terça-feira, 14 de abril de 2020

Os Fracos - 11 - O Filósofo



O Filósofo

O filósofo Joseph Dawson acompanha o grupo liderado pelo professor durante semanas. Eles passam pelas ruínas das cidades em busca de comida, água e abrigo, como gafanhotos migrando entre as plantações. A diferença é que se a comparação virasse metáfora, as plantações seriam viveiros de pássaros predadores.
O filósofo nunca teve sorte na vida. Acepção é algo que ele nunca teve. O maior erro de sua vida foi ter nascido e o segundo ter sobrevivido ao devastador holocausto nuclear. Até para morrer ele era azarado. Quando a vida de miséria se tornou uma luta constante pela sobrevivência, a morte se apartava dele. A vida era sua condenação, sua penúria, a essência fundamental de sua dor quando todas as pessoas ao redor já estavam em paz nos frios braços da morte.
Sempre foi difícil ser o filósofo, um rapaz brilhante que desde cedo demonstrava ambições, almejava conquistas e desenvolvia seus talentos e dons pessoais. Ele tinha predisposição para a inteligência e o conhecimento, uma verdadeira paixão pela sabedoria. Sem dúvida sua personalidade sobressaliente seria digna de orgulho se não fosse um obstáculo infortúnio capaz de barrar sua indubitável ascensão.
Crescendo em uma família de ignorantes, Joseph viu desde cedo os paradigmas que tinha de vencer. Ele adquiria conhecimento e cultura na escola, algo bom de se compartilhar em casa. Mas como compartilhar isso com uma família de imorais, ignorantes e débeis? Com o mesmo entusiasmo em falar vinha o fracasso em tentar. Sua família o provocava, ignorava e zombava de seus interesses. Eles tentavam minar seus talentos e vontades explorando constantemente seus defeitos.
Joseph não podia esperar muito de sua família. Seu pai e mãe eram dois adúlteros, e seus irmãos de mentalidade demasiada ignóbil e medíocre. Desde cedo ele começou a rejeitar sua procedência, não podia acreditar que o sangue que corria em suas veias era o mesmo daqueles animais.
Dizem que o homem pode mudar o meio. “Isto é uma tremenda estupidez” pensa ele. Não se pode mudá-lo quando o meio é mais forte. Mas quando o homem é mais forte, não deve se desgastar mudando algo que não merece tal esforço. O que o homem, forte ou fraco, deve fazer é partir, não olhar para trás e nunca mais voltar.
Joseph começou a se trancar no isolamento, tentou entender como seres execráveis podiam influenciá-lo tanto a ponto de fazê-lo desistir. Então é esse seu destino? Se rebaixar ao seu nível ordinário? Ele deve se fundir às características naturais de sua família com tudo o que há de pior no mundo? Talvez o destino queira isso do filósofo, que ele seja igual.
Em sua adolescência ele sentia os efeitos da sabotagem mental. Com seus pais recusando-se a reconhece-lo e a se orgulharem de seus talentos, o filósofo passou a desejar o reconhecimento de outros para se sentir bem. Como nunca recebia apoio dentro de casa, ele procurava outros lugares para apoia-lo, geralmente acabando em fracasso.
Nada mudou com o tempo, o que aconteceu não é passado como os hipócritas dizem, e não foi preciso virar adulto para perceber isso. Cansado da rejeição, ele partiu para buscar seus sonhos. Ele finalmente se inscreveu em uma faculdade e começou a estudar o que mais queria, Filosofia. Em quatro gerações de uma família de baratas humanas, o filósofo foi o primeiro e único a entrar em uma faculdade. Quando perguntado o que queria ser, ele respondeu “filósofo”. Com muito desdém, seus familiares zombam dele dizendo: “e você vai se formar nisso?!”. E depois disseram: “você estudando em uma faculdade? Acho que você vai lá para limpar o banheiro...”.
“Ignorantes, se vocês não usassem a boca para falar apenas palavrões, gírias e expressões engraçadinhas e idiotas, saberiam que não é banheiro e sim sanitário”.

§

“Sanitário” lembra-se ele. Ao olhar ao redor ele ri, o grupo do professor está escondido em um sanitário. É o prédio de uma escola, há várias mesas e cadeiras espalhadas pelas salas. O vento sopra pelos corredores escuros e o zunido os assusta. Além do material eles ainda temem o sobrenatural, que patético.
O médico e o professor estão na entrada do sanitário, eles conversam sobre o que aconteceu com George e Susan. O filósofo se aproxima e ouve a conversa, relembrando o triste destino que os dois tiveram nas mãos dos saqueadores. Joseph ouve o médico falar um pouco de si, o que era raro uma vez que ele era sempre discreto quanto ao seu passado. Ele veio do subúrbio, fugindo de uma gangue de saqueadores, mas não dá muito detalhes. O professor respeita sua discrição, pensando que ele ainda está muito traumatizado devido à sua perda.
O filósofo diz:
- Vou procurar um lugar para urinar.
- Quer que eu vá com você? Pode ter mais alguém neste prédio. – pergunta o professor.
- Não, obrigado. Eu estarei bem.
Timothy e Harold são grandes amigos e se preocupam com o bem-estar do grupo. Joseph reconhece a amizade dos dois e se sente feliz por tê-los por perto para ajudá-lo também. O filósofo nunca se sentiu amparado, aparentemente ninguém se importava com ele, e após tantos anos sendo sua própria companhia ele se acostumou a fazer tudo sozinho.
Introspectivo, o filósofo criou o hábito de caminhar enquanto mergulhava em pensamentos. Vestindo o capuz e colocando as mãos nos bolsos, ele sobe as escadas e caminha silenciosamente pelos corredores vazios da escola, agora arruinada e desgastada pelo tempo. Seus elegantes sapatos sociais, do qual ele pagou caro por ser de uma conhecida grife, tocam o chão empoeirado e fazem ecos no corredor. Nos corredores há as fileiras de armários, alguns enferrujados e com as portas abertas. Joseph consegue ver alguns adesivos e fotos colados nas portas metálicas, relembrando o tempo em que a escola estava cheia de alunos e eles caminhavam tranquilamente por ali. Ele passa pelas antigas salas de aula, com suas mesas tombadas e cadeiras viradas, e sente o cheiro peculiar do giz de gesso, do giz de cera, da tinta nas paredes, da madeira envelhecida... As cortinas balançam nas grandes janelas. O vidro está trincado, quebrado e estilhaçado pelo chão, parte do assoalho se soltou e ele vê teias de aranha nos cantos embolorados. A escola mudou tanto em tão pouco tempo.
Ao passar por uma sala de aula, ele lê algo escrito na lousa. Alguém deixou uma mensagem que diz:
“Meu filho, a mamãe te perdeu de vista no abrigo. Se você se perdeu e veio para a escola, saiba que eu estou te esperando com os teus irmãos no abrigo da Rua Nove. A mamãe te ama muito e não vai se descuidar de novo. Eu prometo.”
Embaixo da mensagem, Joseph lê o nome da mulher e de seu filho. A tal mãe escreveu a mensagem dois anos atrás, quando os ataques devastaram os Estados Unidos. Ele se entristece, após tanto tempo a mensagem está intacta como se ninguém tivesse passado por ali. Enxugando as lágrimas dos olhos, ele deseja que o filho tenha encontrado sua mãe e que ambos estejam bem.
Em outra sala, ele vê as mesas arrumadas em círculos onde os grupos de amigos se reuniam para fazer as atividades. Infelizmente Joseph nunca teve amigos, pelo menos um que estivesse vivo. Suas amizades eram os filósofos, os teóricos, os famosos nomes do passado do qual ele lia e estudava. E os estudos eram suas brilhantes teorias que mudaram o mundo definitivamente. Joseph era habituado com o niilismo de Nietzsche, o pessimismo de Schopenhauer, o idealismo transcendental de Kant, o empirismo de Locke, o liberalismo econômico de Adam Smith, o racionalismo de Descartes, a teoria das ideias de Platão, o evolucionismo de Darwin, a linguagem de Wittgenstein... Como ele leu certa vez em algum lugar, “os livros são a melhor forma de conversar com as grandes mentes do passado”.
Ao chegar ao refeitório, Joseph vê o vasto pátio tomado pelas folhas das árvores. As mesas estão riscadas e pichadas, típico vandalismo de adolescentes, e há outras pichações mais recentes de invasores que se abrigaram na escola antes. Dentro da cozinha ele vê as panelas de alumínio jogadas no chão e os fogões industriais enferrujados. A despensa foi completamente saqueada e há apenas as estantes de aço acumulando poeira. Joseph sente nojo ao ver que alguém defecou lá dentro.
Cruzando o refeitório tomado pelo abandono, ele se dirige às quadras poliesportivas. Ao se aproximar da porta dupla, ele ouve sons de pessoas ecoando pelo ginásio. Esgueirando-se pelos cantos, ele sobe as escadas e se esconde na arquibancada. Seus olhos se arregalam ao ver oito homens vestidos com sobretudos pretos, com capuz em suas cabeças e armas em suas cinturas, vigiando doze pessoas sentadas no chão. As pessoas vestem trapos velhos e sujos, e há uma corrente presa em seus pulsos. Joseph vê uma carroça amarrada a bois, cheia de mercadorias e provisões como água engarrafada e comida enlatada. Atrás da carroça há outro homem, ele também veste preto e lhes dá ordens, aparentando ser o líder.
Joseph sabe quem são. Marisa, a jornalista, falou muito deles depois que se juntou ao grupo. O filósofo também os viu brevemente quando George, o maçom, foi capturado por saqueadores. Os homens lá embaixo são Mercadores. Eles capturaram aqueles peregrinos nas ruínas da cidade e os mantém cativos sob a mira de suas armas. Os cativos estão sentados de cabeça baixa, lamentando e chorando. Um deles, com seu rosto coberto pelos trapos encardidos, olha para a arquibancada e vê o filósofo espionando-os, mas logo é interrompido pelo homem que o amarra pelos pulsos.
O filósofo está perplexo, ele deve avisar os outros. Caminhando com cuidado, Joseph alcança a porta de saída e corre pelos corredores para avisar o professor. O afã em correr foi tanto que o filósofo se esquece que seus sapatos fazem barulho e os sons ecoam pelos corredores.
Chegando ao sanitário, Joseph encontra o professor escrevendo em seu caderno. Ofegando constantemente, o professor se intriga e lhe pergunta:
- O que foi, Joseph? Aconteceu algo?
- Tim, eu vi outras pessoas aqui... São mercadores!
- Mercadores...?! – o professor sente medo, o pesadelo o atormenta de novo.
“Primeiro o maçom, depois a juíza e agora todos nós?”.
A jornalista ouve o professor exclamar e se enche de terror. Ela pergunta:
- Você disse mercadores...?
Joseph mal consegue responder. Ele ofega bastante e apenas acena afirmativamente com a cabeça. O professor apressadamente fecha seu caderno, o guarda na mochila e então se levanta.
- Arrumem suas coisas! Temos que sair daqui!
O médico ajuda os sobreviventes a dobrarem seus cobertores e a guardarem suas coisas. Todos estão assustados e lamentam mais um infortúnio que o destino põe em seus caminhos.
Correndo pelos corredores, eles carregam suas mochilas e bagagens e seguem em direção à saída. O grupo chega ao pátio aberto antes do portão de entrada, atravessando o piso de cimento com capim crescendo nas juntas. Então algo se solta da mochila de Joseph. Parando para recuperar o item perdido, ele se agacha e procura o objeto, agora escondido entre a vegetação alta. Ninguém percebe que o filósofo fica para trás, o grupo corre para a rua e o deixa ali sozinho.
O professor e o grupo correm pela rua. Marisa segura firmemente a mão de sua filha e corre desesperadamente, o trauma dos mercadores nunca a deixará em paz. Timothy olha para trás, algo o incomoda e ele pergunta:
- Onde está Joseph?
Nisso, todos notam sua ausência.
Ainda revirando o capim com suas mãos, ele finalmente encontra o que perdeu. É uma lata de salsicha em conserva, uma das poucas que ele viu durante esse tempo em que esteve peregrinando nas ruínas. Joseph se alegra e respira fundo, observando a raríssima lata em sua mão. Seus olhos leem a validade, pela data parece que o produto venceu faz tempo, mas nem ele nem ninguém se importa com o vencimento. Naquele novo mundo devastado, as pessoas comem tudo o que encontram. Semelhante a ratos, eles não se importam se o alimento está no chão, no lixo ou nos bolsos de um cadáver.  
Preparando-se para correr e alcançar o grupo, ele dá dois passos quando ouve os sons de armas sendo carregadas atrás dele.
- Parado!
Seu corpo se petrifica. Arregalando os olhos, ele sente seu coração disparar. Suor escorre de sua testa.
- Ponha as mãos para cima e vire-se lentamente!
O filósofo se vira, ainda segurando a lata de salsichas. Ele se depara com os mercadores, vendo-os parados na porta de entrada e outros sobre o telhado. Bela estratégia, bela formação de ataque, um movimento brusco e Joseph terá mais buracos que um queijo suíço.
Os mercadores apontam suas armas, encarando-o com olhares frios e cruéis. O filósofo sente que a própria Gestapo está parada ali, capturando mais um preso político para o campo de concentração. Mas se todo o horror que a jornalista testemunhou for real, ele preferiria ser capturado pela polícia secreta nazista do que pelos mercadores.
Um deles se aproxima, apontando seu rifle de assalto M4 para o seu rosto. As poderosas armas que antes poucas pessoas tinham agora estavam nas mãos de todo o tipo de assassinos. O mercador revista sua mochila, retirando as garrafas de água e suas roupas limpas. Após distribuir suas coisas aos seus companheiros, um outro homem de sobretudo aparece atrás deles e se aproxima. É o suposto líder que ele viu anteriormente.
- O que está fazendo aqui, rapaz?
O mercador é um homem alto, de olhos azuis, com pouca barba e sobrancelha quase nula. Há tatuagens em seu rosto e embaixo do capuz Joseph consegue enxergar seus cabelos castanhos.
- Sou apenas um peregrino.
- Qual é o seu nome, peregrino?
- Joseph Dawson.
- E para onde você vai?
- Para lugar nenhum... Bem, é o que eu faço, eu peregrino pelas cidades em busca de água, comida e abrigo. Só estou tentando sobreviver.
O mercador sorri.
- Ah, você é um sobrevivente? – ele o analisa da cabeça aos pés, notando sua baixa estatura e aparência franzina – O que você fazia antes das ogivas nucleares caírem?
- Eu lecionava filosofia.
O mercador sorri novamente, se surpreendendo.
- Filosofia...? Então você é um filósofo! – responde ele, rindo para seus companheiros – Com certeza você é um daqueles tipos inteligentes, estudados, com boa instrução e amplo conhecimento. É interessante que alguém goste de algo tão complexo... E também acho que isso explica seu tamanho minúsculo e seus bracinhos finos. Alguém tão fraco tem que fazer algo para compensar sua fraqueza, não é mesmo?
Joseph se sente insultado.
 - Acho que sim.
- Vou lhe dizer uma coisa, senhor filósofo. – o mercador se aproxima, encarando-o de cima e fazendo Joseph erguer sua cabeça para fitá-lo nos olhos – Eu sempre odiei filosofia.
O mercador que o saqueou olha para as mãos de Joseph e vê a lata de salsicha em conserva.
- Ei, Archer. O filósofo tem algo em sua mão.
- O que é isso que você tem aí? – Joseph reluta em responder, ele está faminto e a comida enlatada é a única coisa que lhe resta – Dê isso a mim.
O tal Archer toma a lata de sua mão e observa o rótulo. “Salsicha em conserva” lê ele. O líder fala aos seus companheiros o quanto é raro encontrar uma lata daquela e ponderam o preço que cobrarão ao revendê-la. O filósofo o interrompe.
- Por favor, senhor. Eu estou faminto e este é o meu último alimento. Se tirar isso de mim não terei o que comer.
O líder mostra-se compreensivo e então pergunta:
- Como você se chama mesmo? Joseph...?
- Sim, senhor.
- Você quer sua salsicha enlatada?
- Quero.
- Vamos filosofar a respeito desta situação. Se eu te der a lata, você comerá e saciará sua fome, recompondo suas energias e prosseguindo em sua peregrinação. Se eu não te devolver a lata, eu e meus companheiros a venderemos e teremos um lucro exorbitante do preço que cobrarmos. Cá entre nós, salsicha em conserva é uma raridade nestas ruínas cinzentas e deprimentes, ou você viu alguma fábrica de alimentos ainda funcionando por aí? É claro, eu entendo que você está faminto, mas se você matar sua fome, como que eu vou lucrar? – ele pausa por um instante e então pergunta – É um assunto bem incômodo para nós dois, não é mesmo?
- Mas senhor...
- Além do mais – interrompe ele – Você não me parece tão faminto assim. Alguém tão pequeno come bem menos do que eu e meus companheiros, todos mais altos e mais fortes do que você. Creio que você aguenta ficar sem comida por mais tempo. Olhe para nós, se ficarmos sem comida não sobreviveremos outro dia. Você não tem pena de nós?
E então os mercadores riem da piada de Archer.
- Eu compreendo, mas há muita escassez de comida e vocês devem ter muitos outros alimentos em suas caravanas de mercadorias...
- Oh, eu me esqueci disso... Você, senhor filósofo, é nossa mercadoria agora.
Os mercadores riem novamente. Joseph se apavora, as palavras do líder foram sua sentença. O filósofo se tornará mais um escravo à venda nas mãos deles, igual aos cativos no ginásio. 
- Por favor...
- Pegue sua lata de salsicha de volta. – o líder estende sua mão e lhe oferece a lata.
Joseph ia pegar quando Archer ergue seu braço, deixando-a além de seu alcance. O filósofo tenta pegá-la quando o líder a joga para outro mercador. Correndo até o outro, o mercador a joga para mais outro mercador. Ao tentar pegar do outro homem, a lata é jogada novamente. E assim Joseph fica no meio deles, sendo feito de bobo, entretendo-os com sua postura fraca e patética.
Como uma criança mais nova que tem seu lanche roubado por meninos mais altos das séries superiores, o filósofo tenta obstinadamente recuperar sua comida. Nada mudou afinal, nem a infantilidade dos homens mais fortes para com os mais fracos. Novamente Joseph sofre bullying, e por uma cruel coincidência, ele está novamente dentro de uma escola. Não bastou a vida tê-lo oprimido dentro de sua própria casa, mas na escola também, influenciando-o em seu crescimento. É isso o que o destino o reservou para a vida adulta? Mais um período de sua existência sofrendo abusos constantes de pessoas ignorantes, porém mais fortes do que ele? Isto é justiça? Por acaso existe este conceito estúpido de justiça e castigo para os malvados? Eles “pagarão” por seus abusos ou seus atos opressivos servirão de degraus em sua ascensão para o sucesso? É isto o que os fracos são, a sustentação dos pés dos mais fortes?
Interrompendo a degradante brincadeira, o líder diz:
- Você não devia ter roubado de alguém essa lata, filósofo. As pessoas se esquecem do pai que morreu, mas não de um bem que lhes foi roubado. Tem gente que está bem zangada com você no meu cativeiro.
 Joseph não entende.
- O quê?
- Tudo o que tinha com você foi roubado, não foi? Ou você comprou honestamente em uma liquidação no centro da cidade?
- Do que está falando?
- E depois nós somos os ladrões... Você logo saberá do que eu estou falando. – o líder se vira para os seus companheiros e ordena – Vamos voltar!
Os mercadores amarram seus pulsos e então o escoltam de volta pela escola abandonada.
Caminhando pelos corredores vazios, eles passam pelas salas de aula, pelo refeitório e finalmente chegam ao ginásio. Joseph vê os cativos sentados no chão da quadra. A caravana está ali, abarrotadas de equipamentos, ferramentas e principalmente alimentos. “Malditos porcos gananciosos!” pensa ele.
O mercador o empurra com a arma, ajuntando-o entre os demais cativos. Eles olham para o mais novo integrante, outro desafortunado que foi capturado por mercadores escravistas. Joseph se senta entre eles e os olha de volta, são todos peregrinos da cidade, com suas roupas velhas, barba comprida e cabelos desarrumados. As mulheres cobrem seus rostos com as roupas, elas estão assustadas, com olhares tensos e tristes. Elas já suspeitam o que pode acontecer com os seus corpos agora que foram capturadas.
Três cativos encaram Joseph fixamente. Eles não fazem aquela expressão de surpresa ou lamentação, ao invés disso eles o encaram com olhares frios e sérios. Joseph se intriga e os observa também. No meio deles há uma mulher mais velha, com cabelos negros e grisalhos sob seu lenço. Ao seu lado direito há uma mulher magra e de cabelos castanhos, com sarda no rosto, talvez sua filha. Ao seu lado esquerdo há um homem de cabelos negros, sobrancelha fina e barba um pouco comprida. Joseph os reconhece, mas... não pode ser!
Aproximando-se, ele os enxerga de perto e então diz:
- Mãe...?
A senhora e seus filhos o encaram de volta com indiferença, um pouco incomodados e talvez com desprezo. A senhora esboça surpresa e alegria, tentando responder com animação:
- Meu filho! Você está vivo!
Olhando para a mulher e o homem, o filósofo reconhece seus irmãos.
- Cythia? James?
Se Joseph estivesse com os braços desamarrados ele os abraçaria, mas sua mãe e seus não mexem um músculo para abraça-lo.
- Olá, Joseph. Então você sobreviveu, não é? – pergunta sua irmã, com olhar desdenhoso, mas se esforçando para ser amigável.
- Sim!
- Como?
- Eu construí um abrigo no porão de minha casa e estoquei água e comida para várias semanas. Quando o estoque se esgotou eu tive que sair e tentar sobreviver nas ruínas. – ao mencionar como ele sobreviveu, os três o encaram com ódio e rancor – E vocês? Como escaparam das explosões nucleares?
- Fomos para os abrigos coletivos! – responde seu irmão, rispidamente – Dividimos um compartimento subterrâneo com quatrocentas pessoas, sendo projetado para apenas cento e cinquenta. Nenhum de nós teve o privilégio de construir um abrigo particular.
Joseph se recusa a interpretar aquilo como provocação e continua a conversa.
- E o pai? Onde ele está?
- Morto. – responde sua irmã – A superlotação do abrigo forçou muitos a se mudarem para as estações de metrô. As pessoas disputavam espaços na plataforma para armarem suas barracas, e alguém esfaqueou nosso pai para tomar o seu lugar. Nós encontramos o corpo jogado entre os trilhos.
O filósofo fica consternado. Apesar de seu pai ser um velho hipócrita, intransigente, manipulador e egoísta, ainda assim era o seu pai.
- Como foram capturados?
- Nós vivíamos nessa estação de metrô durante esses dois anos. Muitos adoeceram devido a radiação e a maioria foi embora para procurar abrigos mais seguros. Mas nós não tínhamos para onde ir. Uma semana atrás os mercadores invadiram a estação e capturaram todos que ainda estavam lá acampados. Alguns foram baleados e mortos, mas eles nos capturaram, levando-nos até aqui – responde sua irmã.
- Sinto muito.
Seu irmão então diz:
- Pois é, Joseph. Nós sobrevivemos. E não tivemos que deixar nossa família para trás.
- Do que está falando? Eu não deixei ninguém para trás!
- Eu não disse o seu nome. Aliás, certas pessoas se acham superioras demais para ficar com uma família de pobres e ignorantes. E se algum de nós fosse bem-sucedido e ganhasse bastante dinheiro, com certeza compartilharia com a família, por que é isso o que uma família faz, ajuda um ao outro, se une. Mas nem todos pensam assim, são egoístas e soberbos que buscam a vanglória, a vantagem pessoal e a desunião.
- Mas James, foram vocês que... – o filósofo hesita, ele ia concluir dizendo “foram vocês que me abandonaram” mas prefere a reconciliação desta vez, pensando que o reencontro é uma nova chance de se aproximar e apagar as mágoas do passado. Apesar do dano causado em seu emocional, Joseph ainda é carente de afeição.
  Seu irmão interpreta o silêncio como consentimento e culpa. E então ele se aproveita da fraqueza de Joseph para dizer:
- Enquanto você dava entrevistas, tirava fotos, dava palestras e viajava para o exterior, ganhando uma montanha de dinheiro, nós tivemos que sustentar nossa família trabalhando aos domingos e feriados. Enquanto você vivia sozinho em uma casa espaçosa e cheia de luxos, nós ficamos na casa de nossa mãe nos apertando para nos acomodar, vivendo sem nenhuma privacidade. Você dirigia seus carros luxuosos e nós andávamos de ônibus e metrô. Muitas vezes nossa mãe chorava ao saber que tinha um filho tão egoísta como você.
- Entenda, eu também estava trabalhando!
- Trabalhando...?! – pergunta ele, com sarcasmo – Desde quando escrever livros é trabalho de homem? Ah, já sei. Ter capacidade de estudar e escrever livros é demais para uma família de ignorantes como nós, por isso você nos deixou. Olhe para você! Um homem pequeno e depressivo que se acha muito inteligente. Você não nasceu para ser inteligente, não pertence a você ser inteligente, muito menos estudar! Se eu fosse você eu cairia na real e conseguiria um emprego, um de homem de verdade.
Joseph se sente mal. James percebe o quanto suas palavras cínicas e invejosas o abalam, e então ele ri por dentro, sabendo que ainda tem poder sobre seu irmão mais novo. Sua mãe olha para ele através das lentes grossas de seus óculos e não diz nada, concordando com o que seu irmão disse.
Mas Joseph passou muito tempo sozinho. A solidão no natal, no réveillon, nos aniversários, na páscoa, na ação de graças e em qualquer outro feriado que se comemora em família ele passou sozinho. Era doloroso ver seus amigos terem uma família para compartilhar suas vidas e ele não ter ninguém além de sua TV, seu cachorro e a internet. Ele estava disposto a apagar o passado e se reconciliar com o que eles, nem que tenha de ignorar e esquecer o desprezo de seu irmão e de sua mãe.
O mercador chama a atenção dos cativos e diz:
- Levantem-se! Nós estamos partindo.
Os mercadores levantam a porta de enrolar e tocam os bois para fora, puxando a caravana. Os cativos são amarrados pelos pulsos e puxados por uma corrente presa na traseira da caravana. E assim eles deixam o ginásio da escola, passando pelo estacionamento onde vários ônibus escolares enferrujam com o tempo.

§

Escondidos em frente à escola, o grupo do professor observa a caravana dos mercadores passar ao longe com seus cativos. Ele pergunta à jornalista:
- São esses os mercadores que você falou?
Marisa analisa minuciosamente e então responde:
- Não. Eles se vestem parecido mas não são os mesmos.
O médico o chama.
- Está vendo o quarto homem na fileira de cativos? É Joseph.
Reconhecendo-o, o professor se entristece. O filósofo não teve tempo de fugir e foi capturado pelos mercadores.
- O que faremos, Harold? – pergunta ele.
O médico não sabe o que responder. Da última vez em que foram ao resgate de alguém, a juíza foi capturada, trancada e estuprada em grupo. E seu filho de apenas dez anos foi assassinado e devorado por saqueadores. Harold percebe a preocupação do professor, os dois não sabem o que esperar quando alcançarem o filósofo e qual o tipo de horror eles testemunharão em seguida.
- Eu não sei, mas se você quiser resgatá-lo, eu irei com você.
Joseph conhecia as regras. O grupo deveria se esconder sempre e nunca pôr em risco os demais integrantes. Se por uma infelicidade algum deles fosse capturado, não deveria esperar por socorro. Parece uma regra cruel, mas o que podiam fazer? Toda a lei e ordem se converteram em violência e insanidade, eles não tinham escolha a não ser se adaptarem às novas condições de sobrevivência, nem que tivessem que deixar algumas pessoas para trás.
O professor sente-se zonzo. Se sentando em um dos bancos apodrecidos, o médico pergunta:
- Timothy, você está bem?
- Sim, não se preocupe. – ele sacode o atordoamento de sua cabeça e diz – Vamos segui-los para saber aonde os mercadores irão. Talvez lá haja uma chance de resgatá-lo. 

§

Três dias se passam desde sua captura. Os mercadores caminham pelas ruínas durante o dia e à noite acampam nos prédios abandonados. Sempre ao lado de sua mãe e irmãos, o filósofo passa o tempo conversando com eles, perguntando o que houve, como sobreviveram e se há outros membros da família vivos por aí.
Os outros cativos são peregrinos aleatórios das ruínas. São homens solitários, remanescentes de famílias, amigos casuais, homens e mulheres que estavam em grupos e tiveram o azar de serem capturados como Joseph. Há algumas jovens também, adolescentes que acompanhavam suas mães pelas ruas desertas e contaminadas.
Durante a tarde do terceiro dia, os mercadores param debaixo da marquise de um alto edifício, antigamente um luxuoso hotel da cidade. Eles conversam com suas armas empunhadas enquanto vigiam as ruas. Um deles pega um pano e tira a poeira das mercadorias na caravana, deixando-as mais atraentes. Os mercadores parecem estar esperando alguém.
De repente alguém aparece na esquina das ruas. O desconhecido passa pelos carros e sobe pelo amontoado de entulho no asfalto. Enquanto está parado ali, mais vinte homens surgem ao seu lado e observam também. Os mercadores prendem uma capa vermelha em um pedaço de pau e a hasteiam, comunicando-se com eles. Entendendo o sinal, os desconhecidos caminham entre os carros tombados e se aproximam.
Joseph consegue ver em detalhes aqueles homens. Eles vestem calças rasgadas, botas, coletes de couro, casacos de pele, lenços e capacetes em suas cabeças. Também vestem ombreiras, correntes nos pulsos, no pescoço e seus cabelos são longos. Ao chegarem mais perto, ele vê tatuagens em seus braços, barbas compridas e alguns usam óculos escuros. Em suas mãos vestidas com luvas, eles portam tacos de baseball, machados e barras de aço. “É uma gangue de motoqueiros?” pensa ele.
Archer se aproxima de um deles e o cumprimenta.
- Olá, Fenrir. Como está Vinland?
“Vinland?!” pensa Joseph. “Essa não é uma palavra viking?”.
- Os homens estão entediados e querem sair para conquistar, pilhar e queimar. Preciso de algo para saciá-los antes que se destruam. Você tem escravos?
- Mas é claro! O quanto você quiser.
Os dois negociam e os demais “motoqueiros” observam os cativos, lançando olhares cruéis aos homens e pervertidos às mulheres. Joseph vê tatuagens cobrirem seus corpos, subindo de seus peitos até seus pescoços. Alguns têm cabelos trançados e outros usam elmos cônicos. Sob seus casacos o filósofo vê uma camisa com o desenho de uma drakkar, o icônico barco viking.
Fica claro o que aqueles homens são. Vestindo-se como motoqueiros e vikings, eles espreitam as ruínas a procura de peregrinos solitários e grupos indefesos. Eles vivem da caça, do que conseguem obter a força dos mais fracos. São predadores, a escória do novo mundo, que estupra, mata e escraviza aqueles que lutam diariamente para sobreviver. São destruidores, devorando a esperança dos otimistas quando todo o resto se perde nas ruínas do novo dia. Sem sombra de dúvida, estes homens cruéis que os observam como se fossem ratos são definitivamente Saqueadores.
Fenrir retira de sua bolsa um punhado de balas e as entrega a Archer. Arregalando os olhos, o líder dos mercadores vê ouro em suas mãos, a munição fundamental para suas armas uma vez que só os mercadores as portam. Munição é rara nas ruínas. Os estoques devem estar enterrados sob toneladas e toneladas de entulho nas cidades. Encontrá-las é uma tremenda sorte.
Ao dar a ordem, os mercadores lhes entregam todos os cativos, como se homens e mulheres fossem mera mercadoria, carga viva na caçamba de um caminhão. Treze pessoas no total, treze seres humanos.
Onde estaria o respeito aos Direitos Humanos agora? O direito à liberdade e à vida? O que a sociedade pré-guerra nuclear lutou durante séculos para vigorar hoje é ignorado e esquecido. Hoje não há mais restrição ao uso da força. “O direito da força não pode superar a força do direito”. Por acaso o visionário que propôs este ideal foi estúpido o bastante para acreditar que ele duraria para sempre?
Acorrentados pelos pulsos, os cativos são levados por seus novos “senhores”, temendo imaginar o que acontecerá com eles agora que são escravos dos mais sádicos homens que existem.

§

Joseph e os outros escravos chegam ao esconderijo dos saqueadores. Eles veem um parque de diversões abandonado, com brinquedos enferrujados, barracas de jogos vazias e saqueadas e fantasias de personagens jogadas no chão. Pelo local há máquinas enferrujadas, cestos de lixo virados e detritos por toda parte. Há um circo no parque, mas grande parte da lona foi cortada e reutilizada para fazer abrigos para os saqueadores. A roda gigante, os carrinhos de bate-bate, a montanha-russa e o carrossel estão lá, mas ao invés de animar o ambiente com suas cores alegres e divertidas, deprimem ainda mais os recém-chegados com a lenta deterioração, o desgaste e o abandono.
Avançando pelo parque, eles veem uma cerca de barras de ferro ao redor de outro brinquedo. O filósofo reconhece um barco viking e acima há um letreiro feito de lâmpadas azuis escrito “Vinland”. Na entrada estão as sentinelas, vestindo capas, casacos de pele e até elmos com chifres, como se não apenas estivessem personalizando os guerreiros vikings, mas acreditando realmente sê-los.
Passando por eles, o filósofo os ouve se chamarem de nomes nórdicos, alguns históricos e mitológicos, como o líder deles, “Fenrir”. “Inclusive adotaram pseudônimos nórdicos!” pensa ele. Os saqueadores os recebem com risos e insultos, visivelmente bêbados. Há machados e espadas rústicas em suas cinturas, provavelmente feitas com barras de aço afiadas com o uso de esmeril. Alguns seguram copos feitos de chifres de plástico, imitando os antigos copos de chifres de verdade.
“Loucos!” pensa o filósofo. “Esses motoqueiros vagabundos e fracassados pensam que são vikings! Estão loucos!”. Joseph e os outros são levados para uma jaula onde antigamente mantinham os animais selvagens. Os saqueadores estão animados, eles gritam e riem de euforia no lado de fora, exibindo seus dentes podres e amarelados. Um deles grita pedindo por hidromel, mas na verdade se tratava de simples cerveja.
O filósofo se surpreende com tamanha insanidade. Talvez não se tratasse de motoqueiros obcecados pela cultura nórdica, mas de um bando de loucos que fugiram do hospício. Assim como os detentos libertos que escaparam da cadeia e capturaram a juíza Susan Bradley, estes ex-internos fugiram de um hospício e entraram em um delírio irracional ao se depararem com um barco viking no parque de diversões. Não há explicação lógica, eles se comportam, falam e pensam como vikings, estando completamente fora da realidade.
Um deles se aproxima da jaula e chama seu companheiro:
- Ei, Olaf! Você viu a cara desses novos escravos? Parecem aqueles vermes de Miklagaard!
- Pelo grande Odin! Faremos um favor a Hel mandando-os para o Niflheim!
Então Fenrir aparece entre eles e ordena:
- Separem as mulheres! Devemos agradecer ao grande Baldur pela fartura de escravas! Que comece a orgia!
Os saqueadores abrem a porta da jaula e as mulheres se arrastam para os fundos, espremendo-se contras as barras. A irmã de Joseph se agarra à sua mãe e tenta protegê-la. Seu irmão as defende também, mas é golpeado no rosto por um bastão, desmaiando em seguida. O filósofo assiste sua mãe e sua irmã serem puxadas pelas roupas e pelos cabelos para fora da jaula, gritando e esperneando inutilmente.
- Cynthia! – grita ele.
Eles pegam as outras mulheres e as tiram da jaula. Os saqueadores trazem outras mulheres que já estavam no esconderijo também. As meninas adolescentes choram de desespero e parecem entrar em um estado de choque. Enquanto a violência e o pavor tomam o ambiente, os saqueadores gargalham e se embebedam com o suposto “hidromel”.
A festa se organiza. Com a chegada da noite eles acendem tochas e outros começam a tocar flautas, violões e tambores. No começo a música faz algum sentido, mas logo torna-se desarmônica e inaudível devido a bebedeira. As mulheres choram constantemente, as mais valentes resistem e as histéricas gritam, mas nada é capaz de interromper aquele violento ímpeto sexual dos homens.
Enquanto tenta reacordar seu irmão, Joseph assiste sua mãe e sua irmã serem despidas a força. Eles deixam todas as mulheres nuas e disputam entre si quem vai experimenta-las primeiro. Como gato e rato, os homens correm atrás delas ao redor do barco viking. Por estarem completamente bêbados, eles se divertem em caçar suas presas indefesas com suas calças abaixadas e seus copos em formato de chifre nas mãos.
James acorda e sente o sangue escorrer de um corte horrível em sua sobrancelha. A terrível orgia ocorre no lado de fora da jaula, com os homens segurando as mulheres violentamente. Cynthia e sua mãe estão lá também, deitadas nuas sobre o chão empoeirado. Seu irmão vê aquela cena e se abala, sussurrando algo com as mãos nos olhos:
- De novo não...
Joseph se intriga.
- De novo? O que quer dizer?
- Cynthia... Após sermos capturados pelos mercadores, eles a estupraram também. Nossa mãe foi poupada, a acharam muito velha, mas olhe para ela agora!
Apesar de ser algo terrível, Joseph não consegue se sentir consternado. Sua irmá mais velha sempre teve fama de vadia. Aos quatorze anos já dormia na casa de seus namorados, o que ele achava repugnante. Tamanha precocidade não lhe rendeu o que queria? Sexo e mais sexo com vários homens diferentes?
Os saqueadores estão excitados como cães e o excesso de álcool apenas estimulou suas libidos. Joseph ouviu o que aconteceu com a jornalista, a juíza e seu filho, e apesar de relutar para ouvir os detalhes, ele jamais pensou que testemunharia cenas aterradoras de estupro diante de seus olhos. O que as mulheres sobreviventes estão sujeitas a sofrer nas ruínas é severo demais! Ninguém que passa por isso suportaria ficar vivo depois.
Uma hora depois o líder ordena que a orgia termine. Os saqueadores que não estão bêbados demais carregam as esgotadas mulheres de volta à jaula. Cynthia e sua mãe são recebidas pelo filósofo e seu irmão. As duas estão nuas e os irmãos retiram seus casacos para cobri-las. O cheiro de cerveja, suor e saliva em seus corpos é nauseante.
No lado de fora da jaula, uma das mulheres está inconsciente no chão. Um dos saqueadores está parado ao lado dela com sangue em seus punhos. Os outros estranham e se aproximam para ver o que aconteceu. Eles veem o rosto da mulher todo espancado, o sangue vermelho, escuro e grosso escorrendo de suas feridas e cortes horríveis em seus lábios, sobrancelhas e testa. Erguendo a cabeça da mulher, eles veem outra ferida em sua nuca, ela sofreu traumatismo craniano. Olhando para o homem parado ali, o líder pergunta:
- Eldgrim! O que você fez?!
Ao ver seus punhos sujos de sangue, o líder se levanta enfurecido.
- Foi um acidente. – responde o saqueador – Ela não quis fazer o que eu mandei.
Eldgrim é um homem gordo, coberto de tatuagens, com barba comprida e cabeça raspada. Ele veste um colete de couro, luvas e botas, o estereótipo ideal de um motoqueiro criminoso que passou anos na prisão.
Outro saqueador vê a mulher espancada no chão e vocifera de ódio:
- É uma das garotas!
Fenrir reconhece uma das adolescentes. A menina aparentava ter menos de dezessete anos, mas depois do espancamento está totalmente desfigurada. O líder se ira, não acreditando que uma de suas melhores aquisições foi desperdiçada devido ao transtorno sexual violento de um de seus homens. Ele olha para Eldgrim e diz:
- Você sabe quanto custa uma escrava jovem?!
O saqueador tenta se explicar, mas o líder ordena que seus homens o arrastem para outro local nos fundos do parque. Os escravos ouvem os gritos e súplicas de Eldgrim ao longe, e os insultos e xingamentos de seus companheiros também.
E assim termina a orgia em Vinland, com violência, ameaça e terror do mesmo jeito que começou.

§

No dia seguinte Fenrir se aproxima da jaula e encara seus escravos. Os cativos estão famintos, fracos e sedentos. Enquanto os saqueadores dormiam aquecidos nas barracas durante a noite, os escravos se abraçavam para combater o frio. O líder analisa os homens e então discursa:
- Nós, da tribo de Vinland, temos um desafio aos homens. Os escravos deverão combater na arena em duelos sangrentos até a morte. O escravo que derrotar seus oponentes e sobreviver será libertado da escravidão, sendo-lhe concedido o título de Berserk, o impetuoso e feroz guerreiro nórdico. Os bravos escravos que morrerem em combate serão recebidos solenemente em Valhala como Einherjar pelo grande Odin. Mas aqueles que se acovardarem diante do duelo serão esmagados pelo martelo Mjolnir de Thor e lançados nas profundezas do palácio da vergonha em Niflheim. Todos serão bem alimentados antes do combate, mas apenas um deverá sair vivo da arena. Esta é a única regra: sobreviver.
O líder dá as costas e então cinco saqueadores abrem a jaula e separam os homens. Joseph nota que seu irmão está tossindo muito e sua mãe o abraça, cuidando dele com um carinho que o filósofo jamais teve. Ela passa a mão em sua cabeça quando chumaços de cabelo se prendem em seus dedos. Sua irmã vê aquilo e diz:
- James, seus cabelos estão caindo!
Ao por a mão em sua testa, Cynthia constata seu estado febril. As duas se entreolham, febre e queda de cabelos só podem indicar uma coisa: James foi contaminado pela radiação. Joseph vê seu irmão adoecer e se entristece ao saber que os peregrinos são constantemente contaminados pela radiação enquanto assassinos doentios como os saqueadores estão sempre saudáveis. Mais uma vez a vida se mostrava injusta.
Os homens são levados pelo parque até o refeitório. Ali eles são alimentados com comida de péssimo sabor, mas mesmo assim eles comem vorazmente. Os saqueadores lhe dão água, um líquido sujo com resíduos estranhos, e eles bebem sem pensar duas vezes. Joseph conta os escravos, oito no total. São homens aparentemente com mais de quarenta anos, com semblante melancólico, indiferente e sem esperanças. James está sentado ao seu lado, comendo, bebendo e se esforçando para manter-se acordado, suas pálpebras parecem pesar em seus olhos doentes.
Então Olaf entra no refeitório e informa a um dos saqueadores:
- Harald, o jarl ordenou que vocês levem os escravos para a arena.
Os escravos ficam em pé e são escoltados para a arena. Ao chegarem eles veem mais um local grotesco marcado pela crueldade. No meio do circo abandonado o picadeiro é a suposta arena improvisada. Espalhados pelo picadeiro, há lanças com cabeças espetadas nas pontas, provavelmente dos “guerreiros” derrotados. O chão empoeirado tem marcas escuras de sangue derramado, o que lhes causam repulsão. Eles também veem esqueletos de animais selvagens no chão, pelo tamanho algum animal bem grande foi morto ali, talvez um elefante ou um leão. Acima, onde antes ficavam as cordas dos acrobatas, eles veem o cadáver enforcado de Eldgrim, com seus pés mutilados e poeira nas feridas. Os saqueadores deceparam seus pés e o forçaram a caminhar até o local de sua morte.
Ao redor as arquibancadas estão repletas de saqueadores e eles gritam ao vê-los chegando. Aqueles homens altos, barbudos e corpulentos veem na dor e no sofrimento alheio um espetáculo máximo de entretenimento. Esta é a diversão dos assassinos, a aflição da brutalidade e da morte.
Fenrir discursa à sua plateia de maníacos e psicopatas:
- Vamos começar o primeiro duelo! Sortearemos os dois nomes que inaugurarão a arena de Thor! Quem destes patéticos escravos receberá a honraria de ser o novo Berserk?
“O novo Berserk?” pensa Joseph. Intrigado, ele pensa se realmente a promessa é verdadeira. O que aconteceu com o último? Será que realmente foi libertado?
Os saqueadores obrigam os escravos a escreverem seus nomes em pedaços de papel. Eles levam os nomes ao líder, Fenrir os sacode em suas mãos e então os atira para o alto. Pegando aleatoriamente dois pedaços do chão, ele lê os nomes em voz alta. Ao declarar os primeiros gladiadores, ele diz:
- Estes serão os primeiros a alimentar a grande serpente Jormungand com seu sangue!
Para a sorte de Joseph e seu irmão, nenhum dos dois foi escolhido. Fenrir caminha para seu trono no alto da arquibancada, uma cadeira de madeiras velhas acolchoada com tecidos macios. Ao se sentar o filósofo vê as escravas aos seus pés, inclusive sua mãe e irmã, vestidas com roupas leves e sensuais.
Os escolhidos choram e relutam caminhar ao centro do picadeiro. Os saqueadores os arrastam, tiram a parte superior de suas roupas, em seguida lhes dão machados improvisados e escudos feitos de porta de carros. Desequilibrando-se com as pesadas armas em suas mãos, os escravos se assustam ao ouvir o líder autorizar o início do combate. Agora aquela insanidade só acabaria com a morte.
Os dois não se movem, estão paralisados de medo. Harald, o saqueador agindo como juiz, faz ameaças terríveis se eles não duelarem. Um dos escravos se apavora com suas palavras e toma a iniciativa, golpeando seu oponente com o machado. O impacto é contido por seu escudo, abrindo um rasgo na chapa metálica. A plateia se anima. O homem continua atacando e então seu oponente larga o escudo, exausto pelo peso. Ele tenta defender os ataques com o cabo do machado mas um dos golpes se desliza pelo aço e a lâmina toca seu rosto.
Caindo no chão, o mais fraco se encolhe com as mãos no rosto. O machado do agressor abriu um corte horrível do seu nariz até sua testa. Deitado na posição fetal e chorando como uma criança, o escravo mais agressivo sente seu coração se quebrantar em remorso. Harald se aproxima e diz:
- Acabe com ele.
A plateia está eufórica, todos pedem pela morte do escravo ferido no chão. Ainda de pé, o escravo hesita, assustado ao ver seu oponente em um estado tão deprimente. O saqueador o chama novamente e diz:
- Lembre-se do que te faremos se não me obedecer.
Arregalando os olhos de medo de novo, o escravo ergue seu machado, fecha seus olhos e então grita enquanto golpeia. A lâmina acerta as costelas de seu oponente, abrindo um corte profundo e fazendo o sangue fluir como um chafariz. Seu oponente faz um ruído aterrador, perdendo o fôlego em espasmos enquanto seus olhos arregalados perdem lentamente o brilho de vida. A plateia se silencia ao assistir o homem morrer ali, sufocando em seu próprio sangue como um porco em um matadouro. O escravo vitorioso solta seu machado e escudo, tremendo de desespero.
- O que foi que eu fiz...?
Fenrir se levanta de seu trono e grita:
- Temos um vencedor!
Então a plateia explode em euforia, levantando-se animada e quebrando aquele silêncio funéreo. Os saqueadores gritam várias vezes o nome do vencedor, condecorando-o enquanto ele se amaldiçoa.
Com uma serra enferrujada, Harald e mais dois saqueadores decepam a cabeça do perdedor, em seguida espetando-a em outra lança no picadeiro. A cabeça ainda está quente e seus olhos olham para o vazio, adornando a arena como se fosse um troféu. O vitorioso vê aquilo tudo como o mais hediondo ato na face da Terra, e ele era o principal causador de tamanha agonia. Joseph e os escravos estão boquiabertos. Como podem os saqueadores se alegrarem com tamanha carnificina?
O líder encerra o espetáculo. Harald e seus companheiros arrastam o cadáver para fora e os outros saqueadores deixam a arena. Os escravos então são levados de volta à jaula.  
Trancados como animais, os cativos assistem aos saqueadores se divertirem com as mulheres no lado de fora. Elas são abusadas constantemente enquanto varrem o chão e lavam as roupas, eles as tratam como domésticas e prostitutas. O líder determina que cada uma delas passará a noite em um alojamento diferente, alternando-as com o passar dos dias para que todos as “experimentem”.
Os homens na jaula lidam com o trauma de maneiras diferentes. O vencedor do primeiro combate está encolhido no canto da jaula, perturbado com a morte sangrenta de seu oponente. Em choque com o que o destino lhe reservou, ele se esconde em um estado catatônico, se perguntando a causa da terrível opressão sobre sua vida. Um dos escravos se aproxima dele e pergunta:
- O que o saqueador te disse na arena?
Saindo de seu transe, o vencedor sente-se confuso.
- O quê...?
- Você tremeu de medo. O que ele disse a vocês dois?
Com a inconveniente pergunta, Joseph interessa-se em saber também.
- Ele disse que se eu não lutasse ele cortaria meu pênis e faria de mim mais uma escrava sexual deles.
Com a resposta, todos os homens se horrorizam. Pesarosos, eles então ficam em silêncio.
James, o irmão do filósofo, parece piorar de repente. Sua mãe e sua irmã vêm vê-lo de vez em quando e parecem ignorar que Joseph está ao seu lado, também correndo o mesmo risco de morte naquela arena maldita.

§

No dia seguinte, os saqueadores os alimentam no refeitório e os levam de volta à arena. Com o mesmo procedimento, eles escrevem seus nomes em pedaços de papel e o líder os atira no ar, escolhendo dois ao caírem no chão. Joseph tem sorte novamente e não é escolhido.
Dois escravos lutam na arena. Apesar de relutarem no começo, não há outra saída senão a morte e ambos atacam um ao outro. O pesado machado de um deles passa sobre o escudo e atinge o ombro do oponente, fazendo-o cair e sagrar até morrer. Harald, o temível saqueador, decepa sua cabeça e a espeta em outra lança.
Depois daquele dia, Fenrir sorteia outros nomes e novamente Joseph tem sorte. Dois escravos duelam na arena até a morte. O machado de um deles golpeia a canela do oponente, o escravo cai no chão e agoniza, berrando de pavor ao ver seu pé pendurado pela pele. O golpe final é dado em seu peito, livrando-o de sua dor. O espetáculo termina e eles voltam à jaula. James está cada vez pior.
Chegado o momento do outro combate, o líder observa que sobraram mais cinco escravos para duelar. O resultado se aproxima. Lançando os papeis ao ar, Fenrir apanha dois deles no chão quando se intriga. Há algo errado ali.
- Há dois escravos chamados Joseph? É isto que eu estou vendo aqui?
O filósofo também se intriga. Harald observa os papeis. Apesar do mesmo nome, são caligrafias diferentes. Ao constatar a coincidência, os saqueadores descobrem o que aconteceu. Alguém está fraudando seu nome.  
- Quem é Joseph? – pergunta Fenrir.
O filósofo levanta sua mão. Os saqueadores perguntam os nomes dos outros escravos e ao serem confrontados, todos negam veementemente terem fraudado o sorteio. Todos menos um.
James está fraco, ele está quase careca e suas calças estão manchadas de fezes. Os sintomas da radiação estão mais fortes, a queda de cabelos, a febre e a diarreia minam suas forças, mas não o seu ódio. Os saqueadores percebem o desprezo em seu rosto e então o líder diz:
- Você fraudou o sorteio, seu cão sarnento, discípulo de Loki! Entrará na arena agora sem machado e sem escudo...
- Não! – grita alguém na plateia.
Todos olham para o trono de Fenrir. Duas escravas descem ao socorro de James. Joseph vê sua mãe e sua irmã pondo-se a frente dele, protegendo-o. Cynthia então diz:
- Não, por favor! Poupe a vida dele! Ele foi contaminado pela radiação e logo morrerá!
Os saqueadores barbudos à sua frente a encaram com olhares frios. Fenrir pergunta:
- Quem são vocês?
- Sou a irmã dele e essa é nossa mãe. Eu te imploro! Livre meu irmão deste espetáculo sangrento!
O líder não demonstra compaixão. Harald parece se enfurecer por dentro, contendo sua raiva na presença de Fenrir. Aquelas escravas interrompem o duelo com sua fraqueza e impotência dignas de quem não merece viver. O líder diz:
- Thor não tem misericórdia de covardes. Ele deve ser punido por fraudar o sorteio, seu sangue lhes servirá de exemplo.
- Eu te imploro! Escolha a outro mas poupe meu irmão!
- Seu irmão merece ser punido por tamanha desonra. Se eu não puni-lo, quem eu deverei punir?
Sem olhá-lo nos olhos, sua mãe e sua irmã respondem ao mesmo tempo apontando os dedos para o rosto de Joseph.
- Ele.
Joseph se surpreende, emudecendo-se em seguida.
- Mãe...?
Fenrir se intriga.
- Mãe? Você a chamou de mãe? – então inclusive a plateia se interessa pelo contratempo durante o duelo – Responda-me, escrava. Este homem é seu filho?
Sua mãe não responde, ao invés ela fica em silêncio com expressão de desprezo. Cynthia intervém e responde:
- Sim, ele é nosso irmão.
Os saqueadores gargalham.
- Você quer que seu próprio filho seja punido injustamente pela traição de seu outro filho? Que tipo de mãe é você?
Por alguma razão a plateia de assassinos se indigna com a atitude da mulher. Eles começam a pedir por sua morte.
“Execução! Execução!”.
Harald sussurra algo para o líder. Fenrir então diz:
- Seu filho Joseph irá duelar no lugar do irmão, como deseja. Mas se ele vencer, deixarei meus homens te matarem e arrancarem sua cabeça. Se ele perder, você vive. Esse será o castigo.
A plateia parece se contentar com a proposta de Fenrir.
Joseph então sente o dilema incomodar sua mente. Se ele vencer, sua mãe será decapitada como um troféu de caça. Se ele perder, a mesma mulher que o gerou, o rejeitou e que agora o entregou à morte será poupada do agonizante castigo. O que fazer? Lutar e vencer em um duelo sanguinário, sendo responsável pela morte de sua mãe, ou perder sua vida para que ela, uma mulher que o desprezou durante tantos anos, viva? Daria ele sua vida por amor de alguém que o detesta? Se sacrificando para que seu irmão hipócrita, sua irmã vadia e sua mãe leviana sobrevivam e sejam libertos da tribo de Vinland?
Os saqueadores clamam por sangue. Ao ver tamanha sede por violência, o filósofo se pergunta se os três um dia virão à sua cabeça decepada agradecer-lhe por salvar suas vidas. Ou eles nunca viriam, deixando o último pedaço de seu corpo apodrecer e se perder no esquecimento?
Quem diria que um bando de psicopatas insanos, obcecados pela cultura nórdica, lhe faria justiça, apesar do senso deturpado de justiça? Joseph não tem boas opções. Ou ele mata e sua mãe morre ou ele morre e sua mãe vive. Sem tempo para decidir se vale ou não a pena morrer, os saqueadores o empurram para dentro da arena.
O duelo está prestes a começar!
        



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