O
Filósofo
O
professor sobe silenciosamente a colina. Entardece nas ruínas e as cinzentas
nuvens ficam mais escuras. No topo da colina, onde antes haviam aconchegantes
residências, hoje há apenas devastação e detritos. Timothy não está sozinho, os
saqueadores estão lá em cima, parados como sentinelas enquanto observam algo
além do alto relevo.
Um
homem está lá em cima, olhando para o horizonte e de costas para Timothy.
Agachando-se, ele se esgueira entre os carros e alcança aquele homem.
-
Joseph!
O
filósofo se assusta, virando-se rapidamente.
-
Tim?! O que está fazendo aqui?!
O
professor está agachado e olhando para ele. Suas mãos, suas roupas e seu rosto
estão sujos.
- Eu
vim te resgatar! – e então Timothy nota a estranha roupa do filósofo.
Levantando-se, o professor pergunta – Que roupas são essas?!
Joseph
veste uma espécie de roupa medieval com luvas, botas, capa e até um elmo. Há
ombreiras feitas de pedaços de pneu em seu corpo, e ele veste um colete com um
desenho exótico, semelhante a um barco.
- Vá
embora!
- O
quê?
- Eu
não quero ser resgatado!
O
professor não compreende. Aproximando-se e segurando seus curtos ombros, ele
sacode seu corpo franzino dizendo:
-
Você perdeu a cabeça?!
Timothy
nota como é fisicamente maior do que Joseph. Abaixando sua cabeça para olhá-lo,
o professor vê um homem minúsculo, pequeno e leve como uma criança. O filósofo
se irrita e o empurra de volta, demonstrando agressividade nada recomendável a
homens daquele tamanho.
-
Fique longe de mim! Eu já disse para ir embora! Não vou a lugar algum com você!
Abalado
com sua insistência, o professor não sabe o que responder.
§
Parado
no meio da arena e cercado por uma plateia de maníacos homicidas, o filósofo
sente seu corpo tremer. Fenrir, o líder da tribo de Vinland, anima o público
como se fosse um apresentador. Pegando um dos papeis no chão, Fenrir lê o nome
do próximo gladiador e anuncia ao público.
Embriagados
com o sangue derramado e sedentos por mais, os saqueadores gritam euforicamente.
O outro escravo escolhido se apavora, arregalando seus olhos e relutando entrar
na arena. Joseph olha para sua mãe e
irmã, sua mãe lhe dá as costas e continua cuidando de seu irmão. Sua irmã o
puxa e então sussurra aos seus ouvidos:
-
Joseph, a vida de nossa mãe está em suas mãos. Nós te amamos muito. Sentiremos
saudades.
-
Está se despedindo?
-
Você quer que nossa mãe morra?! – responde ela, rispidamente.
-
Não, mas...
-
Joseph, nossa mãe foi estuprada e nosso irmão está com câncer! Por acaso você
não se importa com nossa família? Vai ser egoísta como sempre e nos deixar para
trás?
Harald,
o truculento saqueador, joga o outro escravo na arena. Então o filósofo
interrompe o líder, dizendo:
-
Espere! Peço que mude sua proposta! Se eu vencer os duelos e me tornar Berserk,
então poderá fazer o que quiser com nossa mãe!
O
público se aquieta por um tempo. Olhando-o de cima a baixo, os saqueadores veem
o homem franzino propor algo absurdo e então caem na risada, gargalhando em
total escárnio.
- Você vencer...? – pergunta Harald,
gargalhando.
-
Rapaz, você não se acha pequeno demais para pedir algo tão grande?
Inclusive
os escravos estão rindo. Seu adversário parece esquecer o medo para rir também.
-
Está vendo aquela lança? – pergunta Harald – Ao final deste duelo, espetarei
sua cabeça nela.
-
Isto é alguma brincadeira? – pergunta Fenrir.
-
Não. – responde Joseph – Eu não estou brincando. Eles são minha família. Farei
tudo para protegê-los.
E
então Cynthia ri por dentro.
-
Você nos diverte, escravo. Obviamente sua proposta é absurda, mas que diferença
faz? Dentro de instantes você não estará mais vivo mesmo.
O
líder aceita. Harald então entrega a porta de carro e um machado para os dois.
O
duelo se inicia. O escravo, que minutos antes estava apavorado, olha para
Joseph e sorri, julgando-o pelo tamanho. Percebendo que o único meio de sair
vivo dali é matando seu patético oponente, o escravo avança contra Joseph
rugindo como um leão. A intenção do escravo é apavorá-lo, intimidá-lo e fazê-lo
baixar a guarda, matando-o no primeiro golpe. O homem ergue seu machado e
golpeia com toda sua força. Então algo acontece.
O
machado crava no chão empoeirado. Joseph se esquivou com tremenda agilidade,
algo que só os mais pequenos e franzinos podem fazer. O homem retira com
dificuldade o machado do chão e novamente o golpeia. Desta vez o filósofo
defende e a lâmina se prende em seu escudo. Vulnerável ao prender sua arma, o
escravo tenta arduamente desprendê-la quando Joseph ergue seu machado e o
golpeia no joelho.
O
homem grita horrivelmente, silenciando a plateia. Cambaleando pela arena, o
escravo solta seu escudo e leva suas mãos trêmulas ao joelho. Sangue escorre
pela ferida e os saqueadores se encurvam para ver melhor. Todos sentem
excruciante aflição ao ver a patela de seu joelho pendurada pela pele em sua perna.
Chorando
como uma criança, o homem cai no chão e agoniza na frente de todos, pedindo por
ajuda que nunca virá. Perplexos, os saqueadores assistem o filósofo se
aproximar e fitá-lo nos olhos. Então o homem implora:
-
Piedade! Tenha piedade!
A
maldade o envolve como uma capa diabólica. Refletindo sobre a cena, Joseph
relembra os momentos da luta e duvida seriamente que seu oponente, o agonizante
escravo aos seus pés, teria piedade em seu lugar. Um sentimento estranho invade
sua mente, mas ele não consegue identificar o que é.
Não
há opções ali. Dois entram e um sai. A regra não será alterada e com Joseph não
haverá exceção. Agarrando-se ao instinto de sobrevivência, o filósofo ergue ao
alto seu machado, parando-o no ar por um instante. Os saqueadores parecem
segurar a respiração com sua pausa. “Antes você do que eu” pensa ele e então o
golpeia, descendo o machado com toda sua força. A lâmina atravessa o estômago
de seu oponente, abrindo um corte diagonal em seu abdômen e expelindo um sangue
gorduroso. O homem expira, soltando seu último fôlego e morrendo aos seus pés.
Os
saqueadores gritam, extasiados com a emocionante luta. Fenrir entra na arena e
ergue seu braço esquerdo, parabenizando-o e exibindo o vencedor a todos.
-
Temos um pequeno homem e um grande vencedor! – diz ele, sorrindo.
Todos
riem e comemoram, surpresos com o improvável desfecho do duelo. Inclusive
Harald sorri, embora discretamente.
Recebendo
elogios e até aplausos, Joseph se felicita ao obter o reconhecimento merecido.
E então ele reconhece o estranho sentimento que o invadiu minutos atrás.
Chama-se subjugação, selvageria e puro prazer de vencer.
Sua
família, porém, o encara com profundo rancor e seu irmão parece se consumir de
pura inveja.
De
volta à jaula, os homens e as mulheres ainda olham surpresos para Joseph.
Alguns saqueadores aparecem nas barras para parabenizá-lo, outros até oferecem
cerveja, o fictício hidromel daqueles pseudovikings. Sua família está no outro
lado da jaula, evitando-o.
Aproximando-se
dos três, Cynthia se levanta e o impede dizendo:
- O
que você quer?
-
Vim ficar com vocês três.
-
Tínhamos um acordo! – grita ela.
-
Cynthia, está tudo bem. Deixe-o ficar conosco. – responde sua mãe.
Então
os dois se sentam ao redor de James. Ele está piorando e fios de cabelo se acumulam
em seus ombros. Ofegando, ele olha para Joseph e pergunta:
-
Você deve estar se achando o máximo, não é? Responda-me, como é ser um assassino?
Ele
se surpreende.
- Eu
não sou um assassino!
-
Você é sim! – retruca sua irmã – E um arrogante e egoísta também! Por que
venceu o duelo? Foi para se vangloriar?
-
Não! Eu ia morrer ali! Se eu não o matasse ele me mataria!
- E
quanto a nossa mãe? Se esqueceu dela de novo? Do que vão fazer com ela? –
pergunta James.
-
Nada disso teria acontecido se não fosse por você!
Então
os três imediatamente ficam contra ele. Sua mãe responde:
-
Seu irmão está com câncer! Você quer que meu filho morra naquela arena como um
indigente?!
O
filósofo não contém sua indignação.
- E
eu posso morrer ali? É certo ele fraudar o sorteio para que eu morra em seu
lugar?
-
Não responda à minha mãe! – vocifera sua irmã mais velha.
Sua
mãe começa a chorar. Ela se lamenta com as mãos nos olhos.
- O
que eu fiz para merecer isso? Por que um fardo tão grande foi posto em minha
vida? Como pode um filho tão egoísta, desgraçado e maldito ter saído de dentro
de mim...?
O
choro daquela senhora comove até os outros escravos que assistiam à discussão
dentro da jaula.
-
Mamãe...? – assusta-se Joseph.
Nunca
antes ele a ouviu ofendê-lo com palavras tão duras como aquelas.
James
diz:
-
Fique longe de nós. Nossa mãe não quer estar perto de um assassino como você.
-
Talvez quando esses loucos matarem e arrancarem a cabeça de nossa mãe você
perceba o erro que cometeu. – diz sua irmã.
Levantando-se,
o filósofo se afasta. Cabisbaixo, ele percebe que os escravos o encaram com
reprovação. Aqueles manipuladores hipócritas conseguiram de novo, transformaram
a vítima em vilão. Mas ele está realmente magoado com sua mãe. Aquela vadia o
rejeitou durante anos, apoiou o ato covarde de seu irmão e agora troca um filho
por outro. Joseph não é egoísta, aqueles três que são. Para sobreviver, eles
não hesitaram em joga-lo na arena para morrer. Sua morte será o preço a se
pagar para que James e sua mãe vivam.
“Um
filho por outro” pensa ele. Sentado contra a barra, ele reflete sobre o
ocorrido. A dor da rejeição é dura demais para suportar.
§
À
noite os saqueadores aparecem para levar as mulheres. O filósofo vê sua irmã
sendo puxada por um motoqueiro barbudo. Sua mãe é levada também, mas antes ela
beija a testa de James e deixa tranquilamente a jaula, sem sequer olhar para
Joseph. “O que realmente eu sou para vocês?” pensa ele durante a noite.
Ao
amanhecer, Harald aparece para buscar os homens. Agora apenas quatro sobraram.
Alimentando-os no refeitório, eles são conduzidos para a arena onde o próximo
espetáculo se realizará.
Ao
entrar na arena, Joseph vê a cabeça decepada de seu oponente na lança. Alguns
saqueadores o cumprimentam e o jarl Fenrir se aproxima para cumprimentá-lo também.
Joseph se sente lisonjeado.
Fenrir
certifica-se de que não haverá mais fraude no sorteio e então joga os papeis ao
alto. Os dois selecionados não são Joseph e nem James. O líder sobe ao seu
trono, sentando ao lado das escravas. O filósofo vê sua mãe e sua irmã ali, com
hematomas e arranhões no corpo. Elas o ignoram durante todo o duelo.
Os
dois escravos lutam na arena. Após alguns golpes desajeitados, um deles solta a
porta de carro e desiste da luta, recusando-se a continuar. Os saqueadores se
enfurecem, Harald intervém e lhe faz ameaças. Apesar da coerção, o escravo
ainda recusa-se a lutar. Ele não demonstra reação e parece não ouvir as
palavras terríveis que Harald fala em seus ouvidos.
O
jarl se levanta e pergunta o que está havendo. Harald informa que ele não quer
lutar. Irritado, Fenrir autoriza a punição aplicada aos covardes. Dois
saqueadores entram na arena e levam o escravo dali.
-
Harald! Escolha outro escravo e recomece o duelo! – ordena ele.
Joseph
está ao lado de seu irmão. O saqueador olha para os dois, causando grande
tensão entre eles e as duas lá em cima. Harald se abaixa para pegar os nomes
quando o filósofo o interrompe.
- Espere!
– o saqueador se intriga – Não precisa sortear, eu me ofereço a lutar.
A
plateia se alvoroça. James ouve aquilo e ri, aliviado e extasiado com a
estupidez de seu irmão. Mas todos estão eufóricos com a tremenda coragem de
Joseph.
- O
que disse, garoto?
-
Disse que me ofereço a lutar.
Harald
é áspero ao dizer:
-
Você é demente?
Os
saqueadores pedem por Joseph. Fenrir surpreende-se pela segunda vez com o
filósofo. Então ele o autoriza a entrar na arena.
Harald
lhe dá a porta de carro e o machado. Joseph entra na arena e a plateia brada de
euforia, saudando-o como a entrada do carismático gladiador no coliseu de Roma.
À
sua frente, seu oponente o encara. Ele está assustado, mas completamente
disposto a lutar até a morte. Joseph ergue seu machado e o gira em sua mão,
impressionando a todos ainda mais. O filósofo põe o escudo diante de seus
olhos, exibindo técnica e postura de luta que ninguém imaginou que ele tivesse.
Flexionando as pernas, ele prepara-se para o duelo.
Sentindo-se
desafiado, seu oponente ergue seu machado e tenta girá-lo também. Mas ao girar
ele o deixa cair. A plateia gargalha, envergonhando-se na frente de todos. Ele
se agacha para apanhá-lo, apoiando seu escudo no chão. Quando está prestes a se
levantar, ele vê de relance a lâmina pesada e fria voar em sua direção e
cravar-se entre seus olhos.
A
plateia se emudece. O oponente de Joseph solta seu escudo e então cai para
frente, morrendo sobre o chão.
Os saqueadores
estão boquiabertos, eles demoram a entender o que houve. O filósofo estudou seu
oponente de longe, aguardando o momento certo para atacar. Distraindo-se ao
tentar intimidar Joseph, o escravo desviou sua atenção por meros segundos,
dando-lhe o tempo necessário para o ataque. E aqueles foram seus segundos
fatais. Joseph arremessou seu machado no exato momento em que seu oponente se
desprotegia, apoiando-se no escudo e apanhando sua arma do chão.
Algo
bizarro e inexplicável acontece. Em sincronia os saqueadores começam a falar o
nome de Joseph, começando timidamente e então bradando como um trovão. Em
instantes eles se levantam e gritam seu nome, erguendo seus braços com
entusiasmo. Nunca antes os saqueadores de Vinland se agitaram em favor de um
escravo. Joseph estava sendo ovacionado!
No
trono de Fenrir, o filósofo vê sua irmã se indignar com sua vitória,
protestando-a para ninguém. Sua mãe sente-se ameaçada, sua morte se aproxima. À
beira da arena, o moribundo James o inveja. Para o horror de sua repugnante
família, tudo o que eles mais evitaram acontecia e não havia nada que eles pudessem
fazer para impedir.
Joseph,
o problemático e estúpido Joseph é enaltecido perante todos. A mesma pessoa que
eles se esforçaram para suprimir e sufocar de todos os seus talentos é
reconhecido publicamente, causando-lhes inveja que somente os mais medíocres,
ordinários e covardes são capazes de ter. Recusando-se a admitir, eles percebem
que nele há uma luz e essa luz é impossível de se apagar.
Fenrir
proclama a todos.
-
Tribo de Vinland! Temos um novo favorito em nossa arena!
Harald
entra na arena e retira o machado do rosto do escravo. O saqueador golpeia seu
pescoço e separa sua cabeça, em seguida espetando-a em uma estaca.
O
duelo termina e os dois escravos restantes são levados de volta à jaula. O
desfecho do combate se aproxima.
§
Ao
entrarem na jaula, os saqueadores parabenizam o filósofo e um deles lhe oferece
um casaco, para a surpresa de todos. Quando aqueles homens cruéis vão embora, sua
mãe aparece ao seu lado, para a surpresa de Joseph.
-
Oi, meu filho.
-
Mãe...?
- Eu
só vim dizer parabéns pela vitória hoje.
Joseph
estranha. Até ontem ele era um renegado e assassino.
-
Por que isso agora?
- Tivemos
nossas diferenças, mas eu sou sua mãe e estou aqui para dizer que eu nunca
abandonaria você.
-
Ah, nunca?! – exclama ele, ainda magoado.
-
Você foi um filho especial, um filho que eu nunca fui capaz de entender. Sempre
nos incomodando com seus sonhos, suas ambições, suas palavras que ninguém podia
entender. Nossa família não foi capaz de entendê-lo. Você sempre quis ser mais
do que nós. Ser quem você não é.
-
Como assim quem eu não sou?! – pergunta ele, indignado – Eu sou um filósofo! Lecionei
e publiquei livros! Viajei pelo mundo! O que vocês fizeram além de procriarem e
se amontoarem na casa do pai?
Ela
o despreza por dentro, mas mantém a calma ao responder:
- É
exatamente esse pensamento que não entendemos. Você não é um de nós ou nós não
somos bons o suficiente para você. Não sei por que você nos despreza tanto, mas
sua família sempre esteve ao seu dispor. Foi você quem nos abandonou.
-
Agora a senhora está falando como o canceroso do James.
-
Não fale assim do meu filho! – explode ela em fúria, desejando estapeá-lo –
Desculpe, você não sabe como é ter um filho morrendo. Se você tivesse alguém
saberia. Mas não é disso que quero falar agora. Eu vim aqui te pedir perdão,
Joseph. Peço perdão por tudo o que aconteceu no passado. Mesmo que você tenha
nos dado as costas para viver os seus “sonhos”, eu sei que há algo que te
fizemos e só você sabe.
Sua
mãe o olha com afeição e carinho, algo que ela raramente lhe deu. Aguardando
sua resposta, Joseph se enche de rancor e mágoa, mas incapaz de lidar com a
rejeição, ele se desmancha em lágrimas e chora na frente de todos. Sua mãe o
abraça e ele corresponde, chorando em seu ombro. Ela acaricia seus cabelos e
ele sente o toque de sua mão, o contato maternal que todo filho deve ter.
Joseph
não quer viver com ódio. Ele também quer uma família, ele precisa de uma. Só ele sabe o quanto é desesperador viver na
solidão.
-
Você me perdoa? – pergunta ela.
-
Sim, mãe. Eu te perdoo.
Respirando
aliviada, ela diz:
-
Esqueça o duelo amanhã. Esqueça aquela proposta. Mamãe não quer um filho
assassino. Quando os saqueadores te derem as armas, solte-as. Recuse-se a
lutar, Joseph.
Então
ele abre os olhos e a empurra.
-
Espera aí! Você não está aqui para pedir perdão! Você está aqui para salvar sua
pele!
Ao
ouvi-lo confrontar a sua mãe, os escravos se aglomeram.
-
Não, meu filho! Eu te amo, eu vim pedir seu perdão... – responde ela, fazendo
um olhar pouco convincente.
-
Mentira! – grita ele, assustando-a – Por que vocês me rejeitaram? Por que vocês
me desprezam? Por que vocês me odeiam? O que foi que eu fiz?!
-
Olhe para você, um homem patético, solitário e carente de amor! Eu tenho pena
de você, Joseph! Se acha tão culto e inteligente, mas não consegue viver sem o
carinho da mamãe...
Ela
zomba dele, tratando-o como se ele não fosse seu filho. Cynthia e James
aparecem e o confrontam também.
-
Você é a vergonha de nossa família, um lixo que ainda não foi descartado! Acha
que seu dinheiro faz de você melhor do que nós? Você não merece um centavo do
que conseguiu. O seu dinheiro deveria ser nosso! – grita James, revelando a
ganância em sua inveja.
-
Verme egoísta! Se aliou aos saqueadores para assassinar os escravos! – diz
Cynthia, manipulando-os.
- Eu
te rejeito, filho maldito! Desde sua infância já percebi. Estive certa quando
te chamei de criança de merda!
Ao
dizer aquilo, velhas lembranças retornam à sua mente. O ódio o domina mas,
incapaz de resistir aos ataques simultâneos de sua família, ele decide
agredi-los fisicamente com toda a sua fúria.
Alguém
abre a porta da jaula e diz:
-
Mulheres! Para fora!
Os
saqueadores chegaram antes. Joseph treme de ódio e seu coração bate
violentamente. Para a sorte daquelas baratas humanas, aquela discussão não será
resolvida ali. Controlando-se, ele se senta e respira fundo. Enchendo-se do
mais sublime sentimento de vingança, ele pensa.
“Vocês
vão me pagar!”
§
O
dia da revelação finalmente chega. Joseph e James são alimentados e levados à
arena. Os dois não trocam nenhuma palavra, nem mesmo se encaram. Há muito
ressentimento no ar e desta vez o filósofo não vai perdoá-los.
Ao
entrar na arena, os saqueadores novamente saúdam a Joseph. Ele levanta os
braços e acena, sendo digno de receber homenagens até dos homens mais
terríveis. Aos pés de Fenrir estão sua mãe e irmã, encarando-o com ódio e medo,
temendo o resultado indesejado do último duelo.
Algo
impressiona Joseph. Ao lado delas está o homem que se recusou a lutar no duelo
anterior. Ele teve seu corpo depilado, seu rosto barbeado e os saqueadores lhes
passaram batom. Eles o vestiram com roupas femininas iguais às das escravas,
mas nada o espanta mais do que saber que aquele homem teve seu pênis castrado.
Harald falou a verdade afinal. Ele realmente o transformou em uma escrava
sexual deles.
Fenrir
se levanta e anuncia:
-
Tribo de Vinland! Hoje será revelado quem será o nosso novo Berserk! Será o
canceroso ali embaixo? – ele aponta para James e a plateia o vaia. – Ou será
Joseph, o favorito?
A
plateia torce pelo filósofo com empolgação. Harald os conduz para dentro da
arena e os entrega as armas. Joseph maneja o machado com perfeição, girando-o
como antes e animando os saqueadores. Devido a inveja, seu irmão sempre viu
maldade nos talentos de Joseph. Sempre que o filósofo demonstrava habilidade em
algo, seu irmão fazia de tudo para impedi-lo de se exibir. Ele não suportava
ver seu irmão mais novo se destacando, não tolerava a ideia que aquele menino
franzino era melhor do que ele.
O
jarl autoriza e o duelo se inicia. James o encara com tanto ódio que é capaz de
enfraquecê-lo. Apesar de estar doente, com dores e ofegante, o ódio de James
consegue sobrepor suas desvantagens. Ele diz:
-
Cão egoísta! Vai deixar nossa mãe morrer por pura vanglória? Se fosse tão
correto largaria o machado e deixaria eu te matar.
Joseph
ri.
-
Realmente acha que eu deixaria uma raça de porcos como vocês viver?
James
se enfurece.
- Eu
sempre te bati quando éramos
crianças, Joseph. Por que acha que vai ser diferente agora?
-
Porque não somos mais crianças.
- É
mesmo? E o que você é hoje? Olhe para você, é menor até do que a nossa irmã! Um
homenzinho fraco e franzino. Não sei que sorte foi aquela nos últimos duelos,
mas não se repetirá hoje.
- É
uma pena que você não esteja vivo depois que esse duelo acabar, senão veria o
que vou fazer depois.
-
Isso é uma ameaça?
- Pode
apostar que sim.
Ele
se vira e acena para a plateia, agitando seus braços e batendo o machado contra
o escudo. Os saqueadores riem da provocação. Sentindo-se humilhado, James
avança contra o filósofo.
O
golpe de seu machado pesa em seu escudo, fazendo-o recuar. James continua
golpeando-o obstinadamente, destruindo a lataria da porta de carro. Se
continuar atacando, logo o escudo de Joseph se quebrará. O filósofo bloqueia
mais uma vez e então tenta acertá-lo na perna. James se defende,
surpreendendo-o.
A
selvageria o domina. Seu irmão ataca incansavelmente, destruindo totalmente seu
escudo. Joseph é obrigado a largá-lo, preocupando os saqueadores. Todos na
arena se emudecem com o desenrolar da luta. Joseph, agora desprotegido, segura
o machado com as duas mãos. James sorri maliciosamente, farejando o medo em seu
irmão.
James
o ataca. Seu machado desce sobre Joseph e ele o defende com o cabo de seu
próprio machado. Vendo a lâmina se aproximar de seu rosto, ele tenta arduamente
repelir o ataque. Então Joseph se lembra de algo. Não se pode medir força com
alguém mais forte. Virando seu machado, ele deflete o golpe para a lateral.
O
filósofo corre para o outro lado da arena e espera seu irmão. James pensa que
ele está fugindo e então planeja esgotá-lo de suas forças, vencendo-o pelo
cansaço. Ele corre contra Joseph e inacreditavelmente o filósofo lhe dá as
costas, apavorando os saqueadores. Perto demais para se esquivar, James
violentamente golpeia com seu machado. Joseph se encurva para frente, gira seu
corpo e então lhe dá o contragolpe, rápido como um relâmpago. Novamente todos
seguram o fôlego para ver.
O
braço de James voa pelo ar. Gritando desesperadamente, ele olha para onde
deveria haver seu braço e vê apenas o sangue esguichando de um corte impecável.
O braço decepado cai no chão, ainda segurando o machado. Então Joseph o golpeia
na coxa e ele imediatamente desaba, agonizando histericamente na arena.
Joseph
para ao lado de James, ele está lavado em sangue. Ele observa com mórbida
satisfação enquanto seu irmão chora como uma criança, berrando e chamando
pateticamente por sua mãe. “Que ridículo, ele ainda chama pela mamãe”. Joseph
ergue seu machado e então seu irmão o interrompe.
-
Espere! Tem algo que eu ainda não te falei... – James se arrasta, tentando se
apoiar no braço que lhe resta – Lembra-se daquele dia na escola? Quando nos
reencontramos?
Joseph
responde friamente.
- É
óbvio.
-
Fui eu...! – seu irmão começa a rir, controlando a dor – Fui eu!
- O
que foi você, verme?
- Eu
te vi nos espiando na arquibancada. Eu te vi se esgueirando pelos cantos. Ah,
eu te reconheceria de longe...! – e então ele se esforça para rir mais.
- E
daí?
-
Fui eu, Joseph. Fui eu... – ele perde o fôlego de tanto rir – Fui eu quem te entregou aos mercadores...!
James
ri descontroladamente. Joseph não consegue acreditar. Então foi aquilo o que o
mercador Archer quis dizer. Foi James quem o entregou aos mercadores. O
filósofo não acredita. Ele podia ter sido baleado naquele dia, talvez até morto.
Quão longe vai o ódio de seu próprio irmão?
Lágrimas
se formam em seus olhos. Ainda assim ele ergue seu machado, os saqueadores
exigem seu sangue. Joseph golpeia e a lâmina se crava no coração de James,
atravessando as costelas e rasgando o órgão sujo e corrompido daquele lixo. O
sangue flui como uma fonte e James não ri mais, tendo convulsões e espasmos até
morrer.
Cynthia
e sua mãe gritam com toda força e descem a arquibancada até a arena.
Ajoelhando-se ao lado de James, elas choram e gritam o seu nome, pedindo para
seu irmão acordar. Sua irmã levanta seu rosto coberto de sangue e grita:
- Assassino!
Ela
repete aquilo várias vezes e Joseph apenas assiste. Sua mãe levanta a cabeça de
James e a encosta em sua testa, chorando e lamentando sua morte. Três
saqueadores aparecem e as afastam dali, puxando-as pelos cabelos. O terrível
viking Harald empunha seu afiado facão e se prepara para decapitar James. Então
o filósofo o interrompe.
-
Espere! – os saqueadores se intrigam – Este homem é meu oponente e meu irmão.
Peço que me permita decepar a cabeça desse porco eu mesmo.
A
plateia se surpreende. Ninguém percebe, mas o mal está crescendo
descontroladamente no coração do filósofo.
Harald
lhe passa o facão e Joseph se agacha. Ele golpeia e perfura a garganta de James,
serrando-a com extremo ímpeto enquanto as veias e os nervos se rompem,
separando-se do resto do corpo. Segurando seu queixo, Joseph golpeia os ossos
da coluna cervical até ela se romper. Pegando-a pelos cabelos, Joseph se
levanta e caminha tranquilamente com a cabeça de seu irmão. Parando em frente à
lança, ele a ajeita delicadamente sobre a ponta de aço. Então Joseph a
pressiona com toda força e a perfura por dentro, até a ponta parar no interior
do crânio.
Enquanto
faz toda essa atrocidade, a plateia, o jarl, sua mãe, sua irmã e até Harald
assistem de olhos arregalados o filósofo terminar sua tarefa. Ninguém abre a
boca e um silêncio perturbador paira no ar. Joseph não demonstrou remorso em
momento algum.
Joseph
limpa seu rosto e enxuga o suor de sua testa. Virando-se para trás, ele se
depara com todos encarando-o, impressionados. Fenrir se levanta de seu trono e,
quebrando o silêncio, proclama:
-
Tribo de Vinland! Temos um novo Berserk!
Então
os saqueadores se levantam e gritam o seu nome, aplaudindo-o e saudando-o.
Joseph olha ao redor, vê todos aclamando-o e se emociona. Lágrimas escorrem de
seu rosto e ele acena, deliciando-se com a vitória e bradando como um
guerreiro, um campeão, um viking.
O
jarl acena e Harald lhe traz um casaco remendado com uma espécie de pele no
lugar do capuz. Joseph reconhece o formato improvisado do rosto de um urso,
inclusive com tecidos simulando orelhas. Ele lhe entrega e Fenrir solenemente
declara:
-
Joseph! Você agora é o novo Berserk da tribo de Vinland! Receba o manto do
feroz guerreiro nórdico das mãos de Harald, nosso último Berserk!
O
filósofo se espanta. Harald, o truculento e sanguinário Harald, também já foi
um escravo! Quantos Berserks haveriam em Vinland?
-
Joseph! – continua Fenrir – Nós o saudamos.
Então
todos se curvam ao filósofo, demonstrando obediência e disciplina às leis dos
nórdicos vikings.
Em
clima de festa, os saqueadores levantam o minúsculo filósofo nos ombros e
deixam a arena. Chegando à entrada da jaula, os saqueadores empurram as
mulheres para dentro, trancando-as. Joseph fica do lado de fora e se confunde.
-
Novo Berserk, este não é mais o seu aposento. – diz um saqueador – Há um lugar
reservado para você em nossos alojamentos, um lugar aquecido e limpo.
Eles
o levam para seu novo alojamento. Cynthia e sua mãe gritam das barras,
amaldiçoando-o enquanto são deixadas ali, no frio e na sujeira como animais
imundos.
Dentro
dos alojamentos, Joseph vê camas, cobertores e comida. Os saqueadores o recebem
com alegria e lhe indicam sua cama. Em seguida o presenteiam com suas novas
roupas, seu novo uniforme, trajes típicos de guerreiros vikings, tudo feito
rudimentarmente e com péssima qualidade. Joseph ergue seu colete e vê o desenho
de uma drakkar, o mesmo barco viking de brinquedo no parque de diversões.
“O
barco de Vinland” pensa ele.
Fenrir
aparece depois e o saúda.
-
Bem-vindo ao seu novo lar, Berserk Joseph. A partir de agora seu nome será Øysten. – então todos o
saúdam com o seu novo nome – Devo lembrá-lo que ainda há minha proposta. Vou
cumprir o que prometi.
Joseph
é solícito ao responder:
- Eu
não me esqueci, jarl Fenrir. Quanto à proposta, há algo que quero te pedir.
Então
todos se intrigam. O filósofo vê aquele homem alto e rústico se aproximar de
si. Parando à sua frente, ele pergunta:
- E
qual é o pedido, Berserk Øysten?
§
Durante
o resto do dia os saqueadores não vieram buscar as escravas. À noite elas
podiam ouvi-los festejando, mas ao amanhecer tudo era silêncio. Cynthia dormiu
abraçada à sua mãe, tranquilizando-a.
-
Você viu, mãe? Ninguém veio buscá-la. Nada vai acontecer. Aqueles estupradores
apenas quiseram nos assustar.
- E
se vierem? O que será de mim, minha filha?
-
Não vou deixar nada acontecer à senhora. Eu prometo.
Então
cinco saqueadores se aproximam com passos determinados e abrem a jaula. As
escravas se apavoram, mas eles não vieram buscar todas. Apenas duas.
Agarrando-as
pelos cabelos, elas tentam arranhar seus captores e se segurar nas barras. Elas
pedem ajuda às outras mulheres, mas elas não se mexem. Os homens ignoram seus
gritos e as tiram à força da jaula, levando-as sobre seus ombros.
Levando-as
à arena, as duas encontram Joseph parado no meio dela. Ele está de pé e as
encara com rancor. As duas notam como ele está diferente, o filósofo veste
aquele traje nórdico típico dos vikings. Lançando-as no chão, sua mãe olha para
ele e pergunta:
-
Meu filho! O que vai fazer?
Joseph
não responde. Ela tenta mostrar-se triste, fraca e amedrontada, assim
despertando-o compaixão. Sem a menor reação de seu filho, ela percebe que esse
truque não vai mais funcionar. Joseph mudou, agora seu coração é de pedra.
Harald
a prende pelos pulsos em uma corda presa ao telhado. Então ele a prende pelos
tornozelos, imobilizando-a. O saqueador puxa a corda de seus pulsos e ela é
suspensa no ar, ficando de frente para Joseph.
-
Tragam a escrava para mim! – ordena Fenrir, pedindo por Cynthia.
Outros
saqueadores a prendem ao lado do trono do jarl. Ela está pálida e soluça de
medo.
- O
que vão fazer com minha mãe?
- O
que você acha, querida? Fique aqui ao meu lado e assista comigo. – responde ele
e então lambe seu rosto.
Joseph
pega uma faca de caça e se aproxima. Sua mãe treme, o pavor lhe deixou
ofegante. Prevendo seu inevitável fim, sua mãe o chama e então diz:
-
Maldita hora... Maldita hora em que você nasceu... Eu te amaldiçoo, filho de
merda... – ofegando, ela continua. – Esfaqueie-me aqui... – então ela olha para
sua vagina – Mate-me pelo útero... Tenho nojo dele... Por que é dele que você
saiu...
Joseph
fica imóvel ao ouvir as últimas palavras de sua mãe. Apesar de todo o ódio, ela
ainda consegue abalá-lo.
Harald
se aproxima com uma enorme faca. Controlando suas lágrimas, o filósofo a puxa
pelos cabelos e abaixa sua cabeça. Sua mãe ainda se despede, dizendo:
- Te
vejo no inferno... “Filho”...
Joseph
fraqueja, mas nada vai fazê-lo parar. Harold então enfia violentamente a faca
no pescoço da mulher. Ela grita horrivelmente, sua voz esganiçada é de agonia e
pavor. Ao final, sua mãe se engasga com seu próprio sangue e empalidece perante
os seus olhos. Ela estava morta. Acabou.
O
filósofo assiste Harold terminar de serrar seu pescoço. Ainda a segurando pelos
cabelos, a cabeça de sua mãe se desprende e agora balança livremente em sua
mão. O filósofo sente satisfação.
Olhando
para o trono de Fenrir, Joseph vê sua irmã se debater desesperadamente nas cordas,
gritando até ficar rouca. Triunfante e vitorioso, o filósofo ergue a cabeça e
lhe exibe. Cynthia se espanta, não conseguindo acreditar naquele horror.
Com
a morte da mulher, o jarl Fenrir dá a ordem de encerramento. Joseph vai
pessoalmente cravar a cabeça em uma lança, sinistramente ao lado de seu irmão. Sua
irmã está em choque, vendo sua mãe morta e decapitada na arena sem poder fazer
nada.
Após
a execução, Cynthia é levada para o centro da arena. Amarrando-a pelos pés e
pelos pulsos, ela é imobilizada no chão. Nua da cintura para cima, ela teme o
que acontecerá depois.
Alguém
aparece à sua frente. O horror volta à sua mente ao ver Joseph de pé,
encarando-a com o corpo lavado de sangue. É o sangue de sua mãe. Cynthia estremece
de pavor, mas sentindo ódio e repulsão, é atrevida ao dizer:
-
Assassino! Eu tenho nojo de você! Banhado no sangue de James e de nossa mãe...
Vai me matar também? Acha que eu tenho medo de você? Só por que se aliou a
esses maníacos, você acha que eu vou implorar por minha vida?
O
filósofo pergunta:
-
Por acaso você já ouviu falar da famosa execução “águia de sangue”?
Cynthia
não entende. Então os homens a viram de bruços e começam a terrível tortura.
Joseph corta de cima a baixo a pele de suas costas, expondo sua coluna cervical.
Harald aparece em seguida, afastando sua pele e expondo as costelas. Serrando
seus ossos, eles puxam e afastam cada costela de sua caixa torácica, espirrando
sangue para todos os lados. Sua irmã se contorce horrivelmente em agonia, mas
ainda não era o fim. Harald enfia as mãos naquela angustiante abertura e,
agarrando os seus pulmões, de uma vez os arranca. Sua irmã suspira, puxando ar
para os pulmões que não mais existiam em seu peito. Joseph os segura também,
contemplando a carne de sua carne, sangue de seu sangue. Alguns minutos depois
Cynthia morre, torturada e assassinada por seu próprio irmão.
A
tribo de Vinland está perplexa com o filósofo. Com os braços até os cotovelos
lavados de sangue, ele olha para seus novos companheiros e se lembra daquela famosa
frase que diz: “aquele que não recebeu o calor de sua tribo, no futuro quer
vê-la queimar”.
Com
sua família trucidada e a justiça finalmente servida, ele se alivia.
Sua
vingança estava completa.
§
O
professor está estarrecido, não acreditando nos relatos de Joseph. Tentando
achar alguma palavra para quebrar o silêncio, ele só consegue sussurrar:
-
Joseph...
-
Sim, Timothy. Eu matei todos eles, decapitei minha mãe e trucidei minha irmã.
Foi isso o que o mundo exigiu de mim.
- O
quê?! – grita ele – O que pode ser tão terrível que o mundo exigiu de você?!
-
Maturidade, fortalecimento, adaptação... Tudo o que é necessário para
sobreviver. Tardiamente descobri que a única justiça que existe... – responde
ele, obscuramente – É a que fazemos com as nossas próprias mãos. Diferente de
antes, hoje sou um homem adequado a viver nesse novo mundo.
-
Mas Joseph, você se tornou um assassino, um torturador, um saqueador...! Não tem consciência dos atos desumanos que você
cometeu?
Irritando-se,
o filósofo responde:
- E
o que você queria, Tim?! Que eu acabasse escravizado, devorado ou morto por aí?
Peregrinando de cidade em cidade, fugindo para sempre como uma presa no meio
dos predadores? É isso o que queria? Que eu fosse como você, um fraco?
O
professor se ofende.
-
Não se trata de fugir, Joseph! Se trata de manter a humanidade! A moralidade! A
vida em sociedade! Nós temos leis, Joseph! Temos valores morais! Valores
religiosos! Esses homens se esqueceram, ignoram ou desconhecem tudo isso! Eles
são animais! Perseguem os mais fracos, fazem das ruínas uma selva onde impera a
lei do mais forte!
- E
qual é o problema?! – grita Joseph, iniciando uma discussão – Diga-me onde está
o problema em tudo isso? Você fala da perspectiva das vítimas, demonizando os
mais fortes com os adjetivos mais vis. Mas e pela perspectiva dos fortes? Eles
se acham errados? Por que achariam se todas as suas “leis, valores morais e
valores religiosos” foram desintegrados pela chama nuclear? Quando você vai
acordar? Até quando vai continuar achando que o velho mundo ainda existe? Isto existe agora, Tim! Esta é a
realidade que você se recusa a reconhecer! A sua sociedade se foi!
Ele
caminha de um lado ao outro enquanto fala, exprimindo sua lógica.
-
Não acredito! Você justifica as ações bárbaras desses bandidos que rondam as
ruínas. Você fala de vítimas e fracos, mas se esqueceu que há pouco tempo atrás
esteve conosco lutando para sobreviver?
-
Ninguém quer ser fraco, Timothy. – responde ele, seriamente – Ninguém quer
estar por baixo. Todos querem ser os mais fortes, os mais belos, os mais
inteligentes. Isto se chama vontade de potência. Talvez você esteja enganado
pelo politicamente correto, mas hoje a verdade se mostra como ela é, livre
dessas hipocrisias. Se entre os mais fortes você tem a chance de viver em
segurança, você será tolo o bastante para rejeitar?
- Eu
tenho princípios.
O
filósofo ri.
- E
de que servem princípios? Na lei da selva, você e seus princípios já estariam
na barriga de um leão.
-
Isto não é uma selva, Joseph. Esta é uma sociedade livre, igualitária,
democrática... Devemos reconstruir a sociedade dentro desse parâmetro.
-
Reconstruir? E quem construiu a
sociedade primitiva? Foram os idealistas e fracos como você? Não! Esses
parâmetros vieram milênios depois!
Você é professor, Timothy. Olhe para a História e me aponte um único exemplo de
uma sociedade que não tenha surgido através do sangue dos fracos, dos ossos do
inimigo e do suor dos escravos. Tribos, reinos, impérios e até repúblicas nunca viveram em paz, nunca desejaram a paz e
nunca a desejarão! A História foi escrita com sangue! Não com falácias
hipócritas de gente idealista e ignorante.
Timothy
é incapaz de resistir à inteligência de Joseph. Estaria ele certo, afinal?
Seria Timothy corajoso o bastante para encarar a si mesmo, admitindo que todas
as suas convicções se tornaram cinzas junto com o velho mundo?
-
Joseph, o que você está fazendo é loucura...
-
Não, Tim. Isto é se adaptar para sobreviver. Gostaria de dizer que o mundo vai
melhorar, mas não vai. Vai piorar e se tornará infernal. Vai levar algumas
décadas ainda, talvez séculos, até a sociedade sair dessa lama primitiva e voltar
para um tempo pacífico novamente. Espero que um dia entenda. – e então ele
conclui – A propósito, meu nome não é mais Joseph. Agora sou Øysten, o novo Berserk da
tribo de Vinland. Servimos ao nosso jarl Fenrir.
-
Berserk? Fenrir? Vocês pensam que são vikings? – pergunta ele, espantado.
-
Agora é o que somos.
O
professor respira, demonstrando abatimento e tristeza. Após alguns segundos ele
pergunta:
-
Você não vai voltar, não é?
Controlando
suas lágrimas, o filósofo responde:
-
Não.
Timothy
se entristece. Olhando para seu grande amigo que agora se esconde atrás de um
coração de pedra, ele não tem forças para dizer adeus.
Dando-lhe
as costas, o professor desce a colina. Lágrimas se escorrem em seu rosto
amargurado, mas ele prefere não mostrar.
§
Voltando
ao seu abrigo, ele passa pela entrada. Uma placa diz: “Clínica Psiquiátrica”.
O
grupo está reunido em um dos quartos daquele hospício abandonado, esperando por
notícias do professor. Timothy está abatido, após as duras palavras de seu
velho amigo, ele prefere ficar sozinho.
Subindo
as escadas, ele caminha cabisbaixo pelos corredores dos internos. Nos quartos
ele vê macas, paredes almofadadas e as típicas camisas de força. Seus passos
ecoam pelo silêncio e penumbra, mas ele não se importa. Seus medos imaginários
não são capazes de vencer seu desgosto.
À
frente ele vê uma porta escrito “direção geral”. Ao entrar ele vê uma longa
mesa, uma cadeira e alguns armários próximo às paredes. Sentando-se na cadeira
do diretor, ele apoia os cotovelos na mesa e passa as mãos em sua nuca. Então
algo chama sua atenção.
As
gavetas dos armários estão abertas. Ao longe ele vê uma ficha de paciente,
aparentemente alguém a deixou ali, evidente entre as outras. Timothy se levanta
e a averigua.
Os
documentos falam sobre um paciente internado durante anos no hospício. Os
médicos descreveram seu comportamento, interessando a Timothy.
“O
paciente nº(rasurado) de nome (rasurado) demonstra profunda psicose e perda de
contato com a realidade. Sendo um homem de aparência saudável, ele engana
facilmente com suas avançadas habilidades de persuasão. Deve-se ressaltar que é
um homem manipulador, dissimulado, inteligente, soberbo e incrivelmente cruel.
O paciente vive em um delírio permanente, típico das psicoses incuráveis.
Vivendo em seu próprio mundo imaginário, o paciente refere-se a si mesmo como
‘jarl Fenrir’, líder de uma tribo de vikings, e chama a clínica de ‘Vanaheim’.
Por ser muito inteligente e ter pleno domínio sobre a mitologia nórdica, muitos
pacientes foram persuadidos por ele e acreditam convictamente serem vikings,
tornando-o extremamente perigoso socialmente. É impossível discerni-lo como
doente. Com sua inteligência e capacidade de persuasão, ele pode convencer até
as pessoas normais a segui-lo, mesmo que inconscientemente. Jarl Fenrir é um
líder natural em essência, mas acima de tudo, um perigo enorme à sociedade,
devendo ser mantido em total reclusão”.
Lembrando-se
do que o filósofo disse, o terror recai sobre sua mente como um golpe de
martelo. “O paciente daquele hospício, o homem com as alusões vikings, não é o
mesmo líder daquela tribo de saqueadores?”.
Arregalando
os olhos de susto, Timothy põe a mão em seu rosto e sussurra em
lamentação:
-
Joseph...!

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