A
Arquiteta
Sentados
sobre a areia, a arquiteta Rachel Sullivan encosta sua cabeça no ombro de Brad
e ambos assistem ao anoitecer na praia. Os dois se amam muito, ela pensa como
sua vida foi tão fria e vazia antes de encontrá-lo. Rachel sente-se completa agora.
Nada pode separá-la deste imenso amor.
Em
silêncio enquanto ouve as ondas quebrarem na praia, seus olhos se enchem de
lágrimas ao refletir sobre sua própria vida. Ela pensa se vale a pena viver, se
vale a pena amar sob o risco de sofrer novamente. Ela pensa se Brad, da qual
ela ama tanto, irá embora um dia e se sua lembrança ela simplesmente vai...
esquecer. Sua vida não é mais a mesma agora. Com Brad ao seu lado, Rachel não
tem mais medo de amar.
As
luzes da avenida e dos prédios iluminam a bela praia. A noite cai sobre a
cidade e suas luzes a ofuscam. Ela só pensa nele, no homem sentado ao seu lado,
acariciando seus cabelos enquanto ela olha triste para as ondas, mas ao mesmo
tempo feliz por dentro.
Lembrando-se
das inúmeras vezes em que eles fizeram sexo no motel, ela sempre parava em
frente à janela, ficando a observar as brilhantes luzes da cidade ao longe.
Brad nunca entendia por que ela ficava ali, distraída e pensativa. Ele a
abraçava por trás e ambos observavam a noite juntos. Rachel perguntava sempre
se ele a amava e ele respondia que sim. “Mais que tudo” complementava ele.
Os
dois deitavam e se olhavam constantemente. Eles conversavam por horas, o homem
se fascinava com os brilhantes olhos azuis dela. Eles faziam sexo, conversavam
um pouco e faziam mais sexo. Era como se os dois nunca se enjoassem um do
outro. Eles poderiam se ver por dias, um acariciando o cabelo do outro, não se
importando com o mundo tumultuado lá fora. Dentro daquele quarto só os dois
importavam.
Brad
uma vez disse que nunca amou tanto alguém para gostar de estar vivo. A mulher
perguntava quais eram os sonhos dele, do que ele gostava, qual era sua cor
preferida, os filmes, os livros, o estilo de música... Rachel nunca se cansava
de ouvir sua voz, era como se a hipnose da paixão alimentasse seus ouvidos,
rompendo suas barreiras e deixando-a indefesa. Às vezes eles conversavam a
noite inteira, satisfazendo-se apenas em se ver e se ouvir, não precisando de
mais nada além dos dois. Enquanto ele falava, Rachel pensava para si mesma:
“desta vez tem que dar certo”. Quem sabe?
Certa
vez Brad disse:
-
Quero ficar com você para sempre.
Suas
palavras a pegam de surpresa. Ela não sabe o que dizer e apenas olha
boquiaberta para ele. Pensando no que responder, ela desvia o olhar e acaricia
os pelos loiros de seu peito.
-
Você quer dizer fugir?
Convictamente,
ele responde:
-
Quero ver o seu rosto todos os dias de minha vida.
Rachel
sorri e aceita. Os dois se abraçam e se beijam, já planejando suas vidas agora
que ficarão juntos para sempre.
As
noites no motel foram as mais perfeitas de sua vida. Ela se lembra de cada uma
delas enquanto está sentada ali, observando as ondas quebrarem nas areias do
mar. Brad está em silêncio também, ele não desperdiça nenhum momento com Rachel
quando os dois estão juntos, sentindo o calor um do outro.
Ela
sente o vento frio passar sob suas roupas. Ao olhar para as horas no celular,
ela o chama:
-
Brad, está tarde. Eu tenho que ir.
O
homem se entristece. Uma das noites mais românticas de sua vida chega ao fim.
Se ele pudesse, ficaria sentado com ela na areia da praia até o amanhecer.
-
Está bem.
Dirigindo
seu carro pelas ruas coloridas da cidade, ele a leva embora. Parando em frente
a casa de Rachel, os dois se beijam e quasem fazem sexo dentro do carro, mas ela
o interrompe. Ao abrir a porta, ela põe seu pé na calçada quando Brad segura
seu braço e a puxa de volta, beijando-a mais uma vez. Ele então pergunta:
-
Quando vou vê-la de novo?
- Em
breve. – responde ela.
-
Promete?
Ela
sorri.
-
Prometo.
Rachel
abre a porta de sua casa. Já é madrugada e está escuro ali dentro, ela caminha
silenciosamente pela sala quando alguém sentado em uma poltrona liga a luz do
abajur. Um homem a encara com olhar abatido, ela consegue ver olheiras em seu
rosto com a luz amarelada da lâmpada. O homem pergunta:
-
Você estava com ele?
Surpresa,
a arquiteta responde:
-
Sim. Você sabe que sim.
O
homem enxuga as lágrimas de seus olhos e tenta conter o choro. Ele sorri ao
responder:
- Eu
fiz o jantar para você... Está com fome?
Rachel
é evasiva.
- Eu
sei o que está tentando fazer, Michael. Eu...
-
Não. Não diga nada. Eu só... estou sem sono.
A
arquiteta muda de assunto.
-
Como está o Scott?
-
Dormindo. Ele também estava esperando você chegar.
Ela
entendeu o que seu marido quis dizer. O abatimento transborda em seu rosto.
Caminhando
até o quarto de seu filho, ela entra e o encontra dormindo tranquilamente. O
menino tem apenas cinco anos, está crescendo rápido. Ela acaricia seus cabelos
e o beija no rosto. Sussurrando em seus ouvidos, ela diz: “mamãe já voltou,
querido”.
Após
trocar de roupa ela deita em sua cama, de costas para Michael. Ele está deitado
no outro lado, de barriga para cima, olhando para o teto escuro. Michael também
tem lembranças, mas diferente de Rachel, as dele são dolorosas.
Durante
muito tempo ele lutou para que Rachel não fosse embora. O amor dela já havia
acabado há muito tempo, mas seu marido estava decidido a não perder a mulher de
sua vida. Michael tentou usar seu filho para fazê-la ficar, argumentou que não
queria que ele crescesse sem pai. Ela concordou e ambos ficaram juntos, apesar
da vida de marido e mulher jamais voltasse a ser como era. O homem planejou
reconquistá-la, fez de tudo o que pôde, deu presentes, declarações de amor,
carinho, atenção, tudo para tê-la de volta, mas nada adiantou. Rachel estava
cada vez mais ausente, impermeável e intransponível às tentativas de seu
marido.
Não
demorou muito e ela começou a voltar para casa cada vez mais tarde. Michael
notava seus cabelos molhados quando chegava. Estranhamente ela estava sempre
feliz, bem-humorada, mais falante, diferente de seu estado habitual, sempre
séria e indiferente. Seu marido esperou duas semanas para perguntar, mas não
gostou de ouvir a resposta. Rachel, sua esposa, tinha um amante. O homem sentiu
que o mundo tinha desmoronado sobre sua cabeça, que suas esperanças foram
perdidas com o passar de meros segundos. Tardiamente ele percebeu que, apesar
de sua persistência em tê-la de volta, realmente é como dizem: as piores
feridas são aquelas feitas por amor.
Por
inúmeras noites ele a esperou acordado, deitado de olhos abertos no escuro.
Scott, o filho do casal, perguntava por sua mãe ausente, mas o que ele podia
responder? Quando Rachel estava fora Michael cheirava suas roupas, sentindo o
cheiro de perfume e suor. Aquilo só significava uma coisa, sua mulher estava
fazendo sexo com outro homem. Por muitas vezes o menino pegou seu pai chorando.
No começo Michael era discreto mas depois ele chorava constantemente, enquanto
cozinhava ou quando colocava seu filho para dormir. Apesar das insistentes
perguntas de seu filho, ele nunca foi capaz de responder por que chorava.
- Isso
é coisa de adulto. Um dia poderei te responder. Agora durma bem, meu filho.
Geralmente
as mulheres sofrem quando são traídas e tem seu casamento destruído. Mas agora
Michael sabe o que elas sentem.
Suspirando,
ele deixa a mágoa dominá-lo mais uma vez. O amor acabou, menos para ele. Este é
seu fardo, amar incondicionalmente uma mulher que está amando outro homem. Não
conseguindo dormir, ele quebra o silêncio e diz à sua esposa:
-
Rachel, eu não consigo mais fazer isso.
A
arquiteta estava acordada também. Não havia razão para fingir que estava
dormindo.
-
Como assim?
-
Vou dar o que me pediu. Não vou mais ficar em seu caminho. Eu vou te dar o
divórcio.
Ela
não sabe se fica triste ou feliz. Na verdade ela tem vontade de sorrir, mas ela
não quis que terminasse assim, não desse jeito.
-
Michael, por que você está fazendo isso agora?
O
homem fica um tempo olhando para o escuro e então responde:
-
Viva. Seja feliz. Realize seus sonhos. Eu te amo, Rachel, sempre vou te amar. E
amar de verdade é isso, querer que seu amor seja feliz mesmo que não seja com
você.
Então
a arquiteta sente-se consternada.
- Eu
não sei o que dizer.
-
Apenas aceite. Mas tem uma condição. O Scott fica comigo.
Ela
protesta.
-
Não! Não posso permitir isso.
-
Mas você vai. Não estou fazendo isso por vingança, mas meu filho não chamará
outro homem de pai.
Ao
perceber seu marido se impondo, ela é desafiante ao perguntar:
- Como
assim eu vou?
- Se
você não me conceder a guarda da criança, eu vou expor seu adultério no
tribunal. Você perderá a casa, seu carro, seus bens em geral e ficará sem nada.
É você que escolhe.
Ela
se assusta.
-
Está me ameaçando?!
- Se
quiser manter sua dignidade, vai fazer o que te pedi.
- O
filho deve ficar com a mãe! – grita ela.
-
Ah, não finja que se importa com ele! A gravidez mais te atrapalhou do que
ajudou! Eu que estive aqui cuidando do Scott enquanto você transava por aí, voltando
para casa no meio da noite! E me responda. Isso foi diferente hoje?
Rachel
então se cala.
-
Está bem. – responde ela, por fim – Eu farei o que me pediu.
§
Sentada
no banco de passageiro do carro, Rachel observa a paisagem pelo vidro sujo da
janela ao seu lado. Atrás dela estão mais duas pessoas, um rapaz e uma moça. O
motorista, Ethan, é um homem barbudo de olhar assustado. Todos inclusive ela são
peregrinos.
Eles
estiveram dirigindo pelas estradas e rodovias durante meses, só parando para roubar
mais gasolina e reabastecer. Com a sobrecarga dos mantimentos saqueados, os
pneus do carro se desgastavam rapidamente, o motor dava sinais de exaustão, mas
nenhum deles ousava parar nas cidades para procurar peças e consertar o carro.
Enquanto
avançavam eles passavam por buracos, entulhos e destroços do que sobrou depois
da guerra. Muitos peregrinos viam o carro e tentavam para-lo para pedir ajuda,
mas tinham seus pedidos de socorro ignorados. A radiação se mostrava em toda
parte, havia muitos peregrinos mortos e alguns tinham deformações horríveis em
seus corpos. Com tanta morte e doença ao redor, era como se estivessem em um
filme de terror.
A
arquiteta, uma mulher que viveu se dedicando à urbanização e embelezamento da
sociedade, lutava para que os prédios abandonados fossem restaurados ou
demolidos. Aqueles prédios eram redutos de marginais, abrigando mendigos,
ladrões, viciados e prostitutas durante a noite. Eventualmente não era com os
desafortunados que ela se preocupava, mas com a aparência estética da cidade.
Para sua frustração, depois que a guerra acabou toda a sociedade se tornou um
emaranhando de prédios abandonados, e aqueles que sobreviveram se tornaram
asquerosos marginais. O destino foi irônico.
Avançando
pela tortuosa estrada, eles chegam a uma ponte destruída. Descendo do carro, o
motorista vê o penhasco e o resto da estrada depois da ponte. Então ele diz:
- É
o fim da linha. Temos de voltar.
-
Voltar pra onde? – pergunta Rachel. Eles não têm para onde ir.
A
moça os chama e diz:
-
Tem uma placa aqui. Está escrito “desvio”.
Eles
caminham até ela e veem tábuas pregadas formando uma placa rudimentar. A placa
foi escrita à mão com tinta vermelha. Pela aparência aquilo foi deixado ali há
muito tempo. Ao lado está o caminho alternativo a seguir, uma estrada de terra
ladeada por muitas árvores se estendendo pelas montanhas.
O
rapaz sente medo.
-
Vocês vão mesmo entrar aí?
- É
só um desvio. – responde a moça.
Rachel
olha para o penhasco sob a ponte e diz:
- Dá
para ver o resto do caminho lá embaixo. Se passarmos por ele, logo estaremos na
estrada no outro lado.
O
motorista e a moça concordam, o rapaz mostra-se relutante mas cede à decisão do
grupo. Já era meio-dia e todos sabiam que não era seguro pernoitar ao lado da
estrada. Eles temiam os ladrões.
De
volta ao carro, eles trancam as portas, vestem o cinto e então adentram a
estrada de terra.
§
Michael
assiste sua ex-mulher assinar os papeis do divórcio. Seus olhos angustiados
apreciam sua exuberância. Ela está maravilhosa, a última vez que ele a viu tão
feliz assim foi no dia em que se casaram. Mas ao pensar bem, ele duvida se ela
já sentiu o mesmo por ele e se ambos já foram felizes juntos.
Eles
deixam a audiência e ambos os advogados ficam com as cópias dos documentos.
Enquanto o advogado de Michael fala com ele, ele observa sua bela esposa dar as
costas e sair da sala. Seus longos cabelos soltos e seus olhos azuis hipnotizam
os homens ao redor, Rachel sempre chamou a atenção por sua beleza. Michael
sente rancor, ela deve estar se sentindo o máximo agora. O corpo de sua
ex-mulher será possuído por outro homem, sua beleza pertencerá a outro alguém.
Não conseguindo controlar sua ira, ele vai atrás dela. “Quem é o cretino que
roubou minha mulher?” pensa ele.
Rachel
atravessa a rua e entra em um carro estacionado ao lado do prédio. Ela se senta
no banco do passageiro e então beija o motorista. Michael está lá fora e
observa a cena, um beijo molhado e apaixonado que eles raramente deram. O homem
ao seu lado é loiro e aparentemente alto, e veste uma camiseta esportiva. Os
dois saem com o carro e vão embora, sem perceber a presença dele ali. Ao ver o
homem, Michael se sente feio, velho, e ridículo, totalmente inferior ao homem
que foi capaz de tirar Rachel de seus braços. Ele se entristece.
Para
Rachel tudo é diferente. Ela está feliz, aqueles são os dias mais felizes de
sua vida. Brad e ela estão sempre juntos e nada mais importava. Várias vezes
eles faziam sexo à noite enquanto a televisão estava ligada transmitindo os
constantes noticiários. Distraída demais para prestar atenção, Rachel não
percebeu que os noticiários davam notícias gravíssimas sobre uma iminente
guerra nuclear.
Duas
semanas depois, ela volta ao apartamento de Brad e o encontra pensativo na sala.
Ao notar a presença de Rachel, ele abaixa o volume da TV e lhe dá um sorriso
fingido. Quando ela ia perguntar qual era o problema, o celular de Brad toca e
ele vai atendê-lo no quarto, deixando-a sozinha. Ao voltar, ele a olha nos
olhos e é direto ao dizer:
- Eu
não posso mais fazer isso.
Ela
não entende.
- Do
que está falando?
- Eu
não posso mais, Rachel. Me desculpe.
A
arquiteta fica confusa.
-
Você está terminando comigo?
Um
pouco distante, ele responde:
-
Lamento.
-
Como assim você “lamenta”?
Brad
fecha os olhos e balança negativamente a cabeça.
-
Foi bom enquanto durou.
Rachel
sente como se seus olhos se abrissem e ela acordasse de um transe hipnótico.
- Eu pensei que você me amasse! – grita
ela.
- Eu
me enganei.
Lágrimas
se formam em seus olhos e ela tenta controlar o ódio crescente em seu peito.
- É
algo no seu celular, não é? O que você tem aí? Quem te ligou?
Ele se
afasta, não permitindo que a arquiteta veja seu telefone.
-
Rachel...
-
Olhe nos meus olhos e diga que você não me ama!
Frio
como um cubo de gelo, ele a encara com olhar sério e então abre sua boca.
- Me
desculpe.
§
O
carro está tombado no meio da floresta. Rachel abre os olhos e vê que o casal
no banco de trás estão desacordados. O motorista geme de dor, há um pedaço de
metal fincado em sua perna. Eles estão de ponta-cabeça e o sangue escorre por
seus rostos contra o teto do veículo. Rachel não sabe o que aconteceu, ela só
se lembra de um estrondo no meio da estrada pouco antes de tudo escurecer de
repente.
Ethan
vê silhuetas de homens armados aparecerem entre as árvores. Ao seu lado a
arquiteta também vê homens aparecerem ao longe. Ela se enche de pavor. O
motorista segura seu braço e sussurra para ela:
-
Corra, Rachel...
-
Mas e você?
Soltando
o cinto de segurança de Rachel, o motorista ordena:
- Fuja!
A
arquiteta rasteja pelo vidro quebrado da janela e corre pela floresta. Sem
olhar para trás, ela corre pela vegetação baixa, as árvores ressecadas e a fina
neblina da floresta. Seu coração bate descontroladamente e sua respiração
produz sussurros de quem está desesperado para sobreviver.
De
repente uma rede cai sobre seu corpo, fazendo-a se desequilibrar e cair entre
os galhos. Batendo a cabeça em uma pedra, ela imediatamente perde a
consciência.
§
As
luzes da cidade iluminam mas perdem seu brilho. O mundo se tornou uma mancha
monocromática, fria e esvaziada de emoções, e no furor de sua melancolia levou
os sentimentos amorosos de casais apaixonados que momentos antes estavam bem. É
assim que ela pensa agora, sentada na areia da mesma praia em que esteve com
Brad há poucas semanas. Ao contrário daquelas noites românticas ao luar, ela
está sozinha olhando com agonia para o horizonte.
O
homem que ela mais amou se foi. O mesmo homem que foi capaz de encorajá-la a
abandonar sua casa e propor uma vida juntos lhe deu as costas e desapareceu.
Brad não atendia mais suas ligações, não lia suas mensagens no celular, não lia
seus emails, não ouvia os incontáveis recados na secretária-eletrônica, e
quando a arquiteta finalmente decidiu procurá-lo em seu apartamento, Brad havia
ido embora.
Sentada
na areia, lágrimas escorrem de seus olhos magoados. Ela ainda sente os ecos da
voz de Brad em seu coração, mas não é mais do jeito que era antes. A vida não
mais valia a pena viver, não com a imagem de seu amante gravada em sua mente,
vendo-o cada vez que ela fechava os olhos.
Rachel
pensava nele o tempo todo.
Ela
estava sozinha na cidade. As luzes brilhantes a deixam atordoada, o vento frio
congela seu corpo e o movimento constante das pessoas, aquela multidão
distraída de pessoas, a deprimem com seu descaso. Ninguém está lá para
consolá-la, ninguém que ama seu marido ou esposa vai se atrasar um segundo
sequer em seu retorno para casa, para abrandar as feridas em seu coração.
A
praia, o anoitecer e o horizonte escarlate são seus únicos companheiros agora.
Seria tarde demais para voltar para casa? Dizer a Michael e ao seu filho Scott
que o homem que ela amou, mais até que sua própria família, a deixou e foi
embora sem dizer adeus? O amor é um sentimento tão bom, mas depende do ponto de
vista de quem o sente. Apesar de Brad tê-la abandonado, ela não se importa com
sua família no momento. É indiferente. Olhando para o horizonte marítimo, ela
sussurra para si mesmo:
- Eu
te amo, Brad. Volte para mim...
Olhando
fixamente para o horizonte, ela está distraída e não percebe a aproximação de
alguém à sua direita. Um homem caminha na areia da praia e estranha a mulher
sentada ali como se nada na cidade estivesse acontecendo. Intrigado, ele
pergunta:
-
Com licença, moça. Você está bem?
Encolhida
com os braços ao redor das pernas, ela mira seus olhos azuis para o rosto do
homem. Ele veste uma blusa de moletom e a alça de uma bolsa passa por seu ombro
esquerdo. Era como se ele estivesse prestes a fazer uma viagem.
-
Sim.
-
Bem, desculpe incomodar. Eu te vi sentada aí e já é quase noite. As ruas
estarão desertas em alguns minutos.
Ela
não entende. Ao olhar seu relógio ela vê que são 17h45min.
-
Por quê?
Surpreso,
o homem sorri.
- É
o toque de recolher, ou qualquer coisa assim. Está todo mundo com medo. Você
não assiste aos noticiários?
Rachel
não assistiu aos noticiários nenhuma vez nessas semanas. Em seu mundo
particular só existia Brad.
-
Acho que não.
-
Eles estão falando disso vinte e quatro horas por dia! Uma guerra nuclear está
prestes a acontecer. Ninguém mais sai de casa à noite, todos querem ficar em
casa com suas famílias.
As
últimas palavras do homem ecoam em sua cabeça. “Em casa com suas famílias...”.
- Eu
não tenho mais família. – responde ela, amargurada.
- Se
quiser eu posso te ajudar. O meu ônibus sai em uma hora e a rodoviária não está
longe daqui. Você poderia vir conosco.
-
Para onde vocês vão?
-
Para o mais longe que pudermos! Não é seguro ficar nesta cidade, se uma ogiva
nuclear explodir aqui, tudo o que está vendo vai desaparecer. Devemos ficar o
mais longe possível do hipocentro. Depois da explosão a onda de choque terá um
raio de 30 km. No mínimo.
A
arquiteta não dá atenção aos alertas do homem. Diferente dele, ela tem outros
motivos para fugir para bem longe.
- Eu
vou com vocês.
O
homem se alegra. Ele dá sua mão e a ajuda se levantar. Em seguida os dois
caminham juntos para a rodoviária.
Rachel
não sabe, mas os dois estarão juntos pelos próximos dois anos dirigindo um
carro pelas ruínas com mais duas pessoas no banco de trás.
§
-
Acorde...! Rachel, acorde...!
A
arquiteta abre os olhos e se vê em um porão com azulejos brancos e janelas na
altura do teto. Lâmpadas fluorescentes iluminam um cômodo mais a frente após um
corredor escuro. Há pessoas ali, mas ela não consegue vê-las. Ao seu lado está
a moça do carro, ela está amarrada pelos pulsos e tenta acordá-la.
- O
que aconteceu? – pergunta Rachel, sentindo fortes dores na cabeça.
- Eu
não sei, acho que fomos capturadas.
A
arquiteta vê correntes presas em seus pulsos também.
Silhuetas
de homens aparecem no quarto iluminado. Elas ouvem ruídos metálicos, passos e
serras cortando algo duro porém viscoso.
-
Você sabe quem são essas pessoas?
A
moça não faz ideia de quem são.
As
duas não percebem mas há outra mulher presa pelos pulsos contra a parede.
Agachada em um canto escuro, ela é incisiva ao responder.
- Eu
vou dizer quem eles são. Eles são Caçadores.
Assustadas,
elas olham para a mulher sentada no escuro.
-
Quem é você? – pergunta a moça.
-
Não importa. Nada mais importa. Por acaso um gado qualquer tem um nome antes de
ser abatido e esquartejado no matadouro? Vocês se preocupam inutilmente.
Acabou.
- Do
que está falando? – pergunta Rachel.
A
mulher tenta se aproximar arrastando-se até o limite da corrente. As duas notam
que ela está vestindo apenas suas roupas de baixo.
-
Esses homens são caçadores. Nosso grupo foi capturado à beira da estrada ao
lado da floresta. Eles apontaram seus rifles para os nossos rostos e nos
obrigaram a segui-los pelas árvores. Quando chegamos aqui, vimos o que parecia
ser um acampamento improvisado em um frigorífico ou coisa assim.
A
mulher indica os ganchos presos no teto, mesas de aço inoxidável e revestimento
cerâmico na parede e no piso. A arquiteta pergunta:
- Por
que você os chama de caçadores?
-
Porque eles vivem do que caçam. Eles deixam armadilhas em toda a floresta e vão
para as cidades para caçar mais peregrinos. Como vocês e eu.
-
Por que eles caçam peregrinos? – pergunta ingenuamente a moça.
A
mulher sorri.
-
Para comer.
Rachel
se estremece de pavor. As duas então tentam se soltar puxando e sacudindo as
correntes. A mulher as interrompe dizendo:
-
Parem, eu já tentei isso. Aliás, todos neste porão tentaram. Há uma porta mais
adiante, eles mantêm os homens lá dentro. As mulheres ficam aqui. Os caçadores
nos deixam separados uns dos outros. Mas quando vão... processá-los... eles os levam para aquela sala iluminada. Mas nós,
mulheres, sempre sofremos o pior, sempre sofremos as mais cruéis e indizíveis
torturas antes da morte nos libertar. É por isso que vivemos mais, para
prolongarem nossa agonia, para sermos espancadas, mutiladas e estupradas por
maníacos sanguinários simplesmente por que somos... fracas e incapazes de nos defendermos. Somos as mais fracas do povo
mais fraco, e isso excita nossos captores, nossos carrascos. Manter-nos vivas
para fazerem o que quiser conosco os diverte.
A
mulher sorri novamente. Ela já aceitou sua penosa condição naquele terrível
calabouço.
-
Como pode estar tão calma?! – exclama a moça. – Você enlouqueceu?!
Indicando
a janela no alto da parede, a mulher diz:
- Já
é quase noite. À noite eles estão estupefatos após o jantar e descem aos porões
para se satisfazerem com as mulheres. Vejo que são bem bonitas, mas você,
garota, é mais jovem e com certeza “receberá” primeiro. Ontem eu fui estuprada
por dezenove homens diferentes. Espero que já tenha perdido a virgindade.
A
moça se aterroriza.
Algumas
horas depois o porão está todo escuro e elas ouvem passos se aproximarem.
Alguém leva uma lanterna e a luz percorre as paredes brancas. Ao lado de Rachel
há mesas tombadas e ela se joga atrás delas, se escondendo. A moça tenta se
esconder também mas a corrente presa à parede não a permite ir muito longe.
Enquanto as duas tentam obstinadamente, a mulher apenas diz: “é inútil”.
Finalmente
os homens aparecem no porão. Elas não podem vê-los mas sabem que são muitos.
Alguém mira o facho de luz em seus rostos, encontrando apenas a moça das
novatas. Um deles diz:
-
Onde está a outra?
-
Vamos levar essa. Ela é mais jovem.
- Eu
queria que fosse a outra primeiro. Ela tem os olhos azuis mais bonitos que já
vi.
- A
pegaremos amanhã à noite.
Os
homens avançam contra a moça e ela grita de pavor. Enquanto a carregam para
fora do porão, ela esperneia e grita histericamente:
-
Rachel! Rachel! Rachel! Rachel...!
E
grita o nome da arquiteta incessantemente até desaparecer na distância. Daquele
momento em diante, as duas ficam sozinhas e o silêncio se levanta na escuridão.
Mas o som abafado percorre as paredes e as salas solitárias, fazendo Rachel
ouvir os gritos esganiçados da moça atormentá-la até o amanhecer.
§
Na
manhã seguinte, dois homens vestidos com camisas xadrez, botas de montaria e
rifles pendurados em suas costas aparecem no porão. Eles trazem a moça,
segurando-a pelos braços e pelas pernas como se estivesse morta, e então a
prendem com as correntes. Ela está exausta e respira lentamente. Quando os
homens vão embora, Rachel nota que ela está vestindo apenas o sutiã e nada
mais.
O
corpo da moça está todo surrado e há manchas escuras de hematomas,
principalmente em seu rosto. Seus cabelos estão bagunçados e sangue escorre de
suas feridas. Provavelmente ela foi agredida pelos homens durante seu frenesi
sexual. A mulher vê a cena e diz à Rachel:
- Vi
minhas amigas de peregrinação sofrerem o mesmo durante semanas. Algumas ficaram
em choque e outras se traumatizaram permanentemente. Muitas foram espancadas
até a morte. Elas não foram fortes como eu. Quando não demonstravam mais
reação, os caçadores as degolavam e mais tarde as comiam. Eu não quero terminar
assim. Prefiro ser escrava do que ser um banquete desses canibais.
A
arquiteta sente repugnância de suas palavras.
-
Como pode dizer isso? Está aqui há semanas e não tentou fugir desses monstros?
Como pode viver assim?
-
Esses homens são caçadores, não monstros. Eles fazem o que tem que fazer para
sobreviver. Não há mais comida, a água está contaminada e a radiação se
espalhou por toda parte. Para onde eu irei se eu sair daqui? Com certeza
morrerei nas ruínas, infestada de tumores deformando meu corpo. Aqui eu tenho
uma chance de sobreviver.
- Eu
preferiria morrer como as suas amigas.
A
mulher lhe faz um olhar sério e responde:
- Lá
em cima, em seus alojamentos, há uma sala com uma lareira. Na parede há dezenas
de fotos de mulheres capturadas, adornando a sala como se fossem troféus de
caça. Eu já disse, esses homens são caçadores, eles caçam humanos como se
fossem animais. É seu esporte, sua diversão. É assim que você quer terminar?
Com a foto de si mesma pendurada na parede como aquisição sexual? Diga o que
quiser, mas eu não quero morrer assim. Eu farei o que for preciso para
continuar viva.
-
Sendo uma prostituta?!
- E
você está se guardando para quê? Sua vagina tem outra utilidade além de
mantê-la viva em um lugar como esse? O mundo acabou, Rachel. Não existem mais
histórias de amor. Você não vai mais se casar e constituir uma família. Muito
provavelmente o homem de sua vida já morreu faz tempo.
Imediatamente
a arquiteta se lembra de Brad. Insistente, ela responde:
- Eu
não acredito em você.
As
duas ficam em silêncio por um tempo. A moça geme de dor e parece recuperar suas
forças. A mulher então diz:
- É
melhor acordar a garota. Daqui a pouco os caçadores voltarão e nos trarão
alimento, espero que não se incomode com seus apetites exóticos. E se quiser ir
ao banheiro, agora é a hora. Depois eles só voltarão à noite para pegar uma de
nós.
A
moça acorda e vê Rachel chamando-a pelo nome. Ela vê seu corpo sem roupas e
lentamente as lembranças da noite passada inundam sua mente. Seus olhos se
enchem de nojo, tristeza e rancor.
- Esse
corpo não é mais meu... – sussurra ela, repetindo várias vezes enquanto chora.
-
Acalme-se. Você está bem? Pode me ouvir?
-
Rachel...?
- Eu
estou aqui. Está tudo bem agora.
-
Por que você não me respondeu?
- O
quê?
-
Por que você se escondeu ontem à noite?
A
arquiteta se intriga.
- Do
que está falando?
- Eu
te chamei, Rachel.
Então
ela se lembra da moça chamando-a várias vezes antes de ser levada. A arquiteta
pergunta:
- Por
que você me chamou tanto?
- Porque eu queria que você fosse
levada e não eu! – grita ela, cheia
de rancor.
Então,
daquele dia em diante, as duas nunca mais se falaram.
§
A
noite chega e a vez de Rachel se aproxima. As três estão sentadas no escuro
quando ouvem os passos dos homens. Suas pernas perdem a força e seu corpo treme.
Os caçadores chegam à sala iluminada mas não continuam até o compartimento das
mulheres. Os homens falam alto e com o silêncio da noite elas podem ouvir a
conversa. Alguém diz:
- Um
deles está muito arredio. Tentou escapar várias vezes e incita o resto a se rebelar.
Outro
homem responde:
-
Vamos ter que abatê-lo primeiro, senão teremos problemas.
-
Tragam-no até aqui!
Rachel
ouve sons de passos e então uma porta é aberta ao longe. Aparentemente um homem
amordaçado grita e se debate enquanto os caçadores o levam para o centro da
sala.
-
Acabem com ele. Vamos assá-lo amanhã de manhã.
E
então as mulheres ouvem o som de uma pancada. O homem amordaçado cai em frente
ao corredor e Rachel consegue vê-lo.
-
Ethan...?
Ele
vira sua cabeça e enxerga a silhueta de Rachel no porão escuro. O homem
arregala seus olhos e move seus lábios, mas a mordaça sufoca suas palavras. Portando
um enorme martelo, alguém vestido com avental e botas de açougueiro aparece
sobre ele. O açougueiro golpeia sua cabeça e sangue espirra nas paredes
brancas, fazendo o líquido quente e grosso jorrar da ferida em seu crânio.
- Ethan!
A
arquiteta assiste o açougueiro arrastar seu corpo pelas pernas. Uma trilha
nauseante de sangue se forma no piso. Rachel chora incessantemente. Não havia
nada que se pudesse fazer, Ethan, o motorista do carro, estava morto.
Vinte
minutos depois os homens invadem o porão e miram a lanterna para o rosto de
Rachel, ofuscando-a. Triste demais para resistir, ela os deixa soltarem suas
correntes e levá-la para fora.
Passando
pela sala iluminada, ela vê algo terrível acontecendo ali. Deitado em uma mesa
de alumínio, Ethan teve seu peito serrado ao meio. As costelas foram afastadas
por garras de aço e o açougueiro, um homem gordo e barbudo, retira os órgãos
internos e os guarda em potes de vidro. Ao ver Rachel sendo levada, ele tira
sua mão do buraco no peito de Ethan e enxuga o suor de sua testa.
Em
outra sala, onde antigamente era a câmara fria, há dúzias de cadáveres
pendurados por ganchos no teto. Semelhante aos bovinos que tinham suas carnes
resfriadas para mantê-las conservadas, os corpos humanos foram estocados ali.
Ela se pergunta de onde vem a energia elétrica de todo o local.
Subindo
as escadas, ela sai ao ar livre e vê o acampamento dos caçadores. Apesar da
escuridão, ela nota que está realmente em um frigorífico, há tubos enormes e
grossos passando pelas vielas e pelos telhados dos galpões. Tochas iluminam o
local e há homens barbudos e bigodudos patrulhando com seus rifles.
Os
homens a levam para uma casa afastada dos galpões industriais. É uma casa de
dois andares, aparentemente feita de madeira. Há cinco caminhonetes
estacionadas na frente e uma escada de pedra os leva à entrada. Uma cabeça
enorme de alce adorna a entrada e uma lareira ilumina uma sala com vários caçadores.
Eles estão deitados e conversam tranquilamente, Rachel se apavora ao ver que o
fogo na lareira é alimentado por ossos e crânios.
Lançada
sobre o tapete de pele de urso, ela se arrasta até suas costas baterem na
parede. Ela conta dezessete homens ali. Os caçadores se levantam e a cercam. Tirando
suas camisas xadrez e suas roupas camufladas, eles avançam contra ela. Ao
segurarem seus braços e pernas, Rachel parece entrar em choque e sua mente se
retrai até sua visão desaparecer. Vozes abafadas invadem seus ouvidos, mas
poucos segundos depois ela sucumbe ao pavor e desmaia no chão.
Os
caçadores despem seu corpo e se revezam fazendo sexo com ela durante toda a
noite.
§
Ao
acordar, Rachel se vê sozinha na sala da lareira. Suas roupas estão jogadas
pelo chão, os caçadores usaram facas para cortá-las e despirem-na. Ao seu lado
ela vê apenas seu sutiã e sua calcinha, as únicas peças que ainda se podem
vestir.
A luz
cinzenta do dia ilumina a sala e ela percebe que há grandes janelas de vidro
nas paredes laterais. No alto há um mezanino e abaixo ela vê um balcão,
provavelmente onde deixavam os copos e garrafas naquele charmoso bar rústico. É
uma bela casa, afinal. A arquiteta se surpreende ao perceber que ainda tem
sensibilidade para sua profissão, pelo menos o mundo devastado e sangrento não a
destituiu de tudo.
A
apreciação dura pouco quando ela vê retratos de mulheres no alto da parede. De
semblantes assustados e apavorados, as mulheres foram fotografadas antes de
virarem comida pelos caçadores. Abaixo dos retratos ela vê nomes escritos na
moldura. Em seu senso psicótico de arte, os caçadores escreveram o nome de suas
vítimas, identificando-as. A mulher no porão estava certa, estes assassinos
desumanos realmente enfeitam a casa com suas aquisições. Naquele covil de
caçadores de gente, mulheres como Rachel não valem absolutamente nada.
Rachel
sai pela porta principal e vê dois caçadores mastigando fiapos de capim na
varanda. Um deles, usando um colete de pescador, olha pare ela e diz:
-
Bom dia, mal-educada.
Ela
olha para o frigorífico abandonada perto da casa. As árvores e as montanhas
cercam o local, os caçadores escolheram bem seu esconderijo.
Enquanto
está parada ali, uma caminhonete se aproxima pela estrada de terra. O veículo
estaciona em frente à casa, os homens na caçamba descem e trazem consigo galões
de gasolina. Os dois caçadores na varanda se aproximam do motorista e começam a
conversar. Ignorando os comentários voluptuosos dos homens passando perto dela,
Rachel se aproxima para ouvi-los.
- Ei
Lloyd, o que você trouxe dessa vez?
-
Não muito, apenas o combustível para as caminhonetes.
-
Você já experimentou a novata? Ela é uma mulher muito bonita, tem os olhos
azuis mais lindos que já vi.
Então
o motorista olha para ela. Naquele momento o coração de Rachel salta. Aquele
homem é idêntico a Brad! Se não fosse por toda aquela barba, ela se confundiria
facilmente. Os cabelos loiros de Lloyd e sua postura altiva lembram muito ele.
Será possível que poderiam ser a mesma pessoa?
-
Mas o que é que ela está fazendo ali ainda?! Vocês já a alimentaram? Já a
levaram ao banheiro?
-
Não, senhor.
-
Então andem logo!
Os
homens assentem e o obedecem. Levando-a pelas vielas do frigorífico, os
caçadores se excitam ao vê-la passando apenas de calcinha e sutiã. De volta ao
porão, eles a levam ao banheiro e então a prendem com as outras mulheres.
Ela
percebe que o tal Lloyd é o chefe do grupo. Enquanto pensa a respeito, os
homens levam comida e água para as cativas. Após saírem, a mulher diz:
-
Espero que não se importem com a comida.
-
Por quê? – pergunta a moça.
- É
carne humana.
As
duas veem carne assada em uma tigela de plástico. Sentindo náusea, elas se
recusam a comer. A mulher ri e come normalmente, sem se importar.
À
noite, os caçadores voltam e, ao ouvi-los, a mulher diz:
-
Hora de trabalhar. Vejo vocês amanhã.
Ela
se despede mandando-lhes um beijo. Rachel ouve o ruído de sucção e se
surpreende como ela consegue ser tão fria. Ao ser levada, a arquiteta e a moça
ficam sozinhas e em silêncio, sem conversar.
§
Vinte
dias se passam e os estupros são cada vez piores. Rachel não consegue mais
desmaiar durante o ato sexual e tem que suportar aqueles homens barbudos suarem
e gemerem em cima dela. Incapaz de suportar a fome, ela é obrigada a ingerir
aquela carne repugnante esfolada de seres humanos.
Certa
vez, descendo de volta ao porão, ela passa em frente à porta onde ficam os
homens e vê dezenas de pessoas esqueléticas, barbudas e sem roupas encolhidas
no chão. Então é assim que eles ficam antes de serem “processados” na mesa do
açougueiro? Jogados em um buraco escuro sem alimento e sem higiene apenas
esperando pela morte hedionda? Diferente deles, o gado era bem tratado antes do
abate. Pelo menos eles eram alimentados.
Raramente
Rachel via Lloyd lá em cima. Ele nunca a estuprou, ou pelo menos nunca percebeu
sua presença no meio daqueles pervertidos. Algumas vezes ele voltava dirigindo
sua caminhonete com peregrinos capturados nas ruínas. A arquiteta se irritava
por não ver mulheres, sem elas Rachel teria que passar pela violência sexual
mais vezes, não tendo outras para retardar a sua vez.
Após
uma noite de estupro, Rachel tenta se levantar, ela está sentindo muita dor. Ao
olhar pela janela, ela vê uma caminhonete se aproximar lá fora, mas algo está
diferente. Aquela caminhonete não era dali.
Lloyd
recebe os visitantes, eles descem da caçamba e ele cumprimenta o motorista.
Apesar de serem forasteiros, os outros se vestem de maneira idêntica aos
caçadores locais. O chefe os conduz para dentro da casa e, ao entrarem na sala,
todos se deparam com Rachel seminua agachada contra a parede.
-
Não se preocupem. Ela é só uma escrava. – diz Lloyd.
O
chefe do outro grupo olha para ela e diz:
-
Você tem muita sorte. É a escrava mais bonita que eu já vi.
Durante
anos a beleza da arquiteta foi seu ponto forte. Hoje ela a amaldiçoa. Por sua
beleza ela gera cobiça nos homens mais abomináveis que existe. Esses canibais
que se denominam caçadores.
Lloyd
ordena que seu subordinado leve a arquiteta de volta ao porão. Antes dela sair
da casa, ela consegue ouvir o outro chefe dizendo:
-
Nosso grupo capturou vários peregrinos semanas atrás. Eles estavam em um
condomínio abandonado à beira da floresta, ao norte daqui. Os peregrinos se
escondiam nos prédios, mas nós os invadimos e levamos todos para o nosso
esconderijo. Alguns fugiram de volta à cidade, mas nós os pegaremos depois...
Passando
perto da caminhonete dos visitantes, Rachel vê que alguns deles estão
distraídos, conversando encostados no veículo. Ela se surpreende ao ver uma
mulher na cabine, ela veste roupas sexualmente sugestivas e maquiagens no
rosto, semelhante a uma meretriz. O homem que a escolta de volta ao porão diz:
-
Espere aqui. Eu preciso mijar.
O
homem se dirige às árvores e Rachel aproveita para falar com a mulher. Correndo
até o veículo, ela suplica em desespero:
-
Por favor! Você tem que me ajudar! Esses homens são loucos! Eles comem carne
humana e estupram as mulheres todas as noites! Eu preciso sair daqui, me ajude
pelo amor de Deus!
A
mulher se aproxima de Rachel e então cospe em seu rosto. Os caçadores ao lado
do veículo veem a cena e gargalham. Todos riem dela enquanto ela se limpa,
chorando de tristeza enxugando a saliva misturada com lágrimas.
§
À
noite, confinada no porão, os caçadores descem para levar a moça. Ao amanhecer,
quando eles a trazem de volta, Rachel e a mulher notam como ela está cada vez
mais machucada. Aqueles homens pareciam dar um tratamento especial a ela.
Nas
noites em que a moça está ausente, a arquiteta tem longas conversas com a
mulher e as duas se tornam grandes amigas. Rachel comenta sobre o chefe Lloyd,
dos outros caçadores e da mulher na caminhonete. A mulher não sabe por que uma
escrava veio com eles, ela nunca viu isso antes e demonstra muita curiosidade.
Ela também fica muito empolgada ao saber do interesse amoroso de Rachel por
Lloyd.
A
arquiteta comenta sobre uma possível fuga. Dada a oportunidade, ela não
hesitará em fugir daquele lugar terrível. Rachel convida a mulher mas ela se
apressa ao rejeitar. Ela está bastante conformada com a situação atual e não
pretende mudar isso. Sempre que questionada sobre o motivo de querer ficar, a
mulher responde: “Eu não vou morrer doente nas ruínas, ou estuprada por grupos
maiores e piores do que esse”.
A
mulher sente-se confortável ao confessar detalhes de sua vida pessoal à Rachel.
Ela comenta que já teve uma família, mas a perdeu quando foi capturada por
saqueadores dois anos atrás. Ela disse que sobreviveu à explosão nuclear, mas
escapou por pouco de ser queimada viva pelas chamas da “aftermath”. Ela também
disse que foi casada com um homem incrível, um idealista, mas por alguma razão
ele não voltou para resgatá-la após sua captura. Amargurada, ela confessa que
não é a primeira vez que é estuprada por homens cruéis. Para evitar que isso
aconteça de novo, ela prefere ficar ali, ao mesmo tempo segura e alimentada no
esconderijo dos caçadores.
Os
homens descem para levar a mulher, Rachel a espera ansiosamente e deseja
sinceramente em seu coração que ela volte bem. Na noite seguinte eles levam a
arquiteta e, ao passar pela sala iluminada, ela vê outro homem sendo
esquartejado pelo asqueroso açougueiro. Ela se pergunta se não comeu Ethan sem
saber, tendo que ingerir partes de seu amigo para não morrer de fome. Tudo
naquele lugar só lhe suscitava dor, tristeza e sofrimento.
Nos
poucos minutos em que fica na casa durante o dia, ela vê Lloyd passando ao
longe e seus olhos se enchem de carinho. Seu coração bate mais forte ao ver
aquele homem tão bruto, mas tão parecido com seu Brad. No porão, a mulher espera
anoitecer para que os homens levem a moça. Sozinhas, a mulher chama Rachel e
diz:
-
Rachel, tenho algo que não podia mostrar na frente da garota.
- O
que é?
Ela
retira um objeto de dentro de sua vagina, enojando a arquiteta.
-
Desculpe, se eu tivesse roupas eu colocaria em um bolso. – responde ela,
tentando parecer bem-humorada perante a desgraça.
A
arquiteta vê uma chave e, intrigada, pergunta:
-
Como conseguiu isso?
- Eu
roubei do caçador enquanto ele me carregava para cima.
- E
por que não mostrou à garota também?
A
mulher sorri.
-
Aquela cínica faria de tudo para sair daqui, inclusive nos trair.
Rachel
insere a chave no cadeado e o destranca, desvencilhando-se das correntes em seu
pulso. A mulher lhe indica a janela no alto da parede e Rachel sobe nas mesas
para abri-la. Os caçadores não contavam que as escravas pudessem se soltar e
não se importaram de trancar as altas janelas.
-
Você não vem?
-
Você sabe que não.
-
Mas...
- Rápido!
Os caçadores patrulham o frigorífico à noite. Se eles verem a janela aberta,
desconfiarão.
A
arquiteta escala a parede e se rasteja pela janela. Do lado de fora, ela diz:
- Eu
jamais esquecerei o que fez por mim. Eu voltarei para trazer ajuda, eu prometo.
-
Por favor, não volte. Eu já selei o meu destino. Não queira selar o seu.
Abatida,
lágrimas escorrem de seus olhos e Rachel pergunta:
-
Você vai ao menos me dizer o seu nome?
A
mulher sorri. Quando está prestes a responder, a arquiteta ouve um grito atrás
dela e a mulher grita:
-
Fuja! Fuja depressa!
Rachel
corre pelas vielas escuras do frigorífico. Os caçadores a perseguem pelos
galpões com tochas e lanternas em mãos. Com a tensão do momento, ela parece não
sentir o frio da noite enquanto corre com roupas mínimas em seu corpo. Ela
alcança a floresta e continua correndo, sem se importar com as constantes
quedas no solo lamacento. Nada irá para-la naquele momento.
Ao
amanhecer ela se vê em uma floresta de árvores mortas. As folhas estão
espalhadas pelo chão e os troncos tem a mesma tonalidade cinzenta do céu. É
como se toda a floresta tivesse sido queimada em um incêndio, mas naquele caso
não houve fogo algum.
A
arquiteta ouve o ronco dos motores ao redor. Do alto da colina ela pode
enxergar a estrada de terra com as caminhonetes passando. Não importa o quanto
ela avance, aqueles homens são caçadores e mesmo a pé eles a encontrariam
facilmente. Eles vivem da caça, e perseguir a mulher como se ela fosse uma
presa é seu maior entretenimento.
Por
algum milagre, Rachel vê a silhueta de uma cidade aparecer ao longe. Ela esteve
fugindo por três dias sem o menor senso de direção, e ver a cidade lhe dá
esperanças. Percorrendo o resto da floresta em quatro horas, ela chega às
primeiras casas. A aparência fantasmagórica da cidade lhe assusta, tudo está
completamente abandonado e deserto.
Avançando
pelas ruas cobertas de entulhos e vegetação, ela não vê outra opção senão se
abrigar e esperar pelo dia seguinte. Ela está faminta e esteve bebendo uma água
lamacenta para saciar a sede. Encontrando uma loja de conveniências, ela se deita
atrás do balcão e espera pelo anoitecer. Então algo acontece.
Ouvindo
um ruído vindo da rua, ela se esgueira atrás do balcão e espia a rua. Ela ouve
passos e vozes de várias pessoas. Ela pensa serem os caçadores, mas então os
desconhecidos aparecem ao longe, caminhando juntos como uma procissão. São
homens e mulheres, inclusive crianças, vestindo casacos velhos e mochilas nas
costas. Peregrinos.
A
arquiteta deixa seu esconderijo e corre em direção a eles. Todos se intrigam ao
ver uma mulher famélica correr de calcinha e sutiã pela rua. Seria uma louca?
-
Por favor, eu imploro. Estou faminta, tenho sede, estou com frio... Me ajudem,
por favor...
Ela
está esgotada de suas forças, não vai demorar muito para desmaiar de exaustão.
O homem à frente do grupo se aproxima e pergunta:
-
Quem é você?
-
Sou Rachel. Estou fugindo há quatro dias e não tenho para onde ir...
A
mulher treme de frio e cruza os braços sobre o peito. Seu cabelo está
desarrumado e suas costelas estão salientes. Tudo em sua aparência inspira sofrimento
com exceção de uma coisa, ela tem os olhos azuis mais bonitos que ele já viu.
O
homem pede um casaco ao grupo e ele lhe dá roupas para vestir. Em seguida lhe
oferece água e comida. A mulher agradece como se fosse venerá-lo. Ele a convida
para se juntar ao grupo e ela aceita com entusiasmo. Então o grupo retoma a
caminhada e a mulher vai ao seu lado, dizendo-lhe tudo o que aconteceu.
E
assim a arquiteta se junta ao grupo do professor.

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