O
Médico
O vento
sopra na rua deserta, soprando as folhas secas, levantando poeira e formando
pequenos ciclones. Aquela aparência funesta, cinzenta e fria parecia ter se
perpetuado nos novos dias do novo mundo. Tudo estava em um estado de transição
para um matiz monocromático cinza, desde o alto das nuvens de poeira e
radiação, para a terra com suas predominantes ruínas e fumaça. Eram os dias da
chamada Aftermath, a consequência
ambiental das centenas de explosões nucleares que devastaram o mundo.
As
grandes cidades dos Estados Unidos, sendo os principais alvos, foram totalmente
arrasadas e destruídas. A fortíssima radiação emana de seus hipocentros e se
estende por suas redondezas, formando um vasto campo de cinzas e terra queimada.
A permanência tornou-se impossível e os sobreviventes, buscando um novo
refúgio, partiram para as regiões menos contaminadas, afastando-se das grandes
cidades e deixando suas casas para sempre.
Mas
a sociedade como conheciam desapareceu, e hoje as ruínas estão em toda parte.
O homem
observa pela janela a rua lá fora. Está tudo igual, as árvores mortas, os
carros enferrujados, as casas abandonadas... Deve fazer três meses que ele não
vê ninguém passar ali, pelo menos ninguém estranho. Harold Perkins, um médico
endocrinologista, vive naquele bairro com mais oito famílias escondidas nas
casas ao longo da rua. Com exceção dele e de outras duas, as outras cinco
famílias são de invasores que peregrinavam pelas ruínas das cidades e
encontraram naquelas bonitas casas de classe média um abrigo. Por que se
importariam? Afinal a maioria das casas foram abandonadas e saqueadas. Era como
se seu bairro, que antes tinha crianças felizes brincando na rua, adultos
fazendo caminhadas e velhos levando os cães para passear, se tornasse uma
imensa cidade fantasma.
Os
antigos vizinhos, todos seus amigos dos quais Harold viu seus filhos crescerem,
o aconselharam a deixar a região dos subúrbios e migrar para áreas mais
saudáveis depois que as primeiras ogivas caíram. A radiação ia contaminar tudo
que estivesse próximo dos hipocentros, algumas bombas poderiam inclusive
queimá-los vivos se não estivessem longe o bastante. Os ataques ainda não
haviam terminado. O médico rejeitou a ideia. Seus amigos fizeram as malas,
colocaram suas famílias em seus carros e disseram adeus. Ele assistiu todos
eles partirem com sua pesada bagagem presa no teto dos carros. Desde aquele dia
ele nunca mais os viu.
Harold
tinha um fardo que não o permitiu deixar tudo para trás.
Enquanto
ainda olha para a mesma paisagem maçante, sua mulher o chama em seu quarto.
“O
que foi agora?” pensa ele.
Ao
chegar ao quarto ele encontra sua mulher, Melanie, sentada na cadeira de rodas.
Ela é paraplégica e está magra devido a escassez de alimentos e não tem mais
força para se locomover. Ela lhe indica algo sob sua calça.
-
Harold, eu acho que me sujei de novo.
- Está
menstruada? – pergunta ele, desejando que sim.
-
Acho que não.
O
médico puxa a calça de Melanie e vê a mancha nojenta de fezes em sua roupa. Ele
se desanima, fechando os olhos e respirando fundo, claramente irritado com sua
mulher. É a quinta vez essa semana que aquilo se repete. Apesar de Harold pedir
para ela ser cuidadosa e chamá-lo a tempo de ele tirar sua calça e por uma
bacia debaixo dela, era como se sua esposa o ignorasse e fizesse aquilo para
provocá-lo. Agora ele vai ter que levá-la ao banheiro, desperdiçar o pouco de
água que ainda resta e lavá-la na banheira, sem mencionar a roupa que ele vai
ter que esfregar com as mãos sem sabão nenhum.
- Eu
não disse para me avisar quando quisesse de novo? – pergunta ele, controlando
sua raiva.
-
Como eu ia saber? Não sinto nada da cintura pra baixo, lembra?
Melanie
o provoca. O médico perde a paciência.
-
Mas tem muitos cadeirantes que controlam suas necessidades fisiológicas por aí!
- Nossa!
Você deve conhecer muitos! Diga para eles virem nos visitar semana que vem!
-
Ah, sarcasmo de novo? É só isso o que sabe fazer agora, além de urinar e
defecar nas calças como um bebê recém-nascido!
-
Mesmo um bebê não seria tão infantil quanto você.
-
Que cheiro horrível! Esse fedor vai ficar no quarto à noite quando dormirmos.
-
Pensei que você fosse médico e não se incomodasse com isso.
-
Você sabe que vou ter que desperdiçar água limpa para te lavar, não é?
-
Temos muita água ainda.
-
Não, não temos! Da próxima vez que fizer suas necessidades nas calças eu vou te
lavar na mesma água. Não vou trocar mais.
- O
quê?! Não me ponha naquela imundície!
-
Está com nojo da imundície? E eu que vou ter que esfregar a merda do seu corpo
e das suas roupas?
Então
sua esposa responde:
-
Não sei por que está tão nervosinho, afinal foi culpa sua eu ficar assim!
Harold
se cala, não conseguindo mais responder. Ele se levanta e sai do quarto sem
olhar para Melanie.
- Eu
já volto.
-
Aonde você vai? Não pode me deixar aqui assim! – ela ouve seus passos se
afastarem – Harold?
Sua
esposa o chama novamente, gritando do quarto. Ele caminha para o velho armário
de cozinha e pega seu uísque, seu único amigo naqueles dias de dor. Ao pegar um
copo, ele o enche até a boca e o vira de uma vez, engolindo aquele líquido
ardido que desce queimando. Desta vez ele olha pela janela da cozinha, por
entre as agradáveis cortinas com desenhos de flores, e vê o gramado de seu
quintal se deteriorando com o tempo. O capim alto crescia em alguns trechos e o
gelo deixava o solo lamacento.
Ao
coçar os olhos, o médico vê a sujeira marrom escura sob suas unhas. Ele sabe o
que é. Após meses lavando o ânus de sua mulher, aquela sujeira não mais deixou
suas mãos. Deixando o copo sobre a pia, ele fecha cuidadosamente a garrafa de
seu precioso uísque e a guarda de volta no armário.
Uísque,
o bom e velho uísque que lhe causou tanta alegria e tanta desgraça.
§
Três
anos atrás, Harold e Melanie voltavam de um restaurante. Era o aniversário de
casamento e o médico concordou, após muita insistência de sua esposa, em
comemorá-lo fora de casa. Para Melanie aquela era uma data especial, mesmo que
para Harold fosse indiferente e ele tendo de comprar algum presente barato no
último minuto. Não querendo mais ganhar um buquê de flores murchas, caixas de
chocolate em forma de coração, perfumes que lhe causavam irritação ou
bijuterias que se desgastavam com o tempo, ela propôs um jantar romântico em um
requintado restaurante da cidade.
Melanie
tentou fazer do jantar um momento especial para os dois, mas Harold se esqueceu
de fazer a reserva e eles esperaram uma hora para se sentarem. Ele reclamava
das velas acesas sobre a mesa, atendia o celular enquanto comiam e abordava o
garçom para perguntar o resultado do baseball. Ela se decepciona com sua falta
de carinho e consideração, como pode seu marido, um homem estudado e
bem-sucedido, ser ao mesmo tempo tão grosseiro?
Harold
tinha um problema com o álcool. Para suportar os estressantes turnos no
hospital, tendo que aguentar os pacientes cada vez mais agitados devido a
iminente guerra nuclear, o médico passou a buscar refúgio no álcool para
amenizar o problema. Ele estocava garrafas e garrafas no armário, muitas vezes
escondendo-as de sua esposa. Após voltar do trabalho com duas multas de
trânsito, o médico entrou cambaleando em casa, visivelmente embriagado. Ela
sentiu o cheiro de álcool em seu hálito e entendeu tudo, Harold estava bebendo.
Poucas
mulheres são tão dedicadas quanto Melanie, e poucos são os homens privilegiados
em tê-las. Apesar de Harold relutar em perder o vício, beber escondido, cair na
dependência e voltar para casa embriagado, ela esteve ao seu lado e lutou para
a recuperação de seu marido. Foram dias difíceis, nem mesmo o médico pensou que
as esporádicas doses que ele bebia para aliviar o estresse lhe causariam tantos
problemas. Mas ele se curou, e foi tudo graças à sua esposa.
Sendo
um homem insensível aos sentimentos de sua esposa, Harold não entende por que
ela está tão irritada com seu comportamento no restaurante. Será que ela quer
atenção? Ele vai acabar dormindo se tiver que parar por cinco minutos para
ouvir aquela conversa maçante e inútil de Melanie. Afinal, de que importa saber
quem está namorando com quem, o suéter que ela comprou, os brincos novos,
aquelas dúzias de sapatos idênticos uns aos outros, outro vestido que ela vai
usar uma vez e depois esquecê-lo no guarda-roupa, a cafeteira nova da vizinha
ou as novelas chatas que só falam de amor? Tudo bem que é o aniversário de
casamento deles, mas ela esperava o quê? O médico não era nenhum príncipe
encantado que faria festas tremendas com carruagens, convidados e solenes
declarações de amor só por que mais um ano se passava juntos. Harold nem se
lembra quando eles se casaram, mas não foi com aquele romantismo barato onde o
homem se ajoelha e, abrindo a caixa de alianças, pede sua mão em casamento,.
Eles simplesmente estavam juntos há algum tempo e decidiram se casar, simples
assim. Por que fazer disso um estardalhaço agora?
Os
dois começam a brigar, a discussão acalora e as pessoas ao redor notam. O
médico tenta manter a discrição, sua mulher, porém, é mais histérica e não se
importa em manter a classe, falando alto e envergonhando-o na frente do
restaurante inteiro. Melanie é hostil, agressiva, não é o tipo de mulher
delicada e feminina que ele gostaria de ter. Harold pergunta se ela quer ir
embora mas ela diz não, querendo “comemorar” o aniversário até o fim.
Irritado
por fazê-lo passar vergonha, vendo os clientes ao redor se queixando aos garçons
por causa deles, o médico decide se vingar. Ele pede doses e doses de uísque,
engolindo cada uma com aquela expressão de ardência e provocando sua mulher.
Melanie tenta aos berros fazê-lo parar, mas ele bebe ainda mais. Os clientes
começam a deixar o restaurante e então o gerente é obrigado a intervir,
entregando-lhes a conta.
O
casal paga a conta e vai embora. Harold, com seus cabelos despenteados e a
gravata solta no colarinho, e Melanie com os olhos vermelhos de raiva e passos
apressados. O médico estava tão embriagado que não conseguia passar o cartão de
crédito na máquina antes de sair, errando o leitor o tempo todo. O manobrista
pergunta se ele quer chamar um táxi mas Harold o manda ir para o inferno.
Saindo
do estacionamento, o médico mal entra na rua e a discussão explode em seu carro
como uma bomba. Melanie grita e xinga, parecendo um cão raivoso espumando pela
boca. Harold está embriagado e grita de volta, mantendo a briga no mesmo nível.
O médico está desconcentrado na direção e a gritaria de sua esposa lhe tira do
sério, não conseguindo manter a calma, controlar a embriaguez e discutir ao
mesmo tempo.
A
noite está muito movimentada e as luzes dos carros ofuscam seus olhos. De
repente ele invade a outra pista e dirige na contramão, sua mulher grita de
desespero e ele vira o volante abruptamente. Alcoolizado demais para perceber o
que estava acontecendo, o médico apenas se lembra de ouvir buzinas, freadas
abruptas e o som apavorante de metal e vidro se quebrando com o impacto. O
carro gira várias vezes sobre o asfalto até ser parado por um caminhão na pista
oposta.
Acordando
de cabeça para baixo nas ferragens, Harold vê as luzes vermelha, azul e branca
da ambulância. Os paramédicos tentam retirá-lo e ao lado ele vê Melanie presa
nas ferragens, desacordada e com sangue escorrendo por seus cabelos. Em
intervalos de consciência, ele se vê dentro da ambulância e depois sobre uma
maca olhando para as luzes do corredor. Os médicos e enfermeiros estão agitados
e parecem se preocupar muito, mas não com ele, com sua esposa.
Horas
mais tarde ele acorda em um quarto de hospital com uma máscara de oxigênio no
rosto. Ao seu lado ele vê uma bolsa de sangue e um aparelho registrando suas
batidas cardíacas. Um médico, do qual ele não conhecia, está escrevendo algo em
seu prontuário quando o vê abrir os olhos. Ele parece olhar para Harold com
desprezo.
-
Está se sentindo bem?
Harold
está com feridas no corpo todo.
-
Estou com muitas dores.
-
Você vai ficar bem. Sofreu apenas cortes e arranhões. Aliás, você teve muita
sorte. Você estava com o nível de álcool dez vezes acima do permitido no
sangue. Não pensou nisso antes de dirigir? Afinal você é médico.
Ignorando-o,
Harold pergunta:
-
Onde está Melanie? Ela está bem?
O
outro médico demonstra rancor antes de responder.
-
Por que bebeu tanto, Sr. Perkins? Se quer arriscar sua vida, é seu direito, mas
arriscar a vida da própria esposa?
- Me
diga onde ela está.
-
Ela está neste hospital. Não se preocupe, ela está viva. Ainda.
Harold
se assusta.
- Ainda?!
- Há
uma cirurgia marcada para ela na UTI. Pelo que parece você não vai vê-la nas
próximas doze horas.
-
Meu Deus! O que houve?
- O
que houve foi que você bebeu, Sr. Perkins.
Irritado,
ele responde:
-
Pare de brincar comigo, seu cretino! Diga-me o que aconteceu com ela!
Segurando
a maçaneta da porta, o outro médico responde:
- A
Sra. Perkins teve muitos traumatismos e fraturas. Ela perdeu muito sangue
também. Conseguirmos estancar a hemorragia interna a tempo, mas não foi o
suficiente. Se ela sobreviver, e eu digo se,
ela vai passar o resto da vida em uma cadeira de rodas.
Harold
se espanta e antes que pudesse perguntar mais alguma coisa, o outro médico abre
a porta e o deixa sozinho. Lágrimas escorrem de seus olhos e molham os
esparadrapos, mas ele está dolorido demais para levantar seu braço e
enxugar-se.
Sozinho
no quarto, ele chora sem ninguém para consolá-lo. Por que ninguém quer.
§
Caminhando
de volta ao quarto, ele sente o olhar rancoroso de Melanie perfurá-lo como uma
faca. A maior tristeza e desgraça de sua vida foram por causa de seu marido, e
no dia de seu aniversário de casamento. Ao invés de um simples jantar romântico
naquela data tão especial, o “presente” que ele deu à Melanie não foi sua
simples companhia, sua atenção e seu carinho, mas sim um acidente de carro
horrível que a aleijou para sempre.
O
médico empurra sua cadeira e a leva para o banheiro. Enchendo a banheira de
água, ele tira suas roupas e se prepara para aguentar aquele cheiro
insuportável de fezes no ar. Ao colocá-la na banheira, ela reclama da água
fria. Ao passar a mão em seu corpo, ela reclama que ele não está lavando
direito. Ao abrir a janela para ventilar o banheiro, ela reclama do vento
gelado. Ao carregá-la para lavar melhor, ela reclama que ele está machucando-a.
Ao enxugar seu corpo, ela reclama que ainda está suja. Harold tenta ignorar sua
mulher, lidando assim com seu sentimento de culpa, de punição e de castigo
merecido por um acidente que debilitou suas vidas.
Mas,
no fundo, um sentimento diferente cresce em seu coração. Harold sempre foi um
homem insensível.
Dias
depois, o médico lava as roupas encardidas de sua mulher. As manchas marrons
não mais saíam e sem ter sabão, o próprio tecido apodrecia com a sujeira.
Pendurando as roupas no varal, ele olha para cima e vê as pesadas nuvens
cinzentas. Será que ele nunca mais vai ver o sol? Distraído, alguém vestido com
trapos velhos caminha apressado pelo quintal de sua casa, assustando-o.
-
Harold!
-
Meu Deus, Randolph! Quer me matar?
Randolph
é seu vizinho. Ele é de uma das famílias que decidiram ficar após os primeiros
ataques. Os dois eram grandes amigos, tomavam cerveja juntos enquanto assistiam
aos jogos de baseball, mas agora raramente se viam. O médico se surpreende ao
vê-lo novamente após um mês e meio, ele até pensou que Randolph tivesse ido
embora também.
-
Lembra-se daqueles forasteiros que se mudaram pra cá depois que todos se foram?
Eles vieram me avisar que os saqueadores estão chegando! Temos que fugir antes
que eles cheguem!
O
médico se intriga.
-
Saqueadores? Não há mais nada para saquear aqui.
-
Você não entendeu. Não são saqueadores comuns, é uma espécie de gangue... um
grupo organizado de assassinos violentos que aterroriza as ruínas da cidade.
Não é mais seguro ficarmos.
- Assassinos violentos?
-
É... Foi o que nos disseram. Eles usam armaduras arcaicas no corpo, feitas com
pedaços de metal retorcido e pneus usados... Como gladiadores, se preferir. –
Randolph tem dificuldade ao descrevê-los.
Harold
ri.
-
Foram os invasores no final da rua que te disseram isso?
- Sei
que parece loucura, mas você tem que acreditar neles também. Eles são
fugitivos, refugiados, vieram para essa vizinhança isolada por uma razão.
Acharam que ao se esconderem aqui estariam salvos... Mas estavam errados.
- E
como eles sabem dessa tal gangue de saqueadores?
-
Isso não importa! Eles deixam sentinelas durante a noite. Um deles viu os
saqueadores passarem pelas ruas e correu para nos avisar.
-
Randolph, faz meses que não vemos ninguém passar aqui!
Ainda
em tom amedrontado, o homem responde:
-
Ouça, Harold. Eu e minha família vamos partir amanhã de manhã. Acho que mais
pessoas virão conosco. Pense na Melanie! Venha também e vamos sair daqui
enquanto há tempo!
O
médico balança negativamente a cabeça.
-
Obrigado pela preocupação, mas eu não irei. Não vou deixar tudo para trás,
minha casa é tudo que tenho, é tudo o que me resta. Não vou deixá-la por que um
bando de forasteiros alucinados e viciados em drogas nos alertou a sair. Nós
não conhecemos estes invasores! Talvez eles queiram nos afugentar para trazer
mais gente, ou eles vão nos saquear,
nos roubando enquanto fugimos pelas ruínas da cidade. Você não pensou que isso
pode ser um truque?
-
Mas Harold, eles me disseram histórias horríveis sobre os saqueadores... –
Randolph se arrepia ao lembrar – Eu não sei o que vão fazer se eles nos
pegarem... Eu tenho filhas, tenho a minha esposa... Olha, cara. Eu vou embora
amanhã. Você devia vir junto e trazer a Melanie com você.
O
homem está decidido a convencê-lo. Harold pensa no assunto mas se entristece ao
lembrar. Ele não pode partir.
-
Desculpe, mas eu não posso. Há algo que me prende aqui. E não quero atrasá-los.
Randolph
entende o que o médico quer dizer, ficando um pouco em silêncio. Concordando
com a cabeça, o homem desiste de convencê-lo e responde:
-
Tudo bem, eu entendo. – ele se vira e diz – A gente se vê, amigo.
O
médico assiste o homem partir, caminhando pelo capim alto e pela terra
lamacenta. Mais uma vez Harold ficará para trás, preso em sua casa como se ele
fosse um navio ancorado. E a âncora se chamava Melanie.
À noite, ele acende uma vela e a põe sobre o
criado-mudo ao lado da cama. Deitando-a ao seu lado, a mulher diz:
-
Meu estômago está roncando. Estou com fome.
-
Não há o que comer. Sobrou apenas aquela farinha de trigo em pó.
-
Misture a farinha com água e dê para eu comer.
-
Você quer que eu levante agora para misturar farinha e água?
Com
rancor em sua voz, ela responde sutilmente:
- Eu
iria sozinha se eu pudesse andar.
Harold
sente a provocação mas não pode dizer nada. Ele se levanta e caminha pelo frio
e a escuridão da noite carregando a vela.
Na
cozinha, ele abre o armário e, tateando no escuro, procura a embalagem de
farinha quando seus dedos sentem o vidro da garrafa de uísque. Ele pega a
garrafa e, ao ver o líquido vermelho misturado com marrom, sua mente se
hipnotiza. Com a mão na tampa, ele está prestes a girá-la quando ouve um grito
vindo da rua.
Assustado,
ele corre em direção à sala e ouve sua irritante esposa perguntar “o que está
havendo?”. A rua está escura e deserta como sempre quando algo se aproxima ao
longe. Não dá para ver bem, mas parecem tochas, as chamas dançam enquanto se
aproximam. Melanie grita pedindo para ele dizer o que é e ele responde:
-
Fique quieta! Nós não estamos sozinhos!
Quando
as tochas se aproximam o suficiente Harold consegue ver, são dezenas de homens
altos e corpulentos caminhando pela rua como fantasmas na noite. O médico apaga
a vela rapidamente, queimando seus dedos com o susto. Apesar da luz turva e
amarelada das tochas, aqueles homens vestem armaduras bizarras, máscaras e
capacetes. Como homens primitivos, eles arrastam mulheres pelos cabelos, rindo
e se divertindo como animais pervertidos. Outros as carregam nos ombros e
Harold pode ver que há homens acorrentados pelos pulsos também, seguindo-os de
cabeça baixa e aparentando estar feridos. O médico reconhece aqueles cativos, “não
são os forasteiros que invadiram as casas no final da rua?”.
Passando
pela casa de Randolph, alguém lá dentro grita de susto, denunciando sua
presença. Os homens sacam suas armas, pedaços de pau, barras de ferro e
machados enferrujados, e avançam rugindo como leões contra a casa de seu amigo.
Eles invadem a casa e Harold ouve os gritos das filhas e da esposa de Randolph
se misturarem com os berros animalescos dos terríveis homens.
Correndo
de volta ao quarto, ele diz à Melanie:
-
Fique em silêncio. Há outras pessoas aqui, eles estão sequestrando os
refugiados... Eu vou sair e já volto.
-
Vai me deixar sozinha?
Sem
responder, ele a deixa e sai da casa pelos fundos.
Pulando
a cerca do vizinho ele se esgueira para mais perto da casa de Randolph no outro
lado da rua. Ao olhar bem ele não consegue entender nada, aqueles homens
doentios riem e pulam como se estivessem em um estado frenético de euforia.
Alguns estão do lado de fora enquanto outros destroem tudo lá dentro, quebrando
a mobília com suas armas rústicas. Minutos depois um dos homens sai segurando
Randolph, ele está com os pulsos amarrados e o rosto sangrando muito. Em
seguida saem suas filhas, totalmente nuas correndo pela porta de entrada. Os
homens as agarram e as derrubam, deitando-se sobre no gramado. “Meu Deus! Elas
estão sendo estupradas!” pensa ele. Por último sai outro homem, arrastando sua
mulher pelos cabelos. Ele a lança aos pés dos demais homens e eles imediatamente
a agarram, fazendo filas para estuprá-la.
Harold
se empalidece de pavor. As filhas de Randolph ainda são adolescentes, a mais
velha deve ter quinze anos! Mas isso não os impede, pelo contrário, os incita.
Ao ver sua esposa sendo violentada, Randolph se desvencilha e tenta agredi-los.
Os homens o seguram novamente, jogando-o de bruços no chão. Eles seguram seus
braços, pisam em suas costas e então um homem segurando um pesado machado o
ergue para o céu e o golpeia. O machado desce violentamente e em um único golpe
a cabeça de Randolph é separada de seu corpo.
- Randolph! – grita sua esposa.
O assassino
segura a cabeça decepada pelos cabelos e a levanta para o alto, encarando-a
enquanto ri de sua própria loucura. Sangue escorre do corpo de Randolph e lava a
calçada em frente à sua casa. Alguns minutos depois os homens vão embora,
levando com eles as filhas, a esposa e as famílias dos forasteiros, encerrando
aquela exibição bestial de carnificina.
O
médico continua parado ali, petrificado de medo e horror. Ele está em choque,
não consegue acreditar que aquilo é real e que aconteceu diante de seus olhos.
O que antes existia apenas em filmes de terror agora acontece neste novo mundo
sem leis. No que o mundo se tornou? Onde está a polícia para protegê-lo? Até onde
o homem é capaz de ir para exercer a plenitude de sua liberdade?
Atravessando
a rua, caminhando na escura e fria noite, Harold pega uma das tochas que
aqueles homens deixaram no chão e a carrega para perto do corpo. Randolph...
seu amigo... decapitado, deixado ali para apodrecer. O mesmo homem que Harold
conversava durante as tardes, brincava com suas filhas enquanto elas eram ainda
pequenas, faziam churrascos juntos em família, pedia ferramentas emprestadas...
Não pode ser, aquilo não é real. E sua mulher e filhas? O que será delas agora
nas mãos daqueles monstros?
Ainda
em choque e perdido em devaneios, de repente o corpo de Randolph tem espasmos
espontâneos. O médico se assusta e dá um salto para trás. Ele se sente mal, não
consegue mais ficar ali, no momento ele sente muito nojo para arrastá-lo e
enterrá-lo no quintal. Talvez amanhã ele faça isso. Talvez.
Voltando
para casa, Harold aleatoriamente se lembra de algo.
“O
Estado não pode proteger sua família. Você pode”. Ele se lembra dessa frase,
ela a ouviu nos tempos em que era pacifista e apoiava o desarmamento da
população. Mas que ideia idiota. Ele se pergunta quem vai proteger as famílias
indefesas, espalhadas por toda a cidade, agora que as forças de segurança
pública não existem mais. Talvez se um dia ele tivesse parado para pensar que a
sociedade um dia poderia acabar, ele precisaria das mesmas armas de fogo para
se proteger agora.
Entrando
no seu quarto, sua esposa está desesperada.
-
Harold, é você?
-
Sim.
- O
que houve? Eu ouvi gritos!
O
médico explica o que aconteceu. Melanie suspira de pavor e chora
descontroladamente. Harold é obrigado a acalmá-la e pedir para ela ficar em
silêncio. Aqueles homens ainda podem estar por perto.
-
Mas quem eram aquelas pessoas...? – pergunta ela, confusa.
Em tom
amargo ele responde:
-
Saqueadores.
§
Na
manhã seguinte, após uma noite sem dormir, o médico decide que é hora de
partir. Ele se levanta e diz à sua esposa:
-
Não podemos mais ficar aqui. Vou arrumar nossas coisas, nós vamos embora.
-
Embora para onde?!
- Os
saqueadores voltarão. Não posso arriscar sua segurança ficando aqui.
Ele
veste alguns casacos e põe algumas roupas na mochila. Ele vai à cozinha e enche
algumas garrafas de água, em seguida pega o pouco que sobrou das comidas
enlatadas e as guarda em sua mochila também. Sua mulher vê as latas e pergunta:
-
Você não disse que só tinha farinha de trigo?
- Eu
guardei estas para uma emergência.
- E
me deixou passando fome?
Mais
reclamação. Ele ignora e continua arrumando suas coisas. Como se o vício estivesse
chamando-o, ele retorna à cozinha, abre o armário e apanha a garrafa de uísque.
O passado ainda o persegue, o líquido saboroso encanta sua garganta enquanto
ele observa a garrafa. Pensando de novo, ele decide que é hora de deixar o
passado para trás.
Bebendo
pela última vez, ele esvazia quase um terço da garrafa em pequenas doses
seguidas. Fechando a tampa, ele devolve o uísque ao seu devido lugar, o armário
escuro do qual esteve escondido durante tanto tempo. Que esta seja a última vez
que ele abra aquele armário, fechando sua porta definitivamente como a tampa de
um caixão.
Voltando
ao quarto, ele carrega sua mulher e a senta na cadeira de rodas. Ela pergunta:
-
Que cheiro é esse? Andou bebendo?
Ela
está decidida a não deixá-lo em paz. Ele respira fundo e ignora novamente,
arrumando as pernas na cadeira.
As
mulheres tem um sexto sentido aguçado, o dom da premonição ou a previsão do
futuro apenas com o olhar. Ao ver seu marido se levantar sem olhá-la nos olhos,
o médico se vira dizendo:
-
Vou até a sala e já volto.
Segurando
seu braço com força incomum, ela o puxa de volta e diz:
-
Não me deixe.
Lágrimas
se formam nos olhos enrugados dela. Harold estranha mas se solta, dando as
costas em silêncio e indo à sala assim mesmo.
Quando
chega à sala ele vê um homem parado em frente à sua janela. Ele veste armaduras
pontudas nos braços e peito, parece estar todo sujo de graxa e seu cabelo é um
enorme moicano. O médico se paralisa ao encará-lo nos olhos, o homem usa uma
máscara assustadora de goleiro de hóquei, exibindo seus olhos arregalados
contra ele. Ele não sabe por quanto tempo ficaram se encarando, os poucos
segundos pareceram uma eternidade. Então sua mulher quebra a hipnose
chamando-o:
-
Harold...?
O
saqueador grita e acena para os seus companheiros se aproximarem. O médico
corre para a porta dos fundos, passando por seu quarto e saindo pelo quintal de
trás. Melanie vê seu marido correndo com passos pesados sobre o assoalho e se
assusta.
-
Harold!
O
médico pula a cerca de madeira e alcança a viela atrás das casas. Pulando outra
cerca, ele corre pelo quintal do vizinho e continua avançando pelas casas
abandonadas cobertas de poeira e penumbra. Chegando à rua de trás, ele corre o
mais rápido que pode pelos carros enferrujados e as árvores mortas, pisando sobre
o asfalto molhado e correndo como um atleta olímpico.
O
silêncio onipresente do bairro só é quebrado pelo zunido do vento, mas aquele
dia outros sons perturbaram a paz. Escondendo-se em outra casa, ele sobe as
escadas e observa pela janela de vidro quebrado. O médico se agacha pisando nos
cacos, fazendo-os trincarem sob seus pés. Ao longe está sua casa, em meio às
árvores e a paisagem cinzenta. Ele ouve pancadas e gritos, os saqueadores a
invadiram e estão quebrando tudo em seu frenesi de destruição. Por causa da
distância ele não ouve a voz de sua mulher, e nem mesmo pode ver sua casa com
clareza.
A
tristeza cresce em seu peito. Randolph estava certo, o que aconteceu com ele
poderia ter acontecido com Harold e sua esposa na noite anterior. Os forasteiros
estavam certos, aparentemente eles estavam certos em tudo. Eles tinham muita
razão em temer os saqueadores, talvez os forasteiros os trouxeram para os
subúrbios, talvez aqueles assassinos estivessem seguindo-os, mas de qualquer
forma os forasteiros estavam fugindo para salvar suas vidas, encontrando nos
distantes subúrbios um esconderijo ideal.
É
muita sorte Harold estar vivo. “Espere um pouco, eu já ouvi isso...” pensa ele.
“Sim, aquele médico prepotente me disse isso quando sofri um acidente com Melanie”.
“Melanie...”.
Deveria
ele voltar para resgatar sua esposa? Obviamente seria morte certa, e uma morte
desumana e cruel. Deveria ele se arriscar para salvar alguém que já morreu
muito antes de os saqueadores chegarem ou mesmo o mundo acabar? Sendo realista,
ele se convence de que não é maldade aceitar um pensamento tão polêmico. “Uma
cadeirante não serve para esse novo mundo...” pensa ele. Cadeirantes,
aleijados, amputados, paralíticos, deficientes, doentes terminais, doentes
crônicos, alérgicos, cancerosos... Todo aquele que precisar de uma cadeira de
rodas, muletas, andadores, remédios, tratamentos ou máquinas para ajudá-lo a
viver não tem salvação, eles já estão condenados.
A
realidade é cruel e pesa sobre sua consciência como um mundo a parte. A humanidade
voltou a viver como animais, como uma selva global. A mais sublime das leis
voltou a vigorar, a Lei da Natureza, a do mais forte, a do mais esperto, a
inexorável seleção natural que assombrou tanto as civilizações primitivas.
Melanie assinou sua sentença de morte quando a primeira ogiva foi lançada.
Harold não está sendo cruel ou errado, ele está apenas sendo realista.
E
por que se importar? Sua esposa fez de sua vida um tormento desde que foi parar
em uma cadeira de rodas. Foi ideia dela comerem em um restaurante aquela noite.
Se ela não tivesse irritado-o tanto talvez hoje ela estivesse fugindo com ele
ao invés de estar agora a mercê de estupradores e assassinos. Harold estaria
sendo cínico em pensar assim. Culpado ou não, o rancor entre o casal era mútuo.
Ele
decide que é hora de deixar o passado para trás. Primeiro seu alcoolismo e
agora sua irritante esposa. A vida não tem misericórdia dos mais fracos, por
que teria ele?
Harold
sempre foi um homem insensível, afinal. Ele se levanta e deixa seu esconderijo,
dando as costas à sua esposa e deixando todo o seu passado para trás.
As
ruínas da cidade são mais depressivas e opressivas do que a monótona paisagem
do subúrbio. O médico está caminhando há uma hora, sua mochila pesa em suas
costas e ele vê uma praça pública onde antigamente ele se sentava na beirada de
um belo chafariz. Quantas lembranças, quantas memórias, parece que aquele mundo
devastado aguçou sua nostalgia. Após tanto tempo passando por ali antes de o
mundo acabar, ele sequer notava a praça. Hoje ela resiste à poeira e o recebe
de braços abertos, como uma mãe que reencontra seu filho.
Descansando
ali ao som do vento frio, ele ouve algo além das ruas cobertas de carros
enferrujados. Escondendo-se atrás dos carros, ele vê um grupo de peregrinos
caminhar pela rua enquanto procuram por itens valiosos nos porta-malas. É o
grupo do professor.
Aproximando-se
lentamente, Harold se levanta e o grupo se assusta ao vê-lo. Ele levanta suas
mãos, simbolicamente indicando que não quer hostilidades, e então pergunta:
- Eu
estou perdido. Preciso de ajuda.
É
engraçado dizer que está perdido na cidade em que ele nasceu e cresceu, mas
após a devastação nuclear nada mais ficou o mesmo.
-
Quem é você? – pergunta o professor. Atrás dele o grupo se esconde, há mulheres
e crianças também.
-
Meu nome é Harold Perkins. Sou um médico endocrinologista. – responde ele,
pensando que se disser sua profissão ele será necessário.
- Um
médico? – ele pondera e então pergunta – O que está fazendo aqui? De onde você
vem?
-
Dos subúrbios. Eu estou fugindo, minha casa foi invadida por saqueadores.
Ao
responder, o grupo se apavora.
- Os
saqueadores estão nos subúrbios?
-
Sim, eles chegaram ontem à noite. Eles capturaram os refugiados e estupraram as
mulheres. Meu amigo Randolph tentou resistir e foi... decapitado...
As
mães abraçam seus filhos e os homens suspiram de agonia. Há famílias inteiras
no grupo e os homens temem o que pode acontecer quando os saqueadores os
acharem também.
-
Certo. Você pode ficar conosco. – responde o professor.
Harold
se alegra e então se prepara para acompanhá-los. Ele põe sua mochila nas costas
e fecha seu casaco.
Distraído
com suas coisas, o professor se aproxima e pergunta:
- Há
mais pessoas com você ou não sobrou mais ninguém?
Lembrando-se
de Melanie, o médico hesita antes de responder. Abrindo sua boca, ele controla
a confusão ao dizer.
-
Não... Sou o único que restou. Não há sobreviventes.
O
professor assente com a cabeça e volta para perto do grupo. Harold olha para
trás por um momento, em direção aos subúrbios de onde veio, e então caminha
para o grupo, seguindo-os em seu caminho.
Através
de uma alucinação ou uma lembrança muito forte, ele parece ouvir a voz de sua
esposa planando pelo vento e alcançado seus ouvidos. Ela o chama com todas as
suas forças. O eco do grito o paralisa, mas sem se voltar ele fecha os olhos e responde
em pensamentos:
“Adeus,
Melanie”.

Nenhum comentário:
Postar um comentário