sexta-feira, 24 de abril de 2020

Tiergarten - 03 - O Muro de Berlim



No dia seguinte, Gunther está determinado a realizar seu plano. Ele pretende atravessar o Muro de Berlim. Vestindo suas roupas, ele calça seus sapatos e deixa o apartamento. Mas então algo acontece.
Ao fechar a porta, aquele estranho telefone toca em seu quarto. Surpreso, ele ouve a campainha e se confunde. Em seu relógio ainda são oito e meia da manhã. “Não era para ele tocar só à noite?” pensa ele.
Abrindo lentamente a porta, ele olha para dentro de seu apartamento e, da entrada, espia a porta de seu quarto. Ele percebe o quanto sua casa era solitária sem sua mãe e, com o toque daquele misterioso telefone ecoando pelas paredes, a sensação de solidão lhe enchia de medo.
“Maldito aparelho!”, pensa ele. “Por sua causa minha casa ficou sinistra”.
Ainda com medo, ele passa pela sala e adentra seu quarto. Pegando o receptador, ele o atende.
- Alô?
- Não faça isso, Gunther. Eles vão mata-lo.
Imediatamente ele responde.
- Eu quero a minha mãe de volta!
- Eu já disse, ela não foi presa. Acredite!
- Eu não acredito em você. – insiste ele.
A voz argumenta.
- Se ela estivesse presa, por que você tentaria atravessar o muro? Em caso de detenção, seria lógico que ela estaria em alguma prisão no leste, não é mesmo?
O rapaz se confunde, a voz tem razão.
- Apenas me diga onde ela está.
- Exatamente onde ela disse que iria, o Tiergarten.
Gunther é direto.
- Então eu vou para lá.
A voz se desanima.
- Está bem, eu o deixarei ir a este muro. Mas saiba que o plano que você planejou e com os recursos que você tem, você não poderá atravessa-lo. Não precisa acreditar em mim, pois eu sei que você não vai, mas sob seu travesseiro estão alguns documentos da Stasi contendo as mais famosas fugas. Leia-o, seu quiser. Mas já te aviso que estará perdendo tempo.
Deixando o receptador na mesa, Gunther se dirige à sua cama e milagrosamente encontra uma pasta de documentos sob seu travesseiro. “Como isso é possível?!” pensa ele. “Ninguém entrou aqui em momento algum!”.
Retornando ao telefone, ele pergunta:
- Como isso apareceu aqui?!
Mudando de tom, a voz rispidamente responde:
- Cale a boca e me escute. Você não poderá deixar Berlim Oriental.
Surpreso, ele pergunta:
- Por que não?
- Porque eu não quero.
Então a voz se silencia e ele só ouve estática.

§

Caminhando próximo ao muro, ele o observa de longe. Ao nível da rua ele não podia enxergar muita coisa, a não ser a fria barreira se estendendo por quilômetros e quilômetros. Acima da barreira ele vê o arame farpado e as torres de vigia mais acima, a temida faixa da morte só podia ser vista de seu apartamento. “Ela é indubitavelmente intransponível”, pensa ele. “O que eu farei então?”.
Uma longa avenida se aproxima e ele a reconhece, era a movimentada Unter den Linden. Desviando-se dela, Gunther se esgueira entre os carros e entra em um beco, afastando-se das ruas largas.   
O beco toma uma direção favorável e o aproxima do muro. Olhando discretamente para os lados, ele corre para dentro de um prédio e sobe as escadas. Ele reconhece um prédio residencial com vários tapetes nas soleiras das portas. Chegando ao último andar, ele vê um alçapão aberto e rapidamente entra. Gunther se vê em um sótão empoeirado e empilhado com várias coisas. Sob o baixo teto, ele vê uma janela com uma privilegiada vista do Muro de Berlim.
Agachado em frente à janela empoeirada e amarelada com o tempo, ele observa a paisagem abaixo. Ao longe ele vê o famoso Portão de Brandenburgo, o belíssimo monumento histórico e turístico da cidade. Gunther o ironiza, pois o mesmo portão que levava ao Tiergarten agora leva a um mortífero beco sem saída. Apesar da longa distância, ele vê os guardas fronteiriços patrulhando o muro e as plataformas.
- O portão se tornou um beco sem saída... – sussurra ele. Suas palavras saem com rancor e ironia – E pensar que minha mãe está logo no outro lado. – Gunther se refere ao frondoso Tiergarten.
Tão perto e tão longe, assim era a realidade dos cidadãos de Berlim.
Abrindo sua pasta, ele lê alguns documentos. Os papeis têm brasões da RDA e logotipos da Stasi, indicando que tudo aquilo era legítimo. Gunther cada vez mais se convencia de que conversava com uma espiã. Os fugitivos tiveram ideias bem audaciosas e, apesar de haverem várias mortes, alguns se sucederam em atravessar.
O primeiro inquérito é do ano de 1961. Ele relata o caso de um berlinense chamado Heinz Meixner, que fugiu com seu carro conversível carregando duas mulheres, sua noiva e sua sogra, escondidas na parte de trás. O plano consistia em rebaixar seu carro e passar por debaixo da cancela do Checkpoint Charlie. Para realizar seu intento, Heinz tirou o para-brisa e esvaziou os pneus, assim atravessando a fronteira e alcançando o oeste.
O segundo inquérito é do mesmo ano e relata o célebre caso de Conrad Schumann. Destacado para guardar a Rua Bernauer, o jovem soldado corre sobre os arames farpados e deserta para Berlim Ocidental. Aproveitando-se que o muro ainda não estava pronto, ele é filmado no exato momento de sua fuga, tornando-se famoso e entrando para a história de seu país e do mundo.
O terceiro inquérito é de 1963 e trata-se do soldado Wolfgang Engels. Soldado do exército oriental, Wolfgang rouba um veículo blindado e irrompe contra o muro. Ele não conseguiu derruba-lo, mas o escalou e ficou preso no arame farpado. O desertor foi baleado duas vezes pelos guardas, mas alguns ocidentais o viram e o ajudaram a descer do arame, resgatando-o.
O quarto inquérito é de 1966 e trata-se de Horst Klein, um trapezista proibido de se apresentar na RDA devido às suas opiniões anticomunistas. Subindo em um poste, Horst equilibrou-se em um cabo elétrico em desuso e atravessou a fronteira oriental. Caminhando sobre os atônitos guardas, as mãos de Horst ficaram dormentes devido ao frio e ele caiu, quebrando os dois braços na queda. Para sua sorte, ele caíra na Berlim Ocidental. 
Um inquérito lhe desperta interesse. Reinhold Ruhn, um jovem soldado de 21 anos, foi morto a tiros por um fugitivo em 1962. O fugitivo, de nome Rudolf Müller, levando consigo sua esposa, sua enteada e mais dois filhos, pretendia fugir por um túnel escavado sob a fronteira. Surpreendido pelo soldado, o fugitivo se defendeu abrindo fogo e em seguida fugiu. Vários soldados vieram em seu encalço, atirando na direção dele e das crianças, mas falharam em captura-lo. Gunther se admira que, dessa vez, não foram fugitivos baleados e mortos naquele maldito muro, mas um guarda do lado oriental. No inquérito consta que Reinhold Ruhn teve um funeral grandioso e televisionado, tornando-se um mártir na RDA.
Nesse momento, Gunther pensa: “será que eu seguirei esse trágico exemplo? Será que, para atravessar a fronteira, eu terei de assassinar um homem?”.
Ponderando, ele reconhece que, caso matasse alguém, estaria criando um novo mártir do fracassado sistema alemão oriental. “Mas e se, ao invés, matassem a mim?”, pergunta-se ele. “Provavelmente eu seria só mais um cadáver fuzilado no muro, jogado no chão como lixo, com meu sangue se escorrendo pelos buracos de bala”. E morbidamente ele conclui: “e o soldado assassino seria recompensado com um generoso prêmio em dinheiro, como é comum na RDA”.
- É isso o que a minha vida vale, um prêmio em dinheiro para esses infelizes. – sussurra ele, com um pouco de ódio ao seu país.
Estudando minuciosamente os documentos, várias ideias vêm à sua mente. Escavação de túneis, cabos de aço sobre os prédios, balões de gás caseiros, escondido em tanques de combustível, nas subterrâneas linhas de metrô... De fato, não havia escassez de ideias. “Mas qual delas era a mais prudente?” pensa ele. “Prudente?!”, ri ele de si mesmo, percebendo que em nada daquilo havia prudência.          
Ainda naquele sótão, ele observa a área entre os muros, a temida Faixa da Morte. Aquela se tratava da quarta geração do muro, a conhecida Stützwandelement [1]UL 12.11. Suas 45 mil placas de concreto tinham 3,6 metros de altura e 1,2 metros de largura. Seu topo era revestido com um cano liso para dificultar a escalada. A faixa era reforçada com trincheiras anti-veículo, arame farpado, cães de guarda, e o famoso “tapete de Stalin”, uma espécie de canteiro revestido de pregos afiados.
“Stalin...”, pensa ele. “O famigerado ditador facínora, um monstro que se tornou herói por derrotar outro monstro pior do que ele, Adolf Hitler”. O rapaz se lamenta que alguns cidadãos da própria Alemanha ainda o amam, apesar da cruel divisão que sua política imperialista fez em seu país.
Voltando os olhos à faixa, ele vê suas torres de vigia e os famosos “ouriços checos”, aqueles obstáculos anti-veículo feitos de barras de aço. As torres de vigia eram posicionadas estrategicamente ao longo de todo o comprimento da fronteira. A posição privilegiada e os holofotes em seu topo as tornavam perigosas demais. À frente dos ouriços checos havia uma camada de areia, assentada para revelar os passos de quem tentasse fugir.
“Não é possível atravessar”, pensa ele. Se ele tivesse de planejar uma fuga, teria de ser algo realmente engenhoso. Gunther pensa em atravessar a Cortina de Ferro, mas devido aos seus mortais campos minados, ele prefere encontrar sua mãe inteiro e não aleijado.    
Desanimando-se, ele fecha sua pasta e deixa aquele escuro sótão.
De volta à rua, o rapaz abre sua pasta e decide ler alguns documentos para se distrair. Entretanto, aqueles eram documentos muito perigosos. Várias pessoas passam ao seu lado e o notam ali, imprudentemente lendo papeis confidenciais no meio da rua. No estado policial da RDA, atividades suspeitas eram vistas como espionagem, e meras piadas em relação ao governo podiam lança-lo na prisão.
Em sua mão ele vê um documento com o logotipo da Volkskammer, o baixo parlamento da Alemanha Oriental. Intrigado, ele se pergunta:
- Mas o que é que isso está fazendo aqui?
Enquanto lê, dois homens caminham com passos determinados em sua direção. Gunther não os nota, ele está distraído demais com os papeis em suas mãos. Aproximando-se, os homens perguntam:
- Guten Morgen[2], cidadão. O que você está fazendo?
Ao levantar os olhos, Gunther sente seu coração saltar. À sua frente ele vê dois homens vestindo fardas cinzas e portando rifles. Ele os reconhece, eram dois policiais da Volkspolizei[3].
- Entschuldigung[4] , senhor policial. Eu me distraí com minhas... coisas.
O rapaz fecha rapidamente sua pasta.
- O que é que você tem aí?
Os policiais são diretos ao inquirir.
- Não é nada, apenas meu material escolar.
- Você é estudante?
- Universitário. – corrige ele, falsamente.
- O que você estuda?
- Literatura clássica alemã. – responde ele, de improviso.
Então os homens se entreolham.
- Como as obras de Johann Wolfgang von Goethe?
- Karl Marx. – corrige ele, de novo – Desculpe meu assombro, mas geralmente as pessoas se referem a Goethe pelo seu último nome. Muito me admira o senhor chamá-lo por seu nome completo. O senhor também lê os clássicos alemães?
Gunther sorri, tentando enganá-lo. Mas o homem nada responde, apenas lhe devolvendo um olhar frio como o gelo.
- Você não deveria estar trabalhando a essa hora? – pergunta o outro policial.
O rapaz não trabalha, ele era uma das raríssimas pessoas sustentadas por parentes muitos generosos na Alemanha Oriental.
- Eu... – então ele se lembra de sua mãe – Na verdade eu não trabalho. Estudo em uma universidade do Estado, me mantendo com o dinheiro da aposentadoria da minha mãe.
- Você não trabalha...?! – o policial custa a acreditar.
- Eu me dedico a apenas estudar, senhor policial.
- Me mostre sua identidade, por favor.
- É claro.
Apalpando sua calça, Gunther tem um segundo susto. Ele havia esquecido sua carteira em casa. Ele sempre conferia, mas ao atender o enigmático telefone, ele a havia esquecido completamente. Andar sem identificação em Berlim Oriental era perigoso e nada recomendado.
- Qual é o problema? Me mostre sua identidade!
O rapaz se empalidece. Sem esboçar reação, ele não consegue mais responder. Então algo acontece.
Ao longe, na direção do Portão de Brandemburgo, uma sirene toca. O alto volume dos falantes assustam a todos na rua, inclusive os policiais. Rapidamente eles empunham seus rifles e correm em direção ao muro, com outros policiais próximos também atendendo ao chamado.
Aproveitando a chance, Gunther corre também, mas na direção oposta. Esgueirando-se pelos carros e pelos becos, ele caminha apressadamente até sua casa. Chegando ao apartamento, Gunther se alivia. Ele estava a salvo. 

§

Anoitece em Berlim Oriental. Parado em frente à janela como de costume, o rapaz novamente vê o holofote da torre de vigia iluminar brevemente seu quarto. Ele não saiu mais de seu apartamento, pretendendo não se arriscar novamente.
Planos passam por sua mente. Gunther quer muito deixar a RDA, mas seu sonho de liberdade parecia improvável. Sua mãe está do outro lado, ela o havia deixado sozinho. “Então é isso o que eu quero? Alguém para que eu não fique sozinho?”.
A pasta de documentos está sobre a cama. Os papeis confidenciais estão espalhados pelo lençol, cada um com um logotipo de um órgão diferente do Estado. Lembrando-se que ele seria imediatamente preso se a polícia entrasse ali, Gunther decide escondê-los.
Então o telefone toca.
- Hallo?[5]
- E então, Gunther? Desistiu dessa ideia absurda?
A voz o ligara à noite, também como de costume.
- De maneira alguma. Eu tive mais ideias ao ler os documentos na pasta.
Soltando um riso, a voz lhe pergunta:
- Que pasta?
- Ora, essa. A pasta que você me... – virando-se, a pasta sobre sua cama havia desaparecido – deu...
Segundos se passam. O rapaz está boquiaberto e não consegue se mexer.
- Gunther? Você ainda está aí?
Recompondo-se, com muito esforço ele diz:
- O que é você...?
- Estou do seu lado, Gunther. Mas você precisa confiar em mim.
- Confiar? – irrita-se ele – Hoje de manhã você disse que não me deixará partir!
- Estou zelando por sua segurança. Mas muito longe você não poderá ir.
- Não tente me manipular! Você não pode me privar de minha liberdade!
- E do que se trata essa liberdade? A Alemanha Ocidental?
É exatamente da RFA[6] que sua liberdade se trata.
- Não te devo satisfações.
Em tom mais compreensivo, a voz argumenta:
- Gunther, veja esses fugitivos da Alemanha Oriental. Eles partem para o ocidente em busca de liberdade, prosperidade e melhores condições de vida. Mas você já parou para se perguntar que a prisão, na verdade, pode ser o ocidente?
O rapaz não compreende.
- Do que está falando?
- Aqui você tem oferta de trabalho, saúde pública, habitação para todos e alimentação, embora eu reconheça que ela pode ser escassa. Os ocidentais chamam o socialismo de ditatorial, miserável, intolerante, beligerante e opressor contra o seu próprio povo. Chamam a RDA de Estado Policial ou um Estado Prisão, negando aos seus cidadãos o direito de ir e vir. Mas você já parou para pensar que, enquanto o socialismo os priva, na verdade ele os salva? Veja o vício burguês do qual os ocidentais estão se afogando. Quanto mais eles estiverem expostos, menos chances eles terão de salvação. Em seu coração se infiltra o veneno reacionário, inflamando-os contra o operariado que tenta liberta-los com sua Revolução. Na verdade, Gunther, a maior realização da liberdade não se encontra além do muro. Ela está aqui.
Surpreso, o rapaz retruca:
- Então você é contra que os cidadãos tenham a liberdade de melhorar suas vidas?
- Muito pelo contrário! Os cidadãos devem se libertar dos grilhões burgueses que lhes prendem. Como diria Karl Marx, “o trabalhador não tem nada a perder em uma revolução comunista, a não ser suas correntes”.
Gunther deixa sair um sorriso.
- Com esse êxodo de trabalhadores migrando para o ocidente, acho que temos definições bem diferentes de liberdade.
- Estou tentando protege-lo. É para o seu próprio bem.
- Com o marxismo? Você realmente acredita nisso?
Desafiante, a voz lhe devolve a pergunta:
- Você acredita?
- Não sei se posso emitir minhas opiniões para uma agente da Stasi.
- Conversaremos depois. Por enquanto, vá atender a porta. Uma vizinha acaba de chegar.
- Atender? Mas ninguém tocou a... – de repente a campainha toca – Espere um pouco, como você sabia sobre a porta?
Estática.

 
      


[1] Elemento do muro de contenção
[2] Bom dia em alemão
[3] Polícia popular da RDA
[4] Desculpe-me
[5] Alô em alemão
[6] República Federativa da Alemanha, mais conhecida como Alemanha Ocidental

sábado, 18 de abril de 2020

Tiergarten - 02 - O Telefone




Gunther está atrasado. Apertando o botão no painel, ele chama o elevador. Enquanto espera, ele arruma sua gravata e respira fundo, aliviando a tensão. Ele veio à uma entrevista de emprego em uma promissora empresa, mas qual seria sua função e de qual empresa se tratava ele não sabia dizer.
Ele estava em Nova Iorque. Gunther podia ouvir os sons da cidade lá fora, com suas buzinas, motores, vozes e sirenes. Mas no hall daquele edifício ele não vê ninguém e tampouco se lembra de ter passado pelo recepcionista. Ali ele estava completamente sozinho.
O elevador chega, fazendo seu peculiar som. As portas se abrem e ele entra, dirigindo-se ao painel em seguida. Aos olhar para os números, ele se lembra que os novaiorquinos são bastante supersticiosos quanto ao número 13. O painel à sua frente chegava ao número 12 e pulava diretamente ao 14. Gunther se confunde, ele achava que essa regra valia apenas para o último andar. “Podia ser 12 ou 14, mas nunca uma torre terminaria no andar 13”.
Apertando o botão, as portas se fecham e o elevador começa a subir. “Número 13” pensa ele. O número ainda está em sua cabeça. “Será que não é por isso que aquela missão, a Apolo 13, terminou em fracasso?”. Afastando os pensamentos, ele novamente respira fundo.
Então algo estranho acontece.
Enquanto o elvador passa pelos andares, seus respectivos botões no painel se acendem, indicando sua localização. O número 1 brilha, e então o 2 e assim sucessivamente. Chegando ao seu andar, o elevador passa e continua subindo, passando pelo 12, pelo 14 e continuando a subir. Gunther se intriga. Pressionando novamente o botão, o painel o ignora e continua subindo. Confuso, ele aperta mais uma vez e não há resposta. Então ele se irrita. Agindo com ignorância, ele o golpeia, afundando vários botões de uma vez. Mas nada muda.
Gunther se confunde ainda mais. Sem opção, ele espera o elevador chegar até o último andar para ele voltar a descer. Mas algo inacreditável acontece. Como se nunca parasse, o número pula do último andar para o primeiro e a contagem se reinicia. “Como isso é possível?!”, pensa ele. Assustado, ele golpeia várias e várias vezes, mas o painel o ignora, subindo ininterruptamente em seu caminho.
Apavorado, ele passa a golpear a porta, tentando fazê-la se abrir. Como se chegasse aos andares, o elevador apita várias vezes, mas ele nunca para. O painel se reinicia várias vezes, partindo do último ao primeiro em uma velocidade impressionante. “O que está acontecendo?!” sussurra ele. 
O pânico o domina. Vendo o painel se reiniciar e o elevador apitar, ele se senta no chão e põe suas mãos na cabeça. Gritando desesperadamente, ele balança para frente e para trás, pedindo para que tudo aquilo pare.
Então o elevador finalmente para, chegando a um andar. Intrigado, Gunther olha para o painel, mas não vê numeração alguma, todos os números estavam apagados. Em seguida as portas se abrem e ele se levanta, curioso para ver.
À sua frente tudo está sinistramente escuro. Segurando-se no batente, ele põe sua cabeça para fora e tenta enxergar. Olhando ao redor ele vê apenas escuridão, alargando-se imensuravelmente para todos os lados. Confuso, ele pensa estar no fosso do elevador, mas era muito mais do que isso. O elevador pairava no ar, sem cabos ou correntes segurando-o. Como um isolado ponto de luz no meio do nada, a lâmpada do elevador ilumina aquela misteriosa vastidão escura, escondida em algum lugar debaixo do mundo. Em choque, Gunther se silencia. Estaria ele no Limbo?      

§

Gunther abre os olhos. O telefone em seu quarto toca, acordando-o. Vendo que estava em seu quarto, ele se tranquiliza. Foi só um sonho.
Mas nem tudo era motivo para se tranquilizar assim. Aquele misterioso telefone ainda estava lá, assombrando seu quarto com sua presença sinistra. Levantando-se, ele o atende, já esperando não haver ninguém para respondê-lo.
- Alô? – desta vez ele não será educado – Fale alguma coisa, maldito!
A estática se silencia. 
- Olá Gunther. Então é isso o que você acha? Que estava no limbo?
O rapaz se paralisa. Uma voz feminina falava com ele e inexplicavelmente conhecia seu sonho. Sentindo seu corpo se esfriar, ele pergunta:
- Q-Quem é você?
- Você quer falar a respeito? – responde ela com outra pergunta.
A voz referia-se ao seu sonho. Ainda com medo, o rapaz não sabe o que dizer.
- O que você quer de mim? Por que colocaram esse telefone aqui? Responda-me!
E então o holofote da torre passa por sua janela, iluminando-a.
- Acalme-se, Gunther. Eu sou sua amiga, a única que terá daqui para frente.
- O que quer dizer? – intriga-se ele.
- Você foi para o limbo, não é mesmo? Você vai precisar de alguém para tira-lo de lá.
- Isso é ridículo! Aquilo foi só um sonho!
A voz ri.
- “Uma irrealidade induzida dentro de uma realidade experimentada, a quarta dimensão. Como em um sonho”?
Gunther se espanta.
- Como você sabe disso?
Demorando um pouco para responder, a voz lhe diz:
- Até breve, sr. Gunther. Entrarei em contato novamente. Boa noite.
Então ele só ouve estática. Pondo o telefone no gancho, ele enxuga o suor de sua testa. Olhando para o relógio, ele vê que horas são. Três e treze da manhã.  
Alguém bate em sua porta.
- Gunther...?
Uma senhora idosa de cabelos loiros e grisalhos entra. Ele responde:
- Oi, mãe.
- Está tudo bem?
A mulher olha ao redor, parecendo inspecionar o lugar.
- Sim, está. Ou melhor, não está não. – responde ele, meio confuso – Mãe, quem pôs esse telefone aqui? De onde ele veio?
A mulher observa seu filho, parecendo haver dúvida em seu olhar. Então ela calmamente pergunta:
- Está realmente tudo bem, meu filho? Há alguma coisa que eu possa fazer para te ajudar?
O rapaz continua.
- Estou recebendo ligações neste telefone todas as noites. Não sei quem o colocou aqui e não tenho coragem de me desfazer dele por medo de quem possa ter sido. Ou de quem possa me ligar.
Gunther se refere ao governo da República Democrática Alemã.
- Medo...?
- Sim. E se isso for um experimento soviético? E se eu atrapalhar sua avaliação e eles me prenderem. Ou pior ainda, prenderem a senhora! Não posso permitir que eles te deportem para a Sibéria. – e então sua mãe lhe faz um olhar preocupado – É claro... Eu sei que não existem mais gulags, mas depois do que os nazistas fizeram, não sei se nos comunistas eu posso confiar.
Evasiva, sua mãe o pergunta:
- Meu filho, você ainda sente saudades do seu pai?
Mudando de semblante, o rapaz hesita.
- Eu não gosto de falar sobre isso.
Ainda preocupada, a mulher responde:
- Eu sei meu filho. Me desculpe. – ela demora um pouco e então diz – Vá dormir, está bem? Eu acordarei cedo amanhã, vou resolver os papeis de minha aposentadoria. Finalmente estarei livre para partir.
Gunther sabe do que se trata.
- A senhora pretende ir ao Tiergarten, não é?
Sua mãe responde:
- Você sabe que sim.
Então os dois ficam em silêncio por um momento.
- A senhora quer que eu te acompanhe?
Normalmente um jovem cidadão da Alemanha Oriental não teria tempo para faltar a um dia de trabalho e acompanhar amigos e parentes em assuntos pessoais. Mas sua mãe não podia dizer que seu filho era exatamente normal.
- É claro, meu filho. Eu adoraria. 

§
 
 O resto da noite se passa com sonhos aleatórios e insignificantes. O rapaz acorda aos poucos, mas sentia-se pesado. O que acontecia toda noite era algo que ele tentava entender. Olhando para o relógio, ele tem uma surpresa. Já eram quase onze horas.
Levantando-se, ele caminha por seu apartamento e procura por sua mãe. Checando seu quarto, ela não estava lá. Gunther não compreende, “por que ela foi sem mim?”.
Trocando de roupas, ele veste seu casaco e deixa o apartamento.
Os ônibus são velhos e barulhentos. Sendo verdadeiras relíquias russas, ele observa seu estado deprimente ao ver o escapamento expelir uma fumaça preta e altamente poluente. A maioria dos trabalhadores os usavam todos os dias. Quem pudesse pagar podia usufruir de um carro próprio, desde que tivesse uma paciência pétrea para aguardar os longos dez anos até o governo disponibilizá-lo um. Mas Gunther não almejava um veículo, pois ele sabia que quem o compraria seria sua mãe, tendo de utilizar-se de todas as suas economias para isso.   
Cruzando a cidade, ou a metade da qual pertencia aos orientais, ele atravessa a movimentada avenida e avista ao longe o famoso Palast der Republik. Haviam muitos edifícios governamentais no distrito de Mitte, e Gunther procura pelo prédio da previdência social onde supostamente sua mãe estaria.
Encontrando seu destino, ele passa pelas portas e observa o ambiente. No salão haviam muitos idosos, homens de 65 anos e mulheres de 60, fazendo filas para pedirem a aposentadoria. O rapaz acha um absurdo que alguém tenha de trabalhar até essa idade para se aposentar, mas se lembra que quanto mais sua mãe envelhecia, mais seus patrões lhe davam serviços leves. Sua mãe sempre trabalhou na indústria têxtil, e no pós-guerra ela chegou a participar de um mutirão que reconstruiu Berlim, ou pelo menos as partes que os soviéticos permitiram.
- Pois, não? – cumprimenta o recepcionista.
- Bom dia.
O recepcionista hesita por um segundo.
- Boa tarde.
Gunther fica desconfortável.
- Perdoe-me. Não notei que já passou do meio-dia. – ele sorri – Estou procurando por uma senhora de nome Aida, ela veio iniciar o processo de aposentadoria.
- E o senhor é o que dela?
- Sou seu filho.
- Como se chama?
- Gunther.
- Um minuto por favor. – o homem checa um caderno em sua mesa – Ah, sim. Sua mãe esteve aqui, mas temo que ela já foi embora. Lamento, sr. Gunther.
O rapaz assente.
- Tudo bem.
- Se ela não tinha outro compromisso, ela deve estar a caminho de casa, talvez...?
- Oh, não se preocupe. Não era nada de urgente. Danke und Guten Abend! [1]
Em seu caminho de volta, Gunther passa pela Wilhelmstrasse e vê um pequeno grupo de jovens da Deutscher Turn und Sportbund [2], a famosa DTSB. Aquilo lhe suscita velhas memórias, de quando era um adolescente e praticava atletismo no colégio. Ele nunca foi um bom atleta, mas admirava a iniciativa alemã oriental de obrigar os jovens a praticarem esportes. Em uma época de disputa ideológica cada vez mais acirrada, era fundamental para seu país demonstrar boa condição física ao mundo.
- Camarada! Tem um minuto, por favor?
Gunther olha para trás, aquele grupo de jovens o chama. Aproximando-se, seis jovens vêm em sua direção. O rapaz nota que dois deles carregam bandeiras vermelhas do Sozialistische Einheitspartei Deutschlands [3], o SED.
- Boa tarde! Vejo que tem boa aparência física. Gostaria de se inscrever para os treinos do DTSB? Temos várias opções esportivas, você vai gostar!
Um jovem loiro e sorridente fala com ele. Ao seu lado, os outros garotos também parecem bem entusiasmados.
- Desculpe. Não estou interessado.
- Se você tem talento e quer provar seu potencial, um dia poderá participar das Espartaquíadas!
Gunter sorri. Nesse evento competem jovens de até 18 anos.
- Eu não sou tão jovem assim...
- Perdoe minha intromissão, camarada. Você tem quantos anos?
- Tenho 26.
O garoto arregala os olhos.
- Uau! Você parece ser bem mais jovem! De qualquer forma, sinta-se livre para prestigiar nossos camaradas na próxima competição no mês que vem. Aqui, tome esse panfleto. Nele estão as datas dos próximos eventos em Berlim. Obrigado e tenha uma boa tarde!
O garoto lhe bate continência e vai embora, acompanhado de seu entusiasmado grupo.
Em suas mãos está o panfleto. Na capa Gunther vê o emblema da RDA e seu lema: “pronto para o trabalho e à defesa da Pátria”. Desde 1951, na Alemanha Oriental, o esporte é obrigatório nas escolas, colégios e universidades. Novamente ele se enche de orgulho, pois apesar de parecer opressivo, a prática compulsória de esportes apenas estimulava uma geração de jovens fortes e sadios. E desde as deserções em massa na década de 60, seu país precisava muito de trabalhadores fortes e sadios.      
Guardando o panfleto em seu casaco, ele continua em seu caminho.
Uma hora mais tarde, Gunther chega à sua casa. Passando pela porta, ele encontra o apartamento estranhamente silencioso. A televisão estava desligada e o sofá, onde sua mãe comumente ficava, estava desocupado. Ele a chama:
- Mãe...?
Não há resposta. Dirigindo-se ao quarto dela, ele também o encontra vazio. Sem se importar, Gunther deduz que ela ainda não havia chegado. Abrindo a porta de seu quarto, ele vê um curioso pedaço de papel sobre a mesa onde fica o telefone. Sentando-se em sua poltrona, ele o pega e reconhece sua caligrafia. Ele então o lê.
“Querido Gunther, estou escrevendo essa carta porque decidi partir. Perdoe-me por não me despedir, eu não podia mais perder tempo. Eu esperei mais de 40 anos por esse momento. Com a aposentadoria, finalmente consegui meu passaporte para fora da RDA. Realmente é como os ocidentais dizem, ‘a RDA é o único país no mundo em que as pessoas podem ansiar pela velhice’. Estou partindo para a Berlim Ocidental, para o Tiergarten como você já deve saber. Você também sabe que não poderia me acompanhar, os guardas jamais o permitiriam atravessar a fronteira”.
“Não se preocupe, meu filho. Apesar de pouco, deixo com você o dinheiro de minha aposentadoria. Com ela você poderá sobreviver aí no leste. E quanto a mim, tenho parentes no oeste, pelo menos os que ainda estão vivos. Eu ficarei bem”.
“Eu sei que você está passando por maus momentos, meu filho. Estou muito preocupada com você. Eu sei que você não gosta de falar de seu pai, mas isso foi há muito tempo e o que aconteceu com ele aconteceu com milhares de outras pessoas. Não estou justificando sua decisão, o que para mim foi imperdoável, mas prefiro acreditar que ele fez aquilo na melhor das intenções e que no fundo só nos queria bem”.
“Novamente eu te peço perdão, Gunther. Eu não podia me despedir pessoalmente. Tive medo que você me atrapalhasse, ou pior, se lançasse nos guardas fronteiriços e tentasse atravessar ilegalmente. Nós dois sabemos que você acabaria morto. E por favor, meu filho, eu te imploro, não tente atravessar o muro atrás de mim. Afaste de si essa ideia absurda, não queira terminar como o seu pai”.
“Mas agora eu tenho de procurar o túmulo dos meus pais. Eu preciso encontra-los, estou esperando há 40 anos por isso. Não estou de maneira alguma diminuindo sua dor, mas você perdeu seu pai há 15 anos, e eu há 60. Espero que você me entenda”.
“Até breve, Gunther. Eu te amarei para sempre”.
“Com amor Aida, sua mãe”.
Ao terminar, o rapaz abaixa o papel. Pensativo, seus olhos miram irresistivelmente para o vazio. “Mãe...”, sussurra ele. “Você me deixou?”.
Lágrimas se formam em seus olhos. Incapaz de se mexer ou de se levantar, ele chora sozinho pelo resto da tarde, sentindo as lágrimas se escorrem pelo seu rosto.

§

À noite, Gunther está parado em frente à janela. Ele observa aquele opressivo muro mutilando toda Berlim. A torre de vigia também estava ali, imóvel como um símbolo de morte contra quem ousasse se aventurar sob sua vigilância. O holofote em seu topo faz seus turnos, passando sua luz lentamente pela janela de seu apartamento.
Gunther lança olhares odiosos contra aquela torre, não se importando com os guardas que pudessem vê-lo parado ali de maneira suspeita. Ele deseja que aquela torre desabe sobre suas cabeças, eliminando-os, e que o muro caia também, derrubado pela fúria das multidões cansadas de serem oprimidas. “O mundo está dividido em dois blocos”, pensa ele. “Separado por duas ideologias”. Gunther novamente percebe que o front dessa nova guerra era a Alemanha e que a divisão dessas duas antagônicas e irreconciliáveis ideologias tinha forma e até um nome, o infame Muro de Berlim.
Observando a mortífera “faixa da morte”, com suas malhas, trincheiras, fossos e arames farpados, o rapaz sussurra para si mesmo: “Como é que eu vou atravessar esse muro?”.
De repente o telefone toca. Virando-se, ele atravessa o quarto escuro e o atende.
- Alô?
- Isso não é uma boa ideia, Gunther.
Ele reconhece aquela voz feminina. Irritado, ele responde:
- Você de novo? O que você quer?
- Isso não é uma boa ideia. Lembre-se do que sua mãe te falou na carta. Não queira terminar como o seu pai.
Intrigado, ele pergunta:
- Como você sabe de tudo isso? Espere um pouco... – ele pensa – Você é uma espiã!
Gunther ouve um riso.
- Eu não sou uma espiã.
- Por que você está me ligando? O que a Stasi quer comigo? Ou a KGB?
Desta vez a voz dá uma bela risada. Apesar de não vê-la, por sua espontaneidade ele a acha muito atraente.
- Gunther, eu só quero o seu bem. Lembre-se que sua mãe acaba de ir embora e isso está te dando ideias horríveis que, se não forem desencorajadas, você poderá realizá-las. Eu não posso deixar isso acontecer. – ela pausa por um momento – Eu realmente lamento te informar assim, Gunther, mas sua mãe não vai mais voltar.
Então o rapaz se estremece.
- Oh, meu Deus! Vocês a prenderam!
- Não, ninguém a prendeu.
- Deixem ela ir! Eu faço qualquer coisa...
- Eu já disse que ela não foi presa.
- Por favor, eu imploro...
Gunther parece ouvir um sussurro de desânimo.
- Vejo que não poderei conversar com você esta noite. Terei de liga-lo amanhã. Boa noite, Gunther. E não se preocupe, sua mãe está bem.
A voz encerra a ligação e novamente ele só ouve estática. Insistente, ele se mantém na linha.
- Alô...? Alô...? Alô?!
Mas não há resposta. Desistindo, ele finalmente desliga o aparelho e passa a noite pensando em sua mãe.






[1] Obrigado e boa tarde em alemão
[2] Federação alemã de esportes e ginástica
[3] Partido Socialista da Unidade Alemã



sexta-feira, 17 de abril de 2020

Tiergarten - 01 - Introdução


  

Entrando em seu quarto, Gunther o encontra escuro e abafado. Era mês de fevereiro ou março, mas ele não sabia dizer. A luz atravessava a persiana, formando listras de luz nas paredes. Aproximando-se da janela, ele avista a torre de vigia, com seu holofote iluminando uma pequena área do Muro de Berlim. Então ele se afasta.
Era uma noite quente e ele queria relaxar. Tirando seu casaco, ele se senta em sua velha e macia poltrona. Abrindo um maço de cigarros, ele pega um e o acende, fazendo leves tragos enquanto pensa um pouco.
Enquanto descansa, ele se lembra de algo incômodo. Ele vinha tendo fortes dores de cabeça ultimamente. Começaram aos poucos e foram ficando mais frequentes. Quando sua cabeça doía, sua visão se embaçava e tudo se tornava confuso.  Era como se o rapaz visse o mundo através da miopia, apesar de seus exames nunca indicassem a necessidade dele ter de usar óculos.
Gunther ouviu falar sobre a sensibilidade que algumas pessoas tinham devido a exposição às ondas eletromagnéticas. Observando as torres de transmissão em Berlim, na maioria voltadas para a espionagem, não é difícil estimar que alguns seriam afetados com seu forte sinal. De maneira velada, o lado oriental e o ocidental estavam em guerra, mas diferente do Terceiro Reich, que levou o front para outros países, agora Berlim se tornava a linha de frente de um confronto ainda maior. Em horror ele percebe que sua cidade era o estompim de um barril de pólvora que a qualquer momento poderia se estourar.
Havia um livro em sua cama. Pegando-o, ele lê o título: “A quarta dimensão”. No ensino médio ele ouviu seu professor de física dizer que, para efeito de cálculo, a quarta dimensão se tratava do Tempo, mas não era disso que o livro estava tratando. Em textos mais metafísicos do que científicos, o livro defendia a hipótese de uma quarta dimensão espacial, ou seja, a incompreensível quinta dimensão.
Apesar de ser leigo em física, Gunther pondera. Ele se pergunta se a quinta dimensão poderia ser alcançada não através de uma realidade experimentada, mas de uma “irrealidade” induzida, ou seja, uma realidade falsa dentro de uma verdadeira. Resultados empíricos em campos teóricos onde a lógica é suspensa e tudo é possível. “Como em um sonho” pensa ele. 
De repente o telefone toca, assustando-o. Esticando seu braço, ele o atende.
- Alô?
Novamente ele só ouve estática. Toda noite o telefone toca, mas ao atendê-lo, nunca havia resposta no outro lado da linha. 
Gunther observa aquele enigmático e misterioso aparelho. “Como ele apareceu aqui?” pensa ele. Ele não entende, estaria ele ficando louco? Linhas particulares eram um privilégio que apenas os funcionários do governo possuíam. Cidadãos comuns como ele não podiam paga-los. “Mas ainda assim ele apareceu aqui”, constata ele. “Quem o havia posto?”.
Encostando-se na poltrona, ele dá outro trago. Pensando nas misteriosas chamadas, ele se perde em indagações. “Seria essa obra da Stasi? Estariam os russos me vigiando? Mas por quê?” pergunta-se ele. Em um momento sociopolítico tão delicado quanto aquele, o serviço de espionagem se intensificava.
Talvez os soviéticos estejam lhe fazendo experimentos, colocando-o em situações de estresse para avaliar como ele lida com o medo e a paranoia. Ele sorri em sua poltrona. “Não, não é isso. Não acredito que eu seja uma cobaia do governo, ainda mais em um regime que prega a libertação da classe operária ante o imperialismo". Ele referia-se ao socialismo. "Eles não fariam isso com o próprio povo”. 
Tragando novamente, ele repensa.
“Ou fariam?”.
 


terça-feira, 14 de abril de 2020

Os Fracos - 34 - Último Fragmento



Último fragmento de um mundo em transição

O mundo conhecido acabou. A inveja, a ganância e a avareza foram maiores do que o respeito pela vida. No final, os governos, as ideologias e as religiões não tiveram significado nenhum, foi tudo uma luta por dinheiro e poder. Uma nova forma de neocolonialismo surgiu, a submissão social e econômica em proteção do “mundo livre”. Os estudiosos poderiam apontar soluções políticas e religiosas, mas os sábios já sabiam a resposta. O maior problema da humanidade sempre foi o próprio Homem.
Tudo foi diferente do que se tinha visto nos filmes. O velho mundo foi destruído e está sepultado debaixo de bilhões de toneladas de entulho. Acreditava-se que as pessoas boas se reuniriam para reconstruí-lo, que a esperança, a fraternidade e o amor seriam os pilares da nova sociedade. Mas o que se viu foi o oposto. Os sobreviventes se isolaram e voltaram-se uns contra os outros. Ninguém divide o que tem, ninguém compartilha o que lhe sobra, ninguém se reúne pelo bem comum. Todos defendem seus pertences com a própria vida, e lutam até a morte para tomar os pertences dos outros. Gradualmente o egoísmo e a sobrevivência voltaram a ser a expressão máxima do instinto.
Mas entre os sobreviventes houve aqueles que se uniram. Gangues apareceram. Criminosos, violentos e psicopatas, pessoas desprovidas de consciência e remorso, hoje predam nas ruínas. Os maus se uniram e se tornaram os novos donos do mundo. Toda a autoridade se foi, ninguém podia contê-los, incriminá-los e prendê-los como antes. Os maus dominam através da força e do terror. São sanguinários, truculentos, cruéis, praticando ostensivamente a violência sem se preocuparem em impor limites à sua selvageria. No moderno mundo civilizado isso pode parecer condenável, mas este mundo se foi. A sujeição dos mais fracos vem através da violência. Os espetáculos de morte são o que tornam os fortes notórios. Se pensarmos bem, as grandes civilizações do passado não surgiram assim?
Dinheiro, o tão desejado dinheiro, a expressão moderna da riqueza sob a aparência de cédulas de papel. Esses pedaços de papel perderam a validade com a última explosão de uma bomba nuclear. Antes da guerra, os ricos exerciam seu poder e influência com o dinheiro. Com tanto poder em suas mãos, eles se tornavam os mais fortes. Mas a guerra veio e mudou tudo. O dinheiro perdeu a validade e não mais respaldou o seu poder. Os ricos de outrora tornaram-se pobres, e sua força tornou-se fraqueza. Hoje a verdadeira força não está mais na riqueza, ela está nos músculos.
Da mesma maneira, os estudados e inteligentes sofreram o mesmo destino. Os diplomas universitários, que garantiam boas oportunidades e empregos, hoje não passam de simples papel. As tecnológicas ferramentas de trabalho, computadores, celulares e internet, tudo se foi. Hoje os computadores acumulam poeira nos escritórios abandonados. Não existe mais eletricidade, os aparelhos eletrodomésticos estão empilhados nas lojas escuras. Os estudantes que sonhavam com seus futuros não poderão sonhar mais. A guerra os privou de um futuro glorioso que jamais se realizará.
O mundo sofreu uma reviravolta. Os valores foram invertidos, o direito da força se sobrepôs à força do direito e a única lei válida se tornou a lei do mais forte. A ordem regrediu às trevas do caos. As ruínas não têm perdão ou compaixão, os homens passaram a viver como animais. Os sobreviventes encaram os tempos de transição. Seria esta uma regressão aos valores naturais do instinto? E se ao invés de transição fosse regressão? O que aconteceria se a radiação não dizimasse definitivamente a raça humana? O mundo avançaria para um novo tempo ou regrediria a um tempo ainda mais bárbaro? Impossível de se dizer, a poeira sopra pelos rostos daqueles que ainda não morreram. A humanidade se autodestruiu. O planeta belo e exuberante que lhes foi deixado se tornou mais uma esfera estéril e sem vida no universo. Hoje a humanidade prova o sal das lágrimas de Deus.
Timothy Morgan foi mais um dos sobreviventes. Peregrinou pelas ruínas, presenciou seus infindáveis perigos e lutou contra a perversidade de seus novos regentes. Mas como todo fraco, fracassou. Timothy experimentou o sabor amargo da derrota. Corroído pelo pessimismo, ele perdeu a fé no novo mundo e em seu tempo de transição. Se a radiação não esterilizar toda a vida, a humanidade se autodestruirá novamente. Se houver uma quarta guerra mundial, será combatida com paus e pedras. A tecnologia ainda está ali, sob o entulho só esperando para ser redescoberta daqui a alguns milênios. O mundo pós-guerra será a nova Atlântida, o mito de uma civilização que misteriosamente desapareceu.
O inverno nuclear prepara a inauguração do novo mundo. A radiação é o agente nocivo do recomeço. O mundo reformula-se entre a vida e a morte em um caminho pavimentado pelas ruínas dos tempos de transição.



Os Fracos - 33 - O Professor II


(Imagem de Hirak Banerjee)

O Professor

Rachel foi a última a partir. Agora Timothy não tinha mais amigos, os que restaram são os mesmos sobreviventes apáticos e pessimistas que ele conheceu na delegacia. Eles fugiram juntos. Hoje eles permanecem separados por interesses mesquinhos e egoístas.
O constante cinza dos dias e o constante medo das ruínas, nada mudou. O professor vagou pelas cidades abandonadas por muito tempo. A guerra parece que aconteceu cem anos atrás. Não havia nenhuma zona de segurança, não havia abrigos de quarentena, não havia sinais de rádio do exército chamando-os para a salvação. Todas as esperanças se foram. Sua vida era uma eterna peregrinação rumo a lugar nenhum.
Mas Timothy se agarrava a uma última esperança, tão vazia e improvável que se tornava ilógica. Ele queria encontrar Lucy.
O professor sabe que não mais encontrará sua esposa. Tudo o que anotou em seus cadernos, suas supostas pistas e recordações, foram inúteis. Ele reconhece que foi tudo perda de tempo. Aquelas folhas repletas de palavras e rabiscos, que tanto o serviram de consolo para sua angústia, já não valem mais nada. Timothy sabe que não tem mais esperança de encontrar Lucy. Para ele sua vida havia chegado ao fim.
Enquanto olha para seus cadernos, o professor decide escrever sobre os peregrinos mais notórios que estiveram em seu grupo.
Harold, o desprezível médico. O que Timothy tem a dizer sobre seu ex-amigo? Juntos os dois se aventuraram pelas ruínas, juntos eles arriscaram suas vidas. Devido à grande amizade, o professor o tinha como irmão. Essa consideração era rara nas ruínas, pois tudo havia sido evaporado pela explosão nuclear. Os sobreviventes que se encontravam, geralmente estranhos entre si, se olhavam com desconfiança, estando sempre prontos para roubar ou até matar para sobreviver. Não existiam mais amigos, não havia mais amizade, o que restava era apenas um oportunismo egoísta de permanecer vivo.
Com o médico foi diferente. Harold não tinha para onde ir e então se aliou a Timothy em sua busca incansável para encontrar sua esposa. Mas o que Timothy encontrou foi só decepção. O professor nunca encontrou sua esposa e Harold, seu melhor amigo, deixou sua própria esposa para morrer. Timothy daria tudo para ter sua Lucy de volta. Mas e Harold? Será que ele pensa em sua mulher agora? Será que ele se arrepende? O professor chora por dentro. Ele se lamenta de ter perdido seu amigo, mas se lamenta muito mais de ter feito amizade com um assassino.
Em sua vida, Timothy conheceu muitos egoístas, mas nenhum foi pior do que George Everett. Membro de uma ilustre ordem maçônica, George se gabava de sua elevada posição social que a ordem lhe proporcionava. O professor não o conheceu bem, George esteve muito pouco tempo no grupo, mas sabia algumas coisas a seu respeito. O maçom era quieto e arrogante, não gostava de se misturar com os outros peregrinos. Timothy soube que uma mancha terrível assombrava seu passado. Algo que ele não foi capaz de superar.
George dedicou sua vida à ordem maçônica. Empresário de sucesso, foi convidado a participar da ordem e logo isso tornou sua obsessão. O novo membro imoralmente rejeitou sua família, mas em seguida foi rejeitado. Deixado para trás na véspera do apocalipse nuclear, ele se desesperou. Convicto de que sobreviveria em uma espécie de abrigo, ele, como outros milhões de cidadãos comuns sem o privilégio da riqueza, se tornaria mais uma das vítimas das ogivas nucleares. Mas George sobreviveu. E assim se inicia sua busca, uma busca arrogante e egoísta com um único motivo: encontrar aqueles que o deixaram para trás.
Susan Bradley foi uma respeitada juíza antes da guerra. Idealista e determinada, sua personalidade forte incitava temor e admiração. A autoridade lhe caía bem, ela não gostava de receber ordens. Susan era o tipo de mulher que gostava de responsabilidades, pois gostava de liderar. Mas por causa de seu autoritarismo excessivo ela afugentou todos os homens que vieram a amá-la. Era mãe solteira e teve que criar seu filho sozinha. Seu filho cresceu sem pai. Se a solidão era o preço a ser pago para ser dona de sua própria vida, ela estava disposta a pagar.
Então veio a guerra e toda a sua autoridade se perdeu. Sozinha com seu filho nas ruínas, ela se tornou uma peregrina. Certo dia a juíza encontrou um grupo de peregrinos e decidiu juntar-se a eles. Era um bom grupo com exceção de seu líder. Homem autoritário e covarde, sempre ansioso para ver perigo em tudo. Se a sobrevivência do grupo dependesse dele, ele se encheria de medo e os deixaria morrer. Susan não é do tipo de mulher que recebe ordens de um homem, muito menos de um covarde. Mas seria melhor que fosse. Ela aprendeu do pior jeito que o novo mundo não era um lugar seguro, e que aquele líder covarde, o tal Timothy, estava certo o tempo todo. Se não fosse por seu autoritarismo e arrogância, seu filho ainda estaria vivo. Apesar de não ter morrido, ela também.    
A jornalista Marisa Torres teve uma vida bem ingrata. Foi uma opositora implacável dos Estados Unidos antes da guerra. Nascida em um país de terceiro mundo, era tido como heroína em seu povo. Mas suas opiniões mudaram radicalmente quando suas crenças ideológicas, todas baseadas na pobreza e na desigualdade, se mostraram falsas e hostis, sendo um disfarce hipócrita e demagógico para seus próprios líderes. E se o que ela acreditava não for verdadeiro? E se tudo foi em vão?
Acusada injustamente de traição, ela pediu asilo político nos Estados Unidos. Lá ela se casou e teve dois filhos. Sua vida seria feliz se a guerra, a mesma que outrora ela apoiava, não tivesse acontecido. Marisa perdeu seu marido e seu filho morreu contaminado pela radiação. Sozinha em um mundo devastado, ela fez de sua filha, uma adorável e inteligente menininha, sua válvula de escape para todas suas frustrações. Timothy não sabe o que aconteceu com Marisa, não sabe se ela ainda está viva, mas depois de tudo que aconteceu com ela, prefere acreditar que não.  
Lembrando-se de Joseph, ele pondera. O pequeno Joseph, tão atencioso e inteligente, era alguém cuja eloquência demonstrava grande conhecimento e classe. Entretanto, Joseph era um homem pequeno. Como todo homem de baixa estatura, o eloquente Joseph era ressentido por dentro, escondendo atrás de sua imensa inteligência alguém que, diferente de muitos outros, não cresceu tanto. Negligenciado pela família e pela vida, nem mesmo a genética lhe foi generosa. Timothy pensa em seu velho amigo, o filósofo que buscou nos estudos uma forma de compensação. Um último grito, um impulso do subconsciente, uma válvula de escape para a constante pressão dos sentimentos reprimidos.
Mas como todo sujeito baixo, Joseph era um covarde. Corpo fraco e espírito forte, eis a máscara do pequeno filósofo. Alguém de grandes aspirações. Para conquistar seu espaço entre os grandes, Joseph não deixou de usar da mais pura violência para obter respeito. Após ver com seus próprios olhos a selvageria que se tornou o mundo e sentir na própria pele o horror, ele escolheu o caminho dos devassos e assassinos, jogando fora toda sua humanidade e amor próprio. “Compensação”, pensa Timothy.
Matthew, o dedicado pai de família. Durante o pouco tempo em que esteve com o grupo, Matthew falou pouco, mas todos sabiam o que ele foi e o que ele fez. Advogado e pai de dois filhos, Matthew exercia sua profissão de maneira questionável. Disposto a dar uma vida confortável à sua família, ele advogaria para qualquer um pelo preço certo, inclusive a um culpado. Certo ou errado, era uma questão de ponto de vista.
Algo sinistro aconteceu com ele. Após um delírio emocional, ele matou sua esposa e seus dois filhos. Ele teria se suicidado se Timothy não o tivesse impedido. O advogado disse que ouviu uma voz, que os mortos falaram com ele. Alguns podem chamá-lo de louco e outros de médium, mas se era loucura ou mediunidade, nem mesmo Matthew podia dizer.
Rachel era uma mulher bela e passional. Ela falou pouco sobre sua profissão, mas Timothy sabia que, assim como no amor, ela era apaixonada pela arquitetura. Rachel já foi casada e teve um filho, mas abandonou tudo para viver com seu amante. Para sua decepção, seu amante foi embora e a deixou sozinha, sem casa ou um lugar para ir. Por sorte, alguém a encontrou e a convidou para fugirem juntos, pouco antes da guerra começar. Dessa maneira ela começou sua vida nas ruínas, abandonada pelo homem que ela mais amou.
Mas como toda pessoa que vive em função do amor, ela se apaixonou por outro homem. Ele era mais um assassino facínora, líder de um grupo de estupradores e canibais.  Primeiro ela quis fugir de seu acampamento, mas semanas depois ela decide deixar o grupo e voltar para ele. Por amor as pessoas fazem de tudo. Por amor as pessoas enlouquecem. O amor, sendo a maior força da humanidade, também é sua mais terrível fraqueza. Por amor Rachel voltou para o seu homem, por amor ela sacrificou suas virtudes. O amor exige sacrifício. Rachel sempre fez e sempre fará tudo por ele.
Após escrever sobre eles em seu caderno, Timothy finalmente percebe. Todos eram estudados e tinham diploma universitário. Todos, inclusive Timothy, tinham vidas confortáveis antes da guerra. Finada a guerra, os fortes de outrora tornaram-se fracos. Que ironia. Os que antes eram prósperos, bem sucedidos, empresários, com boas profissões e nível universitário, hoje são escravizados e perseguidos pelos miseráveis e criminosos de outrora. A profissão e o nível superior os faziam fortes na sociedade competitiva do velho mundo. Mas o que é um diploma hoje além de um simples pedaço de papel?
Houve uma inversão de valores, uma abolição de direitos, uma revolução. Ou foi um retorno inevitável à ordem natural das sociedades primitivas? Joseph tentou avisá-lo disso, mas Timothy não quis ouvir. Ele não quis aceitar que o mundo em que vivia antes estava morto e enterrado debaixo de toneladas de entulho.
Aqueles que antes eram vistos como pobres demais, feios demais, estúpidos demais, se organizaram em gangues e usam da força para impor sua vontade. Nunca a inteligência foi mais forte que as armas de fogo, as barras de aço ou as facas afiadas. Um único golpe e a mente genial não existe mais. Carros velozes, mansões luxuosas, roupas de grife, eram tudo ilusão. Como Timothy pôde ser tão cego? Como ele não se atentou que após a destruição de tudo, as coisas que ele mais se importava não valeriam mais nada?
A guerra foi purificadora. A radiação foi o inseticida para a praga humana. A chuva de bombas foi o cálice derramado da ira de Deus descrito no Apocalipse. Como que ninguém pôde ver isso? Como puderam ser tão ignorantes?

§

Certo dia, enquanto caminhava pelas ruínas, Timothy se deparou com um estranho peregrino. O homem caminhava sozinho, olhando atentamente para os prédios destruídos e os montes de entulho. Ao ver o professor, ele abre um sorriso e o cumprimenta gentilmente.
- Quem é você? – pergunta o professor.
O homem lhe faz um olhar sério e responde por fim:
- Me chame de Pregador.
- Pregador...?
Timothy o observa de cima a baixo. O homem veste um terno e gravata, mas seu sapato social está gasto e com um furo na ponta. O professor vê um denso livro em sua mão. Na capa está escrito “Bíblia Sagrada”.
- O que está fazendo caminhando sozinho nas ruínas?
- Estou procurando.
- Procurando?
- Sim. Todos estamos procurando por algo, pelo visto você também. Somos iguais, você e eu.
O homem parece falar com incoerência, mas seu olhar é de pura convicção.
- E o que está procurando?
- Pessoas. Sobreviventes do Juízo que vagam perdidos pelo mundo. “Peregrinos” como costumam dizer. Eu prego o Evangelho àqueles que ainda existem.
O professor deixa escapar um sorriso.
- Acho que não encontrará muitos dispostos a ouvi-lo, pregador...
- Por que não? – pergunta o homem, intrigado.
- Porque depois de tudo o que aconteceu, acho que ninguém mais tem fé.
- Ora... – sorri ele, amigavelmente – A fé não se explica, se vive.
Após presenciar tanta dor e desgraça, ver alguém falar de fé era quase um absurdo.
- Você não deveria caminhar nas ruínas sozinho. Junte-se ao meu grupo. É perigoso caminhar sozinho por aí.
- Meus passos são guiados. Não há perigo para quem vive pela fé.
O pregador insiste em falar sobre aquilo.
- Não fale besteira! Junte-se ao meu grupo. Assim estará protegido.
- Protegido? Você não crê que a mão de Deus o guarde por onde quer que esteja?
Então Timothy não se contém e ri.
- Crer em Deus? Acho que você está enganado, amigo...
- Crer em Deus também significa crer no mundo criado, crer na vida, na beleza e na felicidade. Uma vez firmado na fé, nada mais pode lhe prejudicar.
Timothy se emudece com tamanha insensatez.
- Isto é loucura...
O pregador sorri.
- Não, meu irmão. Não é loucura.
- Se Deus existisse, então por que permitiria que o mundo se tornasse isso? – ele aponta para as ruínas.
- Percebo que sua alma está muito angustiada. Você passou por momentos difíceis e agora culpa a Deus por tudo. Ouça-me. Muitos procuram a Deus e não sabem onde encontrá-lo. Procuram buscá-lo e, por não encontrá-lo, caem na descrença. Na descrença o ofendem. Na ofensa tropeçam. No tropeço caem. Na queda sentem-se fracos. Na fraqueza buscam socorro. E no socorro encontram a misericórdia e o perdão. Infelizmente nem todos encontraram a misericórdia e o perdão, não é mesmo?
Sem querer admitir, as palavras do pregador fazem sentido e aos poucos quebrantam o coração endurecido do professor.
- Passei por situações horríveis antes de chegar aqui. Perdi minha esposa, minhas filhas e meus amigos. Não sei o que pretende me falando isso, mas pregação nenhuma pode mudar o passado, muito menos seu Deus.
- Nosso passado pode explicar porque estamos sofrendo, mas não devemos usá-lo como desculpa para permanecermos escravos dele.
O pregador parece usar frases feitas, decoradas de algum lugar. Apesar de serem muito sábias, o professor as rejeita. Talvez ele não seja forte o bastante para se libertar de seu passado, ou talvez meras palavras não sejam o suficiente para fazê-lo esquecer de tudo o que aconteceu. As ruínas estão ali, imponentes e fortes, lançando olhares cruéis contra aqueles que são fracos demais para habitarem em suas profundezas.
- Eu acho que você perdeu a cabeça...
- Pense no que eu te falei. Reflita a respeito e então terá paz.
O pregador aperta amigavelmente sua mão, se despede e então continua seu caminho. Timothy o interrompe.
- Espere! Aonde você vai? Fique com o grupo. Será mais fácil sobreviver assim.
- Eu preciso ir.
- Mas aonde você vai?
O pregador sorri.
- Vou pregar o Evangelho.

§

Aqueles que compunham seu grupo, aqueles que ainda restaram, já não querem mais acompanhá-lo. Muitos perderam a confiança em Timothy. Eles se queixam o tempo todo e espalham a desesperança entre si. O professor não tem mais força, já não consegue mais acalmá-los e uni-los. Ele permanece em silêncio, deixando o grupo atrás de si se rebelar e se dividir.
À noite eles se abrigam em um prédio abandonado. Enquanto se aquecem ao redor de uma fogueira, alguém diz:
- Para onde estamos indo, Timothy?
O professor para de escrever em seu caderno e olha para o homem. O grupo todo o encara com insatisfação e desconfiança.
- Eu não sei.
O homem ri, indignado.
- Como assim não sabe?
- Estou procurando por minha esposa. Eu não sei para onde a levaram. Já disse isso a vocês.
- Então você está arriscando a vida de todos para “encontrar a sua esposa”?
- Vocês concordaram com isso quando fugimos da delegacia. Vocês me pediram para liderá-los pelas ruínas por terem para onde ir. O que eu faço nunca foi segredo.
Insultado, o homem responde:
- Então você não vai se importar se todos aqui forem embora e deixarem você procurar sua esposa sozinho?
- Muitos de vocês já foram embora quando a juíza Susan foi raptada pelos saqueadores. Se quiserem partir, que vão. Não vou segurar ninguém.
Os remanescentes do grupo se ofendem. Liderados por aquele homem, todos se levantam, pegam suas coisas e um a um começam a partir. Timothy continua sentado, assistindo eles irem embora em silêncio. O homem se aproxima do professor. Parando ao seu lado, ele cospe em Timothy e então vai embora.
A fogueira ilumina timidamente o ambiente. O professor olha ao redor, o silêncio novamente se levanta nos cantos. Abaixando sua cabeça, seus lábios tremem e lágrimas se escorrem de seus olhos. Timothy tristemente reconhece. Ele estava sozinho.
Horas se passam. Deitado em frente à fogueira, o professor tenta dormir. Seu sono é pesado e cheio de pesadelos, ele não consegue dormir em paz. Timothy acorda no meio da madrugada e desiste de dormir. O escuro é absoluto com exceção das brasas da fogueira. O silêncio é quebrado algumas vezes pelos zunidos dos ventos. Acordar no escuro sem ninguém ao seu lado era algo estranho. Ele não estava acostumado a lidar com a solidão.
O passado decide revisitá-lo aquela noite. Olhando distraidamente para o escuro, ele se lembra de tudo o que aconteceu até aquele momento. As lembranças são amargas e dolorosas, sua família, seu grupo, sua vida... O desânimo o aflige severamente e a angústia assombra sua mente. Timothy carrega uma coleção de fracassos.
Ao amanhecer do dia, o professor sente sede. Pegando sua garrafa, ele vê a mesma água barrenta que esteve bebendo por dias. Ele não podia mais suportar isso.
Timothy pega suas coisas e, antes de deixar o prédio, vai ao banheiro. Enquanto urina, ele ouve um ruído atrás de si e então se paralisa de medo. Vozes são ouvidas no local onde passou a noite, desconhecidos adentraram o prédio e caminham sorrateiramente sobre os escombros. Deixando o banheiro, o professor se agacha e tenta enxergar quem são aquelas pessoas.
Vestindo roupas de bombeiro e máscaras de gás, dois homens portando machados invadem o esconderijo de Timothy. Enquanto vasculham o local, a respiração abafada de suas  máscaras produz um ruído ameaçador.
Os homens observam as brasas da fogueira e procuram por rastros. Um deles diz:
- Estou louco por heroína.
- Está com abstinência? O chefe não vai tolerar ataques violentos nas escravas por causa disso.
- Não. Ainda não. Temos que achar esse peregrino logo. Só assim teremos escravos o suficiente para vendermos aos mercadores.
- É uma pena que só eles vendem heroína. A gente podia roubar deles, não é verdade?
- Você está louco?! Os mercadores portam armas! Um movimento em falso e eles abrem um novo buraco em você.
- Tem razão... Eu já vendi heroína também. Fiquei cinco anos na prisão, mas me soltaram por bom comportamento. Sempre fui um menino bonzinho...
Ainda observando o local, um deles afirma:
- Ele deve estar próximo.
- Aqueles peregrinos não mentiram, afinal.
- Eles devem ser muito burros para caminhar nas ruínas à noite.
- E também fazem de tudo para salvar suas vidas, até entregar um deles.
- Fique atento. Acho que ele não foi longe.
Enquanto os dois continuam conversando, Timothy arregala os olhos. Os remanescentes de seu grupo foram capturados durante a noite. A indignação o consome por dentro. Eles o entregaram aos saqueadores! Após todo esse tempo protegendo-os nas ruínas! Mais uma vez o professor se surpreende com a ingratidão e o egoísmo do ser humano. Timothy dividiu sua água, seus alimentos e seus casacos com o grupo. Eis a retribuição.
Se o professor ainda tivesse forças, ele se encheria de ódio contra seus antigos companheiros, mas está muito fraco e cansado para isso. A tristeza é mais forte que sua vontade de viver. Talvez se conformar seja menos doloroso.
Dando as costas, ele se esgueira pelos corredores e deixa o local.

§

Os dias se passam com indiferença. Timothy sente fome, sede, cansaço, mas ignora seu corpo. A amargura se apoderou dele. Tudo era irrelevante, indiferente e imutável. O mesmo sentimento que o afligiu quando Harold e Joseph se foram volta mais forte. O professor sofria com a melancolia.
Passando ao lado de uma grande janela de vidro, ele enxerga seu reflexo. A imagem é suja e empoeirada, mas ele consegue ver. O reflexo mostra um homem sujo, barbudo e vestido com andrajos. Suas botas estão gastas e são de pés diferentes. Suas luvas não tem a ponta em seus dedos. Sua mochila está rasgada e ele pode ver seus cadernos na parte de dentro. Timothy se aproxima da janela. Seu rosto está magro e ossudo, há olheiras profundas. Abrindo sua boca, ele vê seus dentes amarelos de sujeira. “Meu Deus” pensa ele. “No que eu me tornei?”.   
O professor pensa em sua vida antes da guerra. Ela era um excelente educador, seus alunos o admiravam. Ele era capaz de inspirá-los quando os instruía. Muitos reclamavam que sua profissão era mal remunerada, e que poucos se dispunham a exercer algo tão mal reconhecido. Para Timothy era diferente. Ele era apaixonado pela profissão e prosperou exercendo-a. Sua família vivia bem, sua esposa o amava e suas filhas recebiam educação digna. Era maravilhoso usufruir do sucesso, mas para onde foi esse sucesso agora?
Ainda olhando para a janela, ele tem uma surpresa. Seus olhos são azuis. Timothy sorri para si mesmo. Como ele pôde se esquecer de algo tão trivial?
O professor desfaz seu sorriso e se afasta da janela. Mais lembranças de seu passado e ele não suportará mais viver.
No dia seguinte, Timothy chega a uma estação de trem. A visão é impressionante e muito depressiva. Os vagões de trem foram tombados e descarrilaram ao longo da linha, amontoando-se um sobre o outro. Alguma ogiva caiu perto dali, a onda de choque foi capaz de descarrilar o trem. A estação, porém, não sofreu muitos danos. O professor explora seus interiores e vê alguns buracos no teto, mas é só isso. Como tudo nas ruínas, os bancos, as salas e as bilheterias estão empoeirados e vazios. Timothy sente náusea e se assusta. A radiação estava no ar.
Deixando a estação, ele se dirige à plataforma. Ao se sentar em um banco, ele olha ao redor e admira a sinistra paisagem. Escombros, silêncio e solidão. Os trilhos estão obstruídos por pedaços de madeira do teto, os cartazes estão caídos no chão, a pintura se descasca das paredes... A deterioração de tudo era lenta e progressiva.
O trem descarrilado cheira a morte e podridão. Os mortos ainda estão em seus vagões, ninguém os tirou de lá. Pela aparência, ninguém entrou ali para saquear também. A escuridão e penumbra inspiram mal agouro e afastam eventuais invasores. Timothy reconhece. Apenas o medo inspira respeito à casa dos mortos.
“Os mortos” pensa ele. Os únicos que se salvaram do inferno nuclear. Os sobreviventes não são sobreviventes, são vítimas que vagam pelo Purgatório em busca de salvação. Os mortos descansam em paz. Os vivos enfrentam a danação. Tudo se revolve para uma visão pessimista de tudo. Não há salvação. Não há para onde ir. Não existe mais um “lar”. Os lares de antes se foram, foram varridos pelo fogo ou contaminados pela radiação. O que vai ser de quem continua vivo? O professor se repreende. “Como eu pude ser tão cego?”
Mais uma vez consumido pela melancolia, ele abre seu caderno e escreve:

"Lucy, sou eu, Timothy. Tudo bem? Espero que sim. Como estão as coisas? Está se alimentando bem? Aí há água para você beber? Você sabe como sou preocupado, como gosto de cuidar de você. Você sempre foi tudo o que sempre tive. Não sei por que estou fazendo isso, escrevendo desse jeito como se fosse uma carta a um ente querido. Na verdade eu me sinto um idiota. Prefiro me sentir assim, fingindo que você vai ler e que você está bem".

"Eu sinto tanto sua falta. Eu não sei mais o que pensar, não sei mais o que fazer, não sei mais onde procurar. Na verdade já não tenho mais vontade de viver. Lucy, minha doce e querida Lucy, preciso tanto de você agora. Onde é que você está?! Eu não gosto de ficar sozinho. Sem você aqui só vejo solidão".

"Estou tão triste e sozinho. Estou tão carente de você. Tudo o que fiz durante todo esse tempo, procurando e procurando, foi para te encontrar. Mas eu nunca te encontrei. Não quis perder a esperança. Não quis ficar sem você. Mas eu fui mesmo um idiota. Não quis me conformar com o que aconteceu. Não quis considerar a ideia de que nunca mais ficaríamos juntos. Me sinto tão culpado agora. Eu confesso, eu finalmente confesso. Foi tudo minha culpa".

"Eu sempre fiz tudo errado. Eu era um homem idealista. Você era uma mulher prática, ativa, sempre atenta para tapar meus buracos, corrigir meus erros. E veja só o que aconteceu, o que eu fiz para nós dois. Não mereço perdão".

"Lucy, minha doce e querida Lucy, queria tanto que estivesse aqui. Queria tanto conversar, me abrir, falar dos meus problemas, ouvir seus conselhos. Lucy, eu te amo tanto. Queria tanto ouvir sua voz, ver seus olhos, admirar seu rosto, cheirar seus cabelos, senti-la em meus braços. Queria me apaixonar por você de novo. Sinto tanta saudade. Por que você não aparece? Por que você não volta?".

"Estou em uma estação de trem agora, sentado em frente à plataforma. Lembra-se que foi em uma estação de trem em que nos beijamos pela primeira vez? Sempre achei isso tão romântico, um beijo apaixonado em uma plataforma. Estou rindo disso agora. Eu estava envergonhado... Mas não quis perder a chance. Você estava com pressa porque tinha de ir ao trabalho, mas eu segurei sua mão e a puxei de volta, beijando-a como se fosse a última coisa que eu faria no mundo. Você amoleceu em meus braços e então o trem partiu. Percebendo que você ficou irritada por saber que iria chegar atrasada ao trabalho, eu me assustei e te disse: acho que você perdeu o trem".

"Passo horas aqui. Me agarro à ilusão de que um trem vai aparecer e você vai desembarcar. De como quando éramos jovens e eu te esperava na plataforma para irmos juntos para casa. O começo do casamento foi difícil, eu ainda não tinha carro e ainda não tínhamos as meninas, mas juntos vencemos enfim. Passamos por muita coisa juntos, não é mesmo? Situações que só os casais que se amam de verdade conseguem passar".

"Acho que vou dormir aqui essa noite. Estou cansado demais, não consigo mais caminhar. Minha água está acabando, minha comida azedou. Eu não me importo. Prometi que ia te encontrar. Será que vou manter a promessa? Quanto tempo faz que você se foi? Um ano? Até hoje não encontrei uma única pista do seu paradeiro. Não estou pensando em desistir, mas Lucy, e se não nos vermos de novo?".

"A melancolia se apossou de mim. Todo o meu grupo se foi. Meus melhores amigos se mostraram pessoas horríveis. Meus dias vão do cinzento para o negro. A vida se escurece diante dos meus olhos. Onde está você para me fazer companhia? Para iluminar meus dias com seu sorriso que é mais intenso que um raio de sol? Eu poderia te esperar aqui para sempre se eu tivesse a mínima esperança de que você viria. Eu preciso tanto de você".

"Lucy, eu te amo tanto. Este amor vibra em meu peito, estremece o meu ser. Lucy, eu te amo tanto, tanto, que sem ele eu não poderia viver. Estou chorando tanto, as lágrimas molham meu rosto e minhas mãos. Eu fracassei. Não mereço você. Me perdoe, Lucy. Não sei se isso é o suficiente, mas sempre foi sincero o meu amor por você".

Timothy fecha seu caderno, enxuga seus olhos e se deita no banco. Ele lança olhares confusos no horizonte. Mais uma vez a noite se aproxima e ele não sabe o que fazer. Tudo se foi. Só havia solidão. Seus pensamentos se tornam repetitivos. Ele já não tem mais nada de diferente para pensar. Talvez o sono conforte sua alma torturada.

§

Uma semana se passa. Timothy está desequilibrado. Fazendo da estação de trem sua casa, ele vaga pelas salas escuras como um fantasma. Fraco e desnutrido, ele conversa sozinho como se Lucy, seus amigos e suas filhas estivessem ali, todos reunidos e em segurança como ele sempre quis que fosse.
O medo da radiação não o assusta mais. Os cientistas, tão alarmistas quanto aos riscos, sempre disseram que a raça humana morreria em poucos dias após as explosões nucleares. Mais de dois anos se passaram e ele continua vivo. Ninguém sabe o que acontece antes que realmente aconteça.
O professor está sentado em frente à bilheteria. Acendendo uma fogueira, ele pega uma panela, a enche de água poluída e ferve as ervas que crescem no vão dos trilhos. Não havia mais comida, a água ele tirou dos radiadores dos carros no estacionamento. Manchas e sintomas aparecem em seu corpo, mas devido ao seu desequilíbrio, ele não se importa.
- Se ainda existissem flores, eu daria uma pra você. – diz ele, simulando uma conversa com Lucy.
Distraído, ele continua conversando quando ouve um som atrás de si. Assustado, ele se cala e olha para trás. Ele ouve passos sobre os cacos de vidro, alguém caminhava dentro da estação.
- Quem está aí?
Tudo se silencia. Ele espera algum tempo, mas não há resposta.
Timothy se vira e finge continuar cozinhando. De repente ele pega sua mochila, se levanta e corre para a rua, rápido como um relâmpago.
- Rápido! Ele está fugindo!
Ao passar pela porta, nove homens tentam agarrá-lo. Timothy se apavora. Os homens vestem uniformes de cientista e máscaras de gás, semelhantes àquelas usadas em Chernobyl. Ele grita e se desvencilha, correndo aos tropeços pela entrada da estação.
Desviando-se dos carros, ele avança pelas ruas. Timothy ouve os gritos abafados dos saqueadores atrás de si. Urros e rosnares de selvageria, aqueles homens não devem ser gente. A caçada dura alguns minutos mas o professor não desiste, seu instinto de sobrevivência é mais forte.
Após alguns quarteirões, ele não ouve mais os saqueadores. Escondendo-se atrás de um carro, ele olha para trás e não vê ninguém. Respirando fundo e recuperando o fôlego, ele se senta e descansa. Então um mascarado aparece ao seu lado e grita:
- Ele está aqui!
Timothy se apavora. Correndo contra o saqueador, ele o empurra e ambos vão para o chão. O saqueador porta uma faca e tenta golpeá-lo. O professor segura sua mão e ambos rolam pelo piso. Batendo a mão do homem contra o chão, o saqueador solta sua faca. O saqueador lhe dá um soco no rosto, fazendo o professor sair de cima de si.
Tentando recuperar sua faca, o saqueador se arrasta pelo chão, mas Timothy o segura novamente. O homem chuta seu rosto, atordoando-o. Novamente com sua faca, o saqueador avança sobre ele para golpea-lo. Timothy lhe dá uma rasteira e o homem cai. Pegando um pedaço de entulho, Timothy rapidamente pula sobre o homem e golpeia sua cabeça. O saqueador grita. Dominado pela adrenalina, o professor o golpeia mais e mais vezes, macetando-o até aparecer uma mancha vermelha gosmenta em sua máscara.
O saqueador não se mexe mais. Caído de braços abertos, a mancha vermelha aumenta vertiginosamente em sua cabeça. As mãos do professor mãos tremem. Ele nunca matou um homem antes. Pegando sua mochila, ele se afasta e corre novamente.
Passados alguns quarteirões, alguém grita atrás dele:
- É um dos nossos!
Os saqueadores encontraram o corpo. O professor corre, as vozes ainda estão atrás dele. Ele corre o mais rápido que pode. Os saqueadores o perseguem com fúria e um sanguinário desejo de vingança. Timothy não tem muito tempo. Virando em uma esquina, ele tenta se esconder em algum lugar. Os montes de entulho são muito instáveis e ele não consegue atravessá-los. As entradas dos edifícios estão bloqueadas pelos escombros. Escalando o entulho, pontas afiadas de aço cortam sua pele e rasgam suas roupas. Fugir estava sendo doloroso demais.
As vozes ainda estão atrás dele, os saqueadores o viram passar por ali. O fim estava próximo. O medo e a angústia dominam sua mente. Seu corpo treme. Lágrimas rolam de seus olhos. Percebendo que não adiantava mais insistir, ele chora amargamente.
-Lucy...
Ao sussurrar, a voz arde em sua garganta. O choro dificulta sua fala, mas ele não quer falar mais. Ele só quer pensar nela, sua esposa da qual ele tanto amou.
Tentando pateticamente correr, ele desiste poucos passos depois.
- Lucy...
Cansado de fugir, o professor se encurva com a mão no peito e se apoia na parede ao seu lado. Ele está ofegante e, recuperando o fôlego, se senta sobre um denso pedaço de entulho. Estava tudo acabado. Finalmente ele ficou sozinho. Seus companheiros, seus parentes, seus amigos, os peregrinos casuais que surgiram pelo caminho, todos foram raptados, vendidos ou mortos. Após tanto tempo nas ruínas, sempre correndo, sempre fugindo, ele foi o único que sobrou. O único sobrevivente.
O professor está velho, desnutrido e desidratado, não há razão para continuar fugindo. Não vai demorar muito e em breve ele estará doente, ele passou muito tempo exposto à radiação. De sua mochila rasgada ele retira um entre outros cadernos e continua fazendo a única coisa que alivia sua dor, transmitindo às páginas brancas toda sua aflição e severo sofrimento. Ele escreve o que seus olhos viram, acontecimentos que ele nunca desejaria ter visto, mas que sua mente jamais irá esquecer.
A última palavra é seu último adeus.

"Lucy, me perdoe. Eu falhei com você. Depois desse dia meus olhos se fecharão para sempre e eu nunca mais a verei novamente. Me perdoe. Eu sinto muito. Eu não consegui te encontrar".

"Eu te amo, Lucy. Eu sempre vou te amar. Peço do fundo do meu coração que me perdoe".

"Adeus".

"Timothy Morgan".
   
Olhando ao redor, o professor vê uma caixa de correio. Então ele tem uma ideia. Não querendo que seus escritos se percam para sempre, ele põe seus cadernos de volta na mochila e a enfia na caixa de correio. Se algum dia o mundo voltar ao normal, se algum dia os tempos de transição terminarem, ele espera que alguém os encontre e saiba o que realmente aconteceu naquele período.
Timothy se senta. Colocando as mãos sobre o rosto, ele chora novamente. Lucy não sai de sua cabeça. O que ela pensaria se o visse agora? Não era assim que ele imaginava um líder morrendo. Abandonado e traído por seus próprios companheiros. Mas nada disso importa. Ele falhou com seu amor. O que sobrou de Lucy foi apenas a saudade.
Ao tirar as mãos de seus olhos, o professor vê uma dúzia de homens parados à sua frente. Alguns portam facões e outros machados, mas todos vestem aquelas sinistras máscaras de gás. Timothy não diz nada, eles também não. Era como se ele olhasse a morte nos olhos, fria e sem nenhuma emoção. Naquele momento ele desiste de tudo e finalmente percebe. Não há salvação.
Os saqueadores tentam agredi-lo, mas o chefe os interrompe.
- Parem! – então todos olham para ele – Ele vale mais para nós se estiver vivo.
Agarrando-o pelas roupas, os homens o puxam e o levam pelas ruínas.



Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta

(Artista desconhecido) Dias se passam. Yang é mantido em um recinto com sofá, mesa e televisão. Não era bem uma cela, mas uma confortável sa...