terça-feira, 14 de abril de 2020

Os Fracos - 20 - Fragmento 10



Fragmento 10

Existem diferentes tipos de pobreza. A pobreza mais comum é a que se vê, o nível social mais baixo, a família sustentada por trabalhadores assalariados, dependentes de uma quantia mensal cobrindo seus custos e impostos cada vez mais altos. Há a pobreza intelectual, alguém privado da educação por motivos fora ou não de seu alcance, ocasionada quando a pessoa deve trabalhar logo na infância, quando ela negligencia a instrução ou mesmo é proibida de recebê-la nas instituições de ensino. E por último, considerado neste exemplo o pior de todos, é a pobreza cultural, a banalidade, a estupidez, a indução propagada como uma praga entre os ignorantes, analfabetos funcionais, sem consciência de seu passado, de seu presente e muito menos de seu futuro. Estes últimos são pessoas rasas, sem conteúdo, boçais, inclinadas a tudo o que reprovável, à sexualidade exacerbada, vícios de linguagem, gírias, vandalismo, e em último caso, envolvimento com a criminalidade e violência.
O pobre não é o problema, a pobreza é. Mas e quando a pessoa comete os mais banais atos de estupidez, expondo-se ao ridículo e se defendendo atrás da proteção que a sociedade os concede? Aparentemente ser pobre é digno de orgulho, mas o rico jamais deve se declarar abertamente orgulhoso de ser rico. Muitos pobres dizem “sou pobre mas sou feliz”, mas invejam a riqueza de seus patrões. São hipócritas, ninguém é feliz trabalhando excessivamente, sem fins de semana, sem tempo para a família e estando ausentes para ver seus filhos crescerem.
Os pobres culturalmente passam por cima dessas preocupações. São débeis, vivem como os animais que não tem a consciência de que vão morrer, a não ser quando estão em conflito um com o outro. Vivem em bandos em uma espécie de ajuda comunitária independente e territorialista. Neles existe uma espécie de relação latente entre mães solteiras e filhos sem pais. Rejeitam com todas as forças qualquer incentivo à educação, à política, à cidadania e ao respeito ambiental. Eles destroem a si mesmo e à sociedade neste processo, pois são péssimos eleitores.
Mas então acontece algo decisivo na sociedade e essa manada de pobres não pensantes revela plenamente seus instintos animalescos, na face da ferrenha luta pela sobrevivência. Dessa vez eles irrompem de seus bairros distantes e marginalizados e marcham para tomar o seu lugar.
Bruno vivia em um luxuoso apartamento de alto padrão na cidade do Rio de Janeiro. Da janela de seu quarto, no décimo primeiro andar, ele tinha a estimada vista para o mar. Ele nunca passou por dificuldades, nunca faltou nada em sua casa e nunca realmente compreendeu o que é passar fome, ou mesmo trabalhar para comprar o seu sustento. Tudo lhe era dado, nunca houve escassez ou falta de dinheiro para ele ou sua família.
Estudante de um tradicional colégio particular, ele tinha muitos amigos, todos saiam juntos, tiravam fotos sempre sorrindo, às vezes na própria sala de aula. Eles iam a muitas festas, frequentavam casas noturnas, viajavam para outras praias, faziam amizades onde passavam, iam à casa um do outro e às vezes os rapazes beijavam as garotas. Bruno e seus amigos eram de classe alta, ricos e felizes, despreocupados e de bem com a vida. Aos dezoito anos Bruno ganhou um carro de seu pai, e com o carro ele e seus amigos viajavam sempre. Sua página no site de relacionamentos era repleta de fotos em praias, cruzeiros e festas.
Alguns de seus amigos, os mais pobres e sem privilégios na vida, o invejavam considerando-o superficial, hipócrita, inútil, mimado e materialista, mesmo Bruno os considerando seus amigos, ironicamente porque assim ele satisfazia seu senso de “humildade” quanto aos desafortunados. Sim, era essa a maneira de Bruno satisfazer seu senso deturpado de humildade, negando seu status social, sua riqueza, sua sorte por nascer em uma família rica que o amava e lhe dava boa educação. Talvez ele seja um hipócrita como os seus amigos pobres pensam, pois apesar de negar a si mesmo, ele não deixaria sua vida de alto padrão, suas caríssimas roupas de marca e seu confortável apartamento de 300 m² para se mudar para as favelas, vivendo amontoado um sobre o outro em morros cobertos de barracos.
Assistindo a um popular seriado americano na TV, Bruno criou um certo fascínio pelo famoso tema de “invasão zumbi”. Ele achava muito interessante a ideia de uma pandemia global infectando os seres humanos e os transformando em zumbis. Obviamente era uma ideia ultrapassada, típica de filmes de terror da década de 70 e 80. “Invasão zumbi, qual era a possibilidade disso acontecer? Que ideia estúpida...!”.
Então a guerra nuclear começa. No início a cidade do Rio continuava funcionando normalmente, mas aos poucos o comércio e as escolas fecharam as portas. De repente era como se a famosa cidade turística ficasse deserta. Algumas semanas se passam e nuvens de cinzas chegam do oceano, a mesma fumaça dos incêndios que queimavam cidades inteiras no hemisfério norte. Eram as partículas da fallout, a poeira radioativa que contaminaria o planeta inteiro, levando a humanidade à extinção. As consequências da guerra nuclear entre as superpotências haviam finalmente chegado ao Brasil.
No primeiro mês a polícia conseguia controlar o tumulto. No segundo mês a escassez de alimentos, a contaminação da água e os diagnósticos de câncer começaram. No terceiro mês o caos era total. Protegidos da ralé pelas altas grades do condomínio, a família de Bruno sentia-se a salvo dos tumultos generalizados na cidade. Da janela de seu quarto ele via os policiais atirando balas de borracha, repelindo-os com jatos d´água e lançando granadas de efeito moral.
Mas então os mesmos policiais que mantinham a ordem, isto é, protegendo o patrimônio dos ricos em seus condomínios fechados, adoeceram contaminados pela radiação e não mais saíram às ruas para controlar os tumultos. A população desesperada saiu dos morros e favelas e avançou contra a cidade indefesa em busca de alimentos, água e remédios. Os pobres e desfavorecidos, dos quais Bruno “humildemente” os considerava amigos, invadiram as casas, os condomínios e as lojas do centro. Em suas mentes havia o ímpeto instintual daqueles que morrem de fome e lutam para sobreviver. Os habitantes das comunidades saqueavam, roubavam e matavam quem se opusesse, muitos dos quais eram traficantes de drogas que marchavam armados em busca do que quisessem saquear.
No prédio ao lado, Bruno assistiu a invasão dos favelados. Como ratos e baratas, eles pularam as grades, destruíram a portaria e subiram pelos andares. Alguns apartamentos, dos quais seus amigos moravam, arderam em chamas pelas mãos dos invasores. De repente o prédio inteiro começou a brilhar com o fogo, à distância ele ouvia os gritos dos moradores lá dentro, fazendo seus pais se apavorarem.
- Meu Deus! O que esses favelados estão fazendo?! – grita seu pai.
Bruno ouve aquilo e o repreende em pensamento. “Favela não, pai. Comunidade”.
O telefone toca. O síndico convoca a todos os moradores para pegarem o máximo que tem e fugir para a marina. Bruno e sua família pegam alguns pertences e deixam o apartamento. Colocando tudo no luxuoso sedan de duzentos mil reais, eles se espremem lá dentro e vão embora. Os moradores saem apressados do estacionamento, Bruno vê o porteiro pedir para o levarem junto, mas teve seu pedido ignorado e foi deixado para trás.
Seu pai acelera pela avenida, atropelando os saqueadores pelo caminho. Eles voam pelo para-brisa e sangue escorre no vidro. Ele é obrigado a ligar os limpadores, espalhando aquele denso líquido vermelho, enojando-os. Sua irmã fica histérica e sua mãe é obrigada a estapeá-la. A avenida à beira mar, tão bela e admirada pelos turistas, torna-se um hediondo banho de sangue e carnificina.
Enquanto avançam, Bruno vê sua cidade se tornar um inferno. Os pobres carregam itens roubados nas costas e alguns lutam entre si pela mercadoria roubada. Há ônibus em chamas por toda parte, tiros ecoam pelas ruas vandalizadas, prédios ardem em chamas, invasores destroem a entrada das lojas, policiais são linchados nas ruas... Quando eles chegam à marina, Bruno sente alegria e alívio ao deixar tudo aquilo para trás.
Caminhando às pressas pelo píer, eles despejam suas coisas no elegante iate. Seu pai então o conduz para longe da margem, deixando a marina pouco antes dos invasores alcançá-los logo atrás. Sua família e as famílias dos demais ricos estão finalmente a salvos.
À distância eles veem a cidade do Rio de Janeiro, a famosa “cidade maravilhosa”, tornar-se uma enorme cova a céu aberto, infestada de podridão e destruição. Os incêndios se espalham, a fumaça se eleva e rapidamente a violência predomina como um novo rei conquistador. A ralé venceu, afinal. Com seu instinto de sobrevivência, eles retomaram seu lugar na sociedade à força, através dos saques, dos assassinatos e do vandalismo. Tudo o que os ricos tinham, suas grandes mansões, seus apartamentos luxuosos, seus carros importados, seus jóquei-clubes e seus requintados condomínios... Tudo estava nas mãos deles agora, aquela gentalha pobre que mal sabia escrever. Os pobres que conheciam apenas a linguagem da violência, cujo nível cultural era nulo e que viviam amontoados como ratos.
Bruno se fascinava com a ideia de uma invasão zumbi, a queda da sociedade pelas criaturas carnívoras e estúpidas que procuravam por humanos não infectados para devorar. Não tão distantes de serem estúpidos, os pobres poderiam ser comparados a eles. Ao invés de devorarem carne humana, os pobres devorariam as riquezas alheias. O instinto carnívoro dos zumbis poderia ser a inveja dos miseráveis contra os ricos.
Os zumbis existiam afinal, só não eram mortos-vivos e não tinham esse nome.




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