terça-feira, 14 de abril de 2020

Os Fracos - 18 - Fragmento 9



Fragmento 9

Promessas foram feitas para serem cumpridas. Prometer é se comprometer com uma pessoa, dando algo de si ou fazendo favores, sem a menor garantia de cumpri-las. A pessoa que acredita sujeita-se à suposta honestidade de quem prometeu, muitas vezes se decepcionando e martirizando a si mesmo pela própria ingenuidade.
Promessas não deveriam existir, ninguém deveria passar pela decepção de ser enganado, traído e deixado para trás. Promessas não cumpridas machucam, deixam feridas no coração que dificilmente se cicatrizam. Promessas não cumpridas insistem em sangrar, elas não vão embora, sempre voltam, sempre atormentam. Como pode aquele que promete ter a indecência de enganar alguém?
Mas as pessoas quebram promessas e enganam.
Svetlana sempre foi uma menina passional. Sendo filha de pais muito religiosos, ela não deixaria de desafiá-los para viver ao lado de Anatoly, o amor de sua vida. Os dois fogem de sua pequena cidade, na oblast de Vologda, e se mudam para a bela metrópole de São Petersburgo. Sua mãe a vê saindo de casa durante a noite e lhe diz:
- Se você partir, não volte nunca mais.
Desafiante, ela responde:
- Nunca passou por minha cabeça voltar.
Ao se encontrar com Anatoly na estação de trem, ela diz:
- Você promete que me amará para sempre?
Sua aparência é de uma menina doce, segura e decidida de seu amor. O rapaz responde:
- Eu prometo.
A cidade é grande e maravilhosa. Tantas luzes, tantos carros, tantas pessoas! A cidade tem pontos turísticos incríveis como a Nevsky Prospect, a ponte Bolsheokhtinsky, o palácio de Stroganov, o palácio de Catarina, a catedral Kazan, o Palácio de Inverno, a coluna de Alexandre, a estação Vitebsky e as belas paisagens sobre o Rio Neva.
O jovem casal aluga um apartamento no subúrbio. A extensa rua tem vários prédios, todos com a mesma aparência cúbica e simplória da era soviética. O apartamento é pequeno mas tem espaço suficiente para os dois. Ali seria o começo de suas vidas, o local onde Svetlana planejou viver para sempre com Anatoly. Mas não demorou muito para ele mudar de ideia.
Com o rigoroso inverno russo cobrindo as ruas de neve, Anatoly chegava em casa cada vez mais tarde. Após dois meses de aluguel atrasado e o dinheiro guardado se esgotando rapidamente, o rapaz mostrava sua indecisão e fraqueza. Todas as noites ele voltava bêbado e com um hálito horrível de vodka. Svetlana brigava constantemente, iniciando discussões acaloradas que incomodavam constantemente os vizinhos.
A convivência entre o casal torna-se insuportável. Prevendo o trágico fim, nada podia aliviar a moça de suas preocupações. Se o relacionamento acabasse, ela estaria desempregada, desabrigada e sem nenhum lugar para ir. O rapaz, por outro lado, nunca se desentendeu com sua família e seus pais sempre o apoiaram. Svetlana percebeu que o amor do rapaz acabou, talvez nunca tenha existido, sendo apenas paixão de um jovem inexperiente. Apesar do comportamento reprovável de Anatoly, a vida da moça estava em suas mãos.
Sozinha em casa enquanto o rapaz estava fora procurando emprego, Svetlana via os alarmantes noticiários na TV. Uma guerra nuclear se aproxima. A moça não tinha conhecimento e nem interesse para entender aquilo, mas nem que tivesse ela se importaria com aquelas notícias. Durante mais de quatro décadas a Rússia e os Estados Unidos apontaram seus mísseis um para o outro, e ambos se ameaçavam com armas nucleares sem nunca ter um ataque. Por que ela se preocuparia com efêmeras notícias agora? Sua vida desmoronava e ela tinha outras coisas para se preocupar.
Durante os noticiários, a marinha russa convocava todos os homens a se alistarem. Svetlana não entendia por que o rapaz passava tanto tempo fora. Anatoly não mais chegava em casa bêbado, mas ela percebia em seu olhar distante que ele escondia alguma coisa.
Uma semana depois tudo se esclareceu. Ao voltar do mercado com algumas sacolas, ela encontra o rapaz parado na sala de estar. Suas malas estão aos seus pés.
- Svetlana, eu estou indo embora.
A princípio ela parece não entender.
- O quê?
- Eu me alistei na marinha russa. Devo me apresentar ainda hoje.
- Isso é alguma brincadeira?
- Meus pais me apoiaram. Disseram que estão orgulhosos de mim. Eles querem o melhor para minha vida.
Ainda confusa, ela se enfurece.
- E quanto a minha vida?!
- Eu não posso fazer nada.
- Anatoly, eu não tenho onde morar!
- Volte para a casa de seus pais.
- Eles não vão me receber de volta! Briguei com eles para ficar com você!
- Então arrume um emprego. O aluguel não está tão atrasado assim.
- E onde eu vou trabalhar? Eu mal sei escrever! Anatoly, me diga que você está brincando. Diga que você não vai me deixar!
Com semblante sério, ele diz:
- Isso foi um erro.
- Erro?! – responde ela, indignada – Eu te amo! Eu larguei tudo por você! Eu entreguei meu corpo a você! Você acha que meu amor é um erro?
- Eu tenho que ir.
Desesperada, ela puxa o rapaz pelas roupas.
- Não! Não vá embora! Anatoly, diga que você me ama! Diga que você vai ficar!
- Me desculpe.
- Fique comigo! Eu te amo! Não vá embora, por favor! Eu não tenho para onde ir!
O rapaz se desvencilha e sai pela porta. Enquanto se afasta, Svetlana cai aos seus pés. Anatoly vai embora. A porta se fecha e ela fica sozinha, deitada no chão chorando em desespero.
Alguns dias depois seu apartamento já não tinha mais comida. Outra cobrança do aluguel chega e ela é ameaçada de despejo. Ao ligar para sua casa, sua mãe desliga o telefone ao ouvir sua voz. Tudo se foi. Sua vida se desmoronou. Mergulhada na mais profunda tristeza, ela encontra uma última solução para sua vida.
Subindo as escadas do prédio, ela não percebe que um silêncio incomum paira sobre a movimentada cidade. Chegando ao terraço, ela se apoia no parapeito e olha para o horizonte. Está uma bela tarde, o sol se põe no céu vermelho. O vento frio sopra em suas lágrimas e resseca sua pele, fazendo-a arder. Quando tudo se vai, a única coisa que fica é a dor. A morte vai aliviá-la disso.
Em pé sobre o parapeito, ela se lembra de algo incômodo. Suicídio é pecado. Os suicidas estão condenados ao inferno no Juízo Final. Svetlana era filha de pais cristãos, ela se lembra dos ensinamentos bíblicos durante a infância. Então ela se preocupa. Deus lhe concederia o perdão? Ele teria misericórdia de sua alma, compadecendo-se de sua dor no tribunal divino?
Svetlana está decidida. Ela não quer mais viver. Sua vida acabou quando Anatoly se foi. Se Deus não tiver misericórdia de sua alma, que seja. Preparando-se para se jogar, ela respira fundo e fecha os olhos. Então algo acontece.
Um objeto rasga o céu do poente com a rapidez de uma estrela cadente. O zunido é agudo e irritante, semelhante a turbina de um jato. Então aparece um fortíssimo clarão, ofuscando os olhos de Svetlana. Ao recuperar a visão, ela se apavora ao ver a enorme cidade de São Petersburgo ser pulverizada por uma monstruosa onda de fogo, transformando prédios e outros objetos sólidos em pedaços.
A onde de fogo avança impiedosamente sobre ela. Antes que os fragmentos de destruição estraçalhem seu corpo, a chama chega primeiro e a consome completamente, transformando-a em meras partículas no ar.
Não houve tempo para se suicidar. Svetlana tinha a intenção, mas a bomba nuclear apareceu antes. Será que Deus levará isso em consideração? Será que ele vai ignorar o fato de que, se não houvesse a bomba, ela teria se jogado sim?
Svetlana morre naquele momento. A explosão nuclear devastou a cidade em poucos segundos. Mas antes que o fogo a consumisse, Svetlana não se lembrou de Deus ou de sua crença, ao invés ela se lembrou de Anatoly, seu único amor. Um dia ela lhe perguntou se ele ficaria com ela para sempre. Desiludida e arrasada, ela se lembra de sua resposta e isto ficou em sua mente até seu último segundo.
“Eu prometo”.




Nenhum comentário:

Postar um comentário

Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta

(Artista desconhecido) Dias se passam. Yang é mantido em um recinto com sofá, mesa e televisão. Não era bem uma cela, mas uma confortável sa...