terça-feira, 14 de abril de 2020

Os Fracos - 16 - Fragmento 8



Fragmento 8

O que nos define? Um psicólogo, um filósofo e um teólogo podem mostrar uma dúzia de teorias diferentes e mesmo assim não chegar a uma conclusão plausível. O que somos nós? Em uma sociedade moderna as idiossincrasias pessoais são substituídas do “ser” para o “ter”, o materialismo torna-se mais importante que o caráter. Mas indo mais além, o que fazemos para definirmos o que somos e o que temos?
O que você faz?
Sofia trabalhou durante dezoito anos em uma fabrica de refrigerantes na Colômbia. Quando começou o emprego, ela tinha apenas dezessete anos e viu a fábrica crescer até tornar-se uma grande indústria, passando de uma simples marca local para uma grande filial multinacional, sob o nome de uma franquia mundialmente conhecida. Ela estava na fábrica quando a negociação ocorreu e viu as antigas máquinas serem trocados por modernas linhas de produção mecanizadas e robóticas. Os antigos donos também se foram. Em pouco tempo a pequena fábrica transformou a tranquila região ao seu redor em um pátio movimentado de caminhões entrando e saindo de seus portões, com entregas marcadas para todo o país.
Tudo mudou muito rápido na modesta fábrica. No começo ela dosava manualmente os ingredientes do refrigerante, o nível do gás carbônico, o teor de açúcar e a proporção do xarope. Mas a modernização veio e, tendo que lutar para manter seu emprego, disputou seu espaço com jovens profissionais mais qualificados e mais atualizados do que ela. Sofia, uma mulher mais velha e com ensino fundamental incompleto, trabalhou ao lado de engenheiros químicos, engenheiros de produção e engenheiros de alimentos. Sendo uma funcionária excepcional que nunca fez outra coisa, ela sabia tudo sobre a produção de refrigerantes, do tratamento de água até ao armazenamento para a expedição. Os novos donos, com seus consultores locais e estrangeiros, faziam rigorosas supervisões no controle de qualidade. Eles bem que quiseram demiti-la, intencionando colocar em seu lugar um profissional mais jovem e qualificado, mas todos mudaram de ideia ao verem o quanto ela é profissional e competente.
Competitividade era seu ponto forte. Suportando longos e desgastantes turnos, ela mantinha-se firme em seu emprego. Os técnicos e engenheiros entravam e saíam da empresa enquanto ela sempre permaneceu, provando a todos que não era necessário ter um diploma de faculdade para ser o melhor profissional. Dois anos após a pequena fábrica tornar-se uma grande filial, ela foi promovida a encarregada de operações. Finalmente os anos de trabalho duro lhe renderam algo. Sua ascensão causou orgulho em seus filhos, que viram em sua mãe uma mulher batalhadora, digna de orgulho e um exemplo a ser seguido.
A luta na vida profissional estava ganha. Infelizmente não se podia dizer o mesmo de sua vida conjugal. Sofia era uma mulher ausente e estava sempre trabalhando. Ela passava doze horas em turnos, trabalhava à noite, passava a maior parte do tempo dormindo em casa, dava mais atenção para a educação dos filhos e estava cansada demais para dar carinho ao seu marido. Cansado de viver desse jeito, seu marido decidiu deixá-la. Foi um tempo muito conturbado em sua vida, seus filhos cresceriam sem pai. O mesmo homem que a ajudou a fazê-los agora se casaria com outra mulher, uma que não seja tão ausente ou cansada para lhe dar atenção.
Sofia era uma mulher obstinada, passou pela situação difícil e manteve-se no emprego, exercendo sua função de encarregada com afinco. Seu ex-marido observava de longe ela sair para trabalhar todos os dias, mantendo fielmente sua rotina apesar da separação. Isso deixou claro o que era mais importante na vida de sua ex-mulher. O homem, que ainda nutria profundos sentimentos por ela, percebeu amargamente o que era prioridade em sua vida. Dando-lhe as costas, ele preferiu não procurá-la mais.
A fábrica de refrigerantes foi parte, se não a própria vida, de Sofia. Ela praticamente viveu a história da fábrica. Vinte e oito anos, vinte e oito longos anos de garra e luta, passando por obstáculos, contra toda a dificuldade da modernização industrial e a aparição de jovens profissionais. Sofia passou por tudo isso e venceu. Ela pode ter perdido o marido, mas roupas, comida e abrigo para os filhos nunca faltaram.
Não se pode dizer que ela fazia tudo por seus filhos, já que a fábrica veio antes deles. Talvez ela fosse uma obcecada pelo emprego, uma viciada no trabalho. Talvez ela fosse uma corajosa, passando por cima de tudo para conquistar seu espaço. Talvez ela fosse uma covarde, com medo de pedir demissão por falta de escolaridade. Talvez ela fosse uma mãe de verdade, trabalhando para sustentar os filhos mesmo depois da separação. Talvez ela fosse uma egoísta, ignorando o fato de que seus filhos precisavam de uma mãe.
Valeu a pena? Ela se pergunta ao perceber que não viu os filhos crescerem. Vinte e oito anos trabalhando sem parar responde a essa pergunta, apesar de ser uma resposta ambígua.
Em seu horário de almoço no grande refeitório industrial, ela assiste ao noticiário na TV. Parece que outra guerra se aproxima. Quem se importa? Vai ser no hemisfério norte, lá em cima eles vivem fazendo guerra mesmo. Provavelmente são só ameaças, nada demais. Os dias se passam e os noticiários informam a mesma coisa. Essa guerra parece ser o assunto principal da hora, interrompendo a programação esportiva e irritando os trabalhadores.
Sofia estava trabalhando quando tudo aconteceu. Os superiores interromperam a produção no meio do dia e disseram para todos deixarem seus postos e irem para casa. Ela ouvia os engenheiros falarem muito sobre isso, eles pareciam ter domínio nesse assunto, mas ela não dava muita atenção. A guerra havia começado e o primeiro ataque nuclear devastou o primeiro alvo. Logo, dentro de poucos minutos, mais dezenas de ogivas nucleares voariam pela órbita da Terra e seria guerra total.
Nos dias seguintes não houve operação na fábrica. A cidade inteira estava deserta e ela estava muito confusa. A notícia de contaminação pela radiação apavorava os colombianos. “Como é possível que uma simples poeira vinda dos Estados Unidos chegue aqui?!” Sofia se lembra da primeira vez em que ouviu a palavra Fallout, talvez a primeira palavra em inglês que ela falou em toda sua vida. E agora, o que se deve fazer? O que se tem a fazer? O que é que ela vai fazer?
- O que eu vou fazer...?
Sofia pergunta para si mesma em devaneios, olhando hipnoticamente para a fogueira à sua frente.
- Falou alguma coisa, Sofia? – pergunta alguém.
Os desabrigados sentam ao redor da fogueira, vestindo roupas sujas e fedorentas. Faz dois anos que a guerra acabou. Eles não fazem ideia de quando tomaram banho pela última vez. Seus cabelos, barbas e pelos estão compridos e sebosos. Todos se parecem com mendigos agora, na verdade, todos são mendigos nesse novo mundo. Eles estão reunidos para assar ratos no fogo e comê-los devido à terrível falta de alimentos.
Muitos perderam amigos e parentes devido à radiação. A queda dos cabelos é o sinal da morte. Se alguém começa a perdê-los, fatalmente saberá que uma morte lenta e dolorosa o aguarda. Foi assim que Sofia perdeu seus filhos, contaminados pelo opressor invisível. Não se pode fugir da radiação, ela está em todo lugar, na água, no ar e nos ratos dos quais eles pretendem comer agora.
Nada mais resta em sua vida, nem a única coisa que ela soube fazer a vida inteira. Ou sua mente estava enganada e lhe pregava uma peça? Ela se levanta e caminha para longe deles, como se estivesse hipnotizada.
- Aonde você vai? – pergunta um deles.
- Vou trabalhar.
Com a inusitada resposta, os desabrigados se intrigam, rindo para si mesmo.
- Trabalhar onde?!
Sem virar para trás, ela responde:
- Na fábrica de refrigerantes.



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