sábado, 23 de abril de 2022

Liubliana - 07 - O Desaparecimento de Danica


(Artista desconhecido)  


De volta ao presente, Valentim almoça com seus colegas da fábrica. Ele se distrai, lembrando-se de sua vida com Danica. Os anos se passaram. A vida foi um pouco cruel. Seu passado com ela foi cheio de altos e baixos, adversidades que poucos casais que realmente se amam suportariam juntos.

Valentim se lembra do imperador visitando a cidade. Ele veio pessoalmente apresentar ao povo a chegada dos investimentos ingleses. O imperador havia prometido desenvolvimento industrial e o progresso a Carníola, fonte da substância de nome Plasma. Olhando para aquela fábrica imunda e seu emprego de semiescravidão, ele vê o resultado desse “progresso”.

Seus colegas comiam o žganci, a famosa refeição dos pobres e dos trabalhadores braçais. O prato era feito de farinha de trigo sarraceno, milho ou uma combinação de batata e farinha de trigo. Era fervido com água, óleo de cozinha e sal. A refeição era tão popular que os carníolos tinham um famoso dizer: “o žganci é o pedestal de Carníola”. De fato, o prato era crucial para a sobrevivência da população, pois podia ser servido como café da manhã ou almoço. Também podia ser reaquecido para a janta ou o café da manhã do dia seguinte.

Diferente deles, Valentim não comia a “refeição dos pobres”. Danica pegou alguns pães velhos e os misturou em uma sopa de legumes. Ao pegar os pães, o marido desconfiou que sua esposa ficaria sem café da manhã. Ele perguntou:

- Dani, se eu levar meu almoço, você não ficará sem ter o que comer hoje?

- Não se preocupe, Vali. Há mais pães na cozinha.

Mas mesmo Orfeu miava de fome; passeando entre suas pernas, ele lhes pedia por comida. Olhando para sua esposa, Valentim percebe que ela respondera de maneira estranha. Seu semblante estava distante e abatido.

- Isto aqui são apenas sobras, Dani. Não poderei levar sabendo que só tem isso.

- Valentim, eu te asseguro, não ficarei sem comida hoje.

Ao olhar para a cozinha, ele a via com os armários vazios como sempre.

- Eu lamento, Dani, mas não poderei leva-los. Não há mais comida alguma aí.

Então ela se enfurece e exclama:

- Eu quero que o diabo me carregue para o inferno se não houver mais comida aqui!

Valentim se espanta e até o gato foge, assustado.

- Danica...!

 Aquilo era blasfêmia. Danica, uma mulher devota na igreja, jamais diria uma coisa dessas. Arfando de ódio, a vela iluminava o seu rosto irascível. Sem saber o que lhe passava, o marido pergunta:

- Dani, está tudo bem?

Virando-se, a esposa põe as mãos na cabeça e responde:

- Valentim, apenas pegue o seu almoço e vá.

A mulher falava como se estivesse prestes a ter um colapso nervoso.

- Mas, Dani...

- Vá embora!

Assustando-se, o marido se silencia. Então ele pega sua marmita e deixa a casa.

 

§

 

Vendo a panelinha enrolada delicadamente com um pano de guardanapo, ele pensa:

“Tudo o que ela faz é com bastante carinho”.

A sopa não tinha um sabor bom ou boa aparência, mas garantiria sua sobrevivência por mais um dia.

“Teu esforço não será em vão, minha esposa. Eu prometo”.

Sentados em troncos, seus colegas comiam com colheres tortas. Então eles começam a falar de filhos. Valentim ouve a conversa e descobre que todos ali eram pais. Alguns tinham seus filhos de seis anos trabalhando naquela mesma fábrica. Ele nota como ali havia mesmo muitas crianças; elas esfregavam o piso e lavavam tecidos em tanques com sabão.  

Um homem ruivo olha para ele e pergunta:

- E você, Valentim? Você tem filhos?

Ele responde:

- Não, senhor.

Todos se espantam. Valentim tinha a aparência de um homem maduro de quarenta anos.

- Por que não? – pergunta o ruivo – Tem problemas de virilidade? – brinca ele.

As memórias amargas inundam sua mente. Danica engravidou três vezes e todas terminaram em lamentáveis tragédias. Na primeira ela perdeu o bebê enquanto dormia; na segunda seu pai a estapeou, fazendo-a perder a gravidez; e na terceira, o bebê nasceu morto, abalando os familiares e vizinhos.

Com dificuldade em controlar a garganta, ele responde:

- Eu... – ele hesita – Minha esposa não pode ter filhos.

- Ela é estéril?

- Não. – esclarece ele – Nós decidimos não tentar mais desde a última vez.

Seus colegas se intrigam, não conseguindo entender.

- Decidiram não tentar mais? E como conseguiram?

- Como assim?

- Queremos saber como, pois creio que deve ser muito difícil evita-los durante a intimidade.

Valentim se constrange.

- Este não é um assunto que eu gosto de falar a respeito.

- Mas...

- Ei, pare já, cabelo de fogo! Você não vê que o deixou constrangido? – interrompe alguém.

O ruivo desiste de questiona-lo e o deixa em paz. Valentim fica em um silêncio pesaroso; apesar do fato ser há quase vinte anos, as memórias ainda eram vívidas em sua mente.

Olhando para um homem de barba castanha, o ruivo pergunta:

- E você, Cvetko[1]? Você tem filhos?

O homem se assusta, parecendo esconder algo.

- Não. – responde ele – Eu tinha.

Todos se intrigam.

- Tinha? – interessa-se ele – O que houve?

- Não sei se vocês vão querer saber.

- Ora, você está entre homens aqui! Ninguém está acima dos erros e da culpa!

O homem sorri.

- Está bem. – então ele baixa sua cabeça e conta sua história revirando a comida – Eu vivia no campo antes de me mudar para a cidade. Nossa família costumava plantar trigo ao sul de Carníola. A situação financeira estava má. Durante a guerra, o império fez requisições cada vez mais altas para suprir o exército. Então os prussianos venceram e não tínhamos mais o que comer...

- Ora, isso é bem trágico! – comenta alguém.

- Acho que todos aqui passamos por isso.

Cvetko continua:

- Minha família quis vir para a cidade. Disseram que os ingleses pretendiam instalar indústrias aqui. Mas eu quis ficar porque sou do campo e agricultura é tudo o que eu sei fazer. – explica ele – Então um dia eu me propus a recuperar o campo e replantar o trigo. Fui ao vilarejo e comprei veneno para as pragas, colocando-o em um garrafão de vinho. Ao trazê-lo para casa, eu o deixei na porta da cozinha e fui ao campo. Meu filho de três anos viu a garrafa e pensou que era suco, pois minha família costumava encher as garrafas de suco ao se esgotar o vinho. – nesse momento ele começa a enfraquecer a voz – Meu menino abriu a garrafa, viu o veneno e o tomou. Não sei como ele conseguiu abri-la, mas suas mãozinhas fizeram força. Desde cedo e ele já era forte como o pai... – sorri ele – Depois ele chamou minha sobrinha e a ofereceu também. Se minha mãe não chegasse a tempo ela também teria bebido.

Seus colegas ouvem atônitos e em silêncio. Ele continua:

- Eu o coloquei em minha carroça e corri ao médico do vilarejo. Meu menino foi no colo da mãe. Ele estava pálido, seus olhos se reviravam e seus lábios estavam roxos. O vômito era tanto que ensopava suas roupas. Enquanto a carroça seguia eu batia tão forte na rédea que feri o cavalo. Mas eu não me importei, continuei batendo até o sangue se espirrar em minhas roupas... – lágrimas se escorrem – Chegando no destino, eu peguei meu menino no colo, mas não havia mais tempo. – ele hesita – Meu filho havia falecido.

Então todos se horrorizam.

Um silêncio pesado paira no grupo. Um minuto depois alguém olha para o ruivo e diz:

- Ei, cabelo de fogo. Que tal falarmos de outra coisa?

O apito assopra, liberando o vapor. O horário de almoço acaba e todos voltam a trabalhar em silêncio.

 

§

 

Finado o expediente, Valentim volta para casa. Ele passa pelas ruas e becos sinuosos de Liubliana. A noite chegara e ventava frio. Acostumado a situações difíceis em sua vida, ele não se importa.

Suas roupas estavam suadas e levemente esverdeadas. Na fábrica, a caldeira de Plasma assoprava sobre ele, impregnando suas roupas. Passando nos becos, elas curiosamente brilhavam no escuro.

Nas ruas abertas, ele vê as carruagens autômatas. Aos poucos elas tomavam a cidade, substituindo aquelas puxadas por cavalos. Liubliana, uma cidade pacata de prédios claros e telhados vermelhos, perdia a tonalidade para o onipresente verde. O vapor do Plasma estava em toda parte, nas máquinas industriais, nas carruagens autômatas e até na iluminação dos postes. Valentim não sabia o que era aquela substância, mas ela parecia se adaptar bem ao seu uso.

Os operários ingleses também voltavam para a casa. Eles se dirigem ao seu bairro ao norte da cidade. Nem todos eram maus e Valentim se sente um preconceituoso ao iguala-los aos seus patrões burgueses. Pensando novamente, se a burguesia era a nova nobreza da Inglaterra, ele preferia a tirania de seus próprios nobres austro-húngaros.

Próximo ao Rio Liublianica, as carruagens de bombeiros passavam apressadamente. Mesmo os guardas da Gendarme Austríaca[2] pareciam bastante afoitos aquela noite. Enquanto caminha, Valentim estranha a pressa incomum em sua cidade provinciana.

 Ao longe, ele vê um incêndio. Ele se aproxima e vê uma casa em chamas no meio de um bairro de operários. A Gendarme isola o local enquanto os bombeiros tentam apagar o fogo. Os residentes e curiosos se aglomeravam, querendo ver o que estava acontecendo. Valentim vê um casal conversando e pergunta:

- Boa noite, senhores. O que houve aqui?

O homem olha para Valentim e responde:

- É a Helena, nossa vizinha. Ela causou o incêndio.

- Por quê?

Desta vez a mulher responde:

- Ela se cansou de ser agredida e humilhada por seu marido. Ela esperou ele dormir, derramou Plasma pela casa inteira e depois ateou fogo. Maldito porco alcóolatra... Teve o que merecia.  

Ao ouvi-la, ele se surpreende.

- Por que o marido guardava Plasma em sua casa?

O homem sorri.

- Ora, essa! Você não viu o que os ingleses conseguiram? Eles o transformaram em combustível. E isso faz dois anos já! – ri ele – O marido alcóolatra o guardava porque trabalhava em seu refinamento. Trapaceiro e ladrão como era, ele o roubou na intenção de vende-lo a algum trambiqueiro por aí!

Então Valentim se constrange. Se ele soubesse que secretamente vendiam o Plasma, ele o compraria para que Danica não precisasse mais acender o fogo com lenha e carvão.

- E ele morreu?

Os dois estranham a pergunta óbvia.

- Certamente, oras!

A Gendarme guardava uma carruagem com rifles em mãos. Ele pergunta:

- E quanto a esposa? Os guardas conseguiram prende-la?

- Sim. Ela está ali dentro da carruagem. A pobre coitada passará o resto de seus dias na prisão.

A mulher complementa:

- Eu não entendo por que ela fez isso. Ela era tão calma e amigável! Não sei por que Deus colocou um fardo tão pesado em seus ombros como o seu marido, mas jamais pensei que um dia ela fosse capaz de mata-lo. E pior: queimando-o vivo.

Valentim se espanta.

- Uma onda de violência se espalha pela cidade. Nunca antes se viu um aumento tão grande na criminalidade assim. Pessoas estão sendo assassinadas, outras estão desaparecidas... Ninguém mais quer sair à noite. – afirma o homem – Isso só pode ser culpa dos ingleses! Não havia nada disso antes deles morarem aqui!

- Ou é culpa do Plasma. – sugere a mulher – Lembre-se que os ingleses só vieram após sua descoberta e a convite do próprio império. Ninguém sabe de onde ele veio. Talvez devêssemos estuda-lo melhor antes de mexer com algo tão misterioso. Mas vocês conhecem o Homem; sempre egoísta e ganancioso em seu intento.

- De qualquer forma... – conclui ele, suspirando – Esta cidade está ficando louca.

Valentim concorda em silêncio.

Enquanto a casa arde em chamas, o inspetor caminha ao redor. Valentim o observa e vê um homem de casaco marrom e cabelos loiros. Algo lhe chama a atenção, um fascínio misturado com um incômodo que ele não consegue compreender. Parecia que, de alguma forma, eles se conheciam há muito tempo. Então seus olhares se encontram e o inspetor se intriga. Eles se encaram por alguns segundos. Valentim e o inspetor não sabiam, mas seus destinos estavam traçados e suas vidas mudariam para sempre.

A madeira se estrala e o telhado da casa cede, levantando uma onda de brasa pela rua. A fumaça o sufoca e Valentim se afasta. Temendo por sua segurança, ele se vira e decide voltar para casa.

Caminhando em silêncio, ele vê os postes iluminando a rua com a chama verde. Valentim pensa em falar para sua esposa sobre o filho falecido de seu colega. Ele estima que, ao saber que outros também perderam seus filhos, a história aplacará a sua dor. Sua casa se aproxima e ele já consegue ver a porta de entrada. O vento sopra mais frio e ele abotoa o casaco, aquecendo-se.

Ao abrir a porta, ele se intriga; ela estava entreaberta. Adentrando a casa, ele a encontra vazia e silenciosa. Entretanto, as velas estavam acesas.

- Dani! Eu cheguei! – alerta ele.

 Caminhando pela sala, ele encontra o gato Orfeu em sua poltrona. Irritando-se, ele pensa:

“Mas que peste! Agora minhas roupas ficarão cheias de pelos!”.

Espantando-o, ele abana o estofado e depois vai para a cozinha. Um silêncio funéreo pairava nela. Os armários, as panelas e todo o resto estava em perfeita ordem. A janela estava fechada e ele conseguia ver o beco lá fora.

Subindo as escadas, seus passos rangiam sinistramente pela escuridão. Ele chega ao seu quarto e também o encontra vazio. A cama e o roupeiro estavam arrumados; não havia sinal de desordem em lugar algum. Valentim se intriga.

Ele desce as escadas e chama por sua esposa.

- Danica! Onde você está?

Não encontrando-a, ele se desespera. Sua esposa jamais sairia à noite assim.

Valentim deixa a casa e dá a volta pelos becos. Eles estavam vazios e sinistros como um cemitério. Nas ruas ele via apenas as carruagens e as pessoas voltando apressadas para casa. Então ele põe as mãos nos cabelos e olha ao redor, confuso.

Voltando para a casa, ele encontra Orfeu novamente em sua poltrona. Preocupado como estava, ele nem teve tempo de se irritar com ele. Valentim estava desesperado; ele olhava ao redor e não sabia o que fazer.

Ele sobe as escadas e checa novamente o quarto. Não havia ninguém. Com as pernas trêmulas, ele se senta na cama e sente o seu coração disparar. O medo o havia subjugado. Suor se escorre de sua testa e sua boca fica seca. Em pânico ele reconhece. Não havia mais onde procurar.

Danica havia desaparecido.

 

 



[1] Lê-se “svetko”. Significa flor em esloveno

[2] Instituição equivalente à Polícia Militar

domingo, 17 de abril de 2022

Liubliana - 06 - A Visita do Imperador

 


Dois anos atrás.

Era uma bela manhã de verão. Valentim e Danica se levantam e se preparam para ir a um extraordinário evento; o imperador austríaco Franz Joseph ia fazer uma visita oficial à cidade e o Parlamento convocou os cidadãos para comparecerem. A população se extasia; todos queriam ver com seus próprios olhos aquele que os governava.

O marido troca de roupas e se perfuma. A esposa, porém, reservara um tempo para restaurar o seu vestido. No passado Danica rasgou seu véu e agora ela costurava um novo. Com grande habilidade, ela passava a linha e a agulha, costurando os rasgos de seu empoeirado vestido.

Um hora mais tarde eles chegam na Praça do Congresso. As ruas estavam tão abarrotadas que eles mal podiam ver o prédio do Parlamento. O casal se aperta entre a multidão e se aproxima da varanda. Valentim não se importava com as figuras públicas, mas Danica se interessava e queria ver de perto seus governantes.

A cerimônia estava prestes a começar. Com os modernos rifles semiautomáticos em suas mãos, a guarda imperial isola o acesso e a carruagem do imperador se aproxima. Na entrada do Parlamento havia outra guarda, uma mais cerimonial e solene; eles portavam espadas e elmos com penas. Ao som de trombetas, a carruagem do imperador chega.

A carruagem abre as portas e a multidão vê o tão esperado imperador. Ele era calvo, tinha cabelos loiros, longa barba e olhos azuis.  Ele vestia um uniforme solene de cor branca, uma faixa vermelha em seu tórax e dezenas de insígnias militares em seu peito.  Sua aparência era de um homem elegante, porém robusto, típico de um nobre austríaco. Ao seu lado eles veem sua esposa, a imperatriz Elisabeth Amalie Eugenie von Bayern, também conhecida por “Sissi”. Ela tinha uma aparência jovem e delicada; seus cabelos eram castanhos, longos e ela vestia um belíssimo vestido branco.

Da carruagem também sai outra figura importante. A multidão via um lorde inglês com trajes elegantes, pretos e uma bengala debaixo do braço. Eles não o conheciam, mas era o embaixador do império britânico na Áustria-Hungria, o Sir Augustus Paget.

Os ilustres convidados são recebidos pelo Landespräsident[1] de Carníola, um cargo apontado pelo próprio imperador. Todos os parlamentares estão lá também e os recebem com muita formalidade. Em seguida eles são levados para o interior do prédio.

Os nobres do Império Austro-Húngaro chegam diretamente da Áustria. Eles eram da dinastia dos Habsburgos, os centenários governantes de sua terra e de outros povos. Todos vestiam roupas requintadas e muito lindas.

Muitas outras carruagens chegam logo em seguida. A multidão não via nenhum conhecido, mas sabiam de sua importância ao império. Aqueles eram os burgueses do Reino Unido, industrialistas super ricos que investiam e financiavam a indústria em Carníola. Eles vestiam cartolas, portavam bengalas e usavam esquisitos monóculos em seus rostos.  

Mais atrás chegavam outros convidados de honra. Eles viam inventores e engenheiros ingleses, mas pouco conhecidos.

A cerimônia começa. Na varanda do Parlamento, o imperador, a imperatriz e o embaixador inglês se apresentam à multidão. A Praça do Congresso exulta o seu nome, o que deixa Valentim muito intrigado. Dezoito anos atrás ele os havia mandado a uma guerra desastrosa contra os prussianos, e muitos perderam seus familiares, inclusive o próprio Valentim. Os que ficaram passaram fome; a economia fora destruída. Mas, afastando esses pensamentos, ele prefere não pensar nisso.

O Landespräsident inicia o discurso. Ele agradece a presença do imperador e dos ingleses na cerimônia, e o grande prestígio que a província recebia.

Na multidão, um homem próximo a Valentim comenta a seu amigo:

- Com certeza Franz Joseph veio para nos subjugar com sua polícia secreta. Você conhece esses nobres. Eles farão de tudo pelos pobres, menos descer de suas costas.

O outro cidadão responde:

- Será mesmo, Andrej? Acho que ele veio justificar a adesão dual de seu reino com a Hungria.

- A Hungria é o menor dos seus problemas, Goran... – discorda o homem – Ele veio nos dar desculpas esfarrapadas pelo colapso diplomático com os prussianos e sua vergonhosa submissão aos ingleses. É claro, às custas do povo eslavo, naturalmente. 

- Você tem certeza? – pergunta Danica, para a surpresa de todos.

O tal Andrej se vira e pergunta:

- Perdão, senhora?

- Não acho que sua aliança aos ingleses seja vergonhosa. Após as derrotas contra os franceses e os prussianos, é natural que ele tenha de procurar outros aliados. O império está enfraquecido e o isolamento agora seria catastrófico para o país, podendo culminar em uma onda de revoluções.

Os homens se espantam com as palavras de Danica. Ninguém esperava tamanho conhecimento e sensatez de uma plebeia. Andrej ia comentar alguma coisa, mas então o imperador inicia o seu discurso.

- Cidadãos e súditos de Carníola, eu sou o Imperador Franz Joseph I da Áustria e Rei da Hungria, Croácia e Boêmia. Me sinto honrado pelo caloroso recebimento e vos agradeço do fundo do meu coração. Eu bem conheço a história de vossa gloriosa terra. Sei que passaram por dificuldades e árduos momentos, mas nenhum deles foi ignorado por mim. Em 1809, a França vos submeteu ao seu imperialismo despótico, fundando os governos fantoches das Províncias Ilirianas. Em 1816 a Áustria os rechaçou e retomou as províncias de Ilíria, mas fomos novamente derrotados em 1859, perdendo o valioso território de Lombardia. Entretanto, eu venho lhes dizer que o império não vos abandonou.        

Goran comenta:

- Ele está falando dos tempos em que Carníola englobava o Reino de Ilíria. Isso foi antes da guerra contra os prussianos, não?

Franz Joseph continua:

- Eu lamento pelos danos materiais causados e pela perda de vidas humanas em 1866, mas devo informar que fomos arrastados para uma guerra provocada pelas mazelas de uma cobra venenosa, uma figura espúria que hoje ocupa a chancelaria do fajuto Reich Alemão: Otto von Bismarck.

Então os nobres e os ingleses se espantam com suas palavras ásperas.

- É de minha responsabilidade a manutenção do império. Sou responsável pelo bem-estar dos meus súditos. Por estas razões eu abandonei o absolutismo e reconheci o dualismo com os húngaros, assinando o Compromisso Austro-Húngaro de 1867. Não me esqueci das minorias étnicas do império, sobretudo eslavas. Por esta razão instaurei o voto universal para a eleição do Reichsrat[2].

- Ora, mas que cinismo! – comenta Andrej – Ele o fez sob pressão!

- Mesmo Liubliana compartilha de um passado alemão com os austríacos. Por muitos séculos esta cidade teve o nome de Laybach, evidenciando a nossa história mútua. Portanto eu vos digo: nós não os abandonaremos!

Então a multidão aplaude ao seu imperador.

- Vejo que ele não perdeu seu carisma. – comenta Goran.

- É um interlúdio. – interrompe Danica – Um método discursivo destinado a emocionar e inflamar as massas. Isso manipula as nossas emoções, nos dando a impressão de que somos cuidados por um bondoso e paternal rei.

Goran, Andrej e também Valentim olham espantados para ela. Mesmo seu marido não sabia que ela era tão culta.

O imperador continua:

- Para reerguermos o império e resgatarmos o orgulho cívico dos cidadãos, nós nos aliamos ao Império Britânico para a mútua cooperação e o desenvolvimento tecnológico. E esta aliança já nos rendeu bons frutos. Com a descoberta do miraculoso Plasma, e com o aparato tecnológico necessário para o seu refinamento, ingleses e austríacos contribuíram para o progresso da sociedade, como demonstraremos a seguir.

Dando espaço para Sir Augustus Paget, o embaixador discursa com forte sotaque inglês:

- Cidadãos de Carníola, graças ao espantoso potencial energético do Plasma conseguimos adapta-lo ao funcionamento das máquinas. Não sabemos exatamente sua origem, mas ele se tornou imprescindível no maquinário da indústria. Ao dispensarmos totalmente a utilização do vapor d’água nas máquinas, nós o aplicamos nas locomotivas, nos motores e agora nas novas invenções dos nossos engenheiros. Cidadãos de Carníola, eu vos apresento nossas novas invenções!

E então carruagens aparecem, mas os liublianenses não entendem; as carruagens não eram puxadas por cavalos. Ocultos em um compartimento na traseira, as carruagens eram movidas por motores.

O embaixador diz:

- Baseando-nos nos projetos do belga Jean Lenoir, de 1860, e do francês Alphonse Rochas, de 1862, reconstruímos seus protótipos e readaptamos o combustível. Nós trocamos o vapor da água pelo Plasma. Sim, meus amigos. O estudo aprofundado desta incrível substância possibilitou a mistura química dos componentes, transformando-o de mero fertilizante a combustível.

Os ignorantes provincianos não entendem o que ele quis dizer, mas aquilo pouco importava. Atônitos, eles não conseguiam acreditar no que viam. As carruagens autômatas moviam-se sozinhas pela praça, guiadas apenas pelos cocheiros ingleses. Alguns riam, outros se assustavam, mas ninguém compreendia bem aquilo.

Em seguida, o embaixador exibe motores outrora movidos por vapor d’água. Eles viam bombas de poço, moinhos de grãos e teares de algodão movidas pelo Plasma. Além das máquinas industriais, prensas de jornal, máquinas de lavar, ventiladores e outros aparelhos domésticos eram exibidos. A fumaça verde emanava das máquinas, perfumando o ar com aquele cheiro de mato.

De repente aparece uma carruagem com algo oculto sob um manto. Os ingleses o revelam e a multidão se assusta, reconhecendo um enorme robô. Ele tinha dois metros e meio, era feito de ferro fundido e movido a engrenagens mecânicas. O inventor o liga e seus olhos brilham em um verde hipnótico, surpreendendo a todos. O robô começa a andar sozinho e os cidadãos se assustam, recuando pela praça. Alguns gritam e abertamente os acusam de bruxaria. Temendo um tumulto, o embaixador diz:

- Cidadãos de Carníola! Acalmem-se, por favor! O robô é totalmente inofensivo! Ele não tem consciência e não pode lhes fazer mal algum!

Mas não era isso o que eles viam. O monólito de ferro caminhava com passos pesados, girando suas engrenagens e polias, e soltando vapor. Ao menor comando ele poderia esmagar seus crânios com suas poderosas mãos.  

Alguém entre o povo pergunta:

- Qual é a finalidade desta abominação?

- O autômato foi construído para demonstração apenas. Sua finalidade é demonstrar o potencial energético do Plasma. – responde o embaixador.

Agarrando um pesadíssimo motor de ferro, o robô o levanta sobre a cabeça. A multidão recua. O robô faz um movimento errado e intenta arremessa-lo contra as pessoas; e neste momento elas se desesperam.

A gritaria e o pânico se alastram. Obrigado a intervir, o imperador se aproxima e diz:

- Alguém desligue esta máquina, pelo amor de Deus!

       

§

 

O robô é afastado do público e a cerimônia continua normalmente. Os inventores retornam e continuam exibindo suas estranhas engenhocas. Valentim ri da maioria delas, mas Danica as contempla com muito fascínio.

Uma hora se passa e a cerimônia se encerra. O imperador vai embora em sua carruagem, esta puxada por cavalos.

“É melhor ter precaução, não?”, pensa Valentim, ironizando-o.

Os burgueses, por outro lado, decidem conhecer a cidade da qual eles investiram tanto dinheiro. Acompanhados dos nobres austro-húngaros, eles sobem nas intrigantes carruagens automatizadas e partem pela cidade.

Percorrendo as ruas, os burgueses olhavam para os cidadãos de Liubliana. Sobre a carruagem eles comentavam sobre sua nova classe operária em Carníola. Os burgueses lançavam olhares altivos sobre o povo, como se eles fossem poucos mais do que animais devido a sua insignificância. Eles os viam como uma plebe suja, rude, burros de carga destinada ao trabalho árduo das fábricas. 

A carruagem passa pelo casal. Valentim e Danica vestiam seus habituais trapos e estavam magros pela subnutrição. O marido vestia sua camisa aberta até a metade, cabelo penteado para trás e suas botas de sola gasta. A esposa tinha seus cabelos eriçados e vestidos que mais se pareciam com as cortinas da sala. De queixos erguidos, os burgueses olham para eles e os observam. Magros, feios e mal vestidos, eles viam a dois miseráveis.

Valentim se sente sondado e então retirado de sua dignidade. Ele, um amante de sua esposa, um homem esforçado e trabalhador honesto, diminuído pelo olhar de um rico industrialista estrangeiro. Ele se sente rebaixado, desprezado e humilhado a ponto de sentir vergonha de si mesmo.

Com suas bengalas sob seus braços, os burgueses retiram sua humanidade. Agora Valentim se via como um animal. Mesmo sua esposa não é poupada; eles lhe fazem semblantes de pena e desprezo. Nestes poucos segundos o casal percebe o quanto suas vidas eram deprimentes, o quanto elas eram desprovidos de qualquer valor.

Todos queriam dinheiro. Os pobres eram capazes de tudo para consegui-lo, incluindo roubar e matar. Os burgueses eram ricos, absurdamente ricos; eles tinham aquilo que os pobres mais queriam na vida e se portavam como se pudessem compra-los por um preço. Com dinheiro os ricos compravam seu trabalho, sua lealdade e até sua dignidade. Alguns pobres se sujeitavam a este abuso tornando-se seus servos fiéis. Muitas foram as vezes em que algumas mulheres tiveram sua honra explorada pelos nobres do império. Porém, quando engravidaram foram abandonadas e forçadas a criar sozinhas seus filhos bastardos. Em espanto Valentim se lembra de quantos destes mesmos filhos se tornaram lacaios de seus desprezíveis pais, na esperança de que eles mesmos se ascendessem à nobreza. E ele sabia o porquê: dinheiro.      

Então os burgueses sorriem e viram seus rostos em insignificância, indo embora em seguida. A carruagem se afasta e o casal os assiste olharem para outros plebeus com aquela mesma soberba. Os burgueses riam, sabendo que se eles pendurassem pedaços de rosbife na ponta de suas bengalas, os pobres se acotovelariam para pega-los. Para eles a singela possibilidade de humilha-los já era uma grande diversão.

Abatido, o marido vira seu rosto e encontra o olhar de sua esposa. Ela se sentiu mal também. Humilhados, os dois ficam em silêncio por um tempo, fingindo estar tudo bem. Então Danica agarra o braço de Valentim e o puxa para perto de si. Ela sorri amorosamente. Apesar da humilhação, ela ainda encontrava forças para consolar a seu marido.   

Valentim não consegue corresponde-la. O olhar tóxico dos ricos o esgotara completamente. Então ele segura a mão de sua esposa e a leva dali. Aquela exposição de engenhocas inglesas podia ir para o inferno para o seu bem entender.

 

§

 

Anoitece lá fora. Os acendedores acendiam os postes e as ruas se iluminavam com a chama verde. De volta à sua casa, o casal se senta à mesa e janta em silêncio. Eles comiam uma sopa rala feita de brócolis e outros legumes da feira.

Uma vela no meio da mesa iluminava tenuamente o casal. Eles viam apenas o suficiente para enxergar o prato de sopa na mesa. Valentim a sugava da colher fazendo o característico ruído. Danica tomava a sopa também, embora com um pouco mais de classe e etiqueta.

“E quando foi que isso me levou para frente na vida?”, pergunta-se ela, em desprezo.

De repente o marido quebra o silêncio e diz:  

- Danica, passamos por muitas situações difíceis na vida. Talvez eu não consiga ficar rico e te dar o conforto que você merece, mas saiba que você terá para sempre o meu amor, o meu corpo e minha fidelidade a você. Por que eu te amo para sempre... – nesse momento ele começa a chorar – E se houver espaço no seu coração para o amor de um miserável, nojento e desprezível plebeu... Saiba que você é minha maior riqueza... E eu dou o meu amor a você... Pois isso é tudo o que eu tenho.

Surpresa com sua súbita declaração de amor, a mulher o abraça. Valentim permanece sentado na cadeira, agarrado a sua esposa e chorando tristemente. Danica beija sua cabeça e o abraça firmemente. Apesar do jeito rude de seu marido, eram sinceros os sentimentos de seu coração.

- Não se preocupe com riquezas, Vali. Eu também te amo e terei tudo o que preciso se você estiver bem aqui.

Acima dos quarenta anos e sem filhos, Danica sabe que estaria desamparada se seu marido morresse. Valentim, por outro lado, era um ignorante, inepto nas tarefas domésticas e um rejeitado de sua família. E neste momento eles percebem. Não era apenas o amor, mas também a necessidade que os conectava. 

Então eles amargamente reconhecem. Naquela vida de miséria em que viviam, ambos eram tudo o que tinham.     

 

 



[1] Governador em alemão

[2] Parlamento em alemão

sexta-feira, 8 de abril de 2022

Liubliana - 05 - Amante

 


(Arte de L'Enfant de la Forêt)


Dezesseis anos atrás.

Valentim e Danica passavam por maus momentos. Brigas e desentendimentos eram frequentes. Eles não tinham mais paz; era como se aquela vela preta tivesse trazido uma nuvem de contenda sobre a casa.

Certo dia, Danica lhes sugere ir à igreja. Entediado, o marido assente. Não fazia muito tempo que sua esposa havia perdido o bebê. As brigas a abalavam e agrada-la agora era o mais importante.   

No domingo de manhã eles se levantam. O mau humor era visível em Valentim; ele não suportava a missa, pois a achava desnecessária e enfadonha. Ele não entende por que tinham de acordar tão cedo. Ao olhar pela janela, o sol mal havia nascido no horizonte.

Vestindo suas melhores roupas, eles deixam a casa e partem à Catedral de São Nicolau, também conhecida como Catedral de Liubliana. Lá fora eles veem as ruas frias e nevoentas, típicas de sua cidade. Balbuciando algo, ele resmunga em descontentamento.

Chegando à catedral, eles a veem cheias de idosos na entrada.

“Malditos velhos!”, pensa ele. “Fizeram maldade a vida inteira e agora pensam que terão salvação”.

Valentim não entendia muito de doutrinas e dogmas, mas sabia que Deus não era nenhum ingênuo que podia ser enganado com uma confissão desonesta dos pecados. A mudança tinha de vir do coração.

No interior, ele procura um banco e se senta. O cheiro de madeira velha e a fumaça das velas lhe dão enjoo. O casal não tinha uma Bíblia; Valentim mal sabia ler e Danica não tinha dinheiro para comprar uma. Mas ao olhar ao redor, eles notam que ninguém tinha também. Devido a Contrarreforma, o Vaticano não publicara muitas nas prensas protestantes, e as poucas que haviam estavam em grego ou latim, linguagens incompreensíveis para as classes mais pobres.

Nos primeiros bancos o casal vê as figuras mais importantes de Carníola; eram os nobres, políticos e latifundiários da província. Suas belas e requintadas roupas os impressionam. Perto deles os dois se sentiam um casal de maltrapilhos, cachorros que se arrastavam entre suas pernas a procura de migalhas que caíam de suas mesas.

O padre começa o culto e coincidentemente a mensagem era sobre o casamento. Incomodado, Valentim vê aquilo como uma conspiração.

 - Em Provérbios 12:4 diz: A mulher virtuosa é coroa de honra para seu marido, mas a de atitudes vergonhosas é como podridão nos ossos dele.

Ouvindo que a admoestação era para as esposas e não para os maridos, ele se anima. Pelo menos aquele dia Danica não ia azucrinar seus ouvidos com tendenciosas citações bíblicas.

O padre continua:

- E em Provérbios 14:1 diz: A mulher sábia edifica a sua casa, mas com as próprias mãos a insensata destrói o seu lar.

E então ele sorri. Ao vê-lo se divertindo, Danica o cutuca. Ela estava desconfortável e irritada com seu marido.

Por último, o padre discursa:

- Maridos, cuidem de seus passos, pois em Provérbios 23 diz: Filho meu, dá-me o teu coração, e que teus filhos apreciem também os meus caminhos, pois as mulheres imorais e insensatas são como uma armadilha profunda e mortal. Como um assaltante elas espreitam suas vítimas, e multiplicam entre os homens o número de infiéis!

Nesse momento Valentim se incomoda. Coçando sua nuca, ele olha para o lado e encontra o olhar de uma mulher observando-o. Ele se intriga, pois suspeita que já a havia visto antes. 

- Para que são os ais de pesar? Para quem as expressões de profunda tristeza? Para quem são as brigas e inimizades?

E então Danica o encara. Eles estavam brigando muito.

- Para quem são os ferimentos desnecessários?

E então Valentim se desconcerta. Mortes ocorriam devido ao adultério.

A missa prossegue. Discretamente olhando para o lado, o marido observa a mulher desconhecida ao longe. Ela tinha longos cabelos negros e se parecia muito com sua esposa. Algo o incomodava, pois a conhecia de algum lugar.

Despertando atenção desnecessária, ele se vira e volta a assistir ao culto.

Uma hora depois o padre encerra a missa e eles vão embora.

No lado de fora, ele procura pela mulher. Danica está conversando com outras fiéis e se distrai. Vendo um conhecido seu à distância, Valentim se aproxima e o cumprimenta:

- Olá, Rajmund. Como vai?

O homem se vira e responde:

- Valentim?! Não esperava encontra-lo aqui...

Ele brinca:

- Eu também não. Minha mulher me obrigou.

Rajmund ri.

- E então? Como estão as coisas? Está tudo bem com Danica?

- Sim, sim, está tudo bem. – mudando de assunto, ele pergunta o que lhe interessa – Rajmund, por acaso você viu uma mulher de cabelos pretos no culto? Ela estava sentada próximo ao confessionário.

- Vi, sim. Por quê?

- Você a conhece? Eu acho que já a vi em algum lugar.

- Sim, ela é de nossa vizinhança. O nome dela é Irena. Éramos amigos de infância, então ela se casou e se mudou para outro bairro. E então uma tragédia aconteceu.

- Tragédia? – interessa-se ele.

- Ela ficou viúva. Seu marido morreu na guerra contra os prussianos. Malditos Habsburgos! Nos mandam à guerra enquanto eles dormem em palácios de ouro...!

Ignorando-o, ele pergunta:

- E onde ela está morando?

- Na rua de trás de sua casa. Na verdade ela cresceu lá. Fico espantando que você não se lembre.

De fato ele não se lembrava, mas a mulher parecia conhece-lo também.

- Entendi. Muito obrigado, Rajmund. Tenha um bom dia.

- De nada, Vali! Mande lembranças para Danica!

 

§

 

Na semana seguinte, Valentim trabalha normalmente na oficina. O movimento era modesto e poucas pessoas solicitavam seus serviços. Distraído enquanto talha uma cadeira, alguém aparece e pergunta:

- Dobro jutro, gospod[1]. Vocês fazem reparos de dobradiças?

Valentim se vira e imediatamente arregala os olhos. Ele via a Irena. Ela vestia um véu e carregava uma cesta de frutas em seus braços.

- Pozdravljena, gospa[2]. – responde ele, quase gaguejando – Fazemos sim. De que dobradiças está falando?

- São de minhas portas e janelas. Me mudei recentemente para minha velha casa e elas estão rangendo muito. Gostaria que algo fosse feito a respeito.

- É claro. Podemos agendar uma visita em sua casa, se quiser. E então eu levarei minhas ferramentas.

- Está bem. – responde ela – Aqui está o meu endereço. Eu tenho certa urgência. Poderia passar amanhã?

Valentim assente e então sorri.

Um dia se passa. Levando um estojo de madeira em sua mão, o homem percorre as ruas de Liubliana. Ele estava irritado, pois na mesma manhã havia brigado com Danica. Lentamente ele se acostuma com o fato de que não a suporta mais.

Chegando ao seu destino, ele bate à porta. Não foi uma caminhada longa; Irena morava na rua de trás, ele apenas precisou pegar suas ferramentas na oficina antes.

Irena abre. Ao encara-la, algo místico paira no ar. A mulher tinha um olhar hipnótico, como se perscrutasse sua alma e descobrisse seus medos. Por outro lado, Valentim se empolga. Seu olhar efusivo lhe evoca interesse. Ele não sabe dizer se ela o queria, mas ele se enche de desejo.

- Bom dia, senhora. Vim fazer o serviço, como combinado.

- Oh, por favor. Me chame de Irena.

O homem assente, omitindo o fato de que ele já a conhecia.

Os dois entram. Levando-o pela casa, ela lhe indica as dobradiças com defeito. Enquanto o homem se prepara para conserta-las, ela pergunta:

- E você, senhor? Como se chama?

- Valentim.

A mulher sorri.

- Valentim... – repete ela – Do latim Valentinus. Significa forte, valente, vigoroso... Um nome de acordo, como se pode ver.

Irena notava sua camisa aberta e suas mangas arregaçadas. O peito de Valentim tinha muitos pelos e suas mãos demonstravam força.

Encabulado, ele sorri. Ele não sabia o significado do próprio nome.

- Obrigado, senhorita Irena.

Valentim continua trabalhando normalmente. As dobradiças estavam velhas e enferrujadas, mas não era difícil substitui-las. De repente a mulher pergunta:

- Você é casado, senhor Valentim?

O homem se espanta. A pergunta foi direta demais.

- Sim. – responde ele.

- Você não usa aliança. – acusa ela, sorrindo.

Valentim se entristece, desviando o olhar.

- Eu não tinha dinheiro. Prometi lhe dar uma quando pudesse comprar.

- Para sua esposa?

- Sim.

A mulher pensa em silêncio. Nesse momento, Valentim nota como seus olhos eram grandes, como uma linda coruja observando-o à noite.

- Sabe, eu já fui casada antes, mas meu marido morreu. Ele perdeu sua vida na Tchecoslováquia.

Ela se referia à guerra contra os prussianos em 1866. Valentim comenta:

- Eu lamento muito. Meu irmão também morreu lá, no front em Königgrätz.

A mulher se surpreende.

- Será que eles se conheceram?

Ele responde um pouco distante:

- Eu não sei.

Valentim não sabe dizer se os dois se conheceram em vida, mas na morte ambas as suas almas deviam estar vagando naqueles campos sombrios.

Enquanto retira uma porta, a mulher comenta:

- Eu te vi me olhando na igreja, senhor Valentim. 

Os olhos do homem se arregalam.

- Eu vi como me olhava. Mas não se preocupe. Eu acho que te conheço também.

- Conhece? – finge ele.

- Sim. Nós crescemos nesta mesma vizinhança, mas não nos víamos muito. Seu pai era um limpador de chaminés e o meu, um produtor de vinho.

Valentim finge não se lembrar.

Irena o encarava fixamente, o que o deixa muito desconfortável. Finado o serviço, ele a informa o preço e ela paga. Em seguida, ela diz:

- Aqui está sua gorjeta. Um presente a um amigo de infância. Até a próxima.

“Próxima?”, pergunta-se ele. Valentim era um excelente profissional. Ao consertar sua casa, as esquadrias não rangeriam por um bom tempo.

- Muito obrigado, senhorita Irena. Adeus.

 

§

 

Dois dias se passam. Valentim trabalha irritado o dia inteiro. Todas as noites ele brigava com Danica e isso muito o enraivece. Sua esposa o culpava por tudo e, ao ser pega em contradição, chorava cinicamente, dando-lhe as costas e dizendo que não queria mais falar com ele.

Distraído enquanto pensa a respeito, alguém entra na oficina e o chama. Inesperadamente era Irena novamente. Ela estava vestindo um véu preto, semelhante a um hijab das muçulmanas da Bósnia.

- Senhorita Irena? – espanta-se ele – Posso ajuda-la?

Com um sorriso misterioso, ela responde:

- Bom dia, Valentim. Eu gostaria de falar com você. Preciso novamente dos seus serviços.

Ele se intriga.

- O que houve?

- As dobradiças. Elas ainda estão rangendo.

Valentim duvida. Seu serviço foi impecável.

- Como isso é possível?

- Não se preocupe. Eu pagarei novamente, como esperado.

- Está bem. – responde ele, um pouco confuso – Podemos agendar para amanhã?

Nesse momento seu patrão intervém.

- Não se preocupe, Vali! Não há muito serviço hoje. Você pode partir agora mesmo, se a senhorita quiser.

Seu patrão ri. Ele sentia um clima de romance no ar.

- É muita gentileza, mestre! – agradece ela – Aquele barulho está me matando!

Contrariado, Valentim não tem escolha. Ele pega suas ferramentas e nota que uma estava faltando. Ele diz:

- Esqueci minha talhadeira em casa. Preciso voltar para pega-la.

- Eu vou com você. – diz ela, surpreendendo-os – Faz tempo que eu não vejo minha vizinhança. Gostaria de rever Danica, se não se importar.

- Você quer ir ver a minha mulher? – estranha ele.

- Sim.

Valentim não consegue acreditar no que ouve. Seu patrão, porém, ri escondido à distância.

- Está bem.

Em seguida eles deixam a oficina.     

No caminho, ele nota como Irena estava perfumada. Ela caminha ao seu lado e pergunta por antigos conhecidos. Valentim tenta ser simpático, mas não consegue esconder o incômodo da situação.

Ao chegar em sua casa, Irena permanece na porta. Valentim a convida e ela entra. Ele procura por sua ferramenta e a mulher fica sozinha na sala. Percebendo que a casa estava vazia, ela pergunta:    

- Valentim, onde está Danica?

Irritado, ele responde:

- Provavelmente na casa da mãe me culpando por tudo.

A mulher se interessa.

- Problemas no casamento?

- Eu não sei. Acho que sim. Estamos passando por um momento difícil.

A mulher parece se alegrar.

- E vocês brigam muito?

Desanimado, ele sussurra:

- Sim.

Irena finge se preocupar.

- Eu tenho certeza que vocês irão superar.

Em seguida os dois deixam a casa e vão embora.

Na casa de Irena, ele começa o seu trabalho. Ela lhe indica o defeito e ele testa a porta. Valentim se intriga, não havia rangido algum. Ele troca a peça assim mesmo e então vê algo. Irena tirava seu véu e soltava seus longos cabelos negros. Ela estava perfumada e o homem sentia o suave cheiro se exalando no ar.

Valentim tenta se concentrar, mas é difícil. Irena permanecia logo atrás, sorrindo maliciosamente. O cheiro dela lhe extasia, como o ópio usado pelos ingleses em sua guerra na China.

Cheio de desejo, Valentim começa a delirar. Para ele aquilo não era um perfume e sim um veneno de mulher, uma armadilha sexual feminina usada por elas na sedução. E ele caía irresistivelmente nesta sedutora armadilha.

Valentim maneja sua ferramenta, mas suas mãos suam. Se aquilo era um veneno, ele tinha vontade de inala-lo, bebê-lo e então cair em seus braços. Mas ele não podia cair; Valentim era casado.

Suando frio, ele tenta manter a calma. Ele tenta encontrar uma lógica para aquilo tudo, mas não havia lógica no amor, especialmente quando era inflamado pelo fogo da paixão. Ele finge trabalhar normalmente, mas o olhar intenso de Irena o despia atrás dele, expondo sua alma e arrastando-a para o fogo da perdição.

Amor, sexo, o desejo de se ter o que nunca teremos, tudo é cobiça. Valentim amava Danica, mas ele queria Irena. Se ele a possuísse ele a devoraria, lançando-a na cama, rasgando suas roupas e penetrando-a com a intensidade de um animal.

“Meu Deus!”, pensa ele. “O que está acontecendo com meus pensamentos?!”.

- Você quer café?

Valentim se assusta.

- O quê?!

- Café. – repete ela – Você quer?

- Não, obrigado. – responde ele, de impulso – Na verdade eu já terminei o serviço.

Apressadamente ele guarda suas ferramentas, recebe o dinheiro e deixa aquela casa.

 

§

 

Tentando dormir, Valentim passa a noite toda pensando em Irena. Ele inclusive sonha com ela. De tão distraído, ele nem teve tempo de brigar com sua esposa. Olhando para a janela, ele pensa como largaria Danica para se casar com aquela viúva deliciosa.

Pensando novamente, ele não precisava largar. Irena podia ser sua amante.

“Não!”, repreende-se ele. “Eu amo minha Danica e ela não merece isso”.

Mas seu coração diz o contrário. Seu corpo se abrasava por ela e ele não aguentaria mais um encontro se Irena o procurasse um dia.

Lembrando-se de seu bom serviço, ele se pergunta:

“E por que ela iria?”.

Então ele fecha os olhos e tenta dormir.

No dia seguinte, ele chega à oficina e seu patrão prontamente diz:

- Valentim, a viuvinha te procurou de novo. Disse para você fazer outro serviço na casa dela.

O homem não consegue acreditar no que ouve.

- Isso é impossível, senhor Matjaž! Meu serviço foi impecável.

- Tenho certeza que foi. – responde ele, sem se importar – Mas eu acho que não é esse o serviço e sim outro que ela está solicitando.

- Outro? – intriga-se ele.

- Sim. Um mais íntimo e pessoal.

- Íntimo e pessoal?! – exclama ele.

- Ela disse para você ir o quanto antes. Acho que ela vai dar uma dobradiça para você abrir. Um outro tipo de dobradiça...! – e então ele sorri – Seu garanhão!

Em seguida o patrão gargalha intensamente.

Minutos depois, Valentim chega à casa de Irena. Ao bater na porta, ela a abre e ele se espanta; Irena o recebia apenas de camisola.

- Bom dia, senhorita. – gagueja ele – Meu patrão disse para eu vir aqui. Posso ajuda-la?

- Olá, Valentim. São as dobradiças de novo. Elas estão com defeito.

- Como?

- É esta casa, eu acho que ela está estragando o seu serviço.

Valentim entra. Pegando suas ferramentas, ele intenta consertar as dobradiças, mas ao examina-las ele não encontra defeito algum. Ele pergunta:

- Você não me disse que as dobradiças estavam com defeito?

- Sim, estavam! Elas estão rangendo muito!

- Mas é a terceira vez que eu venho aqui e não vejo defeito algum!

Irena não se importa de responder. Ao invés, ela sobe a alça de sua camisola.

- Talvez só faça ruído à noite...

O homem perde a paciência. Com seu jeito ríspido, ele diz:

- Você pensa que eu não sei por que me chamou aqui? Pensa que eu não sei o que está querendo?

- Mas do que é que você está falando? – pergunta ela.

- Me recebendo de camisola e se portando como uma vagabunda. Pensa que eu trocarei minha esposa, que é uma mulher séria e direita, por uma mulher adúltera como você?

Irena se finge de ofendida. Em seguida ela maliciosamente sorri.

- Mas ainda assim você veio aqui.

- O que disse?

- Sabendo de minhas intenções, pela terceira vez você vem à minha casa. Você fala de sua esposa, de sua postura e suas virtudes, mas eu também percebi como me olha, como me observa, como me deseja... – e então ela acaricia seu rosto.

Valentim segura seu pulso e a prensa contra a parede.

- Cobra! Eu nunca te desejei!

- Não?

Movendo a cabeça, os cabelos de Irena revelam seu pescoço. Um fogo abrasador domina o seu corpo e Valentim sente seu coração disparar em seu peito. Tomado pelo instinto, ele cheira os cabelos dela lentamente. Sua mente parecia delirar. Descontrolando-se, a excitação era tanta que suas mãos tremiam.  

Irresistivelmente ela a beija. Suas línguas se friccionavam uma na outra freneticamente. Aquele era um beijo quente, apaixonado e voluptuoso, diferente do beijo morno, baforento e maçante de Danica.

Irena o empurra e ele cai na cama. Montando sobre ele, a mulher tira sua camisa e apalpa o peito de Valentim, sentindo seus pelos e seus músculos.

De pernas abertas, a mulher se esfregava em seu quadril. O homem percebe como a vagina dela estava quente e fumegava tesão. Irena jogava os cabelos de um lado ao outro, gesticulando como uma serpente seduzindo sua vítima.

As alças de sua camisola caem e ela não mais as puxa. Valentim vê seus seios empinados e seus escuros mamilos hipnotizando-o. Ele se levanta e os beija, sentindo o calor e o cheiro da mulher.

Valentim não estava aguentando mais. Seu pênis estava tão ereto que parecia que ia estoura suas calças. Irena era uma mulher astuta; ela não fazia nada sem a iniciativa do homem. Enquanto se excitam, ela maliciosamente sorri.

Virando-a na cama, Valentim intenta penetra-la sexualmente. Então algo acontece. Um constrangimento muito forte se apodera do jovem marido. Ele sente algo segurando-o, impedindo-o de consumar o ato. Desviando-se desses pensamentos, ele se concentra e tenta de novo. Mas novamente ele não consegue.

Valentim amava Danica. Seu sentimento era sincero e verdadeiro. Dentre tantas dúvidas e incertezas em sua vida, seu amor por Danica era imutável.

Constrangido, ele sente seu ímpeto diminuir.

- O que foi, Vali? Algum problema?

“Vali?”, pensa ele. “É assim que Danica me chama”.

- Eu...

Mas ele não consegue terminar a frase. As palavras morriam em sua garganta.

Percebendo que o homem perdeu o interesse, Irena o empurra e se levanta. Nua e furiosa, ela cerrava os dentes de raiva.     

- O que deu em você? Você vai querer ou não?

Deitado de braços abertos, ele responde:

- Eu não posso.

- Como assim você não pode?

Valentim passa as mãos no rosto, envergonhado.

- Eu não posso fazer isso com ela.

Irena muda seu semblante. Agora ela parecia demonstrar sentimentos por ele.

- Nós podemos ficar juntos! Você pode viver aqui, se quiser!

O marido abotoa sua camisa em silêncio. Ela insiste:

- Você gosta de mulher de religiosa, não é? Tudo bem! Eu serei mais devota na igreja!

O homem se senta e põe seus sapatos.

- Já sei o que você quer! Eu lavo, passo e cozinho! Sou uma excelente mulher do lar!

Mas Irena mentia. Ele nunca se dedicou aos afazeres domésticos durante seu casamento.

Valentim pega seu estojo e guarda suas ferramentas.

- Você não entende... – murmura ele – Nós não podemos ficar juntos.

Valentim e Danica tinham um laço muito mais forte do que o matrimonial; eles estavam ligados espiritualmente. Sacramentados pelo matrimônio, sua conexão era eterna, como se tivessem se tornado uma só carne e um só corpo. E esse laço nenhuma união extraconjugal podia quebrar.

Ele se vira e caminha até a porta. Mas antes que pudesse sair, Irena se atira contra ele e crava suas unhas em suas costas. Valentim grita, sentindo as unhas rasgando a sua pele. Ele se desvencilha e a empurra; ele sabe que a mulher não ia deixa-lo partir assim tão facilmente.

Com as marcas em seu corpo, o marido teme. Se Danica visse, ele terá problemas. Preocupado, ele coloca as mãos na cabeça e não sabe o que fazer. Enquanto isso, Irena ria. Ela estava disposta a destruir seu casamento. 

Não querendo ficar mais um minuto naquele lugar, Valentim foge. Mais uma investida e ele não resistiria.

Voltando à sua casa, ele passa água nas feridas e lava sua camisa. Se Danica ver os arranhões, ela desconfiará. Enfaixando-se, ele troca de camisa e volta à oficina.

Valentim tenta trabalhar normalmente, embora sob as piadas de seu patrão. No fim do dia ele volta para casa e sua esposa não pergunta nada, aparentemente ela não havia visto o sangue em sua roupa.

Uma semana se passa. Valentim parecia estar intoxicado por Irena. Ele pensa constantemente nela e sente vontade de voltar à sua casa para possui-la de novo. Ele estava obcecado; desta vez ele ia terminar o “serviço”. Mas não é isso o que acontece.

Amigos da vizinhança passam e conversam com seu patrão. Rindo dos inusitados encontros de Valentim, eles falam de Irena. Eles o informam que ela não estava mais na cidade; ela havia se mudado há alguns dias para Maribor, na província de Styria. Então ele se espanta.

Seus amigos se despedem e vão embora. Apesar de disfarçar, Valentim não consegue esconder seu abatimento. Ele estava aliviado, mas abatido. Seu caso extraconjugal, que mal começara, já havia terminado.

Lentamente sua vida voltaria ao normal. Já sentindo o gosto insosso de sua vida maçante e sem emoção, ele se lamenta. Ele sentia saudades de Irena.

Segurando suas lágrimas, ele se despede em pensamentos. Então, dirigindo-se aos seus afazeres, ele enxuga seus olhos e volta a trabalhar em silêncio.

Valentim estava triste.   

  

 



[1] “Bom dia, senhor” em esloveno

[2] Olá, senhora 

Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta

(Artista desconhecido) Dias se passam. Yang é mantido em um recinto com sofá, mesa e televisão. Não era bem uma cela, mas uma confortável sa...