O
Filósofo
O
filósofo Joseph Dawson acompanha o grupo liderado pelo professor durante
semanas. Eles passam pelas ruínas das cidades em busca de comida, água e
abrigo, como gafanhotos migrando entre as plantações. A diferença é que se a
comparação virasse metáfora, as plantações seriam viveiros de pássaros
predadores.
O
filósofo nunca teve sorte na vida. Acepção é algo que ele nunca teve. O maior erro
de sua vida foi ter nascido e o segundo ter sobrevivido ao devastador
holocausto nuclear. Até para morrer ele era azarado. Quando a vida de miséria
se tornou uma luta constante pela sobrevivência, a morte se apartava dele. A
vida era sua condenação, sua penúria, a essência fundamental de sua dor quando
todas as pessoas ao redor já estavam em paz nos frios braços da morte.
Sempre
foi difícil ser o filósofo, um rapaz brilhante que desde cedo demonstrava
ambições, almejava conquistas e desenvolvia seus talentos e dons pessoais. Ele
tinha predisposição para a inteligência e o conhecimento, uma verdadeira paixão
pela sabedoria. Sem dúvida sua personalidade sobressaliente seria digna de
orgulho se não fosse um obstáculo infortúnio capaz de barrar sua indubitável
ascensão.
Crescendo
em uma família de ignorantes, Joseph viu desde cedo os paradigmas que tinha de
vencer. Ele adquiria conhecimento e cultura na escola, algo bom de se compartilhar
em casa. Mas como compartilhar isso com uma família de imorais, ignorantes e débeis?
Com o mesmo entusiasmo em falar vinha o fracasso em tentar. Sua família o
provocava, ignorava e zombava de seus interesses. Eles tentavam minar seus
talentos e vontades explorando constantemente seus defeitos.
Joseph
não podia esperar muito de sua família. Seu pai e mãe eram dois adúlteros, e
seus irmãos de mentalidade demasiada ignóbil e medíocre. Desde cedo ele começou
a rejeitar sua procedência, não podia acreditar que o sangue que corria em suas
veias era o mesmo daqueles animais.
Dizem
que o homem pode mudar o meio. “Isto é uma tremenda estupidez” pensa ele. Não
se pode mudá-lo quando o meio é mais forte. Mas quando o homem é mais forte,
não deve se desgastar mudando algo que não merece tal esforço. O que o homem,
forte ou fraco, deve fazer é partir, não olhar para trás e nunca mais voltar.
Joseph
começou a se trancar no isolamento, tentou entender como seres execráveis
podiam influenciá-lo tanto a ponto de fazê-lo desistir. Então é esse seu
destino? Se rebaixar ao seu nível ordinário? Ele deve se fundir às
características naturais de sua família com tudo o que há de pior no mundo?
Talvez o destino queira isso do filósofo, que ele seja igual.
Em
sua adolescência ele sentia os efeitos da sabotagem mental. Com seus pais
recusando-se a reconhece-lo e a se orgulharem de seus talentos, o filósofo
passou a desejar o reconhecimento de outros para se sentir bem. Como nunca
recebia apoio dentro de casa, ele procurava outros lugares para apoia-lo,
geralmente acabando em fracasso.
Nada
mudou com o tempo, o que aconteceu não é passado como os hipócritas dizem, e
não foi preciso virar adulto para perceber isso. Cansado da rejeição, ele
partiu para buscar seus sonhos. Ele finalmente se inscreveu em uma faculdade e
começou a estudar o que mais queria, Filosofia. Em quatro gerações de uma
família de baratas humanas, o filósofo foi o primeiro e único a entrar em uma
faculdade. Quando perguntado o que queria ser, ele respondeu “filósofo”. Com
muito desdém, seus familiares zombam dele dizendo: “e você vai se formar
nisso?!”. E depois disseram: “você
estudando em uma faculdade? Acho que você vai lá para limpar o banheiro...”.
“Ignorantes,
se vocês não usassem a boca para falar apenas palavrões, gírias e expressões engraçadinhas
e idiotas, saberiam que não é banheiro e sim sanitário”.
§
“Sanitário”
lembra-se ele. Ao olhar ao redor ele ri, o grupo do professor está escondido em
um sanitário. É o prédio de uma escola, há várias mesas e cadeiras espalhadas pelas
salas. O vento sopra pelos corredores escuros e o zunido os assusta. Além do
material eles ainda temem o sobrenatural, que patético.
O
médico e o professor estão na entrada do sanitário, eles conversam sobre o que
aconteceu com George e Susan. O filósofo se aproxima e ouve a conversa,
relembrando o triste destino que os dois tiveram nas mãos dos saqueadores.
Joseph ouve o médico falar um pouco de si, o que era raro uma vez que ele era
sempre discreto quanto ao seu passado. Ele veio do subúrbio, fugindo de uma
gangue de saqueadores, mas não dá muito detalhes. O professor respeita sua
discrição, pensando que ele ainda está muito traumatizado devido à sua perda.
O
filósofo diz:
-
Vou procurar um lugar para urinar.
-
Quer que eu vá com você? Pode ter mais alguém neste prédio. – pergunta o
professor.
-
Não, obrigado. Eu estarei bem.
Timothy
e Harold são grandes amigos e se preocupam com o bem-estar do grupo. Joseph
reconhece a amizade dos dois e se sente feliz por tê-los por perto para
ajudá-lo também. O filósofo nunca se sentiu amparado, aparentemente ninguém se
importava com ele, e após tantos anos sendo sua própria companhia ele se
acostumou a fazer tudo sozinho.
Introspectivo,
o filósofo criou o hábito de caminhar enquanto mergulhava em pensamentos.
Vestindo o capuz e colocando as mãos nos bolsos, ele sobe as escadas e caminha
silenciosamente pelos corredores vazios da escola, agora arruinada e desgastada
pelo tempo. Seus elegantes sapatos sociais, do qual ele pagou caro por ser de
uma conhecida grife, tocam o chão empoeirado e fazem ecos no corredor. Nos
corredores há as fileiras de armários, alguns enferrujados e com as portas
abertas. Joseph consegue ver alguns adesivos e fotos colados nas portas
metálicas, relembrando o tempo em que a escola estava cheia de alunos e eles
caminhavam tranquilamente por ali. Ele passa pelas antigas salas de aula, com
suas mesas tombadas e cadeiras viradas, e sente o cheiro peculiar do giz de
gesso, do giz de cera, da tinta nas paredes, da madeira envelhecida... As
cortinas balançam nas grandes janelas. O vidro está trincado, quebrado e
estilhaçado pelo chão, parte do assoalho se soltou e ele vê teias de aranha nos
cantos embolorados. A escola mudou tanto em tão pouco tempo.
Ao
passar por uma sala de aula, ele lê algo escrito na lousa. Alguém deixou uma
mensagem que diz:
“Meu
filho, a mamãe te perdeu de vista no abrigo. Se você se perdeu e veio para a
escola, saiba que eu estou te esperando com os teus irmãos no abrigo da Rua
Nove. A mamãe te ama muito e não vai se descuidar de novo. Eu prometo.”
Embaixo
da mensagem, Joseph lê o nome da mulher e de seu filho. A tal mãe escreveu a
mensagem dois anos atrás, quando os ataques devastaram os Estados Unidos. Ele
se entristece, após tanto tempo a mensagem está intacta como se ninguém tivesse
passado por ali. Enxugando as lágrimas dos olhos, ele deseja que o filho tenha
encontrado sua mãe e que ambos estejam bem.
Em
outra sala, ele vê as mesas arrumadas em círculos onde os grupos de amigos se
reuniam para fazer as atividades. Infelizmente Joseph nunca teve amigos, pelo
menos um que estivesse vivo. Suas amizades eram os filósofos, os teóricos, os
famosos nomes do passado do qual ele lia e estudava. E os estudos eram suas
brilhantes teorias que mudaram o mundo definitivamente. Joseph era habituado
com o niilismo de Nietzsche, o pessimismo de Schopenhauer, o idealismo
transcendental de Kant, o empirismo de Locke, o liberalismo econômico de Adam
Smith, o racionalismo de Descartes, a teoria das ideias de Platão, o
evolucionismo de Darwin, a linguagem de Wittgenstein... Como ele leu certa vez
em algum lugar, “os livros são a melhor forma de conversar com as grandes
mentes do passado”.
Ao
chegar ao refeitório, Joseph vê o vasto pátio tomado pelas folhas das árvores. As
mesas estão riscadas e pichadas, típico vandalismo de adolescentes, e há outras
pichações mais recentes de invasores que se abrigaram na escola antes. Dentro
da cozinha ele vê as panelas de alumínio jogadas no chão e os fogões
industriais enferrujados. A despensa foi completamente saqueada e há apenas as
estantes de aço acumulando poeira. Joseph sente nojo ao ver que alguém defecou
lá dentro.
Cruzando
o refeitório tomado pelo abandono, ele se dirige às quadras poliesportivas. Ao
se aproximar da porta dupla, ele ouve sons de pessoas ecoando pelo ginásio.
Esgueirando-se pelos cantos, ele sobe as escadas e se esconde na arquibancada. Seus
olhos se arregalam ao ver oito homens vestidos com sobretudos pretos, com capuz
em suas cabeças e armas em suas cinturas, vigiando doze pessoas sentadas no
chão. As pessoas vestem trapos velhos e sujos, e há uma corrente presa em seus
pulsos. Joseph vê uma carroça amarrada a bois, cheia de mercadorias e provisões
como água engarrafada e comida enlatada. Atrás da carroça há outro homem, ele
também veste preto e lhes dá ordens, aparentando ser o líder.
Joseph
sabe quem são. Marisa, a jornalista, falou muito deles depois que se juntou ao
grupo. O filósofo também os viu brevemente quando George, o maçom, foi
capturado por saqueadores. Os homens lá embaixo são Mercadores. Eles capturaram
aqueles peregrinos nas ruínas da cidade e os mantém cativos sob a mira de suas
armas. Os cativos estão sentados de cabeça baixa, lamentando e chorando. Um deles,
com seu rosto coberto pelos trapos encardidos, olha para a arquibancada e vê o
filósofo espionando-os, mas logo é interrompido pelo homem que o amarra pelos
pulsos.
O
filósofo está perplexo, ele deve avisar os outros. Caminhando com cuidado,
Joseph alcança a porta de saída e corre pelos corredores para avisar o
professor. O afã em correr foi tanto que o filósofo se esquece que seus sapatos
fazem barulho e os sons ecoam pelos corredores.
Chegando
ao sanitário, Joseph encontra o professor escrevendo em seu caderno. Ofegando
constantemente, o professor se intriga e lhe pergunta:
- O
que foi, Joseph? Aconteceu algo?
-
Tim, eu vi outras pessoas aqui... São mercadores!
-
Mercadores...?! – o professor sente medo, o pesadelo o atormenta de novo.
“Primeiro
o maçom, depois a juíza e agora todos nós?”.
A
jornalista ouve o professor exclamar e se enche de terror. Ela pergunta:
-
Você disse mercadores...?
Joseph
mal consegue responder. Ele ofega bastante e apenas acena afirmativamente com a
cabeça. O professor apressadamente fecha seu caderno, o guarda na mochila e
então se levanta.
-
Arrumem suas coisas! Temos que sair daqui!
O
médico ajuda os sobreviventes a dobrarem seus cobertores e a guardarem suas
coisas. Todos estão assustados e lamentam mais um infortúnio que o destino põe
em seus caminhos.
Correndo
pelos corredores, eles carregam suas mochilas e bagagens e seguem em direção à
saída. O grupo chega ao pátio aberto antes do portão de entrada, atravessando o
piso de cimento com capim crescendo nas juntas. Então algo se solta da mochila
de Joseph. Parando para recuperar o item perdido, ele se agacha e procura o
objeto, agora escondido entre a vegetação alta. Ninguém percebe que o filósofo
fica para trás, o grupo corre para a rua e o deixa ali sozinho.
O
professor e o grupo correm pela rua. Marisa segura firmemente a mão de sua
filha e corre desesperadamente, o trauma dos mercadores nunca a deixará em paz.
Timothy olha para trás, algo o incomoda e ele pergunta:
-
Onde está Joseph?
Nisso,
todos notam sua ausência.
Ainda
revirando o capim com suas mãos, ele finalmente encontra o que perdeu. É uma
lata de salsicha em conserva, uma das poucas que ele viu durante esse tempo em
que esteve peregrinando nas ruínas. Joseph se alegra e respira fundo, observando
a raríssima lata em sua mão. Seus olhos leem a validade, pela data parece que o
produto venceu faz tempo, mas nem ele nem ninguém se importa com o vencimento.
Naquele novo mundo devastado, as pessoas comem tudo o que encontram. Semelhante
a ratos, eles não se importam se o alimento está no chão, no lixo ou nos bolsos
de um cadáver.
Preparando-se
para correr e alcançar o grupo, ele dá dois passos quando ouve os sons de armas
sendo carregadas atrás dele.
-
Parado!
Seu
corpo se petrifica. Arregalando os olhos, ele sente seu coração disparar. Suor
escorre de sua testa.
-
Ponha as mãos para cima e vire-se lentamente!
O
filósofo se vira, ainda segurando a lata de salsichas. Ele se depara com os
mercadores, vendo-os parados na porta de entrada e outros sobre o telhado. Bela
estratégia, bela formação de ataque, um movimento brusco e Joseph terá mais
buracos que um queijo suíço.
Os
mercadores apontam suas armas, encarando-o com olhares frios e cruéis. O
filósofo sente que a própria Gestapo está parada ali, capturando mais um preso
político para o campo de concentração. Mas se todo o horror que a jornalista
testemunhou for real, ele preferiria ser capturado pela polícia secreta nazista
do que pelos mercadores.
Um
deles se aproxima, apontando seu rifle de assalto M4 para o seu rosto. As
poderosas armas que antes poucas pessoas tinham agora estavam nas mãos de todo
o tipo de assassinos. O mercador revista sua mochila, retirando as garrafas de
água e suas roupas limpas. Após distribuir suas coisas aos seus companheiros, um
outro homem de sobretudo aparece atrás deles e se aproxima. É o suposto líder
que ele viu anteriormente.
- O
que está fazendo aqui, rapaz?
O
mercador é um homem alto, de olhos azuis, com pouca barba e sobrancelha quase
nula. Há tatuagens em seu rosto e embaixo do capuz Joseph consegue enxergar
seus cabelos castanhos.
-
Sou apenas um peregrino.
-
Qual é o seu nome, peregrino?
-
Joseph Dawson.
- E
para onde você vai?
-
Para lugar nenhum... Bem, é o que eu faço, eu peregrino pelas cidades em busca
de água, comida e abrigo. Só estou tentando sobreviver.
O
mercador sorri.
-
Ah, você é um sobrevivente? – ele o analisa da cabeça aos pés, notando sua
baixa estatura e aparência franzina – O que você fazia antes das ogivas
nucleares caírem?
- Eu
lecionava filosofia.
O
mercador sorri novamente, se surpreendendo.
-
Filosofia...? Então você é um filósofo! – responde ele, rindo para seus
companheiros – Com certeza você é um daqueles tipos inteligentes, estudados,
com boa instrução e amplo conhecimento. É interessante que alguém goste de algo
tão complexo... E também acho que isso explica seu tamanho minúsculo e seus
bracinhos finos. Alguém tão fraco tem que fazer algo para compensar sua
fraqueza, não é mesmo?
Joseph
se sente insultado.
- Acho que sim.
-
Vou lhe dizer uma coisa, senhor filósofo. – o mercador se aproxima, encarando-o
de cima e fazendo Joseph erguer sua cabeça para fitá-lo nos olhos – Eu sempre odiei filosofia.
O
mercador que o saqueou olha para as mãos de Joseph e vê a lata de salsicha em
conserva.
-
Ei, Archer. O filósofo tem algo em sua mão.
- O
que é isso que você tem aí? – Joseph reluta em responder, ele está faminto e a
comida enlatada é a única coisa que lhe resta – Dê isso a mim.
O
tal Archer toma a lata de sua mão e observa o rótulo. “Salsicha em conserva” lê
ele. O líder fala aos seus companheiros o quanto é raro encontrar uma lata
daquela e ponderam o preço que cobrarão ao revendê-la. O filósofo o interrompe.
-
Por favor, senhor. Eu estou faminto e este é o meu último alimento. Se tirar isso
de mim não terei o que comer.
O
líder mostra-se compreensivo e então pergunta:
-
Como você se chama mesmo? Joseph...?
-
Sim, senhor.
-
Você quer sua salsicha enlatada?
-
Quero.
-
Vamos filosofar a respeito desta situação. Se eu te der a lata, você comerá e
saciará sua fome, recompondo suas energias e prosseguindo em sua peregrinação.
Se eu não te devolver a lata, eu e meus companheiros a venderemos e teremos um
lucro exorbitante do preço que cobrarmos. Cá entre nós, salsicha em conserva é
uma raridade nestas ruínas cinzentas e deprimentes, ou você viu alguma fábrica de
alimentos ainda funcionando por aí? É claro, eu entendo que você está faminto,
mas se você matar sua fome, como que eu vou lucrar? – ele pausa por um instante
e então pergunta – É um assunto bem incômodo para nós dois, não é mesmo?
-
Mas senhor...
-
Além do mais – interrompe ele – Você não me parece tão faminto assim. Alguém
tão pequeno come bem menos do que eu e meus companheiros, todos mais altos e
mais fortes do que você. Creio que você aguenta ficar sem comida por mais
tempo. Olhe para nós, se ficarmos sem comida não sobreviveremos outro dia. Você
não tem pena de nós?
E
então os mercadores riem da piada de Archer.
- Eu
compreendo, mas há muita escassez de comida e vocês devem ter muitos outros
alimentos em suas caravanas de mercadorias...
-
Oh, eu me esqueci disso... Você, senhor
filósofo, é nossa mercadoria agora.
Os
mercadores riem novamente. Joseph se apavora, as palavras do líder foram sua
sentença. O filósofo se tornará mais um escravo à venda nas mãos deles, igual
aos cativos no ginásio.
-
Por favor...
-
Pegue sua lata de salsicha de volta. – o líder estende sua mão e lhe oferece a
lata.
Joseph
ia pegar quando Archer ergue seu braço, deixando-a além de seu alcance. O
filósofo tenta pegá-la quando o líder a joga para outro mercador. Correndo até
o outro, o mercador a joga para mais outro mercador. Ao tentar pegar do outro
homem, a lata é jogada novamente. E assim Joseph fica no meio deles, sendo
feito de bobo, entretendo-os com sua postura fraca e patética.
Como
uma criança mais nova que tem seu lanche roubado por meninos mais altos das
séries superiores, o filósofo tenta obstinadamente recuperar sua comida. Nada
mudou afinal, nem a infantilidade dos homens mais fortes para com os mais
fracos. Novamente Joseph sofre bullying, e por uma cruel coincidência, ele está
novamente dentro de uma escola. Não bastou a vida tê-lo oprimido dentro de sua
própria casa, mas na escola também, influenciando-o em seu crescimento. É isso
o que o destino o reservou para a vida adulta? Mais um período de sua
existência sofrendo abusos constantes de pessoas ignorantes, porém mais fortes
do que ele? Isto é justiça? Por acaso existe este conceito estúpido de justiça
e castigo para os malvados? Eles “pagarão” por seus abusos ou seus atos
opressivos servirão de degraus em sua ascensão para o sucesso? É isto o que os
fracos são, a sustentação dos pés dos mais fortes?
Interrompendo
a degradante brincadeira, o líder diz:
-
Você não devia ter roubado de alguém essa lata, filósofo. As pessoas se
esquecem do pai que morreu, mas não de um bem que lhes foi roubado. Tem gente
que está bem zangada com você no meu cativeiro.
Joseph não entende.
- O
quê?
-
Tudo o que tinha com você foi roubado, não foi? Ou você comprou honestamente em
uma liquidação no centro da cidade?
- Do
que está falando?
- E
depois nós somos os ladrões... Você logo saberá do que eu estou falando. – o
líder se vira para os seus companheiros e ordena – Vamos voltar!
Os
mercadores amarram seus pulsos e então o escoltam de volta pela escola
abandonada.
Caminhando
pelos corredores vazios, eles passam pelas salas de aula, pelo refeitório e
finalmente chegam ao ginásio. Joseph vê os cativos sentados no chão da quadra.
A caravana está ali, abarrotadas de equipamentos, ferramentas e principalmente alimentos. “Malditos porcos
gananciosos!” pensa ele.
O
mercador o empurra com a arma, ajuntando-o entre os demais cativos. Eles olham
para o mais novo integrante, outro desafortunado que foi capturado por
mercadores escravistas. Joseph se senta entre eles e os olha de volta, são
todos peregrinos da cidade, com suas roupas velhas, barba comprida e cabelos
desarrumados. As mulheres cobrem seus rostos com as roupas, elas estão
assustadas, com olhares tensos e tristes. Elas já suspeitam o que pode
acontecer com os seus corpos agora que foram capturadas.
Três
cativos encaram Joseph fixamente. Eles não fazem aquela expressão de surpresa
ou lamentação, ao invés disso eles o encaram com olhares frios e sérios. Joseph
se intriga e os observa também. No meio deles há uma mulher mais velha, com
cabelos negros e grisalhos sob seu lenço. Ao seu lado direito há uma mulher
magra e de cabelos castanhos, com sarda no rosto, talvez sua filha. Ao seu lado
esquerdo há um homem de cabelos negros, sobrancelha fina e barba um pouco
comprida. Joseph os reconhece, mas... não pode ser!
Aproximando-se,
ele os enxerga de perto e então diz:
-
Mãe...?
A
senhora e seus filhos o encaram de volta com indiferença, um pouco incomodados
e talvez com desprezo. A senhora esboça surpresa e alegria, tentando responder
com animação:
-
Meu filho! Você está vivo!
Olhando
para a mulher e o homem, o filósofo reconhece seus irmãos.
- Cythia? James?
Se
Joseph estivesse com os braços desamarrados ele os abraçaria, mas sua mãe e
seus não mexem um músculo para abraça-lo.
-
Olá, Joseph. Então você sobreviveu, não é? – pergunta sua irmã, com olhar
desdenhoso, mas se esforçando para ser amigável.
-
Sim!
-
Como?
- Eu
construí um abrigo no porão de minha casa e estoquei água e comida para várias
semanas. Quando o estoque se esgotou eu tive que sair e tentar sobreviver nas
ruínas. – ao mencionar como ele sobreviveu, os três o encaram com ódio e rancor
– E vocês? Como escaparam das explosões nucleares?
-
Fomos para os abrigos coletivos! – responde seu irmão, rispidamente – Dividimos
um compartimento subterrâneo com quatrocentas pessoas, sendo projetado para
apenas cento e cinquenta. Nenhum de nós teve o privilégio de construir um
abrigo particular.
Joseph
se recusa a interpretar aquilo como provocação e continua a conversa.
- E
o pai? Onde ele está?
-
Morto. – responde sua irmã – A superlotação do abrigo forçou muitos a se
mudarem para as estações de metrô. As pessoas disputavam espaços na plataforma
para armarem suas barracas, e alguém esfaqueou nosso pai para tomar o seu lugar.
Nós encontramos o corpo jogado entre os trilhos.
O
filósofo fica consternado. Apesar de seu pai ser um velho hipócrita,
intransigente, manipulador e egoísta, ainda assim era o seu pai.
-
Como foram capturados?
-
Nós vivíamos nessa estação de metrô durante esses dois anos. Muitos adoeceram
devido a radiação e a maioria foi embora para procurar abrigos mais seguros.
Mas nós não tínhamos para onde ir. Uma semana atrás os mercadores invadiram a
estação e capturaram todos que ainda estavam lá acampados. Alguns foram
baleados e mortos, mas eles nos capturaram, levando-nos até aqui – responde sua
irmã.
-
Sinto muito.
Seu
irmão então diz:
-
Pois é, Joseph. Nós sobrevivemos. E não tivemos que deixar nossa família para
trás.
- Do
que está falando? Eu não deixei ninguém para trás!
- Eu
não disse o seu nome. Aliás, certas pessoas se acham superioras demais para
ficar com uma família de pobres e ignorantes. E se algum de nós fosse
bem-sucedido e ganhasse bastante dinheiro, com certeza compartilharia com a
família, por que é isso o que uma família faz, ajuda um ao outro, se une. Mas
nem todos pensam assim, são egoístas e soberbos que buscam a vanglória, a
vantagem pessoal e a desunião.
-
Mas James, foram vocês que... – o filósofo hesita, ele ia concluir dizendo
“foram vocês que me abandonaram” mas prefere a reconciliação desta vez,
pensando que o reencontro é uma nova chance de se aproximar e apagar as mágoas
do passado. Apesar do dano causado em seu emocional, Joseph ainda é carente de
afeição.
Seu
irmão interpreta o silêncio como consentimento e culpa. E então ele se
aproveita da fraqueza de Joseph para dizer:
- Enquanto
você dava entrevistas, tirava fotos, dava palestras e viajava para o exterior,
ganhando uma montanha de dinheiro, nós tivemos que sustentar nossa família
trabalhando aos domingos e feriados. Enquanto você vivia sozinho em uma casa
espaçosa e cheia de luxos, nós ficamos na casa de nossa mãe nos apertando para
nos acomodar, vivendo sem nenhuma privacidade. Você dirigia seus carros
luxuosos e nós andávamos de ônibus e metrô. Muitas vezes nossa mãe chorava ao
saber que tinha um filho tão egoísta como você.
-
Entenda, eu também estava trabalhando!
-
Trabalhando...?! – pergunta ele, com sarcasmo – Desde quando escrever livros é
trabalho de homem? Ah, já sei. Ter capacidade de estudar e escrever livros é
demais para uma família de ignorantes como nós, por isso você nos deixou. Olhe
para você! Um homem pequeno e depressivo que se acha muito inteligente. Você não
nasceu para ser inteligente, não pertence a você ser inteligente, muito menos
estudar! Se eu fosse você eu cairia na real e conseguiria um emprego, um de
homem de verdade.
Joseph
se sente mal. James percebe o quanto suas palavras cínicas e invejosas o abalam,
e então ele ri por dentro, sabendo que ainda tem poder sobre seu irmão mais
novo. Sua mãe olha para ele através das lentes grossas de seus óculos e não diz
nada, concordando com o que seu irmão disse.
Mas
Joseph passou muito tempo sozinho. A solidão no natal, no réveillon, nos
aniversários, na páscoa, na ação de graças e em qualquer outro feriado que se
comemora em família ele passou sozinho. Era doloroso ver seus amigos terem uma
família para compartilhar suas vidas e ele não ter ninguém além de sua TV, seu
cachorro e a internet. Ele estava disposto a apagar o passado e se reconciliar
com o que eles, nem que tenha de ignorar e esquecer o desprezo de seu irmão e de
sua mãe.
O
mercador chama a atenção dos cativos e diz:
- Levantem-se!
Nós estamos partindo.
Os
mercadores levantam a porta de enrolar e tocam os bois para fora, puxando a
caravana. Os cativos são amarrados pelos pulsos e puxados por uma corrente
presa na traseira da caravana. E assim eles deixam o ginásio da escola, passando
pelo estacionamento onde vários ônibus escolares enferrujam com o tempo.
§
Escondidos
em frente à escola, o grupo do professor observa a caravana dos mercadores
passar ao longe com seus cativos. Ele pergunta à jornalista:
-
São esses os mercadores que você falou?
Marisa
analisa minuciosamente e então responde:
-
Não. Eles se vestem parecido mas não são os mesmos.
O
médico o chama.
-
Está vendo o quarto homem na fileira de cativos? É Joseph.
Reconhecendo-o,
o professor se entristece. O filósofo não teve tempo de fugir e foi capturado
pelos mercadores.
- O
que faremos, Harold? – pergunta ele.
O
médico não sabe o que responder. Da última vez em que foram ao resgate de
alguém, a juíza foi capturada, trancada e estuprada em grupo. E seu filho de
apenas dez anos foi assassinado e devorado por saqueadores. Harold percebe a
preocupação do professor, os dois não sabem o que esperar quando alcançarem o
filósofo e qual o tipo de horror eles testemunharão em seguida.
- Eu
não sei, mas se você quiser resgatá-lo, eu irei com você.
Joseph
conhecia as regras. O grupo deveria se esconder sempre e nunca pôr em risco os
demais integrantes. Se por uma infelicidade algum deles fosse capturado, não
deveria esperar por socorro. Parece uma regra cruel, mas o que podiam fazer?
Toda a lei e ordem se converteram em violência e insanidade, eles não tinham
escolha a não ser se adaptarem às novas condições de sobrevivência, nem que
tivessem que deixar algumas pessoas para trás.
O
professor sente-se zonzo. Se sentando em um dos bancos apodrecidos, o médico
pergunta:
-
Timothy, você está bem?
-
Sim, não se preocupe. – ele sacode o atordoamento de sua cabeça e diz – Vamos
segui-los para saber aonde os mercadores irão. Talvez lá haja uma chance de
resgatá-lo.
§
Três
dias se passam desde sua captura. Os mercadores caminham pelas ruínas durante o
dia e à noite acampam nos prédios abandonados. Sempre ao lado de sua mãe e
irmãos, o filósofo passa o tempo conversando com eles, perguntando o que houve,
como sobreviveram e se há outros membros da família vivos por aí.
Os
outros cativos são peregrinos aleatórios das ruínas. São homens solitários,
remanescentes de famílias, amigos casuais, homens e mulheres que estavam em
grupos e tiveram o azar de serem capturados como Joseph. Há algumas jovens
também, adolescentes que acompanhavam suas mães pelas ruas desertas e
contaminadas.
Durante
a tarde do terceiro dia, os mercadores param debaixo da marquise de um alto
edifício, antigamente um luxuoso hotel da cidade. Eles conversam com suas armas
empunhadas enquanto vigiam as ruas. Um deles pega um pano e tira a poeira das
mercadorias na caravana, deixando-as mais atraentes. Os mercadores parecem
estar esperando alguém.
De
repente alguém aparece na esquina das ruas. O desconhecido passa pelos carros e
sobe pelo amontoado de entulho no asfalto. Enquanto está parado ali, mais vinte
homens surgem ao seu lado e observam também. Os mercadores prendem uma capa
vermelha em um pedaço de pau e a hasteiam, comunicando-se com eles. Entendendo
o sinal, os desconhecidos caminham entre os carros tombados e se aproximam.
Joseph
consegue ver em detalhes aqueles homens. Eles vestem calças rasgadas, botas,
coletes de couro, casacos de pele, lenços e capacetes em suas cabeças. Também
vestem ombreiras, correntes nos pulsos, no pescoço e seus cabelos são longos.
Ao chegarem mais perto, ele vê tatuagens em seus braços, barbas compridas e
alguns usam óculos escuros. Em suas mãos vestidas com luvas, eles portam tacos
de baseball, machados e barras de aço. “É uma gangue de motoqueiros?” pensa
ele.
Archer
se aproxima de um deles e o cumprimenta.
-
Olá, Fenrir. Como está Vinland?
“Vinland?!”
pensa Joseph. “Essa não é uma palavra viking?”.
- Os
homens estão entediados e querem sair para conquistar, pilhar e queimar.
Preciso de algo para saciá-los antes que se destruam. Você tem escravos?
-
Mas é claro! O quanto você quiser.
Os
dois negociam e os demais “motoqueiros” observam os cativos, lançando olhares
cruéis aos homens e pervertidos às mulheres. Joseph vê tatuagens cobrirem seus
corpos, subindo de seus peitos até seus pescoços. Alguns têm cabelos trançados
e outros usam elmos cônicos. Sob seus casacos o filósofo vê uma camisa com o
desenho de uma drakkar, o icônico barco viking.
Fica
claro o que aqueles homens são. Vestindo-se como motoqueiros e vikings, eles
espreitam as ruínas a procura de peregrinos solitários e grupos indefesos. Eles
vivem da caça, do que conseguem obter a força dos mais fracos. São predadores,
a escória do novo mundo, que estupra, mata e escraviza aqueles que lutam
diariamente para sobreviver. São destruidores, devorando a esperança dos
otimistas quando todo o resto se perde nas ruínas do novo dia. Sem sombra de
dúvida, estes homens cruéis que os observam como se fossem ratos são
definitivamente Saqueadores.
Fenrir
retira de sua bolsa um punhado de balas e as entrega a Archer. Arregalando os
olhos, o líder dos mercadores vê ouro em suas mãos, a munição fundamental para
suas armas uma vez que só os mercadores as portam. Munição é rara nas ruínas.
Os estoques devem estar enterrados sob toneladas e toneladas de entulho nas
cidades. Encontrá-las é uma tremenda sorte.
Ao
dar a ordem, os mercadores lhes entregam todos os cativos, como se homens e
mulheres fossem mera mercadoria, carga viva na caçamba de um caminhão. Treze
pessoas no total, treze seres humanos.
Onde
estaria o respeito aos Direitos Humanos agora? O direito à liberdade e à vida?
O que a sociedade pré-guerra nuclear lutou durante séculos para vigorar hoje é
ignorado e esquecido. Hoje não há mais restrição ao uso da força. “O direito da
força não pode superar a força do direito”. Por acaso o visionário que propôs
este ideal foi estúpido o bastante para acreditar que ele duraria para sempre?
Acorrentados
pelos pulsos, os cativos são levados por seus novos “senhores”, temendo imaginar
o que acontecerá com eles agora que são escravos dos mais sádicos homens que
existem.
§
Joseph
e os outros escravos chegam ao esconderijo dos saqueadores. Eles veem um parque
de diversões abandonado, com brinquedos enferrujados, barracas de jogos vazias
e saqueadas e fantasias de personagens jogadas no chão. Pelo local há máquinas
enferrujadas, cestos de lixo virados e detritos por toda parte. Há um circo no parque,
mas grande parte da lona foi cortada e reutilizada para fazer abrigos para os
saqueadores. A roda gigante, os carrinhos de bate-bate, a montanha-russa e o
carrossel estão lá, mas ao invés de animar o ambiente com suas cores alegres e
divertidas, deprimem ainda mais os recém-chegados com a lenta deterioração, o
desgaste e o abandono.
Avançando
pelo parque, eles veem uma cerca de barras de ferro ao redor de outro
brinquedo. O filósofo reconhece um barco viking e acima há um letreiro feito de
lâmpadas azuis escrito “Vinland”. Na entrada estão as sentinelas, vestindo
capas, casacos de pele e até elmos com chifres, como se não apenas estivessem
personalizando os guerreiros vikings, mas acreditando realmente sê-los.
Passando
por eles, o filósofo os ouve se chamarem de nomes nórdicos, alguns históricos e
mitológicos, como o líder deles, “Fenrir”. “Inclusive adotaram pseudônimos
nórdicos!” pensa ele. Os saqueadores os recebem com risos e insultos,
visivelmente bêbados. Há machados e espadas rústicas em suas cinturas,
provavelmente feitas com barras de aço afiadas com o uso de esmeril. Alguns
seguram copos feitos de chifres de plástico, imitando os antigos copos de
chifres de verdade.
“Loucos!”
pensa o filósofo. “Esses motoqueiros vagabundos e fracassados pensam que são
vikings! Estão loucos!”. Joseph e os outros são levados para uma jaula onde
antigamente mantinham os animais selvagens. Os saqueadores estão animados, eles
gritam e riem de euforia no lado de fora, exibindo seus dentes podres e
amarelados. Um deles grita pedindo por hidromel, mas na verdade se tratava de
simples cerveja.
O
filósofo se surpreende com tamanha insanidade. Talvez não se tratasse de
motoqueiros obcecados pela cultura nórdica, mas de um bando de loucos que
fugiram do hospício. Assim como os detentos libertos que escaparam da cadeia e
capturaram a juíza Susan Bradley, estes ex-internos fugiram de um hospício e
entraram em um delírio irracional ao se depararem com um barco viking no parque
de diversões. Não há explicação lógica, eles se comportam, falam e pensam como vikings, estando
completamente fora da realidade.
Um
deles se aproxima da jaula e chama seu companheiro:
-
Ei, Olaf! Você viu a cara desses novos escravos? Parecem aqueles vermes de
Miklagaard!
-
Pelo grande Odin! Faremos um favor a Hel mandando-os para o Niflheim!
Então
Fenrir aparece entre eles e ordena:
-
Separem as mulheres! Devemos agradecer ao grande Baldur pela fartura de
escravas! Que comece a orgia!
Os
saqueadores abrem a porta da jaula e as mulheres se arrastam para os fundos,
espremendo-se contras as barras. A irmã de Joseph se agarra à sua mãe e tenta
protegê-la. Seu irmão as defende também, mas é golpeado no rosto por um bastão,
desmaiando em seguida. O filósofo assiste sua mãe e sua irmã serem puxadas
pelas roupas e pelos cabelos para fora da jaula, gritando e esperneando
inutilmente.
-
Cynthia! – grita ele.
Eles
pegam as outras mulheres e as tiram da jaula. Os saqueadores trazem outras
mulheres que já estavam no esconderijo também. As meninas adolescentes choram
de desespero e parecem entrar em um estado de choque. Enquanto a violência e o
pavor tomam o ambiente, os saqueadores gargalham e se embebedam com o suposto
“hidromel”.
A
festa se organiza. Com a chegada da noite eles acendem tochas e outros começam
a tocar flautas, violões e tambores. No começo a música faz algum sentido, mas
logo torna-se desarmônica e inaudível devido a bebedeira. As mulheres choram
constantemente, as mais valentes resistem e as histéricas gritam, mas nada é
capaz de interromper aquele violento ímpeto sexual dos homens.
Enquanto
tenta reacordar seu irmão, Joseph assiste sua mãe e sua irmã serem despidas a
força. Eles deixam todas as mulheres nuas e disputam entre si quem vai
experimenta-las primeiro. Como gato e rato, os homens correm atrás delas ao
redor do barco viking. Por estarem completamente bêbados, eles se divertem em caçar
suas presas indefesas com suas calças abaixadas e seus copos em formato de
chifre nas mãos.
James
acorda e sente o sangue escorrer de um corte horrível em sua sobrancelha. A terrível
orgia ocorre no lado de fora da jaula, com os homens segurando as mulheres
violentamente. Cynthia e sua mãe estão lá também, deitadas nuas sobre o chão
empoeirado. Seu irmão vê aquela cena e se abala, sussurrando algo com as mãos
nos olhos:
- De
novo não...
Joseph
se intriga.
- De
novo? O que quer dizer?
-
Cynthia... Após sermos capturados pelos mercadores, eles a estupraram também.
Nossa mãe foi poupada, a acharam muito velha, mas olhe para ela agora!
Apesar
de ser algo terrível, Joseph não consegue se sentir consternado. Sua irmá mais
velha sempre teve fama de vadia. Aos quatorze anos já dormia na casa de seus
namorados, o que ele achava repugnante. Tamanha precocidade não lhe rendeu o
que queria? Sexo e mais sexo com vários homens diferentes?
Os
saqueadores estão excitados como cães e o excesso de álcool apenas estimulou
suas libidos. Joseph ouviu o que aconteceu com a jornalista, a juíza e seu
filho, e apesar de relutar para ouvir os detalhes, ele jamais pensou que
testemunharia cenas aterradoras de estupro diante de seus olhos. O que as
mulheres sobreviventes estão sujeitas a sofrer nas ruínas é severo demais!
Ninguém que passa por isso suportaria ficar vivo depois.
Uma
hora depois o líder ordena que a orgia termine. Os saqueadores que não estão
bêbados demais carregam as esgotadas mulheres de volta à jaula. Cynthia e sua
mãe são recebidas pelo filósofo e seu irmão. As duas estão nuas e os irmãos
retiram seus casacos para cobri-las. O cheiro de cerveja, suor e saliva em seus
corpos é nauseante.
No
lado de fora da jaula, uma das mulheres está inconsciente no chão. Um dos
saqueadores está parado ao lado dela com sangue em seus punhos. Os outros
estranham e se aproximam para ver o que aconteceu. Eles veem o rosto da mulher
todo espancado, o sangue vermelho, escuro e grosso escorrendo de suas feridas e
cortes horríveis em seus lábios, sobrancelhas e testa. Erguendo a cabeça da
mulher, eles veem outra ferida em sua nuca, ela sofreu traumatismo craniano. Olhando
para o homem parado ali, o líder pergunta:
-
Eldgrim! O que você fez?!
Ao
ver seus punhos sujos de sangue, o líder se levanta enfurecido.
-
Foi um acidente. – responde o saqueador – Ela não quis fazer o que eu mandei.
Eldgrim
é um homem gordo, coberto de tatuagens, com barba comprida e cabeça raspada.
Ele veste um colete de couro, luvas e botas, o estereótipo ideal de um
motoqueiro criminoso que passou anos na prisão.
Outro
saqueador vê a mulher espancada no chão e vocifera de ódio:
- É
uma das garotas!
Fenrir
reconhece uma das adolescentes. A menina aparentava ter menos de dezessete
anos, mas depois do espancamento está totalmente desfigurada. O líder se ira,
não acreditando que uma de suas melhores aquisições foi desperdiçada devido ao
transtorno sexual violento de um de seus homens. Ele olha para Eldgrim e diz:
-
Você sabe quanto custa uma escrava jovem?!
O
saqueador tenta se explicar, mas o líder ordena que seus homens o arrastem para
outro local nos fundos do parque. Os escravos ouvem os gritos e súplicas de
Eldgrim ao longe, e os insultos e xingamentos de seus companheiros também.
E
assim termina a orgia em Vinland, com violência, ameaça e terror do mesmo jeito
que começou.
§
No
dia seguinte Fenrir se aproxima da jaula e encara seus escravos. Os cativos
estão famintos, fracos e sedentos. Enquanto os saqueadores dormiam aquecidos nas
barracas durante a noite, os escravos se abraçavam para combater o frio. O
líder analisa os homens e então discursa:
-
Nós, da tribo de Vinland, temos um desafio aos homens. Os escravos deverão
combater na arena em duelos sangrentos até a morte. O escravo que derrotar seus
oponentes e sobreviver será libertado da escravidão, sendo-lhe concedido o
título de Berserk, o impetuoso e
feroz guerreiro nórdico. Os bravos escravos que morrerem em combate serão
recebidos solenemente em Valhala como Einherjar
pelo grande Odin. Mas aqueles que se acovardarem diante do duelo serão
esmagados pelo martelo Mjolnir de Thor e lançados nas profundezas do palácio da
vergonha em Niflheim. Todos serão bem alimentados antes do combate, mas apenas
um deverá sair vivo da arena. Esta é a única regra: sobreviver.
O líder
dá as costas e então cinco saqueadores abrem a jaula e separam os homens.
Joseph nota que seu irmão está tossindo muito e sua mãe o abraça, cuidando dele
com um carinho que o filósofo jamais teve. Ela passa a mão em sua cabeça quando
chumaços de cabelo se prendem em seus dedos. Sua irmã vê aquilo e diz:
- James,
seus cabelos estão caindo!
Ao
por a mão em sua testa, Cynthia constata seu estado febril. As duas se
entreolham, febre e queda de cabelos só podem indicar uma coisa: James foi
contaminado pela radiação. Joseph vê seu irmão adoecer e se entristece ao saber
que os peregrinos são constantemente contaminados pela radiação enquanto
assassinos doentios como os saqueadores estão sempre saudáveis. Mais uma vez a
vida se mostrava injusta.
Os
homens são levados pelo parque até o refeitório. Ali eles são alimentados com comida
de péssimo sabor, mas mesmo assim eles comem vorazmente. Os saqueadores lhe dão
água, um líquido sujo com resíduos estranhos, e eles bebem sem pensar duas
vezes. Joseph conta os escravos, oito no total. São homens aparentemente com
mais de quarenta anos, com semblante melancólico, indiferente e sem esperanças.
James está sentado ao seu lado, comendo, bebendo e se esforçando para manter-se
acordado, suas pálpebras parecem pesar em seus olhos doentes.
Então
Olaf entra no refeitório e informa a um dos saqueadores:
-
Harald, o jarl ordenou que vocês levem
os escravos para a arena.
Os
escravos ficam em pé e são escoltados para a arena. Ao chegarem eles veem mais
um local grotesco marcado pela crueldade. No meio do circo abandonado o
picadeiro é a suposta arena improvisada. Espalhados pelo picadeiro, há lanças
com cabeças espetadas nas pontas, provavelmente dos “guerreiros” derrotados. O
chão empoeirado tem marcas escuras de sangue derramado, o que lhes causam
repulsão. Eles também veem esqueletos de animais selvagens no chão, pelo
tamanho algum animal bem grande foi morto ali, talvez um elefante ou um leão.
Acima, onde antes ficavam as cordas dos acrobatas, eles veem o cadáver
enforcado de Eldgrim, com seus pés mutilados e poeira nas feridas. Os
saqueadores deceparam seus pés e o forçaram a caminhar até o local de sua
morte.
Ao
redor as arquibancadas estão repletas de saqueadores e eles gritam ao vê-los chegando.
Aqueles homens altos, barbudos e corpulentos veem na dor e no sofrimento alheio
um espetáculo máximo de entretenimento. Esta é a diversão dos assassinos, a
aflição da brutalidade e da morte.
Fenrir
discursa à sua plateia de maníacos e psicopatas:
-
Vamos começar o primeiro duelo! Sortearemos os dois nomes que inaugurarão a
arena de Thor! Quem destes patéticos escravos receberá a honraria de ser o novo
Berserk?
“O
novo Berserk?” pensa Joseph. Intrigado, ele pensa se realmente a promessa é
verdadeira. O que aconteceu com o último? Será que realmente foi libertado?
Os
saqueadores obrigam os escravos a escreverem seus nomes em pedaços de papel.
Eles levam os nomes ao líder, Fenrir os sacode em suas mãos e então os atira
para o alto. Pegando aleatoriamente dois pedaços do chão, ele lê os nomes em
voz alta. Ao declarar os primeiros gladiadores, ele diz:
-
Estes serão os primeiros a alimentar a grande serpente Jormungand com seu
sangue!
Para
a sorte de Joseph e seu irmão, nenhum dos dois foi escolhido. Fenrir caminha
para seu trono no alto da arquibancada, uma cadeira de madeiras velhas
acolchoada com tecidos macios. Ao se sentar o filósofo vê as escravas aos seus
pés, inclusive sua mãe e irmã, vestidas com roupas leves e sensuais.
Os
escolhidos choram e relutam caminhar ao centro do picadeiro. Os saqueadores os
arrastam, tiram a parte superior de suas roupas, em seguida lhes dão machados
improvisados e escudos feitos de porta de carros. Desequilibrando-se com as
pesadas armas em suas mãos, os escravos se assustam ao ouvir o líder autorizar
o início do combate. Agora aquela insanidade só acabaria com a morte.
Os
dois não se movem, estão paralisados de medo. Harald, o saqueador agindo como
juiz, faz ameaças terríveis se eles não duelarem. Um dos escravos se apavora
com suas palavras e toma a iniciativa, golpeando seu oponente com o machado. O
impacto é contido por seu escudo, abrindo um rasgo na chapa metálica. A plateia
se anima. O homem continua atacando e então seu oponente larga o escudo,
exausto pelo peso. Ele tenta defender os ataques com o cabo do machado mas um
dos golpes se desliza pelo aço e a lâmina toca seu rosto.
Caindo
no chão, o mais fraco se encolhe com as mãos no rosto. O machado do agressor
abriu um corte horrível do seu nariz até sua testa. Deitado na posição fetal e
chorando como uma criança, o escravo mais agressivo sente seu coração se
quebrantar em remorso. Harald se aproxima e diz:
-
Acabe com ele.
A
plateia está eufórica, todos pedem pela morte do escravo ferido no chão. Ainda
de pé, o escravo hesita, assustado ao ver seu oponente em um estado tão
deprimente. O saqueador o chama novamente e diz:
-
Lembre-se do que te faremos se não me obedecer.
Arregalando
os olhos de medo de novo, o escravo ergue seu machado, fecha seus olhos e então
grita enquanto golpeia. A lâmina acerta as costelas de seu oponente, abrindo um
corte profundo e fazendo o sangue fluir como um chafariz. Seu oponente faz um
ruído aterrador, perdendo o fôlego em espasmos enquanto seus olhos arregalados
perdem lentamente o brilho de vida. A plateia se silencia ao assistir o homem
morrer ali, sufocando em seu próprio sangue como um porco em um matadouro. O
escravo vitorioso solta seu machado e escudo, tremendo de desespero.
- O
que foi que eu fiz...?
Fenrir
se levanta de seu trono e grita:
-
Temos um vencedor!
Então
a plateia explode em euforia, levantando-se animada e quebrando aquele silêncio
funéreo. Os saqueadores gritam várias vezes o nome do vencedor, condecorando-o
enquanto ele se amaldiçoa.
Com
uma serra enferrujada, Harald e mais dois saqueadores decepam a cabeça do
perdedor, em seguida espetando-a em outra lança no picadeiro. A cabeça ainda
está quente e seus olhos olham para o vazio, adornando a arena como se fosse um
troféu. O vitorioso vê aquilo tudo como o mais hediondo ato na face da Terra, e
ele era o principal causador de tamanha agonia. Joseph e os escravos estão
boquiabertos. Como podem os saqueadores se alegrarem com tamanha carnificina?
O
líder encerra o espetáculo. Harald e seus companheiros arrastam o cadáver para
fora e os outros saqueadores deixam a arena. Os escravos então são levados de
volta à jaula.
Trancados
como animais, os cativos assistem aos saqueadores se divertirem com as mulheres
no lado de fora. Elas são abusadas constantemente enquanto varrem o chão e
lavam as roupas, eles as tratam como domésticas e prostitutas. O líder
determina que cada uma delas passará a noite em um alojamento diferente,
alternando-as com o passar dos dias para que todos as “experimentem”.
Os
homens na jaula lidam com o trauma de maneiras diferentes. O vencedor do
primeiro combate está encolhido no canto da jaula, perturbado com a morte
sangrenta de seu oponente. Em choque com o que o destino lhe reservou, ele se
esconde em um estado catatônico, se perguntando a causa da terrível opressão
sobre sua vida. Um dos escravos se aproxima dele e pergunta:
- O
que o saqueador te disse na arena?
Saindo
de seu transe, o vencedor sente-se confuso.
- O
quê...?
-
Você tremeu de medo. O que ele disse a vocês dois?
Com
a inconveniente pergunta, Joseph interessa-se em saber também.
-
Ele disse que se eu não lutasse ele cortaria meu pênis e faria de mim mais uma
escrava sexual deles.
Com
a resposta, todos os homens se horrorizam. Pesarosos, eles então ficam em
silêncio.
James,
o irmão do filósofo, parece piorar de repente. Sua mãe e sua irmã vêm vê-lo de
vez em quando e parecem ignorar que Joseph está ao seu lado, também correndo o
mesmo risco de morte naquela arena maldita.
§
No
dia seguinte, os saqueadores os alimentam no refeitório e os levam de volta à
arena. Com o mesmo procedimento, eles escrevem seus nomes em pedaços de papel e
o líder os atira no ar, escolhendo dois ao caírem no chão. Joseph tem sorte
novamente e não é escolhido.
Dois
escravos lutam na arena. Apesar de relutarem no começo, não há outra saída
senão a morte e ambos atacam um ao outro. O pesado machado de um deles passa
sobre o escudo e atinge o ombro do oponente, fazendo-o cair e sagrar até
morrer. Harald, o temível saqueador, decepa sua cabeça e a espeta em outra
lança.
Depois
daquele dia, Fenrir sorteia outros nomes e novamente Joseph tem sorte. Dois
escravos duelam na arena até a morte. O machado de um deles golpeia a canela do
oponente, o escravo cai no chão e agoniza, berrando de pavor ao ver seu pé
pendurado pela pele. O golpe final é dado em seu peito, livrando-o de sua dor.
O espetáculo termina e eles voltam à jaula. James está cada vez pior.
Chegado
o momento do outro combate, o líder observa que sobraram mais cinco escravos
para duelar. O resultado se aproxima. Lançando os papeis ao ar, Fenrir apanha
dois deles no chão quando se intriga. Há algo errado ali.
- Há
dois escravos chamados Joseph? É isto que eu estou vendo aqui?
O
filósofo também se intriga. Harald observa os papeis. Apesar do mesmo nome, são
caligrafias diferentes. Ao constatar a coincidência, os saqueadores descobrem o
que aconteceu. Alguém está fraudando seu nome.
-
Quem é Joseph? – pergunta Fenrir.
O
filósofo levanta sua mão. Os saqueadores perguntam os nomes dos outros escravos
e ao serem confrontados, todos negam veementemente terem fraudado o sorteio.
Todos menos um.
James
está fraco, ele está quase careca e suas calças estão manchadas de fezes. Os
sintomas da radiação estão mais fortes, a queda de cabelos, a febre e a
diarreia minam suas forças, mas não o seu ódio. Os saqueadores percebem o
desprezo em seu rosto e então o líder diz:
-
Você fraudou o sorteio, seu cão sarnento, discípulo de Loki! Entrará na arena
agora sem machado e sem escudo...
-
Não! – grita alguém na plateia.
Todos
olham para o trono de Fenrir. Duas escravas descem ao socorro de James. Joseph
vê sua mãe e sua irmã pondo-se a frente dele, protegendo-o. Cynthia então diz:
-
Não, por favor! Poupe a vida dele! Ele foi contaminado pela radiação e logo
morrerá!
Os
saqueadores barbudos à sua frente a encaram com olhares frios. Fenrir pergunta:
-
Quem são vocês?
-
Sou a irmã dele e essa é nossa mãe. Eu te imploro! Livre meu irmão deste
espetáculo sangrento!
O
líder não demonstra compaixão. Harald parece se enfurecer por dentro, contendo
sua raiva na presença de Fenrir. Aquelas escravas interrompem o duelo com sua
fraqueza e impotência dignas de quem não merece viver. O líder diz:
- Thor
não tem misericórdia de covardes. Ele deve ser punido por fraudar o sorteio,
seu sangue lhes servirá de exemplo.
- Eu
te imploro! Escolha a outro mas poupe meu irmão!
- Seu
irmão merece ser punido por tamanha desonra. Se eu não puni-lo, quem eu deverei
punir?
Sem
olhá-lo nos olhos, sua mãe e sua irmã respondem ao mesmo tempo apontando os
dedos para o rosto de Joseph.
-
Ele.
Joseph
se surpreende, emudecendo-se em seguida.
-
Mãe...?
Fenrir
se intriga.
-
Mãe? Você a chamou de mãe? – então inclusive a plateia se interessa pelo
contratempo durante o duelo – Responda-me, escrava. Este homem é seu filho?
Sua
mãe não responde, ao invés ela fica em silêncio com expressão de desprezo.
Cynthia intervém e responde:
-
Sim, ele é nosso irmão.
Os
saqueadores gargalham.
-
Você quer que seu próprio filho seja punido injustamente pela traição de seu outro filho? Que tipo de mãe é você?
Por
alguma razão a plateia de assassinos se indigna com a atitude da mulher. Eles começam
a pedir por sua morte.
“Execução!
Execução!”.
Harald
sussurra algo para o líder. Fenrir então diz:
-
Seu filho Joseph irá duelar no lugar do irmão, como deseja. Mas se ele vencer,
deixarei meus homens te matarem e arrancarem sua cabeça. Se ele perder, você
vive. Esse será o castigo.
A
plateia parece se contentar com a proposta de Fenrir.
Joseph
então sente o dilema incomodar sua mente. Se ele vencer, sua mãe será decapitada
como um troféu de caça. Se ele perder, a mesma mulher que o gerou, o rejeitou e
que agora o entregou à morte será poupada do agonizante castigo. O que fazer?
Lutar e vencer em um duelo sanguinário, sendo responsável pela morte de sua mãe,
ou perder sua vida para que ela, uma mulher que o desprezou durante tantos anos,
viva? Daria ele sua vida por amor de alguém que o detesta? Se sacrificando para
que seu irmão hipócrita, sua irmã vadia e sua mãe leviana sobrevivam e sejam
libertos da tribo de Vinland?
Os
saqueadores clamam por sangue. Ao ver tamanha sede por violência, o filósofo se
pergunta se os três um dia virão à sua cabeça decepada agradecer-lhe por salvar
suas vidas. Ou eles nunca viriam, deixando o último pedaço de seu corpo
apodrecer e se perder no esquecimento?
Quem
diria que um bando de psicopatas insanos, obcecados pela cultura nórdica, lhe
faria justiça, apesar do senso deturpado de justiça? Joseph não tem boas
opções. Ou ele mata e sua mãe morre ou ele morre e sua mãe vive. Sem tempo para
decidir se vale ou não a pena morrer, os saqueadores o empurram para dentro da
arena.
O
duelo está prestes a começar!

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