(Imagem de Sonya Laneyev)
A Juíza
Desobedecendo
a ordem do professor, a juíza Susan Bradley deixa o abrigo à noite e sai a
procura de água. O grupo estava escondido em uma casa em ruínas localizado em
um bairro da cidade que já foi prestigiado por ser valorizado, mas não tão caro
quanto um condomínio fechado. Nesse bairro haviam ruas organizadas, vizinhança
tranquila e localização próxima do centro. Desde antes da guerra, o bairro era
calmo e silencioso, inclusive o asilo de idosos ficava mais acima, e a qualquer
hora do dia podia-se caminhar por ele tranquilamente. A maioria dos residentes
era gente velha e não gostava de andar nas ruas íngremes, preferindo ficar em
casa. Por ser um bairro sobre os morros da cidade, talvez o único ponto
negativo era ter tantas subidas e descidas, algumas ruas eram tão íngremes que
desencorajavam caminhadas frequentes.
O
professor viu um córrego mais abaixo, no lugar onde antes era a avenida. Ali a
água ainda fluía vagarosamente, água que antes era das galerias pluviais dos
bairros ao redor. O grupo tinha sede, suas garrafas plásticas estavam secas e
vazias, eles precisavam urgente beber água, mas buscá-la não era tão simples
como gostariam. Apesar do lodo na água, eles não se importavam de bebê-la mesmo
assim. É nessa hora que eles se arrependem de desperdiçá-la nos tempos antes da
guerra. Hoje, quando a barba dos homens cresce desordenadamente e as mulheres cujos
sovacos ficam com odor cada vez mais mais forte, a preciosidade da água parece
castigar-lhes com sua ausência.
Havia
riscos enormes em ir buscá-la. Os girinos na água significavam que ela não
estava tão contaminada pela radiação. Mas seriam eles corajosos o suficiente
para descer lá e pegá-la? Era raro ver água na cidade que não estivesse poluída
ou contaminada, os outros a disputavam ferrenhamente e constantemente essas
disputas acabavam em mortes sangrentas.
O
grupo vivia com medo, sempre se escondendo e fugindo. Todas as vezes que eles avistavam
pessoas ao longe, esses encontros acabavam em violência e mais mortes. Eles
sempre viam os saqueadores, aqueles homens cruéis que andavam sempre em bandos.
Ao encontrarem grupos menores, os saqueadores roubavam suas coisas, matavam os
homens e raptavam as mulheres.
Conhecendo
os riscos e a terrível desgraça que os sobreviria se fossem capturados em uma
armadilha, o professor decidiu não pegar a água, pelo menos não naquele
momento. Não era muito diferente do reino animal, afinal. Como uma manada de
zebras, eles seriam imprudentes o bastante para descer ao rio e saciar a sede
enquanto os implacáveis crocodilos os aguardavam pacientemente na margem,
apenas esperando para devorá-los? Havia mulheres no grupo do professor, mesmo
que os homens fossem raptados para serem escravos, nada no mundo seria pior do
que ser escrava sexual dos saqueadores. Seu destino seria o pior e mais
horrível de todos. Por esta razão, se havia algum momento para pegar a água não
seria agora.
A
juíza era uma mulher decidida, independente, nunca precisou de homem dando-lhe
ordens e permissão para o que quisesse. Antes da guerra ela era juíza, ela dava a última palavra. Homem nenhum
no mundo a diz o que fazer, talvez seja por essa personalidade tão forte que
ela tenha se tornado juíza, para não obedecer a homem nenhum.
Ela
tinha um filho, um menino de dez anos. O pai se divorciou da mãe, não conseguindo
suportar a personalidade autoritária de sua mulher, e o menino ficou sem pai
por cinco anos. Com o tempo o filho foi perdendo a lembrança do pai. Por
decisão judicial, a dela, o pai não mais o viu desde então.
O
menino estava magro, desnutrido e com sede. Ele usava um manto para se proteger
do frio e da contaminação do inverno nuclear. Suas roupas tinham manchas
horríveis de sujeira, se continuasse assim ele ia pegar uma doença ou algo
pior. Ela não conseguia suportar mais essa situação, precisava fazer algo nem
que tenha de desobedecer um sujeito presunçoso que pensa ser o líder de um
grupo de refugiados perambulando pelas ruínas da cidade.
Sem
avisar, ela pega a lanterna do professor, a única que ainda funcionava, e a
esconde em seu bolso. É engraçado pensar que uma mulher cuja profissão era de
julgar e condenar um crime, agora o pratica naturalmente sem se importar com a
vítima. Após roubar a lanterna ela espera anoitecer e, quando todos estão
ocupados estendendo seus cobertores encardidos no chão sujo, ela pega seu filho
e deixa o abrigo.
As
ruas escuras são sinistramente varridas pelos ventos uivantes da noite. O
inverno nuclear condensa o ar frio nas superfícies formando finos cristais de
gelo. Caminhar sobre o asfalto deteriorado, com focos de vegetação saindo de
suas rachaduras, é trabalhoso no escuro. Seus passos fazem barulho e seu filho
às vezes some entre as plantas maiores. Ela usa a lanterna e ilumina o caminho
à frente, sem a cautela que o professor teria em desligar a luz para que
ninguém a veja passando ali. A juíza é totalmente imprudente, ela mira o facho
de luz para cima e para baixo, para as casas ao lado e para trás. De tão
desleixada até um cego a veria ali à noite.
Descendo
a rua morro abaixo, ela avista o córrego logo à frente. A avenida tem duas vias
com três faixas cada, separadas pelo córrego. Antigamente aquela avenida era um
belo ponto turístico da cidade, com restaurantes, shoppings e bares em seu
entorno. Olhando-a hoje, é difícil imaginar que aquela paisagem nefasta um dia
já foi bonita de se ver. Levando seu filho pela mão, ela se desvia de alguns
carros enferrujados e se dirige à beira do córrego. Ela não se sente bem, a
sensação de urgência atrapalha seu raciocínio, o constante som das janelas
batendo com o vento a assustam constantemente.
Susan
retira de sua bolsa quatro garrafas de plástico de dois litros, as mesmas das
antigas marcas de refrigerante. A saudade a domina, ela sente o gosto delicioso
da bebida em sua boca, os adoráveis refrigerantes gaseificados que faziam tão
mal e ao mesmo tempo tão bem. Ela se reprime por tantas vezes tê-lo recusado no
passado, no desejo de emagrecer e ficar mais bonita que suas amigas e colegas
de trabalho. Mais um prazer que morreu junto com o mundo antigo.
A
água escorre vagarosamente pelo estreito caminho feito entre a crescente
vegetação. Susan vê poças de água e afunda a garrafa, enchendo-a e tampando-a
em seguida. A juíza sabe que está contaminada pela radiação, mas o que fazer
quando não há mais água limpa para beber? Morrer de sede? Ela enche a garrafa e
se distrai pensando como ela vai morrer, ou quando, já que pode ser bem antes
do que imagina. Se ela ficar doente, quem vai cuidar de seu filho?
O
menino bebe água e ela apenas observa. Será que ele vai adoecer também? Talvez
antes dela e ela tenha de vê-lo definhar até a morte. Afastando os maus
pensamentos, ela retira seu manto e o lava na água. O menino segura a lanterna
e espera sua mãe esfregar o manto sujo, improvisando uma lavagem sem nenhum
sabão. Torcendo-o bem, ela pega uma sacola plástica e o guarda, intencionando
estendê-lo no abrigo depois. Guardando as garrafas de água na bolsa, ela segura
a mão de seu filho e deixa o córrego.
Caminhar
pela subida íngreme é cansativo, ainda mais com oito litros de água em suas
costas. Acostumada a ter carro desde os dezesseis anos, Susan não se lembra
como é difícil se deslocar com as próprias pernas. Maldita guerra nuclear,
dane-se se devastou o mundo, poderia ter devastado qualquer outro país desde
que não fosse o seu. Mas a guerra veio e levou sua bela casa, seus luxos e seu invejável
padrão de vida.
Acabada
a subida e de volta à rua onde fica o abrigo, ela para na esquina e descansa um
pouco. Atrás dela há uma cabine telefônica, seu filho a vê e corre para ver o
que há ali dentro. O menino se surpreende ao ver que o telefone ainda está
inteiro e o leva até a orelha, apertando as teclas no painel e brincando um
pouco. Ele finge estar falando ao telefone, brincando inocentemente sem saber
que nunca mais haverá alguém no outro lado da linha.
Distraída
com suas coisas, a juíza não percebe que alguém se aproxima na rua, pelo lado
oposto ao abrigo. É um homem de bicicleta, pedalando no escuro, indo em direção
à juíza parada na esquina. A juíza ouve o som estranho se aproximar, um ruído
metálico de peças em movimento. Quando ela percebe a aproximação o homem já
está ao seu lado, parado ao lado dela montado em sua bicicleta.
Tudo
é muito rápido, mas no susto ela consegue captar a imagem do estranho em
detalhes. O homem a encara com um olhar maldoso, seu rosto é barbudo e ele
veste um casaco preto e rasgado. Ela percebe que no homem há uma espécie de
armadura improvisada sob suas roupas. Até a bicicleta ela consegue ver, peças
velhas e enferrujadas. Ele usa gorro e os cabelos longos e sebosos são visíveis.
O odor dele é horrível.
O
homem sorri e então diz:
- Oi,
gostosa.
A
juíza sente o medo crescer em seu corpo. Controlando os impulsos de pânico, com
muito esforço ela chama o menino:
-
Venha, filho! Venha logo!
O
menino olha para sua mãe e vê o homem ao lado dela. Pensando ser um amigo do
abrigo, ele calmamente põe o telefone de volta no gancho e corre em sua direção.
Nisto, o homem encara o menino e vai embora pedalando sua bicicleta. A juíza
segura firmemente a mão dele e o arrasta de volta, machucando-o. Com os gritos
de dor, torna-se evidente mais uma vez sua presença ali.
O
professor e os refugiados dormem no abrigo. Ele percebe que a juíza está
ausente mas não sabe por que ela partiu. De qualquer forma, ninguém no abrigo
tem coragem de sair à noite e procurá-la, afinal ela partiu porque quis. Todos
estão deitados no escuro e tentam se aquecer sob os cobertores, lutando contra
o frio noturno. De repente eles são despertos abruptamente por gritos
esganiçados vindos da rua. O que é que está havendo?
Pedindo
a todos para ficar em silêncio, eles se dirigem à janela e espiam a rua lá
embaixo. Como uma procissão profana, dezenas de homens grotescos vestindo
armaduras e carregando tochas caminham rua acima, levando à força a juíza e seu
filho. Ela grita descontroladamente, os homens riem perversamente e se
satisfazem com o desespero da mulher.
A
juíza reconhece a casa onde os refugiados estão e grita por socorro. Os saqueadores
se intrigam ao vê-la chamar alguém nas casas abandonadas e miram a lanterna na
mesma direção. O facho de luz ilumina precisamente o rosto do professor
espionando-os. Em um impulso desesperado, ele grita com toda sua força:
- Corram!
Os
refugiados pulam de susto e correm para o quintal dos fundos, salvando o máximo
que podem dos cobertores estendidos no chão. Eles pulam os muros destruídos e
avançam pelas casas acima, atravessando quarteirões inteiros, passando por
dentro dos quintais e evitando as ruas vazias. Eles a abandonaram.
Os
homens a levam ao seu esconderijo, eles vivem em uma delegacia de polícia em
ruínas no fim da rua. A fachada está coberta de lixo, há barris metálicos com
fogueiras dentro, viaturas policiais enferrujadas e centenas de pichações nas
paredes da frente. Do lado de fora se pode ver o interior do prédio, iluminado
pobremente com tochas presas nas paredes. Mais homens aparecem na entrada, com
as mesmas armaduras improvisadas e alguns vestindo fardas velhas e rasgadas de
policiais. “Policiais” lembra-se ela, “para onde foram os únicos que podiam nos
proteger?”
A
juíza reconhece as grotescas armaduras dos homens, são iguais aos dos
arruaceiros, ladrões e assassinos que o maçom enfrentou dias atrás. Os homens
vestem pedaços de pneus em seu peito, correntes na cintura, pulseiras com
pregos, ombreiras de latão, joelheiras de plástico, luvas de pano, máscaras de
soldador e macacões jeans. Iguais aos antigos mendigos, alguns têm uma
aparência imunda e parecem estar cobertos de graxa ou fuligem, outros vestem
casacos velhos e sobretudos rasgados, cheirando terrivelmente mal. O cabelo e a
barba ensebada deles fedem a cerveja e cigarro. Alguns usam o corte moicano,
outros têm a cabeça raspada e outros usam dreadlocks.
Os
saqueadores veem o rosto da juíza e gritam de euforia, se deliciando por terem
mais uma mulher no esconderijo. Eles gritam incessantemente “carne fresca”,
“mulher” e outros a chamam de adjetivos grosseiros como “delícia”, “gostosa” e
“vadia”. Enquanto a arrastam pelo interior do prédio, os homens a tocam
constantemente. Alguns são mais delicados, acariciando seus cabelos e passando
a mão suavemente em seu rosto.
Nos
fundos da delegacia estão as celas dos antigos presos. No pátio interno da
detenção ela vê varais e roupas sujas penduradas, o cheiro é de mofo e lixo
velho, as paredes estão todas pichadas e todas as celas estão abertas. Mais
saqueadores ocupam as celas, usando-as como dormitório. Os saqueadores abrem a
grade da última cela e a jogam ali dentro, trancando-a depois. No desespero do
momento ela se esquece de seu filho, até ouvi-lo gritar ao longe. Batendo
contra a grade e gritando com toda sua força, ela pede por ele mas os homens
riem e a ignoram.
No lado
de fora aparece aquele que aparentemente é o líder, o mais alto e mais forte de
todos, vestindo armaduras no peito e nas pernas. Ele veste uma máscara de gás,
sinistramente tampando seu rosto. Suas mãos e braços estão cobertos de fuligem.
Atrás
dela, alguém segura seu ombro. Susan se vira assustada e vê outras quatro
mulheres dentro da cela. As mulheres a encaram com um olhar sem esperança e de
profundo desprezo pela vida. Duas delas são mais jovens, entre vinte e trinta
anos, e a terceira tem a idade aproximada da juíza, com pouco mais de quarenta
anos. A última é mais velha e tem entre cinquenta e sessenta anos, uma idosa de
cabelos grisalhos e dentes faltando na boca.
A
idosa diz:
-
Acalme-se. Não há o que fazer.
-
Quem são vocês?
-
Somos cativas, escravas sexuais destes pervertidos aí fora.
A
juíza finge que não ouve a resposta e pede ajuda.
- Me
ajudem a sair daqui! Eles estão com meu filho!
As
mulheres arregalam os olhos.
- É
uma criança?
-
Sim! – responde ela, de imediato.
As
escravas se entreolham, sabendo da terrível desgraça. A idosa tenta mudar de
assunto.
-
Ouça, tente se acostumar. Se ignorar o que acontece ao seu corpo será mais
fácil de suportar. É inútil resistir.
- Do
que está falando? Eu preciso ver meu filho!
-
Eles não gostam de mulheres briguentas. Eles ficam muito agressivos com
mulheres que resistem demais. – complementa a idosa, lhe mostrando feridas e
cicatrizes.
-
Não interessa o que está me falando! Eu preciso ver meu filho agora!
Então
a grade é aberta, imediatamente as mulheres recuam contra a parede como se
fossem cachorros acuados. A juíza vê a multidão de homens no lado de fora encarando.
O líder a analisa de cima a baixo e então diz:
- Não
a matem.
O
líder dá as costas e em seguida os homens invadem a cela. Eles a agarram, a
derrubando no chão e então seguram seus braços e pernas. Enquanto ela grita de
desespero, os saqueadores arrancam suas roupas, deixando-a nua. A juíza tenta
lutar mas é inútil, os homens a facilmente a subjugam. Então eles a lambem,
mordem, beijam, arranham e batem, os tapas ardidos em seu rosto fazem seus
olhos lacrimejarem. Um a um os homens a estupram. Eles se revezam, avançando
sobre ela como animais selvagens devorando sua presa.
Ao
ver as outras mulheres atrás dela, a juíza chama por socorro mas elas apenas
observam, encolhidas no chão apavoradas, algumas com as mãos no rosto e nos
ouvidos, não querendo ver .
Exausta
de todas as forças, Susan desiste. Sua voz perde o som e seus gritos se
silenciam. Os homens vorazes fazem fila para a estuprarem, permanecendo no lado
de fora aguardando sua vez. A violência dura vários minutos, ficando a mercê
dos violentos saqueadores. Passada uma hora inteira, o estupro finalmente havia
terminado.
§
Agachado
em um cômodo vazio, o professor assiste o amanhecer cinzento do novo dia. Ele
se aproxima da janela e sente o vento frio roubar seu calor mais uma vez. O
professor não conseguiu dormir, a tensão e o medo atormentaram-no por causa do
que aconteceu na noite anterior.
Os
refugiados estão com medo, eles dormiram encolhidos um ao lado do outro. Alguns
cobertores foram deixados para trás e houve muito frio à noite. Além da
radiação que os faz adoecerem e caírem mortos, eles ainda têm de suportar o
infame inverno nuclear. A cada amanhecer ele vê cristais de gelo nas ruas e
pingos d’água formando estalactites nos telhados. Ao observar ele vê que os
cristais estão se espalhando e as estalactites estão crescendo, o professor
suspeita que está ficando cada dia mais frio.
O
médico se aproxima e espia pela janela. Ao ver se a rua está segura, ele então
diz:
- Timothy,
os refugiados estão nervosos. Se não fizermos algo o grupo se dispersará. Devemos
procurar pela juíza.
Com
muito pesar, o professor concorda. Harold tem sido um grande amigo, sempre o
apoiando em sua liderança, ajudando-o a tomar decisões difíceis e lutar pela
vida nessa nova luta pela sobrevivência.
-
Quem vem conosco?
O
médico ri. O professor entendeu a reação.
- O
que devemos levar? – pergunta Harold.
- Há
alguma coisa para levar?
Ponderando,
o médico responde:
-
Não.
Eles
ficam em silêncio por um instante e então o professor diz:
-
Ela roubou a minha lanterna!
O
médico duvida.
- Eu
não acredito.
-
Como pode alguém ser tão egoísta?
-
Acho que ela estava pensando no filho dela.
- E por
isso colocou em perigo a todos nós? Há mais mulheres e crianças aqui. Ela não
se importou que todos iriam pagar juntos pelo erro que ela cometeu?
Olhando
para o grupo escondido no interior da casa, o médico responde:
- Obviamente
não.
O
médico retira uma garrafa d´água de seu casaco e pede para ele beber escondido.
-
Obrigado.
- É
minha última garrafa.
O
professor retira uma faca de caça de sua cintura.
-
Você acha que isso vai ajudar?
Rindo
de sua própria ingenuidade, o médico responde:
-
Não. É claro que não.
Alguns
minutos depois os dois saem pelas ruas. Seus casacos balançam com o vento, eles
se esgueiram entre os destroços das casas e as árvores retorcidas. O vento frio
resseca seus rostos e a fina camada de gelo se estilhaça sob seus pés. A maior
parte de suas roupas foi roubada dos mortos, aqueles que morreram de doença ou
inanição. Não necessitando mais se aquecer, os dois os despiram e se vestiram
com suas roupas, aquecendo-se. Todos os cadáveres são vasculhados, na situação
em que se encontram qualquer ajuda é bem-vinda. O fantasma da fome e da sede os
assombra constantemente. Pensando por esse lado, eles não são tão diferentes
dos malditos saqueadores. Ambos lutam da maneira que podem para sobreviver.
A ideia do professor é manter o grupo unido e
sobreviverem juntos. Por alguma razão os refugiados criam contendas entre si e
tornam-se ingratos pela assistência mútua, desunindo-se quando deveriam se
unir. Assim como a juíza, que desobedeceu sua autoridade e furtou seu pertence,
os refugiados se rebelam, se dividem e passam a por em risco todo o grupo em
suas imprudências. Eles abominam a ideia de deixar a estúpida juíza para trás e
forçam o líder a procurá-la, mesmo quando eles mesmos não têm coragem para
isso. Mas ao mesmo tempo em que eles se rebelam e se desunem, os saqueadores se
unem e se fortalecem para caçá-los e sujeitá-los a todo tipo de crueldade
desumana.
O
professor promete a si mesmo que se ele não trouxer a juíza de volta ele vai
mandar todos os rebeldes do grupo para o inferno, e eles que vão para os braços
do diabo após partirem. Ele está cansado de tentar convencê-los de que neste
novo mundo não existe mais compaixão, e que agora eles pagam severamente pelas
consequências de seus erros. Ele sabe o que aconteceu com a juíza, não é
necessário adivinhar muito, não só ele como o grupo inteiro sabe o que acontece
quando uma mulher é capturada pelos saqueadores.
Atravessando
o entulho das casas e aproximando-se do fim da rua, eles veem a velha delegacia
de polícia. Os dois se lembram daquele prédio, nos fundos há a detenção com as
celas para os presos. Antigamente o prédio foi feito para confinar os
inadequados para viver em sociedade, mas hoje sua função foi invalidada, servindo
de abrigo para os criminosos.
O
professor e o médico sentem muito medo, eles estão muito próximos do risco real
de morte. Os saqueadores andam de um lado ao outro em frente à delegacia,
vestidos com suas armaduras de sucata. Escalando cuidadosamente o muro, eles
conseguem enxergar o pátio interno da área de detenção. A explosão das ogivas
nucleares devem ter destruído o paredão de confinamento, pois eles podem ver
claramente o que se passa na área das celas.
Há muita
agitação lá dentro, eles ouvem gritos de homens e de mulheres, há muita gente
concentrada na última cela. O professor pede para o médico acompanhá-lo,
aproximando-se da delegacia pelo quintal de outra casa. Eles se penduram no
outro muro e veem o que parece ser o antigo estacionamento, com carros
enferrujados e tombados de cabeça para baixo. No meio daquela área há um barril
metálico com brasas ainda acesas. Sobre o barril há uma grelha com alguns ossos
desencarnados, sendo uma espécie de churrasqueira improvisada ao ar livre. Os
saqueadores ao redor comem a carne assada no fogo, roendo os ossos e
conversando tranquilamente um com o outro. A fumaça que sai da churrasqueira é
negra e cheira muito mal.
Um
dos saqueadores acaba de roer um osso, tirando o máximo que pode da carne, e o
joga contra as casas ao redor. Coincidentemente é onde o professor e o médico
estão. Agachando-se para não serem vistos, eles averiguam o pedaço de osso e
estremecem em horror. É um braço infantil! Inclusive os ossos das mãos são
visíveis, carbonizados e roídos pelos dentes podres do criminoso lá embaixo.
Espiando mais uma vez, os dois veem as roupas da vítima jogada lá embaixo, são
roupas de criança com um manto sujo. O manto!
-
Não pode ser! – indaga-se o professor.
- O
filho da juíza estava usando aquele manto quando ela partiu... – começa a dizer
o médico – Será que é ele mesmo?!
Na
cela onde a juíza se encontra, bem longe do professor e do médico, ela acorda do
desmaio. Enquanto recupera as forças, ela vê que as quatro mulheres são estupradas
também. A idosa, aquela senhora de cabelos grisalhos e dentes faltando, olha
para o vazio como se estivesse em um transe enquanto um homem a violenta. “Eles
não poupam nem as idosas!”.
Susan
sente o gosto de sangue em sua boca, as agressões físicas que ela sofreu na
noite passada ainda doem. Seu olho esquerdo está inchado, alguém lhe agrediu
enquanto estava desmaiada. Seus braços e pernas tremem, ela tem ferimentos no
corpo todo. Ela sente nojo e chora ao se lembrar do que aconteceu.
Um homem
se aproxima, encarando-a com olhar perverso. A juíza se afasta, arrastando-se
pelada pelo chão da cela. A luz bate em seu rosto e o homem à sua frente se
intriga.
-
Ei, eu conheço você!
O
saqueador sorri, exibindo seus dentes amarelos. Ele fala aos demais homens
atrás dele, aqueles que aguardam sua vez. Eles também riem, aparentemente não
acreditando na incrível coincidência. O homem a encara novamente e continua:
-
Você é a Juíza Bradley, aquela que me sentenciou!
Ao
ouvir isso, toda a esperança em ser algo bom se desmorona e ela sente mais
horror.
- Eu
não sou quem está falando...
- É
sim! – interrompe ele – Graças a você eu vim parar aqui. Aguardei durante um
ano e meio pelo julgamento nesse buraco de ratos, até que te vi pela primeira
vez no tribunal. Você me declarou culpado e me sentenciou a dezoito anos de
reclusão no presídio estadual. Eu me lembro de tudo!
- Eu
não sou nenhuma juíza!
-
Eles me mandaram de volta pra cá depois do julgamento. Eu ia ser transferido no
outro mês quando a guerra começou. Graças à guerra nós fomos libertos, as
paredes e os muros caíram e nós escapamos. A delegacia estava abandonada, a
polícia não vinha há dias por causa da guerra. Eles nos deixaram aqui para
morrer.
-
Por favor...
-
Mas parece que não morremos... – e então ele ri.
Que
ironia, no novo mundo os papeis se inverteram. A juíza está presa e o bandido
está solto. A lei da qual ela lutou tanto para que fosse cumprida hoje são
meras palavras sem valor. Livros bem elaborados e de grande importância na
sociedade como o Código Penal e as Leis Trabalhistas não são mais do que papeis
para limpar o ânus.
A
juíza se joga aos seus pés e diz:
- Me
leve ao meu filho! Eu preciso ver meu filho!
Os
homens riem.
-
Você quer ver seu filho? Eu o vi ontem à noite. O chefe gostou muito de
conhecê-lo. – responde o homem, perversamente.
Arregalando
os olhos, ela avança contra ele, socando-o no peito e gritando:
- O
que vocês fizeram com ele?!
O
saqueador a arrasta pelos cabelos e a leva pelo pátio da detenção, exposta ao
frio da manhã completamente nua.
O
professor e o médico ainda observam o braço infantil quando ouvem um grito
agudo de mulher no estacionamento. Eles se penduram novamente no muro e espiam
lá embaixo. Uma mulher nua é arrastada pelos cabelos até a churrasqueira, há
muitos saqueadores ao redor dela e eles não conseguem ver com clareza. A mulher
grita incessantemente e chama por seu filho enquanto eles riem e caçoam dela.
Quando os homens se afastam um pouco, os dois conseguem identificá-la. É a
juíza!
O
chefe dos saqueadores aparece, aquele homem alto vestindo uma máscara de gás
como se fosse sua coroa de rei. A juíza o vê e ordena que ele a devolva seu
filho. Ele responde:
- Ainda
não é hora de ver seu filho, mas depois a deixarei procurar por ele nos
esgotos.
Susan
grita:
-
Você jogou meu filho nos esgotos?!
-
Não, nós ainda não o jogamos. Ainda vai
demorar umas oito horas...
O
chefe dá tapinhas em sua barriga e os saqueadores gargalham. O chefe aponta
para a churrasqueira e um dos homens retira um crânio do meio das brasas.
Em
pânico, Susan se desvencilha dos homens e corre em direção ao barril. Ela
segura o crânio e se descontrola, no fundo há um par de sapatos queimados, os
mesmos de seu filho. Um pouco mais afastado ela vê suas roupas e seu manto, o
mesmo que ela esteve lavando na noite anterior. Ela sente tontura, não pode ser
verdade.
O
chefe continua:
-
Gostei muito do seu filho, tinha um sabor excepcional. Meus amigos gostaram
também...
Ao
ouvir aquilo, a juíza se paralisa e deixa o crânio cair no chão. Em um súbito
ataque de ira, ela avança vociferando contra o chefe, até ser golpeada na nuca e
desmaiar aos seus pés.
Eles
a arrastam de volta à cela e a aglomeração se dispersa, deixando o
estacionamento vazio desta vez. O médico e o professor choram, agachados ao
lado do muro. Hoje eles aprenderam que a maldade do homem pode ir muito mais
longe do que pensaram. “Meu Deus” pensa o professor, “no que o mundo se
tornou?!”.
Aproveitando que os saqueadores entraram no
prédio, o professor desce ao estacionamento, se esgueira atrás dos carros e
apanha o manto do chão.
Os
dois então vão embora, caminhando em silêncio pelas ruínas da cidade destruída.
§
Os
refugiados estão na casa, discutindo como sempre o que devem fazer e para onde
devem ir. O professor e o médico retornam e os encontram provocando contendas
de novo. Enfurecido, o professor diz:
-
Vocês queriam que eu trouxesse a juíza de volta? Queriam que eu arriscasse
minha vida por ela depois dela arriscar as suas, a de suas mulheres e de seus
filhos? – ele pega o manto do menino debaixo de seu casaco e diz – Eis aqui o
que sobrou do filho dela! Assassinado e devorado depois de morrer! Se quiserem
resgatar a juíza fiquem à vontade! Ela está sendo estuprada por dezenas de
maníacos nesse momento. Mas não diga que eu não avisei se os seus filhos forem
estuprados e devorados também!
O
professor dá as costas e arruma suas coisas. O médico toma a palavra e diz:
- A
partir de agora quem quiser ir embora pode ir, ninguém mais vai convencê-los a
ficar. Mas quem ficar vai ter que ouvir e obedecer ao professor.
O
silêncio predomina no ambiente. O manto do menino gera repulsão nos refugiados,
eles o observam com tristeza e horror. A juíza teve um castigo além de qualquer
coisa imaginável.
Alguns
casais se levantam, pegam seus filhos e vão embora. Homens solitários também
saem, acreditando terem maiores chances se estiverem sozinhos. Aos poucos
muitas pessoas deixam a casa, vagando sem rumo pelas ruínas da cidade. “Tolos”
pensa o professor, “todos vocês são tolos”.
O
filósofo se aproxima do professor e inclina-se na janela, parando ao seu lado.
-
Palavras duras hein, Timothy?
- O
que quer, Joseph? Veio se despedir?
-
Não. - responde ele
-
Pode ir, se quiser. Não vou mais insistir em pessoas egoístas que não se
importam com a segurança do grupo.
O
filósofo pondera e então diz:
- Na
verdade, quero dizer que estou pronto para ficar ao seu lado e sobrevivermos
juntos.
O
professor olha para trás e vê que mais da metade se foram.
- Vejo
que as chances de sobrevivência caíram muito.
- Ora,
deixe os ignorantes irem embora. São como cegos conduzindo outros cegos,
animais que se deixam levar pela aparência.
- E
a aparência está boa ao meu lado? – pergunta ele, com amargura.
- O
que é mais válido: um líder que age prudentemente ou tolos que, ao primeiro
sinal, perseguem a miragem no meio do deserto?
O
professor se convence.
Em
seguida o médico e o restante do grupo aparecem atrás dele. Todos olham para
Timothy, esperando uma decisão.
- E agora? – pergunta Joseph – O que vamos
fazer?

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