terça-feira, 14 de abril de 2020

Os Fracos - 29 - O Advogado II


(Imagem de Rudolph Watson)

O Advogado

O grupo está sentado ao redor de uma fogueira e todos conversam alegremente, dando uma pausa na permanente lamúria de seus dias nas ruínas. Mesmo o professor está bem-humorado, ele conversa também e deixa seus cadernos de lado aquela noite.
Eles dividem seus conhecimentos e experiências de suas vidas antes da guerra, dos quais jamais poderão usar novamente. Algumas conversas terminam com a típica promessa de “se o mundo não tivesse acabado, seríamos grandes amigos”. Apesar de hipoteticamente, alguns concordam em começar um novo negócio ou falam de seus filhos que poderiam se casar.
Um deles fala sobre como ganhar dinheiro. Ele tenta argumentar que a melhor forma é trabalhando honestamente, mantendo a dignidade e a decência. Então Matthew o interrompe, surpreendendo a todos.
- Não na minha profissão.
Timothy também se intriga. O calado Matthew abre a boca voluntariamente pela primeira vez.
- O quê?
- Não se trata de honestidade. Trata-se de sobrevivência. O trabalho honesto dura até a fome apertar.
O grupo não entende o que aquele estranho homem quer dizer.
- Como assim...?
- Na advocacia, os melhores clientes são os culpados. Os criminosos, malfeitores e molestadores não têm consciência pesada e tampouco temem o “inferno”, mas temem ir para a prisão. Eles farão de tudo para escapar da Justiça, até mesmo gastar suas fortunas com advogados que os livrem de ir para a cadeia.
- Está dizendo que é conveniente ser imoral?
- E o que é moral? O que é a ética profissional? Algum discurso bonitinho para te sensibilizar no dia de sua formatura? Eu não sei o que é e nem o reconheço. O que reconheço é o trabalho duro para dar à sua família uma vida melhor. Boas escolas para os seus filhos. Uma casa confortável para sua esposa. Pelo menos dois carros na garagem. Um quintal grande e um cachorro brincalhão. Isso eu reconheço. O que não reconheço é o profissional amargar em uma vida miserável porque a Ética o “proíbe” de ganhar dinheiro. Não apenas ele arcará com a consequência dessa estupidez como sua família será afetada também. Nenhuma família sobrevive sem dinheiro. Sua esposa não vai ficar vendo seus filhos passando fome para sempre. Essa é a causa de muitos divórcios, um marido fracassar devido a uma escolha estúpida baseada na moral e ética.
- Então para você o dinheiro é mais importante do que a ética?
- A família é mais importante. Mas para mantê-la, o dinheiro é fundamental. Os clientes inocentes e injustiçados que vieram a mim geralmente eram pobres que pagavam pouco ou às vezes nem pagavam. Pobres não têm dinheiro, são inadimplentes por uma razão. Mas os culpados geralmente eram soberbos de bolsos cheios. Os ricos. Defendendo-os e livrando-os da condenação foi o impulsionador do meu sucesso. Com o dinheiro deles constituí minha família. Com o dinheiro deles minhas crianças ganharam presentes de natal, viajei de férias, comprei carros novos... O que eu teria conquistado se continuasse a advogar a favor dos pobres que não conseguiam sequer pagar a pensão?
Então o grupo se irrita com Matthew, não querendo mais ouvir suas palavras.
O advogado se afasta e se deita em um canto vazio, forrando o chão com um pedaço de papelão. Timothy o segue e, agachando ao seu lado, lhe oferece um pouco de água.
- Está se sentindo melhor, Matthew?
- Sim, Timothy. Obrigado.
- É a primeira vez que você fala abertamente desde sua... perda. Fico feliz em saber que está reagindo bem.
Fitando-o nos olhos, o advogado pergunta:
- Você também acha que eu sou louco, não é?
- É claro que não! Por que pergunta?
- Eu sei que acha. Todos acham. Eu ouvi vozes, Tim. Elas falaram comigo...
O professor tenta ser racional.
- Veja, talvez não tenham sido vozes. Talvez o medo extremo causou alguns delírios em sua mente. Distúrbios e traumas, algum efeito colateral de um estresse provocado pelo pânico. Isso é normal, todos reagem de maneiras diferentes nessas situações.
Matthew sorri.
- Eu matei minha família, Timothy. Atirei a sangue frio em suas cabeças e os vi morrer. Teria feito o mesmo em mim se vocês não tivessem chegado antes. Agora me diga, isso é normal?
Ele não sabe o que responder.
- Bem, naquelas circunstâncias eu teria feito o mesmo. Afinal aqueles homens eram Caçadores, não é mesmo? Os mesmos tipos que capturaram a arquiteta. Melhor morrer do que ser vítima de estupradores e canibais.
Percebendo que o professor está mentindo, Matthew diz:
- Sei que quer me ajudar e agradeço por ter me acolhido. É um bom homem, Timothy. Mas sei que viu com seus próprios olhos algo muito pior acontecer com sua esposa e filha, e mesmo assim não perdeu o controle. Quanto a mim, só de imaginar tamanha violência fui capaz de assassinar minha família. Além de louco sou um covarde.
- Não, você não é um covarde. É muito corajoso, todos aqui somos. Não foi loucura alguma o que fez, Matthew. Ninguém aqui o julgará por isso.
Interrompendo-o, o advogado diz:
- Estou muito cansado, Timothy. Por favor, me deixe sozinho agora.
Chateado por fracassar em animar seu companheiro, o professor se levanta e se retira.

§

É madrugada e a escuridão reina sobre as ruínas. Todos no grupo dormem e não há som algum exceto a respiração. Matthew rola de um lado ao outro sobre sua cama improvisada. Um sonho estranho o aflige.
O advogado anda sozinho por uma espessa neblina. Seus passos no chão duro o faz pensar que está andando sobre o asfalto. De repente o branco da neblina torna-se negro como a noite. Ao olhar para cima ele vê um teto circular cobrindo sua cabeça.
A neblina desaparece, mas ele ainda não consegue enxergar bem. À sua frente ele vê grandes formas variadas e deduz que são objetos. Matthew sente a forte solidão. Os ecos pelos cantos e a tênue luz esbranquiçada só revelam o imenso vazio. É como se fossem as ruínas, mas em seu sonho aquele lugar tinha algo pior do que a Morte. “A Solidão...” pensa ele.
Alguns metros a frente aparece alguém. Pela distância e a baixa visibilidade, o advogado não consegue dizer se é homem ou mulher. A pessoa acena vagarosamente para ele, convidando-o a acompanhá-lo. Matthew aceita e em silêncio o segue pelo local escuro.
Ele caminha atrás daquela pessoa desconhecida. Em seu sonho, parece que se passaram horas. A luz da neblina não existe mais. Os objetos e o teto circular são iluminados por uma estranha luz cinzenta que emana do chão. Distraído pela extensa caminhada, a pessoa à sua frente desaparece e ele se encontra sozinho naquele lugar desconhecido. 
De repente entre os objetos aparecem vultos. Assustando-se, o advogado dá um salto e grita, provocando um eco perturbador. Eles estavam lá o tempo todo, olhando para Matthew. Um segundo depois eles somem, deixando-o sozinho novamente. A pessoa desconhecida que o guiou até aquela entranha do inferno ressurge ao seu lado sem que ele pudesse notar. Mas a pessoa está de costas, sinistramente parada ali. Apavorado, seu braço se levanta involuntariamente e toca o ombro daquela pessoa, virando-o. Então Matthew tem uma surpresa.
O rosto da pessoa se altera centenas de vezes, como se fosse a animação de imagens de um filme antigo. Formam-se rostos de homens e mulheres, alterando-se em um piscar de olhos. O advogado se intriga. Ao invés de se assustar, ele tem uma estranha reação. De alguma maneira, Matthew reconhece todos aqueles rostos. Mas como?
A pessoa das mil faces diz:
- Levante-se e siga-me!
O advogado suspira e acorda bruscamente. Ao olhar ao redor, ele vê que o grupo ainda está dormindo. A luz do dia é muito fraca, mas já é possível enxergar. O professor dorme ao lado de sua mochila e o resto do grupo aquece-se em seus cobertores e paletós surrados.
À sua frente, na saída daquele esconderijo, Matthew vê um vulto parado na porta, de costas para ele. É a pessoa desconhecida de seu sonho, das faces sempre inconstantes. Como no sonho, a pessoa acena e o convida a acompanhá-lo. Certificando-se de que ninguém está vendo-o, Matthew age conforme a ordem.
Ele se levanta e o segue.

§

Os dias se passam enquanto Matthew caminha pelas ruínas. Ele vê aquela pessoa novamente, indicando-lhe o caminho e então desaparecendo na escuridão. Ele não conhece aquela cidade e nunca passou por aquelas ruas antes. O vento zunindo nos prédios e a poeira soprando no asfalto o deixa apreensivo. Há apenas silêncio e solidão, e a fantasmagórica aparição do vulto desconhecido.
Há um túnel à sua frente. Os carros estão enfileirados nas quatro vias, todos enferrujados e abandonados. Pela aparência, muitas famílias transitaram por ali em sua fuga desesperada quando as ogivas nucleares varreram a superfície da Terra. Os carros têm bagagens em seus tetos mas a maioria foi saqueada, ficando apenas as malas vazias e a desordem.
O túnel estende-se pela escuridão. No meio da rodovia, Matthew não consegue enxergar seu fim, apenas os carros sendo engolidos pelas trevas espessas no meio do dia. Sentindo muito medo, ele se aproxima da entrada e força sua vista, adaptando a visão inutilmente para enxergar no escuro. Nada além de silêncio. Ele sabe que foi sua responsabilidade o que aconteceu da última vez que escolheu o pior caminho. Aquela floresta diabólica ainda o arrepia. Sua família sofreu as consequências de sua decisão. “Se ao menos eles ainda estivessem vivos agora...”.
Sem opção, ele é obrigado a passar por ali.
Ele não tem lanterna, isqueiro ou mesmo fósforos. Seus bolsos estão vazios, suas roupas rasgadas e não levam nenhuma provisão. Se aquela vulto, sonho ou alucinação estiver correto, ele encontrará sua salvação onde quer que ele o leve.
Matthew entra no túnel. A escuridão começa a envolvê-lo enquanto seus passos o carregam para o terror. O local cheira a gasolina, óleo e qualquer coisa queimada. Ao olhar para os carros, ele se apavora ao perceber que há muitos corpos nos bancos. Protegidos da inexorável onda de choque, o túnel protegeu quem estava em seu interior, mas não pôde protegê-los do calor infernal da explosão. Aquelas pessoas morreram por asfixia ou calor excessivo, e se encontram bem conservados embora a podridão se apodere de suas peles.
A luz do dia na entrada do túnel vai ficando para trás. Matthew é obrigado a tatear o ar para se orientar. Ele sente em suas mãos a água sobre a lataria dos carros, molhados pela infiltração de água no teto do túnel. Ele tropeça constantemente, seu pé pisa em uma poça de óleo e ele escorrega. Mas ainda é só o começo.
O frio e o ar pesado começam a incomodá-lo. Matthew está totalmente engolido pela escuridão. Seus pés pisam em cacos de vidro, água empoçada e objetos desconhecidos. Ele parece ouvir o eco de sua própria respiração ofegante, ou seria outra pessoa ali?
Enquanto avança pela escuridão, algo inesperado acontece.
À sua esquerda, o rádio de um carro liga de repente e a música alta o faz cair no chão de susto. Então os faróis do carro se acendem juntamente com as lâmpadas internas do veículo. Matthew se levanta e, aproximando-se, olha para dentro do carro e vê o painel ligado. Controlando o pavor, ele toca a maçaneta da porta e com muito esforço a abre, suas mãos mal tinham forças para a abrir. Ele se intriga, o carro está vazio!
A música, as lâmpadas e os faróis ficam ligados por poucos segundos e então se apagam. O advogado ouve o som de um dos faróis se estourando quando tudo se escurece novamente. Ele nota um telefone celular conectado no recarregador. O aparelho brilha em um azul futurista, destacando-se no escuro absoluto. Matthew estica seu braço e o apanha, observando seu pequeno painel touch-screen. Há uma mensagem gravada ali, o antigo dono usou o gravador para registrar sua passagem naqueles últimos dias.  Tocando a tela, o advogado ouve a voz de um menino dizer:
"Cheguei aqui há três dias. Papai e mamãe sumiram na multidão. Muitos abandonaram os carros e correram pela pista. Nosso carro estava com o ar condicionado ligado e eu sentia muito frio. Quando papai ouviu o zunido do míssil, nos mandou abaixar e tapar os ouvidos. A terra tremeu, mamãe chorava bastante e eu chorei também. Quando o barulho acabou, vimos pessoas no lado de fora correndo sem a pele!".
A outra mensagem diz:

"Não consegui segurar a mão de minha mãe. Alguém me puxou e então várias pessoas entraram na minha frente. Ouvi papai me chamar, mas ele não pôde voltar senão seria pisoteado. As pessoas estavam muito machucadas, algumas não conseguiam andar e outras apenas gritavam. Agachei no asfalto e chorei sem parar até que mamãe voltasse. Mas ela nunca voltou".

"Achei esse túnel. Há pessoas aqui também, todos estão se protegendo de uma coisa que todos tem medo, mas eu não consigo ver. É a radiação que papai falou. Também achei esse carro, tão grande e bonito, mas parece que não tem dono. É o meu favorito. Já o pedi ao meu papai, mas ele nunca teve dinheiro para comprar. Há refrigerante, salgadinhos e água no banco de trás. Acho que ficarei aqui. Poderia fazer dele minha fortaleza. Não gosto do jeito que as pessoas lá fora olham para mim. Parecem zumbis. Será que vão comer meu cérebro? Vou trancar as portas. Estou esperando por você, mamãe".

"Onde está todo mundo?! Acabei de acordar e não vi ninguém no túnel. Aonde eles foram? Por que me deixaram aqui sozinho? Estou com medo, estou com tanto medo. As luzes de emergência do túnel se apagaram de repente. Se não tivesse tantos carros na minha frente, eu o dirigiria para bem longe. A buzina faz um eco assustador. Parece que não há mais ninguém. Está ficando cada vez mais escuro e silencioso. Mamãe, quando é que você vai voltar?".

"Eu ouvi alguma coisa! Tem gente aqui! Eu tenho certeza! Mas quem será? Está tudo escuro e eu não posso ver nada. Liguei os faróis, mas não vejo ninguém. Esses carros e as paredes do túnel me assustam tanto. Não consigo mais ver a luz do dia. Por que alguém andaria no meio do escuro então? E se são fantasmas? Eu tenho tanto medo de fantasmas. Estou chorando tanto... Papai... mamãe... voltem por favor...".

"Tem alguém dentro do carro, eu juro! As latas de refrigerante e as garrafas de plástico se mexem sozinhos. Tenho medo de ligar a luz e ver alguém parado ao meu lado. Noite passada eu ouvi alguém alisar o vidro da janela. Parecia estar caindo lentamente. Não me incomodo mais com o cheiro de xixi e cocô debaixo dos jornais, só não quero sair do carro. Eu não devia ter vindo para cá. Já chorei tanto que meus olhos ardem. Acho que ninguém vai vir me buscar. Tenho medo que esses fantasmas entrem aqui e me levem com eles".

Matthew então chega à última mensagem do celular:

"Para mim chega! Não vou mais ficar aqui! Ouço alguém chorar no escuro.                       Alguém mexeu nos meus cabelos! Estou indo embora. Vou sair do carro e correr para bem longe! Tomara que eu tome a direção certa. Nessa escuridão eu não consigo enxergar meu caminho. Antes eu vou deixar o celular no carro para alguém que passar por aqui. Se alguém acha-lo, ouvirá minhas mensagens. Então eu deixo esse último aviso para você. Se você entrar nesse túnel, ouvir essas vozes e sussurros estranhos, pare e volte imediatamente. Se você sentir algo ou alguém toca-lo, corra o mais rápido que puder. Esse lugar é amaldiçoado. Quem quer que esteja caminhando nessa escuridão tentará agarrá-lo e levá-lo com ele. E mais uma coisa. Se você...".

Então a gravação é cortada de repente. Matthew procura por mais mensagens, mas aquela é a última. Ao analisar a bateria, nota que ainda há carga o suficiente. Antes de terminar sua mensagem, algo aconteceu com o menino.
O advogado deixa o celular no banco e se entristece. Os mortos estão falando com ele de novo. Primeiro naquele condomínio maldito, depois esse vulto guiando-o pelas ruínas e agora esse menino perdido no escuro. O que estará havendo com Matthew? Qual é a razão de tanto sofrimento?
Matthew também ouviu uma voz, mas não dentro desse túnel. Como um homem vazio, solitário e sem esperanças, ele se deixou levar por essa alucinação. O estranho vulto também quer que ele passe pelo túnel. Se algo aconteceu com o menino, o advogado não pode fazer nada por ele. Ao fechar a porta, ele nota algo brilhar sobre o banco. A luz do celular reflete em uma superfície metálica lisa. Ao pegar o objeto, Matthew vê um isqueiro. Aparentemente, o antigo dono do veículo era fumante. Para sua sorte.
De volta à caminhada, ele enxerga os carros amarelados pelo fogo do isqueiro. O advogado vê que há muita gente morta ali. O menino estava rodeado de cadáveres quando o deixaram sozinho. Sem querer relacionar os eventos, ele se lembra da mensagem sobre fantasmas e escuridão. A sensação sinistra do medo percorre seu corpo e ele aperta o passo. Matthew está determinado a não ficar mais um minuto naquele lugar.

§

É possível ver a luz do dia adiante. O branco cinzento invade o local e ele se alegra. Mas algo acontece. O advogado vê a silhueta de um homem caminhando entre os carros ao longe. Ele apaga rapidamente o isqueiro para não ser visto. Na saída do túnel há alguém, talvez um peregrino qualquer. Matthew o observa atentamente quando se arrepia ao ver que o homem percebe sua presença.
Os dois ficam petrificados. Matthew o encara e o homem o encara de volta. Parado como uma estátua, o homem o vigia por segundos que se parecem horas. O advogado treme, mas não consegue parar de olhá-lo. Ele se sente hipnotizado, semelhante a alguém diante de uma serpente ou um leão. Então o homem desconhecido corre agilmente em sua direção, rindo e gritando como um louco.
Apavorado, o advogado se vira e corre de volta ao túnel. Deixando o estupor de adrenalina dominar seus instintos, a escuridão novamente o abraça e seus olhos dilatam-se. Seus ouvidos aguçados pelo medo ouvem o homem se aproximar facilmente. Ele ri e gargalha. “Será um saqueador? Por que ele ri tanto?”.
O homem doentio corre descalço pelo piso repleto de pedras e cacos de vidro. O advogado tropeça e bate seu quadril várias vezes nos carros. Cansando-se, ele ouve o homem se aproximar de suas costas. Quando não consegue mais correr, o homem gargalha em uma risada psicótica e toca seu ombro. Matthew cai de joelhos, mas ainda tenta resistir. Após desvencilhar-se inutilmente, o advogado implora:
- Por favor, não me machuque! Me deixe me paz! Pelo amor de Deus... quem é você?!
Ainda confuso com a situação, Matthew ouve alguém falar com ele. Uma mão agarra a barra de sua calça e ele se esperneia como um cachorro.
- Acalme-se! Eu não vou machucá-lo!
O advogado está exaurido de suas energias. O homem ainda tenta falar com ele, e desta vez Matthew consegue ouvi-lo.
- Ei! Fique quieto! Já disse que não vou machucá-lo!
- Quem está aí?
- Eu ia perguntar o mesmo.
- Fique longe de mim! Não me leve para a escuridão com você!
O homem ri, mas desta vez amigavelmente.
- Mas do que é que você está falando?
Confuso, o advogado acende seu isqueiro. O fogo ilumina um homem velho e barbudo, com roupas rasgadas, deitado no chão.
- O que você quer de mim, seu maníaco?!
- Eu não sou nenhum maníaco, cara.
- Então por que estava correndo atrás de mim, gritando e gargalhando como um louco?
- Correndo? Não sei como seria possível. Eu sou um paralítico. Não ando desde que sofri um acidente anos atrás.
Matthew percebe como ele arrasta suas pernas como se fossem de pano.
- Mas... havia alguém correndo atrás de mim agora há pouco. Você não o viu? Ele gritava como um animal...
O velho sorri.
- Eu sinceramente não sei do que está falando. Estou aqui há muito tempo e nunca vi ninguém. Aqui só há silêncio e escuridão. E eu.
- Como? Havia alguém na saída do túnel...
- Tudo que vi foi você correndo como um louco. Não vi mais ninguém.
O advogado perturba-se.
- Há quanto tempo está aqui?
- Há muito tempo.
- Impossível...
Interrompendo-o, o velho diz:
- Ei, você pode pensar a respeito disso depois se quiser. No momento, por que não me ajuda a sair daqui?
Ainda confuso, Matthew o olha com desconfiança. Tudo naquele lugar é perturbador, talvez o que viu há pouco seja mais uma alucinação, um trauma psicológico após o que fez com sua família.
- E então? Vai me ajudar a dar o fora daqui ou não? – insiste o velho.
Levantando-se, o advogado se limpa, pega seu isqueiro e pergunta:
- Aonde você quer ir?
- Eu quero sair desse túnel. Aonde você for está bom desde que não se incomode em me carregar nas costas.
Matthew realmente precisa de uma companhia. Ele esteve andando sozinho durante dias. As cinzentas ruínas podem ser bem depressivas após algum tempo. Caminhar por elas sozinho atrai a mais pura melancolia. Isso explica as dezenas de peregrinos mortos nas ruas com um buraco na cabeça e uma arma enferrujada em suas mãos.
- Tudo bem. – ele levanta o velho e o põe em suas costas – Como se chama?
Ajeitando-se em seus ombros, o velho responde:
- Thomas. E você, meu jovem?
- Matthew. Prazer em conhecê-lo. – segurando suas moles pernas ao redor de sua cintura, ele pergunta – O que estava fazendo nesse túnel tão medonho, Thomas?
- Hmm... Me abrigando. Me escondendo. Me aquecendo... É difícil dizer. Eu vivo aqui agora. Aliás, para onde um aleijado como eu pode ir?
- É um homem muito corajoso. Eu não quero voltar aqui nunca mais.
Aos poucos eles deixam o túnel para trás. A tênue luz do dia o ilumina e ofusca seus olhos. Matthew se sente feliz por sair vivo dali. Se ele continuar a se convencer de que os mortos o chamam, mais cedo ou mais tarde se juntará a eles.
- Vai a algum lugar específico, meu jovem?
- Na verdade não sei. Estou procurando por algo, mas não sei o que é.
- Hmm... Uma alma perdida? Desde que estou nas ruínas eu vejo peregrinos vagando por aí. Todos estão procurando por algo também. Como almas perdidas.
Matthew se sente desconfortável com essa classificação, mas não diz nada.
Os dois caminham pelo resto do dia. O advogado se admira com a percepção de Thomas. O velho parece ter um magnetismo natural para comida e água. Ao apontar o caminho com suas mãos enrugadas, ele simplesmente diz:
- Meu jovem, acho que tem algo ali.
Graças ao seu “dom”, Matthew achou várias provisões escondidas em locais pouco prováveis. Sob o estofamento de sofás, atrás dos papeis de parede, debaixo de sacos de lixo, dentro de tanques de combustível... Thomas nunca se torna inútil nas costas do advogado. Mesmo que Matthew se canse e queira abandoná-lo, sabe que não poderá fazê-lo uma vez que Thomas os mantém vivos.
A noite se aproxima. Enquanto caminham, eles conversam e a amizade cresce rapidamente. Ao ver um alto e esbelto prédio no centro da cidade, o velho comenta:
- Meu jovem, está vendo aquele prédio? Eu já subi em seu terraço uma vez. Lá em cima há um requintado restaurante com vistas panorâmicas para toda a cidade. Os garçons são bem educados e a comida é deliciosa. Ah, eu tenho ótimas lembranças de lá... Mas por causa de minha paralisia eu não pude mais voltar. Era obrigado a ficar em casa. Você faz ideia do quanto é difícil se locomover em uma cadeira de rodas? Do quanto as pessoas te evitam quando você precisa de ajuda? Na verdade, a última vez que saí de casa foi quando as bombas caíram. Meus filhos me colocaram no carro e então abandonamos tudo para fugirmos da explosão. – sua voz começa a fraquejar devido ao choro – Pensei que seria deixado para trás aquele dia. Eles não queriam me levar e quase me esqueceram. Pude ver em seus olhos o fardo que seria cuidar de mim durante a fuga. Eu juro que se pudesse voltar eu dispensaria meus filhos ingratos e morreria sozinho, abandonado e entristecido na solidão do meu antigo lar...
Consternado, o advogado se lamenta por Thomas. Então ele tem uma ideia.
- O que acha de subirmos o prédio?
O velho se intriga.
- Você está falando sério? Meu jovem, serão mais de quarenta andares de escadaria.
- Temos outra coisa para fazer nesse momento?
Os dois atravessam as ruas vazias e adentram o prédio.
A fachada do enorme edifício indica um prédio de escritórios. Como Thomas disse, no terraço há um restaurante e pela aparência do cartaz era um local bem requintado. Passando pelos restos das grandes portas de vidro, eles entram no escuro hall. Os balcões, as escadas rolantes e os lustres estão empoeirados e arruinados. Matthew encontra a escadaria e começa a subir.
Ao chegar ao terraço, já é noite nas ruínas. A desgastante subida deixou Matthew exausto. O velho está em silêncio e se arrasta até o parapeito. O advogado procura algum local para se deitar e encontra um enorme sofá velho onde antes os clientes se sentavam. Sem a menor vontade de olhar ao redor, ele se deita e imediatamente dorme.
O advogado tem um sonho estranho. Ele está em um lugar coberto de neblina e alguém o chama. Vendo apenas um vulto, ele ouve o desconhecido dizer “vá até onde o velho te indicar”. O sonho se repete durante a noite, como se quisesse garantir que Matthew o obedecesse.
Ao acordar, ele abre vagarosamente os olhos e vê alguém correndo ao seu lado. Ele se espanta ao ver duas crianças correndo pela escuridão. Elas gritam e riem, brincando como se não se importassem com aquele lugar assustador. Levantando-se, ele as segue, dirigindo-se aos fundos do restaurante onde fica a cozinha. Matthew vê as panelas e facas penduradas sobre os balcões. As crianças passam por ali e as panelas balançam, se escondendo e fugindo do estranho visitante. Atravessando o lugar, ele se depara com uma porta metálica. É a antiga câmara fria. Ao entrar, a luz fraca ilumina as prateleiras vazias, o lugar já foi saqueado há muito tempo. No fundo da câmara as crianças se escondem, elas riem enquanto encaram o homem. Matthew se inclina e diz:
- Podem sair. Eu não vou machucá-los.
As crianças se levantam e deixam a escuridão. Ao se aproximarem, ele sente suas pernas tremerem. São seus filhos!
Os dois têm hediondos buracos de bala em suas cabeças e seus rostos estão lavados de sangue. Afastando-se em pavor, suas costas se esbarram em alguém. Virando-se, ele vê sua esposa, pálida como a neve e com os cabelos endurecidos pelo sangue espesso em sua cabeça. Enchendo os pulmões e prestes a gritar, ele imediatamente acorda. Matthew ainda não havia acordado e está deitado no sofá do restaurante. Era só um sonho.

§
   
Já é dia novamente. Ele olha para os lados e observa o local. O restaurante está intacto, exceto pela camada de poeira em todos os móveis. As janelas panorâmicas mostram a cidade lá embaixo, ele vê prédios menores e semidestruídos com seus interiores cheios de escuridão.
Procurando por Thomas, o advogado o encontra sentado no parapeito, no mesmo local onde esteve no dia anterior. “Será que ele passou a noite inteira sentado ali?”.
- Thomas...? – ao chamá-lo, o velho não responde – Thomas, podemos ir embora? Não me sinto bem neste lugar.
O velho não demonstra reação. Ao invés, ele olha para baixo e segura firmemente a borda, preparando-se para se jogar. O advogado percebe o estranho gesto e discretamente segura seu braço, gentilmente dizendo:
- Vamos. Vou ajudá-lo a descer.
Carregando-o nos braços, ele sente como o velho está frio. Ele passou a noite ao relento, mas parece não se importar. De repente o velho diz:
- Apesar de toda destruição e ruína, é uma bela vista daqui de cima, não acha?
O advogado vê apenas a paisagem que lhe dá a ideia de como deve ser o inferno.
- Sim, é uma bela vista, Tom.
- Sabe... Foi neste restaurante que eu pedi a mão de minha esposa em casamento.
O velho respira fundo, perdendo-se em lembranças.
- Ora, isso é incrível! E onde está ela agora?
Encarando-o nos olhos, o velho responde:
- Eu não faço a menor ideia.
O advogado fica ainda mais desconfortável. Então o velho continua:
- Matthew, você tem um bom coração. Te agradeço por me trazer aqui, embora eu desejasse que o mundo não tivesse acabado para eu poder voltar. Eu te pagaria um almoço, mas acho que ninguém virá trabalhar aqui hoje, não é mesmo?
Thomas ri e o advogado ri também.
- Acho que não.
- Estou muito cansado, Matthew. Vou lhe pedir algo pela última vez. Talvez não goste do que vou pedir.
- Pode pedir, amigo.
- Quero que você me leve de volta ao lugar onde nos encontramos. Quero voltar ao túnel.
Receoso, o advogado pergunta exasperadamente:
- Por que quer voltar àquele lugar?!
- É a última coisa que te peço. E então te deixarei em paz.
Contrariado, Matthew hesita em levar o velho. Ele agradeceu aos céus por sair vivo de lá e agora deve voltar? Ele começa a se arrepender de tê-lo acolhido. Talvez devesse ter deixado ele se jogar do parapeito. Mas então ele se lembra do sonho. O maldito sonho que guiou seus passos desde que deixou o grupo do professor. Respirando fundo, ele responde:
- Está bem.
Voltando pelas ruas desertas, o advogado carrega o velho em suas costas. O vento frio e a poeira o incomodam. O pó se mistura ao suor de seu rosto, caindo em seus lábios e sua barba. Apesar da solidão e do perigo iminente, Matthew não se importa, ele está irritado demais por voltar ao túnel. Desafiar a Morte pela segunda vez. Será que ele escaparia novamente?
Entre os carros espalhados pela rua ele avista seu objetivo. O túnel está bem a sua frente, sua face negra como a entrada do inferno. O medo percorre sua espinha.
Passando pela entrada em forma de arco, ele imagina estar entrando na boca de uma terrível serpente. A sensação de desconforto e insegurança invadem sua mente. Ele está apreensivo. E se ele não estiver sozinho ali como na última vez? Mas ele não estava sozinho, Thomas estava lá com ele. Lembrando-se de Thomas, ele inicia uma conversa para controlar o medo.
- Onde você quer que eu o deixe, Tom?
- Mais a frente. Continue caminhando. Eu direi quando parar.
- Mas apenas a entrada e a saída são iluminadas pela luz do dia. Você quer que eu te deixe no meio da escuridão?
Evasivo, o velho responde:
- Por favor, apenas caminhe.
Matthew se incomoda com a rudeza de Thomas, mas não diz nada. A falta de luz o envolve rapidamente, parecendo esmagá-lo a cada passo. Os ruídos ecoam no túnel, ele não consegue ser silencioso carregando um homem em suas costas. Sem ter como conter o barulho, ele tenta conversar novamente.
O advogado faz comentários, perguntas e afirmações diversas, mas Thomas raramente responde e às vezes não diz nada. O velho fica em silêncio o tempo todo, não abrindo sua boca enquanto Matthew pateticamente tenta conversar.
Caminhando pelo túnel, o advogado sente o corpo de Thomas ficar mole de repente. Então os braços do velho ao redor de seu pescoço se esfriam. Matthew não entende. Será que ele adormeceu? A cada passo o velho vai amolecendo mais. O advogado se preocupa. Preparando-se para perguntar se está tudo bem, o velho diz:
- Mais um pouco a frente, meu jovem.
Para o alívio de Matthew, ele vê a luz no fim do túnel. Ele o atravessou sem nenhum problema. Alegrando-se, ele comemora euforicamente conversando com o velho, que permanece novamente em silêncio total.
Há algo errado na saída. Distraído demais falando alto e rindo, o advogado não nota a presença de várias pessoas entre os carros. Agora é tarde demais, eles já o ouviram enquanto ria como um idiota.
Os homens estão parados ali, de pé em frente ao túnel. Suas roupas balançam com o vento, eles carregam longos rifles em suas mãos. Atrás deles há três caminhonetes paradas no meio das vias. Mais homens estão ali, sobre as caçambas e dentro das cabines. Eles vestem roupas de caça, chapéus e cartucheiras ao redor de seus peitos.
Um dos homens, com um bigode denso e pontudo, pergunta:
- Mas o que é que você está fazendo?
- Por favor, não nos machuque. Este senhor é paralítico e me pediu para ajudá-lo.
Então os homens se entreolham e riem.
- Você é louco ou o quê?
O advogado não entende.
- O quê?
- Este homem está morto, meu chapa.
Matthew chama o velho em suas costas. Ele o balança e então Thomas se desequilibra, caindo no chão como um boneco de pano. Matthew desvira o rosto do velho e dá um salto. A face de Thomas está apodrecida, mostrando seus olhos e todos os seus dentes. Enojado, ele agora vê que Thomas, o mesmo velho que esteve com ele no dia anterior, é mais um das centenas de cadáveres espalhados por aquele terrível túnel. Matthew sente sua cabeça girar.
- Você estava carregando um cadáver! – diz outro homem, sorrindo.
- Rapazes, amarrem esse doido varrido. Conseguimos nosso jantar.
- Eu não sou doido... Ele estava vivo! Ele falou comigo e passamos o dia anterior juntos! Eu juro! Vocês têm que acreditar em mim!
- Claro que sim. E você entrar nesse túnel sozinho, rindo como um louco com um defunto nas costas é completamente normal. Devo admitir que é bem corajoso, cara. Nenhum de meus homens teve coragem de entrar aí...
Então os Caçadores o amarram e o jogam na caçamba da caminhonete. Ele se debate e grita incessantemente, forçando um dos homens a bater em sua cabeça com a cauda de seu rifle.

§

Matthew passa o resto do dia preso em um quarto apertado. Seu corpo treme e ele não raciocina direito.
Thomas era um cadáver frio e nojento. Estaria ele louco? Não, ele não estava louco. Os mortos falavam com ele. Os malditos mortos cujas almas não deixaram esse mundo condenado para trás. Mas por que aquele túnel? Os mortos gostam de ficar na escuridão, por isso o guiaram para aquele local diabólico. E por que o chamaram? Para levar um velho ressentido e atormentado para passear pela última vez sob a luz do dia?
Horas depois, os caçadores aparecem. Eles o levam pelos corredores de uma casa imunda até uma sala com uma larga mesa no centro. Matthew se deixa levar sem resistir. Deitando-o na mesa, eles tiram suas roupas e amarram seus braços e pernas. Alguém acende lamparinas na parede, a noite se aproxima.
Um dos caçadores, um homem imenso e careca, veste um avental branco com nauseantes manchas escuras. Ele traz consigo enormes facas de açougueiro. Ao longe, outro caçador acende a lareira, jogando pedaços de madeira. O açougueiro pega uma faca e olha para sua barriga, preparando-se para cortá-lo. Então algo acontece.
Segundos antes do fim, Matthew olha para o lado e vê alguém incomum observando-o em um canto escuro da sala. Os caçadores parecem não notar que há outra pessoa ali. O advogado o reconhece. É Thomas e ele está em pé, como se estivesse curado de sua paralisia. Então mais pessoas aparecem atrás dele, saindo da escuridão. Sua esposa olha para Matthew, fazendo um olhar preocupado. Então seus filhos aparecem também, abraçando-a ao redor de sua cintura. Seus filhos choram, assustados ao ver seu pai deitado ali.
O advogado sente as lágrimas rolarem em seu rosto. Ele sussurra o nome de sua esposa até o choro afetar seus lábios. Os soluços de pranto ardem em sua garganta. A opressiva realidade se desestabiliza e nada mais faz sentido. Matthew, o chefe de família, o marido fiel e pai dedicado, amarrado ali, totalmente imobilizado como um coelho antes de ir ao fogo. Matthew, o pai protetor que faria de tudo para protegê-los e preveni-los do terrível perigo. Inclusive matá-los.
A lâmina fria atravessa seu abdômen. A faca atravessa seus órgãos internos e imediatamente o sangue se eleva da ferida, espalhando-se pela mesa. A vida é retirada de seu corpo, está tudo acabado. Sabendo que irá ao encontro de sua tão amada família, ele esboça um sorriso. Sua visão embaça e finalmente se apaga, seu suplício nas ruínas havia chegado ao fim.
Um segundo depois ele está em pé ao lado de seu corpo. Os caçadores o fatiam, o serram e o cortam em vários pedaços. Sua esposa o chama e seus filhos correm para abraçá-lo. O advogado abre os braços e os abraça firmemente, tomado de imensa felicidade por se reunirem novamente.
Então os quatro, juntamente com Thomas, se reúnem e caminham tranquilamente de volta para a escuridão. 
A paz dos mortos.




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