terça-feira, 14 de abril de 2020

Os Fracos - 04 - Fragmento 2



Fragmento 2

Não se deve culpar o destino pelo mal que nos sobrevém. O destino pune aqueles que merecem, mas às vezes pune aqueles que não merecem. Os tempos de transição são difíceis, nunca se sabe o dia de amanhã, mesmo hoje não há como saber o que vai acontecer nos próximos cinco minutos. Pelo menos é assim que Harry pensa ao assistir os preocupantes noticiários na TV. Destino. Transição.
Os sonhos deveriam ser a diretriz das pessoas, a perspectiva de vida, as ambições e desejos do que se quer ter, conhecer, realizar. Desde criança ouvimos a maçante pergunta dos pretensiosos e às vezes desinteressados adultos dizendo: o que você quer ser quando crescer? Alguém pode pensar: “Isso é uma presunção? Quer medir meu valor pela profissão que quero escolher? Se minha resposta não te agrada, vai me desmerecer com o olhar e voltar a conversar com outro adulto tão frio e vazio quanto você?”. Harry talvez não tenha muitos sonhos, ambições ou sólida perspectiva de vida que transmita alguma credibilidade às pessoas e familiares ao redor, mas eles não podem dizer que ele não tentou.
Trabalhando desde os nove anos de idade em uma oficina mecânica, ele almejou crescer profissionalmente para nunca mais sentir o detestável cheiro de óleo e fumaça nas roupas. Na juventude, quando o ensino técnico deu errado, o ensino superior mostrou-se impensável e a gravidez indesejada da namorada lhe pegara de surpresa, parecia que uma enorme muralha havia se levantado à sua frente. Com o passar dos anos essa mesma muralha o cercou e o encerrou lá dentro. Seus pais o culparam, nunca o apoiaram e o casamento forçado multiplicou suas dívidas. O filho estava prestes a nascer e sua esposa, leviana demais para passar pelas dificuldades ao seu lado, forçou-o a trabalhar para sustentar a criança. Seu único presente de casamento foi uma velha TV de tubo. Quando tudo dava errado, não havendo oportunidades decentes de trabalho, ele recorreu à única coisa que sabia fazer: mecânica de autos.
A vida parecia ter colocado um ponto final em qualquer ambição. Depois do primeiro filho veio outro e outro, todos não planejados, ao menos não por ele. Apesar das excessivas horas de trabalho, voltando para casa sujo de óleo e graxa, ele já sabia. Sua mulher estava traindo-o.
Os anos se passaram e ela finalmente foi embora. Seu filho mais velho tinha doze anos na época. Sua esposa se foi e os filhos foram morar com a sogra. Sozinho em casa, ele tinha a companhia apenas da velha TV. Depois de tanto tempo sustentando uma família de ingratos que o culpavam por tamanha pobreza, ele teve hérnia abdominal e adoeceu. O esforço que fazia para ganhar dinheiro fazendo força não lhe rendeu amor e reconhecimento de sua família, mas sim desprezo e uma doença que o debilitou por meses inteiros.
No hospital, quando esperava para ser operado, o noticiário informava sobre uma guerra nuclear iminente. As notícias sobre essa guerra eram cada vez mais frequentes e todos estavam preocupados. “O que é isso? O retorno da Guerra Fria?”. Ele não se importava, seu país, os Estados Unidos, já haviam passado por isso antes.
 De volta em casa, Harry pediu que seu filho do meio viesse visitá-lo todos os dias para ajudá-lo em sua recuperação. Com muita má vontade, seu filho veio apenas uma vez e por todos os outros quinze dias ele teve de se virar sozinho, mal podendo andar, comendo biscoitos para o almoço e estancando os pontos da cirurgia que insistiam em sangrar. Ele nunca havia sentido tanta dor. Deitado em sua cama, ele assistia sua “jurássica” TV de tubo, sem ter tela plana, áudio stereo, tecla SAP, tons de imagem, canais de áudio ou controle remoto. Ele assistia aos insistentes noticiários que informavam de tropas invadindo nações, quebras de acordo, fracassos diplomáticos, testes de mísseis balísticos e como sempre, possibilidade de guerra nuclear. Ele passou a desejar a morte, se houvessem ataques nucleares ele ficaria feliz em morrer e deixar esse amargo destino para trás.
Mas não se tratava apenas de destino, mas dos tempos de transição.
Ele se recuperou finalmente e, com exceção das inúmeras contas, aluguéis e cobranças sobre a mesa, ele estava sozinho. A TV era sua única amiga que “conversava” com ele com sua programação culinária, novelística e cinematográfica, a única que passou pelas dificuldades com ele durante todos esses anos, sem nunca deixa-lo sozinho. Mas então surgiam eles, os noticiários.
Interrompendo a programação, os noticiários o incomodavam para falar do mesmo assunto, só que dessa vez havia algo um pouco diferente. Ele viu que sua cidade estava sendo saqueada e que a Segurança Nacional havia instaurado toque de recolher e lei marcial.
Harry teve uma curiosa ideia. Quando criança, lhe perguntaram o que queria de presente de natal e ele respondeu: “quero uma TV bem grande!” Mas que droga, se em toda sua vida ele nunca teve dinheiro para comprar essa TV grande, tendo de contentar-se com essa porcaria velha em sua sala, por que não roubar uma?
 Ele saiu ao anoitecer, mas não haviam mais ônibus operando. Ele caminhou até o centro da cidade e, ao ver os vândalos e ladrões fazendo arruaças, ajudou a arrombar a porta de uma loja de eletrodomésticos. Os ladrões corriam desesperados pela loja, como se roubar fosse o equivalente ao vício provocado pelo uso das drogas, e eles estavam em uma tremenda abstinência. Harry apanhou a grande TV de seus sonhos, uma incrível TV japonesa de LCD de 52 polegadas de última geração.
Voltando à rua, desajeitado e com dificuldade por causa da TV pesada em suas costas, ele pensou: “devia ter lembrado que eu voltaria carregando-a”. Mas ele não teve que se preocupar com isso por muito tempo.
O zunido atravessou o céu noturno como um cometa. Os vândalos, mendigos e ladrões pararam o que estavam fazendo e olharam hipnoticamente o brilhante cometa rasgar o céu, rápido como um relâmpago. “O que é isso?” pensa Harry.
O clarão transforma a noite em dia por alguns segundos. De repente a enorme esfera de luz e fogo se forma sobre a cidade, levantando o monstruoso cogumelo ígneo. A onda de calor e energia varre os prédios, desmanchando-os instantaneamente como se fossem de isopor. E os criminosos na rua, em seu último delito, se desintegram até os ossos na explosão. Harry, o trabalhador esforçado e pai dedicado, morre segurando firmemente sua TV em seus braços, como uma criança agarrada ao seu ursinho de pelúcia que o protegia quando ele sentia medo. Então os dois são varridos pela onda até se tornarem meras partículas no ar.
A vida lhe reservou um destino cruel, ser um homem fracassado de poucas ambições, mas em seu último minuto ele se “redimiu”. Usufruindo ou não, ele tinha finalmente realizado a única coisa em sua vida que se aproximava de um sonho, conseguido sua “TV bem grande”.  
Tempos de transição.




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