sábado, 31 de dezembro de 2022

Liubliana - 25 - O Parto de Uma Mulher Possuída

 


(Artista desconhecido)

 

A possuída gritava em um tom tão estridente que poderia estourar suas cordas vocais. Ela ria e blasfemava, falando imoralidades e impropérios. A mulher se contorcia, se mutilando e revirando os seus olhos. Para o desespero dos presentes, ela estava em trabalho de parto, com suas pernas abertas e sofrendo contrações.

A barriga da mulher se mexia; o bebê queria sair. Tobias estava paralisado de medo, sem saber o que fazer. Valentim, por sua vez, suportava a tensão bravamente. Então a mulher diz:

- Ora, vejam só vocês! Todos fiéis devotos de Virgem Maria! Eu não sou virgem, eu sou uma prostituta imunda cujos reis da terra se embebedaram com o vinho de minha fornicação...!

O clima em seu quarto estava pesado, Valentim e Tobias lutam para não desmaiar. A carga negativa era tão forte que objetos sólidos levitavam, subindo sobrenaturalmente do chão. A mulher diz:

- Vocês gostam de minha vagina? Dela sai o vinho que sirvo em meu cálice! Meu cálice de ouro cheio de abominações e das mais vis imundícies...

De repente ela geme, agonizando com as dores das contrações. Valentim se aproxima de Tobias e diz:  

- Devemos ajuda-la. Temos que tirá-la deste estado.

Tobias se confunde.

- O que quer dizer?

- Chame uma parteira.

- O quê...?

- Chame uma parteira, homem! – grita ele.

Então Tobias sai de seu transe. Ele estava atônito, mal conseguindo suportar a situação. Controlando-se, ele olha para a porta e diz:

- Precisamos de uma parteira! Rápido!

As meretrizes assentem e correm. Ao retornarem, elas lhes trazem uma mulher com vestidos longos e forte maquiagem no rosto; era a cafetina. A cafetina era mais velha e tinha os cabelos brancos, mas apesar da idade ela não largou a profissão. Ao contrário, ela recrutou mais moças para prostituí-las e explorá-las sexualmente.

- Boa noite, senhora! A senhora sabe fazer um parto? – pergunta Tobias.

- Não, mas se tem alguém que entende do corpo feminino aqui, esse alguém sou eu. – responde ela, com forte sotaque inglês – Madame Meia-noite, muito prazer. – apresenta-se ela.

- Inspetor Hessler. Prazer em conhece-la.

Então todos na entrada se enervam.

- Inspetor?! O senhor é gendarme?! – inquire ela.

Apavorado, Tobias sente seu sangue gelar.

A possuída grita novamente, produzindo um urro tão sinistro que parecia não ser deste mundo.

- Mistério! A grande Babilônia! A mãe das meretrizes e abominações da Terra...! – exclama ela.

- Esta mulher precisa de um médico!

Tobias intenta sair quando Valentim o interrompe.

- Não! Nós vamos ficar e realizar o parto.

O inspetor não consegue acreditar no que ouve.

- Valentim, você perdeu a cabeça?!

- As corujas me trouxeram aqui por uma razão! Esta mulher tem as respostas que eu estou procurando e eu não saio daqui sem elas! 

O inspetor está abismado, totalmente aturdido pelo o que seu assistente acabara de dizer.

Sangue se escorria das lacerações da possuída. Ela esfrega as mãos nas feridas e então lambe o sangue de seus dedos, sorrindo como se o líquido lhe causasse embriaguez.

- Este é o sangue dos santos, o sangue das testemunhas de Jesus!

As feridas lhe causavam hemorragia. Preocupado, Tobias insiste.

- Valentim, precisamos chamar um médico! Não podemos realizar o parto! E tampouco esta cafetina!

- Não dá tempo! Se sairmos daqui, ela sangrará até morrer.

- Ela morrerá de qualquer jeito se ficarmos aqui!

Rosnados e grunhidos rodeiam o quarto, como se a casa estivesse cercada de bestas do próprio inferno. Alguns objetos são atirados por mãos invisíveis e voam pelos ares. Um pote atinge a cabeça da cafetina e a assusta. Ela se levanta e diz:

- Não é de um médico que ela precisa, é de um exorcista! – e então ela corre desesperada para fora.  

Novamente sozinhos, o inspetor se atemoriza. Então Valentim tem uma ideia.

- Tobias, se quer realmente me ajudar, precise que me traga alguém.

- Está falando de um médico?

- Não, eles não teriam coragem de ficar e também fugiriam. – responde ele, referindo-se a cafetina – Preciso que traga outra pessoa.

Intrigado, ele pergunta:

- E quem seria?

 

§

 

Está um noite calma e silenciosa no mosteiro. As paredes de pedra remontam aos tempos medievais; elas resistiram bem ao tempo. Em uma rústica escrivaninha de madeira, o diácono Izak estuda a patrística. Em breve ele será ordenado padre e agora se empenha com afinco aos estudos.

De repente ele ouve uma confusão no pátio. Assustado, ele se levanta e dirige-se à porta. Alguém quebrava o silêncio do sagrado local. E então ele consegue ver.

Um jovem austríaco havia se atirado contra as portas de entrada, provocando um barulho altíssimo e exigindo falar com alguém. Estranhamente o austríaco vinha em uma carruagem enfeitada, revestida de tecidos vermelhos, rosas e lamparinas douradas. Então Izak lentamente se lembra. Aquelas eram as carruagens dos bordéis. Quando partia para pregar nos lugares mais escusos, ele as via transportando meretrizes.

O austríaco invadia o mosteiro, falando alto e acordando a todos. Os monges tentavam impedi-lo, mas sem sucesso.

- Diácono Izak! Eu preciso falar com o diácono Izak!

O diácono se intriga; o austríaco sabia o seu nome.

Descendo as escadas, ele responde:

- Eu sou o diácono Izak. Em que posso ajuda-lo e... Na verdade... De onde o senhor me conhece?

- Não nos conhecemos. – esclarece ele – Muito prazer, eu sou o inspetor Hessler. Eu preciso de sua ajuda. Na verdade é meu assistente que disse que você poderia nos ajudar.

Izak se intriga.

- E quem é o seu assistente?

- Valentim.

- Valentim?! – exclama ele, irritado – Aquele blasfemador, herético, sacrílego e, acima de tudo, agitador?!

Tobias se espanta.

- Vejo que meu carismático assistente fez muitas amizades por aqui...

- Que tipo de ajuda aquele homem desprezível quer de mim?

- Possessão demoníaca. – responde ele, assustando-o – Uma mulher está possuída no beco das meretrizes. Precisamos de sua ajuda para expulsar o demônio.

O diácono faz um olhar perplexo.

- Inspetor Hessler, está dizendo que alguém foi possuído no meio de uma investigação no beco das meretrizes?

- Bem... Não é exatamente uma investigação. Devo dizer que é um caso extraoficial. – explica ele – Aliás, meu assistente disse que o padre Frančišek também podia ajudar, caso você se negue a acompanhar-me.

Izak coça o queixo ao responder.

- O padre Frančišek não está aqui. Ele foi a um compromisso na diocese de Piran.

- Então você vai nos ajudar?

- É claro. – responde ele – Ajudar um necessitado é o dever de todo cristão. Mas devo dizer que eu não gostaria, pois eu odeio esse homem de nome Valentim. Eu apenas vou porque é meu dever bíblico. Peça-o para agradecer à Bíblia da qual ele mesmo conspurcou com sua língua impura.  

Tobias se assusta, mas então sorri ao ver o quanto Valentim o tinha irritado.

 

§

 

Uma hora depois Tobias e Izak voltam ao beco das meretrizes. Valentim cuidava da possuída e o inspetor pode ver que a cafetina havia retornado ao quarto. Sussurros macabros vinham de todos os cantos e objetos sólidos continuavam levitando no ar.

A possuída continuava em trabalho de parto, mas algo estava estranho. Sua barriga se mexia intensamente. Os presentes se atemorizam; eles sabiam que aquilo era qualquer coisa, menos um bebê. 

Izak e Valentim se encontram novamente e se encaram. Havia fogo no olhar do diácono; ele ainda se lembra da vergonha pública que Valentim o fez passar perante a congregação. Mas, controlando seu aborrecimento, ele não diz nada. 

O diácono vestia trajes eclesiásticos semelhante à batina dos padres. Ele portava um turíbulo que soltava fumaça de incenso; aquilo era simbólico para que suas preces subissem ao céu junto com a fumaça. Em sua bolsa ele trazia um frasco com água benta e outro com o óleo sagrado de unção.

- In nomine Patris, et Filii, et Spiritu Sancti, amém. – começa ele.

De repente a possuída grita violentamente e as paredes tremem, trincando os vidros e fazendo os objetos nas estantes caírem. Sua voz esganiçada proferia blasfêmias, totalmente irritada com o diácono.

- Meu Deus...! – assusta-se a cafetina.

- Deus não está aqui. Ele foi tomar banho; Ele se sentiu sujo ao criar você.

Izak os orienta, dizendo:

- Peço a todos que fiquem firmes. O demônio tentará assustá-los e confundi-los. Não saiam deste quarto e não lhe deem ouvidos. Lembrem-se que onde estiverem dois ou três reunidos em nome de Cristo, ali estará Ele no meio deles.

O diácono citava o Evangelho de Mateus, capítulo 18, versículo 20.

A possuída gritava e o chão tremia. Todos no beco haviam parado para ver o que estava acontecendo. Nem mesmo o mais devasso daqueles homens conseguia se satisfazer ao ouvir os gritos.

- Apresse-se, Izak! Ela está começando a se ferir! – alerta Tobias.

Izak começa o ritual com a oração a São Miguel Arcanjo.

- Sancte Michael Archangele, defende nos in praelio, contra nequitias et insidias diaboli esto praesidium: Imperet illi Deus, súplices deprecamur, tuque, Princeps militiae caelestis, satanam aliosque spiritus malignos, qui ad perditionem animarum pervagantur in mundo, divina virtute in infernum detrude.

A possuída olha para o diácono.

- Quem és tu, jovem padre? És celibatário? Venha aqui saciar teus prazeres na fornicação!

Ignorando-a, Izak profere a oração de exorcismo de Santo Antônio.

- Ecce Crucem Domini! Fugite partes adversae! Vicit Leo de tribu Juda! Radix David! Aleluia!

- Sei que não és mais virgem, padre! Eu o vi aqui satisfazendo-te com uma meretriz! O que fizeste? A pagaste para praticar felação?

Valentim, Tobias e a Madame Meia-noite se escandalizam, lançando olhares acusatórios ao diácono.

- É mentira! – repreende ele, irritado – Eu lhes disse para não lhes darem ouvidos!

- Cansaste da masturbação, jovem padre? Eu vi como penetraste na garganta da meretriz o teu pênis mais duro que a madeira de um crucifixo! Vi como ela tossiu e engasgou quando ejaculaste...!

Desconcertado, o diácono exclama:

- Pare!  

Izak pega seu frasco com água benta e a espirra na possuída. Valentim se impressiona ao ver que a água se evaporava em contato com sua pele.

- Ah, a água! A prostituta está assentada sobre muitas águas; com a qual fornicaram os reis da terra! E os que habitam na terra se embebedaram com o vinho da sua fornicação!

Conhecendo aqueles versículos, o diácono pergunta:

- Espírito imundo, qual é o teu nome?

A mulher sorri e responde:

- Eu sou a Prostituta da Babilônia!

Izak arregala os olhos, desacreditando em suas palavras. Ele abre sua bolsa e, pegando o óleo sagrado, o asperge sobre ela, causando-lhe aflição.

- Pobre Maddy! – lamenta-se a cafetina.

De repente a possuída se enfurece e grita, vociferando e bramando como um leão.

- Eu ordeno que saia agora! Este corpo não te pertence!

- Ah, mas pertence, padre! Os povos, as multidões e as nações me pertencem! A mim pertencem os sete reis e os sete montes dos quais eu estou assentada! E também os outros dez reis como dez chifres!

Aqueles eram os versículos do Apocalipse 17. Confuso, Izak dá um passo para trás. Sendo ele ainda um jovem iniciado na ordem da Igreja, ele teme estar falando com a verdadeira Prostituta da Babilônia citada na Bíblia.

A possuída grita e o chão e as paredes tremem. O grupo se assusta e teme que o teto caia sobre eles. Preocupado com a segurança, Tobias é obrigado a pedir um tempo para eles se retirarem.

No lado de fora, as meretrizes e os clientes se afoitam; Madame Meia-noite parte para acalma-los. Izak está confuso, intrigado com o que acabara de ouvir. Tobias e Valentim descansam, sem saber o que fazer.

O inspetor pergunta:

- Ei, Izak. Você acha que pode concluir o exorcismo?

- Eu não tenho certeza se é um exorcismo. Esta mulher parece ter sido vítima de um diferente tipo de magia negra.

- Um diferente tipo de magia negra?

- Um feitiço simples que se revela uma conjuração. – responde ele – Esses trabalhos são feitos somente pelos bruxos mais poderosos do ocultismo.

A pele de Tobias se arrepia.

- O que o senhor acha, Valentim?

De braços cruzados, ele responde:

- A mulher está perdendo sangue e está delirando; é um milagre ela ainda estar viva. – começa ele – E eu não sei se é possessão ou delírio, mas ela afirma ser a prostituta da Babilônia em pessoa. Eu não tenho a sua instrução ou o conhecimento teológico do diácono Izak, portanto eu não posso dizer mais nada além disso.

Tobias pondera.

- A Prostituta da Babilônia consta no livro de Apocalipse na Bíblia. No livro cita que ela carrega um cálice contendo o sangue dos santos martirizados por adorarem a Cristo. Também diz que ela está assentada sobre uma besta vermelha de sete cabeças e dez chifres. As sete cabeças são sete reis, mas também são sete montes dos quais a prostituta está assentada. 

- Sete montes que são sete reis? Como pode ser isso? – confunde-se Valentim.

- João, o apóstolo, estava falando da cidade de Roma, conhecida por suas sete colinas. Quantos aos reis, João falava daqueles que perseguiam os cristãos ou a Igreja. Podiam ser os imperadores... – responde ele – Ou os próprios papas.

- Heresia! – exclama Izak – Os papas são protetores e não perseguidores da Santa Igreja! Eles nunca perseguiriam os fiéis cristãos!

- É uma linguagem obscura da qual os próprios teólogos criaram a escatologia para a traduzir. – justifica-se ele – E os dez chifres são dez reis...

- Mais reis? – interrompe Valentim.

- Sim. – confirma ele – Diz o Apocalipse que os dez reis receberão poder e reino, e os entregarão à besta. Eles odiarão a prostituta e a farão assolada e nua, e comerão a sua carne e a queimarão com fogo.

Valentim se espanta.

- E por que eles cometeriam tamanha crueldade com a mulher?    

Desta vez é Izak quem responde:

- Não é a mulher, é a cidade. A prostituta é a cidade de Roma. João estava profetizando a queda do Império Romano, pelo menos a sua parte ocidental. O império foi o responsável pela profanação do Templo e a perseguição dos cristãos. Os dez reis são os reis germânicos que a invadiram e a conquistaram no ano de 476 d. C.

Então eles ouvem um grito sobre-humano que faz as portas e os telhados tremerem.

- Ela está com dores de parto! Nós temos que ajuda-la! – alerta a cafetina.

Eles voltam ao quarto e encontram a mulher agitada e furiosa. Izak novamente asperge água em seu corpo e recita as preces latinas.

- Sancta Maria, ora pro nobis! Sancta Dei Genitrix, ora pro nobis! Sancta Virgo Virginum, ora pro nobis!

A possuída se enfurece e começa a mutilar o seu rosto. Preocupados, Valentim e Tobias se aproximam e tentam contê-la segurando os seus braços. A mulher grita e esperneia violentamente, tentando se desvencilhar.

De repente a mulher cospe no diácono e o desconcentra. Valentim se distrai e a possuída o chuta com incrível força, fazendo-o tropeçar e cair contra a parede. Um frasco de Plasma cai da estante e se quebra em sua cabeça, encharcando-o com o líquido e fazendo-o desmaiar imediatamente.    

 

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Liubliana - 24 - O Beco das Meretrizes

 


(Artista desconhecido)


Madelaine Smith era uma meretriz inglesa trazida à Liubliana para dar conforto aos operários de seu país. Sua infância foi dura e ela cresceu sob insistentes pedidos de sua própria mãe para se prostituir. Sua família sofria com a miséria nos subúrbios de Londres e sua mãe achou proveitoso enviar sua filha mais velha, na época com um corpo formoso e atraente, para esse degradante trabalho.

A exploração sexual rendeu um bom dinheiro, mas a jovem Madelaine não recebia nenhum centavo. Sua mãe ficava com tudo e a menina, agora abusada e explorada sexualmente, amargava com as doenças venéreas.

A infância perdida e o amadurecimento precoce tornaram Madelaine solitária e agressiva. Aos vinte anos ela deixou a casa de sua mãe e aventurou-se pelas ruas da movimentada metrópole. Semianalfabeta e sem perspectiva, ela não mudou seus velhos hábitos. Negando o desgastante trabalho nas fábricas, ela retorna à sua profissão original, outrora imposta, mas agora por decisão própria.

Após deitar-se com tantos homens, Madelaine não se lembrava mais de quando perdeu a virgindade. Ela havia perdido qualquer esperança de encontrar um homem decente para se casar. Nas ruas da capital inglesa, seus únicos relacionamentos eram com homens grosseiros, bêbados, fedorentos e pervertidos.

A garota acumulava pecados sobre si mesma e sobre o seu corpo. Solteiros a procuravam para a fornicação, casados para o adultério e tantos outros para as mais variadas perversidades. Até que um dia um destes clientes a convidou para trabalhar em outra nação. Ela deveria dar conforto aos operários ingleses longe de casa. Atraída pelo alto rendimento financeiro, ela prontamente aceitou, partindo para viver em um bordel em um bairro operário de Liubliana.

E então Madelaine encontrou a luz.

Missionários jovens sondavam as ruas em busca de ovelhas perdidas. Vendo aqueles garotos passarem ali, Madelaine logo se insinua, oferecendo seus serviços. Mas os garotos, alheios aos seus encantos, se apresentam como monges franciscanos de Carníola. Eles lhe fazem pregações em língua inglesa e Madelaine, confusa com seus empenhos, se permite ouvi-los. No início ela os trata com rejeição e deboche, mas logo muda de pensamento. Curiosamente a pregação fazia efeito em seu coração endurecido. Sem demonstra-los, ela passa a sentir nojo de si mesma, sentindo-se arrependida e suja.

Os dóceis garotos lhe dão um folheto indicando o local de sua igreja. Madelaine aceita e eles vão embora. Envergonhada, ela corre para o seu quarto e chora intensamente.           

Dias mais tarde, Madelaine vai ao local de culto dos jovens monges. Ela descobre que eles eram católicos e se espanta. Ela vinha de um país protestante, mas ela nunca deu importância para isso.

Ao frequentar regularmente a missa, ela abandona seus velhos caminhos. Ela se livra das roupas sensuais, da maquiagem pesada e do palavreado torpe, e então se converte ao catolicismo. Os monges a instruem na realização dos sacramentos e, chegada a hora, ela se batiza na pia batismal.

E assim Madelaine se torna uma meretriz convertida. Não mais ela seria abusada pela concupiscência dos homens. Seu corpo não mais seria usado para satisfazer a torpeza dos instintos. Mas ainda não era o suficiente para ela.

Madelaine se torna uma ativista e uma benfeitora. Ela passa a agir como uma madre superiora entre as meretrizes, dando-lhes proteção, provisões e amparo caso lhes sobrevenha alguma dificuldade. As meretrizes estariam protegidas se fossem atacadas por homens perversos e violentos. Naqueles dias a violência parecia ter se alastrado como um epidemia e muitos culpavam o Plasma. Ademais, suas ex-colegas teriam ajuda humanitária se precisassem. Madelaine nunca abandonou o bordel, na verdade, mas ficou para ajudar suas colegas cujas agruras da profissão ela conhecia tão bem. Mas a mesma profissão, porém, ela havia deixado para trás.

Mas nem todos se esqueceram do passado de Madelaine.

Os badalados becos das meretrizes eram sempre barulhentos e cheios de indecências. Esperando uma noite normal cheia de pecados e atos libidinosos, Madelaine enrola seu terço no punho e faz suas preces; ajoelhada em frente às imagens de santos, ela os pede para protegerem suas colegas e intercederem a favor delas junto ao Pai. Mas algo estava diferente; aquela noite os becos estavam desertos e silenciosos como um cemitério.

Ajoelhada em seu quarto, alguém bate em sua porta. Madelaine se pergunta quem poderia ser àquela hora. Ela abre e encontra homens vestidos de mantos vermelhos, pretos e púrpuras. A princípio ela pensa que eram monges vindo pregar a Palavra, mas algo estava diferente. Semelhantes a cultistas pagãos, os homens a encaravam com semblantes mórbidos e olhares profanos.

Um homem pergunta:

- Madelaine Smith?

Imediatamente ela se intriga; eles a conheciam. Olhando-o da cabeça aos pés, o cultista vestia um finíssimo manto púrpura. Por muitos séculos essa cor era exclusiva da nobreza, pois apenas ela podia pagar o custo alto da tintura. Preocupada, ela pensa estar encrencada com a nobreza austro-húngara.

- Quem são vocês?

O homem estende a mão e ela pode notar que, em seus dedos, haviam anéis de joias belíssimas. Ele estava lhe dando uma carta.

- Tu és a escolhida. O retorno do deus se aproxima. O teu útero lhe dará a luz; o útero da Prostituta da Babilônia.

Madelaine se espanta.

- Prostituta da Babilônia...?!

Um homem de vermelho toma a palavra. Ela nota que ele vestia um colar de gravetos, como um talismã ocultista.

- Na antiguidade, a Babilônia foi a capital do mundo. Hoje, Londres é a capital do mundo moderno. A mulher de nome Madelaine Smith, tu, veio de Londres, portanto tu és a encarnação da Prostituta da Babilônia em Liubliana.

Então ela se avilta.

- Escutem aqui, seus pervertidos! Eu não sou mais uma prostituta! Eu me converti e hoje sou uma cristã devota de Nossa Senhora! Agora eu peço que se retirem daqui e me deixem em paz!

Madelaine tenta fechar a porta quando o homem de púrpura diz:

- Teu corpo embriagou de prazeres muitos homens. O cálice de vinho da grande prostituta embriagará os reis desta terra. Permita que tua prole seja maior do que aquele que se assenta no trono real britânico.

Curiosa, ela pergunta:

- Vocês são ingleses?

Eles simplesmente respondem:

- Não.

- Pois vocês falam inglês muito bem.

- Nós falamos muitas línguas, mas nossa língua materna é a dos anjos caídos.

Madelaine se perturba.

- Eu não sei quem são vocês ou o que querem, mas peço que vão embora e não voltem mais!

Os homens assentem e em seguida vão embora sem insistir. Madelaine fica na porta, observando-os se afastarem até partirem do imundo beco das meretrizes.

Fechando a porta, ela se senta em sua cama e vê a carta em sua mão. Ela a abre com muito interesse e encontra um pedaço de papel. Madelaine vê um desenho ocultista, com letras desconhecidas e de impossível compreensão. Irritada, ela rasga a carta e a joga fora.

A noite calma parece ter se tornado obscura e mística. Uma cerração incomum percorre os becos, se arrastando como as correntes da própria morte. Um sono pesado a domina e ela se deita, intentando dormir.

Poucos minutos depois ela adormece. As chamas das velas se apagam em um sopro sobrenatural; a cerração verde se infiltra em seu quarto e o invade com a má intenção de um salteador. E então algo acontece.

Sonhos luxuriosos tomam sua mente. Enquanto dorme, Madelaine é seduzida por algo sobrenatural. Ela sussurra e geme em soluços delicados e cheios de luxúria. Algo toca em seu corpo, um braço materializado dentro da cerração verde. A entidade a toca e a acaricia, excitando-a e despertando-lhe desejo.

Madelaine está inconsciente da entidade mística sobre si. Ela passeia nas sombras, agitando a cerração e materializando-se sobre sua cama. Então a entidade a possui em seus sonhos. Ela geme e sua intensamente, contorcendo-se e agarrando os lençóis. O pulsar é constante e intenso; em seguida a semente sobrenatural é passada para ela, profunda e internamente, finalizando a onírica violação.      

Nas semanas seguintes começam os sintomas.  Uma sensação inexplicável de terror e também de paixão. Enquanto dorme, ela volta a sentir sombras acariciando seu corpo e seus seios. Pesadelos a atormentam. Ela tem presságios ruins de que algo se erguia das trevas e arrastava-se para a luz do nascimento.

A visita dos cultistas foi recompensadora. Madelaine concebera o deus pagão. De seu ventre retornava um mal ancestral ao mundo, como o vinho derramado do cálice da Prostituta da Babilônia.

Durante a gestação, a semente profana feria o útero da mulher. Dentro da meretriz convertida, a prole cometia um sacrilégio. Madelaine busca a morte; ela desejava morrer e se livrar de seu impiedoso tormento. Entretanto, a prole lhe impedia. Cortes nos pulsos e no pescoço se regeneravam milagrosamente. Seu corpo definhava por não poder morrer.

Sua maternidade foi destruída; a prole a havia esterilizado para sempre. Uma fenda interdimensional foi criada, conectando o mundo dos homens ao fantástico plano onde os deuses pagãos existiam.

E assim Madelaine definhava, suportando o excruciante tomento.

     

§

 

Nove meses se passam.

Valentim está distraído no trabalho, mas sempre atento na janela. Ele constantemente checa um véu em seu bolso. Olhando para a paisagem lá fora, ele tenta encontrar algo que somente ele sabe o que é.

Tobias continua seu trabalho e lê relatórios investigativos. O capitão entra algumas vezes na sala e provoca Valentim, questionando seu comportamento incomum. Porém, Valentim não lhe dá atenção. Conhecendo o temperamento explosivo de seu assistente, Tobias se espanta.

Um minuto mais tarde o inspetor pergunta:

- Ei, Valentim! O que está fazendo?

- Corujas.

- O quê? – confunde-se ele.

- Você sabe para onde elas vão à noite?

Ainda confuso, Tobias responde:

- Eu não sei, Valentim. Para os seus ninhos, talvez.

- Para o sul. Elas vão para o sul.

Tobias se intriga.

- Como o senhor sabe?

- Eu as vi.

Valentim se referia àquela noite no bairro dos judeus.

O inspetor, sem entender o que ele queria dizer, tenta mudar de assunto.

- O guarda Davud está se recuperando bem. Ele se feriu muito após a luta com o Golem. Davud parece gostar de você, Valentim, pois desde a galeria dos cadáveres ele vive elogiando sua coragem nas situações mais difíceis.

Sem se importar, Valentim responde:

- Bom para ele.

Tobias se chateia com sua indiferença; Davud ficaria arrasado se o soubesse. Então ele fica em silêncio um pouco, tentando entender por que seu assistente dava atenção a coisas tão estranhas.

- Valentim, quanto as corujas... Aconteceu algo no bairro judeu que o senhor queira me contar?

- Não, inspetor Hessler.  

- Tem certeza?

- Por que, inspetor? – pergunta Valentim, irritado – O ninho das corujas é algo que a Gendarmerie precise saber?

Confrontado, Tobias se irrita e ousadamente o confronta de volta.

- Quando o senhor precisou dos gendarmes para procurar a sua esposa, o senhor pediu a minha ajuda. Devo dizer que foi de uma maneira bem interesseira, já que ninguém na estação acreditava em minhas teorias. O senhor teve pena, talvez? Ou se aproveitou que ninguém me respeitava? – pergunta ele – De qualquer forma, hoje o senhor está aqui, um civil iletrado a serviço da Gendarmerie. Portanto eu te respondo: sim, o seu problemas com as corujas é algo que eu precise saber sim! E desconfio que esse véu em seu bolso esteja relacionado a isso.

Valentim arregala os olhos, sendo pego de surpresa. Respirando fundo, ele responde:

- As corujas deixaram cair este véu aquela noite. Ele pertence a Danica.

O inspetor desconfia.

- Como isso é possível?

- Eu reconheci o cheiro.

Tobias ainda não se convence.

- O senhor tem certeza?

- Eu vivi com minha esposa por vinte anos, inspetor! Eu conheço o seu cheiro.

Então o inspetor assente, balançando a cabeça.

- Por isso o senhor está obcecado pelas corujas? O senhor pretende segui-las para encontrar mais pistas do paradeiro de Danica? – estima ele.

- Sim, senhor inspetor.

Tobias pondera.

- Valentim, eu sei que o senhor prioriza sua esposa, mas devo lembra-lo de que agora o senhor é um servidor público e um funcionário desta Gendarmerie. Não podemos abandonar nossas obrigações para focarmos apenas no seu caso; por enquanto temos um trabalho a ser feito.

Após ouvi-lo, Valentim se contraria. Apesar das circunstâncias se demonstrarem contrárias aos seus planos, ele se cala, preferindo a paz com seu estimado amigo Tobias.

 

§

 

O dia se passa; o expediente chega ao fim.

Cansado após um longo dia de trabalho burocrático, Tobias veste seu casaco e deixa a Gendarmerie. Valentim o segue logo atrás, em postura ereta e vigilante.

O inspetor se aproxima de sua carruagem e distraidamente se despede de seu assistente, concluindo alguns assuntos e dizendo “até amanhã”. De repente alguém se aproxima e os surpreende pelas costas, assustando-os:

- Senhores! Senhores! Vocês têm que me ajudar!

Os dois se viram e veem uma mulher desesperada vestindo farrapos.      

- Algum problema, senhora? – pergunta Tobias.

- A minha amiga! Ela está possuída pelo demônio!

Os dois arregalam os olhos.

- Minha senhora, este não é um problema para a gendarme. Sugiro que procure uma igreja.

- O senhor não entende! É algo muito mais além do que isso! – explica ela – Me disseram que o senhor cuida dos casos sobrenaturais em Liubliana! O senhor tem que me ajudar!

Um pouco surpreso, Tobias franze a testa. Ele não sabia que sua fama tinha se espalhado tanto.

- E onde está a sua amiga, senhora?

- No beco das meretrizes.

Os dois se espantam novamente.

- Beco das meretrizes...?

- Fica no distrito inglês. Escute, o senhor tem que acreditar em mim! Acompanhe-me, depressa!

Assentindo, eles entram na carruagem e seguem pelas ruas de Liubliana.

A noite se aproxima e os acendedores acendem os postes. A luz do Plasma ilumina a cidade, colorindo-a com seu habitual verde.

- Moça, você pode nos explicar detalhadamente o que aconteceu?

- A minha amiga... Ela afirma ter engravidado através de um estupro...

O inspetor se estarrece.

- Está dizendo que sua amiga foi vítima de violência sexual?

- Por incrível que pareça, não. Ela afirma ter sido estuprada por um espírito das trevas, uma sombra que invadiu seu quarto com o intuito de violá-la.

Tobias coça a sua cabeça.

- Moça, deixe-me perguntar uma coisa. Sua amiga ingere álcool ou faz uso de substâncias alucinógenas?

- Não, senhor inspetor. Ela é convertida na igreja e devota de Nossa Senhora. Ela é nossa cuidadora e mora no beco das meretrizes por decisão própria. Ela nos alimenta e nos abriga, orando por nós para que Deus sempre nos proteja nas esquinas. – revela ela – Minha amiga é uma verdadeira cristã.

O inspetor assente em silêncio.

Ao se aproximarem do beco das meretrizes, Tobias e seu assistente notam que ele se situava ao lado de outra garagem de trens, como em Zgornji Kašelj. Uma linha ferroviária separava o bairro das locomotivas. Ao atravessá-la, Tobias e Valentim sentem que estavam partindo para o “lado errado dos trilhos”.   

A miséria em que as meretrizes viviam era notável. As ruas eram esparsamente iluminadas e muitos viviam na completa escuridão. As velas iluminavam o interior das casas e poucos tinham lamparinas de Plasma.

Tobias abre a porta e desce da carruagem; então poças lamacentas sujam seus sapatos. Valentim desce pelo outro lado e se prontifica, ocultando seu punhal. O inspetor fica ao lado da porta, esperando a mulher descer. Vendo que ela se demorava, ele olha para dentro do veículo e pergunta:

- Moça, a senhora não vai descer?

Mas então ele tem uma tremenda surpresa. A mulher havia desaparecido.

Estranhando o comportamento de Tobias, Valentim olha para ele e pergunta:

- Tobias, você está bem?

O cocheiro também o estranha, vendo-o petrificado de horror.

- Inspetor Tobias...?

- A mulher... – gagueja ele – Ela estava aqui agora mesmo...!

Valentim verifica a carruagem e também se surpreende. O interior estava vazio.

- Não será possível que ela tenha corrido para as ruas assim que os senhores saíram do veículo? – pergunta o cocheiro.

- Impossível. – responde ele – Ela estava ao nosso lado e não passaria se não lhe déssemos passagem.

Então a pele do cocheiro se arrepia.

- Me desculpe a insolência, inspetor, mas bem que o guarda Mladen me avisou que trabalhar para o senhor seria um problema. – então ele pega as rédeas e diz – Até amanhã, inspetor Hessler. – em seguida ele bate as rédeas e parte apressado dali.

Novamente sozinhos, os dois ficam em silêncio por um tempo, confusos com aquilo tudo.

- Valentim, o senhor conhece esse tal beco das meretrizes?

Ele responde:

- Não, senhor.

- Tem certeza? – insiste ele.

Valentim lhe faz um olhar irritado. Ele nunca trairia sua esposa com mulheres assim.

No alto dos prédios, fumaça saía das chaminés. Algumas janelas estavam iluminadas e eles ouviam os moradores conversando em inglês. De repente Valentim ouve outro som e se alerta. Acima, no beiral dos telhados, várias aves o vigiavam na escuridão. Ao ouvir o seu chirriar, ele imediatamente as reconhece.

- São corujas! – exclama ele.

O inspetor não o entende.

- O que o senhor disse?

Tobias olha para cima e vê as corujas. De repente elas batem as asas e voam pela noite. Sem pensar duas vezes, seu assistente as segue pelo bairro.   

- Valentim!

Valentim corre. Olhando para os telhados, as corujas voavam pela noite. Ao passarem por alguns prédios, elas aterrissavam brevemente, e então elas voavam por mais alguns metros para aterrissar novamente. Seu voo curto e intermitente lhe intriga; era como se elas quisessem guia-lo pelos becos.

Tobias o segue logo atrás. A noite cai e o vento sopra pelas ruas, arrastando a cerração verde pelas esquinas.

- Senhor, Valentim! Espere!

Correndo sem parar, o assistente avança impulsivamente pelos becos. Ele se lançava cegamente, não se importando com sua própria segurança. De repente ele vira e entra em outro beco, um iluminado por lâmpadas vermelhas penduradas na parede.

Seguindo-o, Tobias se depara com o beco e se paralisa. Ali ele via dezenas de pessoas com aparência hostil e de caráter duvidoso. Homens perigosos o encaravam e mulheres encrenqueiras sorriam para ele. Tobias, um jovem educado e de boa família, se sente um cordeiro indefeso no meio de lobos devoradores.

Valentim avançou por aquela direção. Sem opção, o inspetor abaixa sua cabeça e prossegue em silêncio. Exibir suas credenciais de gendarme ali seria absolutamente arriscado; aqueles marginais o matariam e jamais encontrariam o seu corpo.

Enquanto caminha, uma mulher acaricia suas nádegas, fazendo-o saltar.

- Boa noite, amor. Quer se divertir comigo?

Ocupado com seus assuntos, ele não havia percebido. Tobias estava no coração do beco das meretrizes.

- Obrigado, senhora, mas eu estou ocupado esta noite.

Ele avança e então outras mulheres o acariciam também. Seus toques leves e voluptuosos lhe despertam desejo, fazendo-o se descontrolar. Ao passar por uma bela inglesa de seios despidos, seus olhos se arregalam.

Nos becos haviam quartos onde as meretrizes trabalhavam. Os clientes passavam por ali e as escolhiam aleatoriamente. Alguns homens estavam lá para ter seu momento de prazer e outros só queriam arrumar confusão. Então alguém aparece ao seu lado e pergunta:

- Com licença, o senhor está procurando por alguém?

Tobias olha para o lado e vê uma inglesa de cabelos negros e cacheados. 

- Meu assistente entrou aqui. Por acaso a senhora...    

De repente ele ouve um grito tão alto que todos nos becos se assustam. Preocupado com Valentim, o inspetor corre em direção do grito e encontra uma casa com dezenas de pessoas na entrada. Algo acima lhe chama a atenção e ele vê várias corujas chirriando; elas haviam chegado ao seu destino. Lembrando-se de seu assistente, ele exclama:

- Valentim!

Desvencilhando-se da multidão, ele entra na casa e encontra o seu assistente. Valentim estava perplexo, parado e olhando para algo com grande espanto. Tobias se intriga e olha também; e então ele também se espanta.

No interior da casa, uma mulher em trabalho de parto. Enquanto as contrações doíam, ela falava em línguas estranhas e objetos sólidos flutuavam no ar. E é então que os dois percebem.

A mulher estava possuída pelo demônio.

 

 


sábado, 10 de dezembro de 2022

Liubliana - 23 - Golem

 


(Arte de Kazuhiko Nakamua)


Dirigindo-se à carruagem da Gendarmerie, Valentim é abordado por algumas vizinhas. Albina, a senhora que o ajudou dias atrás, pergunta:

- Boa tarde, senhor Valentim? Perdoe-me a intromissão, mas aonde o senhor vai tão tarde?

Não querendo demonstrar-se ingrato, ele satisfaz a sua curiosidade.

- Estou trabalhando em um novo caso. Devo me apresentar no bairro dos judeus hoje à noite.

- Bairro dos judeus? – intriga-se ela – Eles vêm sofrendo perseguição de novo?

- Aparentemente não, mas é difícil dizer. Na verdade é isso o que queremos descobrir.

Assentindo com a cabeça, ela pergunta:

- O senhor ainda não encontrou nenhuma pista de Danica, não é?

Pesaroso, ele responde:

- Não, senhora.

Os dois ficam em silêncio por um tempo.

- O senhor se lembra daquele casal que morava ali, virando a esquina? Que tiveram um filho recentemente? – pergunta ela, mudando de assunto.

- Sim. O que tem eles?

- Eles foram encontrados mortos ontem à noite.

Valentim se assusta.

- Mortos?!

- Foram assassinados, certamente. Sua carruagem foi encontrado à beira da estrada; os corpos estavam no meio da floresta. A esposa teve sua garganta cortada de orelha a orelha. O marido, bem... – ela hesita por um instante – Teve seus olhos arrancados por um objeto pontudo, uma chave de fenda, talvez.

Valentim se espanta.

- Meu Deus...!

- O bebê foi encontrado na carruagem, debaixo de alguns jornais. Felizmente ele não estava morto, mas estava tão fraco que mal pôde ser salvo. As autoridades estão procurando por parentes próximos para adotá-lo. Mas se ninguém o quiser, temo que ele será levado a um orfanato.

Valentim entende o que ela quer dizer. Dificilmente alguém teria condições de criar uma criança naquele momento. Além da violência, a sombra da miséria também pairava sobre Liubliana.

- Que Deus tenha piedade dessa pobre alma. – consterna-se ele.

Com olhar preocupado, ela comenta:

- Encontre Danica, senhor Valentim, antes que seja tarde demais.

Ele se enrijece, concordando com a cabeça. Encontra-la é seu único objetivo, nem que seja a última coisa que ele faça em sua vida.

 

§

 

Encontrando-se com Tobias e Ronistein, Valentim entra na sinagoga. Davud estava ausente, mas o inspetor disse que ele estaria no lado de fora vigiando a rua. E assim o trio começa a vigília.

No andar superior eles veem o beco abaixo; ele era fracamente iluminado por alguns postes cuja luz criava penumbras na escuridão. Haviam mais pessoas observando o escuro beco com eles; Valentim vê um casal de idosos e um rapaz. Valentim nota como o rapaz vestia um quipá e tinha tranças ruivas descendo por suas têmporas.

Pegando um pequeno bloco de notas, Tobias refaz algumas perguntas para passar o tempo.

- Responda-me novamente, rabino Ronistein. As figuras desconhecidas que o senhor relatou já foram vistas aqui antes?

- Não, senhor inspetor. Mas desde que apareceram, coisas estranhas começaram a acontecer aqui.

- O senhor relatou que elas queriam saber sobre a Cabala e o ritual de reanimação dos mortos...?

- Por mais estranho que seja, sim.

Tobias anota em seu caderno.

- O senhor também relatou que eles queriam se encontrar com o Maharal, não é?

- Exatamente. Nós os explicamos que ele estava morto há dois séculos, mas eles não quiseram ouvir.

- Mas o Maharal não é só uma lenda?

- Não. – nega ele – O Maharal é conhecido por ter criado o famoso Golem, mas ele em si não é uma lenda. Ele existiu e está enterrado em Praga.

O inspetor coça a cabeça, tentando entender.

- Mas deve ter um motivo para as figuras terem perguntado por ele aqui. Com toda essa violência aí fora, coisas sobrenaturais vêm ocorrendo ao mesmo tempo. Vocês têm certeza de que não viram seu espírito perambulando pelos becos à noite?

Então os judeus deixam escapar um sorriso.

- Inspetor Tobias, violência física foi algo que sempre sofremos. Temo que a razão dos nossos problemas foi muito mais real do que sobrenatural, como o senhor deve saber.

Tobias insiste.

- O senhor tem alguma relíquia do Maharal aqui em Liubliana? Objetos pessoais, diários, livros?

- Provavelmente esses objetos não estariam conosco e sim em sua sinagoga em Praga, ou mesmo em sua genizah no cemitério da cidade.

- Genizah?

- Pequenos depositórios nas sinagogas ou cemitérios; são usados para guardas livros e documentos religiosos. Em nossa religião é proibido jogar fora qualquer documento contendo o nome de Deus, por isso os guardamos nesses locais.

O inspetor assente.

- O Maharal tem algum descendente entre vocês?

- Nossa comunidade é bem pequena e todos nos conhecemos aqui. Se houvesse algum descendente do Rabi Judah Loew ben Bezalel aqui, nós saberíamos.

- Então aqui não há nenhum parente?

- Não.

- Sim! – brada alguém, assustando-os.

Valentim olha para trás e vê a esposa do casal bravamente encarando os homens à sua frente.

- Elisheva! – repreende o marido.

- Não! Eles precisam saber! – responde ela – Meu marido, Yohanann, é descendente direto do Rabi Loew, o Maharal.

Ronistein se espanta.

- Irmão Yohanann, isso é verdade?

Abaixando a cabeça, ele responde:

- Sim.

- E por que não nos disse?

Ele se silencia e a esposa novamente toma a palavra.

- Nós tememos a perseguição, rabino Ronistein. Eu não suportarei outro pogrom novamente; ser separada dos meus filhos, assim como ocorreu com meus avós na Geórgia. Por isso eu vim para a Europa. Minha família foi expulsa de casa. A família de meu marido foi expulsa de Praga. Mesmo os judeus já foram expulsos de Liubliana. Nenhum lugar mais é seguro para o nosso povo...

Compadecido, o rabino responde:

- Irmã Elisheva, você devia ter nos contado...

- Senhor Yohanann, essas figuras desconhecidas falaram com o senhor? – pergunta Tobias, interrompendo-os com empolgação.

- Sim. – responde ele, cabisbaixo.

- E o que elas queriam?

Respirando fundo, ele revela:

- Eles queriam reencarnar o deus Exúvia.

Então Valentim e Tobias se entreolham. Exúvia era o misterioso deus pagão, cujas imagens eles encontraram na macabra floresta do Monte Santa Maria.

- Mas por que eles o procuraram? Eu quero dizer, por que eles precisariam de sua ajuda?

- As figuras acreditam que, por eu ser descendente do Maharal, eu possa recriar um humanoide, um outro Golem, para reencarnar o seu deus. Pois como disse o meu ancestral, apenas seus descendentes podem subir ao sótão da sinagoga onde o Golem está confinado.

- Blasfêmia! – brada Ronistein, assustando-os – O Maharal se referiu aos seus sucessores, e não aos descendentes!

- E mesmo assim nenhum sucessor se atreveu a subir os degraus! – responde Yohanann, discordando-o – Esse privilégio é só nosso!

Interrompendo-os, Tobias pergunta:

- Perdoe-me a ignorância, senhores, mas não estamos familiarizados com os detalhes desta intrigante história.

Yohanann diz:

- Judah Loew ben Bezalel, o rabino de Praga, também conhecido como Maharal, foi o criador do lendário humanoide conhecido como Golem. O termo é em hebraico e quer dizer matéria, argila ou barro, uma alusão ao versículo 2, capítulo 7, do livro de Gênese, que diz: “e do pó da terra Deus criou o homem”. – explica ele – Maharal criou o humanoide com a argila das margens do Rio Vitava, trazendo-o à vida com rituais e encantações hebraicas, provavelmente cabalísticas. Sua intenção era usá-lo para defender os judeus de ataques antissemitas e pogroms, estes promovidos pelo Sacro Império Romano. O Golem era chamado Yossele e diz a lenda que ele podia se tornar invisível e invocar espíritos dos mortos. O Maharal o desativava a cada sexta-feira à noite, antes do Shabat[1], removendo o shem de sua boca.

- Shem? – pergunta Tobias.

- Mais um dos nomes que os judeus dão para Deus. – elucida ele – Algumas histórias dizem que, em uma noite de sexta-feira, o Maharal se esqueceu de remover o shem e temeu que o Golem fosse violar o Shabat. Outra história diz que o Golem se apaixonou por uma mulher humana e foi rejeitado, tornando-o um monstro violento e cometendo morticínios. Com muita coragem o Maharal conseguiu remover o shem de sua boca, assim imobilizando-o em frente à sua sinagoga onde o Golem caiu em pedaços. Mas estes são apenas romances fictícios muito longe da verdade.

Tobias se interessa. Ele se extasia com a expectativa da lenda do Golem ser verdadeira.

- E qual é a verdade?

- O verdadeiro Golem tinha uma palavra inscrita em sua testa. O Maharal colocou letras que formavam a palavra emét; em hebraico ela significa “verdade”. Para desativa-lo, era necessário remover a letra Aleph, formando a palavra mét, “morte”.

Ponderando, o inspetor comenta:

- Senhor Yohanann, eu estou confuso. A lenda diz que o Maharal removeu o shem do Golem. Mas o senhor está dizendo que se deve remover a letra Aleph. Vejo que há um conflito de narrativas aqui.

- Como eu disse, algumas são apenas ficções. Nossa família deve se acautelar para que os gentios não ponham a nós e a si mesmos em perigo.

Interrompendo-os, o rabino Ronistein comenta:

- O Golem foi encerrado em sua sinagoga desde o século 16. Não há motivos para temermos o perigo.

De repente eles ouvem um apito lá embaixo, alertando-os. Aquele era o sinal do guarda Davud.

- Pois eu discordo, rabino Ronistein. – comenta Tobias – O Golem pode estar confinado, mas ainda corremos perigo.

O inspetor abre a janela. Ao olhar para baixo, ele imediatamente se espanta. Uma criatura imensa se movia a passos pesados, tremendo o piso com o ritmo. Tobias nota que o monstro tinha olhos verdes e brilhantes, levitando na escuridão.

- É o Golem...! – sussurra ele.

Davud apitava sem parar. Sacudindo o ombro de Tobias, Valentim quebra o seu espanto e diz:

- Vamos, inspetor! Temos que deter esse monstro!

Recompondo-se, Tobias e Valentim descem as escadas. Atrás deles Ronistein desce também. Yohanann acalma sua esposa e a pede para ficar com o jovem ruivo no andar de cima, protegidos na sinagoga.

O beco estava escuro e coberto por uma cerração verde. Tobias nota que os judeus estavam acordados, mas se trancaram dentro de casa. Eles oravam, pedindo a Deus que os protegesse daquele monstro.

Davud apitava até perder o fôlego. Ao alcança-lo no fim do beco, Valentim nota que o rapaz estava branco de pavor.

- Guarda Davud, recomponha-se! – ordena ele.

O guarda olha para o beco e, com a mão trêmula, aponta para algo atrás de Valentim. Ele se vira e arregala os olhos, deparando-se com uma enorme silhueta. O monstro levanta seu braço e os esbofeteia, lançando-os longe.

- Valentim!

Tobias corre para socorrê-los, mas, olhando ao redor, não encontra o monstro em lugar algum.

- Para onde ele foi?

O inspetor não compreende. Da janela o monstro era imenso e impossível de se ocultar.

- Não temam! – diz alguém atrás deles. Tobias olha para trás e vê Yohanann – O Golem pode se tornar invisível e invocar os espíritos dos mortos.

Contorcendo-se de dor, Davud ironiza:

- E estes são motivos para não temer...?!

Eles se levantam e retornam à sinagoga. Irritado, o inspetor confronta Ronistein.

- O senhor zombou de mim agora há pouco, mas aí está a sua ameaça sobrenatural, rabino!

Todos estão confusos e não sabem o que fazer. Ninguém podia combater um inimigo que se tornava invisível. Então algo acontece.

O monstro se materializa ao lado do grupo. A silhueta negra se forma, revelando sua elevada estatura. Eles ouvem o som de pistões e engrenagens, como se o monstro fosse uma máquina profana. Seus olhos brilhavam intensamente, destacando-se em meio à cerração de Plasma.

Valentim o reconhece. Aquele não era o Golem e sim o robô trazido pelos ingleses durante a visita do imperador. No dia da visita, o robô teve mal funcionamento e foi desativado, a mando do próprio Franz Joseph. Vendo a máquina soltando vapor diante de seus olhos, Valentim pensou que ele tivesse sido desmontado e levado de volta à Inglaterra, mas ali ele o via restaurado e de volta à vida.

“Se é que posso chamar assim”, reflete ele.

Tobias também se intriga. O robô tinha símbolos e entalhes pagãos em seu metálico corpo. Os judeus notam outro detalhe; eles viam símbolos cabalísticos e judaicos.

Atônitos, eles não sabem se investigam ou se fogem. Davud era o único ali caído e sentindo dores. De repente Ronistein o puxa e por pouco ele não tem sua cabeça esmagada pelo poderoso robô.

Surpreso, o jovem muçulmano sussurra ao judeu segurando o seu braço.

- O senhor salvou a minha vida...! Por quê?

Ciente da rixa religiosa, o rabino responde:

- Faz parte de nossa religião ajudar ao próximo.

Valentim chama o inspetor e diz:

- Tobias! Use a sua arma! Atire no monstro!

O inspetor saca sua pistola e atira no robô. As balas ricocheteiam em seu peito e parecem não lhe fazer dano algum. De repente o monstro o estapeia no ombro, fazendo-o voar contra a vidraça de uma janela.

Eliminada a ameaça, o robô agora direcionava sua atenção para o restante do grupo. Pressentindo o perigo, Davud saca sua pistola e atira. Desta vez os tiros não ricocheteiam no monstro; estranhamente ele havia desaparecido.

- Davud! Eu vou socorrer o Tobias! Proteja os civis!

Valentim então se ausenta. Davud traz os judeus para trás de si e empunha sua arma, assustado e suando frio.

Minutos se passam. As mãos do guarda tremiam e ele ofega sem parar. De repente eles ouvem passos tremendo o chão e se atentam; o robô se aproxima.

Sem pensar duas vezes, Davud atira contra a escuridão. Os sons se silenciam, mas como se quisesse zombá-lo, o robô se materializa no lado oposto de Davud. Ele olha para o lado e o monstro o estapeia, empurrando-os com grande força e fazendo-os voar pelo beco.

Os três rolam pelo chão. Ronistein sacode a cabeça e sente dores em seus joelhos e cotovelos. Ao lado ele vê o guarda inconsciente no chão. Correndo de volta à sinagoga, ele tem uma ideia.

- Rabino Ronistein, o que vai fazer! – pergunta Yohanann.

- Eu me cansei de ser perseguido e não reagir nunca! Esta noite eu lutarei de volta!

O rabino retorna com um rifle do exército austro-húngaro em suas mãos. Yohanann se impressiona; ele sabe que aquela arma fora contrabandeada pelo rabino.

O robô se aproxima, estremecendo o piso. Ronistein mira seu rifle e põe o dedo no gatilho. De repente ele atira.

Ronistein se impressiona. A bala acertou o olho esquerdo do monstro, fazendo-o se virar. Mas o monstro vira a cabeça novamente e, ao encara-los, Ronistein tem uma terrível surpresa. A cabeça do robô parecia ser toda preenchida de Plasma. O olho esquerdo foi estraçalhado e um buraco horrível se formara no lugar. O Plasma se escorria do buraco e deslizava sobre seu tórax, brilhando na escuridão. Ronistein se imobiliza, apanhado por aquele verde hipnótico.   

O monstro avança e golpeia Ronistein, lançando-o pelos ares contra a sinagoga. Ele se choca contra a mobília e derruba os objetos sagrados, espalhando-os pelo chão.

De repente Yohanann pode ver. A substância ilumina o corpo metálico, clareando os símbolos místicos no robô. Então ele tem uma audaciosa ideia.

Passando pelo rabino desacordado, Yohannan pega alguns objetos religiosos na sinagoga. Ele se unge com óleo sagrado e enrola filactérios em sua testa e seu braço. Os filactérios são pequenas caixinhas contendo pergaminhos bíblicos com o propósito de lembrarem o portador da Palavra de Deus. Normalmente os judeus os usam durante seus rituais e orações, e desta vez não seria diferente.  

Munido de seus pertences, Yohanann ousadamente se aproxima do monstro. Estando a poucos passos dele, alguém segura seu braço e o detém.

- Ei, você! O que você pensa que está fazendo?

Yohannan olha para o lado e reconhece a Valentim.

- Deixe-me, senhor! Só eu posso deter esse monstro.

- E como faria isso?

- No passado, apenas meu ancestral pôde desativar o Golem. Se eu me aproximar o suficiente, poderei detê-lo sem apelar para o uso de armas de fogo.

Valentim ri.

- Se você se aproximar, ele vai esmagar a sua cabeça como uma casca de ovo.

- Não, não vai. – discorda ele – Tenho os filactérios e a unção do óleo sagrado comigo. Eles me protegerão do perigo.

Mais uma vez Valentim o segura.

- Não cometa esta insensatez, Yohanann! Ele vai matá-lo!

Yohanann, porém, se desvencilha.

- Tenha fé.

O Golem desaparece. De repente eles ouvem urros e vozes ao redor, como se os mortos estivessem rondando na escuridão. Valentim sabe do que se trata; conforme disse a lenda, o monstro podia invocar espíritos dos mortos e, ao ouvi-los, ele sente o seu sangue gelar.

- Não tenha medo. Ele está tentando nos confundir.

Mas Valentim não consegue controlar o terror. Vultos passeavam entre as sombras e passos avançavam contra ele, como se quisessem apanha-lo.

Ajuntando as mãos, Yohanann abaixa sua cabeça e faz orações em hebraico. Os espíritos parecem se perturbar e gritam horrivelmente, fazendo Valentim se sentir na presença dos demônios. De repente o ruído das engrenagens retorna e eles veem o monstro metálico ressurgindo no beco.

Caminhando bravamente, Yohanann intenta aproximar-se do Golem. O monstro se prepara para golpeá-lo e Valentim se aflige; o pescoço do judeu se quebraria como um graveto pela poderosa mão. Mas então algo acontece. O monstro se encurva e se enfraquece, combalido pelo poder místico de Yohanann.

Sem hesitar, o judeu sobe no monstro e tenta alcançar a sua cabeça. O Golem o repele e ele se choca contra a parede. Controlando a tontura, Yohanann avança novamente e pula em suas costas. O monstro se sacode e o derruba, fazendo-o rolar pelo chão empoeirado. O Golem se vira e ergue o seu pé, preparando-se para esmaga-lo impiedosamente. Novamente Valentim se aflige. 

Um tiro é ouvido e a bala atinge o peito do Golem. A bala ricocheteia no Plasma e a chama imediatamente se forma, provocada pelo calor no líquido inflamável.

Atônitos, Valentim e Yohanann olham para trás. Alguém se apoiava no peitoril empunhando sua arma; era Tobias.

- Não! – alerta Yohanann – Fogo e balas não podem destruí-lo! Ele precisa ser desativado!

- O senhor está louco! Esse monstro deve ser destruído! – exclama o inspetor.

- Ele está certo! – uma terceira pessoa falava com eles. Ao olhar para trás, eles viam a Ronistein – O Golem está protegido pelos poderes místicos da Cabala. Ele deve ser desativado e só assim perderá a sua vida.

Yohanann se levanta e se dirige em direção ao monstro. O Golem golpeia e destrói uma parede de tijolos; o judeu corria um risco de vida altíssimo perto dele. Com muita coragem, ele estica seu braço e tenta tocar-lhe. O calor do fogo o afeta e o monstro o agarra, segurando-o com as duas mãos.

O grupo assiste aflito ao monstro esmagar Yohanann com as próprias mãos. Seus ossos se deslocam e alguns se estralam, quebrando-se com ruídos horríveis. Algo viscoso se escorrega pelas mãos do Golem e ele se atrapalha; era o óleo da unção. O judeu desvencilha seu braço e o estica na direção da cabeça do monstro, tocando as letras em sua testa. “Emét”, lê ele. Yohanann tenta ignorar o fogo; seus dedos se queimam no metal quente e ele agoniza, lutando para suportar a dor. Cravando suas unhas e gritando alto, ele finalmente puxa a primeira letra.

O objeto queima em sua mão, mas ele não o solta; era a primeira letra da palavra na testa do Golem. Olhando para a sua flamejante testa, agora ele lia apenas “mét”, morte.

O monstro solta Yohanann e, como se estivesse se enferrujando, se imobiliza rigidamente e volta ao seu estado inanimado. Em segundos, seus olhos se apagam e ele não se move mais.

Tobias e Valentim partem rapidamente para socorrer Yohanann. Ronistein acode Davud, que acorda com muitas dores no corpo. E assim se encerrava aquela ferrenha luta contra o Golem.

 

§

 

Meia hora depois, guardas de patrulha e médicos socorrem Yohanann. Ele teve várias fraturas pelo corpo e está gravemente ferido. Sua esposa o acompanha ao hospital, mas antes agradece fervorosamente aos gendarmes.

Tobias se aproxima do robô. Ele está imóvel e desativado no meio beco. Plasma ainda se escorria do buraco em seu crânio e nada mais podia reativar suas engrenagens. O inspetor se aproxima de sua boca e encontra algo estranho. Havia um frasco com um papel dentro, como uma mapa inserido em uma velha garrafa. Abrindo-o, ele desenrola o papel e lê “Exúvia”.

Ronistein se aproxima e também vê o misterioso papel. Ele comenta:

- Não está escrito “Shem”, que é um dos nomes de Deus, mas “Exúvia”, que é o nome de um outro deus.

O inspetor complementa:

- Um deus pagão.

O rabino faz algumas lamentações.

- Eles usurparam o conhecimento místico da Cabala e recriaram o Golem, não de barro ou de argila como diz a lenda, mas de engrenagens e de ferro. Triste.

Tobias discorda.

- Esta máquina é propriedade dos ingleses, e não uma criação mística. Vou descobrir quem o lançou aqui para aterrorizá-los, rabino. O senhor tem a minha palavra.

Satisfeito, Ronistein se vira e se afasta.

Valentim pondera. Finada a luta, ele está descansando em um local afastado. Novamente ele escapara da morte e se pergunta se sua sorte durará mais tempo. Então ele nota algo.

Acima, nos telhados, ele vê uma dúzia de corujas encarando-o. As aves o observam com olhares medonhos, que lembram o de um ser humano. De repente elas batem as asas e voam, desaparecendo na noite. Um objeto se solta de suas garras e cai aos seus pés. Agachando-se, ele o pega e então tem uma enorme surpresa; aquilo era o véu de cabelo de Danica.

Valentim o cheira e imediatamente reconhece o cheiro de sua esposa. No véu haviam cabelos e ele reconhece os seus cabelos negros. Emocionado, ele levanta a cabeça e sonda os telhados, procurando avidamente pelas misteriosas corujas.

Um guarda se aproxima e o cumprimenta. Valentim rapidamente esconde o véu, omitindo da Gendarmerie, e mesmo de Tobias, o que acabara de acontecer.

 

§

 

No dia seguinte, Tobias faz o relatório. O robô é devolvido às autoridades, mas o inspetor sabe que quem quer que o tenha ativado faz parte do alto escalão do império. Yohanann está hospitalizado e vai sobreviver. Ronistein o agradece por sua ajuda e o intitula como um amigo da comunidade judaica. O jovem Davud aprendeu lições valiosas sobre tolerância naquela noite e Valentim, sem um motivo plausível, anda um pouco distraído ultimamente, obcecado por corujas. Julgando que seu assistente esteja abalado pelos últimos eventos na Gendarmerie, o inspetor prefere não incomodá-lo.

Em seguida Tobias fecha a pasta e encerra o caso; o curioso caso do lendário Golem.

 

 



[1] Sábado em hebraico

Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta

(Artista desconhecido) Dias se passam. Yang é mantido em um recinto com sofá, mesa e televisão. Não era bem uma cela, mas uma confortável sa...