(Artista desconhecido)
A possuída
gritava em um tom tão estridente que poderia estourar suas cordas vocais. Ela
ria e blasfemava, falando imoralidades e impropérios. A mulher se contorcia, se
mutilando e revirando os seus olhos. Para o desespero dos presentes, ela estava
em trabalho de parto, com suas pernas abertas e sofrendo contrações.
A barriga da
mulher se mexia; o bebê queria sair. Tobias estava paralisado de medo, sem
saber o que fazer. Valentim, por sua vez, suportava a tensão bravamente. Então
a mulher diz:
- Ora, vejam só
vocês! Todos fiéis devotos de Virgem Maria! Eu não sou virgem, eu sou uma
prostituta imunda cujos reis da terra se embebedaram com o vinho de minha
fornicação...!
O clima em seu
quarto estava pesado, Valentim e Tobias lutam para não desmaiar. A carga
negativa era tão forte que objetos sólidos levitavam, subindo sobrenaturalmente
do chão. A mulher diz:
- Vocês gostam de
minha vagina? Dela sai o vinho que sirvo em meu cálice! Meu cálice de ouro
cheio de abominações e das mais vis imundícies...
De repente ela
geme, agonizando com as dores das contrações. Valentim se aproxima de Tobias e
diz:
- Devemos
ajuda-la. Temos que tirá-la deste estado.
Tobias se
confunde.
- O que quer
dizer?
- Chame uma
parteira.
- O quê...?
- Chame uma
parteira, homem! – grita ele.
Então Tobias sai
de seu transe. Ele estava atônito, mal conseguindo suportar a situação. Controlando-se,
ele olha para a porta e diz:
- Precisamos de
uma parteira! Rápido!
As meretrizes
assentem e correm. Ao retornarem, elas lhes trazem uma mulher com vestidos
longos e forte maquiagem no rosto; era a cafetina. A cafetina era mais velha e
tinha os cabelos brancos, mas apesar da idade ela não largou a profissão. Ao
contrário, ela recrutou mais moças para prostituí-las e explorá-las
sexualmente.
- Boa noite,
senhora! A senhora sabe fazer um parto? – pergunta Tobias.
- Não, mas se tem
alguém que entende do corpo feminino aqui, esse alguém sou eu. – responde ela,
com forte sotaque inglês – Madame Meia-noite, muito prazer. – apresenta-se ela.
- Inspetor
Hessler. Prazer em conhece-la.
Então todos na
entrada se enervam.
- Inspetor?! O
senhor é gendarme?! – inquire ela.
Apavorado, Tobias
sente seu sangue gelar.
A possuída grita novamente,
produzindo um urro tão sinistro que parecia não ser deste mundo.
- Mistério! A
grande Babilônia! A mãe das meretrizes e abominações da Terra...! – exclama ela.
- Esta mulher
precisa de um médico!
Tobias intenta
sair quando Valentim o interrompe.
- Não! Nós vamos
ficar e realizar o parto.
O inspetor não
consegue acreditar no que ouve.
- Valentim, você
perdeu a cabeça?!
- As corujas me
trouxeram aqui por uma razão! Esta mulher tem as respostas que eu estou
procurando e eu não saio daqui sem elas!
O
inspetor está abismado, totalmente aturdido pelo o que seu assistente acabara
de dizer.
Sangue
se escorria das lacerações da possuída. Ela esfrega as mãos nas feridas e então
lambe o sangue de seus dedos, sorrindo como se o líquido lhe causasse
embriaguez.
-
Este é o sangue dos santos, o sangue das testemunhas de Jesus!
As
feridas lhe causavam hemorragia. Preocupado, Tobias insiste.
-
Valentim, precisamos chamar um médico! Não podemos realizar o parto! E tampouco
esta cafetina!
-
Não dá tempo! Se sairmos daqui, ela sangrará até morrer.
-
Ela morrerá de qualquer jeito se ficarmos aqui!
Rosnados
e grunhidos rodeiam o quarto, como se a casa estivesse cercada de bestas do
próprio inferno. Alguns objetos são atirados por mãos invisíveis e voam pelos
ares. Um pote atinge a cabeça da cafetina e a assusta. Ela se levanta e diz:
-
Não é de um médico que ela precisa, é de um exorcista! – e então ela corre
desesperada para fora.
Novamente
sozinhos, o inspetor se atemoriza. Então Valentim tem uma ideia.
-
Tobias, se quer realmente me ajudar, precise que me traga alguém.
-
Está falando de um médico?
-
Não, eles não teriam coragem de ficar e também fugiriam. – responde ele,
referindo-se a cafetina – Preciso que traga outra pessoa.
Intrigado,
ele pergunta:
-
E quem seria?
§
Está
um noite calma e silenciosa no mosteiro. As paredes de pedra remontam aos
tempos medievais; elas resistiram bem ao tempo. Em uma rústica escrivaninha de
madeira, o diácono Izak estuda a patrística. Em breve ele será ordenado padre e
agora se empenha com afinco aos estudos.
De
repente ele ouve uma confusão no pátio. Assustado, ele se levanta e dirige-se à
porta. Alguém quebrava o silêncio do sagrado local. E então ele consegue ver.
Um
jovem austríaco havia se atirado contra as portas de entrada, provocando um
barulho altíssimo e exigindo falar com alguém. Estranhamente o austríaco vinha
em uma carruagem enfeitada, revestida de tecidos vermelhos, rosas e lamparinas
douradas. Então Izak lentamente se lembra. Aquelas eram as carruagens dos
bordéis. Quando partia para pregar nos lugares mais escusos, ele as via transportando
meretrizes.
O
austríaco invadia o mosteiro, falando alto e acordando a todos. Os monges
tentavam impedi-lo, mas sem sucesso.
-
Diácono Izak! Eu preciso falar com o diácono Izak!
O
diácono se intriga; o austríaco sabia o seu nome.
Descendo
as escadas, ele responde:
-
Eu sou o diácono Izak. Em que posso ajuda-lo e... Na verdade... De onde o
senhor me conhece?
-
Não nos conhecemos. – esclarece ele – Muito prazer, eu sou o inspetor Hessler. Eu
preciso de sua ajuda. Na verdade é meu assistente que disse que você poderia
nos ajudar.
Izak
se intriga.
-
E quem é o seu assistente?
-
Valentim.
-
Valentim?! – exclama ele, irritado –
Aquele blasfemador, herético, sacrílego e, acima de tudo, agitador?!
Tobias
se espanta.
-
Vejo que meu carismático assistente fez muitas amizades por aqui...
-
Que tipo de ajuda aquele homem desprezível quer de mim?
-
Possessão demoníaca. – responde ele, assustando-o – Uma mulher está possuída no
beco das meretrizes. Precisamos de sua ajuda para expulsar o demônio.
O
diácono faz um olhar perplexo.
-
Inspetor Hessler, está dizendo que alguém foi possuído no meio de uma investigação
no beco das meretrizes?
-
Bem... Não é exatamente uma investigação. Devo dizer que é um caso
extraoficial. – explica ele – Aliás, meu assistente disse que o padre Frančišek
também podia ajudar, caso você se negue a acompanhar-me.
Izak
coça o queixo ao responder.
-
O padre Frančišek não está aqui. Ele foi a um compromisso na diocese de Piran.
-
Então você vai nos ajudar?
-
É claro. – responde ele – Ajudar um necessitado é o dever de todo cristão. Mas
devo dizer que eu não gostaria, pois eu odeio
esse homem de nome Valentim. Eu apenas vou porque é meu dever bíblico. Peça-o
para agradecer à Bíblia da qual ele mesmo conspurcou com sua língua impura.
Tobias
se assusta, mas então sorri ao ver o quanto Valentim o tinha irritado.
§
Uma
hora depois Tobias e Izak voltam ao beco das meretrizes. Valentim cuidava da
possuída e o inspetor pode ver que a cafetina havia retornado ao quarto.
Sussurros macabros vinham de todos os cantos e objetos sólidos continuavam
levitando no ar.
A
possuída continuava em trabalho de parto, mas algo estava estranho. Sua barriga
se mexia intensamente. Os presentes se atemorizam; eles sabiam que aquilo era
qualquer coisa, menos um bebê.
Izak
e Valentim se encontram novamente e se encaram. Havia fogo no olhar do diácono;
ele ainda se lembra da vergonha pública que Valentim o fez passar perante a
congregação. Mas, controlando seu aborrecimento, ele não diz nada.
O
diácono vestia trajes eclesiásticos semelhante à batina dos padres. Ele portava
um turíbulo que soltava fumaça de incenso; aquilo era simbólico para que suas preces
subissem ao céu junto com a fumaça. Em sua bolsa ele trazia um frasco com água
benta e outro com o óleo sagrado de unção.
-
In nomine Patris, et Filii, et Spiritu
Sancti, amém. – começa ele.
De
repente a possuída grita violentamente e as paredes tremem, trincando os vidros
e fazendo os objetos nas estantes caírem. Sua voz esganiçada proferia
blasfêmias, totalmente irritada com o diácono.
-
Meu Deus...! – assusta-se a cafetina.
-
Deus não está aqui. Ele foi tomar banho; Ele se sentiu sujo ao criar você.
Izak
os orienta, dizendo:
-
Peço a todos que fiquem firmes. O demônio tentará assustá-los e confundi-los.
Não saiam deste quarto e não lhe deem ouvidos. Lembrem-se que onde estiverem
dois ou três reunidos em nome de Cristo, ali estará Ele no meio deles.
O
diácono citava o Evangelho de Mateus, capítulo 18, versículo 20.
A
possuída gritava e o chão tremia. Todos no beco haviam parado para ver o que
estava acontecendo. Nem mesmo o mais devasso daqueles homens conseguia se
satisfazer ao ouvir os gritos.
-
Apresse-se, Izak! Ela está começando a se ferir! – alerta Tobias.
Izak
começa o ritual com a oração a São Miguel Arcanjo.
-
Sancte Michael Archangele, defende nos in
praelio, contra nequitias et insidias diaboli esto praesidium: Imperet illi
Deus, súplices deprecamur, tuque, Princeps militiae caelestis, satanam aliosque
spiritus malignos, qui ad perditionem animarum pervagantur in mundo, divina
virtute in infernum detrude.
A
possuída olha para o diácono.
-
Quem és tu, jovem padre? És celibatário? Venha aqui saciar teus prazeres na
fornicação!
Ignorando-a,
Izak profere a oração de exorcismo de Santo Antônio.
-
Ecce Crucem Domini! Fugite partes
adversae! Vicit Leo de tribu Juda! Radix David! Aleluia!
-
Sei que não és mais virgem, padre! Eu o vi aqui satisfazendo-te com uma meretriz!
O que fizeste? A pagaste para praticar felação?
Valentim,
Tobias e a Madame Meia-noite se escandalizam, lançando olhares acusatórios ao
diácono.
-
É mentira! – repreende ele, irritado – Eu lhes disse para não lhes darem
ouvidos!
-
Cansaste da masturbação, jovem padre? Eu vi como penetraste na garganta da
meretriz o teu pênis mais duro que a madeira de um crucifixo! Vi como ela
tossiu e engasgou quando ejaculaste...!
Desconcertado,
o diácono exclama:
-
Pare!
Izak
pega seu frasco com água benta e a espirra na possuída. Valentim se impressiona
ao ver que a água se evaporava em contato com sua pele.
-
Ah, a água! A prostituta está assentada sobre muitas águas; com a qual
fornicaram os reis da terra! E os que habitam na terra se embebedaram com o
vinho da sua fornicação!
Conhecendo
aqueles versículos, o diácono pergunta:
-
Espírito imundo, qual é o teu nome?
A
mulher sorri e responde:
-
Eu sou a Prostituta da Babilônia!
Izak
arregala os olhos, desacreditando em suas palavras. Ele abre sua bolsa e,
pegando o óleo sagrado, o asperge sobre ela, causando-lhe aflição.
-
Pobre Maddy! – lamenta-se a cafetina.
De
repente a possuída se enfurece e grita, vociferando e bramando como um leão.
-
Eu ordeno que saia agora! Este corpo não te pertence!
-
Ah, mas pertence, padre! Os povos, as multidões e as nações me pertencem! A mim
pertencem os sete reis e os sete montes dos quais eu estou assentada! E também
os outros dez reis como dez chifres!
Aqueles
eram os versículos do Apocalipse 17. Confuso, Izak dá um passo para trás. Sendo
ele ainda um jovem iniciado na ordem da Igreja, ele teme estar falando com a
verdadeira Prostituta da Babilônia citada na Bíblia.
A
possuída grita e o chão e as paredes tremem. O grupo se assusta e teme que o
teto caia sobre eles. Preocupado com a segurança, Tobias é obrigado a pedir um
tempo para eles se retirarem.
No
lado de fora, as meretrizes e os clientes se afoitam; Madame Meia-noite parte
para acalma-los. Izak está confuso, intrigado com o que acabara de ouvir.
Tobias e Valentim descansam, sem saber o que fazer.
O
inspetor pergunta:
-
Ei, Izak. Você acha que pode concluir o exorcismo?
-
Eu não tenho certeza se é um exorcismo. Esta mulher parece ter sido vítima de
um diferente tipo de magia negra.
-
Um diferente tipo de magia negra?
-
Um feitiço simples que se revela uma conjuração. – responde ele – Esses
trabalhos são feitos somente pelos bruxos mais poderosos do ocultismo.
A
pele de Tobias se arrepia.
-
O que o senhor acha, Valentim?
De
braços cruzados, ele responde:
-
A mulher está perdendo sangue e está delirando; é um milagre ela ainda estar
viva. – começa ele – E eu não sei se é possessão ou delírio, mas ela afirma ser
a prostituta da Babilônia em pessoa. Eu não tenho a sua instrução ou o
conhecimento teológico do diácono Izak, portanto eu não posso dizer mais nada
além disso.
Tobias
pondera.
-
A Prostituta da Babilônia consta no livro de Apocalipse na Bíblia. No livro cita
que ela carrega um cálice contendo o sangue dos santos martirizados por
adorarem a Cristo. Também diz que ela está assentada sobre uma besta vermelha
de sete cabeças e dez chifres. As sete cabeças são sete reis, mas também são
sete montes dos quais a prostituta está assentada.
-
Sete montes que são sete reis? Como pode ser isso? – confunde-se Valentim.
-
João, o apóstolo, estava falando da cidade de Roma, conhecida por suas sete
colinas. Quantos aos reis, João falava daqueles que perseguiam os cristãos ou a
Igreja. Podiam ser os imperadores... – responde ele – Ou os próprios papas.
-
Heresia! – exclama Izak – Os papas
são protetores e não perseguidores da Santa Igreja! Eles nunca perseguiriam os
fiéis cristãos!
-
É uma linguagem obscura da qual os próprios teólogos criaram a escatologia para
a traduzir. – justifica-se ele – E os dez chifres são dez reis...
-
Mais reis? – interrompe Valentim.
-
Sim. – confirma ele – Diz o Apocalipse que os dez reis receberão poder e reino,
e os entregarão à besta. Eles odiarão a prostituta e a farão assolada e nua, e
comerão a sua carne e a queimarão com fogo.
Valentim
se espanta.
-
E por que eles cometeriam tamanha crueldade com a mulher?
Desta
vez é Izak quem responde:
-
Não é a mulher, é a cidade. A prostituta é a cidade de Roma. João estava
profetizando a queda do Império Romano, pelo menos a sua parte ocidental. O
império foi o responsável pela profanação do Templo e a perseguição dos
cristãos. Os dez reis são os reis germânicos que a invadiram e a conquistaram
no ano de 476 d. C.
Então
eles ouvem um grito sobre-humano que faz as portas e os telhados tremerem.
-
Ela está com dores de parto! Nós temos que ajuda-la! – alerta a cafetina.
Eles
voltam ao quarto e encontram a mulher agitada e furiosa. Izak novamente asperge
água em seu corpo e recita as preces latinas.
-
Sancta Maria, ora pro nobis! Sancta Dei
Genitrix, ora pro nobis! Sancta Virgo Virginum, ora pro nobis!
A
possuída se enfurece e começa a mutilar o seu rosto. Preocupados, Valentim e
Tobias se aproximam e tentam contê-la segurando os seus braços. A mulher grita
e esperneia violentamente, tentando se desvencilhar.
De
repente a mulher cospe no diácono e o desconcentra. Valentim se distrai e a
possuída o chuta com incrível força, fazendo-o tropeçar e cair contra a parede.
Um frasco de Plasma cai da estante e se quebra em sua cabeça, encharcando-o com
o líquido e fazendo-o desmaiar imediatamente.


