não
me esqueci das minorias étnicas do império, sobretudo eslavas. Por esta razão
instaurei o voto universal para a eleição do Reichsrat[2].
- Ora, mas que
cinismo! – comenta Andrej – Ele o fez sob pressão!
- Mesmo Liubliana
compartilha de um passado alemão com os austríacos. Por muitos séculos esta
cidade teve o nome de Laybach, evidenciando
a nossa história mútua. Portanto eu vos digo: nós não os abandonaremos!
Então a multidão
aplaude ao seu imperador.
- Vejo que ele
não perdeu seu carisma. – comenta Goran.
- É um interlúdio.
– interrompe Danica – Um método discursivo destinado a emocionar e inflamar as
massas. Isso manipula as nossas emoções, nos dando a impressão de que somos
cuidados por um bondoso e paternal rei.
Goran, Andrej e
também Valentim olham espantados para ela. Mesmo seu marido não sabia que ela
era tão culta.
O imperador
continua:
- Para
reerguermos o império e resgatarmos o orgulho cívico dos cidadãos, nós nos
aliamos ao Império Britânico para a mútua cooperação e o desenvolvimento
tecnológico. E esta aliança já nos rendeu bons frutos. Com a descoberta do
miraculoso Plasma, e com o aparato tecnológico necessário para o seu
refinamento, ingleses e austríacos contribuíram para o progresso da sociedade,
como demonstraremos a seguir.
Dando espaço para
Sir Augustus Paget, o embaixador discursa com forte sotaque inglês:
- Cidadãos de
Carníola, graças ao espantoso potencial energético do Plasma conseguimos
adapta-lo ao funcionamento das máquinas. Não sabemos exatamente sua origem, mas
ele se tornou imprescindível no maquinário da indústria. Ao dispensarmos totalmente
a utilização do vapor d’água nas máquinas, nós o aplicamos nas locomotivas, nos
motores e agora nas novas invenções dos nossos engenheiros. Cidadãos de
Carníola, eu vos apresento nossas novas invenções!
E então carruagens
aparecem, mas os liublianenses não entendem; as carruagens não eram puxadas por
cavalos. Ocultos em um compartimento na traseira, as carruagens eram movidas
por motores.
O embaixador diz:
- Baseando-nos nos
projetos do belga Jean Lenoir, de 1860, e do francês Alphonse Rochas, de 1862,
reconstruímos seus protótipos e readaptamos o combustível. Nós trocamos o vapor
da água pelo Plasma. Sim, meus amigos. O estudo aprofundado desta incrível
substância possibilitou a mistura química dos componentes, transformando-o de
mero fertilizante a combustível.
Os ignorantes
provincianos não entendem o que ele quis dizer, mas aquilo pouco importava.
Atônitos, eles não conseguiam acreditar no que viam. As carruagens autômatas
moviam-se sozinhas pela praça, guiadas apenas pelos cocheiros ingleses. Alguns
riam, outros se assustavam, mas ninguém compreendia bem aquilo.
Em seguida, o
embaixador exibe motores outrora movidos por vapor d’água. Eles viam bombas de
poço, moinhos de grãos e teares de algodão movidas pelo Plasma. Além das
máquinas industriais, prensas de jornal, máquinas de lavar, ventiladores e
outros aparelhos domésticos eram exibidos. A fumaça verde emanava das máquinas,
perfumando o ar com aquele cheiro de mato.
De repente
aparece uma carruagem com algo oculto sob um manto. Os ingleses o revelam e a
multidão se assusta, reconhecendo um enorme robô. Ele tinha dois metros e meio,
era feito de ferro fundido e movido a engrenagens mecânicas. O inventor o liga
e seus olhos brilham em um verde hipnótico, surpreendendo a todos. O robô
começa a andar sozinho e os cidadãos se assustam, recuando pela praça. Alguns
gritam e abertamente os acusam de bruxaria. Temendo um tumulto, o embaixador
diz:
- Cidadãos de
Carníola! Acalmem-se, por favor! O robô é totalmente inofensivo! Ele não tem
consciência e não pode lhes fazer mal algum!
Mas não era isso
o que eles viam. O monólito de ferro caminhava com passos pesados, girando suas
engrenagens e polias, e soltando vapor. Ao menor comando ele poderia esmagar
seus crânios com suas poderosas mãos.
Alguém entre o
povo pergunta:
- Qual é a
finalidade desta abominação?
- O autômato foi
construído para demonstração apenas. Sua finalidade é demonstrar o potencial
energético do Plasma. – responde o embaixador.
Agarrando um
pesadíssimo motor de ferro, o robô o levanta sobre a cabeça. A multidão recua.
O robô faz um movimento errado e intenta arremessa-lo contra as pessoas; e neste
momento elas se desesperam.
A gritaria e o
pânico se alastram. Obrigado a intervir, o imperador se aproxima e diz:
- Alguém desligue
esta máquina, pelo amor de Deus!
§
O robô é afastado
do público e a cerimônia continua normalmente. Os inventores retornam e
continuam exibindo suas estranhas engenhocas. Valentim ri da maioria delas, mas
Danica as contempla com muito fascínio.
Uma hora se passa
e a cerimônia se encerra. O imperador vai embora em sua carruagem, esta puxada
por cavalos.
“É melhor ter
precaução, não?”, pensa Valentim, ironizando-o.
Os burgueses, por
outro lado, decidem conhecer a cidade da qual eles investiram tanto dinheiro.
Acompanhados dos nobres austro-húngaros, eles sobem nas intrigantes carruagens
automatizadas e partem pela cidade.
Percorrendo as
ruas, os burgueses olhavam para os cidadãos de Liubliana. Sobre a carruagem
eles comentavam sobre sua nova classe operária em Carníola. Os burgueses
lançavam olhares altivos sobre o povo, como se eles fossem poucos mais do que
animais devido a sua insignificância. Eles os viam como uma plebe suja, rude, burros
de carga destinada ao trabalho árduo das fábricas.
A carruagem passa
pelo casal. Valentim e Danica vestiam seus habituais trapos e estavam magros
pela subnutrição. O marido vestia sua camisa aberta até a metade, cabelo
penteado para trás e suas botas de sola gasta. A esposa tinha seus cabelos eriçados
e vestidos que mais se pareciam com as cortinas da sala. De queixos erguidos,
os burgueses olham para eles e os observam. Magros, feios e mal vestidos, eles
viam a dois miseráveis.
Valentim se sente
sondado e então retirado de sua dignidade. Ele, um amante de sua esposa, um
homem esforçado e trabalhador honesto, diminuído pelo olhar de um rico industrialista
estrangeiro. Ele se sente rebaixado, desprezado e humilhado a ponto de sentir
vergonha de si mesmo.
Com suas bengalas
sob seus braços, os burgueses retiram sua humanidade. Agora Valentim se via
como um animal. Mesmo sua esposa não é poupada; eles lhe fazem semblantes de
pena e desprezo. Nestes poucos segundos o casal percebe o quanto suas vidas eram
deprimentes, o quanto elas eram desprovidos de qualquer valor.
Todos queriam
dinheiro. Os pobres eram capazes de tudo para consegui-lo, incluindo roubar e
matar. Os burgueses eram ricos, absurdamente ricos; eles tinham aquilo que os
pobres mais queriam na vida e se portavam como se pudessem compra-los por um
preço. Com dinheiro os ricos compravam seu trabalho, sua lealdade e até sua
dignidade. Alguns pobres se sujeitavam a este abuso tornando-se seus servos
fiéis. Muitas foram as vezes em que algumas mulheres tiveram sua honra
explorada pelos nobres do império. Porém, quando engravidaram foram abandonadas
e forçadas a criar sozinhas seus filhos bastardos. Em espanto Valentim se
lembra de quantos destes mesmos filhos se tornaram lacaios de seus desprezíveis
pais, na esperança de que eles mesmos se ascendessem à nobreza. E ele sabia o
porquê: dinheiro.
Então os
burgueses sorriem e viram seus rostos em insignificância, indo embora em
seguida. A carruagem se afasta e o casal os assiste olharem para outros plebeus
com aquela mesma soberba. Os burgueses riam, sabendo que se eles pendurassem
pedaços de rosbife na ponta de suas bengalas, os pobres se acotovelariam para
pega-los. Para eles a singela possibilidade de humilha-los já era uma grande
diversão.
Abatido, o marido
vira seu rosto e encontra o olhar de sua esposa. Ela se sentiu mal também.
Humilhados, os dois ficam em silêncio por um tempo, fingindo estar tudo bem.
Então Danica agarra o braço de Valentim e o puxa para perto de si. Ela sorri
amorosamente. Apesar da humilhação, ela ainda encontrava forças para consolar a
seu marido.
Valentim não
consegue corresponde-la. O olhar tóxico dos ricos o esgotara completamente.
Então ele segura a mão de sua esposa e a leva dali. Aquela exposição de
engenhocas inglesas podia ir para o inferno para o seu bem entender.
§
Anoitece lá fora.
Os acendedores acendiam os postes e as ruas se iluminavam com a chama verde. De
volta à sua casa, o casal se senta à mesa e janta em silêncio. Eles comiam uma
sopa rala feita de brócolis e outros legumes da feira.
Uma vela no meio
da mesa iluminava tenuamente o casal. Eles viam apenas o suficiente para
enxergar o prato de sopa na mesa. Valentim a sugava da colher fazendo o
característico ruído. Danica tomava a sopa também, embora com um pouco mais de
classe e etiqueta.
“E quando foi que
isso me levou para frente na vida?”, pergunta-se ela, em desprezo.
De repente o
marido quebra o silêncio e diz:
- Danica,
passamos por muitas situações difíceis na vida. Talvez eu não consiga ficar
rico e te dar o conforto que você merece, mas saiba que você terá para sempre o
meu amor, o meu corpo e minha fidelidade a você. Por que eu te amo para
sempre... – nesse momento ele começa a chorar – E se houver espaço no seu
coração para o amor de um miserável, nojento e desprezível plebeu... Saiba que
você é minha maior riqueza... E eu dou o meu amor a você... Pois isso é tudo o
que eu tenho.
Surpresa com sua
súbita declaração de amor, a mulher o abraça. Valentim permanece sentado na
cadeira, agarrado a sua esposa e chorando tristemente. Danica beija sua cabeça
e o abraça firmemente. Apesar do jeito rude de seu marido, eram sinceros os
sentimentos de seu coração.
- Não se preocupe
com riquezas, Vali. Eu também te amo e terei tudo o que preciso se você estiver
bem aqui.
Acima dos
quarenta anos e sem filhos, Danica sabe que estaria desamparada se seu marido
morresse. Valentim, por outro lado, era um ignorante, inepto nas tarefas
domésticas e um rejeitado de sua família. E neste momento eles percebem. Não
era apenas o amor, mas também a necessidade que os conectava.
Então eles
amargamente reconhecem. Naquela vida de miséria em que viviam, ambos eram tudo
o que tinham.

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