Fragmento
2
Não
se deve culpar o destino pelo mal que nos sobrevém. O destino pune aqueles que
merecem, mas às vezes pune aqueles que não
merecem. Os tempos de transição são difíceis, nunca se sabe o dia de
amanhã, mesmo hoje não há como saber o que vai acontecer nos próximos cinco
minutos. Pelo menos é assim que Harry pensa ao assistir os preocupantes
noticiários na TV. Destino. Transição.
Os
sonhos deveriam ser a diretriz das pessoas, a perspectiva de vida, as ambições
e desejos do que se quer ter, conhecer, realizar. Desde criança ouvimos a
maçante pergunta dos pretensiosos e às vezes desinteressados adultos dizendo: o
que você quer ser quando crescer? Alguém pode pensar: “Isso é uma presunção?
Quer medir meu valor pela profissão que quero escolher? Se minha resposta não
te agrada, vai me desmerecer com o olhar e voltar a conversar com outro adulto
tão frio e vazio quanto você?”. Harry talvez não tenha muitos sonhos, ambições
ou sólida perspectiva de vida que transmita alguma credibilidade às pessoas e familiares
ao redor, mas eles não podem dizer que ele não tentou.
Trabalhando
desde os nove anos de idade em uma oficina mecânica, ele almejou crescer
profissionalmente para nunca mais sentir o detestável cheiro de óleo e fumaça
nas roupas. Na juventude, quando o ensino técnico deu errado, o ensino superior
mostrou-se impensável e a gravidez indesejada da namorada lhe pegara de
surpresa, parecia que uma enorme muralha havia se levantado à sua frente. Com o
passar dos anos essa mesma muralha o cercou e o encerrou lá dentro. Seus pais o
culparam, nunca o apoiaram e o casamento forçado multiplicou suas dívidas. O
filho estava prestes a nascer e sua esposa, leviana demais para passar pelas
dificuldades ao seu lado, forçou-o a trabalhar para sustentar a criança. Seu
único presente de casamento foi uma velha TV de tubo. Quando tudo dava errado,
não havendo oportunidades decentes de trabalho, ele recorreu à única coisa que
sabia fazer: mecânica de autos.
A
vida parecia ter colocado um ponto final em qualquer ambição. Depois do
primeiro filho veio outro e outro, todos não planejados, ao menos não por ele.
Apesar das excessivas horas de trabalho, voltando para casa sujo de óleo e graxa,
ele já sabia. Sua mulher estava traindo-o.
Os
anos se passaram e ela finalmente foi embora. Seu filho mais velho tinha doze
anos na época. Sua esposa se foi e os filhos foram morar com a sogra. Sozinho
em casa, ele tinha a companhia apenas da velha TV. Depois de tanto tempo
sustentando uma família de ingratos que o culpavam por tamanha pobreza, ele
teve hérnia abdominal e adoeceu. O esforço que fazia para ganhar dinheiro fazendo
força não lhe rendeu amor e reconhecimento de sua família, mas sim desprezo e
uma doença que o debilitou por meses inteiros.
No
hospital, quando esperava para ser operado, o noticiário informava sobre uma
guerra nuclear iminente. As notícias sobre essa guerra eram cada vez mais frequentes
e todos estavam preocupados. “O que é isso? O retorno da Guerra Fria?”. Ele não
se importava, seu país, os Estados Unidos, já haviam passado por isso antes.
De volta em casa, Harry pediu que seu filho do
meio viesse visitá-lo todos os dias para ajudá-lo em sua recuperação. Com muita
má vontade, seu filho veio apenas uma vez e por todos os outros quinze dias ele
teve de se virar sozinho, mal podendo andar, comendo biscoitos para o almoço e
estancando os pontos da cirurgia que insistiam em sangrar. Ele nunca havia
sentido tanta dor. Deitado em sua cama, ele assistia sua “jurássica” TV de
tubo, sem ter tela plana, áudio stereo, tecla SAP, tons de imagem, canais de
áudio ou controle remoto. Ele assistia aos insistentes noticiários que
informavam de tropas invadindo nações, quebras de acordo, fracassos
diplomáticos, testes de mísseis balísticos e como sempre, possibilidade de
guerra nuclear. Ele passou a desejar a morte, se houvessem ataques nucleares
ele ficaria feliz em morrer e deixar esse amargo destino para trás.
Mas
não se tratava apenas de destino, mas dos tempos de transição.
Ele
se recuperou finalmente e, com exceção das inúmeras contas, aluguéis e
cobranças sobre a mesa, ele estava sozinho. A TV era sua única amiga que
“conversava” com ele com sua programação culinária, novelística e
cinematográfica, a única que passou pelas dificuldades com ele durante todos
esses anos, sem nunca deixa-lo sozinho. Mas então surgiam eles, os noticiários.
Interrompendo
a programação, os noticiários o incomodavam para falar do mesmo assunto, só que
dessa vez havia algo um pouco diferente. Ele viu que sua cidade estava sendo
saqueada e que a Segurança Nacional havia instaurado toque de recolher e lei
marcial.
Harry
teve uma curiosa ideia. Quando criança, lhe perguntaram o que queria de
presente de natal e ele respondeu: “quero uma TV bem grande!” Mas que droga, se
em toda sua vida ele nunca teve dinheiro para comprar essa TV grande, tendo de
contentar-se com essa porcaria velha em sua sala, por que não roubar uma?
Ele saiu ao anoitecer, mas não haviam mais
ônibus operando. Ele caminhou até o centro da cidade e, ao ver os vândalos e
ladrões fazendo arruaças, ajudou a arrombar a porta de uma loja de
eletrodomésticos. Os ladrões corriam desesperados pela loja, como se roubar
fosse o equivalente ao vício provocado pelo uso das drogas, e eles estavam em uma
tremenda abstinência. Harry apanhou a grande TV de seus sonhos, uma incrível TV
japonesa de LCD de 52 polegadas de última geração.
Voltando
à rua, desajeitado e com dificuldade por causa da TV pesada em suas costas, ele
pensou: “devia ter lembrado que eu voltaria carregando-a”. Mas ele não teve que
se preocupar com isso por muito tempo.
O
zunido atravessou o céu noturno como um cometa. Os vândalos, mendigos e ladrões
pararam o que estavam fazendo e olharam hipnoticamente o brilhante cometa
rasgar o céu, rápido como um relâmpago. “O que é isso?” pensa Harry.
O
clarão transforma a noite em dia por alguns segundos. De repente a enorme
esfera de luz e fogo se forma sobre a cidade, levantando o monstruoso cogumelo
ígneo. A onda de calor e energia varre os prédios, desmanchando-os
instantaneamente como se fossem de isopor. E os criminosos na rua, em seu
último delito, se desintegram até os ossos na explosão. Harry, o trabalhador
esforçado e pai dedicado, morre segurando firmemente sua TV em seus braços,
como uma criança agarrada ao seu ursinho de pelúcia que o protegia quando ele
sentia medo. Então os dois são varridos pela onda até se tornarem meras
partículas no ar.
A
vida lhe reservou um destino cruel, ser um homem fracassado de poucas ambições,
mas em seu último minuto ele se “redimiu”. Usufruindo ou não, ele tinha
finalmente realizado a única coisa em sua vida que se aproximava de um sonho,
conseguido sua “TV bem grande”.
Tempos
de transição.

Nenhum comentário:
Postar um comentário