Fragmento
15
Um
homem permanece confinado em uma cela, ele foi contaminado pela radiação. Os
médicos vinham observa-lo algumas vezes por dia. Eles vestiam trajes de
plástico e carregavam tubos de oxigênio em suas costas. Mas algumas semanas se
passam e eles não voltam mais. O homem foi deixado sozinho e abandonado no
imenso complexo militar. Seu nome é Fahad Ehtisham.
Em
algum lugar próximo à fronteira da Índia, um acampamento foi improvisado para
abrigar os soldados expostos à radiação. Quando a guerra nuclear eclodiu, o
soldado Fahad acompanhava sua unidade para uma suposta invasão. Após a
informação do primeiro lançamento de mísseis, eles marcharam. Não demorou muito
e uma ogiva inimiga devastou a região, contaminando a todos com resíduos
radioativos. Muitos morreram com os sintomas e o restante foi levado às pressas
para um complexo militar.
Fahad
estava em sua barraca quando viu os veículos TEL - transporter erector launcher - carregados com os mísseis Babur
atravessando o acampamento. Aquele poderoso armamento costumava ser o orgulho
do Exército, mas a preferência mudou quando o governo divulgou o sucesso do
míssil ICBM Taimur, capaz de atingir o alvo em um raio de 7000 km. Com a guerra
se aproximando, o novo armamento seria usado em combate.
Então
veio a guerra. Os mísseis foram disparados. Os alvos foram destruídos. A
invasão pelo solo foi permitida. A retaliação foi igualmente devastadora.
Cidades inteiras do Paquistão simplesmente desapareceram. A invasão pelo solo
perdeu o significado. O destacamento de Fahad passou por uma área altamente
radioativa. Não havia mais direção ou defesa, o planejamento saiu do controle.
E tudo isso ocorreu logo nas primeiras horas. A guerra aconteceu rápido demais!
Mas
a guerra trouxe o pior dos homens. O discurso inflamado que incitava o ódio
geminou no coração do soldado. Pela honra ele serviu ao seu país. Pela honra
ele serviu ao seu líder. A purificação veio pelo braço forte do soldado com
distorcido senso de certo e errado. O terror se espalhava pelas ruas. A nação
se mobilizava para o confronto. A honra era mais forte. Como um único corpo se
lançando ao inimigo, o Exército atacava de uma só vez.
O
ódio se espalhava pelas terras estrangeiras. O sangue derramado era
justificado. A maior vítima era o inocente, fraco demais para aliar-se a um
lado. A solução para o conflito era o fuzil na mão. As balas disparadas
compunham a melodia tocada no instrumento da morte. O sorriso de aço do inimigo
encontrava o olhar sanguinário do agressor. A nação inimiga era tratada como uma
doença. O remédio era inserido na seringa feita de balas, pólvora e aço.
Algumas
semanas se passaram desde o fim do bombardeio. Fahad estava sozinho. Ele foi
proibido de deixar sua cela, mas tudo mudou naquela tarde. Saindo pela porta, o
corredor estava vazio. Os guardas se foram. A janela mostrava um céu cinzento e
opressivo. Ele podia sentir a pressão das nuvens nocivas sobre a terra. De
repente começa um tiroteio. As balas atravessam as janelas e estralam as
paredes. Alguém estava realizando um ataque.
Correndo
para fora, ele vê outros soldados contaminados. Ninguém sabe o que está
acontecendo. Atravessando o pátio lamacento, eles chegam a uma cerca
improvisada de arame farpado. Fahad se assusta, sob a lama ele vê a face de um
soldado enterrado.
- Vamos!
Temos de sair daqui!
-
Não! – protesta alguém – Fomos contaminados pela radiação. Devemos esperar pela
cura.
-
Não há cura! Eles estão nos estudando! Você não percebeu?
Há
uma explosão atrás deles, esparramando a terra lamacenta sobre suas roupas. O susto
de Fahad é ainda maior. Há algo enterrado no pátio, escondido dos olhos
ingênuos dos pacientes.
-
Por Allah! São nossos companheiros!
O
pânico se espalha. Dezenas de soldados estão enterrados no pátio. Ao verem a
terrível cena, os soldados se lançam sobre o arame farpado e se arrastam
através dele. As afiadas pontas rasgam suas roupas, prendendo-os pela pele e os
ossos. A agonia é excruciante. É perturbador ouvi-los gritar.
O instinto de sobrevivência fala mais alto. Os
mesmos soldados que juraram defender seus companheiros com a própria vida agora
os deixam para trás. Os corpos estão presos no arame, quem tentou atravessar
encontrou um destino hediondo. Os soldados pisam sobre eles como se fossem
tapetes, fazendo a pele se rasgar ainda mais. Fahad está perdendo o controle. A
selvageria e a violência afetam seu emocional. Desequilibrado, ele leva as mãos
ao rosto e o contorce, gritando e suspirando como se quisesse se
desfigurar.
Os
tiros e as bombas estão arrasando o complexo. O inimigo se aproxima, Fahad pode
ouvir seu impetuoso brado. Alguém puxa seu braço e tenta levá-lo para fora. Ele
protesta.
-
Não! Eu não vou pisar neles!
-
Eles estão mortos! Você quer morrer também?!
-
Eles são nossos companheiros!
Então
há uma explosão atrás deles, fazendo-os rolar pela lama.
-
Venha! Não temos muito tempo! – então o homem o puxa para fora.
Finalmente
fora do complexo, os dois correm o mais rápido que podem. Novamente eles veem
dezenas de cadáveres pelo chão, os companheiros de minutos atrás. Tiros estralam
o chão sob seus pés. As pedras voam com o impacto perfurante das balas. Fahad
ouve um assovio vindo do céu e de repente o projétil explode ao seu lado. Os
dois são lançados pelo ar e ao cair eles desmaiam.
Fahad
acorda aos poucos. Ao olhar para o lado, ele vê o homem que o ajudou. O homem
teve suas pernas mutiladas pela explosão e está aparentemente morto. Alguém se
aproxima. Através da fumaça aparece o pelotão inimigo. Vestindo máscaras de gás,
eles se protegem do contágio radioativo.
Um
deles olha para Fahad, presumivelmente o líder.
- Há
mais alguém com você? – pergunta ele.
Fahad
se espanta. O líder também fala urdu.
- Eu
não sei. Quando o ataque começou, eu fugi sem olhar para trás.
-
Onde estão os médicos?
-
Eles se foram. Acho que eles nos abandonaram, mas eu não sei dizer.
O
líder fica em silêncio por alguns segundos.
Fahad
se intriga. Mesmo quando estava confinado, ele ouvia os médicos falando do
avanço do exército na nação inimiga. A contaminação o privou do combate. Ele
quer saber o que está acontecendo.
-
Nós vencemos a guerra?
Com
a inesperada pergunta, os inimigos riem.
- A
guerra... – responde o líder, apontando o fuzil para sua cabeça – ainda não terminou.
O
gatilho é puxado. A bala é disparada.
Escuridão.

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