terça-feira, 14 de abril de 2020

Os Fracos - 15 - A Arquiteta



A Arquiteta

Sentados sobre a areia, a arquiteta Rachel Sullivan encosta sua cabeça no ombro de Brad e ambos assistem ao anoitecer na praia. Os dois se amam muito, ela pensa como sua vida foi tão fria e vazia antes de encontrá-lo. Rachel sente-se completa agora. Nada pode separá-la deste imenso amor.
Em silêncio enquanto ouve as ondas quebrarem na praia, seus olhos se enchem de lágrimas ao refletir sobre sua própria vida. Ela pensa se vale a pena viver, se vale a pena amar sob o risco de sofrer novamente. Ela pensa se Brad, da qual ela ama tanto, irá embora um dia e se sua lembrança ela simplesmente vai... esquecer. Sua vida não é mais a mesma agora. Com Brad ao seu lado, Rachel não tem mais medo de amar.
As luzes da avenida e dos prédios iluminam a bela praia. A noite cai sobre a cidade e suas luzes a ofuscam. Ela só pensa nele, no homem sentado ao seu lado, acariciando seus cabelos enquanto ela olha triste para as ondas, mas ao mesmo tempo feliz por dentro.
Lembrando-se das inúmeras vezes em que eles fizeram sexo no motel, ela sempre parava em frente à janela, ficando a observar as brilhantes luzes da cidade ao longe. Brad nunca entendia por que ela ficava ali, distraída e pensativa. Ele a abraçava por trás e ambos observavam a noite juntos. Rachel perguntava sempre se ele a amava e ele respondia que sim. “Mais que tudo” complementava ele.
Os dois deitavam e se olhavam constantemente. Eles conversavam por horas, o homem se fascinava com os brilhantes olhos azuis dela. Eles faziam sexo, conversavam um pouco e faziam mais sexo. Era como se os dois nunca se enjoassem um do outro. Eles poderiam se ver por dias, um acariciando o cabelo do outro, não se importando com o mundo tumultuado lá fora. Dentro daquele quarto só os dois importavam.
Brad uma vez disse que nunca amou tanto alguém para gostar de estar vivo. A mulher perguntava quais eram os sonhos dele, do que ele gostava, qual era sua cor preferida, os filmes, os livros, o estilo de música... Rachel nunca se cansava de ouvir sua voz, era como se a hipnose da paixão alimentasse seus ouvidos, rompendo suas barreiras e deixando-a indefesa. Às vezes eles conversavam a noite inteira, satisfazendo-se apenas em se ver e se ouvir, não precisando de mais nada além dos dois. Enquanto ele falava, Rachel pensava para si mesma: “desta vez tem que dar certo”. Quem sabe?
Certa vez Brad disse:
- Quero ficar com você para sempre.
Suas palavras a pegam de surpresa. Ela não sabe o que dizer e apenas olha boquiaberta para ele. Pensando no que responder, ela desvia o olhar e acaricia os pelos loiros de seu peito.
- Você quer dizer fugir?
Convictamente, ele responde:
- Quero ver o seu rosto todos os dias de minha vida.
Rachel sorri e aceita. Os dois se abraçam e se beijam, já planejando suas vidas agora que ficarão juntos para sempre.
As noites no motel foram as mais perfeitas de sua vida. Ela se lembra de cada uma delas enquanto está sentada ali, observando as ondas quebrarem nas areias do mar. Brad está em silêncio também, ele não desperdiça nenhum momento com Rachel quando os dois estão juntos, sentindo o calor um do outro.
Ela sente o vento frio passar sob suas roupas. Ao olhar para as horas no celular, ela o chama:
- Brad, está tarde. Eu tenho que ir.
O homem se entristece. Uma das noites mais românticas de sua vida chega ao fim. Se ele pudesse, ficaria sentado com ela na areia da praia até o amanhecer.
- Está bem.
Dirigindo seu carro pelas ruas coloridas da cidade, ele a leva embora. Parando em frente a casa de Rachel, os dois se beijam e quasem fazem sexo dentro do carro, mas ela o interrompe. Ao abrir a porta, ela põe seu pé na calçada quando Brad segura seu braço e a puxa de volta, beijando-a mais uma vez. Ele então pergunta:
- Quando vou vê-la de novo?
- Em breve. – responde ela.
- Promete?
Ela sorri.
- Prometo.
Rachel abre a porta de sua casa. Já é madrugada e está escuro ali dentro, ela caminha silenciosamente pela sala quando alguém sentado em uma poltrona liga a luz do abajur. Um homem a encara com olhar abatido, ela consegue ver olheiras em seu rosto com a luz amarelada da lâmpada. O homem pergunta:
- Você estava com ele?
Surpresa, a arquiteta responde:
- Sim. Você sabe que sim.
O homem enxuga as lágrimas de seus olhos e tenta conter o choro. Ele sorri ao responder:
- Eu fiz o jantar para você... Está com fome?
Rachel é evasiva.
- Eu sei o que está tentando fazer, Michael. Eu...
- Não. Não diga nada. Eu só... estou sem sono.
A arquiteta muda de assunto.
- Como está o Scott?
- Dormindo. Ele também estava esperando você chegar.
Ela entendeu o que seu marido quis dizer. O abatimento transborda em seu rosto.
Caminhando até o quarto de seu filho, ela entra e o encontra dormindo tranquilamente. O menino tem apenas cinco anos, está crescendo rápido. Ela acaricia seus cabelos e o beija no rosto. Sussurrando em seus ouvidos, ela diz: “mamãe já voltou, querido”.
Após trocar de roupa ela deita em sua cama, de costas para Michael. Ele está deitado no outro lado, de barriga para cima, olhando para o teto escuro. Michael também tem lembranças, mas diferente de Rachel, as dele são dolorosas.
Durante muito tempo ele lutou para que Rachel não fosse embora. O amor dela já havia acabado há muito tempo, mas seu marido estava decidido a não perder a mulher de sua vida. Michael tentou usar seu filho para fazê-la ficar, argumentou que não queria que ele crescesse sem pai. Ela concordou e ambos ficaram juntos, apesar da vida de marido e mulher jamais voltasse a ser como era. O homem planejou reconquistá-la, fez de tudo o que pôde, deu presentes, declarações de amor, carinho, atenção, tudo para tê-la de volta, mas nada adiantou. Rachel estava cada vez mais ausente, impermeável e intransponível às tentativas de seu marido.
Não demorou muito e ela começou a voltar para casa cada vez mais tarde. Michael notava seus cabelos molhados quando chegava. Estranhamente ela estava sempre feliz, bem-humorada, mais falante, diferente de seu estado habitual, sempre séria e indiferente. Seu marido esperou duas semanas para perguntar, mas não gostou de ouvir a resposta. Rachel, sua esposa, tinha um amante. O homem sentiu que o mundo tinha desmoronado sobre sua cabeça, que suas esperanças foram perdidas com o passar de meros segundos. Tardiamente ele percebeu que, apesar de sua persistência em tê-la de volta, realmente é como dizem: as piores feridas são aquelas feitas por amor.
Por inúmeras noites ele a esperou acordado, deitado de olhos abertos no escuro. Scott, o filho do casal, perguntava por sua mãe ausente, mas o que ele podia responder? Quando Rachel estava fora Michael cheirava suas roupas, sentindo o cheiro de perfume e suor. Aquilo só significava uma coisa, sua mulher estava fazendo sexo com outro homem. Por muitas vezes o menino pegou seu pai chorando. No começo Michael era discreto mas depois ele chorava constantemente, enquanto cozinhava ou quando colocava seu filho para dormir. Apesar das insistentes perguntas de seu filho, ele nunca foi capaz de responder por que chorava.
- Isso é coisa de adulto. Um dia poderei te responder. Agora durma bem, meu filho.
Geralmente as mulheres sofrem quando são traídas e tem seu casamento destruído. Mas agora Michael sabe o que elas sentem.
Suspirando, ele deixa a mágoa dominá-lo mais uma vez. O amor acabou, menos para ele. Este é seu fardo, amar incondicionalmente uma mulher que está amando outro homem. Não conseguindo dormir, ele quebra o silêncio e diz à sua esposa:
- Rachel, eu não consigo mais fazer isso.
A arquiteta estava acordada também. Não havia razão para fingir que estava dormindo.
- Como assim?
- Vou dar o que me pediu. Não vou mais ficar em seu caminho. Eu vou te dar o divórcio.
Ela não sabe se fica triste ou feliz. Na verdade ela tem vontade de sorrir, mas ela não quis que terminasse assim, não desse jeito.
- Michael, por que você está fazendo isso agora?
O homem fica um tempo olhando para o escuro e então responde:
- Viva. Seja feliz. Realize seus sonhos. Eu te amo, Rachel, sempre vou te amar. E amar de verdade é isso, querer que seu amor seja feliz mesmo que não seja com você.
Então a arquiteta sente-se consternada.
- Eu não sei o que dizer.
- Apenas aceite. Mas tem uma condição. O Scott fica comigo.
Ela protesta.
- Não! Não posso permitir isso.
- Mas você vai. Não estou fazendo isso por vingança, mas meu filho não chamará outro homem de pai.
Ao perceber seu marido se impondo, ela é desafiante ao perguntar:
- Como assim eu vou?
- Se você não me conceder a guarda da criança, eu vou expor seu adultério no tribunal. Você perderá a casa, seu carro, seus bens em geral e ficará sem nada. É você que escolhe.
Ela se assusta.
- Está me ameaçando?!
- Se quiser manter sua dignidade, vai fazer o que te pedi.
- O filho deve ficar com a mãe! – grita ela.
- Ah, não finja que se importa com ele! A gravidez mais te atrapalhou do que ajudou! Eu que estive aqui cuidando do Scott enquanto você transava por aí, voltando para casa no meio da noite! E me responda. Isso foi diferente hoje?
Rachel então se cala.
- Está bem. – responde ela, por fim – Eu farei o que me pediu.

§

Sentada no banco de passageiro do carro, Rachel observa a paisagem pelo vidro sujo da janela ao seu lado. Atrás dela estão mais duas pessoas, um rapaz e uma moça. O motorista, Ethan, é um homem barbudo de olhar assustado. Todos inclusive ela são peregrinos.
Eles estiveram dirigindo pelas estradas e rodovias durante meses, só parando para roubar mais gasolina e reabastecer. Com a sobrecarga dos mantimentos saqueados, os pneus do carro se desgastavam rapidamente, o motor dava sinais de exaustão, mas nenhum deles ousava parar nas cidades para procurar peças e consertar o carro.
Enquanto avançavam eles passavam por buracos, entulhos e destroços do que sobrou depois da guerra. Muitos peregrinos viam o carro e tentavam para-lo para pedir ajuda, mas tinham seus pedidos de socorro ignorados. A radiação se mostrava em toda parte, havia muitos peregrinos mortos e alguns tinham deformações horríveis em seus corpos. Com tanta morte e doença ao redor, era como se estivessem em um filme de terror.
A arquiteta, uma mulher que viveu se dedicando à urbanização e embelezamento da sociedade, lutava para que os prédios abandonados fossem restaurados ou demolidos. Aqueles prédios eram redutos de marginais, abrigando mendigos, ladrões, viciados e prostitutas durante a noite. Eventualmente não era com os desafortunados que ela se preocupava, mas com a aparência estética da cidade. Para sua frustração, depois que a guerra acabou toda a sociedade se tornou um emaranhando de prédios abandonados, e aqueles que sobreviveram se tornaram asquerosos marginais. O destino foi irônico.
Avançando pela tortuosa estrada, eles chegam a uma ponte destruída. Descendo do carro, o motorista vê o penhasco e o resto da estrada depois da ponte. Então ele diz:
- É o fim da linha. Temos de voltar.
- Voltar pra onde? – pergunta Rachel. Eles não têm para onde ir.
A moça os chama e diz:
- Tem uma placa aqui. Está escrito “desvio”.
Eles caminham até ela e veem tábuas pregadas formando uma placa rudimentar. A placa foi escrita à mão com tinta vermelha. Pela aparência aquilo foi deixado ali há muito tempo. Ao lado está o caminho alternativo a seguir, uma estrada de terra ladeada por muitas árvores se estendendo pelas montanhas.
O rapaz sente medo.
- Vocês vão mesmo entrar aí?
- É só um desvio. – responde a moça.
Rachel olha para o penhasco sob a ponte e diz:
- Dá para ver o resto do caminho lá embaixo. Se passarmos por ele, logo estaremos na estrada no outro lado.
O motorista e a moça concordam, o rapaz mostra-se relutante mas cede à decisão do grupo. Já era meio-dia e todos sabiam que não era seguro pernoitar ao lado da estrada. Eles temiam os ladrões.
De volta ao carro, eles trancam as portas, vestem o cinto e então adentram a estrada de terra.

§

Michael assiste sua ex-mulher assinar os papeis do divórcio. Seus olhos angustiados apreciam sua exuberância. Ela está maravilhosa, a última vez que ele a viu tão feliz assim foi no dia em que se casaram. Mas ao pensar bem, ele duvida se ela já sentiu o mesmo por ele e se ambos já foram felizes juntos.
Eles deixam a audiência e ambos os advogados ficam com as cópias dos documentos. Enquanto o advogado de Michael fala com ele, ele observa sua bela esposa dar as costas e sair da sala. Seus longos cabelos soltos e seus olhos azuis hipnotizam os homens ao redor, Rachel sempre chamou a atenção por sua beleza. Michael sente rancor, ela deve estar se sentindo o máximo agora. O corpo de sua ex-mulher será possuído por outro homem, sua beleza pertencerá a outro alguém. Não conseguindo controlar sua ira, ele vai atrás dela. “Quem é o cretino que roubou minha mulher?” pensa ele.
Rachel atravessa a rua e entra em um carro estacionado ao lado do prédio. Ela se senta no banco do passageiro e então beija o motorista. Michael está lá fora e observa a cena, um beijo molhado e apaixonado que eles raramente deram. O homem ao seu lado é loiro e aparentemente alto, e veste uma camiseta esportiva. Os dois saem com o carro e vão embora, sem perceber a presença dele ali. Ao ver o homem, Michael se sente feio, velho, e ridículo, totalmente inferior ao homem que foi capaz de tirar Rachel de seus braços. Ele se entristece.
Para Rachel tudo é diferente. Ela está feliz, aqueles são os dias mais felizes de sua vida. Brad e ela estão sempre juntos e nada mais importava. Várias vezes eles faziam sexo à noite enquanto a televisão estava ligada transmitindo os constantes noticiários. Distraída demais para prestar atenção, Rachel não percebeu que os noticiários davam notícias gravíssimas sobre uma iminente guerra nuclear.
Duas semanas depois, ela volta ao apartamento de Brad e o encontra pensativo na sala. Ao notar a presença de Rachel, ele abaixa o volume da TV e lhe dá um sorriso fingido. Quando ela ia perguntar qual era o problema, o celular de Brad toca e ele vai atendê-lo no quarto, deixando-a sozinha. Ao voltar, ele a olha nos olhos e é direto ao dizer:
- Eu não posso mais fazer isso.
Ela não entende.
- Do que está falando?
- Eu não posso mais, Rachel. Me desculpe.
A arquiteta fica confusa.
- Você está terminando comigo?
Um pouco distante, ele responde:
- Lamento.
- Como assim você “lamenta”?
Brad fecha os olhos e balança negativamente a cabeça.
- Foi bom enquanto durou.
Rachel sente como se seus olhos se abrissem e ela acordasse de um transe hipnótico.
- Eu pensei que você me amasse! – grita ela.
- Eu me enganei.
Lágrimas se formam em seus olhos e ela tenta controlar o ódio crescente em seu peito.
- É algo no seu celular, não é? O que você tem aí? Quem te ligou?
Ele se afasta, não permitindo que a arquiteta veja seu telefone.
- Rachel...
- Olhe nos meus olhos e diga que você não me ama!
Frio como um cubo de gelo, ele a encara com olhar sério e então abre sua boca.
- Me desculpe.

§

O carro está tombado no meio da floresta. Rachel abre os olhos e vê que o casal no banco de trás estão desacordados. O motorista geme de dor, há um pedaço de metal fincado em sua perna. Eles estão de ponta-cabeça e o sangue escorre por seus rostos contra o teto do veículo. Rachel não sabe o que aconteceu, ela só se lembra de um estrondo no meio da estrada pouco antes de tudo escurecer de repente.
Ethan vê silhuetas de homens armados aparecerem entre as árvores. Ao seu lado a arquiteta também vê homens aparecerem ao longe. Ela se enche de pavor. O motorista segura seu braço e sussurra para ela:
- Corra, Rachel...
- Mas e você?
Soltando o cinto de segurança de Rachel, o motorista ordena:
- Fuja!
A arquiteta rasteja pelo vidro quebrado da janela e corre pela floresta. Sem olhar para trás, ela corre pela vegetação baixa, as árvores ressecadas e a fina neblina da floresta. Seu coração bate descontroladamente e sua respiração produz sussurros de quem está desesperado para sobreviver.
De repente uma rede cai sobre seu corpo, fazendo-a se desequilibrar e cair entre os galhos. Batendo a cabeça em uma pedra, ela imediatamente perde a consciência.

§

As luzes da cidade iluminam mas perdem seu brilho. O mundo se tornou uma mancha monocromática, fria e esvaziada de emoções, e no furor de sua melancolia levou os sentimentos amorosos de casais apaixonados que momentos antes estavam bem. É assim que ela pensa agora, sentada na areia da mesma praia em que esteve com Brad há poucas semanas. Ao contrário daquelas noites românticas ao luar, ela está sozinha olhando com agonia para o horizonte.
O homem que ela mais amou se foi. O mesmo homem que foi capaz de encorajá-la a abandonar sua casa e propor uma vida juntos lhe deu as costas e desapareceu. Brad não atendia mais suas ligações, não lia suas mensagens no celular, não lia seus emails, não ouvia os incontáveis recados na secretária-eletrônica, e quando a arquiteta finalmente decidiu procurá-lo em seu apartamento, Brad havia ido embora.
Sentada na areia, lágrimas escorrem de seus olhos magoados. Ela ainda sente os ecos da voz de Brad em seu coração, mas não é mais do jeito que era antes. A vida não mais valia a pena viver, não com a imagem de seu amante gravada em sua mente, vendo-o cada vez que ela fechava os olhos.
Rachel pensava nele o tempo todo.
Ela estava sozinha na cidade. As luzes brilhantes a deixam atordoada, o vento frio congela seu corpo e o movimento constante das pessoas, aquela multidão distraída de pessoas, a deprimem com seu descaso. Ninguém está lá para consolá-la, ninguém que ama seu marido ou esposa vai se atrasar um segundo sequer em seu retorno para casa, para abrandar as feridas em seu coração.    
A praia, o anoitecer e o horizonte escarlate são seus únicos companheiros agora. Seria tarde demais para voltar para casa? Dizer a Michael e ao seu filho Scott que o homem que ela amou, mais até que sua própria família, a deixou e foi embora sem dizer adeus? O amor é um sentimento tão bom, mas depende do ponto de vista de quem o sente. Apesar de Brad tê-la abandonado, ela não se importa com sua família no momento. É indiferente. Olhando para o horizonte marítimo, ela sussurra para si mesmo:
- Eu te amo, Brad. Volte para mim...
Olhando fixamente para o horizonte, ela está distraída e não percebe a aproximação de alguém à sua direita. Um homem caminha na areia da praia e estranha a mulher sentada ali como se nada na cidade estivesse acontecendo. Intrigado, ele pergunta:
- Com licença, moça. Você está bem?
Encolhida com os braços ao redor das pernas, ela mira seus olhos azuis para o rosto do homem. Ele veste uma blusa de moletom e a alça de uma bolsa passa por seu ombro esquerdo. Era como se ele estivesse prestes a fazer uma viagem.
- Sim.
- Bem, desculpe incomodar. Eu te vi sentada aí e já é quase noite. As ruas estarão desertas em alguns minutos.
Ela não entende. Ao olhar seu relógio ela vê que são 17h45min.
- Por quê?
Surpreso, o homem sorri.
- É o toque de recolher, ou qualquer coisa assim. Está todo mundo com medo. Você não assiste aos noticiários?
Rachel não assistiu aos noticiários nenhuma vez nessas semanas. Em seu mundo particular só existia Brad.
- Acho que não.
- Eles estão falando disso vinte e quatro horas por dia! Uma guerra nuclear está prestes a acontecer. Ninguém mais sai de casa à noite, todos querem ficar em casa com suas famílias.
As últimas palavras do homem ecoam em sua cabeça. “Em casa com suas famílias...”.
- Eu não tenho mais família. – responde ela, amargurada.
- Se quiser eu posso te ajudar. O meu ônibus sai em uma hora e a rodoviária não está longe daqui. Você poderia vir conosco.
- Para onde vocês vão?
- Para o mais longe que pudermos! Não é seguro ficar nesta cidade, se uma ogiva nuclear explodir aqui, tudo o que está vendo vai desaparecer. Devemos ficar o mais longe possível do hipocentro. Depois da explosão a onda de choque terá um raio de 30 km. No mínimo.
A arquiteta não dá atenção aos alertas do homem. Diferente dele, ela tem outros motivos para fugir para bem longe.
- Eu vou com vocês.
O homem se alegra. Ele dá sua mão e a ajuda se levantar. Em seguida os dois caminham juntos para a rodoviária.
Rachel não sabe, mas os dois estarão juntos pelos próximos dois anos dirigindo um carro pelas ruínas com mais duas pessoas no banco de trás.

§

- Acorde...! Rachel, acorde...!
A arquiteta abre os olhos e se vê em um porão com azulejos brancos e janelas na altura do teto. Lâmpadas fluorescentes iluminam um cômodo mais a frente após um corredor escuro. Há pessoas ali, mas ela não consegue vê-las. Ao seu lado está a moça do carro, ela está amarrada pelos pulsos e tenta acordá-la.
- O que aconteceu? – pergunta Rachel, sentindo fortes dores na cabeça.
- Eu não sei, acho que fomos capturadas.
A arquiteta vê correntes presas em seus pulsos também.
Silhuetas de homens aparecem no quarto iluminado. Elas ouvem ruídos metálicos, passos e serras cortando algo duro porém viscoso.
- Você sabe quem são essas pessoas?
A moça não faz ideia de quem são.
As duas não percebem mas há outra mulher presa pelos pulsos contra a parede. Agachada em um canto escuro, ela é incisiva ao responder.
- Eu vou dizer quem eles são. Eles são Caçadores.
Assustadas, elas olham para a mulher sentada no escuro.
- Quem é você? – pergunta a moça.
- Não importa. Nada mais importa. Por acaso um gado qualquer tem um nome antes de ser abatido e esquartejado no matadouro? Vocês se preocupam inutilmente. Acabou.
- Do que está falando? – pergunta Rachel.
A mulher tenta se aproximar arrastando-se até o limite da corrente. As duas notam que ela está vestindo apenas suas roupas de baixo.
- Esses homens são caçadores. Nosso grupo foi capturado à beira da estrada ao lado da floresta. Eles apontaram seus rifles para os nossos rostos e nos obrigaram a segui-los pelas árvores. Quando chegamos aqui, vimos o que parecia ser um acampamento improvisado em um frigorífico ou coisa assim.
A mulher indica os ganchos presos no teto, mesas de aço inoxidável e revestimento cerâmico na parede e no piso. A arquiteta pergunta:
- Por que você os chama de caçadores?
- Porque eles vivem do que caçam. Eles deixam armadilhas em toda a floresta e vão para as cidades para caçar mais peregrinos. Como vocês e eu.
- Por que eles caçam peregrinos? – pergunta ingenuamente a moça.
A mulher sorri.
- Para comer.
Rachel se estremece de pavor. As duas então tentam se soltar puxando e sacudindo as correntes. A mulher as interrompe dizendo:
- Parem, eu já tentei isso. Aliás, todos neste porão tentaram. Há uma porta mais adiante, eles mantêm os homens lá dentro. As mulheres ficam aqui. Os caçadores nos deixam separados uns dos outros. Mas quando vão... processá-los... eles os levam para aquela sala iluminada. Mas nós, mulheres, sempre sofremos o pior, sempre sofremos as mais cruéis e indizíveis torturas antes da morte nos libertar. É por isso que vivemos mais, para prolongarem nossa agonia, para sermos espancadas, mutiladas e estupradas por maníacos sanguinários simplesmente por que somos... fracas e incapazes de nos defendermos. Somos as mais fracas do povo mais fraco, e isso excita nossos captores, nossos carrascos. Manter-nos vivas para fazerem o que quiser conosco os diverte.
A mulher sorri novamente. Ela já aceitou sua penosa condição naquele terrível calabouço.
- Como pode estar tão calma?! – exclama a moça. – Você enlouqueceu?!
Indicando a janela no alto da parede, a mulher diz:
- Já é quase noite. À noite eles estão estupefatos após o jantar e descem aos porões para se satisfazerem com as mulheres. Vejo que são bem bonitas, mas você, garota, é mais jovem e com certeza “receberá” primeiro. Ontem eu fui estuprada por dezenove homens diferentes. Espero que já tenha perdido a virgindade.
A moça se aterroriza.
Algumas horas depois o porão está todo escuro e elas ouvem passos se aproximarem. Alguém leva uma lanterna e a luz percorre as paredes brancas. Ao lado de Rachel há mesas tombadas e ela se joga atrás delas, se escondendo. A moça tenta se esconder também mas a corrente presa à parede não a permite ir muito longe. Enquanto as duas tentam obstinadamente, a mulher apenas diz: “é inútil”.
Finalmente os homens aparecem no porão. Elas não podem vê-los mas sabem que são muitos. Alguém mira o facho de luz em seus rostos, encontrando apenas a moça das novatas. Um deles diz:
- Onde está a outra?
- Vamos levar essa. Ela é mais jovem.
- Eu queria que fosse a outra primeiro. Ela tem os olhos azuis mais bonitos que já vi.
- A pegaremos amanhã à noite.
Os homens avançam contra a moça e ela grita de pavor. Enquanto a carregam para fora do porão, ela esperneia e grita histericamente:
- Rachel! Rachel! Rachel! Rachel...!
E grita o nome da arquiteta incessantemente até desaparecer na distância. Daquele momento em diante, as duas ficam sozinhas e o silêncio se levanta na escuridão. Mas o som abafado percorre as paredes e as salas solitárias, fazendo Rachel ouvir os gritos esganiçados da moça atormentá-la até o amanhecer.

§

Na manhã seguinte, dois homens vestidos com camisas xadrez, botas de montaria e rifles pendurados em suas costas aparecem no porão. Eles trazem a moça, segurando-a pelos braços e pelas pernas como se estivesse morta, e então a prendem com as correntes. Ela está exausta e respira lentamente. Quando os homens vão embora, Rachel nota que ela está vestindo apenas o sutiã e nada mais.
O corpo da moça está todo surrado e há manchas escuras de hematomas, principalmente em seu rosto. Seus cabelos estão bagunçados e sangue escorre de suas feridas. Provavelmente ela foi agredida pelos homens durante seu frenesi sexual. A mulher vê a cena e diz à Rachel:
- Vi minhas amigas de peregrinação sofrerem o mesmo durante semanas. Algumas ficaram em choque e outras se traumatizaram permanentemente. Muitas foram espancadas até a morte. Elas não foram fortes como eu. Quando não demonstravam mais reação, os caçadores as degolavam e mais tarde as comiam. Eu não quero terminar assim. Prefiro ser escrava do que ser um banquete desses canibais.
A arquiteta sente repugnância de suas palavras.
- Como pode dizer isso? Está aqui há semanas e não tentou fugir desses monstros? Como pode viver assim?
- Esses homens são caçadores, não monstros. Eles fazem o que tem que fazer para sobreviver. Não há mais comida, a água está contaminada e a radiação se espalhou por toda parte. Para onde eu irei se eu sair daqui? Com certeza morrerei nas ruínas, infestada de tumores deformando meu corpo. Aqui eu tenho uma chance de sobreviver.
- Eu preferiria morrer como as suas amigas.
A mulher lhe faz um olhar sério e responde:
- Lá em cima, em seus alojamentos, há uma sala com uma lareira. Na parede há dezenas de fotos de mulheres capturadas, adornando a sala como se fossem troféus de caça. Eu já disse, esses homens são caçadores, eles caçam humanos como se fossem animais. É seu esporte, sua diversão. É assim que você quer terminar? Com a foto de si mesma pendurada na parede como aquisição sexual? Diga o que quiser, mas eu não quero morrer assim. Eu farei o que for preciso para continuar viva.
- Sendo uma prostituta?!
- E você está se guardando para quê? Sua vagina tem outra utilidade além de mantê-la viva em um lugar como esse? O mundo acabou, Rachel. Não existem mais histórias de amor. Você não vai mais se casar e constituir uma família. Muito provavelmente o homem de sua vida já morreu faz tempo.
Imediatamente a arquiteta se lembra de Brad. Insistente, ela responde:
- Eu não acredito em você.
As duas ficam em silêncio por um tempo. A moça geme de dor e parece recuperar suas forças. A mulher então diz:
- É melhor acordar a garota. Daqui a pouco os caçadores voltarão e nos trarão alimento, espero que não se incomode com seus apetites exóticos. E se quiser ir ao banheiro, agora é a hora. Depois eles só voltarão à noite para pegar uma de nós.
A moça acorda e vê Rachel chamando-a pelo nome. Ela vê seu corpo sem roupas e lentamente as lembranças da noite passada inundam sua mente. Seus olhos se enchem de nojo, tristeza e rancor.
- Esse corpo não é mais meu... – sussurra ela, repetindo várias vezes enquanto chora.
- Acalme-se. Você está bem? Pode me ouvir?
- Rachel...?
- Eu estou aqui. Está tudo bem agora.
- Por que você não me respondeu?
- O quê?
- Por que você se escondeu ontem à noite?
A arquiteta se intriga.
- Do que está falando?
- Eu te chamei, Rachel.
Então ela se lembra da moça chamando-a várias vezes antes de ser levada. A arquiteta pergunta:
- Por que você me chamou tanto?
- Porque eu queria que você fosse levada e não eu! – grita ela, cheia de rancor.
Então, daquele dia em diante, as duas nunca mais se falaram.

§

A noite chega e a vez de Rachel se aproxima. As três estão sentadas no escuro quando ouvem os passos dos homens. Suas pernas perdem a força e seu corpo treme. Os caçadores chegam à sala iluminada mas não continuam até o compartimento das mulheres. Os homens falam alto e com o silêncio da noite elas podem ouvir a conversa. Alguém diz:
- Um deles está muito arredio. Tentou escapar várias vezes e incita o resto a se rebelar.
Outro homem responde:
- Vamos ter que abatê-lo primeiro, senão teremos problemas.
- Tragam-no até aqui!
Rachel ouve sons de passos e então uma porta é aberta ao longe. Aparentemente um homem amordaçado grita e se debate enquanto os caçadores o levam para o centro da sala.
- Acabem com ele. Vamos assá-lo amanhã de manhã.
E então as mulheres ouvem o som de uma pancada. O homem amordaçado cai em frente ao corredor e Rachel consegue vê-lo.
- Ethan...?
Ele vira sua cabeça e enxerga a silhueta de Rachel no porão escuro. O homem arregala seus olhos e move seus lábios, mas a mordaça sufoca suas palavras. Portando um enorme martelo, alguém vestido com avental e botas de açougueiro aparece sobre ele. O açougueiro golpeia sua cabeça e sangue espirra nas paredes brancas, fazendo o líquido quente e grosso jorrar da ferida em seu crânio.
- Ethan!
A arquiteta assiste o açougueiro arrastar seu corpo pelas pernas. Uma trilha nauseante de sangue se forma no piso. Rachel chora incessantemente. Não havia nada que se pudesse fazer, Ethan, o motorista do carro, estava morto.
Vinte minutos depois os homens invadem o porão e miram a lanterna para o rosto de Rachel, ofuscando-a. Triste demais para resistir, ela os deixa soltarem suas correntes e levá-la para fora.
Passando pela sala iluminada, ela vê algo terrível acontecendo ali. Deitado em uma mesa de alumínio, Ethan teve seu peito serrado ao meio. As costelas foram afastadas por garras de aço e o açougueiro, um homem gordo e barbudo, retira os órgãos internos e os guarda em potes de vidro. Ao ver Rachel sendo levada, ele tira sua mão do buraco no peito de Ethan e enxuga o suor de sua testa.
Em outra sala, onde antigamente era a câmara fria, há dúzias de cadáveres pendurados por ganchos no teto. Semelhante aos bovinos que tinham suas carnes resfriadas para mantê-las conservadas, os corpos humanos foram estocados ali. Ela se pergunta de onde vem a energia elétrica de todo o local.
Subindo as escadas, ela sai ao ar livre e vê o acampamento dos caçadores. Apesar da escuridão, ela nota que está realmente em um frigorífico, há tubos enormes e grossos passando pelas vielas e pelos telhados dos galpões. Tochas iluminam o local e há homens barbudos e bigodudos patrulhando com seus rifles.
Os homens a levam para uma casa afastada dos galpões industriais. É uma casa de dois andares, aparentemente feita de madeira. Há cinco caminhonetes estacionadas na frente e uma escada de pedra os leva à entrada. Uma cabeça enorme de alce adorna a entrada e uma lareira ilumina uma sala com vários caçadores. Eles estão deitados e conversam tranquilamente, Rachel se apavora ao ver que o fogo na lareira é alimentado por ossos e crânios.
Lançada sobre o tapete de pele de urso, ela se arrasta até suas costas baterem na parede. Ela conta dezessete homens ali. Os caçadores se levantam e a cercam. Tirando suas camisas xadrez e suas roupas camufladas, eles avançam contra ela. Ao segurarem seus braços e pernas, Rachel parece entrar em choque e sua mente se retrai até sua visão desaparecer. Vozes abafadas invadem seus ouvidos, mas poucos segundos depois ela sucumbe ao pavor e desmaia no chão.
Os caçadores despem seu corpo e se revezam fazendo sexo com ela durante toda a noite.

§

Ao acordar, Rachel se vê sozinha na sala da lareira. Suas roupas estão jogadas pelo chão, os caçadores usaram facas para cortá-las e despirem-na. Ao seu lado ela vê apenas seu sutiã e sua calcinha, as únicas peças que ainda se podem vestir.
A luz cinzenta do dia ilumina a sala e ela percebe que há grandes janelas de vidro nas paredes laterais. No alto há um mezanino e abaixo ela vê um balcão, provavelmente onde deixavam os copos e garrafas naquele charmoso bar rústico. É uma bela casa, afinal. A arquiteta se surpreende ao perceber que ainda tem sensibilidade para sua profissão, pelo menos o mundo devastado e sangrento não a destituiu de tudo.
A apreciação dura pouco quando ela vê retratos de mulheres no alto da parede. De semblantes assustados e apavorados, as mulheres foram fotografadas antes de virarem comida pelos caçadores. Abaixo dos retratos ela vê nomes escritos na moldura. Em seu senso psicótico de arte, os caçadores escreveram o nome de suas vítimas, identificando-as. A mulher no porão estava certa, estes assassinos desumanos realmente enfeitam a casa com suas aquisições. Naquele covil de caçadores de gente, mulheres como Rachel não valem absolutamente nada.
Rachel sai pela porta principal e vê dois caçadores mastigando fiapos de capim na varanda. Um deles, usando um colete de pescador, olha pare ela e diz:
- Bom dia, mal-educada.
Ela olha para o frigorífico abandonada perto da casa. As árvores e as montanhas cercam o local, os caçadores escolheram bem seu esconderijo.
Enquanto está parada ali, uma caminhonete se aproxima pela estrada de terra. O veículo estaciona em frente à casa, os homens na caçamba descem e trazem consigo galões de gasolina. Os dois caçadores na varanda se aproximam do motorista e começam a conversar. Ignorando os comentários voluptuosos dos homens passando perto dela, Rachel se aproxima para ouvi-los.  
- Ei Lloyd, o que você trouxe dessa vez?
- Não muito, apenas o combustível para as caminhonetes.
- Você já experimentou a novata? Ela é uma mulher muito bonita, tem os olhos azuis mais lindos que já vi.
Então o motorista olha para ela. Naquele momento o coração de Rachel salta. Aquele homem é idêntico a Brad! Se não fosse por toda aquela barba, ela se confundiria facilmente. Os cabelos loiros de Lloyd e sua postura altiva lembram muito ele. Será possível que poderiam ser a mesma pessoa?
- Mas o que é que ela está fazendo ali ainda?! Vocês já a alimentaram? Já a levaram ao banheiro?
- Não, senhor.
- Então andem logo!
Os homens assentem e o obedecem. Levando-a pelas vielas do frigorífico, os caçadores se excitam ao vê-la passando apenas de calcinha e sutiã. De volta ao porão, eles a levam ao banheiro e então a prendem com as outras mulheres. 
Ela percebe que o tal Lloyd é o chefe do grupo. Enquanto pensa a respeito, os homens levam comida e água para as cativas. Após saírem, a mulher diz:
- Espero que não se importem com a comida.
- Por quê? – pergunta a moça.
- É carne humana.
As duas veem carne assada em uma tigela de plástico. Sentindo náusea, elas se recusam a comer. A mulher ri e come normalmente, sem se importar.
À noite, os caçadores voltam e, ao ouvi-los, a mulher diz:
- Hora de trabalhar. Vejo vocês amanhã.
Ela se despede mandando-lhes um beijo. Rachel ouve o ruído de sucção e se surpreende como ela consegue ser tão fria. Ao ser levada, a arquiteta e a moça ficam sozinhas e em silêncio, sem conversar.

§

Vinte dias se passam e os estupros são cada vez piores. Rachel não consegue mais desmaiar durante o ato sexual e tem que suportar aqueles homens barbudos suarem e gemerem em cima dela. Incapaz de suportar a fome, ela é obrigada a ingerir aquela carne repugnante esfolada de seres humanos.
Certa vez, descendo de volta ao porão, ela passa em frente à porta onde ficam os homens e vê dezenas de pessoas esqueléticas, barbudas e sem roupas encolhidas no chão. Então é assim que eles ficam antes de serem “processados” na mesa do açougueiro? Jogados em um buraco escuro sem alimento e sem higiene apenas esperando pela morte hedionda? Diferente deles, o gado era bem tratado antes do abate. Pelo menos eles eram alimentados.
Raramente Rachel via Lloyd lá em cima. Ele nunca a estuprou, ou pelo menos nunca percebeu sua presença no meio daqueles pervertidos. Algumas vezes ele voltava dirigindo sua caminhonete com peregrinos capturados nas ruínas. A arquiteta se irritava por não ver mulheres, sem elas Rachel teria que passar pela violência sexual mais vezes, não tendo outras para retardar a sua vez.
Após uma noite de estupro, Rachel tenta se levantar, ela está sentindo muita dor. Ao olhar pela janela, ela vê uma caminhonete se aproximar lá fora, mas algo está diferente. Aquela caminhonete não era dali.
Lloyd recebe os visitantes, eles descem da caçamba e ele cumprimenta o motorista. Apesar de serem forasteiros, os outros se vestem de maneira idêntica aos caçadores locais. O chefe os conduz para dentro da casa e, ao entrarem na sala, todos se deparam com Rachel seminua agachada contra a parede.
- Não se preocupem. Ela é só uma escrava. – diz Lloyd.
O chefe do outro grupo olha para ela e diz:
- Você tem muita sorte. É a escrava mais bonita que eu já vi.
Durante anos a beleza da arquiteta foi seu ponto forte. Hoje ela a amaldiçoa. Por sua beleza ela gera cobiça nos homens mais abomináveis que existe. Esses canibais que se denominam caçadores.
Lloyd ordena que seu subordinado leve a arquiteta de volta ao porão. Antes dela sair da casa, ela consegue ouvir o outro chefe dizendo:
- Nosso grupo capturou vários peregrinos semanas atrás. Eles estavam em um condomínio abandonado à beira da floresta, ao norte daqui. Os peregrinos se escondiam nos prédios, mas nós os invadimos e levamos todos para o nosso esconderijo. Alguns fugiram de volta à cidade, mas nós os pegaremos depois...
Passando perto da caminhonete dos visitantes, Rachel vê que alguns deles estão distraídos, conversando encostados no veículo. Ela se surpreende ao ver uma mulher na cabine, ela veste roupas sexualmente sugestivas e maquiagens no rosto, semelhante a uma meretriz. O homem que a escolta de volta ao porão diz:
- Espere aqui. Eu preciso mijar.
O homem se dirige às árvores e Rachel aproveita para falar com a mulher. Correndo até o veículo, ela suplica em desespero:
- Por favor! Você tem que me ajudar! Esses homens são loucos! Eles comem carne humana e estupram as mulheres todas as noites! Eu preciso sair daqui, me ajude pelo amor de Deus!
A mulher se aproxima de Rachel e então cospe em seu rosto. Os caçadores ao lado do veículo veem a cena e gargalham. Todos riem dela enquanto ela se limpa, chorando de tristeza enxugando a saliva misturada com lágrimas.

§

À noite, confinada no porão, os caçadores descem para levar a moça. Ao amanhecer, quando eles a trazem de volta, Rachel e a mulher notam como ela está cada vez mais machucada. Aqueles homens pareciam dar um tratamento especial a ela.
Nas noites em que a moça está ausente, a arquiteta tem longas conversas com a mulher e as duas se tornam grandes amigas. Rachel comenta sobre o chefe Lloyd, dos outros caçadores e da mulher na caminhonete. A mulher não sabe por que uma escrava veio com eles, ela nunca viu isso antes e demonstra muita curiosidade. Ela também fica muito empolgada ao saber do interesse amoroso de Rachel por Lloyd.
A arquiteta comenta sobre uma possível fuga. Dada a oportunidade, ela não hesitará em fugir daquele lugar terrível. Rachel convida a mulher mas ela se apressa ao rejeitar. Ela está bastante conformada com a situação atual e não pretende mudar isso. Sempre que questionada sobre o motivo de querer ficar, a mulher responde: “Eu não vou morrer doente nas ruínas, ou estuprada por grupos maiores e piores do que esse”.
A mulher sente-se confortável ao confessar detalhes de sua vida pessoal à Rachel. Ela comenta que já teve uma família, mas a perdeu quando foi capturada por saqueadores dois anos atrás. Ela disse que sobreviveu à explosão nuclear, mas escapou por pouco de ser queimada viva pelas chamas da “aftermath”. Ela também disse que foi casada com um homem incrível, um idealista, mas por alguma razão ele não voltou para resgatá-la após sua captura. Amargurada, ela confessa que não é a primeira vez que é estuprada por homens cruéis. Para evitar que isso aconteça de novo, ela prefere ficar ali, ao mesmo tempo segura e alimentada no esconderijo dos caçadores.
Os homens descem para levar a mulher, Rachel a espera ansiosamente e deseja sinceramente em seu coração que ela volte bem. Na noite seguinte eles levam a arquiteta e, ao passar pela sala iluminada, ela vê outro homem sendo esquartejado pelo asqueroso açougueiro. Ela se pergunta se não comeu Ethan sem saber, tendo que ingerir partes de seu amigo para não morrer de fome. Tudo naquele lugar só lhe suscitava dor, tristeza e sofrimento.
Nos poucos minutos em que fica na casa durante o dia, ela vê Lloyd passando ao longe e seus olhos se enchem de carinho. Seu coração bate mais forte ao ver aquele homem tão bruto, mas tão parecido com seu Brad. No porão, a mulher espera anoitecer para que os homens levem a moça. Sozinhas, a mulher chama Rachel e diz:
- Rachel, tenho algo que não podia mostrar na frente da garota.
- O que é?
Ela retira um objeto de dentro de sua vagina, enojando a arquiteta.
- Desculpe, se eu tivesse roupas eu colocaria em um bolso. – responde ela, tentando parecer bem-humorada perante a desgraça.       
A arquiteta vê uma chave e, intrigada, pergunta:
- Como conseguiu isso?
- Eu roubei do caçador enquanto ele me carregava para cima.
- E por que não mostrou à garota também?
A mulher sorri.
- Aquela cínica faria de tudo para sair daqui, inclusive nos trair.
Rachel insere a chave no cadeado e o destranca, desvencilhando-se das correntes em seu pulso. A mulher lhe indica a janela no alto da parede e Rachel sobe nas mesas para abri-la. Os caçadores não contavam que as escravas pudessem se soltar e não se importaram de trancar as altas janelas.
- Você não vem?
- Você sabe que não.
- Mas...
- Rápido! Os caçadores patrulham o frigorífico à noite. Se eles verem a janela aberta, desconfiarão.
A arquiteta escala a parede e se rasteja pela janela. Do lado de fora, ela diz:
- Eu jamais esquecerei o que fez por mim. Eu voltarei para trazer ajuda, eu prometo.
- Por favor, não volte. Eu já selei o meu destino. Não queira selar o seu.
Abatida, lágrimas escorrem de seus olhos e Rachel pergunta:
- Você vai ao menos me dizer o seu nome?
A mulher sorri. Quando está prestes a responder, a arquiteta ouve um grito atrás dela e a mulher grita:
- Fuja! Fuja depressa!
Rachel corre pelas vielas escuras do frigorífico. Os caçadores a perseguem pelos galpões com tochas e lanternas em mãos. Com a tensão do momento, ela parece não sentir o frio da noite enquanto corre com roupas mínimas em seu corpo. Ela alcança a floresta e continua correndo, sem se importar com as constantes quedas no solo lamacento. Nada irá para-la naquele momento.
Ao amanhecer ela se vê em uma floresta de árvores mortas. As folhas estão espalhadas pelo chão e os troncos tem a mesma tonalidade cinzenta do céu. É como se toda a floresta tivesse sido queimada em um incêndio, mas naquele caso não houve fogo algum.
A arquiteta ouve o ronco dos motores ao redor. Do alto da colina ela pode enxergar a estrada de terra com as caminhonetes passando. Não importa o quanto ela avance, aqueles homens são caçadores e mesmo a pé eles a encontrariam facilmente. Eles vivem da caça, e perseguir a mulher como se ela fosse uma presa é seu maior entretenimento.
Por algum milagre, Rachel vê a silhueta de uma cidade aparecer ao longe. Ela esteve fugindo por três dias sem o menor senso de direção, e ver a cidade lhe dá esperanças. Percorrendo o resto da floresta em quatro horas, ela chega às primeiras casas. A aparência fantasmagórica da cidade lhe assusta, tudo está completamente abandonado e deserto.
Avançando pelas ruas cobertas de entulhos e vegetação, ela não vê outra opção senão se abrigar e esperar pelo dia seguinte. Ela está faminta e esteve bebendo uma água lamacenta para saciar a sede. Encontrando uma loja de conveniências, ela se deita atrás do balcão e espera pelo anoitecer. Então algo acontece.
Ouvindo um ruído vindo da rua, ela se esgueira atrás do balcão e espia a rua. Ela ouve passos e vozes de várias pessoas. Ela pensa serem os caçadores, mas então os desconhecidos aparecem ao longe, caminhando juntos como uma procissão. São homens e mulheres, inclusive crianças, vestindo casacos velhos e mochilas nas costas. Peregrinos.
A arquiteta deixa seu esconderijo e corre em direção a eles. Todos se intrigam ao ver uma mulher famélica correr de calcinha e sutiã pela rua. Seria uma louca?
- Por favor, eu imploro. Estou faminta, tenho sede, estou com frio... Me ajudem, por favor...
Ela está esgotada de suas forças, não vai demorar muito para desmaiar de exaustão. O homem à frente do grupo se aproxima e pergunta:
- Quem é você?
- Sou Rachel. Estou fugindo há quatro dias e não tenho para onde ir...
A mulher treme de frio e cruza os braços sobre o peito. Seu cabelo está desarrumado e suas costelas estão salientes. Tudo em sua aparência inspira sofrimento com exceção de uma coisa, ela tem os olhos azuis mais bonitos que ele já viu.
O homem pede um casaco ao grupo e ele lhe dá roupas para vestir. Em seguida lhe oferece água e comida. A mulher agradece como se fosse venerá-lo. Ele a convida para se juntar ao grupo e ela aceita com entusiasmo. Então o grupo retoma a caminhada e a mulher vai ao seu lado, dizendo-lhe tudo o que aconteceu.  
E assim a arquiteta se junta ao grupo do professor.
      


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