(Artista desconhecido)
Madelaine Smith
era uma meretriz inglesa trazida à Liubliana para dar conforto aos operários de
seu país. Sua infância foi dura e ela cresceu sob insistentes pedidos de sua
própria mãe para se prostituir. Sua família sofria com a miséria nos subúrbios
de Londres e sua mãe achou proveitoso enviar sua filha mais velha, na época com
um corpo formoso e atraente, para esse degradante trabalho.
A exploração
sexual rendeu um bom dinheiro, mas a jovem Madelaine não recebia nenhum
centavo. Sua mãe ficava com tudo e a menina, agora abusada e explorada
sexualmente, amargava com as doenças venéreas.
A infância
perdida e o amadurecimento precoce tornaram Madelaine solitária e agressiva.
Aos vinte anos ela deixou a casa de sua mãe e aventurou-se pelas ruas da
movimentada metrópole. Semianalfabeta e sem perspectiva, ela não mudou seus
velhos hábitos. Negando o desgastante trabalho nas fábricas, ela retorna à sua
profissão original, outrora imposta, mas agora por decisão própria.
Após deitar-se
com tantos homens, Madelaine não se lembrava mais de quando perdeu a
virgindade. Ela havia perdido qualquer esperança de encontrar um homem decente
para se casar. Nas ruas da capital inglesa, seus únicos relacionamentos eram
com homens grosseiros, bêbados, fedorentos e pervertidos.
A garota
acumulava pecados sobre si mesma e sobre o seu corpo. Solteiros a procuravam
para a fornicação, casados para o adultério e tantos outros para as mais
variadas perversidades. Até que um dia um destes clientes a convidou para
trabalhar em outra nação. Ela deveria dar conforto aos operários ingleses longe
de casa. Atraída pelo alto rendimento financeiro, ela prontamente aceitou,
partindo para viver em um bordel em um bairro operário de Liubliana.
E então Madelaine
encontrou a luz.
Missionários
jovens sondavam as ruas em busca de ovelhas perdidas. Vendo aqueles garotos
passarem ali, Madelaine logo se insinua, oferecendo seus serviços. Mas os
garotos, alheios aos seus encantos, se apresentam como monges franciscanos de
Carníola. Eles lhe fazem pregações em língua inglesa e Madelaine, confusa com
seus empenhos, se permite ouvi-los. No início ela os trata com rejeição e
deboche, mas logo muda de pensamento. Curiosamente a pregação fazia efeito em
seu coração endurecido. Sem demonstra-los, ela passa a sentir nojo de si mesma,
sentindo-se arrependida e suja.
Os dóceis garotos
lhe dão um folheto indicando o local de sua igreja. Madelaine aceita e eles vão
embora. Envergonhada, ela corre para o seu quarto e chora intensamente.
Dias mais tarde,
Madelaine vai ao local de culto dos jovens monges. Ela descobre que eles eram
católicos e se espanta. Ela vinha de um país protestante, mas ela nunca deu
importância para isso.
Ao frequentar
regularmente a missa, ela abandona seus velhos caminhos. Ela se livra das
roupas sensuais, da maquiagem pesada e do palavreado torpe, e então se converte
ao catolicismo. Os monges a instruem na realização dos sacramentos e, chegada a
hora, ela se batiza na pia batismal.
E assim Madelaine
se torna uma meretriz convertida. Não mais ela seria abusada pela
concupiscência dos homens. Seu corpo não mais seria usado para satisfazer a
torpeza dos instintos. Mas ainda não era o suficiente para ela.
Madelaine se
torna uma ativista e uma benfeitora. Ela passa a agir como uma madre superiora
entre as meretrizes, dando-lhes proteção, provisões e amparo caso lhes
sobrevenha alguma dificuldade. As meretrizes estariam protegidas se fossem
atacadas por homens perversos e violentos. Naqueles dias a violência parecia
ter se alastrado como um epidemia e muitos culpavam o Plasma. Ademais, suas
ex-colegas teriam ajuda humanitária se precisassem. Madelaine nunca abandonou o
bordel, na verdade, mas ficou para ajudar suas colegas cujas agruras da
profissão ela conhecia tão bem. Mas a mesma profissão, porém, ela havia deixado
para trás.
Mas nem todos se
esqueceram do passado de Madelaine.
Os badalados
becos das meretrizes eram sempre barulhentos e cheios de indecências. Esperando
uma noite normal cheia de pecados e atos libidinosos, Madelaine enrola seu
terço no punho e faz suas preces; ajoelhada em frente às imagens de santos, ela
os pede para protegerem suas colegas e intercederem a favor delas junto ao Pai.
Mas algo estava diferente; aquela noite os becos estavam desertos e silenciosos
como um cemitério.
Ajoelhada em seu quarto,
alguém bate em sua porta. Madelaine se pergunta quem poderia ser àquela hora.
Ela abre e encontra homens vestidos de mantos vermelhos, pretos e púrpuras. A
princípio ela pensa que eram monges vindo pregar a Palavra, mas algo estava
diferente. Semelhantes a cultistas pagãos, os homens a encaravam com semblantes
mórbidos e olhares profanos.
Um homem
pergunta:
- Madelaine
Smith?
Imediatamente ela
se intriga; eles a conheciam. Olhando-o da cabeça aos pés, o cultista vestia um
finíssimo manto púrpura. Por muitos séculos essa cor era exclusiva da nobreza,
pois apenas ela podia pagar o custo alto da tintura. Preocupada, ela pensa
estar encrencada com a nobreza austro-húngara.
- Quem são vocês?
O homem estende a
mão e ela pode notar que, em seus dedos, haviam anéis de joias belíssimas. Ele
estava lhe dando uma carta.
- Tu és a
escolhida. O retorno do deus se aproxima. O teu útero lhe dará a luz; o útero
da Prostituta da Babilônia.
Madelaine se
espanta.
- Prostituta da
Babilônia...?!
Um homem de vermelho
toma a palavra. Ela nota que ele vestia um colar de gravetos, como um talismã
ocultista.
- Na antiguidade,
a Babilônia foi a capital do mundo. Hoje, Londres é a capital do mundo moderno.
A mulher de nome Madelaine Smith, tu, veio de Londres, portanto tu és a
encarnação da Prostituta da Babilônia em Liubliana.
Então ela se
avilta.
- Escutem aqui,
seus pervertidos! Eu não sou mais uma prostituta! Eu me converti e hoje sou uma
cristã devota de Nossa Senhora! Agora eu peço que se retirem daqui e me deixem
em paz!
Madelaine tenta
fechar a porta quando o homem de púrpura diz:
- Teu corpo
embriagou de prazeres muitos homens. O cálice de vinho da grande prostituta
embriagará os reis desta terra. Permita que tua prole seja maior do que aquele
que se assenta no trono real britânico.
Curiosa, ela
pergunta:
- Vocês são
ingleses?
Eles simplesmente
respondem:
- Não.
- Pois vocês
falam inglês muito bem.
- Nós falamos
muitas línguas, mas nossa língua materna é a dos anjos caídos.
Madelaine se
perturba.
- Eu não sei quem
são vocês ou o que querem, mas peço que vão embora e não voltem mais!
Os homens
assentem e em seguida vão embora sem insistir. Madelaine fica na porta, observando-os
se afastarem até partirem do imundo beco das meretrizes.
Fechando a porta,
ela se senta em sua cama e vê a carta em sua mão. Ela a abre com muito
interesse e encontra um pedaço de papel. Madelaine vê um desenho ocultista, com
letras desconhecidas e de impossível compreensão. Irritada, ela rasga a carta e
a joga fora.
A noite calma
parece ter se tornado obscura e mística. Uma cerração incomum percorre os
becos, se arrastando como as correntes da própria morte. Um sono pesado a
domina e ela se deita, intentando dormir.
Poucos minutos
depois ela adormece. As chamas das velas se apagam em um sopro sobrenatural; a
cerração verde se infiltra em seu quarto e o invade com a má intenção de um
salteador. E então algo acontece.
Sonhos luxuriosos
tomam sua mente. Enquanto dorme, Madelaine é seduzida por algo sobrenatural.
Ela sussurra e geme em soluços delicados e cheios de luxúria. Algo toca em seu
corpo, um braço materializado dentro da cerração verde. A entidade a toca e a
acaricia, excitando-a e despertando-lhe desejo.
Madelaine está
inconsciente da entidade mística sobre si. Ela passeia nas sombras, agitando a
cerração e materializando-se sobre sua cama. Então a entidade a possui em seus
sonhos. Ela geme e sua intensamente, contorcendo-se e agarrando os lençóis. O
pulsar é constante e intenso; em seguida a semente sobrenatural é passada para
ela, profunda e internamente, finalizando a onírica violação.
Nas semanas
seguintes começam os sintomas. Uma
sensação inexplicável de terror e também de paixão. Enquanto dorme, ela volta a
sentir sombras acariciando seu corpo e seus seios. Pesadelos a atormentam. Ela
tem presságios ruins de que algo se erguia das trevas e arrastava-se para a luz
do nascimento.
A visita dos
cultistas foi recompensadora. Madelaine concebera o deus pagão. De seu ventre
retornava um mal ancestral ao mundo, como o vinho derramado do cálice da
Prostituta da Babilônia.
Durante a
gestação, a semente profana feria o útero da mulher. Dentro da meretriz
convertida, a prole cometia um sacrilégio. Madelaine busca a morte; ela desejava
morrer e se livrar de seu impiedoso tormento. Entretanto, a prole lhe impedia.
Cortes nos pulsos e no pescoço se regeneravam milagrosamente. Seu corpo
definhava por não poder morrer.
Sua maternidade
foi destruída; a prole a havia esterilizado para sempre. Uma fenda
interdimensional foi criada, conectando o mundo dos homens ao fantástico plano
onde os deuses pagãos existiam.
E assim Madelaine
definhava, suportando o excruciante tomento.
§
Nove meses se
passam.
Valentim está
distraído no trabalho, mas sempre atento na janela. Ele constantemente checa um
véu em seu bolso. Olhando para a paisagem lá fora, ele tenta encontrar algo que
somente ele sabe o que é.
Tobias continua
seu trabalho e lê relatórios investigativos. O capitão entra algumas vezes na
sala e provoca Valentim, questionando seu comportamento incomum. Porém,
Valentim não lhe dá atenção. Conhecendo o temperamento explosivo de seu
assistente, Tobias se espanta.
Um minuto mais
tarde o inspetor pergunta:
- Ei, Valentim! O
que está fazendo?
- Corujas.
- O quê? –
confunde-se ele.
- Você sabe para
onde elas vão à noite?
Ainda confuso,
Tobias responde:
- Eu não sei,
Valentim. Para os seus ninhos, talvez.
- Para o sul.
Elas vão para o sul.
Tobias se
intriga.
- Como o senhor
sabe?
- Eu as vi.
Valentim se
referia àquela noite no bairro dos judeus.
O inspetor, sem
entender o que ele queria dizer, tenta mudar de assunto.
- O guarda Davud
está se recuperando bem. Ele se feriu muito após a luta com o Golem. Davud
parece gostar de você, Valentim, pois desde a galeria dos cadáveres ele vive
elogiando sua coragem nas situações mais difíceis.
Sem se importar,
Valentim responde:
- Bom para ele.
Tobias se chateia
com sua indiferença; Davud ficaria arrasado se o soubesse. Então ele fica em
silêncio um pouco, tentando entender por que seu assistente dava atenção a
coisas tão estranhas.
- Valentim,
quanto as corujas... Aconteceu algo no bairro judeu que o senhor queira me
contar?
- Não, inspetor
Hessler.
- Tem certeza?
- Por que,
inspetor? – pergunta Valentim, irritado – O ninho das corujas é algo que a
Gendarmerie precise saber?
Confrontado, Tobias
se irrita e ousadamente o confronta de volta.
- Quando o senhor
precisou dos gendarmes para procurar a sua esposa, o senhor pediu a minha ajuda.
Devo dizer que foi de uma maneira bem interesseira, já que ninguém na estação
acreditava em minhas teorias. O senhor teve pena, talvez? Ou se aproveitou que ninguém
me respeitava? – pergunta ele – De qualquer forma, hoje o senhor está aqui, um
civil iletrado a serviço da Gendarmerie. Portanto eu te respondo: sim, o seu
problemas com as corujas é algo que eu precise saber sim! E desconfio que esse
véu em seu bolso esteja relacionado a isso.
Valentim arregala
os olhos, sendo pego de surpresa. Respirando fundo, ele responde:
- As corujas
deixaram cair este véu aquela noite. Ele pertence a Danica.
O inspetor desconfia.
- Como isso é
possível?
- Eu reconheci o
cheiro.
Tobias ainda não
se convence.
- O senhor tem
certeza?
- Eu vivi com
minha esposa por vinte anos, inspetor! Eu conheço o seu cheiro.
Então o inspetor
assente, balançando a cabeça.
- Por isso o
senhor está obcecado pelas corujas? O senhor pretende segui-las para encontrar
mais pistas do paradeiro de Danica? – estima ele.
- Sim, senhor
inspetor.
Tobias pondera.
- Valentim, eu
sei que o senhor prioriza sua esposa, mas devo lembra-lo de que agora o senhor
é um servidor público e um funcionário desta Gendarmerie. Não podemos abandonar
nossas obrigações para focarmos apenas no seu caso; por enquanto temos um
trabalho a ser feito.
Após ouvi-lo,
Valentim se contraria. Apesar das circunstâncias se demonstrarem contrárias aos
seus planos, ele se cala, preferindo a paz com seu estimado amigo Tobias.
§
O dia se passa; o
expediente chega ao fim.
Cansado após um
longo dia de trabalho burocrático, Tobias veste seu casaco e deixa a Gendarmerie.
Valentim o segue logo atrás, em postura ereta e vigilante.
O inspetor se
aproxima de sua carruagem e distraidamente se despede de seu assistente,
concluindo alguns assuntos e dizendo “até amanhã”. De repente alguém se
aproxima e os surpreende pelas costas, assustando-os:
- Senhores! Senhores! Vocês têm que me ajudar!
Os dois se viram
e veem uma mulher desesperada vestindo farrapos.
- Algum problema,
senhora? – pergunta Tobias.
- A minha amiga!
Ela está possuída pelo demônio!
Os dois arregalam
os olhos.
- Minha senhora,
este não é um problema para a gendarme. Sugiro que procure uma igreja.
- O senhor não entende!
É algo muito mais além do que isso! – explica ela – Me disseram que o senhor
cuida dos casos sobrenaturais em Liubliana! O senhor tem que me ajudar!
Um pouco
surpreso, Tobias franze a testa. Ele não sabia que sua fama tinha se espalhado
tanto.
- E onde está a sua
amiga, senhora?
- No beco das
meretrizes.
Os dois se
espantam novamente.
- Beco das
meretrizes...?
- Fica no
distrito inglês. Escute, o senhor tem que acreditar em mim! Acompanhe-me,
depressa!
Assentindo, eles
entram na carruagem e seguem pelas ruas de Liubliana.
A noite se
aproxima e os acendedores acendem os postes. A luz do Plasma ilumina a cidade,
colorindo-a com seu habitual verde.
- Moça, você pode
nos explicar detalhadamente o que aconteceu?
- A minha
amiga... Ela afirma ter engravidado através de um estupro...
O inspetor se
estarrece.
- Está dizendo
que sua amiga foi vítima de violência sexual?
- Por incrível que
pareça, não. Ela afirma ter sido estuprada por um espírito das trevas, uma
sombra que invadiu seu quarto com o intuito de violá-la.
Tobias coça a sua
cabeça.
- Moça, deixe-me
perguntar uma coisa. Sua amiga ingere álcool ou faz uso de substâncias
alucinógenas?
- Não, senhor
inspetor. Ela é convertida na igreja e devota de Nossa Senhora. Ela é nossa
cuidadora e mora no beco das meretrizes por decisão própria. Ela nos alimenta e
nos abriga, orando por nós para que Deus sempre nos proteja nas esquinas. –
revela ela – Minha amiga é uma verdadeira cristã.
O inspetor
assente em silêncio.
Ao se aproximarem
do beco das meretrizes, Tobias e seu assistente notam que ele se situava ao
lado de outra garagem de trens, como em Zgornji Kašelj. Uma linha ferroviária
separava o bairro das locomotivas. Ao atravessá-la, Tobias e Valentim sentem
que estavam partindo para o “lado errado dos trilhos”.
A miséria em que
as meretrizes viviam era notável. As ruas eram esparsamente iluminadas e muitos
viviam na completa escuridão. As velas iluminavam o interior das casas e poucos
tinham lamparinas de Plasma.
Tobias abre a
porta e desce da carruagem; então poças lamacentas sujam seus sapatos. Valentim
desce pelo outro lado e se prontifica, ocultando seu punhal. O inspetor fica ao
lado da porta, esperando a mulher descer. Vendo que ela se demorava, ele olha
para dentro do veículo e pergunta:
- Moça, a senhora
não vai descer?
Mas então ele tem
uma tremenda surpresa. A mulher havia desaparecido.
Estranhando o
comportamento de Tobias, Valentim olha para ele e pergunta:
- Tobias, você
está bem?
O cocheiro também
o estranha, vendo-o petrificado de horror.
- Inspetor
Tobias...?
- A mulher... –
gagueja ele – Ela estava aqui agora mesmo...!
Valentim verifica
a carruagem e também se surpreende. O interior estava vazio.
- Não será
possível que ela tenha corrido para as ruas assim que os senhores saíram do
veículo? – pergunta o cocheiro.
- Impossível. –
responde ele – Ela estava ao nosso lado e não passaria se não lhe déssemos
passagem.
Então a pele do
cocheiro se arrepia.
- Me desculpe a
insolência, inspetor, mas bem que o guarda Mladen me avisou que trabalhar para
o senhor seria um problema. – então ele pega as rédeas e diz – Até amanhã,
inspetor Hessler. – em seguida ele bate as rédeas e parte apressado dali.
Novamente
sozinhos, os dois ficam em silêncio por um tempo, confusos com aquilo tudo.
- Valentim, o
senhor conhece esse tal beco das meretrizes?
Ele responde:
- Não, senhor.
- Tem certeza? –
insiste ele.
Valentim lhe faz
um olhar irritado. Ele nunca trairia sua esposa com mulheres assim.
No alto dos
prédios, fumaça saía das chaminés. Algumas janelas estavam iluminadas e eles
ouviam os moradores conversando em inglês. De repente Valentim ouve outro som e
se alerta. Acima, no beiral dos telhados, várias aves o vigiavam na escuridão. Ao
ouvir o seu chirriar, ele imediatamente as reconhece.
- São corujas! –
exclama ele.
O inspetor não o
entende.
- O que o senhor
disse?
Tobias olha para
cima e vê as corujas. De repente elas batem as asas e voam pela noite. Sem
pensar duas vezes, seu assistente as segue pelo bairro.
- Valentim!
Valentim corre.
Olhando para os telhados, as corujas voavam pela noite. Ao passarem por alguns
prédios, elas aterrissavam brevemente, e então elas voavam por mais alguns
metros para aterrissar novamente. Seu voo curto e intermitente lhe intriga; era
como se elas quisessem guia-lo pelos becos.
Tobias o segue
logo atrás. A noite cai e o vento sopra pelas ruas, arrastando a cerração verde
pelas esquinas.
- Senhor,
Valentim! Espere!
Correndo sem
parar, o assistente avança impulsivamente pelos becos. Ele se lançava
cegamente, não se importando com sua própria segurança. De repente ele vira e
entra em outro beco, um iluminado por lâmpadas vermelhas penduradas na parede.
Seguindo-o,
Tobias se depara com o beco e se paralisa. Ali ele via dezenas de pessoas com
aparência hostil e de caráter duvidoso. Homens perigosos o encaravam e mulheres
encrenqueiras sorriam para ele. Tobias, um jovem educado e de boa família, se
sente um cordeiro indefeso no meio de lobos devoradores.
Valentim avançou
por aquela direção. Sem opção, o inspetor abaixa sua cabeça e prossegue em
silêncio. Exibir suas credenciais de gendarme ali seria absolutamente
arriscado; aqueles marginais o matariam e jamais encontrariam o seu corpo.
Enquanto caminha,
uma mulher acaricia suas nádegas, fazendo-o saltar.
- Boa noite,
amor. Quer se divertir comigo?
Ocupado com seus
assuntos, ele não havia percebido. Tobias estava no coração do beco das
meretrizes.
- Obrigado,
senhora, mas eu estou ocupado esta noite.
Ele avança e
então outras mulheres o acariciam também. Seus toques leves e voluptuosos lhe
despertam desejo, fazendo-o se descontrolar. Ao passar por uma bela inglesa de
seios despidos, seus olhos se arregalam.
Nos becos haviam
quartos onde as meretrizes trabalhavam. Os clientes passavam por ali e as
escolhiam aleatoriamente. Alguns homens estavam lá para ter seu momento de
prazer e outros só queriam arrumar confusão. Então alguém aparece ao seu lado e
pergunta:
- Com licença, o
senhor está procurando por alguém?
Tobias olha para o
lado e vê uma inglesa de cabelos negros e cacheados.
- Meu assistente
entrou aqui. Por acaso a senhora...
De repente ele
ouve um grito tão alto que todos nos becos se assustam. Preocupado com
Valentim, o inspetor corre em direção do grito e encontra uma casa com dezenas
de pessoas na entrada. Algo acima lhe chama a atenção e ele vê várias corujas
chirriando; elas haviam chegado ao seu destino. Lembrando-se de seu assistente,
ele exclama:
- Valentim!
Desvencilhando-se
da multidão, ele entra na casa e encontra o seu assistente. Valentim estava
perplexo, parado e olhando para algo com grande espanto. Tobias se intriga e
olha também; e então ele também se espanta.
No interior da
casa, uma mulher em trabalho de parto. Enquanto as contrações doíam, ela falava
em línguas estranhas e objetos sólidos flutuavam no ar. E é então que os dois
percebem.
A mulher estava
possuída pelo demônio.

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