Fragmento
5
Sob
ordens diretas do primeiro-ministro e do Conselho de Guerra, o submarino
Vanguard deixa a base naval em Argyll and Bute, Escócia, e segue para o oceano
atlântico. O Vanguard, um dos quatro modelos da classe de submarinos ingleses
da Royal Navy, está equipado com 16 mísseis balísticos Lockheed Trident D5
SLBM. Cada míssil tem 13 metros de comprimento, 1,88 metros de diâmetro e 59
toneladas. O Trident D5 tem o alcance de 11.300 km, velocidade máxima de 6,0
metros por segundo e o custo exorbitante de 30,9 milhões de dólares cada.
McGregor
se alistou na Royal Navy e se formou em manutenção de submarinos. Apesar de ser
uma área bem técnica, ele jamais trabalhou diretamente com os equipamentos dos
poderosos barcos, sendo deixado atrás de uma mesa com estressantes serviços
burocráticos e pilhas de papeis. Seu patriotismo e interesse pela tecnologia
bélica o impulsionaram a construir uma carreira na Marinha, mas nos primeiros
anos seu maior objetivo não foi alcançado.
Na
década de 70, seu avô também foi da Marinha em plena Guerra Fria. Ele
patrulhava o oceano glacial ártico e os mares do norte durante meses rastreando
atividades espiãs soviéticas. Seu avô tripulava o antigo submarino Resolution,
armado com mísseis SLBM UGM-27 Polaris A-3. Com certeza sua vida era mais
emocionante, não igual a vida de McGregor atrás de uma mesa empilhando
documentos. Ele desejava uma vida de aventuras, emoções, desbravando o fundo
dos oceanos a bordo do submarino. Parecia que nada ia mudar e que seu sonho não
se realizaria, até que as crises começaram e os noticiários espalharam o pânico
na população. Ele nunca pensou que após tantos anos de relativa paz o mundo
novamente se dividiria, entrando em um novo período de ameaças, o limiar de uma
guerra nuclear.
Convocado
com urgência, ele foi colocado na tripulação do Vanguard. A missão da equipe
era navegar por vinte mil quilômetros sem permissão para emergir. Seria uma
missão desgastante, debaixo d’água por meses, aguardando a ordem do Conselho de
Guerra para voltar. Eles deveriam se manter invisíveis, evitando qualquer
atividade que denunciasse sua presença, e jamais ficar parado no mesmo lugar
por muito tempo.
Finalmente
o que ele mais queria, a razão dele ter se alistado na Royal Navy, iria se
realizar. McGregor sabia tudo sobre submarinos, tinha passado em várias
baterias de testes físicos, psicológicos e emocionais, inclusive tinha
insígnias, mas isso não impedia os marinheiros mais experientes de tratá-lo
como novato. Para eles, McGregor não era mais do que um arquivista nos
escritórios da base naval.
Dentro
do Vanguard havia duas tripulações completas que operavam em rotação,
permitindo que o submarino ficasse o máximo de tempo possível no mar. O “dia”
do submarino tinha dezoito horas divididas em três turnos de seis horas.
McGregor fazia seu trabalho durante as seis horas e as outras doze ele dedicava
a cuidar dos equipamentos ou aprender com outros tripulantes sobre os serviços
administrativos e a operação de torpedos. Ele dormia em camas verticais triplas,
e dividia seu leito com outros marinheiros quando eles estavam em serviço.
Devido à proximidade do reator nuclear, ao menos uma vez a cada três dias a
tripulação era monitorada em busca de sinais de exposição à radiação. Dormir ao
lado de ogivas nucleares já havia se tornado rotina.
Durante
quarenta dias tudo permaneceu calmo sob o oceano. McGregor pensa como seria
interessante se o mundo tivesse acabado novamente em dilúvio. De onde estavam
eles nem saberiam, estando totalmente a salvo da ira divina que afogou a todos
com seu furor. Provavelmente o submarino seria a próxima arca de Noé, sendo
eles os últimos humanos restantes na face da Terra.
Os
tripulantes estavam estressados por ficarem tanto tempo submersos, eles não
recebiam nenhuma direção da base. McGregor estava dormindo quando de repente a
sirene soou e o capitão ordenou para todos se prontificarem. O operador de
rádio finalmente recebeu ordens da base. Ao informá-las ao capitão, ele fica
estarrecido.
-
Senhor, a base ordenou o lançamento de todos os mísseis imediatamente.
- Todos os mísseis?!
Apavorado,
o capitão se desorienta. A base pretende começar o fim do mundo?!
Ao
olhar o radar, o capitão não vê presença alguma de navios ou submarinos no meio
do atlântico, os monitores metrológicos mostram um céu sem nuvens sem nenhum
sinal de aviões por perto. Ele muda a frequência do rádio e ouve apenas músicas
comuns das estações civis mais próximas. “O que é que está havendo lá em cima?”.
-
Senhor, eles reenviaram a ordem.
-
Deixe-me ver as coordenadas dos alvos.
Novamente
o capitão perde o fôlego. Só pode ser um erro, não é possível que sejam aqueles
alvos, não naqueles lugares. O Gabinete de Guerra autorizou um holocausto
nuclear!
-
Confirme se não é sabotagem, tenente!
O
operador demora alguns minutos e lhe dá a resposta. A mensagem é cem por cento
autêntica. Ainda em choque, o capitão faz o que lhe é ordenado e despacha a
tripulação para os seus afazeres. McGregor corre pelos corredores e, ao chegar
à sala de lançamento vertical, auxilia no armamento dos mísseis Trident D5. Ao
final da tarefa, o oficial informa pelo comunicador:
-
Tudo preparado, senhor!
Na
ponte, o capitão abre uma caixa e retira duas chaves. Ele joga uma a outro
oficial e as inserem em duas fechaduras. Contando até três, eles giram as chaves
e um pequeno botão aparece no painel principal. Suor escorre pelo rosto do
capitão, suas mãos tremem. Enxugando o suor de sua testa, ele sussurra “que
Deus me ajude” e, respirando fundo, pressiona o botão impetuosamente.
O
submarino ruge com a abertura simultânea das comportas. Em seguida ele treme
violentamente com o lançamento dos dezesseis mísseis em direção ao céu. Todos
se assustam e temem que o submarino se parta em dois. Apesar de serem altamente
treinados, nenhum deles esteve a bordo de uma embarcação atirando verdadeiras
ogivas nucleares pelos ares.
A
tremulação termina e tudo volta ao normal. A tripulação fica apreensiva e
aguarda novas ordens. Ele está apoiado no painel, ainda suando sem parar. Dirigindo-se
aos comunicadores, ele informa aos tripulantes.
-
Aguardaremos novas ordens da base, até lá todos devem voltar ao trabalho
imediatamente. Dispensados.
Após
aquele dia os marinheiros ficam tensos. Nada mais é como antes. Dezesseis
mísseis de destruição em massa foram lançados e não há resposta alguma da base
ou de qualquer outro lugar. O que aconteceu lá em cima? Os ataques foram
bem-sucedidos? Eles venceram a guerra? O silêncio do rádio é perturbador.
Semanas
se passam. O rádio não capta nenhum sinal e só se ouve estática. O Vanguard
tenta contatar a base, mas não há resposta. Meses se passam. A tripulação está
agitada e muitos têm insônia, estresse e alucinações crônicas. Os sintomas do
isolamento estão começando a assombrá-los no fundo do mar. Aproximando-se de um
motim, o capitão é forçado a tomar uma decisão.
McGregor
assiste a discussão na ponte, os marinheiros exigem que o capitão faça algo.
Ele os relembra que estão seguindo ordens e que a base não permitiu que eles
subissem à superfície. A discussão acalora e o operador de rádio entra em
contato com a base sem sua autorização. O rádio recebe apenas estática. Tentando
contatar outras bases, ouve-se mais estática. Sintonizando estações civis de
rádio, mais estática. Os marinheiros se desesperam, o que houve lá em cima?!
Ao
completar dois meses e dez dias após o lançamento dos mísseis, o capitão cede à
pressão e emerge na superfície do oceano. Os marinheiros abrem a comporta e
sobem ao casco como se fossem ratos fugindo de um navio em naufrágio. Ao olhar
o céu a tensão torna-se suspense. Pesadas nuvens cinzentas flutuavam pelo
oceano, mesmo os raios de sol as atravessavam com dificuldade. Eles não
entendem, pois o submarino estava na região tropical do planeta.
Voltando
para a base, o operador de rádio tenta constantemente achar um sinal, mas não
há nada. Próximo da Grã-Bretanha, o Vanguard se dirige à base naval de Plymouth
e encontra algo muito pior. A cidade inteira está em ruínas, a fumaça negra dos
incêndios sobe ao céu e não há ninguém para apagá-los. As cidades de
Bournemouth e Portsmouth estão em ruínas e em Brighton há mais incêndios. O que
aconteceu com o sul da Inglaterra?
O
submarino muda de direção e retorna à Argyll and Bute na Escócia. Ao chegarem
não é diferente, os navios, docas, galpões e submarinos estão arrasados nas
margens do rio. Eles não veem nada além de carcaças, fumaça e óleo derramado na
água, sob o opressivo céu negro com suas pesadas nuvens de cinzas.
Meses
atrás McGregor teve a banal ideia de estarem em uma nova arca de Noé, navegando
pelos oceanos da desolação após a chegada do apocalipse. Para sua amarga
surpresa e incontestável aflição, ele estava certo.

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