Fragmento
13
Daniel
acorda cedo e vê que horas são. Ao se levantar, ele olha pela janela e vê uma
bela manhã na cidade de Montreal. Ainda sonolento, ele caminha para o banheiro
e lava seu rosto. Seu reflexo no espelho está cada vez pior. Ele ainda sente saudades
de Kirsten, sua ex-namorada. Inconformado com o rompimento, ele não consegue
aceitar que seu amor se foi.
Dois
meses atrás, Daniel sentia-se o homem mais feliz do mundo. Ao comprar um anel
de noivado, ele planejava pedir a mão de Kirsten em casamento. Mas ao
encontrar-se com ela, Kirsten diz que o amor acabou e termina o namoro.
Arrasado, ele insiste para ela não ir embora mostrando seu anel de noivado, mas
foi em vão. Ela se desculpa e vai embora.
O
rapaz se encara no espelho. Seus olhos estão vermelhos e ele não se alimenta
direito. Kirsten se foi naquele dia e ele nunca mais a viu, ela nem mesmo
atendeu suas ligações. Distraído, ele pensa como seria sua vida se ela ainda
estivesse ali.
Daniel
sempre sonhou em estar com sua amada assistindo ao sol nascer. Ele imaginou
como seria romântico beijar seu amor enquanto o novo dia ressurge no horizonte.
Daniel adorava o amanhecer, mas ele nunca dividiu esse lindo momento com alguém.
“Um
beijo de reconciliação” pensa ele. Enquanto amanhece, Daniel complementa seu
sonho com um beijo de reconciliação. Sua amada o abraçaria e diria que quer
voltar. O rapaz a perdoa e ambos ficam juntos de novo. E quanto ao anel de
noivado? Seria conveniente propor casamento durante a reconciliação? Daniel ri
para si mesmo. Quem estaria se beijando ao ar livre às seis da manhã?
Ele
olha pela janela da sala e vê as ruas desertas. Todos estão com medo. O governo
canadense suspendeu o trabalho e os dias letivos. Ninguém mais sai de casa e
todos assistem atentos à televisão. Nunca houve uma crise internacional tão
alarmante quanto aquela. Apesar de não ser um alvo, os canadenses temem os
ataques em seu vizinho, os Estados Unidos. A destruição e a radiação serão
problemas diretos para o país se isso acontecer. Mas há outro agravante. Há
rumores de uma invasão pelo norte, começando pelo Alaska e por New Foundland, e
então passando pelo Canadá. Talvez o inimigo queira abrir caminho para os
Estados Unidos passando pelo país, como os alemães fizeram nos Países Baixos em
direção à França. O rapaz não se importa com isso. A suspensão do trabalho não
veio em melhor hora. Daniel não quer ir trabalhar, ele ainda sente a dor da separação.
À
noite, ele se deita em sua cama e olha para a janela. O silêncio da noite é tão
incomum que se torna assustador. Ele ouve alguns carros de polícia passarem
pelas ruas vazias. Parecia um toque de recolher, uma lei marcial em um tempo de
guerra. Então seu telefone toca.
-
Alô?
-
Danny, sou eu.
Imediatamente
ele reconhece a voz. A surpresa bate em seu peito como um martelo e o deixa sem
reação.
-
Kirsten...?!
-
Tudo bem com você?
O
rapaz emudece. A voz da moça é tão linda. Daniel treme, ele não sabe o que
responder. As feridas ainda estão abertas, ouvi-la novamente dói em seu
coração.
- Eu....
-
Quis saber como você está.
Daniel
está boquiaberto, seus olhos estão arregalados. O grande amor de sua vida ligou
e ele não consegue ao menos formar uma palavra!
- Eu
não entendo...
-
Estou com saudades.
Surpreso,
seus olhos se enchem de lágrimas e ele sorri. Seu amor sente saudades! Mas a
dor volta pouco depois. Seu coração ainda está muito ferido com o que aconteceu.
-
Mas Kirsten... Você terminou comigo... Eu te amava tanto... Não consigo mais
dormir desde que você se foi.
-
Então durma comigo.
Ao
ouvir a resposta, o rapaz se espanta. Controlando-se, ele tenta argumentar.
-
Ainda estou triste por você ter ido embora. Não tive ninguém pra conversar a
respeito...
-
Então fale comigo.
A
moça insiste. Daniel explode em euforia. Ele ainda a ama e, como toda pessoa
apaixonada, não consegue guardar ressentimento dela. Ainda boquiaberto e com
dificuldades para falar, com muito esforço ele diz:
- Eu
te amo.
Kirsten
ri.
-
Será mesmo? – brinca ela.
- Eu
quero te ver.
-
Então desça. Estou no outro lado da rua.
Daniel
olha pela janela e vê o carro de Kirsten. Vestindo-se rápido como um relâmpago,
ele desce as escadarias e passa pelo balcão do porteiro. Ele nem percebe que o
porteiro não vem trabalhar há dias.
Ele
corre pela calçada, mas para no meio da rua. Kirsten está tão linda, tão
perfeita... O rapaz olha para ela mas não consegue se aproximar, tem medo que
não seja verdade. A moça ignora sua hesitação e corre em direção a ele,
abraçando-o forte como se fosse pela última vez.
-
Kirsten... eu não entendo...
-
Pensou que eu ia passar o fim do mundo sem você?
-
Fim do mundo...?
Se
Daniel tivesse assistido aos noticiários, saberia que os Estados Unidos
acabaram de ser atacados.
- Eu
te amo tanto... Senti tanto sua falta... Sonhei tanto com esse momento...
A
moça o silencia.
-
Não diga nada. Não desperdice o tempo que ainda temos. Apenas me beije.
Daniel
não entende por que ela está sendo tão obscura. Os dois se abraçam e se beijam.
O tempo parece parar. Ele se perde no beijo, seu coração bate mais rápido. O
beijo da reconciliação é melhor do que ele pensava. O amor que sente é muito
forte.
Então
algo acontece.
Um
objeto cônico voa em direção ao centro da cidade. O estrondo estremece o chão e
provoca um clarão fenomenal. Sem pararem de se beijar, o casal ignora a
gigantesca onda de fogo avançar sobre os prédios, transformando a noite em dia.
O sonho de Daniel se realizou, afinal. Não era a hora de amanhecer, mas a bomba
poderia perfeitamente substituir o sol. A explosão infernal poderia substituir
a luz da nova manhã. O calor do fogo poderia substituir o calor do novo dia.
Daniel e Kirsten se beijam, o “dia” amanhece. O sonho foi realizado, mas de
outra maneira.
O
casal não olha para a onda de fogo. Eles se beijam e depois olham um para o
outro. Daniel acaricia o rosto de Kirsten e sorri. Então as chamas passam sobre
eles e os eliminam da face da Terra, consumindo seus corpos, seus ossos e seu
amor.
O
amor é eterno. Nunca deixará de existir. O amor é imortal. Desde que as pessoas
ainda existam para senti-lo.

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