Fragmento
3
A
mulher observa a paisagem sob o pôr do sol ao longe. Da calçada da rua, em
frente a uma cerca de tela, ela admirava com olhares nostálgicos o vasto campo
verde do clube onde as crianças costumavam jogar futebol. Ela vê as avenidas ao
longe onde antes ficavam congestionadas de carros, os morros que antes já foram
verdes e arborizados e o edifício da velha prefeitura heroicamente ainda de pé.
Era a paisagem de sua cidade, ou pelo menos do que sobrou dela.
Ela
já havia perdido a noção dos meses ou das estações, mas a julgar pelo frio, era
inverno e as nuvens vermelhas do poente moviam-se imperceptivelmente com os
ventos gelados. Dolorosa nostalgia.
Em
poucos minutos ia anoitecer e as ruas ficariam escuras. Ela sentia falta da
eletricidade, do tempo em que quando anoitecia os postes acendiam as luzes,
algo trivial e pateticamente óbvio. Ela jamais perdeu um segundo pensando que
tudo o que conhecia, sua ostentação e padrão de vida, das maiores às menores
coisas, simplesmente... desapareceria. Mas os noticiários avisavam, informavam,
preveniam e advertiam e, ocupada demais com seus luxos e assuntos pessoais, ela
sempre ignorou.
Quando
incomodada com as tensões globais que alarmavam o mundo, ela sempre respondia
com a mesma resposta antes de excluir essa estúpida preocupação de sua cabeça e
continuar com sua vida vazia e materialista: "o mundo não vai
acabar!".
No
passado, antes da guerra, ela passava todos os dias por essa rua e sequer
notava a maravilhosa paisagem do poente sobre o campo verde. Quando criança ela
frequentava o clube, nadava na piscina, comia na lanchonete, brincava de
ginástica e às vezes passeava no vasto campo. O tempo passou e, dirigindo seu
carro com o teto solar aberto, óculos escuros no rosto, falando ao celular e
ouvindo o rádio, a lembrança do clube era mais uma das memórias infantis que
não compatibilizavam com o estilo de vida de uma mulher adulta, com sua imagem,
sua beleza, seu namorado mais bonito e suas roupas mais caras. Tudo isso é
passado, tudo isso se foi, e o que sobrou?
A
mulher continua observando a paisagem e atrás dela o homem arruma suas coisas
na mochila. Ele guarda sua comida enlatada e dobra suas roupas lavadas em um
córrego lodoso. Está anoitecendo e tudo ficará escuro, ele está preocupado em
achar um abrigo e tem pressa em continuar caminhando, ela porém está cansada e
pediu para pararem um pouco. Sem saber o porquê, o homem a vê contemplar a
paisagem do poente com olhar distante e cheio de lágrimas.
Há
um mês os dois fugiram de um povoamento na periferia da velha cidade. A mulher
já estava lá quando ele chegou. O homem foi capturado por escravistas, homens
com armaduras improvisadas, facas e lanças artesanais, e foi levado ao
povoamento escravocrata. Ele ia ser vendido a outros povoamentos mas acabou por
ficar no local, condenado a trabalhos forçados vestindo apenas uma faixa de
roupa em sua cintura. A mulher era a escrava sexual dos chefes, antes de fugir
ela já havia sido estuprada oito vezes e muitas outras vezes antes de a
comprarem de outro lugar. Fosse frio ou calor, ela era mantida com roupas
leves, sensuais, e era obrigada a servi-los independentemente de sua condição
física. Muitas vezes ela tinha fome e frio, e os chefes a alimentavam com os
restos de seus banquetes, geralmente comida roubada de peregrinos solitários
nas ruínas.
O
homem, jovem, belo e fisicamente fraco, ia ser estuprado também para a surpresa
de todos. Os chefes, todos mais altos e fortes, cobiçaram-no após uma noite de
bebedeira e só não conseguiram submetê-lo porque estavam muito bêbados para
segurá-lo. A desesperada intenção de fugir veio depois que os chefes entraram
em sua cela e deixaram a porta aberta. Ele passou por eles, rápido como um
rato, e correu totalmente nu para o portão principal que, para sua sorte, não
havia ninguém protegendo-o. Antes de pular alguém o segurou pelo braço e o
chamou, era a mulher. Ela lhe mostrou uma mochila cheia de roupas e comida e
prometeu entregar-lhe se ele a levasse junto. O homem concordou e ambos pularam
o portão, correndo pela noite e desde então fugindo pelas ruínas da cidade.
"Que
reviravolta infeliz teve a minha vida" pensa a mulher. Quando ia para
festas ela era cobiçada por homens mais velhos e ricos, e escolhia quem queria,
o mais bonito, o mais alto, o mais forte, e os demais ela rejeitava, ignorava e
humilhava. Hoje ela era possuída a força por qualquer um que tivesse poder ou
dinheiro para comprá-la. Novamente ela pensa: "tudo se foi e o que
sobrou?"
O
homem chega atrás dela e a abraça. Ela suspira e sente a nostalgia sobrepor a
realidade cruel de um mundo devastado, sem lei, violento e selvagem. “Para onde
foi o amor? Isso já existiu ou era um meio de a natureza perpetuar a procriação
da raça humana? Por que os homens são tão cruéis? O que os diferencia dos
animais mais ferozes, dos predadores mais sanguinários e impiedosos? Por acaso
o homem é diferente deles se lhe faltar comida, água e abrigo, e ele tiver de
lutar pela sobrevivência?”. Que mundo estúpido é esse que a mulher pensou que
existisse lei, justiça e compreensão? Ela fecha os olhos e se lamenta. Talvez
seja a hora de começar a construir um mundo novo.
Ela
o seduz e os dois fazem sexo sob o pôr do sol. Ela segura na cerca de telas e
observa a nostálgica paisagem abaixo com dezenas de lembranças infantis do
tempo em que o mundo era bom. Fazia tanto tempo que a mulher não fazia sexo por
vontade própria. Seus donos a possuíam com tanta violência que geralmente a
machucavam.
Não
se pode entender o impulso feminino de querer transformar o mundo ruim em um
mundo bom, a abnegação das mulheres em passar por cima de suas próprias
vontades, sonhos e desejos para auxiliar seus homens a mudar uma situação.
Enquanto os homens se acovardam, se desesperam e se submetem, elas dão
esperança, criam esperança. Não se pode compreender como elas carregam a
esperança em suas almas quando o homem carrega apenas a dor. Talvez seja essa a
saída que a natureza encontrou de perpetuar a vida, de dar às mulheres a
esperança de ver um mundo bom.
O
sexo chega ao fim. O homem não sabe mas a mulher suspeita em seu subconsciente
que acaba de conceber. Eles se vestem e continuam a caminhada pelas ruas
desertas da cidade. Em seu ventre está a esperança, a nova geração que
reconstruirá o mundo das cinzas e realizará o implacável impulso feminino de
ver novamente o amanhecer de um mundo bom.

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