Fragmento
8
O
que nos define? Um psicólogo, um filósofo e um teólogo podem mostrar uma dúzia
de teorias diferentes e mesmo assim não chegar a uma conclusão plausível. O que
somos nós? Em uma sociedade moderna as idiossincrasias pessoais são
substituídas do “ser” para o “ter”, o materialismo torna-se mais importante que
o caráter. Mas indo mais além, o que fazemos para definirmos o que somos e o
que temos?
O
que você faz?
Sofia
trabalhou durante dezoito anos em uma fabrica de refrigerantes na Colômbia. Quando
começou o emprego, ela tinha apenas dezessete anos e viu a fábrica crescer até
tornar-se uma grande indústria, passando de uma simples marca local para uma
grande filial multinacional, sob o nome de uma franquia mundialmente conhecida.
Ela estava na fábrica quando a negociação ocorreu e viu as antigas máquinas
serem trocados por modernas linhas de produção mecanizadas e robóticas. Os
antigos donos também se foram. Em pouco tempo a pequena fábrica transformou a
tranquila região ao seu redor em um pátio movimentado de caminhões entrando e
saindo de seus portões, com entregas marcadas para todo o país.
Tudo
mudou muito rápido na modesta fábrica. No começo ela dosava manualmente os
ingredientes do refrigerante, o nível do gás carbônico, o teor de açúcar e a proporção
do xarope. Mas a modernização veio e, tendo que lutar para manter seu emprego,
disputou seu espaço com jovens profissionais mais qualificados e mais
atualizados do que ela. Sofia, uma mulher mais velha e com ensino fundamental
incompleto, trabalhou ao lado de engenheiros químicos, engenheiros de produção
e engenheiros de alimentos. Sendo uma funcionária excepcional que nunca fez
outra coisa, ela sabia tudo sobre a produção de refrigerantes, do tratamento de
água até ao armazenamento para a expedição. Os novos donos, com seus
consultores locais e estrangeiros, faziam rigorosas supervisões no controle de
qualidade. Eles bem que quiseram demiti-la, intencionando colocar em seu lugar
um profissional mais jovem e qualificado, mas todos mudaram de ideia ao verem o
quanto ela é profissional e competente.
Competitividade
era seu ponto forte. Suportando longos e desgastantes turnos, ela mantinha-se
firme em seu emprego. Os técnicos e engenheiros entravam e saíam da empresa
enquanto ela sempre permaneceu, provando a todos que não era necessário ter um
diploma de faculdade para ser o melhor profissional. Dois anos após a pequena
fábrica tornar-se uma grande filial, ela foi promovida a encarregada de
operações. Finalmente os anos de trabalho duro lhe renderam algo. Sua ascensão
causou orgulho em seus filhos, que viram em sua mãe uma mulher batalhadora,
digna de orgulho e um exemplo a ser seguido.
A
luta na vida profissional estava ganha. Infelizmente não se podia dizer o mesmo
de sua vida conjugal. Sofia era uma mulher ausente e estava sempre trabalhando.
Ela passava doze horas em turnos, trabalhava à noite, passava a maior parte do
tempo dormindo em casa, dava mais atenção para a educação dos filhos e estava
cansada demais para dar carinho ao seu marido. Cansado de viver desse jeito, seu
marido decidiu deixá-la. Foi um tempo muito conturbado em sua vida, seus filhos
cresceriam sem pai. O mesmo homem que a ajudou a fazê-los agora se casaria com
outra mulher, uma que não seja tão ausente ou cansada para lhe dar atenção.
Sofia
era uma mulher obstinada, passou pela situação difícil e manteve-se no emprego,
exercendo sua função de encarregada com afinco. Seu ex-marido observava de
longe ela sair para trabalhar todos os dias, mantendo fielmente sua rotina
apesar da separação. Isso deixou claro o que era mais importante na vida de sua
ex-mulher. O homem, que ainda nutria profundos sentimentos por ela, percebeu
amargamente o que era prioridade em sua vida. Dando-lhe as costas, ele preferiu
não procurá-la mais.
A
fábrica de refrigerantes foi parte, se não a própria vida, de Sofia. Ela
praticamente viveu a história da fábrica. Vinte e oito anos, vinte e oito
longos anos de garra e luta, passando por obstáculos, contra toda a dificuldade
da modernização industrial e a aparição de jovens profissionais. Sofia passou
por tudo isso e venceu. Ela pode ter perdido o marido, mas roupas, comida e
abrigo para os filhos nunca faltaram.
Não
se pode dizer que ela fazia tudo por seus filhos, já que a fábrica veio antes
deles. Talvez ela fosse uma obcecada pelo emprego, uma viciada no trabalho.
Talvez ela fosse uma corajosa, passando por cima de tudo para conquistar seu
espaço. Talvez ela fosse uma covarde, com medo de pedir demissão por falta de
escolaridade. Talvez ela fosse uma mãe de verdade, trabalhando para sustentar
os filhos mesmo depois da separação. Talvez ela fosse uma egoísta, ignorando o
fato de que seus filhos precisavam de uma mãe.
Valeu
a pena? Ela se pergunta ao perceber que não viu os filhos crescerem. Vinte e oito
anos trabalhando sem parar responde a essa pergunta, apesar de ser uma resposta
ambígua.
Em
seu horário de almoço no grande refeitório industrial, ela assiste ao
noticiário na TV. Parece que outra guerra se aproxima. Quem se importa? Vai ser
no hemisfério norte, lá em cima eles vivem fazendo guerra mesmo. Provavelmente
são só ameaças, nada demais. Os dias se passam e os noticiários informam a
mesma coisa. Essa guerra parece ser o assunto principal da hora, interrompendo
a programação esportiva e irritando os trabalhadores.
Sofia
estava trabalhando quando tudo aconteceu. Os superiores interromperam a
produção no meio do dia e disseram para todos deixarem seus postos e irem para
casa. Ela ouvia os engenheiros falarem muito sobre isso, eles pareciam ter
domínio nesse assunto, mas ela não dava muita atenção. A guerra havia começado
e o primeiro ataque nuclear devastou o primeiro alvo. Logo, dentro de poucos
minutos, mais dezenas de ogivas nucleares voariam pela órbita da Terra e seria
guerra total.
Nos
dias seguintes não houve operação na fábrica. A cidade inteira estava deserta e
ela estava muito confusa. A notícia de contaminação pela radiação apavorava os
colombianos. “Como é possível que uma simples poeira vinda dos Estados Unidos
chegue aqui?!” Sofia se lembra da primeira vez em que ouviu a palavra Fallout, talvez a primeira palavra em
inglês que ela falou em toda sua vida. E agora, o que se deve fazer? O que se
tem a fazer? O que é que ela vai fazer?
- O
que eu vou fazer...?
Sofia
pergunta para si mesma em devaneios, olhando hipnoticamente para a fogueira à
sua frente.
-
Falou alguma coisa, Sofia? – pergunta alguém.
Os
desabrigados sentam ao redor da fogueira, vestindo roupas sujas e fedorentas.
Faz dois anos que a guerra acabou. Eles não fazem ideia de quando tomaram banho
pela última vez. Seus cabelos, barbas e pelos estão compridos e sebosos. Todos
se parecem com mendigos agora, na verdade, todos
são mendigos nesse novo mundo. Eles estão reunidos para assar ratos no fogo
e comê-los devido à terrível falta de alimentos.
Muitos
perderam amigos e parentes devido à radiação. A queda dos cabelos é o sinal da
morte. Se alguém começa a perdê-los, fatalmente saberá que uma morte lenta e
dolorosa o aguarda. Foi assim que Sofia perdeu seus filhos, contaminados pelo
opressor invisível. Não se pode fugir da radiação, ela está em todo lugar, na
água, no ar e nos ratos dos quais eles pretendem comer agora.
Nada
mais resta em sua vida, nem a única coisa que ela soube fazer a vida inteira.
Ou sua mente estava enganada e lhe pregava uma peça? Ela se levanta e caminha
para longe deles, como se estivesse hipnotizada.
-
Aonde você vai? – pergunta um deles.
-
Vou trabalhar.
Com
a inusitada resposta, os desabrigados se intrigam, rindo para si mesmo.
-
Trabalhar onde?!
Sem
virar para trás, ela responde:
- Na
fábrica de refrigerantes.

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