O
Médico
Sentados
ao redor da fogueira, Harold conversa com o professor. Eles estão escondidos em
um túnel de metrô, esperando pelo amanhecer. Os dois comentam sobre os
sobreviventes encontrados recentemente. A jornalista, o advogado e a arquiteta
passaram por situações terríveis.
Timothy
lança pedaços de madeira no fogo. Lembrando-se de Marisa, ele comenta como o
destino foi cruel obrigando-a a sobreviver sozinha com um filho doente e uma
menina pequena. Ele conclui dizendo que a vida seria mais fácil se o marido da
jornalista ainda estivesse vivo.
Harold
não se sente bem. Sua consciência pesa ao lembrar-se de seu passado. Sendo um
homem insensível e realista, ele começa a duvidar se tomou a decisão certa. “A
vida seria mais fácil se o marido da jornalista ainda estivesse vivo”. O médico
ainda está vivo, mas estaria Melanie?
Pesadelos
são constantes todas as noites. A lembrança de sua esposa o atormenta. Ele a
deixou para trás! Uma mulher cadeirante e indefesa nas mãos de maníacos
estupradores. Se ao menos ele pudesse contar a Timothy... Os dois são grandes
amigos e Harold sabe sobre Lucy, a esposa do professor. Timothy a procura por
todas as cidades, escrevendo em seus cadernos pistas de seu possível paradeiro.
Mas se o professor soubesse do ato hediondo e covarde de Harold, a amizade dos
dois acabaria e ele certamente seria expulso.
Timothy
dedica sua vida a encontrar Lucy. Harold salvou sua vida ao abandonar Melanie.
Sendo um homem íntegro e idealista, o professor jamais daria razão à traição
condenável de seu melhor amigo. Os dois se tornariam inimigos e o médico
estaria sozinho novamente. Como Melanie com os saqueadores.
Percebendo
o olhar angustiado de Harold, o professor pergunta:
- Há
algo errado?
-
Não. – responde ele, solicitamente – É que esse ar pesado do túnel me deixa
desgastado. Deve ser o nível alto de monóxido de carbono.
À
frente e atrás do grupo há apenas a escuridão. O professor olha para as paredes
e vê os tubos e cabos elétricos, mais nada.
-
Você está com medo do escuro? – brinca ele – Quer ouvir uma história de
fantasmas?
O
médico sorri.
- De
que adianta ter medo do sobrenatural se o inimigo é bem real e visível?
-
Tem razão. – responde ele e então mexe nas brasas com uma pequena vareta.
Mais
tarde, todos estão dormindo. Harold está deitado, olhando fixamente para as
brasas na fogueira. Em seus pensamentos ele ignora sua falecida esposa, mas em
seu inconsciente ela ainda o atormenta.
Uma
hora depois ele se levanta e caminha pelo túnel. O professor consegue
enxergá-lo no escuro e rapidamente o chama.
-
Harold? Vai a algum lugar?
- Só
quis ver se já amanheceu. – responde ele – Que horas são?
O
professor acende a luz em seu relógio de pulso.
-
São 06h41min. O sol já apareceu mas as cinzas bloqueiam a luz. Só vai clarear
às 08h00min.
O
médico é impaciente.
- Eu
vou subir agora, ver o que há lá em cima.
-
Não consegue dormir de novo? Diga-me o que há de errado, Harold. Me fale a
razão de sua insônia. Faz dias que você está assim.
Ele
é evasivo ao responder.
-
Não é nada, Tim. Eu vou subir e daqui a pouco eu volto. – ele começa a caminhar
quando o professor o interrompe.
-
Espere. Eu vou com você.
Seguindo-o,
o professor o acompanha pelos trilhos. Eles caminham pela linha até chegar à
próxima estação logo à frente. O grupo esteve caminhando por dias e desceu para
procurar abrigo na noite passada. O professor pretendia avançar pelo subsolo e
assim evitando as áreas expostas na superfície.
Há
dois dias Harold encontrou uma lanterna na mochila de um homem morto nas
ruínas. A radiação havia contaminado-o e ele definhou até o último suspiro.
Pela expressão em seu rosto, ele sentiu muita dor, pedindo por um socorro que jamais
viria.
Timothy
usa a lanterna e ilumina o caminho. O facho de luz ilumina poucos metros à
frente.
-
Você se lembra dos abrigos nucleares no subsolo? Aqueles construídos durante a
guerra fria? – pergunta Timothy, iniciando uma conversa.
-
Sim, claro. Muitos se mataram para conseguir entrar neles.
-
Ouvi dizer que os antigos abrigos antibombas tinham suas entradas nas laterais
dos tuneis de metrô. Antes dos ataques, algumas pessoas foram atropeladas pelos
trens enquanto procuravam por elas. As estações tiveram de ser interditadas,
houve um caos no sistema de transportes.
Intrigado,
o médico pergunta:
-
Você acha que as entradas podem estar aqui? Bem ao nosso lado e nem sabemos?
O
professor ri.
-
Nem que estivessem, não faria diferença. Esses abrigos tiveram suas entradas
seladas, protegendo quem estivesse dentro da contaminação radioativa aqui fora.
Os abrigos são as últimas células vivas de um organismo prestes a morrer, e
para esses sortudos nós já estamos mortos. Os abrigos são arcas, santuários... Cofres...
-
Cofres?
-
Sim. Os cofres guardam as riquezas. Os abrigos fazem o mesmo, guardam os ricos
dentro de suas paredes. Se um dia o mundo voltar a ser habitável, eles serão a
nova gênese da humanidade. Mas para isso eles têm que esperar, nem que seja por
décadas, séculos, milênios ou para sempre.
-
Sinto inveja desses ricos. Enquanto eles estão nos abrigos, seguros, aquecidos
e alimentados, nós vagamos pelas ruínas fugindo de sanguinários assassinos. Eu
realmente os invejo, sinto ódio deles...
-
Talvez seja por isso que aquele maçom, o George, começou sua busca pelas
ruínas. Por ódio e inveja após ser deixado para trás.
Então
Harold se cala.
Chegando
à estação, os dois veem um local abandonado, empoeirado e coberto de sujeira.
Os passos ecoam na plataforma, evidenciando o vazio absoluto. O médico se
surpreende ao saber que um local onde antes havia milhares de pessoas, hoje não
tem mais ninguém. As escadas rolantes e as catracas estão enferrujadas, e a
bilheteria foi saqueada. No teto da estação estão as placas que indicavam as
ruas e avenidas movimentadas do passado, mas que hoje estão entulhadas e
desertas.
Os
dois saem pelas escadas que levam à superfície. A paisagem ainda está escura e
difícil de enxergar. O vento sopra pelos cantos e as nuvens de cinzas se movem
em movimentos circulares pelo céu.
Tudo
está silencioso e curiosamente tenso. Timothy se oferece para guiá-lo pelas
ruas. O médico sabe que ele está ali por sua causa e não acha justo que o
professor se arrisque por ele. Harold não quer mais essa responsabilidade e não
suportará a culpa se algo acontecer com Timothy.
-
Deixe que eu vou na frente, Tim.
-
Você sabe onde estamos?
O
médico nunca esteve naquela cidade antes.
-
Sei. Costumava vir aqui a trabalho.
No
começo o médico o guia cegamente pelas ruas e prédios abandonados. Há muitos
corpos nos carros enferrujados, pela aparência estão ali desde os primeiros
ataques. Alguns outdoors nos terraços balançam com o vento. É nostálgico como
as antigas propagandas de produtos, geralmente inúteis, fazem tanta falta
agora. A sociedade de consumo americana, com seu apetite voraz por tudo o que é
novo, foi devastada por outra sociedade de consumo emergente no outro lado do
globo. A ganância e a procura incessante por novos mercados finalmente
trouxeram o mundo ao fim.
Guiando-o
pelas ruas, Harold vê uma placa de trânsito escrito “hospital”. Lembrando-se do
grupo, ele comenta:
- Talvez
devêssemos ir a esse hospital e procurar por alguns remédios.
O
professor se atemoriza.
-
Ainda está escuro, Harold. É melhor esperar clarear, assim teremos certeza de
que não há ninguém lá dentro.
-
Vai clarear daqui a pouco, Tim. Se formos agora não teremos de arriscar o grupo
inteiro quando voltarmos.
Ainda
temeroso, Timothy concorda. Ele não sabe o que há de errado com Harold, mas se
convence de que o médico não será negligente em arriscar suas vidas porque algo
o atormenta.
Após
alguns quarteirões eles veem o prédio do hospital, um edifício antigo
aparentemente construído na década de 40. No pequeno jardim, entre a entrada e
a rua, há árvores mortas com suas folhas secas espalhadas pelo gramado.
Os
vidros das janelas estão quebrados. Provavelmente a onda de choque os destruiu
como todo o resto na cidade. Não se pode ver dentro, a escuridão incomum da
manhã e a penumbra permanente do prédio ocultam o interior. Sem se preocupar,
Harold atravessa a rua e passa pelo pátio das ambulâncias. O professor se
espanta com sua tranquilidade e o segue.
Harold
se dirige à entrada principal. As portas parecem terem sido embarricadas. Ele
se dirige à entrada de ambulâncias, no pronto-atendimento na lateral do prédio.
Há muito entulho e detritos na entrada, ele vê que algumas tábuas foram
pregadas nos batentes. Sem se importar com os sinais de presença humana ali,
ele chama o professor.
-
Ei, Tim! Pode me ajudar aqui?
Timothy
se aproxima cautelosamente, sempre olhando para trás e para as janelas do
hospital. Parado em frente à porta, ele encontra o médico. Dificilmente ele
consegue enxergar Harold, a escuridão ali é muito intensa.
- Me
ajuda a empurrar? – e então o médico lhe indica as tábuas.
O
professor estranha.
-
Harold, essas tábuas foram pregadas pelo lado de dentro. Pode haver pessoas
vivendo aqui.
- Os
hospitais foram saqueados logo depois dos primeiros ataques, Tim. Não há razão
para haver gente neste lugar.
- Se
foram saqueados então por que estamos aqui?
-
Trabalhei em um hospital onde havia um compartimento secreto na enfermaria. Era
uma medida de segurança contra viciados e hipocondríacos. Se tiver sorte
encontrarei um aqui também.
O
professor não se sente confortável.
-
Tem certeza do que está fazendo, Harold?
-
Confie em mim.
Os
dois empurram a tábua. Ela se enverga mas não solta os batentes. Ao insistir
algumas vezes, o médico procura algo no chão e encontra um bloco de concreto.
Pegando impulso, ele o bate contra a tábua, fazendo um som tão alto que
reverbera pelo interior do hospital e pela alma de Timothy.
-
Você está louco?! O que deu em você?! – grita ele.
- É
o único jeito de abrir. – e então ele continua batendo, propagando o mesmo som
barulhento pelo prédio e pelas ruas.
-
Pare! Alguém pode nos ouvir!
Apavorado,
o professor se aproxima rapidamente e segura seu braço, finalmente fazendo-o
parar.
-
Não precisa me segurar, Tim. Eu consegui abrir. – Timothy vê que a tábua se
soltou do batente – Agora me ajude a atravessar, está bem?
Ainda
contrariado, o professor o ajuda a passar pelas tábuas. No lado de dentro
Harold vê que muitas mobílias foram empilhadas, reforçando a barricada. Ele as
empurra e as cadeiras e bancos de plástico caem no chão, ecoando pelos
corredores escuros. O médico não se importa em ser sutil.
-
Harold! Tenha mais cuidado!
Mas
Harold não demonstra qualquer cautela. Ele avança pelas pilhas impetuosamente,
derrubando os móveis e abrindo caminho pela antiga recepção. Se o médico não
fosse seu amigo, Timothy daria as costas e iria embora daquele lugar o mais
rápido possível.
-
Venha, Tim! Agora podemos passar.
O
professor passa pelo vão das tábuas e se esgueira entre a mobília embarricada.
Pegando um pedaço de ferro do chão, ele acompanha o médico pelos corredores. Os
passos ecoam pelos cantos, o professor liga sua lanterna e ilumina as teias de
aranha no teto. Harold vai à frente, em passos determinados como se conhecesse
o hospital.
Eles
chegam a uma sala de espera com um balcão de informações. No alto da parede há
janelas entreabertas, com os vidros empoeirados e cinzentos. A luz do dia
penetra sutilmente a sala, iluminando a madeira apodrecida e a mobília
amontoada.
-
Que horas são?
Timothy
mira a luz da lanterna no rosto de Harold, ofuscando-o.
-
07h41m.
-
Certo. Eu vi uma placa indicando outra sala depois do corredor. Vou procurar os
remédios lá. Veja se encontra algo embaixo do balcão, Tim.
Harold
dá as costas e caminha tranquilamente pelo corredor do hospital, desviando-se
das teias de aranha e da vegetação pendurada no teto. Os quartos ao lado estão
totalmente escuros. Ao passar por eles, o médico tem a impressão de que há
alguém lá dentro, espiando-o da escuridão.
Ao
chegar ao fim do corredor, a porta do último quarto se abre. De repente um
homem salta à sua frente. Harold grita, o homem segura uma injeção metálica
enorme em seus dedos, espirrando um líquido verde. Então mais homens aparecem,
desta vez atrás dele. O médico nota que todos estão usando roupas azuis, luvas
de borracha, tocas para cabelos e máscaras cirúrgicas.
Apavorado,
o médico grita:
- Fuja, Timothy!
Os
homens veem o professor atrás do balcão e vociferam como animais. Incapaz de
ajudar Harold, ele corre desesperadamente para a saída. Em segundos Timothy
está no lado de fora do hospital, atravessando o estacionamento de ambulâncias
e a rua deserta.
Encarando-o
nos olhos, o homem enfia sua injeção no ombro de Harold, injetando o líquido. O
médico sente tontura instantânea e então cai no chão, desmaiando aos pés
daqueles homens misteriosos.
§
Alguém
sacode o ombro de Harold. Ainda atordoado pelo efeito da injeção, ele vê um
homem acordá-lo. A visão é embaçada e demora a focalizar, qualquer movimento o
desestabiliza e sua mente se contorce em dolorosos flashes.
-
Acorde! Você tem que acordar...!
O
homem tem uma voz infantil. Ele o põe sentado e Harold sente a saliva escorrer
de sua boca entreaberta. O médico olha para o teto e pensa estar ao ar livre,
as luzes cinzentas do dia invadem o ambiente. Ele ouve muitos sons e ruídos ao
redor, além dos dois parece haver dezenas de pessoas ali.
Harold
retoma a consciência e vê um salão com cadeiras e cestos de lixo espalhados
pelo piso. Ele vê janelas no teto, iluminando o ambiente com a luz do dia. O
médico vê um homem ao seu lado, observando-o atenciosamente.
-
Quem é você? – pergunta ele, esforçando-se para manter-se acordado.
- Eu
sou Gregory, mas todos aqui me chamam de Greggy.
Ao
olhar bem, Harold nota que o tal Gregory é um retardado. Apesar de aparentar trinta
anos, aquele homem age, fala e se comporta como uma criança. Porém sua
aparência não é de quem tem a Síndrome de Down.
-
Onde eu estou?
-
Aqui é nossa casa. Bem, é assim que chamamos, afinal nós vivíamos aqui antes da
bomba atômica levar o sol embora.
-
Levar o sol embora...?
- É.
A bomba atômica ateou fogo no mundo. Tudo explodiu e foi destruído! A terra
tremeu e o vento quebrou todos os vidros das janelas! Quando os incêndios
apagaram, deixou nosso mundo em cinzas. Você já queimou papel? Ou acendeu um
palito de fósforo? É a mesma coisa. O mundo virou cinzas e a fumaça tampou o
sol.
Gregory
gesticula erguendo e abrindo seus braços, como se os gestos complementassem as
palavras que ele tentava falar.
-
Então você vivia neste hospital antes da guerra?
-
Sim, e meus amigos também. Mas depois que a bomba atômica caiu, meu pai nunca
veio me buscar. Acho até que ele nunca gostou de mim. Nós ficamos sozinhos
aqui, andando pelos corredores escuros e vazios esperando por nossos pais. – o
homem se entristece ao lembrar – Mas então esses médicos vieram. Não os que
cuidavam da gente, mas outros...
-
Outros?
-
Eles dizem que cuidam da gente. Nos dão medicamentos e injeções, remédios e
pílulas. Mas eles são homens maus. Nos batem, xingam, chutam e dão tapas.
Muitas vezes não temos comida nem água, só os remédios e injeções que nos
deixam doentes.
Gregory
indica os outros médicos e sussurra: “eles estão aqui!”.
Harold
vê vinte homens vestidos com roupas de cirurgião maltratarem algumas pessoas na
sala. Aquelas pessoas são os amigos de Gregory, os antigos pacientes do
hospital que ele mencionou anteriormente. Para o horror de Harold, os pacientes
são doentes e inválidos. Dentre eles há portadores da Síndrome de Down,
autistas, mudos, cegos, cancerosos, paralíticos e amputados. A maioria é como
Gregory, retardados mentais incapazes de viverem sozinhos.
O
médico também se espanta ao ver homens vestidos de enfermeiras, com os típicos
aventais e lenços na cabeça. Sabendo de quem se trata, Harold responde em
lamentos:
-
Saqueadores...
Uma
das “enfermeiras” se aproxima. É um homem alto, barbudo e com olhar cruel. Ao
ver Gregory conversando com Harold, a enfermeira o puxa pela roupa e lhe dá um
tapa no rosto. Em seguida o empurra para o centro do salão onde estão os outros
cativos.
-
Dr. Moreau! Nosso visitante acordou!
Então
um homem vestido com roupas longas e verdes, e um lenço ao redor de sua cabeça,
aparece entre os saqueadores. O médico percebe que ele está imitando o
personagem de Marlon Brando no filme A
Ilha do Doutor Moreau. Aproximando-se de seu rosto, o saqueador pergunta:
- O
que está fazendo aqui, rapaz?
Harold
não é nenhum rapaz, ele é um médico endocrinologista bem sucedido com quase
cinquenta anos. O tal Dr. Moreau fala como se fosse um cientista velho e
inteligente, capaz de criar seres humanos através da vivissecção de animais.
-
Vim procurar por remédios.
-
Mas por que você queria remédios? Você não me parece doente. Veio aqui para
tirar os remédios dos verdadeiros doentes? – e então ele aponta para Gregory.
-
Não achei que o hospital ainda tivesse pacientes.
- É
óbvio que têm pacientes! Estamos em um hospital! Não vê que nós somos os
médicos aqui?
Então
todos riem perversamente.
-
Vocês não são médicos. Vocês são saqueadores! O que estão fazendo aqui é
desumano e cruel, infectando os retardados com suas seringas!
Os
saqueadores se enfurecem. Moreau é taxativo ao responder:
- Estamos
tratando dos doentes. Se não fosse por nós, não haveria ninguém aqui. Esta é
uma ação filantrópica, humanitária. Vamos curar os doentes. Com todos os meios necessários. Se você
fosse médico saberia.
-
Mas eu sou médico. – responde Harold, incisivamente.
-
Você é médico...? – surpreende-se Moreau – O que está dizendo, rapaz?
- Eu
sou um médico endocrinologista. Sou especializado em glândulas, secreções
fisiológicas, neuroendocrinologia, tireoide, diabetes, metabolismo e adrenais.
Nenhum
daqueles homens desequilibrados e estúpidos entende o que Harold está falando.
-
Ora, isso é ótimo! – exclama Moreau, disfarçando sua ignorância – Nós realmente
queríamos ampliar o nosso quadro de funcionários. Como se chama?
-
Harold Perkins.
-
Seja bem-vindo ao hospital, rapaz! Ou devo dizer, Dr. Perkins. – Moreau olha
para o homem vestido de enfermeira e diz – Enfermeira Nancy, leve nosso hóspede
para a ala sul, por favor.
Pensando
que a situação ia melhorar para ele, Harold logo é desiludido quando o tal
Nancy chuta seu rosto, fazendo-o cair para trás. Então o enfermeiro o carrega sobre
o ombro e o leva pelo hospital arruinado.
Com
a mesma truculência de antes, Nancy o lança no chão. Harold está em um quarto
com um leito sujo e uma TV empoeirada na parede. A janela está fechada mas o
vento frio passa pelas frestas, fazendo a cortina rasgada balançar.
Harold
tenta se levantar e se segura na beirada do leito. Deitando-se no colchão, ele
sente cheiro de sangue coagulado. Aparentemente alguém sangrou ali até morrer.
Dentro
do quarto há alguns móveis velhos e quebrados. No canto da parede há algo que o
paralisa de medo, espantando-o profundamente. Ele vê uma velha cadeira de
rodas, idêntica à de Melanie. Por alguma razão aquela cadeira lhe traz mal
agouro, provocando-lhe repulsão.
Nancy
está parado na porta, vigiando para que ele não fuja. Ele nota como o médico
olha fixamente para a cadeira, com seus olhos arregalados e seu semblante de
espanto. O saqueador entra no quarto, senta-se em uma poltrona e pergunta:
- O
que há de errado com a cadeira? Não gostou da decoração?
- Se
eu responder que não você vai chutar minha cara de novo?
Estranhamente
o homem sorri, achando graça da resposta provocativa de Harold.
-
Você já precisou usar uma cadeira de rodas?
-
Não, mas alguém muito próximo precisou.
-
Foi um de seus antigos pacientes?
O
médico suspira ao tocar no assunto.
-
Gostaria que fosse.
Então
o saqueador faz um olhar de consternação.
-
Sabe... – diz ele, estranhamente iniciando uma conversa – Certa vez eu parei em
um posto de gasolina para assaltar o caixa e arranjar uma grana. Minha namorada
estava comigo e ficou me incomodando para irmos embora. Eu não podia ir, o
atendente era um paspalho e merecia ser assaltado simplesmente por ter cara de
idiota. Minha namorada me incomodou tanto que me distraí. Foi o tempo
necessário para o atendente chamar a polícia.
- E
o que aconteceu? – pergunta Harold, interessando-se.
-
Atirei nele, mas a bala acertou seu ombro. Ele caiu e eu pulei o balcão para
roubar o dinheiro. A polícia estava chegando, então nós montamos em minha moto
e fugimos pela estrada. As viaturas nos perseguiram durante um longo tempo. Eu
saquei minha arma e atirei contra os policiais, tentando afastar aqueles
malditos teimosos de mim. Foi um erro. Eles revidaram e atiraram contra nós.
O
médico não consegue esconder a curiosidade.
- E
então? Você foi atingido?
-
Não. Infelizmente não. Os policiais atiraram na gente e uma bala acertou a
coluna de minha namorada. Ela caiu no asfalto e as viaturas quase passaram por
cima dela. Naquele momento percebi que era a hora de me entregar. – sorri ele.
- E
o que aconteceu com ela?
-
Ela perdeu os movimentos das pernas. O quadro irreversível a forçou a usar uma
cadeira de rodas para sempre. Eu fui mandado para a prisão, mas fui solto anos
depois. Bom comportamento eles disseram. Os babacas nunca souberam que eu
vendia drogas na cadeia...
Nancy
parece não se importar com sua namorada.
-
Mas e quanto a ela? Você não cuidou dela depois? Afinal foi uma tremenda
irresponsabilidade o que aconteceu, não acha?
- Eu
cuidei dela até o último dia de sua vida! – exclama ele – Ela estava sempre triste, havia tanto ódio,
tanta mágoa, tanto rancor... Mesmo assim eu fiquei com ela, assumi a
responsabilidade de meus atos e fiz o possível para que ela tivesse uma vida
digna. Assaltei lojas, roubei carros e invadi casas para arrumar dinheiro para
nós. Mas então a guerra começou, as bombas caíram e as cidades viraram pó.
Minha namorada morreu no primeiro ataque, eu estava longe e não vi acontecer.
Ouvi dizer que o prédio onde ela morava desabou em cima dela. Imagino como deve
ter sido ver todo mundo correndo para fora e ela se rastejando pelo chão,
implorando inutilmente para que alguém a ajudasse. Maldita guerra nuclear.
Harold
fica pesaroso. Um homem criminoso passou por algo semelhante e diferente dele,
ficou para cuidar de sua mulher. Foi a esse nível que o médico desceu? Pior do
que um desprezível criminoso?
-
Isso é horrível.
- Vi
o jeito que você olhava para ela – Nancy indica a cadeira – Eu também não gosto
de cadeiras de rodas. Me traz más lembranças.
Então
o saqueador se levanta e volta ao corredor. Harold fica sozinho no quarto, olhando
fixamente para a cadeira de rodas enquanto sente um peso em sua consciência.
§
No
meio da tarde outro saqueador vem ao encontro de Harold. É um homem calvo,
vestido com um terno cinza escuro e gravata. A vestimenta está velha e rasgada.
O médico se assusta ao ver uma máscara de aço cobrindo metade de seu rosto. A
máscara tem uma pequena abertura na boca e pequenos furos para o nariz. Ela
está presa na cabeça do homem por cintos de couro em sua nuca. Harold já viu
aquela máscara antes, mas não se lembra de onde.
O
saqueador o encara, mirando seus olhos azuis arregalados para ele.
-
Boa tarde, doutor. Eu sou o Dr. Lecter.
O senhor é o médico do qual todos estão falando?
“Lecter?!”
pensa ele. Harold nota que o homem tenta ser elegante e eloquente em suas
ações. Mas seus olhos e aquela maldita máscara não podem esconder sua
mentalidade psicótica, conforme o personagem que ele tenta imitar.
-
Sim. – responde ele – Eu sou Harold Perkins, médico endocrinologista.
Dr.
Lecter o encara por longos segundos antes de responder. O médico se apavora, o
que aquele louco estaria pensando?
-
Excelente. – responde ele, enfim – A presidência do hospital gostaria de
conversar com o senhor. Estamos conduzindo pesquisas e experimentos e
gostaríamos que o senhor nos ajudasse. Gostaria de vir comigo, Sr. Perkins?
-
Presidência do hospital? Mas do que você está falando? Isto não é um hospital!
É um prédio em ruínas usado como cativeiro de retardados e inválidos! E também
um abrigo de assassinos e maníacos como você!
O
saqueador se intriga.
- Eu
não entendo a razão de sua rudeza, Sr. Perkins. Certamente que isto é um
hospital. Não viu as ambulâncias lá fora? Ou os pacientes no átrio e as
enfermeiras? – ele indica Nancy.
-
Isto é loucura...
-
Entendo que foi um choque para você ouvir seu diagnóstico. Muitos pacientes não
aceitam suas doenças e passam a negá-la decididamente. Estamos aqui para
ajudá-lo, Sr. Perkins. Mas para isto precisamos que o senhor nos ajude.
-
Doença? Diagnóstico? Eu não estou doente!
-
Ninguém te informou? – o saqueador pega um prontuário com as folhas amareladas
na borda de sua cama – O seu prontuário diz outra coisa. Meningioma. O senhor
tem um tumor cerebral, Sr. Perkins.
-
Meningioma?! Me dê isso aqui! – o médico tira o prontuário da mão de Lecter e o
lê – Isso é ridículo! O prontuário está no nome de uma mulher de setenta e oito
anos chamada Mary-Ann Walmore!
- Então
o que veio fazer aqui? – retruca Lecter, mantendo a compostura – Não são os
doentes que vêm ao hospital para serem curados?
- Eu
vim buscar remédios!
-
Por que queria remédios se não está doente?
Harold
se cala. Ele não pode revelar a existência do grupo.
Dr.
Lecter pede para que Nancy o levante da cama.
-
Sr.Perkins, temos uma política severa contra pacientes indisciplinados. Sugiro
que o senhor se acalme e nos deixe ajudá-lo. Estamos em uma situação recíproca.
Precisamos de sua ajuda também. O senhor me acompanha?
Percebendo
a impossibilidade de dialogar racionalmente com aquele desequilibrado, o médico
aceita. Nancy o segura no braço e o conduz pelos corredores. Lecter indica uma
escada. Harold se assusta ao ver marcas de sangue seco escorrido pelos degraus.
No
andar superior, ele é levado para outro salão. O médico vê mais saqueadores com
roupas de cirurgião maltratarem seus “pacientes”. Dr. Lecter para em frente a
uma sala e informa a alguém que Harold está ali. Recebendo a permissão, Nancy o
leva para dentro.
Sentado
atrás de uma mesa, um homem escreve em seus formulários. Harold se intriga,
aquele homem veste uma espécie de uniforme militar. Há um quepe em sua cabeça e
sua roupas são cinzas com símbolos exóticos. Na gola de seu casaco há uma costura
em forma de SS, em seu braço esquerdo está costurado uma águia de braços
abertos e em seu bolso esquerdo há um broche de ferro em forma de cruz de
malta.
O
homem lhe indica a cadeira e Harold se senta. Ele nota que seu quepe tem a
mesma águia e também um símbolo estranho, mais macabro. O médico vê uma caveira
com dois ossos. “Esta não é a Totenkopf...?” pensa ele.
-
Boa tarde, Sr. Perkins. Eu sou o Dr. Josef Mengele, chefe da ala de pesquisas
genéticas do hospital.
-
Você é quem?! – Harold não consegue acreditar. Ele, um homem de quase cinquenta
anos, está em uma situação tão absurda que parece brincadeira.
- O
Dr. Lecter já lhe informou a situação, não é mesmo? – pergunta ele, sorrindo
com a mesma simpatia do verdadeiro Mengele – Estamos conduzindo experiências
genéticas. Gostaria que o senhor nos ajudasse.
-
Que tipo de experiência?
-
Queremos curar os pacientes, Sr. Perkins.
-
Como? Com vivisecções, amputações e envenenamentos a gás?
Mengele
sorri novamente. Levantando-se de sua cadeira, ele caminha pela sala com as
mãos dadas em suas costas.
- As
pessoas têm uma opinião muito errônea do trabalho que faço, dos experimentos
que conduzo e do progresso que alcanço. Pense nas doenças congênitas, Sr.
Perkins. Diferente dos fatores externos, por exemplo as infecções, os vírus e a
radiação, são causas simples de se determinar. Mas e quanto às doenças que
nascem dentro de você? Que se escondem nos genes, incubadas à sombra de sua
saúde apenas esperando para se revelarem em algum momento de sua vida? – ele tira
seu quepe, seca o suor de sua testa e então continua – Veja nossos pacientes.
Alguns são retardados, outros com síndrome de Down. Eles nasceram doentes. Se não forem curados, poderiam eles ter uma vida
“normal”?
-
Eles são normais! Eles tiveram sua
inclusão na sociedade, apesar de serem diferentes.
-
Ora, pelo amor de Deus! Até quando vocês, saudosistas do velho mundo,
continuarão mentindo para si mesmos? A sociedade que conheciam não existe mais!
Seus programas e inclusões, por mais filantrópicos que fossem, eram todos
hipócritas em essência! Ninguém quer
um filho retardado, ninguém adotará um retardado, nem mesmo os empregarão! O
mundo foi destruído, mas não foi o fim. Estamos vivos para começar de novo,
desta vez sem as velhas hipocrisias. Através do nosso trabalho encontraremos a
cura dos doentes!
Irritado,
Harold exclama:
-
Mas vocês não são médicos! Vocês são saqueadores! Assassinos sanguinários que
vivem dos pertences dos peregrinos! Você pode ficar na sua Auschwitz
imaginária, mas eu não farei parte de nenhuma “experiência” genética!
-
Nosso trabalho não é imaginário. Depois de anexar enxertos e substituir membros
inteiros, muitos paralíticos puderam andar... Antes de sucumbirem à própria
agonia.
Harold
lhe faz um olhar horrorizado.
- Me
recuso a acreditar nisso.
-
Veja. Muitos avanços na medicina só foram alcançados através de métodos não convencionais. A finada sociedade
impunha muitas barreiras a esses brilhantes médicos, muitas vezes os
condenavam! Se uns poucos morrerem para salvar centenas de milhares, deveremos
muito a essas cobaias humanas.
-
Por favor, não fale mais. Nada justifica tamanha insanidade.
Contrariado,
o Dr. Mengele desiste de tentar convencê-lo.
-
Bem, eu realmente gostaria que o senhor me entendesse, Sr. Perkins. Vou pedir à
enfermeira Nancy que te leve ao nosso outro presidente. Ele pode convencê-lo.
Espero que trabalhemos juntos daqui para frente.
Nancy
o segura pelo braço e o puxa para fora.
Enquanto
caminha pelo hospital, Harold passa pelas antigas salas onde ficavam os pacientes.
Alguns paralíticos são mantidos lá dentro, amarrados às suas camas. Os
retardados brincam no corredor, alguns choram como crianças. O médico vê um
homem de muleta sofrendo abusos, caminhando com dificuldade enquanto é agredido
e insultado pelos saqueadores.
Harold
vê outras enfermeiras também, todos homens vestidos de mulher, usando o típico
chapéu branco e saias até os joelhos. Algumas sentam atrás dos balcões e
encenam trabalhar normalmente, chegando a anunciar os médicos através dos
interfones. Mas a maioria é violenta como todos os saqueadores. Apesar de suas
roupas femininas, a truculência é a mesma e eles maltratam os pacientes do
hospital, espancando-os e injetando-os substâncias que eles não sabem o que são.
Ao
passar por uma sala, Harold vê o infame Dr. Lecter lá dentro. Ele está sentado
e há um prato de comida sobre a mesa. Como se estivesse hipnotizado, ele olha
fixamente para a parede enquanto leva seu garfo até a boca. A aparência da
comida é repulsiva, mas familiar. “Seria aquilo um cérebro?”.
Chegando
a outra parte do hospital, Harold lê uma placa no corredor: “Departamento de Prevenção
de Epidemias”. A placa foi escrita à mão sobre as letras que indicavam outro
local.
Ao
chegarem a uma porta, Nancy a abre e informa que Harold está ali. O médico não
entende a razão de tantas formalidades, afinal aqueles homens eram reles
marginais que se aproveitaram da devastação do mundo para imporem sua ordem.
Ao
entrar, o médico vê outra figura intrigante de aparência degenerada. É um homem
vestido com uniforme militar, de cor verde clara e detalhes vermelhos, cinto de
couro com bolsa e botas marrons. Ele também veste um quepe militar, verde com
uma faixa vermelha. Ao olhar em seu rosto, Harold reconhece um asiático, um
japonês talvez. O homem usa óculos redondos e há fios longos de barba em seu
queixo.
-
Dr. Perkins? – diz ele, indicando-lhe uma cadeira.
Ao
se sentar, o médico pergunta ousadamente:
-
Quem é você? Outra figura histórica ou fictícia que vocês tentam imitar?
O
asiático sorri.
- Eu
sou o Dr. Shiro Ishii, cirurgião-chefe do Departamento de Prevenção de
Epidemias. Prazer em conhecê-lo.
Ao
ouvir este infame nome, Harold se enche de indignação.
-
Vocês são todos loucos.
- Se
você está aqui é porque o Dr. Mengele não conseguiu convencê-lo, não é mesmo?
Pois bem. Mengele é um homem prudente, equilibrado, pensou que poderia
convencê-lo com suas palavras sem ter de mostrá-lo nossos progressos
cirúrgicos. Ele quis preservá-lo, afinal o senhor ainda não se desapegou do
mundo antigo, com suas leis moralistas que retardavam o avanço da medicina.
Como pode um médico trabalhar com a ética coibindo-o, não é mesmo? – conclui
ele, sorrindo.
-
Nem você, nem o tal Mengele e nem o louco desvairado do Lecter são médicos.
-
Você não viu meu diploma na parede? – o Dr. Ishii indica um quadro contendo um
documento antigo. Harold lê um nome japonês nele.
-
Então por que o pseudônimo? Esse documento é falso.
Desanimado,
o homem tira seus óculos e limpa suas lentes com um pano.
-
Sr. Perkins, gostaria que o senhor fosse mais receptivo. Logo vi que tem uma
personalidade forte e intratável. Quando fundamos este hospital, Dr. Mengele e
eu idealizamos um local de cura, um bastião de esperança para os inválidos e
desafortunados. Nossa equipe de cirurgiões e enfermeiras compartilha desse
ideal e tem trabalhado duro para resgatar a dignidade dos pacientes. Fora
dessas paredes o mundo agoniza em morticínios e doenças. Se não forem pessoas
como nós, quem dará esperança a essas pessoas?
-
Esperança? Vocês não dão esperança, vocês as tiram. Vocês não fundaram este
hospital, vocês o invadiram e o saquearam, tomando para si tudo o que sobrou
desses pacientes abandonados. – o médico faz uma pausa – Aqueles que foram
deixados para trás.
Dr.
Ishii olha para Nancy e diz:
-
Enfermeira Nancy. Por favor, leve nosso hóspede de volta ao seu quarto. Amanhã
conversaremos novamente.
§
A
noite vem e tudo se escurece no hospital. Nancy trancou a porta de seu quarto,
o mesmo em que esteve horas atrás. Como se estivessem em um calabouço, os saqueadores
andam pelos corredores com tochas nas mãos. Harold pode ver a luz amarelada
passando pelo vão da porta.
Sem
saber se é real, o médico ouve sons abafados de gritos. Ele pensa que são os
pacientes, mas eles dormem no salão ao lado. Quem poderia ser?
Alguém
entra no quarto de Harold. Seus passos são desordenados e confusos, ele carrega
algo em suas mãos. É uma bandeja do refeitório.
- Eu
trouxe sua comida, Sr. Higgins. Você está com fome?
O
homem fala e gesticula como uma criança. Então o médico o reconhece.
-
Gregory? É você?
-
Sim. Você está bem?
Alguém
grita da porta.
-
Ei, Greggy! Anda logo com isso, seu retardado!
Gregory
lhe dá uma colher de alumínio e Harold começa a comer. O médico estava com fome
e comeu toda a refeição na bandeja, sem se incomodar se ela estava gelada ou
com gosto estranho.
-
Você gostou, Sr. Higgins?
-
Sim. – responde ele, um pouco incomodado.
-
Fui eu que fiz.
Então
Harold arregala os olhos. Seu estômago começa a se revirar e uma ânsia terrível
lhe ataca.
-
Amanhã eu trago mais. Estou muito feliz que você está aqui. Os médicos disseram
que você veio para nos ajudar. Muito obrigado, Sr. Higgins.
Por
impulso ou seguindo algum protocolo mental, Gregory o abraça calorosamente. O
médico se irrita e o empurra.
-
Meu nome não é Higgins. É Perkins.
O
homem lhe dá as costas e diz:
-
Até amanhã, Sr. Higgins!
Ao
sair, o saqueador tranca a porta. Ainda irritado, o médico sussurra:
-
Maldito retardado...
O
saqueador deve ter deixado a tocha presa na parede no lado de fora. A luz do
fogo passa pelos vãos da porta fazendo uma tênue penumbra no quarto. Os objetos
e a mobília são visíveis, inclusive a cadeira de rodas.
Deitado
na cama, Harold olha fixamente para a cadeira. Aquela insignificante cadeira
parada ali, em um canto escuro do quarto de frente para ele. De olhos abertos,
o médico entra em estado catatônico. Ele não consegue dormir, mal consegue
piscar, é como se alguma coisa naquela cadeira lhe tirasse a paz. Ele sente
como se houvesse alguém sentado ali, alguém invisível sentado de frente para
ele.
O
sono começa a reivindicar sua consciência. Ele fecha os olhos e, ao abri-los,
tem a impressão de que a cadeira saiu do lugar. A cada piscada seus olhos o
enganam, fazendo-o pensar que a cadeira está se movendo pelo quarto. “Como isso
é possível?”.
§
Na
manhã seguinte ele é acordado por Gregory. Sua cabeça dói e ao olhar para a
cadeira, vê que ela está exatamente no mesmo lugar. Nada mudou.
Gregory
o sacode, irritando-o. O médico então o empurra.
-
Saia de perto de mim, seu retardado irritante!
A
enfermeira Nancy aparece no quarto segurando um bastão com pregos na ponta.
-
Venha. O Dr. Mengele quer vê-lo.
Levando-o
pelos corredores, eles chegam às escadas. Desta vez Nancy o conduz para baixo,
rumo ao porão do hospital.
No
subsolo, Harold se surpreende ao ver que o corredor é iluminado por lâmpadas
fluorescentes. Então ele vê a pequena sala onde está o gerador usado apenas em
casos de emergência.
No
fim do corredor há uma porta dupla, o Dr. Mengele o espera na entrada. Um
letreiro acima teve suas letras originais apagadas e no lugar escreveram “Bloco
10”.
-
Bom dia, Sr. Perkins. Pronto para ver nossos experimentos?
Ao
abrir as portas, um cheiro terrível de formol e carne em decomposição invade
suas narinas. Dentro do Bloco 10, o médico vê algo que jamais irá esquecer.
Deitados
nas macas, Harold vê dezenas de aleijados e paralíticos terem seus membros
serrados pelos “cirurgiões” de Mengele. Os pacientes parecem estar sob o efeito
de drogas, muitos olham horrorizados para seus próprios membros sobre a mesa.
Utilizando talas e próteses, os cirurgiões tentam anexar os ossos dos
pacientes, costurando-lhes pernas saudáveis e assim “curando-os” da paralisia.
Então é essa a cura de que Mengele falou?
Adentrando
ainda mais o local, Harold vê mais experiências com seres humanos. Ele vê pacientes
mergulhados em tanques de água gelada para estudar a hipotermia, vítimas de
envenenamento tendo seus corpos abertos para autópsia, testes aleatórios de
substâncias químicas nocivas no organismo, exposição à radiação, afogamentos
assistidos e injeção de produtos químicos nos olhos na tentativa de mudar a cor
da íris.
Indicando-lhe
outra seção, Dr. Mengele comenta:
-
Esta é minha pesquisa favorita. Genética.
Harold
vê corpos mutilados de gêmeos sobre as macas. Ele vê uma jaula onde mais gêmeos
são mantidos presos, aguardando o dia de suas mortes em uma sessão de
excruciante dor.
Mengele
diz:
-
Eis a razão de não me deixarem ser cirurgião. – ele ergue as mãos, trêmulas
como se tivesse síndrome de Parkinson – Mas hoje não há mais ninguém para me
impedir de exercer minha profissão.
Distraído
com aquela carnificina, alguém se aproxima atrás dele e diz:
-
Bom dia, Sr. Perkins. Vejo que já conheceu o Bloco 10.
O
médico olha para trás e vê o Dr. Ishii cumprimentá-lo com muita educação. Ele
então pede para Nancy levar Harold para o local indicado.
De
volta ao corredor, o médico vê outra porta dupla com um letreiro acima. Está
escrito “Maruta”. Ao entrar, Harold vê outra exibição diabólica de perversão e
horror.
Com
a ajuda de mais cirurgiões, o tal Dr. Moreau faz vivisecção sem anestesia nos
pacientes. Eles estudavam o efeito do corpo humano após a remoção dos órgãos e
a infecção de doenças. Os pacientes eram os retardados que vagavam pelo
hospital. Ao serem infectados com o uso de enormes agulhas, muitos choravam
como crianças. Outros tinham seus corpos abertos com bisturis enquanto os
saqueadores os imobilizavam sobre as macas.
Dr.
Ishii indica as pesquisas epidêmicas. Os saqueadores injetam germes que causam
sífilis e gonorreia nos pacientes. Outros são infectados com cólera, antraz e
peste bubônica. Há uma pequena câmara com o símbolo de radiação na porta,
alguns pacientes são colocados lá dentro e expostos a doses letais de raio-x.
A
vertigem o desequilibra. À beira de um colapso, o médico sussurra:
- O
que vocês estão fazendo a essas pessoas...?!
-
Estamos procurando por uma cura. – responde Ishii, rispidamente – E vamos
encontra-la, Sr. Perkins. Como disse antes, o mundo está doente. Nosso trabalho
trará o encerramento das dores, o remédio confortante a um mundo moribundo.
Quantas pessoas lá fora estão doentes pela radiação e o inverno nuclear?
Quantas pessoas foram aleijadas pela explosão das bombas? E se eu dissesse que
há uma esperança para aqueles que sofrem? Que nosso trabalho pode ajudá-las?
-
Trabalho?! – o médico fica indignado – Tortura e assassinato é trabalho?! O que
está fazendo aqui é bestial! Jamais vi algo tão sádico e sanguinário em toda
minha vida! Este porão... – diz Harold, ofegando – é o portão do próprio
inferno!
Então
o Dr. Ishii ri.
-
Como pode criticar meu trabalho? O que um médico como você está fazendo para
salvar o mundo? Você invade este prédio com a intenção imoral de roubar os
remédios e tem a audácia de nos chamar de saqueadores. Nestas circunstâncias,
quem é o saqueador? Eu era um médico antes da guerra e continuo um médico, faço
meu trabalho, salvo vidas. O que você é agora? Um ladrão?
-
Você conduz experiências em seres humanos, usando retardados e inválidos como
cobaias! E as disseca enquanto ainda estão vivas...! Como pode ser tão
diabólico?
- E
de que eles servem além de serem cobaias aos meus experimentos? Seja realista,
Sr. Perkins! Seja razoável! Estamos usando retardados
e inválidos, como acabou de dizer. Que utilidade eles tinham na sociedade
antigamente? Caso não tenha percebido, estas pessoas foram abandonadas aqui
para apodrecer! Nas ruínas do mundo atual, que chance eles têm lá fora? Você,
sendo um médico, nunca pensou nisso?
Harold
hesita por um segundo. Pela invalidez ele abandonou Melanie. Pela invalidez ele
a deixou para trás.
-
Mas eles são seres humanos... Não merecem esse tratamento.
-
Não seja tolo! Antes do mundo acabar a Medicina estava de mãos amarradas devido
à maldita ética! Não nos era permitido nem usar animais! Aceitando ou não,
saiba que os maiores avanços na medicina foram alcançados com experiências em
seres humanos, como ocorreu tanto na Segunda Guerra Mundial. Ou você desconhece
a Operação Paperclip e a absolvição do verdadeiro Dr. Shiro Ishii?
Ainda
sentindo tontura, o médico diz:
-
Por favor, eu tenho que sair daqui...
Ishii
respira fundo. Cedendo ao seu pedido, ele responde:
-
Agora o senhor sabe porque eu não quis mostrá-lo nossas pesquisas. Gostaria que
tivesse se convencido antes.
Nancy
o leva de volta ao corredor. Naquele subsolo hediondo os gritos dos pacientes
são ensurdecedores. Então ele percebe de onde vem os gritos à noite. Harold
senta-se em uma cadeira, colocando as mãos no rosto.
Dr.
Mengele aparece e pergunta ao Dr. Ishii:
- E
então? Ele aceitou trabalhar conosco?
-
Não. E acho que não vai. – lamenta-se ele.
-
Dr. Ishii, devo lembrá-lo de que precisamos de mais cobaias para as
experiências. Dr. Lecter se ofereceu para capturar mais paralíticos nas ruínas.
Se tivermos sorte, encontraremos outra cadeirante como aquela mulher alguns
meses atrás.
-
Está dizendo aquela em posse dos saqueadores dos subúrbios?
Imediatamente
Harold se assusta, ouvindo-os atentamente.
-
Sim. Ela foi uma excelente aquisição. Veio com tantas doenças venéreas que me intrigava
como ainda estava viva.
-
Ela não era uma paralítica, Mengele. Ela sofreu uma fratura na coluna dorsal,
um acidente de carro talvez. Precisamos de cobaias com paralisia verdadeira. De
qualquer forma, mande o Dr. Lecter. Quanto mais retardados e inválidos melhor.
Nancy
o leva de volta ao seu quarto. Antes de trancar a porta, o saqueador diz:
-
Você vai se arrepender de não ter aceitado, doutor. As coisas vão ficar bem
ruins para você agora.
Então
ele fecha a porta, encerrando-o naquele quarto imundo com aquela maldita
cadeira de rodas.
§
À
noite Gregory retorna com a comida. Ao entrar no quarto, algo o incomoda,
fazendo-o olhar para a cadeira de rodas. Ele encena cumprimentar alguém e então
se dirige a Harold. Intrigado, o médico pergunta agressivamente:
- O
que você acabou de fazer? Quem você cumprimentou ali, Greggy?
Ele
não responde, apenas deixa a bandeja e corre assustado.
No
dia seguinte Harold é levado à força para o porão. Entrando no Bloco 10 de
Mengele, os saqueadores injetam substâncias químicas nele, fazendo-o ter
convulsões. Gregory retorna à noite para levá-lo comida. Recusando-se a
responder à sua pergunta, ele o agride com socos e chutes.
-
Responda a minha pergunta, seu retardado!
Novamente
o médico é levado ao porão. Os saqueadores injetam germes nele, ele tem ataques
epiléticos e manchas horríveis aparecem em sua pele. Quando Gregory retorna à
noite, Harold o segura pelo pescoço e bate em seu rosto. Após espancá-lo, as
enfermeiras aparecem para separá-los.
Harold
está doente. Milagrosamente ele sobreviveu há quase uma semana naquele
hospital. Mas sua saúde foi seriamente comprometida. Doenças venéreas aparecem
em sua genitália, vírus e gripes o enfraquecem, sua pele está manchada e
sangramentos são comuns em seus orifícios. Aqueles saqueadores testaram vírus e
substâncias químicas em seu corpo. Felizmente eles ainda não praticaram a
vivisecção, era como se Harold fosse valioso demais para o matarem.
Gregory
está cada vez mais assustado. Ao entrar no quarto de Harold, ele deixa a bandeja
e sai rapidamente antes do médico ter mais uma explosão de fúria e agredi-lo.
Enquanto corre para a saída, Harold se joga no chão, tentando agarrá-lo pelos
tornozelos. As marcas dos socos ainda são visíveis no rosto de Gregory, o
médico não tem compaixão.
- Eu
vou te pegar, Greggy! Eu vou te bater até quebrar essa sua cabeça de retardado!
Saindo
do quarto, Gregory olha assustado para ele. Harold tem a impressão de vê-lo
chorando.
§
No
dia seguinte, Nancy tenta levantá-lo, mas Harold está muito fraco. Pedindo
ajuda para mais enfermeiras, eles o levantam e o sentam na agourenta cadeira de
rodas.
-
Não! Tirem-me daqui! Tirem-me dessa cadeira maldita!
Sacudindo-se
inutilmente, as enfermeiras o ignoram enquanto Nancy o leva pelos corredores.
Ao chegar à escada, ele vê que o Dr. Ishii
está parado em pé, esperando-o. Com a aba de seu quepe na altura de seus olhos,
ele observa Harold atentamente.
-
Bom dia, Sr. Perkins. Chegou ao meu conhecimento que o senhor está se
comportando violentamente com um de meus pacientes. Também ouvi que há algo
relacionado a essa cadeira de rodas. Posso saber por quê?
Enfraquecido
e mentalmente desequilibrado, o médico responde:
- Me
envenene logo ou me mate de uma vez! Só não me faça nenhuma pergunta.
Irritado,
Dr. Ishii se cala.
Antes
das enfermeiras o descerem pelas escadas, outros saqueadores aparecem com
cilindros de gás inflamável. Nancy permite que eles desçam primeiro e puxa a
cadeira de rodas para trás. Então o médico vê na cintura de Ishii uma legítima
pistola Nambu tipo 94, uma raridade do Exército Imperial Japonês.
Torcendo
para que a arma ainda funcione, ele rapidamente a retira do coldre, mira nos
cilindros e então puxa o gatilho. O disparo e o susto se confundem quando os
cilindros se explodem e uma bola de fogo os atira pelo corredor.
Caído
de bruços no chão, Harold acorda sentindo muitas dores. O fogo está em toda
parte, fechando o corredor e as escadas. O médico vê as enfermeiras caídas no
chão, Nancy tem uma ferida horrível em sua cabeça e sangue escorre por suas
roupas femininas. Dr. Ishii também está lá, caído contra a parede com sangue em
seu rosto. Parte de seu uniforme militar está queimado com a explosão.
No
fim do corredor Harold vê a luz da manhã invadir o ambiente. A fumaça dificulta
a vista mas ele pode ver um buraco na parede do hospital, a explosão dos
cilindros conseguiu abrir uma ruptura na parede. Livrando-se daquela maldita
cadeira de rodas, ele se arrasta pelo chão até a saída.
A
paisagem exterior é maravilhosa. Vislumbrando o cinza perpétuo da manhã, ele
nunca antes se sentiu tão bem ao ver as deploráveis ruínas. Arrastando-se para
fora, ele cai no gramado externo do edifício, as feridas em seu corpo sangram.
Ele
está atrás do hospital, os escombros dos outros edifícios formam amontoados de entulho,
criando um campo aberto. Harold corre incessantemente, tropeçando e
escorregando enquanto tenta avidamente fugir daquele macabro laboratório de
experiências humanas. Ele não pensa em ninguém, não se importando com o que
acontecerá com aqueles deficientes físicos e mentais do hospital, amarrados a
macas prestes a terem seus membros arrancados por serras.
“Danem-se
aqueles retardados! Eu vou sair daqui!”. Harold sempre foi um homem frio,
afinal.
O
médico não olha para trás em momento algum. Ele ouve vozes de mais pessoas
atrás dele. Estariam os pacientes fugindo? Seriam os saqueadores perseguindo-o
pelas ruínas?
-
Pare onde está!
O
susto o estremece por dentro. Desobedecendo a ordem, Harold continua correndo
sem olhar para trás. Então ele ouve o som de um disparo. De repente o projétil
atinge suas costas, perfurando-o através da coluna lombar.
Harold
está doente e cansado demais para resistir. Ao perceber que não consegue mais
mexer suas pernas, ele grita de desespero.
- O
que foi, Sr. Perkins? Não consegue se levantar?
Ao
olhar para seu atirador, o médico vê um homem de farda sobre um monte de
entulho. É o Dr. Ishii.
Ishii
vê Harold se arrastar pela poeira enquanto grita de desespero. O médico levanta
suas pernas esperando que elas o obedeçam, mas elas caem como as pernas de uma
boneca de pano.
-
Rasteje, verme! Rasteje como um verme antes de eu esmaga-lo sob meus pés!
- O
que você fez comigo?!
- O
que eu fiz?! – Ishii demonstra indignação – O que o senhor fez! Olhe para o meu hospital. O senhor me desmoralizou na
frente dos meus subordinados, desafiou minha autoridade e explodiu minhas
instalações! E por que, Sr. Perkins? Por que o senhor fez isso? Eu te ofereci
um emprego! Te ofereci um cargo privilegiado no meu quadro de funcionários! E é
assim que o senhor retribui?
Ofegante,
o médico responde:
-
Por favor! Eu estou sangrando! Talvez haja tempo de reverter a paralisia.
Preciso de ajuda!
-
Que coincidência! Por acaso eu sou o presidente de um hospital. É claro que eu
te ajudaria, mas não há nada que se possa fazer. Sua coluna foi fraturada e
infelizmente o senhor passará o resto de seus dias em uma cadeira de rodas.
Lembra-se daquela cadeira que o senhor odeia tanto? Ela será sua.
Harold
se aterroriza.
-
Não! Não faça isso comigo! Eu faço qualquer coisa! Quer que eu ajude em suas
pesquisas? Eu aceito, mas não me ponha naquela cadeira!
Satisfeito
com a situação, Dr. Ishii pergunta com altivez:
-
Acho que o senhor está pronto para responder a minha pergunta agora, não é?
Fechando
os olhos e controlando suas lágrimas, Harold responde:
- Eu
aleijei a minha esposa. Foi em um acidente de carro no nosso aniversário de
casamento. Eu estava bêbado e perdi o controle do veículo. Ela quebrou a coluna
e teve que usar uma cadeira de rodas para sempre. Pelo menos era para ser
assim. Há alguns meses eu a deixei, a abandonei à própria sorte pouco antes de
nossa casa ser invadida por ladrões e estupradores. É por isso que eu odeio
aquela cadeira, porque me faz lembrar dela... Da minha esposa que eu deixei
para trás.
Ao
terminar, Ishii está de olhos arregalados. Ele demonstra tremenda repulsão e
indignação. Alguns segundos se passam até ele responder algo.
- Em
toda minha vida eu jamais conheci um homem tão detestável e repugnante como
você. Sua esposa, uma cadeirante indefesa que não tinha ninguém senão você para
protegê-la. E onde você estava? Fugindo como um covarde quando ela mais
precisava de você...
Ishii
perde sua formalidade e elegância. Ainda enojado, ele continua:
-
Minha esposa foi a pessoa que eu mais amei em toda minha vida. Infelizmente ela
morreu durante os primeiros ataques. Todos os dias eu choro de saudades dela.
Deus sabe o quanto eu sinto sua falta, do que faria para tê-la de volta... – e
então ele olha enraivecido para o médico – Mas você abandonou a sua para
morrer!
-
Você não entende...
Então
Ishii ri para o alto.
- Eu
vou dizer o que entendo. Você não merece voltar ao meu hospital, nem como
paciente e muito menos como médico. Você merece ficar aqui, deixado nas ruínas
para apodrecer, como fez com sua esposa. Como um paralítico... deixado para trás... – ele sorri –
Adeus, Sr. Perkins. Boa sorte nas ruínas.
Guardando
sua arma, Ishii dá as costas e vai embora.
Harold
fica sozinho. O vento sopra frio e a poeira se levanta. Olhando de um ao outro,
ele não vê nada além de desolação e silêncio. Ele sente medo.
Uma
hora se passa. Ao se arrastar com muito esforço por míseros dez metros, alguém
aparece atrás de um muro destruído. Seus olhos não o enganam, ele reconhece
aquela pessoa. Surpreso, ele exclama em sinal de alívio:
-
Timothy!
O
professor está parado, encarando-o com um olhar sério de reprovação. Harold se
arrasta até ele e estranha que seu amigo não o ajuda.
- O
que disse lá em cima é verdade?
O
médico não entende.
- Do
que está falando?
- Eu
ouvi tudo, Harold! – grita ele – Você abandonou sua esposa? Uma cadeirante?
-
Tim, eu não tive escolha...!
O
professor leva as mãos ao rosto, indignado e envergonhado.
-
Como pôde? Ela estava indefesa e só tinha você!
-
Não foi tão simples assim, Timothy! Eu juro!
-
Você mentiu para mim, Harold! Mentiu
para o grupo todo! Disse que não havia sobreviventes! – ele balança negativamente
a cabeça, tentando acreditar – Mas havia alguém, a sua própria esposa
cadeirante!
-
Ela só ia me atrasar, Tim...
Ao
ouvir aquilo, o professor se ira.
-
Cale a boca! Ainda tem coragem de dizer que ela ia te atrasar? Por quê? Porque
você a condenou a uma cadeira de rodas para sempre? Talvez ela pudesse correr
ao seu lado se você não a tivesse aleijado!
-
Mas...
- Eu
voltei por você, Harold. Eu podia ter ido embora e te deixado para trás, mas eu
quis voltar. Com você foi o contrário. Você a abandonou e nunca intencionou
voltar. Você sabe que eu o teria acompanhado. – respirando fundo, ele pergunta
– Como você se suporta?
O
médico não diz mais nada. Ele fica deitado no chão, ofegando e com dores
enquanto tenta se apoiar. Timothy então diz:
-
Estou liderando esse grupo e me expondo a perigos terríveis para encontrar
minha esposa, Mas e você? Você simplesmente abandonou a sua. Desculpe, mas eu
não posso suportar isso. Adeus, Harold.
Timothy
dá as costas e também vai embora. O médico grita desesperadamente para que ele
volte, mas o professor o ignora. Após um minuto, Timothy já sumiu nas ruínas.
Harold fica sozinho novamente, chorando a perda de seu melhor amigo.
§
Horas
se passam. Harold está deitado olhando para o céu, as nuvens de cinzas se
desenrolam como um papiro. O vento das ruínas zune pelos cantos e o frio se
aproxima. Ele está cansado de se arrastar. Não há para onde ir, talvez seja melhor
deixar o sangue escorrer e esperar pela morte. Então algo acontece.
Alguém
se aproxima através do capim alto. O médico vê um rapaz jovem, mas sua postura
é desajeitada e infantil. Com ele aparece outro homem, um pouco menor e mais
encorpado. Quando os dois estão mais perto, Harold reconhece Gregory e um rapaz
com Síndrome de Down acompanhando-o.
-
Greggy? O que está fazendo aqui?
O
rapaz tira algo de sua mochila. O médico reconhece esparadrapos, gaze e
desinfetantes. Os dois viram Harold e limpam sua ferida, tampando-a com
curativos em seguida. Segurando-o pelos braços e pernas, eles o carregam pelo
capim alto, levando-o ao local de onde vieram.
Harold
se vê em uma casa abandonada, há algumas janelas quebradas e pequenos buracos
no teto. Gregory o deita em um sofá velho e cuida de suas feridas. O médico não
entende. Por que ele está ajudando-o?
-
Greggy, o que está havendo?
- O
senhor vai ficar bem, Sr. Higgins. Estamos seguros agora.
Ainda
confuso, Harold não sabe o que pensar. Por uma semana inteira o médico espancou
e maltratou o jovem Gregory. Muitas vezes ele não sabia por que estava
espancando-o. Em seus impulsos de ira, ele usava Gregory para extravasar sua
raiva, batendo e ofendendo o rapaz simplesmente por ele ser um retardado,
alguém mais fraco do qual ele pudesse usar para aliviar a tensão. Ou era puro
preconceito por Gregory ser um deficiente mental e Harold odiasse deficientes
por lembrarem-no de Melanie?
- Eu
não entendo... Por que você está me ajudando?
-
Porque é isso o que as pessoas boas fazem. Ajudam umas às outras.
-
Mas por que eu?
Gregory
para de limpar suas feridas e então Harold vê os hematomas em seu rosto, aqueles
que ele causou.
- O
senhor nos ajudou, Sr. Higgins. Nós fugimos pelo buraco na parede. Os homens
maus não nos viram fugir, eles estavam indo atrás do senhor. Mas não pudemos
levar todos. Alguns ainda estão presos no porão. – conclui ele, chorando.
-
Greggy... Eu não merecia ser salvo. Eu maltratei você, sou um homem mau também.
-
Mas os homens bons ajudam a todos, não se importando se são bons ou maus. Esse
é o dever de todos nós. Quando alguém mau nos maltrata, ele não sabe o que está
fazendo. Os maus são tristes, por isso fazem o mal. Eles fazem os outros chorar
porque alguém os fez chorar. No fundo, mas bem no fundo mesmo, eles são pessoas
boas também.
Harold
se espanta com sua inocência.
- E
se os homens maus o maltratarem simplesmente por gostarem de fazer o mal?
- Se
você amar a todo mundo o mesmo tanto que você ama a ti mesmo, então você os
perdoará também. Perdoe a todos, Sr. Higgins. O sorriso é a única curva que
endireita as coisas.
O
médico não compreende. Durante toda sua vida ele lidou com o egoísmo, a
ganância e todo o tipo de podridão nas pessoas. A própria guerra, que devastou
o planeta e condenou a vida à extinção, foi consequência desse impulso
mesquinho. Então seria isso? O erro estaria maculado na alma das pessoas
“normais”? Ou seria mais um atributo natural do coração humano? Harold se
padece de dúvida. Seria necessária uma pessoa “anormal” como Gregory para
compreender a pureza da verdadeira bondade?
“Isso
é incompreensível!” pensa Harold. Quem pode redimir os saqueadores? Os
retardados seriam bondosos o bastante para acreditar que eles são inocentes em
seus atos? A bondade é anormal. “É loucura!” pensa ele. É delirante acreditar
que a bondade exista. Talvez os retardados, por não serem normais, compreendam essa utópica ideia, mas entre as
pessoas “normais” a bondade significa dor, rancor e sacrifício. Quem pode
perdoar? Quem pode amar? Quem é fraco ou tolo o bastante para isso?
Enquanto
pondera, o médico vê aleijados, paralíticos e retardados saírem dos cantos.
Eles estavam lá também, escondidos nas sombras e ouvindo os dois conversarem.
São os fugitivos do hospital, vítimas de experimentos humanos que todos
acreditavam não existir mais desde a Segunda Guerra Mundial.
Alguém
abre uma cadeira de rodas retrátil. O médico se apavora. Estará ele condenado
ao mesmo destino de Melanie?
-
Não! Eu não quero sentar aí!
Os
retardados e inválidos se entreolham.
-
Está tudo bem... – responde Gregory – Você
é um de nós agora.

Nenhum comentário:
Postar um comentário