O
Maçom
O
professor ergue lentamente a tampa de madeira apodrecida sobre o abrigo no
chão, um compartimento subterrâneo para escoar águas pluviais, e espia se há
alguém lá em cima. Ele não vê nada além de solidão, sujeira e as onipresentes
ruínas.
No
abrigo estão os refugiados, os fugitivos, as famílias inteiras que fogem
durante meses e encontraram em seu grupo a chance de sobreviver, mesmo que seja
por mais alguns dias.
O
médico sobe as escadas de concreto e se aproxima do professor, que observa
atentamente lá fora. Ele pergunta:
- O
que há de errado com o maçom? Ele está isolado lá embaixo, não fala com
ninguém. Aconteceu alguma coisa?
O
professor o vê sentado em um canto escuro, encostado na parede embolorada.
- Eu
não sei. Ele também não fala muito comigo.
O
maçom está pensativo, sempre pensativo, se lamentando de estar passando por
tudo aquilo quando não deveria. Ele foi enganado, covardemente traído, não era
para ele estar ali sentado na sujeira, sofrendo com aquela gente como se fosse
um rato de esgoto. Era para ele estar em segurança, confortável e aquecido em
outro lugar, sobrevivendo protegido dos animais cruéis que perseguem os fracos
neste novo mundo desfigurado. Ele não é igual a essa plebe asquerosa de dentes
marrons e trapos sujos, ele é melhor do que eles e deveria estar em um lugar
melhor. Um abrigo melhor.
§
George
Everett era de uma influente loja maçônica em sua cidade. Como toda ordem
hermética, ela zelava pela discrição. George sentia-se parte de algo maior, ao
lado de empresários e políticos, onde ele assistia a cerimônias e rituais
dirigidos pelo grão-mestre. Ele era um empresário bem-sucedido e foi convidado
a participar da loja por sua amante, sendo o último a integrá-los.
O
dinheiro era trivial e fluía abundantemente entre os membros. Sob um
tradicional juramento, eles se ajudavam em situações difíceis e assim ninguém
passava necessidade. O requinte e o luxo eram requisitos obrigatórios, George
jamais viveu tão bem em toda sua vida. Carros importados, casas em condomínios,
carteira de sócio em clubes requintados, eventos em restaurantes caros e roupas
de grife eram comuns. Nas reuniões de portas fechadas, era comum ver prefeitos,
deputados, delegados, juízes, empresários, médicos, além de presidentes de
hospitais, de clubes de campo, de clubes de golfe, e inclusive padres e
pastores.
O
grão-mestre certa vez disse:
-
Vocês não fazem parte do poder constituído. Vocês são o poder constituído.
A
guerra se aproximava e a loja maçônica se preparava para os ataques. Um dos
membros estava construindo um abrigo subterrâneo em seu quintal. O abrigo
ficava em outra cidade, bem distante da loja, e todos foram convocados a ajudar
na construção. O ambiente ia abrigar todos os membros e teria mantimentos
suficientes para dez anos, com modernos sistemas de reciclagem de água e de ar.
Os membros da loja, todos bem educados, inteligentes e cientes das
consequências do conflito, sabiam exatamente o que aconteceria quando as
primeiras ogivas atingissem seus alvos. O mundo como conheciam seria devastado e
contaminado pela radiação por séculos. Apenas aqueles com recursos
sobreviveriam, e o recurso se chamava dinheiro.
George
tinha um estagiário em sua empresa e o levava para fazer visitas comerciais com
seus clientes. Apesar da diferença de vinte anos de idade e da relação de
empregado e patrão dos dois, eles se tornaram grandes amigos. O estagiário, um
rapaz jovem e inexperiente, tinha muito o que aprender e George via no jovem
ele mesmo anos atrás, quando tinha acabado de sair da faculdade e não achava emprego
em lugar nenhum.
Certa
vez George pediu para que o estagiário lhe preparasse um cheque nominal de
trinta mil dólares. O jovem se assustou com o enorme valor mas não perguntou
nada. Os dois saíram juntos no carro importado do chefe e George o estacionou
no estacionamento da prefeitura da cidade. Em seguida apareceu outro carro,
importado, preto e com os vidros escuros, estacionando ao seu lado. George lhe
pediu o cheque e, assinando-o, abriu a porta e entrou no outro carro. O
estagiário não pôde ver quem estava ali dentro e ficou muito curioso.
Após
meia hora de muita espera, George retorna e, antes dele dar partida, o carro
preto sai apressado do estacionamento. Sem poder conter sua curiosidade, o
rapaz pergunta:
-
Quem era?
George
é solícito ao responder. Ele adorava guardar segredo de participar da
maçonaria, apesar da empresa inteira já saber.
- Um
amigo.
-
Ele deve estar com muitas dificuldades. Trinta mil dólares é uma tremenda
quantia!
Seu
chefe sorri e não responde nada. Mal sabe o rapaz que a loja maçônica está
construindo um abrigo nuclear e que, quando o mundo inteiro arder em chamas, George
estará seguro sob a terra. Sua satisfação vira arrogância, “eu vou sobreviver”
pensa ele enquanto retorna à empresa com um sorriso no rosto.
A
guerra se aproxima. As ameaças são constantes e as provocações ainda maiores.
As ruas estão vazias e ninguém sai de casa à noite. Muitos nem mesmo vão
trabalhar, as mães não levam seus filhos à escola e de repente parece que a
cidade inteira virou uma cidade fantasma.
George
se dirige à loja maçônica para encontrar com os outros membros, de lá eles
seguirão para o abrigo. Dirigindo tranquilamente pela noite sem trânsito algum,
passando por sinais vermelhos e não parando em cruzamentos, ele chega à loja e
estranha não haver nenhum dos belos carros estacionados na frente. Não há
ninguém para recebê-lo como de costume, e ao tocar a campainha ninguém atende.
A casa está completamente deserta, as luzes estão apagadas e não há nenhum
ruído lá dentro. “O que está havendo? Onde estão os outros membros?”.
Parado
na calçada com suas caras roupas sociais, relógio de ouro e o anel de pedras
preciosas da irmandade no dedo, ele fica confuso e surpreso, se perguntando com
muita coragem e decepção: “será possível que eles me deixaram para trás?”.
Sentindo-se
chocado e traído, ele olha de um lado ao outro, começa a ofegar e lágrimas se
formam em seus olhos. George não sabe o que fazer, não sabe para onde ir, ele
não sabe onde fica o abrigo, tudo era mantido no mais absoluto segredo. “Mas
que droga, eu paguei pela construção!” pensa ele.
George
deu as costas à esposa, aos familiares, aos filhos, aos amigos, e para quê? Sua
esposa, vista por ele com desprezo como uma velha, gorda e mal humorada, foi
avisada que ele não voltaria mais àquela noite. Em seu porta-malas estão suas
malas e outros objetos pessoais. Ele não disse adeus aos seus filhos,
deixando-os com a mãe. Que humilhação, ele terá de voltar para casa e encara-la
novamente com seu semblante patético de quem foi enganado e traído por seus
novos amigos. Mas ela o receberia de volta?
“Isso
não pode estar acontecendo...”.
§
O
professor faz um sinal dizendo que está tudo bem e os refugiados pegam suas
coisas, sobem as escadas e saem do abrigo. O maçom os acompanha, silencioso,
sem a mínima vontade de conversar com qualquer um deles.
O
grupo deixa a galeria de águas pluviais e caminha pelas ruínas frias da cidade
destruída. Liderados pelo professor, essas pessoas o seguem como se fosse um
êxodo e o professor um Moisés, mas ao contrário da verdadeira história onde os
hebreus partiam rumo à liberdade, ali eles caminhavam diretamente para a
escravidão. E a escravidão tinha diversas faces neste novo Egito de concreto
armado e asfalto. Talvez a melhor comparação para eles seja com a diáspora,
quando o povo judeu partiu para a escravidão, exilando-se na Babilônia.
George
observa os refugiados ao seu redor. A maioria são pessoas bem instruídas,
inteligentes, cultas, com diploma universitário, iguais aos antigos membros da
loja maçônica da qual participou no passado. Ele se pergunta como estão os
membros da antiga loja agora, com certeza melhor do que ele, que caminha ali
como um mendigo ao lado de crianças desnutridas e doentes. O ressentimento
ainda o corrói por dentro, traído por uma organização cujo princípio é ajudar
um ao outro. A memória vem ao acaso e ele se lembra de algo que seu grão-mestre
disse em uma reunião:
“Não
importa se você é cristão, ateu, budista, muçulmano, agnóstico ou espírita, as
pessoas seguem em caminhos diferentes, mas todos têm um objetivo em comum. As
religiões são apenas atalhos. Independente da crença que você tiver, todos os
caminhos levam à Deus”.
O
grão-mestre deve estar pregando esta mesma baboseira agora, seguro e aquecido
do frio no abrigo subterrâneo que George ajudou a construir. Eles devem estar
rindo dele agora, até mesmo gargalhando, extasiados ao lembrarem como fizeram
alguém doar uma quantia exorbitante a algo que ele não iria participar.
E
sua esposa, o que ela estaria pensando a seu respeito agora? Ele sente remorso
ao lembrar. Para ele o fim do mundo começou antes aquela noite, quando sua
família soube de suas intenções egoístas logo após ele sair com o carro indo em
direção à loja. George os deixou para nunca mais voltar, criando insuperável
rancor em seus filhos, uma ferida na alma que espirrava desprezo pelo próprio
pai que os abandonou na véspera do fim. Mas de repente ele volta. Por quê?
Que
desculpa ele poderia inventar? O que a expressão patética em seu rosto poderia
argumentar para que eles porventura tivessem pena e o aceitassem de volta? Ele
prefere não relembrar a reação de sua família ao revê-lo, o constrangimento é
duro demais.
Sendo
covarde demais para admitir o erro, ele culpa sua amante por tudo o que
aconteceu. Por ela George se associou à loja maçônica. Enquanto ele mantinha a
relação extraconjugal, exibindo-se aos seus amigos, gabando-se da fama de
conquistador, ele jamais pensou que uma bela mulher de rosto felino, quadril
largo e seios fartos poderia causar tanto dano em sua vida. Se aquela
cachorrada terminasse simplesmente em um divórcio, que se dane sua esposa! Por
anos eles se odiavam! Mas infelizmente não foi só o casamento que ele perdeu.
George
teve sorte na noite seguinte. Dormindo em um hotel à beira da estrada, ele
estava longe quando a primeira ogiva nuclear caiu na cidade. Acordar ao som de
pânico e correria é aterrador, ainda mais quando se sabe que é por causa de uma
explosão nuclear. Os hóspedes saem de seus quartos e olham em direção à cidade.
Ela brilha como uma erupção vulcânica enquanto um monstruoso cogumelo de fogo e
fumaça ergue-se ao céu. Estando a quinze quilômetros do hipocentro, George está
a salvo da explosão, mas seus problemas estavam apenas começando.
O
maçom não tem mais noção de tempo desde os ataques nucleares, mas passam-se
aproximadamente dois anos. Ele testemunhou o mundo se tornar uma grande pilha
de lixo com o passar do tempo, contaminado em todos os lugares pelo inimigo
invisível da radiação. Muitas pessoas morreram contaminadas, mortes horríveis em
que os cabelos caíam, a visão escurecia com cataratas e tumores protuberantes
apareciam no corpo. Várias vezes ele viu peregrinos solitários agonizarem nas
ruas, caídos ao lado de suas excreções corporais. Ele se lembra do cheiro de
vômito e das fezes empesteando o ar sem que ninguém pudesse ajudá-los.
Foi casualmente que ele viu um grupo de
peregrinos caminhando pelas ruas desertas da cidade. George estava escondido em
um prédio abandonado, em um apartamento do segundo andar, quando os ouviu lá
embaixo. Espiando pela janela, ele viu homens, mulheres e crianças, eram
famílias inteiras de jovens e velhos passando ali embaixo em passos confusos de
quem não tem mais certeza se ainda quer viver. Era o grupo do professor.
O
grupo sob a liderança do professor o aceita sem problemas. Eles são apenas
sobreviventes vagando pelas cidades em busca de comida, água e abrigo. George
não compreende a razão deles em se empenharem naquela marcha, afinal todos estão
expostos à radiação e morrerão mais cedo. Talvez seja a intenção, mas ele
prefere pensar que a necessidade os forçou àquilo. Os instintos falam mais alto
quando há fome e sede.
Voltando
ao presente, o maçom ainda os acompanha. Da maneira que ele pensa, ele tem um
jeito bem ingrato de retribuí-los já que, diferente da loja maçônica onde todos
supostamente se ajudavam, o grupo do professor sim esteve se ajudando durante
todo o tempo em que peregrinavam pelas ruínas deste novo mundo. Este bando de
moribundos ambulantes os aceitaram, diferente daqueles a quem ele jurou ajudar.
Passando
sob um viaduto em ruínas, eles desviam das pistas de rolamento caídas entre os
pilares, as rígidas estruturas não foram capazes de suportar a fúria da chama
nuclear. O professor ouve algo além do entulho à sua frente e pede para o grupo
ficar em silêncio. Ele e o médico se esgueiram entre os enormes pedaços de
concreto e escalam um pilar semidestruído. Eles espiam a avenida deserta à sua
frente, com focos de vegetação crescendo nas rachaduras do asfalto.
Esgueirando-se
atrás deles, George também sobe pelos entulhos e põe-se ao lado deles. Os três
veem algo que nenhum deles tinha visto antes. Semelhante a uma pequena
caravana, cinco homens vestidos com sobretudos e capuz no rosto caminham à
frente de uma carroça puxada por bois. Atrás deles o trio vê uma fileira de
seis pessoas com longos mantos cobrindo-os da cabeça aos pés, semelhante a
burcas. Há correntes e cadeados prendendo os seus pulsos, e outra corrente
ligando as seis pessoas como se fossem prisioneiros escoltados. Sobre a carroça
há vários objetos empilhados sobre estantes improvisadas de madeira, como se
fosse uma barraca de comércio. Ao observar bem eles veem que são garrafas
plásticas de água, leite engarrafado, comida enlatada, caixas de cereais, sacos
de grãos, latas de refrigerantes, latas de cerveja, bebidas alcoólicas, caixas
de biscoitos, e mais outras variedades.
O
professor se espanta. Como podem essas pessoas vagar pelas ruínas assim? Eles
têm dúzias de mantimentos que as pessoas comuns se matariam para obter. O vento
sopra mais forte e o sobretudo dos homens se levanta, exibindo metralhadoras,
pistolas e munição em seus peitos e cinturas. Está explicado porque eles
caminham tranquilamente por aí.
A
caravana para um pouco mais a frente, perto de um posto de gasolina abandonado.
O professor e o médico os seguem, George também vai, para o incômodo dos dois,
não ficando atrás com o resto do grupo. Pensando que eles pararam para
descansar, o professor se assusta ao ver um bando de saqueadores se
aproximarem, vestindo suas armaduras detestáveis como se fossem cavaleiros
medievais vindos do lixo. Normalmente eles estariam prestes a testemunharem um
massacre, mas algo diferente acontece. Os saqueadores começam a olhar a
mercadoria, escolhendo o que comprar, e alguns deles trocam objetos com os
homens da caravana. Os objetos trocados são roupas, casacos, botas e
ferramentas, e então os saqueadores compram comida enlatada, garrafas de água e
bebidas alcoólicas. Tudo fica claro agora, os homens da caravana são
Mercadores.
É a
primeira vez que o professor, o médico e o maçom veem esse tipo de peregrino,
pessoas que enriquecem vendendo mantimentos a assassinos como os saqueadores. A
reflexão dura pouco quando um dos mercadores exibe os prisioneiros para eles. O
mercador levanta a burca e os três se aterrorizam ao ver que são mulheres.
Completamente nuas e presas pelos pulsos, o mercador parece negociar as
mulheres exibindo as partes atraentes de seus corpos. Os saqueadores decidem se
vão pagar um preço tão alto para levar pelo menos uma delas.
A
negociação dura vários minutos. Os três espionam em silêncio quando um
saqueador, usando uma máscara de soldador, se aproxima da caravana e retira sua
máscara para olhar as mulheres melhor. George se espanta, ele reconhece seu
rosto, é um dos membros da loja maçônica!
O
maçom vê aquele que era um dos detetives de polícia na antiga loja. Mas algo
não se encaixa, como pode um ex-policial ser um dos maníacos, assassinos e
estupradores que aterrorizam as ruínas das cidades conhecido como Saqueadores?
Não é possível! Estariam seus olhos enganando-o? George ainda está muito
ressentido, seu rancor o manteve vivo durante todo esse tempo, o rancor de quem
foi enganado e traído, deixado para trás pela arrogância de gente da qual ele
jurou lealdade. Não há dúvida, é o detetive, aquele policial corrupto que
recebia propina de traficantes de drogas, gigolôs e fraudulentos. “Como é mesmo
seu nome? Detetive Jensen?”.
O
professor e o médico decidem voltar ao grupo e passar por outro caminho,
evitando os mercadores. Mas George se levanta e deixa o esconderijo entre os
entulhos. Os dois se desesperam ao vê-lo sair, mas não podem chamá-lo de volta,
com medo de que os saqueadores os ouçam. O maçom caminha em direção aos
saqueadores. Ele quer respostas, precisa das respostas, não importa o que tenha
de fazer para obtê-las.
Os saqueadores param o que estão fazendo e
encaram o misterioso homem se aproximar ingenuamente da morte certa. Os
mercadores também se intrigam e levam as mãos às armas sob seus sobretudos.
Jensen está distraído olhando para as mulheres quando percebe um homem vestido
em trapos sujos, barba ensebada e olhar inquisidor se aproximar dele com
determinação inabalável. Os mercadores estão confusos e não sabem se ele é só
mais um cliente ou um peregrino desequilibrado e doente pela radiação. Sem a
mesma indulgência deles, os saqueadores seguram suas armas rústicas e os cercam
pelas costas.
George
olha fixamente para o detetive, intrigado com tudo aquilo. O maldito parece não
se lembrar dele.
-
Detetive Jensen? Lembra-se de mim?
Jensen
não faz ideia de quem ele seja.
-
Quem é você?
O
maçom se irrita. Ao seu redor estão os saqueadores, prontos para abatê-lo como
gado. Eles não são normais, agora que George está perto ele percebe. Estes
criminosos são animais, olham fixamente como maníacos psicopatas prontos para
esquartejar a vítima indefesa. Ofegando como feras cheias de adrenalina,
exibindo seus dentes amarelos e podres e sussurrando para si mesmo luxúrias
sanguinárias, o maçom vê os braços da morte se fecharem sobre ele.
Tirando
seu capuz e limpando o rosto com as mãos, o maçom se apresenta:
-
Sou George. Éramos membros da mesma loja maçônica anos atrás.
A
expressão de surpresa se forma no rosto de Jensen. Lentamente seu rosto
enrugado revela um sorriso horroroso, com seus dentes marrons entre seus lábios
rachados pelo frio. Inesperadamente ele gargalha, surpreendendo inclusive os
animais selvagens de seu próprio grupo.
- George?
Sim, eu me lembro de você! Achávamos que estivesse morto!
-
Achavam...?!
Jensen
ri novamente. A esquizofrenia parece ter tomado uma parte de sua sanidade com o
passar do tempo.
- Eu
estou feliz!
-
Você estava com eles? Tem mais deles com você? O abrigo está perto daqui?
Responda!
Os
saqueadores se aproximam. George sente um cheiro forte, as armaduras deles têm
manchas escuras, um marrom encardido do sangue coagulado daqueles que eles
mataram. O maçom se surpreende, os saqueadores costuraram borrachas de pneus em
suas armaduras, usando-os como proteção no peito, braços e cotovelos.
Jensen
aponta para uma das mulheres à venda e diz:
- O
que acha dela... George?
O
maçom se confunde, ele não está falando com coerência.
-
Por que me deixaram para trás?!
Os
mercadores intervêm e respondem:
-
Jensen, você pode matar a saudade depois. Temos mais lugares para ir.
O
saqueador sorri e fala aos outros atrás dele:
-
Façam.
Assustado,
o maçom olha para trás e vê a própria morte nos olhos dos saqueadores. Ele
implora por sua vida, retira de seus bolsos muito dinheiro, milhares de dólares
em notas de cem.
-
Aqui, peguem tudo mas não me matem!
Para
a infelicidade de George, as cédulas de dinheiro que valiam tanto no passado,
da qual as pessoas eram capazes de se matar para obter, hoje não valem nada,
não passando de um simples papel verde sem valor.
Os
saqueadores rasgam o dinheiro diante de seus olhos. Ele apela mais uma vez.
-
Espere! Eu não estou sozinho, tem mais gente comigo, a maioria mulheres e
crianças. Levem-nos mas me deixem viver!
Ao
ouvir isso, o professor e o médico se encolerizam, indignados com o maldito
maçom que os entrega covardemente a um bando de assassinos cruéis.
Ignorando
George para a sorte dos sobreviventes, os saqueadores erguem suas armas,
prontos para golpeá-lo. Ele vê de relance a barra de aço se aproximar antes de
ele cair no asfalto. Pouco antes de ele perder a consciência, ele vê Jensen
comprar uma das mulheres e levá-la à força enquanto ela se debate.
§
George não sabe por quanto tempo esteve
desacordado. Ele abre os olhos, com a visão ainda embaçada e a cabeça doendo, e
vê dois saqueadores arrastando-lhe pelas pernas. Sua cabeça, costas e braços
deslizam com dificuldade pelo solo áspero e empoeirado coberto de pedras. Mais
a frente outro saqueador puxa a mulher comprada por uma corrente presa em seu
pescoço. Ela usa uma espécie de coleira para cães, a corrente prende seus
pulsos e passa pela coleira, dominando-a como se fosse um animal doméstico. Ele
não consegue ver Jensen, entretanto.
Os
saqueadores os levam para seu esconderijo, um local macabro do qual o maçom
jamais irá esquecer. É um ferro-velho cercado por telas de arame farpado. Há fogueiras,
torres de vigilância improvisadas e carcaças de carros empilhados em seu
interior. George se aterroriza ao ver corpos enforcados pendurados nos postes e
cabeças decepadas e perfuradas por lanças na entrada do ferro-velho. Ele sente
temor, alguns dos corpos mutilados e enforcados são de mulheres!
“Que
carnificina é esta?!” pensa ele.
Ao
entrar, o maçom vê que os saqueadores fizeram um povoamento improvisado, usando
containers velhos como dormitórios, barracos com paredes de aço dos carros
enferrujados e um salão usado como refeitório feito dos restos da antiga
construção de tijolo cerâmico, provavelmente a garagem do ferro-velho que havia
ali. Ele também vê vagões de trem, o chamado carro-leito, sendo usado como
dormitório dos saqueadores mais fortes, um privilégio para poucos naquela
alcateia de animais.
Assim
que a mulher chega, ela é jogada ao carro-leito. Os saqueadores mais fortes a
agarram e a arrastam para dentro, fechando a porta em seguida. Os mais fortes
devem experimentá-las primeiro.
George
é lançado dentro de uma jaula feita de barras de aço e telhado de telhas
metálicas, a maioria furada. O chão está coberto de feno e cheira a urina e
excremento, ele vê vasilhas de ração iguais àquelas em que os cachorros comem,
e ao olhar para trás ele vê buracos no chão com placas de sinalização de
tráfego, servindo de tampas para as fossas. Ele não percebe mas há mais pessoas
na jaula, elas se aproximam e o ajudam a ficar em pé. Ao ver melhor, George se
surpreende ao ver homens vestidos com roupas mínimas, apenas cuecas e bermudas
velhas, e os mais azarados usando trapos enrolados em suas cinturas como se
fossem fraldas. O maçom se sente privilegiado por estar vestindo casacos, calças
e sapatos, mas se pergunta até quando.
-
Você está bem? – pergunta um rapaz. Ele é jovem e tem pouca barba, os pelos em
seu peito são bem escassos.
-
Minha cabeça dói muito.
-
Como foi capturado? Sobrou mais alguém ou é o único sobrevivente?
O
maçom fica confuso.
-
Capturado...?
- É.
Eles invadiram minha casa nos subúrbios. Vivíamos com outras duas famílias, nos
protegendo do frio e compartilhando alimentos. Ao amanhecer os saqueadores
fizeram o primeiro ataque, matando os homens que guardavam a casa. Em seguida
eles invadiram e atacaram os mais velhos, matando-os a golpes de machado. Meu
pai morreu tentando proteger minha mãe, o golpe de bastão abriu um buraco
horrível na cabeça dele...
-
Meu Deus!
-
Sobraram apenas os homens mais jovens e as mulheres. Minha mãe e irmã foram
estupradas durante um mês, elas eram suas escravas sexuais. Depois elas foram
vendidas e nunca mais as vi.
O
maçom se assombra com a frieza de seus relatos.
-
Por que eles os mantêm aqui?
-
Somos escravos.
-
Escravos?! – indaga-se George.
-
Tudo o que está vendo neste povoamento foram nós quem construiu. Eles nos usam
como mão de obra, limpamos as fossas, construímos suas casas, consertamos os
telhados, os barracos, as tubulações... Inclusive confeccionamos suas armaduras
rudimentares feitas de pneus e aço. Somos excelentes artesãos, como pode ver.
Às vezes eles nos usam como diversão, nos lançando em arenas para lutar contra
cães raivosos ou contra nós mesmos.
-
Eles usam vocês como escravos e gladiadores?
O
rapaz assente, mostrando cicatrizes profundas e feridas infeccionadas em seu
corpo.
-
Desde que fomos capturados eles nos tratam como animais de estimação. No começo
éramos doze mas agora somos apenas cinco, eles nos dizem que o último que
sobrar se tornará um saqueador. As mulheres não têm a mesma sorte. Desde que
chegam aqui elas são violentadas constantemente, dia e noite, passando de
alojamento em alojamento. Minha irmã tinha sífilis quando foi vendida. Se as
mulheres não morrerem de doença venérea elas são vendidas para serem estupradas
por outros. É um triste destino para quem é fraco e indefeso.
George
sente repugnância. Em seguida o rapaz pergunta:
- E
então? Como foi capturado?
- Eu
não fui. Estava procurando alguém. Detetive Jensen, conhece?
Os
escravos sorriem, algo que eles quase esqueceram como se faz.
-
Detetive? A polícia não existe mais, estranho.
O
maçom insiste.
- Eu
o vi hoje. Ele estava usando uma máscara de soldador e vestindo armaduras de
aço e borracha.
Ainda
extasiado, o rapaz responde:
-
Olhe ao redor, estranho. Todos usam máscaras e armaduras!
-
Mas ele...
De
repente dois saqueadores abrem a porta da jaula e agarram George. Eles arrancam
suas roupas uma a uma, deixando-o completamente despido na frente dos escravos.
Encolhido com a mão sobre a genitália, um dos saqueadores diz:
- Se
quiser cobrir seu pinto de novo vai ter que trabalhar pelado amanhã... O dia
inteiro. E então devolveremos sua cueca.
Os
saqueadores riem, dão as costas e vão embora. Depois que eles se afastam, um
outro homem que estava vigiando-os de longe se aproxima e sussurra através das
barras:
-
Você tem um corpo bonito. Se não conseguir trabalhar amanhã, talvez eu consiga
outro uso para você, te dando um carinho especial do mesmo jeito que eu fiz com
o rapaz. – o saqueador olha para o jovem que esteve falando com George minutos
antes.
Ele
arregala os olhos, a aflição e o pânico dominam sua mente. O saqueador
pervertido vai embora mas continua observando-os de longe.
Os
escravos vão para o fundo da jaula e se sentam, cruzando os braços ao redor das
pernas para se aquecerem. O rapaz, que esteve tagarelando desde o momento em
que George chegou, se emudece e olha para o vazio. Suas lembranças ainda são
fortes e transpõem a realidade.
George
se sente só. Após esnobar tanto o grupo do professor, olhando-os como mendigos
e inúteis, agora ele sente a falta deles. Ele implora que algum deles, qualquer
um, venha em seu resgate, para resgatar alguém que se achava superior demais
para trocar uma única palavra gentil.
§
Na
manhã seguinte os saqueadores invadem a jaula e acordam os escravos. No lado de
fora eles imediatamente retomam suas atividades, parecendo já saber o que fazer.
Eles já tinham uma rotina comum após tanto tempo cativos. Alguns vão para a
cozinha do refeitório, outros limpam o chão com esfregões e outros pregam as
paredes e os telhados dos casebres, consertando-os. George está nu no meio do
acampamento e os saqueadores riem e zombam dele. Um dos chefes apanha um pedaço
de pau e o usa para bater nas nádegas de George, provocando risos entre aquela
corja de pervertidos. O maçom teme por sua integridade física. Sua honra e sua
masculinidade estão em risco ali.
Enquanto
os homens zombam dele, George não vê o detetive Jensen em lugar algum.
O
chefe, um homem alto e corpulento, lhe diz:
-
Quer se cobrir? Vai ter que trabalhar duro em nosso esconderijo. Sua primeira
tarefa é lavar a novata. Tragam a escrava!
Ao
dar a ordem, dois saqueadores entram no vagão e trazem a mulher. Parece uma
tarefa bem simples, o maçom não vê dificuldades. Ao se aproximar, George nota
como a expressão dela é de trauma, ela está branca como a neve, seu olhar é
vazio e apavorado, os longos cabelos loiros estão armados e despenteados e ela
parece não perceber que também está sem roupas.
-
Leve-a ao tanque e lave-a bem. Quero-a bem limpa essa noite.
Os
saqueadores riem.
Ao
levá-los ao tanque, o maçom vê uma piscina de água suja e escura, é o tanque de
que estavam falando. Provavelmente eles não trocam a água por semanas. É muito
compreensível uma vez que a água se tornou um bem precioso, sendo raro
encontrar riachos e nascentes que não estejam contaminados pela radiação.
O
maçom coloca a mulher na piscina, ela está imóvel e precisa ser transportada em
seus braços. A compaixão cresce em seu peito ao ver como ela está abalada. Ele
nota como os mamilos dela estão duros e pontudos com o frio. Dois homens os
vigiam atrás dele, conversando tranquilamente enquanto ele tenta lavar a
mulher. George não tem outra opção senão deitá-la na piscina rasa e enxaguar
seu corpo.
Ao enxaguar
a barriga da mulher, a água fria arrepia seus pêlos mas ela não esboça nenhuma
reação, estando completamente ausente no olhar. O maçom continua enxaguando-a,
lavando sua barriga e seus seios.
-
Ei, estamos vendo você ficar de pau duro aí! – grita um dos saqueadores,
caçoando-o.
Sentando
a mulher na borda da piscina, ele tenta lavar sua vagina. Algo viscoso sai em
sua mão e ele vomita, não conseguindo segurar a ânsia. Mas algo está diferente,
sua mão está vermelha. É sangue!
-
Meu Deus! O que fizeram a você?!
A
mulher está toda machucada. Como alguém é capaz de fazer isso?
Ele
lava a cabeça da mulher. Ele enxagua rapidamente seus cabelos para ela não
sentir mais frio. É deprimente ouvir seus maxilares batendo e ele não poder
aquecê-la. George lava as mãos dela e vê resíduos de pele sob suas unhas, ela
se debateu o quanto pôde. A sola de seus pés estão com grossas camadas de lama,
os mercadores as mantinham descalças sob aquelas degradantes burcas.
Lavar
uma mulher que acaba de ser estuprada, usando as próprias mãos e sem nenhum
sabonete, é uma atividade nauseante, porém foi a tarefa mais humanitária que George
fez em toda sua vida. Ele sente muita pena, lágrimas se formam em seus olhos
por ter de testemunhar tudo aquilo. Agora ele sabe que coisas terrivelmente
ruins estão acontecendo nos cantos mais sórdidos da cidade. E o maçom agindo
com arrogância. George aprendeu uma lição muito amarga naquela manhã: neste
novo mundo devastado e arruinado, a vida não vale absolutamente nada, muito
menos a amizade de pessoas influentes que brincavam de “construtores” da
sociedade.
Sentindo
profunda compaixão, o maçom a carrega em seus braços e a leva de volta ao
chefe. Enquanto caminha de volta, os saqueadores brincam com ele, usando fios
elétricos para chicotear suas nádegas. O chefe ordena que ele a ponha de volta
no carro-leito, reservando-a para mais tarde. Ao entrar, George vê os outros
chefes, dois homens altos e corpulentos. Os dois estão folheando revistas
pornográficas enquanto fumam cigarros, algo raríssimo na cidade atual. O maçom
deixa a mulher sobre um leito no fundo do vagão e a cobre com um velho
cobertor, acariciando seus cabelos.
Ao
sair do vagão, George vê os saqueadores se organizarem. Eles estão se
preparando para sair e todos portam suas armas rudimentares. Provavelmente vão
atacar os peregrinos nas ruínas ou grupos solitários abrigando-se em prédios
abandonados. O chefe que lhe dava ordens vai sair também e o deixará sozinho no
povoamento. Enquanto os observa, George os ouve se chamarem por codinomes grotescos
e até infantis, diferente de nomes comuns de gente da qual as pessoas normais
geralmente se chamam. Eles se referem ao seu chefe pelo irrisório apelido de
“Esmagador”.
Um
dos chefes sai do vagão e nota que George está pelado. Ele entende que ele precisa
trabalhar durante um dia para recuperar sua cueca, mais um dos jogos sádicos
daqueles animais. Ele o chama e então diz:
-
Está vendo aquele barracão ali? É o sanitário coletivo do povoamento. Pegue uma
pá e uma carriola, você vai limpar a fossa.
Os outros
escravos observam de longe George caminhar até o sanitário, já sabendo qual
será sua próxima tarefa. Eles lhe indicam onde encontrar a pá e a carriola, e
logo se afastam para não dividir a tarefa com ele. George abre a tampa da fossa
e encontra uma poça escura de pura imundície. Baratas caminham nas paredes do
buraco e ele vê vermes se moverem entre os excrementos. Com o terrível cheiro
subindo à suas narinas, novamente ele sente náusea.
Ao
golpear a matéria fecal com sua pá, gotas de sujeira espirram em suas pernas. O
nojo tira-lhe a concentração e ele se desequilibra, quase caindo no buraco
aberto à sua frente. Retirando a pá, ele começa a encher a carriola lentamente,
controlando a tontura em sua cabeça. Um dos saqueadores, de codinome “Coelho”, aparece
e lhe indica o local para descartar a sujeira. Escoltando-o para que o maçom
não fuja, o homem o leva para fora do povoamento e chegam a um pequeno córrego
cheio de lodo e vegetação alta. Aparentemente a água não flui ali há anos.
Ele
despeja a sujeira ali e alguém chama o saqueador de volta.
-
Deixe-o. Ele não vai fugir, estou de olho nele.
- O
Esmagador saiu. Onde está a novata? – pergunta Coelho.
-
Dentro do carro-leito. Nem pense nisso, a não ser que queira sua cabeça sobre
uma lança.
- A
escrava nos dormitórios está muito velha, não me excita mais. Eles saíram ontem
e trouxeram apenas uma. Se continuar assim vou ter que caçar outra mulher para
me satisfazer.
-
Cuidado com seus ataques de violência, Coelho. Se a velha morrer, o pessoal
ficará muito irritado. Você se lembra do último linchamento, não é?
Os
dois olham para uma cabeça decepada e espetada numa lança. O crânio está todo
esmagado por pancadas de martelo.
- Fique de olho nele. Vou ao dormitório e já
volto.
George
retorna ao povoamento e continua retirando a sujeira lamacenta da fossa,
repetindo o trajeto várias vezes. Enquanto caminha de volta ao córrego, ele
ouve gritos abafados atrás dos containers. Deixando a carriola no chão, ele
caminha lentamente pelas sinuosas passagens entre as carcaças de carros. Os
gritos estão mais audíveis, parece que alguém está chorando. Ao passar pela
pilha de carcaças, ele vê o tal Coelho pressionar uma mulher de cabelos
grisalhos contra a parede de aço do dormitório. É uma mulher de aproximadamente
cinquenta anos, cabelos escuros e rosto machucado. Ele tenta subjuga-la quando
percebe a presença de George.
Coelho
rosna para ele, exibindo seus dentes marrons. Ele solta a mulher e ela corre,
chorando com as mãos no rosto. Caminhando em direção a George, ele o encara
ameaçadoramente como um esquizofrênico sem a camisa de força. George recua mas
Coelho o subjuga, segurando seu braço e batendo seu corpo contra a parede de
aço. Segurando-o de costas para ele, o saqueador o ameaça dizendo:
- Se
disser a alguém o que viu aqui... – o saqueador hesita antes de concluir – Você
será a próxima escrava sexual do povoamento.
Apavorado,
George responde:
- Eu
não direi nada!
O
saqueador o solta e o maçom corre, voltando logo aos seus afazeres.
Golpeando
as fezes com a pá freneticamente, ele parece esquecer a náusea e a imundície.
Os saqueadores não rejeitam nem os homens! Um dos escravos vê que ele caminha
apressado com a carriola e o pergunta:
-
Você está bem?
George
o ignora e continua caminhando, apressado e perturbado.
Ele
faz o trajeto várias vezes, coletando os excrementos e despejando-os no
córrego. Passados alguns minutos, ele chega ao córrego e despeja o material
normalmente quando algo se mexe entre a vegetação alta. Pensando serem apenas
ratos, ele ignora, mas novamente a vegetação se mexe e ele vê o que parece ser
um braço. O saqueador na entrada do ferro-velho está distraído e então George
aproveita para descer e investigar.
Desviando-se
da matéria fecal que ele despejou, o maçom se esgueira entre a vegetação e
chega ao nível mais baixo do córrego. Seus pés descalços afundam no lodo, ele
abre caminho no capim alto e encontra mais outra coisa que o aterroriza. Além
da vegetação estão dezenas de cadáveres lançados ali para apodrecer. Ele vê
homens, mulheres e até cães, e pela aparência dos homens eram todos escravos,
vestidos com apenas as roupas de baixo em suas cinturas. George vê mulheres de
todas as idades, jovens e velhas, mortas ali com feridas horríveis em suas
genitálias. São doenças venéreas, irritações, bolhas e infecções severas na
pele, causando-lhe nojo.
Novamente
ele vê a movimentação. Afastando o capim do caminho, ele finalmente encontra
quem estava mexendo-o, mas para seu infortúnio ele desejaria que nada daquilo
fosse real. George encontra um homem moribundo, coberto de feridas de cortes e
golpes. Ao olhar seu rosto ele quase desmaia, é o Detetive Jensen.
-
Não... Não, não, não, não...!
Rapidamente
George segura sua cabeça e a ergue, o rosto de Jensen está lavado de sangue.
Seu corpo está despido como todos os outros, e os ferimentos em seu corpo tem
marcas violentas. Atordoado, o saqueador tenta ficar acordado, mas a dor é
forte demais.
-
Jensen, acorde! Acorde, seu desgraçado!
O
saqueador abre os olhos e enxerga alguém segurando-o, é George. O homem percebe
que o maçom está totalmente nu enquanto recupera a consciência.
-
Escravo... – ele tenta rir, zombando-o – Eles te pegaram, não é?
- O
que fizeram a você? Por quê...? – George não entende, até ontem Jensen era o
líder do bando nas ruínas.
-
Você sempre foi um escravo, afinal.
O
detetive ainda está zombando dele. George está confuso, as coisas deram uma
reviravolta e o deixou perdido. Foi por isso que ele não viu Jensen em lugar
algum no povoamento. Ele se sente injustiçado, por Jensen ele se arriscou
caminhando entre os saqueadores, por sua obsessão, sua resposta, sua implacável
busca pelo motivo de ser abandonado e deixado para trás. Por essa razão ele
começou esta aventura, a obcecada busca de um homem ressentido.
-
Não morra agora, maldito! Mais membros sobreviveram? É só você que sobrou?
Responda-me!
Jensen
parece se deliciar ao vê-lo implorar. Um último regozijo para um homem prestes
a morrer.
-
Nós nunca o consideramos um dos nossos... – ele se interrompe para tossir
sangue. – Um homem patético, arrogante e vazio, sem nada a oferecer.
George
se indigna.
- Eu
jurei minha vida por vocês!
Rindo,
o saqueador responde:
- Os
saqueadores vão estuprá-lo... Isto me deixa feliz! – Jensen está muito mal.
-
Onde fica o abrigo? Eu tenho que ir para lá. Eu preciso!
- O
abrigo...? – ele sorri – Você não vai sobreviver. Você será violentado,
agredido, ficará doente, a radiação entrará em você, o contaminará. Você
definhará pela dor de um agonizante câncer...
George
ouve apenas incoerência.
-
Diga-me onde está o abrigo!
-
Saber não mudará nada. Você é só mais um escravo dos saqueadores, seu destino
já está selado.
- Responda-me! – vocifera ele, com ódio.
Jensen
para de sorrir e o encara seriamente. E então responde:
- Os
maçons são a elite da sociedade, os mantenedores, os regentes, os construtores... Quando esses tempos
turbulentos passarem, quando o espírito da morte voltar ao abismo, levando de
volta consigo os demônios pelos portões do inferno, o Grande Oriente Maçônico
retornará, reavivando a sociedade das pragas, das guerras, da fome e da
destruição.
George
não compreende.
-
Responda-me, eu suplico, eles ainda estão vivos?
-
Eles repousam, esperam, meditam, pacientemente aguardando o momento de sair e
reconstruir a sociedade das cinzas. A Maçonaria reinará novamente.
Então
o detetive Jensen tem espasmos e, sufocando com o próprio sangue, morre nos
braços de George. Ele não consegue acreditar, as lágrimas de ódio se formam em
seus olhos e ardem ao escorrerem por seu rosto. George está sozinho de novo,
está vazio, ele sente o fardo pressionar-lhe as costas ao perceber que sua
busca ainda não chegou ao fim. As respostas fogem dele com o último suspiro do
detetive tornado saqueador, espancado e lançado no córrego para morrer. A
primeira pista que ele tinha a respeito do paradeiro dos antigos membros da
loja maçônica morre. Igual a todo o resto em sua vida.
§
Após
o dia de trabalho, os saqueadores o agarram e o lançam na piscina da qual ele
usou para lavar a mulher. Seu cheiro é insuportável, eles o obrigam a se lavar
naquela água suja durante o frio entardecer. Tremendo o tempo todo, ele é
levado de volta à jaula e os saqueadores o trancam lá dentro junto com os
outros escravos.
O
Esmagador aparece em frente à jaula e diz:
-
Parabéns, você mereceu receber sua cueca de volta. Pegue-a.
Ele
a joga aos seus pés. Ainda tremendo e abraçando a si mesmo para combater o
frio, George se agacha e a veste. Ele está calado, não disse uma única palavra
desde que entrou no córrego. Os escravos se intrigam e o puxam para perto de
uma fogueira no meio da jaula, ajudando-o a se aquecer.
-
Você está bem? – pergunta um deles, um pouco mais velho do que o rapaz. – Ouça,
cara. Aqui nós nos ajudamos. Você não pode se isolar, estamos aqui para te
ajudar também.
George
não diz nada, apenas observa o fogo enquanto se encolhe de frio.
Após
cinco dias cativo, George vê muitas coisas terríveis. Os homens pegam um dos
escravos e o lança dentro de um fosso, é uma arena improvisada para diverti-los
com espetáculos sanguinários. Deixando-o sozinho e desarmado, eles soltam cães
raivosos lá embaixo para apanhá-lo. Vê-lo morrer daquele jeito, mordido e
estraçalhado pelos cães, foi a coisa mais cruel que ele viu enquanto esteve nas
ruínas.
Seu
coração fica mais frio. Os escravos vivem com medo mas George sente apenas
desprezo pela vida, pelo mundo, por tudo o que a humanidade provocou sobre ela
mesma, e agora pessoas como ele tem que suportar as consequências. George sente
indiferença, a crueldade, as mortes e a dor não lhe importam mais.
Onde
é que ele veio parar? Ele era um homem bem sucedido, rico, tinha dinheiro para
comprar o que quiser, fazer o que quiser, ir aonde quiser. Tinha empregados,
carros luxuosos, uma casa grande, e onde é que ele está agora? Um povoamento
improvisado em um ferro-velho, habitado pelos homens da pior espécie, animais
atrozes e selvagens em forma de seres humanos.
A
sociedade fez um excelente trabalho com sua hipocrisia ideológica. Por séculos
se empenhou em convencer os fortes de que o uso da força é errado e passivo de
castigo. Criou-se a moralidade e a consciência, os valores foram invertidos,
tudo se transformou. Os feios tornaram-se belos, os ignorantes tornaram-se
inteligentes, os tolos em sábios, a plebe em nobreza, o pobre em rico, o fraco
em forte. E os verdadeiramente belos, inteligentes, sábios, nobres, ricos e
fortes? Lançaram-nos ao constrangimento, à vergonha, à humilhação. A
autoafirmação dos realmente capacitados e talentosos tornou-se digno de
recriminação. Declarar-se talentosamente forte era sinônimo de preconceito, de
arrogância, de soberba. Os valores foram invertidos, tentaram enjaular o homem
belo, inteligente e forte com o uso de ferramentas institucionais - religião e
política - e criaram sociedades baseadas na igualdade, isto é, na elevação dos
medíocres e no constrangimento dos fortes. Esta foi a vitória dos fracos, os
mesmos incapazes de combater abertamente os fortes e recorrendo a técnicas
covardes, difamando-os com acusações fantasiosas quanto à sua crueldade e
violência. Os fracos venceram, afinal. Deram-lhes direitos e leis, benefícios e
privilégios, que até então apenas os nobres e governantes tinham.
Mas
nem mesmo eles contavam que algo impensável durante tanto tempo mudaria tudo.
A
guerra nuclear veio e reajustou as leis da natureza, voltando-a ao seu estado
original. Hoje os fortes novamente governam, os fracos são perseguidos, é a
clássica relação entre predadores e presas. Não é assim no mundo animal? Que
presunção é esta do homem em pensar que é superior, declarando-se
arrogantemente melhor que os animais por ser inteligente? A guerra nuclear
alterou o mundo, o reconfigurou ao seu estado original, hoje os fortes
verdadeiramente governam sem a máscara do escrúpulo inventada pelo conceito de
má consciência.
E
tudo graças a uma maldita guerra nuclear.
Para
a infelicidade de George, ele não está no lado dos vencedores. Não desta vez,
não novamente, não como era antigamente antes da primeira ogiva explodir. Ele
sente o ressentimento típico daqueles que antes tinham tanto e hoje não tem
nada, que antes se fartavam e hoje dormem famintos, que antes mandavam e hoje
são escravos de seus inexoráveis senhores. A vida lhe deu tudo para depois
tirar, ela deve estar rindo dele agora enquanto ele limpa as fossas e revira o
lixo em busca de comida.
A cada
dois ou três dias os saqueadores voltam ao povoamento com vários objetos
valiosos. Eles trazem roupas, comida enlatada, água em garrafas e cobertores.
Os escravos sabem de quem são aquelas coisas, os saqueadores as roubaram dos
peregrinos das ruínas. É assim que eles sobrevivem, matando, roubando e tomando
à força. Nada daquilo é repassado aos escravos. Enquanto aqueles bandidos
passam a noite aquecidos e alimentados, eles lutam constantemente contra o frio
vestidos em seus trapos e cuecas, se aquecendo encolhidos dentro da jaula. Os
saqueadores geralmente os provocam, oferecendo cobertores se eles lutarem até a
morte dentro da arena. Esse tipo de abuso é normal, o maçom não se importa se
viver ou morrer.
Certo
dia o ferro-velho recebe visitantes. George está pregando os telhados quando
homens estranhos entram, acompanhados dos chefes locais. São saqueadores
também, mas aqueles são diferentes. Eles têm o rosto pintado de azul, como
guerreiros bárbaros. É um sinal de identificação entre eles, o que os difere
das demais “tribos” na cidade. “Esses psicopatas pensam que são guerreiros
tribais?!” pensa George.
Aparentemente
as duas tribos são aliadas. É engraçado pensar como a raça humana voltou a
viver primitivamente assim. Os visitantes trazem objetos valiosos e negociam
com os chefes. George assiste de longe eles fecharem um acordo após uma longa
negociação. O Esmagador se aproxima dele e ordena:
-
Ei, você! Desça aqui!
George
desce do telhado e o Esmagador diz a um dos visitantes:
-
Este é novo aqui. Aprendeu rápido a trabalhar e sabe consertar bem as
instalações.
O
visitante, um homem alto e corpulento, com o rosto pintado de azul até a barba,
responde:
-
Ele ainda é saudável?
-
Não se preocupe, Lunático. Ele é jovem e ainda está saudável. – assegura o
chefe.
-
Tudo bem. Eu vou levá-lo.
O
tal “Lunático” fecha o negócio. Os saqueadores acorrentam os pulsos de George e
vestem uma coleira em seu pescoço. Pela primeira vez durante as semanas em que
ele ficou ali, os saqueadores o vestem com sapatos, calças e casacos, como se
estivessem embrulhando-o de presente.
O
maçom vê o pagamento, ferramentas, baterias de carro, galões de gasolina e
comida em conserva em potes de vidro. É isso o que sua vida vale? Comida em
conserva em potes de vidro?
Ele é levado pelos visitantes de rostos
pintados de azul. Enquanto caminha para fora do povoamento, os escravos
restantes lhe acenam, se despedindo tristemente com lágrimas em seus olhos. George
caminha entre os saqueadores e encontra Coelho, que o encara com perversidade e
satisfação, relembrando-o de seu incidente entre os containers.
E
assim George deixa o ferro-velho, sem saber por que mataram o Detetive Jensen,
sem obter as respostas que tanto desejava, sem compreender o uso de tamanha
crueldade e sem jamais entender a terrível desgraça que a vida lhe reservou,
encerrando-o naquele lugar deplorável. O maçom vai embora, mas tudo vai ficar
exatamente o mesmo. Os escravos continuarão sendo oprimidos, o Esmagador
continuará estuprando suas escravas, os saqueadores continuarão roubando e
matando. Nada mudará realmente.
A
satisfação de George dura pouco. Ele finalmente saiu do ferro-velho, mas irá
para outro povoamento escravista para ser explorado novamente. Mas pelo menos
está vivo. Ele se felicita. Enquanto estiver vivo ele continuará sua busca. Ele
procurará as respostas e, enquanto procurá-las, encontrará seu objetivo, e
quando encontrar seu objetivo ele contemplará a razão de mantê-lo vivo.
George
continuará procurando o abrigo, e quando encontrá-lo não haverá abrigo que protegerá
quem estiver lá dentro.

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