terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Liubliana - 24 - O Beco das Meretrizes

 


(Artista desconhecido)


Madelaine Smith era uma meretriz inglesa trazida à Liubliana para dar conforto aos operários de seu país. Sua infância foi dura e ela cresceu sob insistentes pedidos de sua própria mãe para se prostituir. Sua família sofria com a miséria nos subúrbios de Londres e sua mãe achou proveitoso enviar sua filha mais velha, na época com um corpo formoso e atraente, para esse degradante trabalho.

A exploração sexual rendeu um bom dinheiro, mas a jovem Madelaine não recebia nenhum centavo. Sua mãe ficava com tudo e a menina, agora abusada e explorada sexualmente, amargava com as doenças venéreas.

A infância perdida e o amadurecimento precoce tornaram Madelaine solitária e agressiva. Aos vinte anos ela deixou a casa de sua mãe e aventurou-se pelas ruas da movimentada metrópole. Semianalfabeta e sem perspectiva, ela não mudou seus velhos hábitos. Negando o desgastante trabalho nas fábricas, ela retorna à sua profissão original, outrora imposta, mas agora por decisão própria.

Após deitar-se com tantos homens, Madelaine não se lembrava mais de quando perdeu a virgindade. Ela havia perdido qualquer esperança de encontrar um homem decente para se casar. Nas ruas da capital inglesa, seus únicos relacionamentos eram com homens grosseiros, bêbados, fedorentos e pervertidos.

A garota acumulava pecados sobre si mesma e sobre o seu corpo. Solteiros a procuravam para a fornicação, casados para o adultério e tantos outros para as mais variadas perversidades. Até que um dia um destes clientes a convidou para trabalhar em outra nação. Ela deveria dar conforto aos operários ingleses longe de casa. Atraída pelo alto rendimento financeiro, ela prontamente aceitou, partindo para viver em um bordel em um bairro operário de Liubliana.

E então Madelaine encontrou a luz.

Missionários jovens sondavam as ruas em busca de ovelhas perdidas. Vendo aqueles garotos passarem ali, Madelaine logo se insinua, oferecendo seus serviços. Mas os garotos, alheios aos seus encantos, se apresentam como monges franciscanos de Carníola. Eles lhe fazem pregações em língua inglesa e Madelaine, confusa com seus empenhos, se permite ouvi-los. No início ela os trata com rejeição e deboche, mas logo muda de pensamento. Curiosamente a pregação fazia efeito em seu coração endurecido. Sem demonstra-los, ela passa a sentir nojo de si mesma, sentindo-se arrependida e suja.

Os dóceis garotos lhe dão um folheto indicando o local de sua igreja. Madelaine aceita e eles vão embora. Envergonhada, ela corre para o seu quarto e chora intensamente.           

Dias mais tarde, Madelaine vai ao local de culto dos jovens monges. Ela descobre que eles eram católicos e se espanta. Ela vinha de um país protestante, mas ela nunca deu importância para isso.

Ao frequentar regularmente a missa, ela abandona seus velhos caminhos. Ela se livra das roupas sensuais, da maquiagem pesada e do palavreado torpe, e então se converte ao catolicismo. Os monges a instruem na realização dos sacramentos e, chegada a hora, ela se batiza na pia batismal.

E assim Madelaine se torna uma meretriz convertida. Não mais ela seria abusada pela concupiscência dos homens. Seu corpo não mais seria usado para satisfazer a torpeza dos instintos. Mas ainda não era o suficiente para ela.

Madelaine se torna uma ativista e uma benfeitora. Ela passa a agir como uma madre superiora entre as meretrizes, dando-lhes proteção, provisões e amparo caso lhes sobrevenha alguma dificuldade. As meretrizes estariam protegidas se fossem atacadas por homens perversos e violentos. Naqueles dias a violência parecia ter se alastrado como um epidemia e muitos culpavam o Plasma. Ademais, suas ex-colegas teriam ajuda humanitária se precisassem. Madelaine nunca abandonou o bordel, na verdade, mas ficou para ajudar suas colegas cujas agruras da profissão ela conhecia tão bem. Mas a mesma profissão, porém, ela havia deixado para trás.

Mas nem todos se esqueceram do passado de Madelaine.

Os badalados becos das meretrizes eram sempre barulhentos e cheios de indecências. Esperando uma noite normal cheia de pecados e atos libidinosos, Madelaine enrola seu terço no punho e faz suas preces; ajoelhada em frente às imagens de santos, ela os pede para protegerem suas colegas e intercederem a favor delas junto ao Pai. Mas algo estava diferente; aquela noite os becos estavam desertos e silenciosos como um cemitério.

Ajoelhada em seu quarto, alguém bate em sua porta. Madelaine se pergunta quem poderia ser àquela hora. Ela abre e encontra homens vestidos de mantos vermelhos, pretos e púrpuras. A princípio ela pensa que eram monges vindo pregar a Palavra, mas algo estava diferente. Semelhantes a cultistas pagãos, os homens a encaravam com semblantes mórbidos e olhares profanos.

Um homem pergunta:

- Madelaine Smith?

Imediatamente ela se intriga; eles a conheciam. Olhando-o da cabeça aos pés, o cultista vestia um finíssimo manto púrpura. Por muitos séculos essa cor era exclusiva da nobreza, pois apenas ela podia pagar o custo alto da tintura. Preocupada, ela pensa estar encrencada com a nobreza austro-húngara.

- Quem são vocês?

O homem estende a mão e ela pode notar que, em seus dedos, haviam anéis de joias belíssimas. Ele estava lhe dando uma carta.

- Tu és a escolhida. O retorno do deus se aproxima. O teu útero lhe dará a luz; o útero da Prostituta da Babilônia.

Madelaine se espanta.

- Prostituta da Babilônia...?!

Um homem de vermelho toma a palavra. Ela nota que ele vestia um colar de gravetos, como um talismã ocultista.

- Na antiguidade, a Babilônia foi a capital do mundo. Hoje, Londres é a capital do mundo moderno. A mulher de nome Madelaine Smith, tu, veio de Londres, portanto tu és a encarnação da Prostituta da Babilônia em Liubliana.

Então ela se avilta.

- Escutem aqui, seus pervertidos! Eu não sou mais uma prostituta! Eu me converti e hoje sou uma cristã devota de Nossa Senhora! Agora eu peço que se retirem daqui e me deixem em paz!

Madelaine tenta fechar a porta quando o homem de púrpura diz:

- Teu corpo embriagou de prazeres muitos homens. O cálice de vinho da grande prostituta embriagará os reis desta terra. Permita que tua prole seja maior do que aquele que se assenta no trono real britânico.

Curiosa, ela pergunta:

- Vocês são ingleses?

Eles simplesmente respondem:

- Não.

- Pois vocês falam inglês muito bem.

- Nós falamos muitas línguas, mas nossa língua materna é a dos anjos caídos.

Madelaine se perturba.

- Eu não sei quem são vocês ou o que querem, mas peço que vão embora e não voltem mais!

Os homens assentem e em seguida vão embora sem insistir. Madelaine fica na porta, observando-os se afastarem até partirem do imundo beco das meretrizes.

Fechando a porta, ela se senta em sua cama e vê a carta em sua mão. Ela a abre com muito interesse e encontra um pedaço de papel. Madelaine vê um desenho ocultista, com letras desconhecidas e de impossível compreensão. Irritada, ela rasga a carta e a joga fora.

A noite calma parece ter se tornado obscura e mística. Uma cerração incomum percorre os becos, se arrastando como as correntes da própria morte. Um sono pesado a domina e ela se deita, intentando dormir.

Poucos minutos depois ela adormece. As chamas das velas se apagam em um sopro sobrenatural; a cerração verde se infiltra em seu quarto e o invade com a má intenção de um salteador. E então algo acontece.

Sonhos luxuriosos tomam sua mente. Enquanto dorme, Madelaine é seduzida por algo sobrenatural. Ela sussurra e geme em soluços delicados e cheios de luxúria. Algo toca em seu corpo, um braço materializado dentro da cerração verde. A entidade a toca e a acaricia, excitando-a e despertando-lhe desejo.

Madelaine está inconsciente da entidade mística sobre si. Ela passeia nas sombras, agitando a cerração e materializando-se sobre sua cama. Então a entidade a possui em seus sonhos. Ela geme e sua intensamente, contorcendo-se e agarrando os lençóis. O pulsar é constante e intenso; em seguida a semente sobrenatural é passada para ela, profunda e internamente, finalizando a onírica violação.      

Nas semanas seguintes começam os sintomas.  Uma sensação inexplicável de terror e também de paixão. Enquanto dorme, ela volta a sentir sombras acariciando seu corpo e seus seios. Pesadelos a atormentam. Ela tem presságios ruins de que algo se erguia das trevas e arrastava-se para a luz do nascimento.

A visita dos cultistas foi recompensadora. Madelaine concebera o deus pagão. De seu ventre retornava um mal ancestral ao mundo, como o vinho derramado do cálice da Prostituta da Babilônia.

Durante a gestação, a semente profana feria o útero da mulher. Dentro da meretriz convertida, a prole cometia um sacrilégio. Madelaine busca a morte; ela desejava morrer e se livrar de seu impiedoso tormento. Entretanto, a prole lhe impedia. Cortes nos pulsos e no pescoço se regeneravam milagrosamente. Seu corpo definhava por não poder morrer.

Sua maternidade foi destruída; a prole a havia esterilizado para sempre. Uma fenda interdimensional foi criada, conectando o mundo dos homens ao fantástico plano onde os deuses pagãos existiam.

E assim Madelaine definhava, suportando o excruciante tomento.

     

§

 

Nove meses se passam.

Valentim está distraído no trabalho, mas sempre atento na janela. Ele constantemente checa um véu em seu bolso. Olhando para a paisagem lá fora, ele tenta encontrar algo que somente ele sabe o que é.

Tobias continua seu trabalho e lê relatórios investigativos. O capitão entra algumas vezes na sala e provoca Valentim, questionando seu comportamento incomum. Porém, Valentim não lhe dá atenção. Conhecendo o temperamento explosivo de seu assistente, Tobias se espanta.

Um minuto mais tarde o inspetor pergunta:

- Ei, Valentim! O que está fazendo?

- Corujas.

- O quê? – confunde-se ele.

- Você sabe para onde elas vão à noite?

Ainda confuso, Tobias responde:

- Eu não sei, Valentim. Para os seus ninhos, talvez.

- Para o sul. Elas vão para o sul.

Tobias se intriga.

- Como o senhor sabe?

- Eu as vi.

Valentim se referia àquela noite no bairro dos judeus.

O inspetor, sem entender o que ele queria dizer, tenta mudar de assunto.

- O guarda Davud está se recuperando bem. Ele se feriu muito após a luta com o Golem. Davud parece gostar de você, Valentim, pois desde a galeria dos cadáveres ele vive elogiando sua coragem nas situações mais difíceis.

Sem se importar, Valentim responde:

- Bom para ele.

Tobias se chateia com sua indiferença; Davud ficaria arrasado se o soubesse. Então ele fica em silêncio um pouco, tentando entender por que seu assistente dava atenção a coisas tão estranhas.

- Valentim, quanto as corujas... Aconteceu algo no bairro judeu que o senhor queira me contar?

- Não, inspetor Hessler.  

- Tem certeza?

- Por que, inspetor? – pergunta Valentim, irritado – O ninho das corujas é algo que a Gendarmerie precise saber?

Confrontado, Tobias se irrita e ousadamente o confronta de volta.

- Quando o senhor precisou dos gendarmes para procurar a sua esposa, o senhor pediu a minha ajuda. Devo dizer que foi de uma maneira bem interesseira, já que ninguém na estação acreditava em minhas teorias. O senhor teve pena, talvez? Ou se aproveitou que ninguém me respeitava? – pergunta ele – De qualquer forma, hoje o senhor está aqui, um civil iletrado a serviço da Gendarmerie. Portanto eu te respondo: sim, o seu problemas com as corujas é algo que eu precise saber sim! E desconfio que esse véu em seu bolso esteja relacionado a isso.

Valentim arregala os olhos, sendo pego de surpresa. Respirando fundo, ele responde:

- As corujas deixaram cair este véu aquela noite. Ele pertence a Danica.

O inspetor desconfia.

- Como isso é possível?

- Eu reconheci o cheiro.

Tobias ainda não se convence.

- O senhor tem certeza?

- Eu vivi com minha esposa por vinte anos, inspetor! Eu conheço o seu cheiro.

Então o inspetor assente, balançando a cabeça.

- Por isso o senhor está obcecado pelas corujas? O senhor pretende segui-las para encontrar mais pistas do paradeiro de Danica? – estima ele.

- Sim, senhor inspetor.

Tobias pondera.

- Valentim, eu sei que o senhor prioriza sua esposa, mas devo lembra-lo de que agora o senhor é um servidor público e um funcionário desta Gendarmerie. Não podemos abandonar nossas obrigações para focarmos apenas no seu caso; por enquanto temos um trabalho a ser feito.

Após ouvi-lo, Valentim se contraria. Apesar das circunstâncias se demonstrarem contrárias aos seus planos, ele se cala, preferindo a paz com seu estimado amigo Tobias.

 

§

 

O dia se passa; o expediente chega ao fim.

Cansado após um longo dia de trabalho burocrático, Tobias veste seu casaco e deixa a Gendarmerie. Valentim o segue logo atrás, em postura ereta e vigilante.

O inspetor se aproxima de sua carruagem e distraidamente se despede de seu assistente, concluindo alguns assuntos e dizendo “até amanhã”. De repente alguém se aproxima e os surpreende pelas costas, assustando-os:

- Senhores! Senhores! Vocês têm que me ajudar!

Os dois se viram e veem uma mulher desesperada vestindo farrapos.      

- Algum problema, senhora? – pergunta Tobias.

- A minha amiga! Ela está possuída pelo demônio!

Os dois arregalam os olhos.

- Minha senhora, este não é um problema para a gendarme. Sugiro que procure uma igreja.

- O senhor não entende! É algo muito mais além do que isso! – explica ela – Me disseram que o senhor cuida dos casos sobrenaturais em Liubliana! O senhor tem que me ajudar!

Um pouco surpreso, Tobias franze a testa. Ele não sabia que sua fama tinha se espalhado tanto.

- E onde está a sua amiga, senhora?

- No beco das meretrizes.

Os dois se espantam novamente.

- Beco das meretrizes...?

- Fica no distrito inglês. Escute, o senhor tem que acreditar em mim! Acompanhe-me, depressa!

Assentindo, eles entram na carruagem e seguem pelas ruas de Liubliana.

A noite se aproxima e os acendedores acendem os postes. A luz do Plasma ilumina a cidade, colorindo-a com seu habitual verde.

- Moça, você pode nos explicar detalhadamente o que aconteceu?

- A minha amiga... Ela afirma ter engravidado através de um estupro...

O inspetor se estarrece.

- Está dizendo que sua amiga foi vítima de violência sexual?

- Por incrível que pareça, não. Ela afirma ter sido estuprada por um espírito das trevas, uma sombra que invadiu seu quarto com o intuito de violá-la.

Tobias coça a sua cabeça.

- Moça, deixe-me perguntar uma coisa. Sua amiga ingere álcool ou faz uso de substâncias alucinógenas?

- Não, senhor inspetor. Ela é convertida na igreja e devota de Nossa Senhora. Ela é nossa cuidadora e mora no beco das meretrizes por decisão própria. Ela nos alimenta e nos abriga, orando por nós para que Deus sempre nos proteja nas esquinas. – revela ela – Minha amiga é uma verdadeira cristã.

O inspetor assente em silêncio.

Ao se aproximarem do beco das meretrizes, Tobias e seu assistente notam que ele se situava ao lado de outra garagem de trens, como em Zgornji Kašelj. Uma linha ferroviária separava o bairro das locomotivas. Ao atravessá-la, Tobias e Valentim sentem que estavam partindo para o “lado errado dos trilhos”.   

A miséria em que as meretrizes viviam era notável. As ruas eram esparsamente iluminadas e muitos viviam na completa escuridão. As velas iluminavam o interior das casas e poucos tinham lamparinas de Plasma.

Tobias abre a porta e desce da carruagem; então poças lamacentas sujam seus sapatos. Valentim desce pelo outro lado e se prontifica, ocultando seu punhal. O inspetor fica ao lado da porta, esperando a mulher descer. Vendo que ela se demorava, ele olha para dentro do veículo e pergunta:

- Moça, a senhora não vai descer?

Mas então ele tem uma tremenda surpresa. A mulher havia desaparecido.

Estranhando o comportamento de Tobias, Valentim olha para ele e pergunta:

- Tobias, você está bem?

O cocheiro também o estranha, vendo-o petrificado de horror.

- Inspetor Tobias...?

- A mulher... – gagueja ele – Ela estava aqui agora mesmo...!

Valentim verifica a carruagem e também se surpreende. O interior estava vazio.

- Não será possível que ela tenha corrido para as ruas assim que os senhores saíram do veículo? – pergunta o cocheiro.

- Impossível. – responde ele – Ela estava ao nosso lado e não passaria se não lhe déssemos passagem.

Então a pele do cocheiro se arrepia.

- Me desculpe a insolência, inspetor, mas bem que o guarda Mladen me avisou que trabalhar para o senhor seria um problema. – então ele pega as rédeas e diz – Até amanhã, inspetor Hessler. – em seguida ele bate as rédeas e parte apressado dali.

Novamente sozinhos, os dois ficam em silêncio por um tempo, confusos com aquilo tudo.

- Valentim, o senhor conhece esse tal beco das meretrizes?

Ele responde:

- Não, senhor.

- Tem certeza? – insiste ele.

Valentim lhe faz um olhar irritado. Ele nunca trairia sua esposa com mulheres assim.

No alto dos prédios, fumaça saía das chaminés. Algumas janelas estavam iluminadas e eles ouviam os moradores conversando em inglês. De repente Valentim ouve outro som e se alerta. Acima, no beiral dos telhados, várias aves o vigiavam na escuridão. Ao ouvir o seu chirriar, ele imediatamente as reconhece.

- São corujas! – exclama ele.

O inspetor não o entende.

- O que o senhor disse?

Tobias olha para cima e vê as corujas. De repente elas batem as asas e voam pela noite. Sem pensar duas vezes, seu assistente as segue pelo bairro.   

- Valentim!

Valentim corre. Olhando para os telhados, as corujas voavam pela noite. Ao passarem por alguns prédios, elas aterrissavam brevemente, e então elas voavam por mais alguns metros para aterrissar novamente. Seu voo curto e intermitente lhe intriga; era como se elas quisessem guia-lo pelos becos.

Tobias o segue logo atrás. A noite cai e o vento sopra pelas ruas, arrastando a cerração verde pelas esquinas.

- Senhor, Valentim! Espere!

Correndo sem parar, o assistente avança impulsivamente pelos becos. Ele se lançava cegamente, não se importando com sua própria segurança. De repente ele vira e entra em outro beco, um iluminado por lâmpadas vermelhas penduradas na parede.

Seguindo-o, Tobias se depara com o beco e se paralisa. Ali ele via dezenas de pessoas com aparência hostil e de caráter duvidoso. Homens perigosos o encaravam e mulheres encrenqueiras sorriam para ele. Tobias, um jovem educado e de boa família, se sente um cordeiro indefeso no meio de lobos devoradores.

Valentim avançou por aquela direção. Sem opção, o inspetor abaixa sua cabeça e prossegue em silêncio. Exibir suas credenciais de gendarme ali seria absolutamente arriscado; aqueles marginais o matariam e jamais encontrariam o seu corpo.

Enquanto caminha, uma mulher acaricia suas nádegas, fazendo-o saltar.

- Boa noite, amor. Quer se divertir comigo?

Ocupado com seus assuntos, ele não havia percebido. Tobias estava no coração do beco das meretrizes.

- Obrigado, senhora, mas eu estou ocupado esta noite.

Ele avança e então outras mulheres o acariciam também. Seus toques leves e voluptuosos lhe despertam desejo, fazendo-o se descontrolar. Ao passar por uma bela inglesa de seios despidos, seus olhos se arregalam.

Nos becos haviam quartos onde as meretrizes trabalhavam. Os clientes passavam por ali e as escolhiam aleatoriamente. Alguns homens estavam lá para ter seu momento de prazer e outros só queriam arrumar confusão. Então alguém aparece ao seu lado e pergunta:

- Com licença, o senhor está procurando por alguém?

Tobias olha para o lado e vê uma inglesa de cabelos negros e cacheados. 

- Meu assistente entrou aqui. Por acaso a senhora...    

De repente ele ouve um grito tão alto que todos nos becos se assustam. Preocupado com Valentim, o inspetor corre em direção do grito e encontra uma casa com dezenas de pessoas na entrada. Algo acima lhe chama a atenção e ele vê várias corujas chirriando; elas haviam chegado ao seu destino. Lembrando-se de seu assistente, ele exclama:

- Valentim!

Desvencilhando-se da multidão, ele entra na casa e encontra o seu assistente. Valentim estava perplexo, parado e olhando para algo com grande espanto. Tobias se intriga e olha também; e então ele também se espanta.

No interior da casa, uma mulher em trabalho de parto. Enquanto as contrações doíam, ela falava em línguas estranhas e objetos sólidos flutuavam no ar. E é então que os dois percebem.

A mulher estava possuída pelo demônio.

 

 


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