terça-feira, 14 de abril de 2020

Os Fracos - 10 - Fragmento 5



Fragmento 5

Sob ordens diretas do primeiro-ministro e do Conselho de Guerra, o submarino Vanguard deixa a base naval em Argyll and Bute, Escócia, e segue para o oceano atlântico. O Vanguard, um dos quatro modelos da classe de submarinos ingleses da Royal Navy, está equipado com 16 mísseis balísticos Lockheed Trident D5 SLBM. Cada míssil tem 13 metros de comprimento, 1,88 metros de diâmetro e 59 toneladas. O Trident D5 tem o alcance de 11.300 km, velocidade máxima de 6,0 metros por segundo e o custo exorbitante de 30,9 milhões de dólares cada.
McGregor se alistou na Royal Navy e se formou em manutenção de submarinos. Apesar de ser uma área bem técnica, ele jamais trabalhou diretamente com os equipamentos dos poderosos barcos, sendo deixado atrás de uma mesa com estressantes serviços burocráticos e pilhas de papeis. Seu patriotismo e interesse pela tecnologia bélica o impulsionaram a construir uma carreira na Marinha, mas nos primeiros anos seu maior objetivo não foi alcançado.
Na década de 70, seu avô também foi da Marinha em plena Guerra Fria. Ele patrulhava o oceano glacial ártico e os mares do norte durante meses rastreando atividades espiãs soviéticas. Seu avô tripulava o antigo submarino Resolution, armado com mísseis SLBM UGM-27 Polaris A-3. Com certeza sua vida era mais emocionante, não igual a vida de McGregor atrás de uma mesa empilhando documentos. Ele desejava uma vida de aventuras, emoções, desbravando o fundo dos oceanos a bordo do submarino. Parecia que nada ia mudar e que seu sonho não se realizaria, até que as crises começaram e os noticiários espalharam o pânico na população. Ele nunca pensou que após tantos anos de relativa paz o mundo novamente se dividiria, entrando em um novo período de ameaças, o limiar de uma guerra nuclear.
Convocado com urgência, ele foi colocado na tripulação do Vanguard. A missão da equipe era navegar por vinte mil quilômetros sem permissão para emergir. Seria uma missão desgastante, debaixo d’água por meses, aguardando a ordem do Conselho de Guerra para voltar. Eles deveriam se manter invisíveis, evitando qualquer atividade que denunciasse sua presença, e jamais ficar parado no mesmo lugar por muito tempo.  
Finalmente o que ele mais queria, a razão dele ter se alistado na Royal Navy, iria se realizar. McGregor sabia tudo sobre submarinos, tinha passado em várias baterias de testes físicos, psicológicos e emocionais, inclusive tinha insígnias, mas isso não impedia os marinheiros mais experientes de tratá-lo como novato. Para eles, McGregor não era mais do que um arquivista nos escritórios da base naval.
Dentro do Vanguard havia duas tripulações completas que operavam em rotação, permitindo que o submarino ficasse o máximo de tempo possível no mar. O “dia” do submarino tinha dezoito horas divididas em três turnos de seis horas. McGregor fazia seu trabalho durante as seis horas e as outras doze ele dedicava a cuidar dos equipamentos ou aprender com outros tripulantes sobre os serviços administrativos e a operação de torpedos. Ele dormia em camas verticais triplas, e dividia seu leito com outros marinheiros quando eles estavam em serviço. Devido à proximidade do reator nuclear, ao menos uma vez a cada três dias a tripulação era monitorada em busca de sinais de exposição à radiação. Dormir ao lado de ogivas nucleares já havia se tornado rotina.
Durante quarenta dias tudo permaneceu calmo sob o oceano. McGregor pensa como seria interessante se o mundo tivesse acabado novamente em dilúvio. De onde estavam eles nem saberiam, estando totalmente a salvo da ira divina que afogou a todos com seu furor. Provavelmente o submarino seria a próxima arca de Noé, sendo eles os últimos humanos restantes na face da Terra.
Os tripulantes estavam estressados por ficarem tanto tempo submersos, eles não recebiam nenhuma direção da base. McGregor estava dormindo quando de repente a sirene soou e o capitão ordenou para todos se prontificarem. O operador de rádio finalmente recebeu ordens da base. Ao informá-las ao capitão, ele fica estarrecido.
- Senhor, a base ordenou o lançamento de todos os mísseis imediatamente.
- Todos os mísseis?!
Apavorado, o capitão se desorienta. A base pretende começar o fim do mundo?!
Ao olhar o radar, o capitão não vê presença alguma de navios ou submarinos no meio do atlântico, os monitores metrológicos mostram um céu sem nuvens sem nenhum sinal de aviões por perto. Ele muda a frequência do rádio e ouve apenas músicas comuns das estações civis mais próximas. “O que é que está havendo lá em cima?”.
- Senhor, eles reenviaram a ordem.
- Deixe-me ver as coordenadas dos alvos.
Novamente o capitão perde o fôlego. Só pode ser um erro, não é possível que sejam aqueles alvos, não naqueles lugares. O Gabinete de Guerra autorizou um holocausto nuclear!
- Confirme se não é sabotagem, tenente!
O operador demora alguns minutos e lhe dá a resposta. A mensagem é cem por cento autêntica. Ainda em choque, o capitão faz o que lhe é ordenado e despacha a tripulação para os seus afazeres. McGregor corre pelos corredores e, ao chegar à sala de lançamento vertical, auxilia no armamento dos mísseis Trident D5. Ao final da tarefa, o oficial informa pelo comunicador:
- Tudo preparado, senhor!
Na ponte, o capitão abre uma caixa e retira duas chaves. Ele joga uma a outro oficial e as inserem em duas fechaduras. Contando até três, eles giram as chaves e um pequeno botão aparece no painel principal. Suor escorre pelo rosto do capitão, suas mãos tremem. Enxugando o suor de sua testa, ele sussurra “que Deus me ajude” e, respirando fundo, pressiona o botão impetuosamente.
O submarino ruge com a abertura simultânea das comportas. Em seguida ele treme violentamente com o lançamento dos dezesseis mísseis em direção ao céu. Todos se assustam e temem que o submarino se parta em dois. Apesar de serem altamente treinados, nenhum deles esteve a bordo de uma embarcação atirando verdadeiras ogivas nucleares pelos ares.
A tremulação termina e tudo volta ao normal. A tripulação fica apreensiva e aguarda novas ordens. Ele está apoiado no painel, ainda suando sem parar. Dirigindo-se aos comunicadores, ele informa aos tripulantes.
- Aguardaremos novas ordens da base, até lá todos devem voltar ao trabalho imediatamente. Dispensados.
Após aquele dia os marinheiros ficam tensos. Nada mais é como antes. Dezesseis mísseis de destruição em massa foram lançados e não há resposta alguma da base ou de qualquer outro lugar. O que aconteceu lá em cima? Os ataques foram bem-sucedidos? Eles venceram a guerra? O silêncio do rádio é perturbador.
Semanas se passam. O rádio não capta nenhum sinal e só se ouve estática. O Vanguard tenta contatar a base, mas não há resposta. Meses se passam. A tripulação está agitada e muitos têm insônia, estresse e alucinações crônicas. Os sintomas do isolamento estão começando a assombrá-los no fundo do mar. Aproximando-se de um motim, o capitão é forçado a tomar uma decisão.
McGregor assiste a discussão na ponte, os marinheiros exigem que o capitão faça algo. Ele os relembra que estão seguindo ordens e que a base não permitiu que eles subissem à superfície. A discussão acalora e o operador de rádio entra em contato com a base sem sua autorização. O rádio recebe apenas estática. Tentando contatar outras bases, ouve-se mais estática. Sintonizando estações civis de rádio, mais estática. Os marinheiros se desesperam, o que houve lá em cima?!
Ao completar dois meses e dez dias após o lançamento dos mísseis, o capitão cede à pressão e emerge na superfície do oceano. Os marinheiros abrem a comporta e sobem ao casco como se fossem ratos fugindo de um navio em naufrágio. Ao olhar o céu a tensão torna-se suspense. Pesadas nuvens cinzentas flutuavam pelo oceano, mesmo os raios de sol as atravessavam com dificuldade. Eles não entendem, pois o submarino estava na região tropical do planeta.
Voltando para a base, o operador de rádio tenta constantemente achar um sinal, mas não há nada. Próximo da Grã-Bretanha, o Vanguard se dirige à base naval de Plymouth e encontra algo muito pior. A cidade inteira está em ruínas, a fumaça negra dos incêndios sobe ao céu e não há ninguém para apagá-los. As cidades de Bournemouth e Portsmouth estão em ruínas e em Brighton há mais incêndios. O que aconteceu com o sul da Inglaterra?
O submarino muda de direção e retorna à Argyll and Bute na Escócia. Ao chegarem não é diferente, os navios, docas, galpões e submarinos estão arrasados nas margens do rio. Eles não veem nada além de carcaças, fumaça e óleo derramado na água, sob o opressivo céu negro com suas pesadas nuvens de cinzas.
Meses atrás McGregor teve a banal ideia de estarem em uma nova arca de Noé, navegando pelos oceanos da desolação após a chegada do apocalipse. Para sua amarga surpresa e incontestável aflição, ele estava certo.  




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