terça-feira, 14 de abril de 2020

Os Fracos - 30 - Fragmento 15



Fragmento 15

Um homem permanece confinado em uma cela, ele foi contaminado pela radiação. Os médicos vinham observa-lo algumas vezes por dia. Eles vestiam trajes de plástico e carregavam tubos de oxigênio em suas costas. Mas algumas semanas se passam e eles não voltam mais. O homem foi deixado sozinho e abandonado no imenso complexo militar. Seu nome é Fahad Ehtisham.
Em algum lugar próximo à fronteira da Índia, um acampamento foi improvisado para abrigar os soldados expostos à radiação. Quando a guerra nuclear eclodiu, o soldado Fahad acompanhava sua unidade para uma suposta invasão. Após a informação do primeiro lançamento de mísseis, eles marcharam. Não demorou muito e uma ogiva inimiga devastou a região, contaminando a todos com resíduos radioativos. Muitos morreram com os sintomas e o restante foi levado às pressas para um complexo militar. 
Fahad estava em sua barraca quando viu os veículos TEL - transporter erector launcher - carregados com os mísseis Babur atravessando o acampamento. Aquele poderoso armamento costumava ser o orgulho do Exército, mas a preferência mudou quando o governo divulgou o sucesso do míssil ICBM Taimur, capaz de atingir o alvo em um raio de 7000 km. Com a guerra se aproximando, o novo armamento seria usado em combate.
Então veio a guerra. Os mísseis foram disparados. Os alvos foram destruídos. A invasão pelo solo foi permitida. A retaliação foi igualmente devastadora. Cidades inteiras do Paquistão simplesmente desapareceram. A invasão pelo solo perdeu o significado. O destacamento de Fahad passou por uma área altamente radioativa. Não havia mais direção ou defesa, o planejamento saiu do controle. E tudo isso ocorreu logo nas primeiras horas. A guerra aconteceu rápido demais!
Mas a guerra trouxe o pior dos homens. O discurso inflamado que incitava o ódio geminou no coração do soldado. Pela honra ele serviu ao seu país. Pela honra ele serviu ao seu líder. A purificação veio pelo braço forte do soldado com distorcido senso de certo e errado. O terror se espalhava pelas ruas. A nação se mobilizava para o confronto. A honra era mais forte. Como um único corpo se lançando ao inimigo, o Exército atacava de uma só vez.
O ódio se espalhava pelas terras estrangeiras. O sangue derramado era justificado. A maior vítima era o inocente, fraco demais para aliar-se a um lado. A solução para o conflito era o fuzil na mão. As balas disparadas compunham a melodia tocada no instrumento da morte. O sorriso de aço do inimigo encontrava o olhar sanguinário do agressor. A nação inimiga era tratada como uma doença. O remédio era inserido na seringa feita de balas, pólvora e aço.
Algumas semanas se passaram desde o fim do bombardeio. Fahad estava sozinho. Ele foi proibido de deixar sua cela, mas tudo mudou naquela tarde. Saindo pela porta, o corredor estava vazio. Os guardas se foram. A janela mostrava um céu cinzento e opressivo. Ele podia sentir a pressão das nuvens nocivas sobre a terra. De repente começa um tiroteio. As balas atravessam as janelas e estralam as paredes. Alguém estava realizando um ataque.
Correndo para fora, ele vê outros soldados contaminados. Ninguém sabe o que está acontecendo. Atravessando o pátio lamacento, eles chegam a uma cerca improvisada de arame farpado. Fahad se assusta, sob a lama ele vê a face de um soldado enterrado.
- Vamos! Temos de sair daqui!
- Não! – protesta alguém – Fomos contaminados pela radiação. Devemos esperar pela cura.
- Não há cura! Eles estão nos estudando! Você não percebeu?
Há uma explosão atrás deles, esparramando a terra lamacenta sobre suas roupas. O susto de Fahad é ainda maior. Há algo enterrado no pátio, escondido dos olhos ingênuos dos pacientes.
- Por Allah! São nossos companheiros!
O pânico se espalha. Dezenas de soldados estão enterrados no pátio. Ao verem a terrível cena, os soldados se lançam sobre o arame farpado e se arrastam através dele. As afiadas pontas rasgam suas roupas, prendendo-os pela pele e os ossos. A agonia é excruciante. É perturbador ouvi-los gritar. 
 O instinto de sobrevivência fala mais alto. Os mesmos soldados que juraram defender seus companheiros com a própria vida agora os deixam para trás. Os corpos estão presos no arame, quem tentou atravessar encontrou um destino hediondo. Os soldados pisam sobre eles como se fossem tapetes, fazendo a pele se rasgar ainda mais. Fahad está perdendo o controle. A selvageria e a violência afetam seu emocional. Desequilibrado, ele leva as mãos ao rosto e o contorce, gritando e suspirando como se quisesse se desfigurar. 
Os tiros e as bombas estão arrasando o complexo. O inimigo se aproxima, Fahad pode ouvir seu impetuoso brado. Alguém puxa seu braço e tenta levá-lo para fora. Ele protesta.
- Não! Eu não vou pisar neles!
- Eles estão mortos! Você quer morrer também?!
- Eles são nossos companheiros!
Então há uma explosão atrás deles, fazendo-os rolar pela lama.
- Venha! Não temos muito tempo! – então o homem o puxa para fora.  
Finalmente fora do complexo, os dois correm o mais rápido que podem. Novamente eles veem dezenas de cadáveres pelo chão, os companheiros de minutos atrás. Tiros estralam o chão sob seus pés. As pedras voam com o impacto perfurante das balas. Fahad ouve um assovio vindo do céu e de repente o projétil explode ao seu lado. Os dois são lançados pelo ar e ao cair eles desmaiam.
Fahad acorda aos poucos. Ao olhar para o lado, ele vê o homem que o ajudou. O homem teve suas pernas mutiladas pela explosão e está aparentemente morto. Alguém se aproxima. Através da fumaça aparece o pelotão inimigo. Vestindo máscaras de gás, eles se protegem do contágio radioativo.
Um deles olha para Fahad, presumivelmente o líder.
- Há mais alguém com você? – pergunta ele.
Fahad se espanta. O líder também fala urdu.
- Eu não sei. Quando o ataque começou, eu fugi sem olhar para trás.
- Onde estão os médicos?
- Eles se foram. Acho que eles nos abandonaram, mas eu não sei dizer.
O líder fica em silêncio por alguns segundos.
Fahad se intriga. Mesmo quando estava confinado, ele ouvia os médicos falando do avanço do exército na nação inimiga. A contaminação o privou do combate. Ele quer saber o que está acontecendo.
- Nós vencemos a guerra?
Com a inesperada pergunta, os inimigos riem.
- A guerra... – responde o líder, apontando o fuzil para sua cabeça – ainda não terminou.
O gatilho é puxado. A bala é disparada.
Escuridão.



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Shenzhou Wénzi - 17 - O Nascimento de Uma Estrela Morta

(Artista desconhecido) Dias se passam. Yang é mantido em um recinto com sofá, mesa e televisão. Não era bem uma cela, mas uma confortável sa...