Fragmento
10
Existem
diferentes tipos de pobreza. A pobreza mais comum é a que se vê, o nível social
mais baixo, a família sustentada por trabalhadores assalariados, dependentes de
uma quantia mensal cobrindo seus custos e impostos cada vez mais altos. Há a
pobreza intelectual, alguém privado da educação por motivos fora ou não de seu
alcance, ocasionada quando a pessoa deve trabalhar logo na infância, quando ela
negligencia a instrução ou mesmo é proibida de recebê-la nas instituições de
ensino. E por último, considerado neste exemplo o pior de todos, é a pobreza
cultural, a banalidade, a estupidez, a indução propagada como uma praga entre
os ignorantes, analfabetos funcionais, sem consciência de seu passado, de seu
presente e muito menos de seu futuro. Estes últimos são pessoas rasas, sem
conteúdo, boçais, inclinadas a tudo o que reprovável, à sexualidade exacerbada,
vícios de linguagem, gírias, vandalismo, e em último caso, envolvimento com a
criminalidade e violência.
O
pobre não é o problema, a pobreza é. Mas e quando a pessoa comete os mais
banais atos de estupidez, expondo-se ao ridículo e se defendendo atrás da
proteção que a sociedade os concede? Aparentemente ser pobre é digno de orgulho,
mas o rico jamais deve se declarar abertamente orgulhoso de ser rico. Muitos
pobres dizem “sou pobre mas sou feliz”, mas invejam a riqueza de seus patrões.
São hipócritas, ninguém é feliz trabalhando excessivamente, sem fins de semana,
sem tempo para a família e estando ausentes para ver seus filhos crescerem.
Os
pobres culturalmente passam por cima dessas preocupações. São débeis, vivem
como os animais que não tem a consciência de que vão morrer, a não ser quando
estão em conflito um com o outro. Vivem em bandos em uma espécie de ajuda
comunitária independente e territorialista. Neles existe uma espécie de relação
latente entre mães solteiras e filhos sem pais. Rejeitam com todas as forças
qualquer incentivo à educação, à política, à cidadania e ao respeito ambiental.
Eles destroem a si mesmo e à sociedade neste processo, pois são péssimos
eleitores.
Mas
então acontece algo decisivo na sociedade e essa manada de pobres não pensantes
revela plenamente seus instintos animalescos, na face da ferrenha luta pela
sobrevivência. Dessa vez eles irrompem de seus bairros distantes e
marginalizados e marcham para tomar o seu lugar.
Bruno
vivia em um luxuoso apartamento de alto padrão na cidade do Rio de Janeiro. Da
janela de seu quarto, no décimo primeiro andar, ele tinha a estimada vista para
o mar. Ele nunca passou por dificuldades, nunca faltou nada em sua casa e nunca
realmente compreendeu o que é passar fome, ou mesmo trabalhar para comprar o seu
sustento. Tudo lhe era dado, nunca houve escassez ou falta de dinheiro para ele
ou sua família.
Estudante
de um tradicional colégio particular, ele tinha muitos amigos, todos saiam
juntos, tiravam fotos sempre sorrindo, às vezes na própria sala de aula. Eles iam
a muitas festas, frequentavam casas noturnas, viajavam para outras praias,
faziam amizades onde passavam, iam à casa um do outro e às vezes os rapazes
beijavam as garotas. Bruno e seus amigos eram de classe alta, ricos e felizes,
despreocupados e de bem com a vida. Aos dezoito anos Bruno ganhou um carro de
seu pai, e com o carro ele e seus amigos viajavam sempre. Sua página no site de
relacionamentos era repleta de fotos em praias, cruzeiros e festas.
Alguns
de seus amigos, os mais pobres e sem privilégios na vida, o invejavam
considerando-o superficial, hipócrita, inútil, mimado e materialista, mesmo
Bruno os considerando seus amigos, ironicamente porque assim ele satisfazia seu
senso de “humildade” quanto aos desafortunados. Sim, era essa a maneira de
Bruno satisfazer seu senso deturpado de humildade, negando seu status social,
sua riqueza, sua sorte por nascer em uma família rica que o amava e lhe dava
boa educação. Talvez ele seja um hipócrita como os seus amigos pobres pensam,
pois apesar de negar a si mesmo, ele não deixaria sua vida de alto padrão, suas
caríssimas roupas de marca e seu confortável apartamento de 300 m² para se
mudar para as favelas, vivendo amontoado um sobre o outro em morros cobertos de
barracos.
Assistindo
a um popular seriado americano na TV, Bruno criou um certo fascínio pelo famoso
tema de “invasão zumbi”. Ele achava muito interessante a ideia de uma pandemia
global infectando os seres humanos e os transformando em zumbis. Obviamente era
uma ideia ultrapassada, típica de filmes de terror da década de 70 e 80. “Invasão
zumbi, qual era a possibilidade disso acontecer? Que ideia estúpida...!”.
Então
a guerra nuclear começa. No início a cidade do Rio continuava funcionando
normalmente, mas aos poucos o comércio e as escolas fecharam as portas. De
repente era como se a famosa cidade turística ficasse deserta. Algumas semanas
se passam e nuvens de cinzas chegam do oceano, a mesma fumaça dos incêndios que
queimavam cidades inteiras no hemisfério norte. Eram as partículas da fallout, a poeira radioativa que
contaminaria o planeta inteiro, levando a humanidade à extinção. As
consequências da guerra nuclear entre as superpotências haviam finalmente
chegado ao Brasil.
No
primeiro mês a polícia conseguia controlar o tumulto. No segundo mês a escassez
de alimentos, a contaminação da água e os diagnósticos de câncer começaram. No
terceiro mês o caos era total. Protegidos da ralé pelas altas grades do
condomínio, a família de Bruno sentia-se a salvo dos tumultos generalizados na
cidade. Da janela de seu quarto ele via os policiais atirando balas de
borracha, repelindo-os com jatos d´água e lançando granadas de efeito moral.
Mas
então os mesmos policiais que mantinham a ordem, isto é, protegendo o
patrimônio dos ricos em seus condomínios fechados, adoeceram contaminados pela
radiação e não mais saíram às ruas para controlar os tumultos. A população
desesperada saiu dos morros e favelas e avançou contra a cidade indefesa em
busca de alimentos, água e remédios. Os pobres e desfavorecidos, dos quais
Bruno “humildemente” os considerava amigos, invadiram as casas, os condomínios
e as lojas do centro. Em suas mentes havia o ímpeto instintual daqueles que
morrem de fome e lutam para sobreviver. Os habitantes das comunidades
saqueavam, roubavam e matavam quem se opusesse, muitos dos quais eram
traficantes de drogas que marchavam armados em busca do que quisessem saquear.
No
prédio ao lado, Bruno assistiu a invasão dos favelados. Como ratos e baratas,
eles pularam as grades, destruíram a portaria e subiram pelos andares. Alguns
apartamentos, dos quais seus amigos moravam, arderam em chamas pelas mãos dos
invasores. De repente o prédio inteiro começou a brilhar com o fogo, à
distância ele ouvia os gritos dos moradores lá dentro, fazendo seus pais se
apavorarem.
-
Meu Deus! O que esses favelados estão fazendo?! – grita seu pai.
Bruno
ouve aquilo e o repreende em pensamento. “Favela não, pai. Comunidade”.
O
telefone toca. O síndico convoca a todos os moradores para pegarem o máximo que
tem e fugir para a marina. Bruno e sua família pegam alguns pertences e deixam
o apartamento. Colocando tudo no luxuoso sedan de duzentos mil reais, eles se
espremem lá dentro e vão embora. Os moradores saem apressados do estacionamento,
Bruno vê o porteiro pedir para o levarem junto, mas teve seu pedido ignorado e
foi deixado para trás.
Seu
pai acelera pela avenida, atropelando os saqueadores pelo caminho. Eles voam
pelo para-brisa e sangue escorre no vidro. Ele é obrigado a ligar os
limpadores, espalhando aquele denso líquido vermelho, enojando-os. Sua irmã
fica histérica e sua mãe é obrigada a estapeá-la. A avenida à beira mar, tão
bela e admirada pelos turistas, torna-se um hediondo banho de sangue e
carnificina.
Enquanto
avançam, Bruno vê sua cidade se tornar um inferno. Os pobres carregam itens
roubados nas costas e alguns lutam entre si pela mercadoria roubada. Há ônibus
em chamas por toda parte, tiros ecoam pelas ruas vandalizadas, prédios ardem em
chamas, invasores destroem a entrada das lojas, policiais são linchados nas
ruas... Quando eles chegam à marina, Bruno sente alegria e alívio ao deixar
tudo aquilo para trás.
Caminhando
às pressas pelo píer, eles despejam suas coisas no elegante iate. Seu pai então
o conduz para longe da margem, deixando a marina pouco antes dos invasores
alcançá-los logo atrás. Sua família e as famílias dos demais ricos estão
finalmente a salvos.
À
distância eles veem a cidade do Rio de Janeiro, a famosa “cidade maravilhosa”,
tornar-se uma enorme cova a céu aberto, infestada de podridão e destruição. Os
incêndios se espalham, a fumaça se eleva e rapidamente a violência predomina
como um novo rei conquistador. A ralé venceu, afinal. Com seu instinto de
sobrevivência, eles retomaram seu lugar na sociedade à força, através dos
saques, dos assassinatos e do vandalismo. Tudo o que os ricos tinham, suas
grandes mansões, seus apartamentos luxuosos, seus carros importados, seus jóquei-clubes
e seus requintados condomínios... Tudo estava nas mãos deles agora, aquela
gentalha pobre que mal sabia escrever. Os pobres que conheciam apenas a
linguagem da violência, cujo nível cultural era nulo e que viviam amontoados como
ratos.
Bruno
se fascinava com a ideia de uma invasão zumbi, a queda da sociedade pelas
criaturas carnívoras e estúpidas que procuravam por humanos não infectados para
devorar. Não tão distantes de serem estúpidos, os pobres poderiam ser
comparados a eles. Ao invés de devorarem carne humana, os pobres devorariam as
riquezas alheias. O instinto carnívoro dos zumbis poderia ser a inveja dos
miseráveis contra os ricos.
Os
zumbis existiam afinal, só não eram mortos-vivos e não tinham esse nome.

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