terça-feira, 14 de abril de 2020

Os Fracos - 27 - O Filósofo II


O Filósofo

O professor sobe silenciosamente a colina. Entardece nas ruínas e as cinzentas nuvens ficam mais escuras. No topo da colina, onde antes haviam aconchegantes residências, hoje há apenas devastação e detritos. Timothy não está sozinho, os saqueadores estão lá em cima, parados como sentinelas enquanto observam algo além do alto relevo.
Um homem está lá em cima, olhando para o horizonte e de costas para Timothy. Agachando-se, ele se esgueira entre os carros e alcança aquele homem.
- Joseph!
O filósofo se assusta, virando-se rapidamente.
- Tim?! O que está fazendo aqui?!
O professor está agachado e olhando para ele. Suas mãos, suas roupas e seu rosto estão sujos.
- Eu vim te resgatar! – e então Timothy nota a estranha roupa do filósofo. Levantando-se, o professor pergunta – Que roupas são essas?!
Joseph veste uma espécie de roupa medieval com luvas, botas, capa e até um elmo. Há ombreiras feitas de pedaços de pneu em seu corpo, e ele veste um colete com um desenho exótico, semelhante a um barco.
- Vá embora!
- O quê?
- Eu não quero ser resgatado!
O professor não compreende. Aproximando-se e segurando seus curtos ombros, ele sacode seu corpo franzino dizendo:
- Você perdeu a cabeça?!
Timothy nota como é fisicamente maior do que Joseph. Abaixando sua cabeça para olhá-lo, o professor vê um homem minúsculo, pequeno e leve como uma criança. O filósofo se irrita e o empurra de volta, demonstrando agressividade nada recomendável a homens daquele tamanho.
- Fique longe de mim! Eu já disse para ir embora! Não vou a lugar algum com você!
Abalado com sua insistência, o professor não sabe o que responder.

§

Parado no meio da arena e cercado por uma plateia de maníacos homicidas, o filósofo sente seu corpo tremer. Fenrir, o líder da tribo de Vinland, anima o público como se fosse um apresentador. Pegando um dos papeis no chão, Fenrir lê o nome do próximo gladiador e anuncia ao público.
Embriagados com o sangue derramado e sedentos por mais, os saqueadores gritam euforicamente. O outro escravo escolhido se apavora, arregalando seus olhos e relutando entrar na arena.  Joseph olha para sua mãe e irmã, sua mãe lhe dá as costas e continua cuidando de seu irmão. Sua irmã o puxa e então sussurra aos seus ouvidos:
- Joseph, a vida de nossa mãe está em suas mãos. Nós te amamos muito. Sentiremos saudades. 
- Está se despedindo?
- Você quer que nossa mãe morra?! – responde ela, rispidamente.
- Não, mas...
- Joseph, nossa mãe foi estuprada e nosso irmão está com câncer! Por acaso você não se importa com nossa família? Vai ser egoísta como sempre e nos deixar para trás? 
Harald, o truculento saqueador, joga o outro escravo na arena. Então o filósofo interrompe o líder, dizendo:
- Espere! Peço que mude sua proposta! Se eu vencer os duelos e me tornar Berserk, então poderá fazer o que quiser com nossa mãe!
O público se aquieta por um tempo. Olhando-o de cima a baixo, os saqueadores veem o homem franzino propor algo absurdo e então caem na risada, gargalhando em total escárnio.
- Você vencer...? – pergunta Harald, gargalhando.
- Rapaz, você não se acha pequeno demais para pedir algo tão grande?
Inclusive os escravos estão rindo. Seu adversário parece esquecer o medo para rir também.
- Está vendo aquela lança? – pergunta Harald – Ao final deste duelo, espetarei sua cabeça nela.
- Isto é alguma brincadeira? – pergunta Fenrir.
- Não. – responde Joseph – Eu não estou brincando. Eles são minha família. Farei tudo para protegê-los.
E então Cynthia ri por dentro.
- Você nos diverte, escravo. Obviamente sua proposta é absurda, mas que diferença faz? Dentro de instantes você não estará mais vivo mesmo.
O líder aceita. Harald então entrega a porta de carro e um machado para os dois.
O duelo se inicia. O escravo, que minutos antes estava apavorado, olha para Joseph e sorri, julgando-o pelo tamanho. Percebendo que o único meio de sair vivo dali é matando seu patético oponente, o escravo avança contra Joseph rugindo como um leão. A intenção do escravo é apavorá-lo, intimidá-lo e fazê-lo baixar a guarda, matando-o no primeiro golpe. O homem ergue seu machado e golpeia com toda sua força. Então algo acontece.
O machado crava no chão empoeirado. Joseph se esquivou com tremenda agilidade, algo que só os mais pequenos e franzinos podem fazer. O homem retira com dificuldade o machado do chão e novamente o golpeia. Desta vez o filósofo defende e a lâmina se prende em seu escudo. Vulnerável ao prender sua arma, o escravo tenta arduamente desprendê-la quando Joseph ergue seu machado e o golpeia no joelho.
O homem grita horrivelmente, silenciando a plateia. Cambaleando pela arena, o escravo solta seu escudo e leva suas mãos trêmulas ao joelho. Sangue escorre pela ferida e os saqueadores se encurvam para ver melhor. Todos sentem excruciante aflição ao ver a patela de seu joelho pendurada pela pele em sua perna.
Chorando como uma criança, o homem cai no chão e agoniza na frente de todos, pedindo por ajuda que nunca virá. Perplexos, os saqueadores assistem o filósofo se aproximar e fitá-lo nos olhos. Então o homem implora:
- Piedade! Tenha piedade!
A maldade o envolve como uma capa diabólica. Refletindo sobre a cena, Joseph relembra os momentos da luta e duvida seriamente que seu oponente, o agonizante escravo aos seus pés, teria piedade em seu lugar. Um sentimento estranho invade sua mente, mas ele não consegue identificar o que é.
Não há opções ali. Dois entram e um sai. A regra não será alterada e com Joseph não haverá exceção. Agarrando-se ao instinto de sobrevivência, o filósofo ergue ao alto seu machado, parando-o no ar por um instante. Os saqueadores parecem segurar a respiração com sua pausa. “Antes você do que eu” pensa ele e então o golpeia, descendo o machado com toda sua força. A lâmina atravessa o estômago de seu oponente, abrindo um corte diagonal em seu abdômen e expelindo um sangue gorduroso. O homem expira, soltando seu último fôlego e morrendo aos seus pés.
Os saqueadores gritam, extasiados com a emocionante luta. Fenrir entra na arena e ergue seu braço esquerdo, parabenizando-o e exibindo o vencedor a todos.
- Temos um pequeno homem e um grande vencedor! – diz ele, sorrindo.
Todos riem e comemoram, surpresos com o improvável desfecho do duelo. Inclusive Harald sorri, embora discretamente.
Recebendo elogios e até aplausos, Joseph se felicita ao obter o reconhecimento merecido. E então ele reconhece o estranho sentimento que o invadiu minutos atrás. Chama-se subjugação, selvageria e puro prazer de vencer.
Sua família, porém, o encara com profundo rancor e seu irmão parece se consumir de pura inveja.
De volta à jaula, os homens e as mulheres ainda olham surpresos para Joseph. Alguns saqueadores aparecem nas barras para parabenizá-lo, outros até oferecem cerveja, o fictício hidromel daqueles pseudovikings. Sua família está no outro lado da jaula, evitando-o.
Aproximando-se dos três, Cynthia se levanta e o impede dizendo:
- O que você quer?
- Vim ficar com vocês três.
- Tínhamos um acordo! – grita ela.
- Cynthia, está tudo bem. Deixe-o ficar conosco. – responde sua mãe.
Então os dois se sentam ao redor de James. Ele está piorando e fios de cabelo se acumulam em seus ombros. Ofegando, ele olha para Joseph e pergunta:
- Você deve estar se achando o máximo, não é? Responda-me, como é ser um assassino?
Ele se surpreende.
- Eu não sou um assassino!
- Você é sim! – retruca sua irmã – E um arrogante e egoísta também! Por que venceu o duelo? Foi para se vangloriar?
- Não! Eu ia morrer ali! Se eu não o matasse ele me mataria!
- E quanto a nossa mãe? Se esqueceu dela de novo? Do que vão fazer com ela? – pergunta James.
- Nada disso teria acontecido se não fosse por você!
Então os três imediatamente ficam contra ele. Sua mãe responde:
- Seu irmão está com câncer! Você quer que meu filho morra naquela arena como um indigente?!
O filósofo não contém sua indignação.
- E eu posso morrer ali? É certo ele fraudar o sorteio para que eu morra em seu lugar?
- Não responda à minha mãe! – vocifera sua irmã mais velha.
Sua mãe começa a chorar. Ela se lamenta com as mãos nos olhos.
- O que eu fiz para merecer isso? Por que um fardo tão grande foi posto em minha vida? Como pode um filho tão egoísta, desgraçado e maldito ter saído de dentro de mim...?
O choro daquela senhora comove até os outros escravos que assistiam à discussão dentro da jaula.
- Mamãe...? – assusta-se Joseph.
Nunca antes ele a ouviu ofendê-lo com palavras tão duras como aquelas.
James diz:
- Fique longe de nós. Nossa mãe não quer estar perto de um assassino como você.
- Talvez quando esses loucos matarem e arrancarem a cabeça de nossa mãe você perceba o erro que cometeu. – diz sua irmã.
Levantando-se, o filósofo se afasta. Cabisbaixo, ele percebe que os escravos o encaram com reprovação. Aqueles manipuladores hipócritas conseguiram de novo, transformaram a vítima em vilão. Mas ele está realmente magoado com sua mãe. Aquela vadia o rejeitou durante anos, apoiou o ato covarde de seu irmão e agora troca um filho por outro. Joseph não é egoísta, aqueles três que são. Para sobreviver, eles não hesitaram em joga-lo na arena para morrer. Sua morte será o preço a se pagar para que James e sua mãe vivam.
“Um filho por outro” pensa ele. Sentado contra a barra, ele reflete sobre o ocorrido. A dor da rejeição é dura demais para suportar.

§

À noite os saqueadores aparecem para levar as mulheres. O filósofo vê sua irmã sendo puxada por um motoqueiro barbudo. Sua mãe é levada também, mas antes ela beija a testa de James e deixa tranquilamente a jaula, sem sequer olhar para Joseph. “O que realmente eu sou para vocês?” pensa ele durante a noite.
Ao amanhecer, Harald aparece para buscar os homens. Agora apenas quatro sobraram. Alimentando-os no refeitório, eles são conduzidos para a arena onde o próximo espetáculo se realizará.
Ao entrar na arena, Joseph vê a cabeça decepada de seu oponente na lança. Alguns saqueadores o cumprimentam e o jarl Fenrir se aproxima para cumprimentá-lo também. Joseph se sente lisonjeado.
Fenrir certifica-se de que não haverá mais fraude no sorteio e então joga os papeis ao alto. Os dois selecionados não são Joseph e nem James. O líder sobe ao seu trono, sentando ao lado das escravas. O filósofo vê sua mãe e sua irmã ali, com hematomas e arranhões no corpo. Elas o ignoram durante todo o duelo.
Os dois escravos lutam na arena. Após alguns golpes desajeitados, um deles solta a porta de carro e desiste da luta, recusando-se a continuar. Os saqueadores se enfurecem, Harald intervém e lhe faz ameaças. Apesar da coerção, o escravo ainda recusa-se a lutar. Ele não demonstra reação e parece não ouvir as palavras terríveis que Harald fala em seus ouvidos.
O jarl se levanta e pergunta o que está havendo. Harald informa que ele não quer lutar. Irritado, Fenrir autoriza a punição aplicada aos covardes. Dois saqueadores entram na arena e levam o escravo dali.
- Harald! Escolha outro escravo e recomece o duelo! – ordena ele.
Joseph está ao lado de seu irmão. O saqueador olha para os dois, causando grande tensão entre eles e as duas lá em cima. Harald se abaixa para pegar os nomes quando o filósofo o interrompe.
- Espere! – o saqueador se intriga – Não precisa sortear, eu me ofereço a lutar.
A plateia se alvoroça. James ouve aquilo e ri, aliviado e extasiado com a estupidez de seu irmão. Mas todos estão eufóricos com a tremenda coragem de Joseph.
- O que disse, garoto?
- Disse que me ofereço a lutar.
Harald é áspero ao dizer:
- Você é demente?
Os saqueadores pedem por Joseph. Fenrir surpreende-se pela segunda vez com o filósofo. Então ele o autoriza a entrar na arena.
Harald lhe dá a porta de carro e o machado. Joseph entra na arena e a plateia brada de euforia, saudando-o como a entrada do carismático gladiador no coliseu de Roma.
À sua frente, seu oponente o encara. Ele está assustado, mas completamente disposto a lutar até a morte. Joseph ergue seu machado e o gira em sua mão, impressionando a todos ainda mais. O filósofo põe o escudo diante de seus olhos, exibindo técnica e postura de luta que ninguém imaginou que ele tivesse. Flexionando as pernas, ele prepara-se para o duelo.
Sentindo-se desafiado, seu oponente ergue seu machado e tenta girá-lo também. Mas ao girar ele o deixa cair. A plateia gargalha, envergonhando-se na frente de todos. Ele se agacha para apanhá-lo, apoiando seu escudo no chão. Quando está prestes a se levantar, ele vê de relance a lâmina pesada e fria voar em sua direção e cravar-se entre seus olhos.
A plateia se emudece. O oponente de Joseph solta seu escudo e então cai para frente, morrendo sobre o chão.
Os saqueadores estão boquiabertos, eles demoram a entender o que houve. O filósofo estudou seu oponente de longe, aguardando o momento certo para atacar. Distraindo-se ao tentar intimidar Joseph, o escravo desviou sua atenção por meros segundos, dando-lhe o tempo necessário para o ataque. E aqueles foram seus segundos fatais. Joseph arremessou seu machado no exato momento em que seu oponente se desprotegia, apoiando-se no escudo e apanhando sua arma do chão.
Algo bizarro e inexplicável acontece. Em sincronia os saqueadores começam a falar o nome de Joseph, começando timidamente e então bradando como um trovão. Em instantes eles se levantam e gritam seu nome, erguendo seus braços com entusiasmo. Nunca antes os saqueadores de Vinland se agitaram em favor de um escravo. Joseph estava sendo ovacionado!
No trono de Fenrir, o filósofo vê sua irmã se indignar com sua vitória, protestando-a para ninguém. Sua mãe sente-se ameaçada, sua morte se aproxima. À beira da arena, o moribundo James o inveja. Para o horror de sua repugnante família, tudo o que eles mais evitaram acontecia e não havia nada que eles pudessem fazer para impedir.
Joseph, o problemático e estúpido Joseph é enaltecido perante todos. A mesma pessoa que eles se esforçaram para suprimir e sufocar de todos os seus talentos é reconhecido publicamente, causando-lhes inveja que somente os mais medíocres, ordinários e covardes são capazes de ter. Recusando-se a admitir, eles percebem que nele há uma luz e essa luz é impossível de se apagar.
Fenrir proclama a todos.
- Tribo de Vinland! Temos um novo favorito em nossa arena!
Harald entra na arena e retira o machado do rosto do escravo. O saqueador golpeia seu pescoço e separa sua cabeça, em seguida espetando-a em uma estaca.
O duelo termina e os dois escravos restantes são levados de volta à jaula. O desfecho do combate se aproxima.

§

Ao entrarem na jaula, os saqueadores parabenizam o filósofo e um deles lhe oferece um casaco, para a surpresa de todos. Quando aqueles homens cruéis vão embora, sua mãe aparece ao seu lado, para a surpresa de Joseph.
- Oi, meu filho.
- Mãe...?
- Eu só vim dizer parabéns pela vitória hoje.
Joseph estranha. Até ontem ele era um renegado e assassino.
- Por que isso agora?
- Tivemos nossas diferenças, mas eu sou sua mãe e estou aqui para dizer que eu nunca abandonaria você.
- Ah, nunca?! – exclama ele, ainda magoado.
- Você foi um filho especial, um filho que eu nunca fui capaz de entender. Sempre nos incomodando com seus sonhos, suas ambições, suas palavras que ninguém podia entender. Nossa família não foi capaz de entendê-lo. Você sempre quis ser mais do que nós. Ser quem você não é.
- Como assim quem eu não sou?! – pergunta ele, indignado – Eu sou um filósofo! Lecionei e publiquei livros! Viajei pelo mundo! O que vocês fizeram além de procriarem e se amontoarem na casa do pai?
Ela o despreza por dentro, mas mantém a calma ao responder:
- É exatamente esse pensamento que não entendemos. Você não é um de nós ou nós não somos bons o suficiente para você. Não sei por que você nos despreza tanto, mas sua família sempre esteve ao seu dispor. Foi você quem nos abandonou.
- Agora a senhora está falando como o canceroso do James.
- Não fale assim do meu filho! – explode ela em fúria, desejando estapeá-lo – Desculpe, você não sabe como é ter um filho morrendo. Se você tivesse alguém saberia. Mas não é disso que quero falar agora. Eu vim aqui te pedir perdão, Joseph. Peço perdão por tudo o que aconteceu no passado. Mesmo que você tenha nos dado as costas para viver os seus “sonhos”, eu sei que há algo que te fizemos e só você sabe.
Sua mãe o olha com afeição e carinho, algo que ela raramente lhe deu. Aguardando sua resposta, Joseph se enche de rancor e mágoa, mas incapaz de lidar com a rejeição, ele se desmancha em lágrimas e chora na frente de todos. Sua mãe o abraça e ele corresponde, chorando em seu ombro. Ela acaricia seus cabelos e ele sente o toque de sua mão, o contato maternal que todo filho deve ter.
Joseph não quer viver com ódio. Ele também quer uma família, ele precisa de uma. Só ele sabe o quanto é desesperador viver na solidão.
- Você me perdoa? – pergunta ela.
- Sim, mãe. Eu te perdoo.
Respirando aliviada, ela diz:
- Esqueça o duelo amanhã. Esqueça aquela proposta. Mamãe não quer um filho assassino. Quando os saqueadores te derem as armas, solte-as. Recuse-se a lutar, Joseph.
Então ele abre os olhos e a empurra.
- Espera aí! Você não está aqui para pedir perdão! Você está aqui para salvar sua pele!
Ao ouvi-lo confrontar a sua mãe, os escravos se aglomeram.
- Não, meu filho! Eu te amo, eu vim pedir seu perdão... – responde ela, fazendo um olhar pouco convincente.
- Mentira! – grita ele, assustando-a – Por que vocês me rejeitaram? Por que vocês me desprezam? Por que vocês me odeiam? O que foi que eu fiz?!
- Olhe para você, um homem patético, solitário e carente de amor! Eu tenho pena de você, Joseph! Se acha tão culto e inteligente, mas não consegue viver sem o carinho da mamãe...
Ela zomba dele, tratando-o como se ele não fosse seu filho. Cynthia e James aparecem e o confrontam também.
- Você é a vergonha de nossa família, um lixo que ainda não foi descartado! Acha que seu dinheiro faz de você melhor do que nós? Você não merece um centavo do que conseguiu. O seu dinheiro deveria ser nosso! – grita James, revelando a ganância em sua inveja.
- Verme egoísta! Se aliou aos saqueadores para assassinar os escravos! – diz Cynthia, manipulando-os.
- Eu te rejeito, filho maldito! Desde sua infância já percebi. Estive certa quando te chamei de criança de merda!
Ao dizer aquilo, velhas lembranças retornam à sua mente. O ódio o domina mas, incapaz de resistir aos ataques simultâneos de sua família, ele decide agredi-los fisicamente com toda a sua fúria.
Alguém abre a porta da jaula e diz:
- Mulheres! Para fora!
Os saqueadores chegaram antes. Joseph treme de ódio e seu coração bate violentamente. Para a sorte daquelas baratas humanas, aquela discussão não será resolvida ali. Controlando-se, ele se senta e respira fundo. Enchendo-se do mais sublime sentimento de vingança, ele pensa.
“Vocês vão me pagar!”
 
§

O dia da revelação finalmente chega. Joseph e James são alimentados e levados à arena. Os dois não trocam nenhuma palavra, nem mesmo se encaram. Há muito ressentimento no ar e desta vez o filósofo não vai perdoá-los.
Ao entrar na arena, os saqueadores novamente saúdam a Joseph. Ele levanta os braços e acena, sendo digno de receber homenagens até dos homens mais terríveis. Aos pés de Fenrir estão sua mãe e irmã, encarando-o com ódio e medo, temendo o resultado indesejado do último duelo.
Algo impressiona Joseph. Ao lado delas está o homem que se recusou a lutar no duelo anterior. Ele teve seu corpo depilado, seu rosto barbeado e os saqueadores lhes passaram batom. Eles o vestiram com roupas femininas iguais às das escravas, mas nada o espanta mais do que saber que aquele homem teve seu pênis castrado. Harald falou a verdade afinal. Ele realmente o transformou em uma escrava sexual deles.
Fenrir se levanta e anuncia:
- Tribo de Vinland! Hoje será revelado quem será o nosso novo Berserk! Será o canceroso ali embaixo? – ele aponta para James e a plateia o vaia. – Ou será Joseph, o favorito?
A plateia torce pelo filósofo com empolgação. Harald os conduz para dentro da arena e os entrega as armas. Joseph maneja o machado com perfeição, girando-o como antes e animando os saqueadores. Devido a inveja, seu irmão sempre viu maldade nos talentos de Joseph. Sempre que o filósofo demonstrava habilidade em algo, seu irmão fazia de tudo para impedi-lo de se exibir. Ele não suportava ver seu irmão mais novo se destacando, não tolerava a ideia que aquele menino franzino era melhor do que ele.
O jarl autoriza e o duelo se inicia. James o encara com tanto ódio que é capaz de enfraquecê-lo. Apesar de estar doente, com dores e ofegante, o ódio de James consegue sobrepor suas desvantagens. Ele diz:
- Cão egoísta! Vai deixar nossa mãe morrer por pura vanglória? Se fosse tão correto largaria o machado e deixaria eu te matar.
Joseph ri.
- Realmente acha que eu deixaria uma raça de porcos como vocês viver?
James se enfurece.
- Eu sempre te bati quando éramos crianças, Joseph. Por que acha que vai ser diferente agora?
- Porque não somos mais crianças.
- É mesmo? E o que você é hoje? Olhe para você, é menor até do que a nossa irmã! Um homenzinho fraco e franzino. Não sei que sorte foi aquela nos últimos duelos, mas não se repetirá hoje.
- É uma pena que você não esteja vivo depois que esse duelo acabar, senão veria o que vou fazer depois.
- Isso é uma ameaça?
- Pode apostar que sim.
Ele se vira e acena para a plateia, agitando seus braços e batendo o machado contra o escudo. Os saqueadores riem da provocação. Sentindo-se humilhado, James avança contra o filósofo.
O golpe de seu machado pesa em seu escudo, fazendo-o recuar. James continua golpeando-o obstinadamente, destruindo a lataria da porta de carro. Se continuar atacando, logo o escudo de Joseph se quebrará. O filósofo bloqueia mais uma vez e então tenta acertá-lo na perna. James se defende, surpreendendo-o.
A selvageria o domina. Seu irmão ataca incansavelmente, destruindo totalmente seu escudo. Joseph é obrigado a largá-lo, preocupando os saqueadores. Todos na arena se emudecem com o desenrolar da luta. Joseph, agora desprotegido, segura o machado com as duas mãos. James sorri maliciosamente, farejando o medo em seu irmão.
James o ataca. Seu machado desce sobre Joseph e ele o defende com o cabo de seu próprio machado. Vendo a lâmina se aproximar de seu rosto, ele tenta arduamente repelir o ataque. Então Joseph se lembra de algo. Não se pode medir força com alguém mais forte. Virando seu machado, ele deflete o golpe para a lateral.
O filósofo corre para o outro lado da arena e espera seu irmão. James pensa que ele está fugindo e então planeja esgotá-lo de suas forças, vencendo-o pelo cansaço. Ele corre contra Joseph e inacreditavelmente o filósofo lhe dá as costas, apavorando os saqueadores. Perto demais para se esquivar, James violentamente golpeia com seu machado. Joseph se encurva para frente, gira seu corpo e então lhe dá o contragolpe, rápido como um relâmpago. Novamente todos seguram o fôlego para ver.
O braço de James voa pelo ar. Gritando desesperadamente, ele olha para onde deveria haver seu braço e vê apenas o sangue esguichando de um corte impecável. O braço decepado cai no chão, ainda segurando o machado. Então Joseph o golpeia na coxa e ele imediatamente desaba, agonizando histericamente na arena.
Joseph para ao lado de James, ele está lavado em sangue. Ele observa com mórbida satisfação enquanto seu irmão chora como uma criança, berrando e chamando pateticamente por sua mãe. “Que ridículo, ele ainda chama pela mamãe”. Joseph ergue seu machado e então seu irmão o interrompe.
- Espere! Tem algo que eu ainda não te falei... – James se arrasta, tentando se apoiar no braço que lhe resta – Lembra-se daquele dia na escola? Quando nos reencontramos?
Joseph responde friamente.
- É óbvio.
- Fui eu...! – seu irmão começa a rir, controlando a dor – Fui eu!
- O que foi você, verme?
- Eu te vi nos espiando na arquibancada. Eu te vi se esgueirando pelos cantos. Ah, eu te reconheceria de longe...! – e então ele se esforça para rir mais.
- E daí?
- Fui eu, Joseph. Fui eu... – ele perde o fôlego de tanto rir – Fui eu quem te entregou aos mercadores...!
James ri descontroladamente. Joseph não consegue acreditar. Então foi aquilo o que o mercador Archer quis dizer. Foi James quem o entregou aos mercadores. O filósofo não acredita. Ele podia ter sido baleado naquele dia, talvez até morto. Quão longe vai o ódio de seu próprio irmão?
Lágrimas se formam em seus olhos. Ainda assim ele ergue seu machado, os saqueadores exigem seu sangue. Joseph golpeia e a lâmina se crava no coração de James, atravessando as costelas e rasgando o órgão sujo e corrompido daquele lixo. O sangue flui como uma fonte e James não ri mais, tendo convulsões e espasmos até morrer.
Cynthia e sua mãe gritam com toda força e descem a arquibancada até a arena. Ajoelhando-se ao lado de James, elas choram e gritam o seu nome, pedindo para seu irmão acordar. Sua irmã levanta seu rosto coberto de sangue e grita:
- Assassino!
Ela repete aquilo várias vezes e Joseph apenas assiste. Sua mãe levanta a cabeça de James e a encosta em sua testa, chorando e lamentando sua morte. Três saqueadores aparecem e as afastam dali, puxando-as pelos cabelos. O terrível viking Harald empunha seu afiado facão e se prepara para decapitar James. Então o filósofo o interrompe.
- Espere! – os saqueadores se intrigam – Este homem é meu oponente e meu irmão. Peço que me permita decepar a cabeça desse porco eu mesmo.
A plateia se surpreende. Ninguém percebe, mas o mal está crescendo descontroladamente no coração do filósofo.
Harald lhe passa o facão e Joseph se agacha. Ele golpeia e perfura a garganta de James, serrando-a com extremo ímpeto enquanto as veias e os nervos se rompem, separando-se do resto do corpo. Segurando seu queixo, Joseph golpeia os ossos da coluna cervical até ela se romper. Pegando-a pelos cabelos, Joseph se levanta e caminha tranquilamente com a cabeça de seu irmão. Parando em frente à lança, ele a ajeita delicadamente sobre a ponta de aço. Então Joseph a pressiona com toda força e a perfura por dentro, até a ponta parar no interior do crânio.
Enquanto faz toda essa atrocidade, a plateia, o jarl, sua mãe, sua irmã e até Harald assistem de olhos arregalados o filósofo terminar sua tarefa. Ninguém abre a boca e um silêncio perturbador paira no ar. Joseph não demonstrou remorso em momento algum.
Joseph limpa seu rosto e enxuga o suor de sua testa. Virando-se para trás, ele se depara com todos encarando-o, impressionados. Fenrir se levanta de seu trono e, quebrando o silêncio, proclama:
- Tribo de Vinland! Temos um novo Berserk!
Então os saqueadores se levantam e gritam o seu nome, aplaudindo-o e saudando-o. Joseph olha ao redor, vê todos aclamando-o e se emociona. Lágrimas escorrem de seu rosto e ele acena, deliciando-se com a vitória e bradando como um guerreiro, um campeão, um viking.
O jarl acena e Harald lhe traz um casaco remendado com uma espécie de pele no lugar do capuz. Joseph reconhece o formato improvisado do rosto de um urso, inclusive com tecidos simulando orelhas. Ele lhe entrega e Fenrir solenemente declara:
- Joseph! Você agora é o novo Berserk da tribo de Vinland! Receba o manto do feroz guerreiro nórdico das mãos de Harald, nosso último Berserk!
O filósofo se espanta. Harald, o truculento e sanguinário Harald, também já foi um escravo! Quantos Berserks haveriam em Vinland?
- Joseph! – continua Fenrir – Nós o saudamos.
Então todos se curvam ao filósofo, demonstrando obediência e disciplina às leis dos nórdicos vikings.
Em clima de festa, os saqueadores levantam o minúsculo filósofo nos ombros e deixam a arena. Chegando à entrada da jaula, os saqueadores empurram as mulheres para dentro, trancando-as. Joseph fica do lado de fora e se confunde.
- Novo Berserk, este não é mais o seu aposento. – diz um saqueador – Há um lugar reservado para você em nossos alojamentos, um lugar aquecido e limpo.
Eles o levam para seu novo alojamento. Cynthia e sua mãe gritam das barras, amaldiçoando-o enquanto são deixadas ali, no frio e na sujeira como animais imundos.
Dentro dos alojamentos, Joseph vê camas, cobertores e comida. Os saqueadores o recebem com alegria e lhe indicam sua cama. Em seguida o presenteiam com suas novas roupas, seu novo uniforme, trajes típicos de guerreiros vikings, tudo feito rudimentarmente e com péssima qualidade. Joseph ergue seu colete e vê o desenho de uma drakkar, o mesmo barco viking de brinquedo no parque de diversões.
“O barco de Vinland” pensa ele.
Fenrir aparece depois e o saúda.
- Bem-vindo ao seu novo lar, Berserk Joseph. A partir de agora seu nome será Øysten. – então todos o saúdam com o seu novo nome – Devo lembrá-lo que ainda há minha proposta. Vou cumprir o que prometi.
Joseph é solícito ao responder:
- Eu não me esqueci, jarl Fenrir. Quanto à proposta, há algo que quero te pedir.
Então todos se intrigam. O filósofo vê aquele homem alto e rústico se aproximar de si. Parando à sua frente, ele pergunta:
- E qual é o pedido, Berserk Øysten?

§

Durante o resto do dia os saqueadores não vieram buscar as escravas. À noite elas podiam ouvi-los festejando, mas ao amanhecer tudo era silêncio. Cynthia dormiu abraçada à sua mãe, tranquilizando-a.
- Você viu, mãe? Ninguém veio buscá-la. Nada vai acontecer. Aqueles estupradores apenas quiseram nos assustar.
- E se vierem? O que será de mim, minha filha?
- Não vou deixar nada acontecer à senhora. Eu prometo.
Então cinco saqueadores se aproximam com passos determinados e abrem a jaula. As escravas se apavoram, mas eles não vieram buscar todas. Apenas duas.
Agarrando-as pelos cabelos, elas tentam arranhar seus captores e se segurar nas barras. Elas pedem ajuda às outras mulheres, mas elas não se mexem. Os homens ignoram seus gritos e as tiram à força da jaula, levando-as sobre seus ombros.
Levando-as à arena, as duas encontram Joseph parado no meio dela. Ele está de pé e as encara com rancor. As duas notam como ele está diferente, o filósofo veste aquele traje nórdico típico dos vikings. Lançando-as no chão, sua mãe olha para ele e pergunta:
- Meu filho! O que vai fazer?
Joseph não responde. Ela tenta mostrar-se triste, fraca e amedrontada, assim despertando-o compaixão. Sem a menor reação de seu filho, ela percebe que esse truque não vai mais funcionar. Joseph mudou, agora seu coração é de pedra.
Harald a prende pelos pulsos em uma corda presa ao telhado. Então ele a prende pelos tornozelos, imobilizando-a. O saqueador puxa a corda de seus pulsos e ela é suspensa no ar, ficando de frente para Joseph.
- Tragam a escrava para mim! – ordena Fenrir, pedindo por Cynthia.
Outros saqueadores a prendem ao lado do trono do jarl. Ela está pálida e soluça de medo.
- O que vão fazer com minha mãe?
- O que você acha, querida? Fique aqui ao meu lado e assista comigo. – responde ele e então lambe seu rosto.
Joseph pega uma faca de caça e se aproxima. Sua mãe treme, o pavor lhe deixou ofegante. Prevendo seu inevitável fim, sua mãe o chama e então diz:
- Maldita hora... Maldita hora em que você nasceu... Eu te amaldiçoo, filho de merda... – ofegando, ela continua. – Esfaqueie-me aqui... – então ela olha para sua vagina – Mate-me pelo útero... Tenho nojo dele... Por que é dele que você saiu...
Joseph fica imóvel ao ouvir as últimas palavras de sua mãe. Apesar de todo o ódio, ela ainda consegue abalá-lo.
Harald se aproxima com uma enorme faca. Controlando suas lágrimas, o filósofo a puxa pelos cabelos e abaixa sua cabeça. Sua mãe ainda se despede, dizendo: 
- Te vejo no inferno... “Filho”...
Joseph fraqueja, mas nada vai fazê-lo parar. Harold então enfia violentamente a faca no pescoço da mulher. Ela grita horrivelmente, sua voz esganiçada é de agonia e pavor. Ao final, sua mãe se engasga com seu próprio sangue e empalidece perante os seus olhos. Ela estava morta. Acabou.
O filósofo assiste Harold terminar de serrar seu pescoço. Ainda a segurando pelos cabelos, a cabeça de sua mãe se desprende e agora balança livremente em sua mão. O filósofo sente satisfação.
Olhando para o trono de Fenrir, Joseph vê sua irmã se debater desesperadamente nas cordas, gritando até ficar rouca. Triunfante e vitorioso, o filósofo ergue a cabeça e lhe exibe. Cynthia se espanta, não conseguindo acreditar naquele horror.
Com a morte da mulher, o jarl Fenrir dá a ordem de encerramento. Joseph vai pessoalmente cravar a cabeça em uma lança, sinistramente ao lado de seu irmão. Sua irmã está em choque, vendo sua mãe morta e decapitada na arena sem poder fazer nada.
Após a execução, Cynthia é levada para o centro da arena. Amarrando-a pelos pés e pelos pulsos, ela é imobilizada no chão. Nua da cintura para cima, ela teme o que acontecerá depois.
Alguém aparece à sua frente. O horror volta à sua mente ao ver Joseph de pé, encarando-a com o corpo lavado de sangue. É o sangue de sua mãe. Cynthia estremece de pavor, mas sentindo ódio e repulsão, é atrevida ao dizer:
- Assassino! Eu tenho nojo de você! Banhado no sangue de James e de nossa mãe... Vai me matar também? Acha que eu tenho medo de você? Só por que se aliou a esses maníacos, você acha que eu vou implorar por minha vida?
O filósofo pergunta:
- Por acaso você já ouviu falar da famosa execução “águia de sangue”?
Cynthia não entende. Então os homens a viram de bruços e começam a terrível tortura. Joseph corta de cima a baixo a pele de suas costas, expondo sua coluna cervical. Harald aparece em seguida, afastando sua pele e expondo as costelas. Serrando seus ossos, eles puxam e afastam cada costela de sua caixa torácica, espirrando sangue para todos os lados. Sua irmã se contorce horrivelmente em agonia, mas ainda não era o fim. Harald enfia as mãos naquela angustiante abertura e, agarrando os seus pulmões, de uma vez os arranca. Sua irmã suspira, puxando ar para os pulmões que não mais existiam em seu peito. Joseph os segura também, contemplando a carne de sua carne, sangue de seu sangue. Alguns minutos depois Cynthia morre, torturada e assassinada por seu próprio irmão.
A tribo de Vinland está perplexa com o filósofo. Com os braços até os cotovelos lavados de sangue, ele olha para seus novos companheiros e se lembra daquela famosa frase que diz: “aquele que não recebeu o calor de sua tribo, no futuro quer vê-la queimar”.
Com sua família trucidada e a justiça finalmente servida, ele se alivia.
Sua vingança estava completa.

§

O professor está estarrecido, não acreditando nos relatos de Joseph. Tentando achar alguma palavra para quebrar o silêncio, ele só consegue sussurrar:
- Joseph...
- Sim, Timothy. Eu matei todos eles, decapitei minha mãe e trucidei minha irmã. Foi isso o que o mundo exigiu de mim.
- O quê?! – grita ele – O que pode ser tão terrível que o mundo exigiu de você?!
- Maturidade, fortalecimento, adaptação... Tudo o que é necessário para sobreviver. Tardiamente descobri que a única justiça que existe... – responde ele, obscuramente – É a que fazemos com as nossas próprias mãos. Diferente de antes, hoje sou um homem adequado a viver nesse novo mundo.
- Mas Joseph, você se tornou um assassino, um torturador, um saqueador...! Não tem consciência dos atos desumanos que você cometeu?
Irritando-se, o filósofo responde:
- E o que você queria, Tim?! Que eu acabasse escravizado, devorado ou morto por aí? Peregrinando de cidade em cidade, fugindo para sempre como uma presa no meio dos predadores? É isso o que queria? Que eu fosse como você, um fraco?
O professor se ofende.
- Não se trata de fugir, Joseph! Se trata de manter a humanidade! A moralidade! A vida em sociedade! Nós temos leis, Joseph! Temos valores morais! Valores religiosos! Esses homens se esqueceram, ignoram ou desconhecem tudo isso! Eles são animais! Perseguem os mais fracos, fazem das ruínas uma selva onde impera a lei do mais forte!
- E qual é o problema?! – grita Joseph, iniciando uma discussão – Diga-me onde está o problema em tudo isso? Você fala da perspectiva das vítimas, demonizando os mais fortes com os adjetivos mais vis. Mas e pela perspectiva dos fortes? Eles se acham errados? Por que achariam se todas as suas “leis, valores morais e valores religiosos” foram desintegrados pela chama nuclear? Quando você vai acordar? Até quando vai continuar achando que o velho mundo ainda existe? Isto existe agora, Tim! Esta é a realidade que você se recusa a reconhecer! A sua sociedade se foi!
Ele caminha de um lado ao outro enquanto fala, exprimindo sua lógica.
- Não acredito! Você justifica as ações bárbaras desses bandidos que rondam as ruínas. Você fala de vítimas e fracos, mas se esqueceu que há pouco tempo atrás esteve conosco lutando para sobreviver?
- Ninguém quer ser fraco, Timothy. – responde ele, seriamente – Ninguém quer estar por baixo. Todos querem ser os mais fortes, os mais belos, os mais inteligentes. Isto se chama vontade de potência. Talvez você esteja enganado pelo politicamente correto, mas hoje a verdade se mostra como ela é, livre dessas hipocrisias. Se entre os mais fortes você tem a chance de viver em segurança, você será tolo o bastante para rejeitar?
- Eu tenho princípios.
O filósofo ri.
- E de que servem princípios? Na lei da selva, você e seus princípios já estariam na barriga de um leão.
- Isto não é uma selva, Joseph. Esta é uma sociedade livre, igualitária, democrática... Devemos reconstruir a sociedade dentro desse parâmetro.
- Reconstruir? E quem construiu a sociedade primitiva? Foram os idealistas e fracos como você? Não! Esses parâmetros vieram milênios depois! Você é professor, Timothy. Olhe para a História e me aponte um único exemplo de uma sociedade que não tenha surgido através do sangue dos fracos, dos ossos do inimigo e do suor dos escravos. Tribos, reinos, impérios e até repúblicas nunca viveram em paz, nunca desejaram a paz e nunca a desejarão! A História foi escrita com sangue! Não com falácias hipócritas de gente idealista e ignorante.
Timothy é incapaz de resistir à inteligência de Joseph. Estaria ele certo, afinal? Seria Timothy corajoso o bastante para encarar a si mesmo, admitindo que todas as suas convicções se tornaram cinzas junto com o velho mundo?
- Joseph, o que você está fazendo é loucura...
- Não, Tim. Isto é se adaptar para sobreviver. Gostaria de dizer que o mundo vai melhorar, mas não vai. Vai piorar e se tornará infernal. Vai levar algumas décadas ainda, talvez séculos, até a sociedade sair dessa lama primitiva e voltar para um tempo pacífico novamente. Espero que um dia entenda. – e então ele conclui – A propósito, meu nome não é mais Joseph. Agora sou Øysten, o novo Berserk da tribo de Vinland. Servimos ao nosso jarl Fenrir.
- Berserk? Fenrir? Vocês pensam que são vikings? – pergunta ele, espantado.
- Agora é o que somos.
O professor respira, demonstrando abatimento e tristeza. Após alguns segundos ele pergunta:
- Você não vai voltar, não é?
Controlando suas lágrimas, o filósofo responde:
- Não.
Timothy se entristece. Olhando para seu grande amigo que agora se esconde atrás de um coração de pedra, ele não tem forças para dizer adeus.
Dando-lhe as costas, o professor desce a colina. Lágrimas se escorrem em seu rosto amargurado, mas ele prefere não mostrar.

§

Voltando ao seu abrigo, ele passa pela entrada. Uma placa diz: “Clínica Psiquiátrica”.
O grupo está reunido em um dos quartos daquele hospício abandonado, esperando por notícias do professor. Timothy está abatido, após as duras palavras de seu velho amigo, ele prefere ficar sozinho.
Subindo as escadas, ele caminha cabisbaixo pelos corredores dos internos. Nos quartos ele vê macas, paredes almofadadas e as típicas camisas de força. Seus passos ecoam pelo silêncio e penumbra, mas ele não se importa. Seus medos imaginários não são capazes de vencer seu desgosto.
À frente ele vê uma porta escrito “direção geral”. Ao entrar ele vê uma longa mesa, uma cadeira e alguns armários próximo às paredes. Sentando-se na cadeira do diretor, ele apoia os cotovelos na mesa e passa as mãos em sua nuca. Então algo chama sua atenção.
As gavetas dos armários estão abertas. Ao longe ele vê uma ficha de paciente, aparentemente alguém a deixou ali, evidente entre as outras. Timothy se levanta e a averigua.
Os documentos falam sobre um paciente internado durante anos no hospício. Os médicos descreveram seu comportamento, interessando a Timothy.
“O paciente nº(rasurado) de nome (rasurado) demonstra profunda psicose e perda de contato com a realidade. Sendo um homem de aparência saudável, ele engana facilmente com suas avançadas habilidades de persuasão. Deve-se ressaltar que é um homem manipulador, dissimulado, inteligente, soberbo e incrivelmente cruel. O paciente vive em um delírio permanente, típico das psicoses incuráveis. Vivendo em seu próprio mundo imaginário, o paciente refere-se a si mesmo como ‘jarl Fenrir’, líder de uma tribo de vikings, e chama a clínica de ‘Vanaheim’. Por ser muito inteligente e ter pleno domínio sobre a mitologia nórdica, muitos pacientes foram persuadidos por ele e acreditam convictamente serem vikings, tornando-o extremamente perigoso socialmente. É impossível discerni-lo como doente. Com sua inteligência e capacidade de persuasão, ele pode convencer até as pessoas normais a segui-lo, mesmo que inconscientemente. Jarl Fenrir é um líder natural em essência, mas acima de tudo, um perigo enorme à sociedade, devendo ser mantido em total reclusão”.
Lembrando-se do que o filósofo disse, o terror recai sobre sua mente como um golpe de martelo. “O paciente daquele hospício, o homem com as alusões vikings, não é o mesmo líder daquela tribo de saqueadores?”.
Arregalando os olhos de susto, Timothy põe a mão em seu rosto e sussurra em lamentação:     
- Joseph...!



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta

(Artista desconhecido) Dias se passam. Yang é mantido em um recinto com sofá, mesa e televisão. Não era bem uma cela, mas uma confortável sa...